A CONFERÊNCIA PAN-AMERICANA DE BUENOS AIRES

Oliveira Lima

A CONFERÊNCIA PAN-AMERICANA DE BUENOS AIRES

Traduzi há cerca de um ano para as colunas deste jornal um artigo sobre as relações entre os Estados Unidos e a América Latina, publicado pelo Times e firmado por um oficial da armada inglesa, não porque meu nome nele viesse citado com elogioso qualificativo, a propósito de um meu artigo sobre o mesmo assunto, aparecido na Deutsche Revue, mas porque o estudo do Comandante Hamilton Currey me pareceu "altamente instrutivo e profundamente significativo" do momento histórico que é o nosso.

Aliás, a circunstância do elogio não podia ser evidentemente desagradável, como o não foi o fato de haver sido reproduzido integral ou parcialmente cm muitos periódicos alemães, franceses, belgas, americanos e até russos e australianos o artigo em questão, que me valeu uma cômica excomunhão da Imprensa, para onde mudou por algum tempo sua sede o pontificado do patriotismo brasileiro. A abundância dessas transcrições, nenhuma delas com comentários hostis, antes com aplausos, prova que o artigo da Deutsche Revue traduzia um estado de opinião geral, ou pelo menos continha idéias que mereciam divulgação.

Encerra-se aliás a conferência pan-americana de Buenos Aires, última da série, sem se haver modificado sensivelmente a situação anterior à sua celebração, ainda que lhe corresse essa pouco favorável.

Os referidos ágapes da fraternidade das três Américas realizaram-se com efeito sob uma atmosfera opressiva de trovoada.

Pela primeira vez na história do pan-americanismo faltou deliberada e acintosamente ao festim um dos convivas: a Bolívia, que melindres e amuos conservaram, neste ano decorrido de uma tão gloriosa comemoração, à distância de um dos dois centros de onde irradiou, há um século, a libertação da América Espanhola.

Equador e Peru estavam ontem a ponto de trocar os primeiros tiros de mais uma luta fratricida, e a exacerbação ainda não acalmou, mau grado a tríplice intervenção oficiosa, que prevenir’ o rompimento armado.

* Publicada no Estado de São Paulo, 13 jun. 1909.

Chile e Peru, Peru e Colômbia continuam a olhar-se com desconfiança, melhor dito, com mal disfarçada hostilidade.

Na América Central não era de espantar a efervescência, sendo crônica a desordem: desta vez, porém, a coisa chegou a envolver os Estados Unidos e até a sacudir o torpor mexicano, fazendo-o subtrair-se à pressão do poderoso vizinho tão acostumado a afirmar sua preponderância, se bem que sabendo escutar e compreender a linguagem da altivez.

Finalmente, entre o Brasil c a Argentina reinava tal mal-estar, que se assistiu em Buenos Aires ao curioso mas pouco edificante espetáculo da delegação de uma das potências abster-se de comparecer ao banquete dado por um dos delegados da outra potência, tornando admissível o perguntar-se o que, se isso é fraternidade será inimizade?

Neste último ponto apenas a situação se apresenta assaz alterada após a conferência, sem que para tanto houvesse contribuído a reunião de Buenos Aires. A aproximação verificou-se entre a nossa chancelaria, felizmente inspirada nessa conjuntura, e o presidente eleito da nação Argentina, homem de vistas largas e de espírito superior, que não quis inaugurar seu governo sob semelhante impressão de mau agouro. O entusiasmo com que a população brasileira saudou esse acordo — que a tanto deve montar — prova exuberantemente quanto êle correspondia a um ideal coletivo, que intrigas individuais não poderão mais perturbar.

Os Estados Unidos apresentaram-se cm Buenos Aires invocando, na verdade, em instruções diplomáticas uma igualdade política que na prática todavia a cada passo recebe um desmentido; mas ao mesmo tempo tratando (fato virgem) abertamente, naqueles documentos, presidentes latino-americanos de "déspotas medievais". Os conhecimentos históricos de quem os redigiu, sentindo-se provavelmente mais à vontade na obscuridade da Meia Idade, compreende-se que remontasse tão longe sua alusão.

A novidade maior da conferência de Buenos Aires foi, porém, que nela se extremaram claramente os campos dentro do mundo latino-americano, formando de um lado os que arreganham os dentes para o "cacetão", e do outro os que o contemplam d’un coeur léger. Dias antes de abrir-se a reunião, publicavam jornais dos Estados Unidos que certo grupo de repúblicas irmãs, chefiado por Venezuela, tencionava chamar a contas no areópago de família, o mano tirano, o qual encontrava contudo defensores pressurosos entre esses mesmos parentes de adoção.

Agora estão dizendo os mesmos ou parecidos jornais que o chamado congresso boliviano — a saber, a reunião política em Caracas, para festejar o centenário da independência de Venezuela, de representantes das cinco repúblicas que a Bolívar deveram, no todo ou em máxima parte sua libertação, e que são Venezuela, Colômbia, Equador, Peru e Bolívia — é reconhecidamente anti-americano, sendo suas sessões secretas porque nelas se discutirão os meios de opor uma barreira insuperável às pretensões e ambições dos Estados Unidos.

Num artigo do último suplemento sul-americino do Times, que está sendo na Europa o órgão dos interesses e da propaganda da América Latina, escreve-se contudo com infinito bom senso que resta saber como eventualmente se cristalizará aquela hostilidade, a qual não é costume ir-se denunciando e proclamando de antemão quando se projeta torná-la efetiva.

Aliás, em vez de estreitar laços de família, provenientes de uma comum ascendência de origem c de formação moral, parece infelizmente que aquela conferência apenas tornará mais patentes os ciúmes que dividem as repúblicas em que se transformaram as antigas colônias. Por causa de fronteiras mal delimitadas, o Peru, o Equador e a Colômbia estão, como é sabido, agastados entre si, tendo chegado a haver recentemente um encontro entre forças peruanas e colombianas. Ora, havendo-se a Venezuela, na reunião de Caracas, enfileirado com o Equador e a Colômbia e até pensado as três em chamar ao seu grupo o Chile, inimigo do Peru e alheio à conferência, sente-se o Peru isolado, desconfiado e justamente melindrado.

O remédio para a situação de surda hostilidade ou, se preferirem, de arraigada desconfiança entre as duas Américas, não se encontra porém, no entender do mencionado escritor do Times, na soma de uma porção de nulidades: uma fraqueza adicionada que seja com outras não traduzirão força. Alianças belicosas ou gárrulas nestas condições de pouco servem c não lograrão absolutamente obstar a conquistas territoriais que se forem verificando necessárias à expansão e à segurança dos Estados Unidos.

O Presidente do Equador, General Alfaro, que um movimento revolucionário acaba de derrubar e que teve de se refugiar na legação do Chile, compreendera tão bem a fatalidade da gravitação política imposta pela gravitação geográfica c dada a relação recíproca dos astros desse sistema solar, que julgara de toda vantagem arrendar aos Estados Unidos por 99 anos o arquipélago das Galá-pagos. Pareceu-lhe incomparavelmente mais judicioso receber os 15 milhões de dólares do aluguel, os quais permitiriam ao Governo pagar mais de metade da dívida da República, a arriscar-se o país a ficar sem ilhas e sem dinheiro, conforme aconteceu à Colômbia no que diz respeito ao Panamá.

Não pensaram de igual modo os patrícios do General Alfaro, entre os quais se devem encontrar ressurreições atávicas do Quixote, que só não ficarão do mesmo modo imortalizados. Ao contrário, seguem o parecer do ditador destronado Guatemala, Honduras e Nicarágua, repúblicas cuja conquista se está realizando pela estrada de ferro e pelo banco — o mesmo processo de absorção que tão bons resultados deu na Mandchúria e na Coréia. A Centro América não faz menos caso do dinheiro, como o Equador. Como certos condenados à morte, prefere morrer de barriga cheia. É sabido que um, em França, antes de marchar para a guilhotina, reclamou ostras para o almoço. Era prato de que gostava extraordinariamente, mas que sempre lhe fazia mal ao estômago. Dessa vez, porém, não corria tal risco. Os banqueiros americanos e os políticos americanos, que os primeiros precedem, estão dispostos a dar à Guatemala, Honduras e Nicarágua quantas ostras estas quiserem. Dão-lhes ostras e ficam com as pérolas.

Os verdadeiros obstáculos a opor à conquista americana são os da nossa própria valia e do nosso próprio progresso. Porções há do Novo Mundo, como as Antilhas e a América Central, que parecem fatalmente destinadas a desaparecer num futuro mais ou menos próximo da vida autonômica. Outras, porém, existem cuja sorte é mais problemática, e algumas mesmo que com certeza escaparão a esse fado melancólico. Todas devem entretanto ter em mente a advertência final do mencionado escritor do Times:

É no desenvolvimento dos seus recursos naturais, no cumprimento estrito das obrigações internacionais, numa palavra, na persistente e harmônica manutenção da liberdade e da justiça como fundamentos da vida racional, que a América Latina encontrará salvação e segurança.

Brnxelas, agosto de 1911

Fonte: Oliveira Lima – Obra Seleta – Conselho Federal de Cultura, 1971.

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