A REVOLUÇÃO PORTUGUESA DE 1820 – D. João VI no Brasil – Oliveira Lima
D. João VI no Brasil – Oliveira Lima
CAPÍTULO XXVII
A REVOLUÇÃO PORTUGUESA DE 1820
O autor das Notas dominicais andou por Lisboa em 1816 e das suas observações, pontualmente exaradas cada semana, ressumbra uma vez mais que a questão do dia em Portugal era a situação de dependência do velho reino com relação ao novo. "As duas partes da monarquia — notava o francês872 — acham-se mais em situação de inimizade do que de fraternidade, e na verdade é bem difícil administrar dois países que quase não experimentam a necessidade mútua de uma aliança e que, pelo contrário, possuem interesses opostos."
Para Portugal a questão era principalmente de amor-próprio, antes mesmo de conveniência. O antigo reino sentia-se completamente abandonado: decaído dos seus foros tradicionais, sem mais uma política sua, quase reduzido a não constituir sequer uma expressão geográfica européia, pois se acreditava geralmente873 que Dom João VI deliberara não regressar mais e nutria a intenção de, depois de esgotar Portugal, já tão depauperado em homens e em dinheiro, trocá-lo por uma das possessões espanholas da América, convertendo-se a dinastia bragantina numa realeza exclusivamente americana.874
O termômetro das esperanças regulava pelos trabalhos do palácio da Ajuda: segundo se aceleravam ou estacionavam, tinham-se a volta por próxima ou indefinida,875 e todos a desejavam, exceção talvez feita de certa classe de proprietários que temiam novos impostos, portanto um acréscimo de encargos, com a presença da corte numa capital arruinada, não só empobrecida.
Para o exército e o povo, aí se tratava de vaidade, diga-se mesmo de pundonor; de interesse local para os lojistas e de interesse geral para os armadores e vinhateiros, que estes sonhavam com o restabelecimento do monopólio mercantil brasileiro. Devesse muito embora a abolição do exclusivo comércio náutico dos portugueses trazer como resultado, segundo pensavam alguns economistas da terra, desviar os capitais e os braços para a agricultura e as manufaturas, suscetíveis de grande desenvolvimento. Não significava isto menos que um manancial farto e fácil de lucros havia sido estancado numa ocasião, para mais, em que tudo se conspirara contra a riqueza nacional, até a recrudescência das piratarias argelinas e o aparecimento dos corsários platinos, acabando de esfacelar o comprometido tráfico marítimo.
Portugal expiava só as veleidades imperialistas do Brasil, e as compensações que do Rio lhe vinham chegavam a parecer escárnio. Não se lembrara el-rei, em testemunho da benevolência à terra do seu nascimento, de ordenar que nas vestimentas dos seus criados e nos uniformes das tropas de terra e mar somente se empregassem produtos das fábricas portuguesas?876 Entretanto abrira o mercado brasileiro, quer dizer que o entregara à exportação inglesa, e quando lhe falavam no remédio essencial aos males da ex-metrópole, nesse regresso que até lhe curaria as linfatites, fazia ouvidos de mercador. Não carecia de atravessar o oceano para ter ar do mar: bastava-lhe a ilha do Governador, que de uma caravela até tinha a forma esguia. Das janelas do convento só se enxergavam as águas da baía, salpicadas de terras que lhes quebravam a monotonia, e era tão gostoso o peixe de mar servido no refeitório…
Insubordinação por insubordinação, já que tanto se especulava com a de Pernambuco para o dissuadir de ficar, também em Portugal se cogitava revoluções, conforme andava informado, e muito pior seria qualquer movimento numa terra esfomeada do que numa terra abastada. E era fato que avisos de prevenção tinham subido até o gabinete real, desacreditando a fidelidade portuguesa.
Depois, como de bom grado renunciar a uma posição preponderante como a que Dom João VI na verdade ocupava e mais ainda imaginava ocupar na América? Maler não se enganava quando escrevia877 que o ga binete do Rio, fascinado talvez pelos hábeis artifícios de Barca, parecia mais interessado no papel que se desvanecia de estar desempenhando no Novo Mundo, do que disposto a retomar seu lugar entre as potências do Velho. "Em tempo ouvi a este respeito as coisas mais espantosas da boca do falecido Bezerra. Este coitado, todo entrevado, não trepidava em en contrar um novo Frederico Magno e 40.000 homens de guerra no Brasil com a mesma facilidade com que o Sr. conde dos Arcos encontrou depois na Bahia um exército de Cipiões."878
O afastamento do rei afigurava-se com boa razão a Portugal a causa capital dos seus infortúnios, que mais acerbos se tornavam cada dia. À situação crítica e inquietadora, classe alguma da sociedade escapava. Os negócios apodreciam e a corte, quer dizer o soberano, notoriamente afei-çoado à sua ex-colônia, acumulava as medidas nocivas aos interesses lusitanos e acirrava, os ciúmes já azedos, colocando o exército português em pé de guerra por amor ao Brasil, restabelecendo por três anos a contribuição de guerra, a saber o quinto sobre todos os rendimentos e em todas as cidades, por causa do Brasil, dispondo sucessivos embarques de forças armadas e equipadas para serviço no Brasil ou serviço do Brasil.879
Em 1817 tinham seguido 6.000 homens mais para a campanha do Sul e logo se pediram mais 4.000, quando, ao tratar-se de ida para a América, era necessário proceder a uma escolha individual porque nenhum soldado se deixava convencer de alistar-se voluntariamente, correspondendo sempre ao convite, cedo transformado em intimativa, um aumento nas deserções. Fora por isso mister recorrer ao recrutamento forçado nas vilas e campos, a princípio discreto para não excitar reclamações demasiado vivas, logo executado com gana, tendo sido revogadas as isenções concedidas por privilégios particulares. Ainda assim, de modo algum se puderam arranjar os 4.000 soldados: apenas foram, a 14 de agosto, 2.900 homens de infantaria e um destacamento de engenharia.
Para o tesouro todas essas despesas — expedição a Liorne para buscar a princesa, bloqueio de Pernambuco, guerra de Montevidéu — eram umas tantas sangrias dadas a um anêmico de último grau, que só à força de expedientes se mantinha de pé. Para o empréstimo de quatro milhões de cruzados a que em 1817 houve que recorrer com urgência, só se encontraram subscritores para milhão e meio, apesar do juro razoável de 6%, de uma taxa especial de garantia do seu serviço — 15% sobre gêneros salgados, queijos e manteiga de importação — e das instâncias da regência junto aos principais negociantes e capitalistas de Lisboa. A operação ultimou-se porque a regência distribuiu à força o restante do empréstimo por aqueles mesmos tomadores, que se consolaram da violência com a idéia de que o dinheiro serviria também para se armarem fragatas destinadas a proteger o comércio português contra os corsários de Artigas.
Em 1819 recusou porém a regência muito respeitosamente obtemperar outro pedido real, de mais 5.000 homens, parecendo-lhe impossível recrutar mais gente para um serviço que a todos repugnava e quando no país, constantemente sob a ameaça da Espanha, se reduzia o efetivo armado ao estrito necessário.
Em dinheiro não havia mais que pensar; o que sobrava de negociantes ricos da capital transferia seus fundos para França, para livrarem-se de novas exigências, e até falavam em mudança para lá,880 agravando com esse boato de trasladação — depois dos fidalgos, os mercadores — a acri-mônia popular. O povo, ainda que pobre, sente como se sua fosse a emigração da fortuna. Já parecia demais.
Soldados que iam para o Brasil, lá ficavam como colonos, se escapavam dos combates; navio que para lá fosse, também ficava para guardar e alargar o domínio pelo qual se perdera de amores o monarca fidelíssi-mo, cujo proceder para com Portugal, escrevia de Lisboa Lesseps,881 provava cada vez mais que lhe importava pouco seus destinos e que somente buscava utilizar todos os seus recursos para dilatar os estados reais na América. Na realidade qualquer movimento português tinha que ser um movimento separatista e justificado pelo brasileirismo, de sentimentos e de interesses, da corte de Dom João VI.
Quando um dia — tão patente se fazia a tendência—Maler quisera carregar a fundo sobre Barca a propósito da expedição do rio da Prata e aventara como uma conseqüência provável e funesta da política do gabinete do Rio — leur avant-poste — foi-lhe friamente respondido que o governo se achava preparado para tal eventualidade, que se não assustava com ela e que de coração leve renunciaria à Europa, ficando de todo americano}*2
Tão deliberado parecia o
propósito de despovoar de defensores e reduzir à miséria extrema os antigos estados da monarquia,
em vez de acudir-lhes
o soberano com sua presença, que chegou a correr a ter-se por verdadeiro o boato de haver Dom João VI
feito apelo à
nobreza, autorizando-a a alienar seus morgadios
europeus e transferir-lhes o produto para o Brasil. Já os rendimentos da Real Casa e das casas
nobres passavam regularmente além-mar e lá se consumiam,
indiferente o rei às representações da regência e às súplicas dos negociantes para se
estabelecerem em Lisboa um porto franco e um entreposto com os favores indispensáveis à navegação e comércio
O agastamento assumira até a forma de cartas anônimas dirigidas ao Juiz do povo, em que se lhe declarava, em nome da população, que esta não sancionava disposições tão vexatórias e tão adversas ao bem-estar do reino e se oporia a elas com toda a veemência do desespero.883 Vista a esta luz, a conspiração de Gomes Freire fora uma manifestação não só antíestrangeira ou patriota como antidinástica ou democrática. A opinião corrente era hostil ao rei, protestando-se às claras que o receberia mal o país, que era seu mas que ele tratara como inimigo, caso a junção do governo rebelde de Buenos Aires com Artigas desse em resultado a invasão do Brasil e uma nova fuga da corte, desta vez para Lisboa.
As incertezas do momento traduziam-se nos boatos mais desencontrados: ora que a regência ia por sua própria autoridade e iniciativa destituir Beresford e avocar as responsabilidades do mando, ora que ia pelo contrário resignar seus poderes nas mãos do que se poderia então com plena justiça denominar procônsul britânico. Na frase expressiva de Lesseps,884 a força da inércia e o risco da destruição eram os únicos eixos que se movia esse desgraçado pequeno estado.
Em certos meios já se ia até o extremo de despedir toda suscetibilidade de independência e encarar sem relutância a união ibérica, de ordinário tão antipática. Parecia mais digno este casamento de conveniência entre dois povos rivais, pondo cobro a uma tensão sete vezes secular, do que o prolongamento da subalternação ao Brasil. No fundo, a impedir qualquer reconciliação de interesses, senão de afetos, sobre a base da segunda fórmula, jazia insistente e irritante o problema do monopólio.
A idéia ou mesmo proposta de restabelecê-lo indiretamente, fazendo os gêneros brasileiros pagarem à saída, para qualquer país que não fosse Portugal, um direito especial igual ao que os tributaria se como antigamente tivesse Lisboa por escala, não tivera aceitação.885 Seria restituir ao Tejo a perdida primazia, mas às custas da colônia elevada a reino.
Tornava-se preciso vingar a revolução liberal para que se pensasse a sério na reconstrução do derrubado edifício econômico, invocando-se o princípio de que num governo representativo a colônia não pode ser livremente tratada ou se não acha exclusivamente à mercê do soberano, constituindo propriedade comum da nação, sobre a qual exerce esta direitos e possui voz ativa: mais ainda, pois, como era o caso, as cortes personificavam elas sós a soberania nacional.
Seria injusto calar, a par dos agravos de Portugal, a dificuldade da tarefa cabida a Dom João VI. Tollenare sem hesitar lhe reconhecia tal caráter, afigurando-se-lhe bem complicado ser a um tempo rei de Portugal e rei do Brasil e proceder paternalmente para com dois povos com desígnios tão antagônicos, um deles só podendo viver de monopólio, o outro só respirando com sua supressão. Uma vez conhecido o Brasil, mais se lhe radicou então esta impressão.
Entre as notas tomadas na Bahia, encontra-se a seguinte: "Das dificuldades que oferece o belo tema da prosperidade possível do Brasil, uma há que sempre me feriu vivamente, a da combinação de tal prosperidade com a do Reino Unido de Portugal. Todas as fórmulas que dizem respeito a semelhante harmonia aparecem-me numa confusão tão grande, que me sinto invariavelmente sucumbir diante do esforço preciso para deslindar a verdadeira, quando disso cogito. Existem sem dúvida princípios que devem servir a levantar o edifício da união: quereria possuir talento e lazer bastante para pesquisá-los; mas renuncio a tanto, pelo menos por enquanto."886 Ao voltar ao assunto, já encontraria o francês a solução do seu problema prejudicada pela separação.
Num ponto só se ajustavam os sentimentos coletivos dos dois povos, o português e o brasileiro: na antipatia à Inglaterra. Os portugueses rangiam os dentes por ver um general inglês ocupando de fato o lugar do soberano legítimo, que a regência só nominalmente representava. Para os brasileiros constituía a Inglaterra o óbice maior à continuação do tráfico negreiro, que interessava quase toda a gente e que quase toda a gente — raríssimas eram as exceções — desejava cordialmente ver prolongar-se.
"É como se fosse sua última tábua de salvação — escrevia um sagaz viajante.887 — Prima qualquer outra consideração. Portugal e Espanha, Inglaterra e França, Wellington, Bonaparte e o príncipe, pode tudo ir parar nas profundas, contanto que se não toque no querido tráfico, objeto dos seus devaneios na vigília e dos seus sonhos no sono. Argumento algum tem poder para romper esta ligação, excetuando o da força, que é sempre uma medida áspera e porventura pouco justificável, considerado o ciúme alimentado da nossa influência nos conselhos nacionais, a qual todos, estadistas e mercadores, eclesiásticos e soldados, anelam por ver diminuída. Nossa popularidade está na verdade suspensa apenas de um tênue fio, porque a peculiar união comercial com a Grã-Bretanha tem sido apodada de tão prejudicial por alguns dos publicistas da terra que, se o governo fosse de índole mais popular, sem dúvida de há muito ela se acharia dissolvida."
Da Inglaterra provinha justamente o mais forte empenho para que se não desatasse o laço que unia Portugal ao Brasil. Nas suas reflexões diplomáticas888 dizia o marquês de Saint-Simon ser evidente que uma monarquia com um oceano de permeio entre as suas metades, se achava virtualmente entregue a prepotência da Grã-Bretanha, a qual dominava suas comunicações. Por isto instava tanto o gabinete de Londres, para que se não desligasse Portugal do consórcio, pelo regresso da corte. Que futuro independente teria, porém o velho reino, esgotado, divorciado da sua di nastia nacional? A Espanha nem tempo lhe daria para qualquer tentativa. Ainda o Brasil tinha por si um desenvolvimento que cada ano mais se acentuava, e melhor base se não poderia.oferecer a uma forma autônoma de governo.
O embaixador em perspectiva de Luiz XVIII pensava que à França pelo contrário, já que não visava a dominar politicamente, mais conviria a desagregação do Reino Unido, pois assim se lhe antojova no Brasil o ensejo de conquistar uma posição econômica ao mesmo tempo que se lhe abria em Portugal a oportunidade de recobrar, em benefício mercantil, a influência de antes do tratado de Methuen, que já fora ditado sobretudo pela preocupação portuguesa de proteger as possessões transatlânticas.
Por meio de uma aliança com a corte de Lisboa, lograria além do mais a de Paris pesar sobre a Espanha e recuperar os meios de ação que, segundo Saint-Simon, "a situação atual torna mais necessários". Menos de quatro anos depois a França intervinha com efeito além dos Pirineus, colhendo o duque d’Angoulême os fáceis louros do Trocadero.
França e Inglaterra concordavam no entanto em considerar infensa aos seus interesses a união ibérica, que a ambas reduziria de metade as possíveis vantagens políticas e comerciais. Em Portugal era esta também a solução temida pelo maior número e que o rancor nacional atribuía igualmente ao Brasil, pois mercê da Banda Oriental fora que chegara a concentrar-se na fronteira um exército espanhol contra o qual o velho reino, para garantir a sua autonomia, só enxergava armas, desproporcionadas na quantidade, mas talvez superiores na qualidade, no valor disciplinado do seu exército reduzido e no desespero patriótico da sua população.
A Espanha tinha contudo um objetivo mais remoto e menos singelo do que a anexação portuguesa, a qual seria um alimento demasiado forte em seu estado de debilidade. A idéia do seu governo era sem dúvida em primeiro lugar robustecer as reclamações feitas no Rio sobre a ocupação do território platino, mas não era menos levar a regência portuguesa a reter na Europa algumas, quando não muitas das tropas que poderiam ir reforçar o exército em operações na futura Cisplatina.
Entre os liberais espanhóis, naquele momento subjugados mas sempre alerta e conspirando, o ideal ibérico era o da associação voluntária. Se intrigavam em Lisboa, era para que aí se compreendesse a utilidade de resistirem juntos os dois países aos muitos que combatiam os novos princípios. Uma vez de posse da administração os liberais, no ano mesmo de 1820, a conveniência era grande de evitar que na capital do reino vizinho, continuando apegada às velhas instituições, se fundasse um centro de reação contra o regime constitucional, quase republicano, de Cadiz.
Eis porque foram conspícuas nessa ocasião as enzonas urdidas pelo encarregado de negócios Pando, devendo-se-lhes em boa parte atribuir a revolução portuguesa de agosto.889 A federação ibérica é de resto uma miragem política que surge sempre distinta ao vingarem na Espanha preferências ultra-liberais e de outro lado avolumar-se em Portugal o movimento democrático. Moralmente é quase uma crise do instinto de conservação, pois que com essa miragem é infalivelmente concomitante o afastamento nas duas nações da influência inglesa, de ordinário ativa na Península e preponderante em Portugal.
A par do surdo trabalho espanhol de solidariedade liberal, crescia a olhos vistos a rivalidade entre as duas seções da monarquia de Dom João VI. A correspondência de Lesseps acusa em Portugal uma tendência progressiva para a impaciência e o desassossego. Já os soldados destinados ao Brasil recusavam embarcar sem que lhes fosse pago o soldo devido de meses, e a indisciplina dos militares animava a exacerbação dos civis. Crescia entre eles a audácia. Nas esquinas apareciam pregados cartazes sediciosos e ameaçadores, que denunciavam claros intentos subversivos.
Beresford, que era quiçá o único com caráter e firmeza para conter a rebelião, se pudesse ter completa liberdade de ação, e que na previsão dos acontecimentos bem próximos, tinha em vão urgido a regência a fornecer ao governo de Fernando Vil os 6.000 homens pedidos para ajudá-lo a debelar a revolução de março, dispôs-se a partir de novo para o Rio.890 Não só podia levar à paciência que o soldo de suas tropas andasse tão indecorosa mente atrasado, como, movido talvez pelo governo britânico, quis expor pessoalmente ao rei a situação angustiosa e decidi-lo a vir impedir o estalar de uma insurreição.891 Ausente o marechal — que em qualquer caso estava prestes a retirar-se, pois já fora nomeado governador em Jersey — desaparecia a garantia máxima da disciplina portuguesa.
No Brasil ia Beresford descobrir uma corrente parecida de discórdia Havia mais de dois anos que Maler anunciava para Paris892 que uma marcada antipatia se manifestava a cada passo entre os batalhões brasileiros de regresso da expedição de Pernambuco e os regimentos portugueses chegados com o marquês de Angeja, e que tinha ficado de guarnição à captai. Não tendo o duelo entrado nos hábitos luso-brasileiros, as rixas tomavam a forma freqüente do assassinato e a forma diária do espancamento ambas muito ao sabor da tradição nacional.
Começaram os superiores por tomar meias medidas, discursando às tropas, apelando para sua cordura, publicando sentenciosas ordens do dia Como nada disto fosse bastante e o mal continuasse e até se agravasse o governador comandante das armas, na impossibilidade de arredar permanentemente os combatentes, tomou a resolução extrema de mandar apoderar-se e queimar os porretes, instrumentos das agressões, sacudindo-se suas cinzas no mar.893
O mais inteligente historiador do Brasil894 atribui pela maior parte os atritos à basófia portuguesa, do seu renome militar e da sua ciência profissional, com a qual mal se acomodavam a inexperiência e as desconfianças brasileiras. Os oficiais do velho reino desdenhavam dos do novo, negando-lhes foros de camaradas, e o general Vicente Arbués de Oliveira insistia até de contínuo na corte para que o acesso aos brasileiros só fosse concedido até o posto de capitão, sendo todos os lugares do estado-maior ocupados por portugueses natos. As coisas chegaram a ponto de haver que adiar indefinidamente as manobras para se acometerem de verdade e com vontade heróis de Talavera e heróis de Pernambuco, para não brigarem pés de chumbo e pés de cabra.895
As idéias liberais estimulavam
instintivamente os sentimentos nati-vistas, que tinham por força que acabar pela separação dos dois reinos, mas eram sem comparação muito
menos hostis à realeza no Brasil do que
Verdade é que para tal resultado político no velho reino contribuiria mais do que a corrente idealista que agitava a Europa em ânsias de reforma, o despeito, o ódio mesmo da colônia emancipada. A subseqüente popularidade de Dom Miguel prova como o velho reino era apegado ao seu tradicional regime político, de que o pretendia libertar uma minoria ínfima de ideólogos. Após três quartos de século de constitucionalismo, ainda se não tornou Dom Pedro popular em Portugal: em vida, então, foi alvo de um concentrado rancor que explodia até depois de instalado o governo liberal.
Mais acessível estava o Brasil por todas as circunstâncias, às blandícias do credo novo. Grande ressentimento produzia entre os brasileiros a situação privilegiada de que viam no seu meio gozarem os portugueses, senhores do comércio, apesar de franqueado, por uma norma arraigada e por uma disposição ao trabalho mais forte em emigrantes do que nos da terra, e senhores sobretudo dos serviços públicos que constituíam uma inclinação hereditária, robustecida pela presença da corte com sua larga e ociosa burocracia.
Ameaçados ou pelo menos invejados, os portugueses cerravam fileiras, defendiam suas posições, e o bando dos assaltantes tinha de recuar, falando com ira em preterição oficial e em direitos patrióticos aos lucros e às dignidades. Já era ousadia, a desses reinóis, de virem ao Brasil tomar desforra do que lhes arrebatara com tanta justiça a trasladação da corte, seguida da elevação do Brasil a reino… Os proventos e os cargos deviam doravante ser reservados aos filhos da terra, ou a graça concedida ficava sem significação, tornava-se irrisória.
Assim raciocinavam os pretendentes, que eram legião, e suas ambições ecoavam num ambiente simpático, porque o interesse era de todos. Nas províncias — Handelmann o recorda com justeza — agravavam-se estes sentimentos de cru nativismo com outro, que era o de bairrismo ou orgulho local ferido pelas vantagens colhidas pelo Rio de Janeiro, que as capitanias estavam tão pouco acostumadas a considerar capital do estado do Brasil, quanto aquela mesma cidade a julgar-se corte, ao que a erguera sua nova posição. Algumas das províncias preferiam ainda assim ser sua terra colônia portuguesa a ser colônia fluminense.
A esta impressão obedeceria aliás Dom João VI, quando, na impossibilidade de permanecer ele próprio a tentar fazer frente ao furacão liberal, desencadeado no Brasil, com suas meias medidas benévolas e astutas, decidiu que o filho ficasse para se arvorar em centro de agitação e unificar as veleidades dispersivas de independência, respingando os benefícios da separação e implantando a coroa imperial onde sem ele teria brotado o barrete frígio. A intuição do rei foi profunda e não lhe cabe dúvida, pois que consta da correspondência ulterior entre pai e filho, gradualmente apresentada às cortes instaladas em Lisboa pela revolução vitoriosa de agosto-setembro de 1820.
Dom João disse ao coronel Maler que as notícias que de Lisboa lhe trouxera Beresford tinham sido para ele uma cruz, mas não se revolveu a regressar, que era o que em Portugal se esperava resultasse da nova viagem do marechal ao Rio. O rei hesitava, usava de subterfúgios e ensaiava um diversão — "três possible d’après le caractère da Sa Majesté", comentava Maler para Paris — ao objeto da missão acordada com a regência, incumbindo provisoriamente o enviado de inspecionar e reorganizar o exército brasileiro, e os estabelecimentos militares tais como hospitais e armazéns
Para Portugal mandava-se entretanto algum dinheiro, a fim de ir saldando os atrasados do exército português, e cogitava-se de uma carta regia abrindo no Brasil mais fácil e vantajoso mercado aos produtos agríco las e industriais de Portugal com isentar-se de todas as taxas as fazendas de própria manufatura e sobrecarregar de imposto os vinhos estrangeiros.897
A situação tornara-se porém grave. A revolução de Cadiz propagara-se moralmente; a agitação nas províncias era ainda maior do que em Lisboa; a solução Cadaval apresentava-se francamente, não parecendo repug-nar à duquesa mãe o papel de Luiza de Guzmán, e da Espanha mais e mais se atíçava, por meios ostensivos e secretos, a rebelião, constitucional, muito embora, porque ela própria continuara sendo uma monarquia, posto que ultraliberal.
Beresford — ele mesmo o declarou a Maler898 — viera lealmente prevenir Dom João VI de tudo isso e por debaixo dos seus olhos o quadro exato dos sofrimentos e queixumes portugueses, no intuito de que o rei lhes valesse, começando por livrar da decadência e do abandono a lavoura e o comércio do velho reino. Se ao monarca contrariava tanto a volta, que mandasse em seu lugar o príncipe real: a salvação podia efetuar-se sem essa condição, mas o penhor seria precioso das boas intenções do soberano.
Esta última reflexão foi quando Beresford manifestou ao encarregado de negócios de França, calando que se ocupava de promover a realização do alvitre. Nem Maler lhe perguntou por mais porque, na sua frase, "le marechal h’est pas un homme à questionner, il faut se contenter de ce qu’il veut vous dire".
Dom João VI negou-se a deixar partir Dom Pedro, se bem que fosse conselho instante de Wellington — e nenhuma opinião mais autorizada, ou que maiores probalidades tivesse de ser executada — que o marechal devia volver sem demora a Lisboa a fim de parar os golpes de uma revolução que já era inevitável, seguindo-o, porém, de perto o herdeiro da coroa.899 Beresford foi o único a partir no Vengeur, um dos navios da divisão do comodoro sir Thomas Hardy, mas para encontrar consumado o movimento.
Soubera-se em Portugal que o marechal era portador do resto da dívida às tropas e a informação fez apressar o levante, pois receavam seus promotores que, pelo princípio de cessada a causa, cessar o efeito, o pagamento acalmasse a efervescência entre os soldados e apagasse o descontentamento. A Junta liberal nem permitiu ao marechal desembarcar. Na barra mudou de embarcação e singrou para Inglaterra no Arabela, deixando porventura uma única pessoa saudosa entre tantas que lhe faziam a corte — "la trés jolie et fringante épouse" de um funcionário português, da qual era Beresford notoriamente amante.900
As doações e dignidades conferidas pelo monarca ao comandante estrangeiro do exército nacional, e bem assim as graças e honradas dispensadas aos seus partidários, de quem como era natural se ocupara exclusivamente o marechal, mais tinham acirrado os ódios no meio indisciplinado e apaixonado do reino em rebelião.
Dom João VI ficara contudo crente de que a presença de Beresford, provido de bom metal sonante, conciliaria a agitação, de que lhe tinham chegado as primeiras e inequívocas novas, a 17 de outubro, por um brigue de guerra português, cujas comunicações com a cidade foram imediatamente vedadas. Tão esperançado andava o rei, que se não afligiu nem deu mostras de maior inquietação. Da ilha do Governador, onde se achava e onde lhe foram parar os despachos, veio no dia seguinte para São Cristóvão, nada comunicando do ocorrido à família e guardando segredo para a própria gente de sua privança. As notícias espalhavam-se entretanto na capital graças à correspondência trazida pelo navio de guerra britânico La créole, entrado na tardinha de 18.
Em contradição com sua índole moderada e clemente, o rei tinha aversão aos regimes liberais. Neste ponto, como observava Maler, deixava de raciocinar com seu bom senso do costume. A expressão — constitucional — soava odiosamente aos seus ouvidos, talvez porque "imbuído de certos princípios, quiçá fortalecido pela sua consciência",901 não formava sequer idéia clara e precisa de uma monarquia que não fosse a absoluta, em cujas máximas fora educado.
Maler conta que mais de uma vez tentara, desde 1815, inspirar-lhe idéias menos desfavoráveis com relação à participação da nação no governo, expondo com jeito e cautela as noções preliminares da essência e modalidades de um regime pelo qual se estava dirigindo a França; mas que Dom João VI, o qual sempre o escutava com extrema bondade, repelia logo qualquer insinuação desse gênero, pelo que com muito pesar e só com o receio de tornar-se importuno, cessara havia muito o agente diplomático de discorrer sobre essas verdades políticas.
Acontecia agora que chegava a ocasião decisiva sem que pudesse ser aproveitada pelos dois elementos que, longe de se harmonizarem, se opunham irreconciliáveis. O soberano — descortinava Maler perfeitamente — sem um conselho d’estado ao qual recorrer, privado de qualquer entidade intermediária que lhe fosse dado consultar, só se decidiria na última extremidade a dotar Portugal de favores que lhe pareceriam enormes, na realidade paliativos que à distância e nas circunstâncias dominantes produziriam antes mal do que bem: sem esquecer que uma sedição portuguesa daria o sinal de uma perturbação perigosa no Brasil.
"Pessoas as mais distintas por sua categoria, e cargos afirmam-me que nas províncias do norte, principalmente, existe um fermento de descontentamento e mal-estar que é para temer-se; ouvi este desabafo melancólico a grandes da corte, oficiais generais e altos magistrados; numa palavra todas as pessoas cujas opiniões são de valor, acham-se transidas de susto e julgam-se numa crise pavorosa."902
Dom João VI era o único otimista, e do gênero voluntário, que é o mais difícil de se deixar abalar. Bastava ouvi-lo exclamar com alegria ao representante da França, quando se soube que o rei da Prússia se negava a outorgar uma constituição ao seu povo: "Les journaux et les amateurs de changemens diront ce qu’il leur plaira, mes nouvelles de Berlin sont positives et les choses vont três bien."903
Para ganhar tempo, e também porque no fundo percebia que a questão entrara numa fase séria, ainda que esperançoso do desfecho pela ação de Beresford — apelo ao vigor alheio próprio de um temperamento pusilânime — o rei pediu por escrito a opinião de várias pessoas: fora os dois ministros, onze, no número dois fidalgos da sua casa, quatro magistrados, o bispo e o intendente de polícia.
A sua finura como que se extraviara, e a sua prudência tanto se desaprumara com o balanço, que degenerava nessa emergência na mais im profícua vacilação. Não se preparara bastante para o golpe, a que fechara intencionalmente os olhos; o seu espírito não quisera encarar assaz a conjuntura de uma desunião da sua monarquia pela corrosão demagógica, como noutros tempos encarara a partida para o Brasil, a que prontamente se acostumara, também porque lhe era simpática a hipótese. Agora perdia dias em lamentar-se, condenar a ingratidão dos que tinham desnorteado o povo português. De fato procedia como um nulo quem tinha perspicácia para traçar sua rota, quem levara as coisas do rio da Prata até o desenlace da incorporação da Cisplatina, com a legalização da qual ia rematar seu reinado americano. Desta vez, porém, Maler notava com acerto que Dom João "experimentava uma sensação penosa e uma certa relutância a examinar a questão na sua verdadeira luz".
Força lhe era entretanto acudir ao assunto. Dos pareceres pedidos — treze ao todo — oito opinavam pela partida do príncipe real, solução que agradava mediocramente a Dom João VI, posto lhe não desagradasse tanto quanto a do seu próprio regresso. Imaginou porém arcar sozinho com a tempestade. O brigue Providência, que a regência lhe despachara, devia singrar de volta a 29 de outubro.904 O rei na véspera encerrou-se na sua câmara, sem ouvir qualquer dos conselheiros habituais, nem mesmo Thomaz Antônio, e redigiu sua resposta às comunicações de Lisboa, mandando-a para bordo alta noite por pessoa da sua confiança e velejando a embarcação pela madrugada.905
Só se sabia então no Rio do levante do Porto, estendendo-se a algumas localidades do Minho. A gangrena não parecia ainda geral. Dom João declarara, com sua natural clemência, conceder anistia geral aos revolto-sos e, com sua não menos natural argúcia, autorizar as cortes convocadas pela anuência dos ex-governadores do reino, sem contudo esconder sua surpresa de tal convocação, incompetente sem o concurso da sua real grandeza.
Julgando poder conter e dirigir o movimento — ilusão comum nos governantes, que se repete em cada crise constitucional — ordenava que, terminadas as sessões da assembléia, lhe fossem apresentadas as queixas da nação, para que as remediasse, e as propostas formuladas, para que as sancionasse a coroa. Depois partiria ele, ou um dos seus augustos filhos, a aplicar as resoluções adotadas, com a condição todavia que pelas notícias subseqüentes o soberano adquirisse previamente a certeza de que semelhante deliberação não exporia a perigos a dignidade real.
A prevenção era prudente, pois acontecia que no Rio mesmo essa dignidade se estava desprestigiando com uma rapidez quase fulminante. Conta Maler906 que a população, de respeitosa que era da realeza por natureza e por hábito, se tornara insolente e turbulenta desde que se inteirara dos primeiros acontecimentos de Portugal. Choviam sarcasmos e borbulha-vam pasquins ridicularizando a confiança manifestada pelo rei no restabelecimento da ordem e das formas.
Manifestada, melhor se diria aparentada. O silêncio real, observado para com o próprio príncipe Dom Pedro, denunciava vacilação mais do que astúcia. Na incerteza das coisas, Dom João refugiava-se na inação, fiava-se na providência e achava ganho nas demoras. Quando a 12 de novembro o alcançaram, com uma travessia de 44 dias, no brique de guerra Infante Dom Sebastião, as novas do sucedido em Lisboa, ficou porém sucumbido. A fatalidade podia mais do que o fatalismo. Maler participava ao seu chefe em Paris907 que se retirara da última audiência deveras pesaroso, porquanto o rei estava de tal forma impressionado e abatido, que era ponto de dúvida se conseguiria naquela condição deliberar e agir de modo conveniente. A finura ficara anulada pela fraqueza.
Não querendo imputar ao rei as responsabilidades, culpava Maler o seu gabinete — uma coisa que bem sabia não existir — de ter fechado voluntariamente os olhos ao dissabor progressivo da nação portuguesa, desprezado o aviso da revolução espanhola, permanecido perplexo ante a revolução portuense e de todo descoroçoado com a notícia da insurreição lisboense. Tomar um expediente, filosofava o encarregado de negócios de França, é sobremaneira difícil quando nada está preparado, tudo falta e se reputa impossível qualquer tentativa, e esta é a triste situação do governo.
Tão evidente era, que dela se ia apercebendo perfeitamente o público: também os cartazes e as diatribes multiplicavam-se espantosamente. Tudo indicava que não tardaria a explosão do vulcão sobre que se repousava. Medidas tranqüilizadoras, ninguém as tomava no meio do torvelinho, ao rei competindo aliás adotá-las. Nenhum sistema se procurava seguir no Paço, nem se organizava um governo forte para conjurar os apuros. O espetáculo era lamentável, de uma tão singular apatia que não logravam sacudir os inimigos já confessos da situação, muito menos os que ainda andavam à espreita de um ensejo para lançarem o repto. Na verdade porém o poder só exibia indeterminação, sujeitando-se a ser dominado pela força dos acontecimentos. Maler surpreendia-se com razão de que nem se efetuassem prisões entre os que de noite afixavam boletins incendiários ou durante o dia parolavam em termos sediciosos.
Em Lisboa calculara-se mais reação por parte do trono. Era até voz geral908 que Dom João VI solicitara da Inglaterra o auxílio armado estipulado pelos tratados de aliança e de garantia para as graves emergências nacionais. De fato a política britânica buscava, como está nos seus hábitos inteligentes, tirar o máximo proveito de circunstâncias que não favoneara, antes aborrecia.
Se a diplomacia francesa, na esperança de pôr de lado os ingleses e auferir as vantagens de que estes se achavam na posse, mostrava certa simpatia pela revolução liberal portuguesa, a diplomacia inglesa por sua vez desviou do movimento qualquer ameaça. Sacrificando seus ressentimentos, ela até empregou no Rio esforços — os quais deixava que se divulgassem em Lisboa — para o rei aprovar a atitude dos liberais, que assim esperava arregimentar do seu lado. A reunião à Espanha — provável no caso da corte resistir, ou dos constitucionais se não contentarem com meias reformas, as únicas autorizadas pelo príncipe que viesse representar o soberano, ou do duque de Cadaval não alcançar subir ao trono malgrado as muitas simpatias de que o aureolavam e o sério partido de que dispunha — era o desfecho que mais temia e mais desagradava ao governo de Londres.
Esta perspectiva se foi porém dissipando por si à medida que se ia afirmando o vigor da revolução, apoiada como estava sendo nas classes conservadoras e nas ilustradas, nos proprietários, nos comerciantes, nos professores, no clero menor, e apenas hostilizada por alguns fidalgos, enquanto o povo não perdia suas ilusões a respeito. Em vez da junção à Espanha por mais que a decepção custasse aos que com tal pensamento oculto tinham, sobretudo para lá da raia, instigado o movimento, no que se pensava era na reconciliação com o Brasil, uma reconciliação imposta e pautada pela recolonização.
A diplomacia portuguesa agitava-se no entanto por conta própria, sem esperar pela distância instruções do Rio, desde que fora informada dos sucessos revolucionários. Debelar a revolução espanhola era em grande parte debelar a revolução portuguesa, e para debelar ambas, que tinham operado pode dizer-se de concerto e se disporiam com certeza a resistir aliadas, era indispensável aos partidários do velho regime recorrerem à intervenção estrangeira. Os recursos nacionais apareciam insuficientes ou falazes.
Marialva, centralizando, como antes dele, com a autoridade do seu talento e serviços, costumava proceder Palmela, a direção na Europa da política externa portuguesa, não se descuidou de enviar sobre o assunto circular às outras missões portuguesas, e em pessoa procurou em Paris levar o governo francês a iniciar uma cruzada legitimista, mandando para Portugal soldados e navios. Só conseguiu todavia o despacho de um navio de guerra para Lisboa, em missão expectante:909 faltava ainda no governo quem quisesse pôr em prática as fantasias reacionárias de Verona.
O ministro em Londres, D. José Luiz de Souza (sobrinho de Linhares e Funchal, mais tarde conde de Vila Real) procurara logo lord Castlereagh911-para obstar ao reconhecimento do governo constituído em seu país, antes de sancionada a legitimidade dele pelo rei fidelíssimo: tal respondeu o ministro dos Negócios Estrangeiros da Inglaterra ser a firme intenção da Europa coligada.
Ponderou-lhe mais D. José de
Souza a necessidade de ligar o governo constitucional de Madri por igual declaração, que teria
a dupla vantagem de
fazer esmorecer certas esperanças mais veementes da Junta portuguesa e limpar a honra da Espanha comprometida
pelos conluios do seu agente diplomático
Não anuiu contudo o gabinete britânico à sugestão, que seria conseqüente com sua negativa de reconhecimento, de mandar retirar de Lisboa o encarregado de negócios Ward, assim cortando todas as relações com os rebeldes. O caráter diplomático deste agente fora suspenso, mas a sua partida seria inconveniente, tornado demasiado patente a parcialidade inglesa pela causa do soberano português e justificando de antemão qualquer futura acusação de pressão estrangeira, portanto impopular.
No interesse combinado de Dom João VI e da nação aconselhava-se uma calculada isenção, a começar pela abstenção do emprego de forças militares e navais contra os revoltosos, o qual redundaria em proveito dos partidários da união ibérica e adversários da autoridade real. Tampouco deviam as relações comerciais sofrer com as alterações políticas. À diplomacia portuguesa fazia-se mister admiti-lo, em vez de se estar mexendo no continente, a reboque de Marialva, para provocar uma intervenção armada de todo ponto imprópria e ineficaz, quando factível.
Nem podia a Inglaterra tolerar que, na sua falta, outros pensassem em entremeter-se na sua esfera de influência. A independência da coroa portuguesa no lidar com a revolução cumpria que fosse escrupulosamen-te respeitada, e Dom João mesmo provaria que entendia tratar do caso sem interferências estranhas. De resto, para qualquer expedição, dependia o gabinete da votação parlamentar de um crédito, que seria muito difícil obter visto o seu êxito problemático.911
Sob o pretexto, que em breve se tornaria um princípio político seu, de repugnar-lhe o processo das intervenções, a Inglaterra esquivava-se pois a tudo, a fornecer contingente militar ou naval, ou subsídio pecuniário contra o movimento constitucional no velho reino.
Souza referiu em ofício a Marialva912 sua entrevista com Castlereagh, fazendo chegar aos ouvidos do marquês estribeiro-mor, todo açodado no seu absolutismo proselítico, a linguagem do bom senso: que não justificasse, com agressões antipatrióticas, quer o partido dos que proclamavam querer apenas fazer Portugal independente do Brasil, eventualmente imolando a dinastia, quer o partido dos que manobravam para a reunião à Espanha, aconselhada pela geografia e pela política.
Era preciso, no dizer do ministro ao embaixador,913 não exacerbar os ânimos e não cercar de dificuldades a ação do rei ou do seu lugar-tenente,
que viesse repor as coisas em ordem na seção européia da monarquia, e cujas intenções honestas e benévolas se deviam ir encarecendo. A Inglaterra iria mesmo além daquela política negativamente favorável a uma inteligência direta entre o soberano e súditos: desmancharia o efeito da declaração conjunta, vaga como resultou, de Troppau, e em Laybach se ingeriria, para anulá-los, nos planos de Antônio de Saldanha da Gama, que dos três plenipotenciários portugueses — Marialva, Lobo da Silveira e ele — nomeados para o que desse e viesse em matéria de congressos, foi, de combinação com os outros dois, o único que ali se apresentou.
A Inglaterra usara com o representante português de uma linguagem sincera. A lord Stewart, embaixador em Viena, que recebera ordem de achar-se em Troppau quando ali se encontrassem os soberanos aliados, mandou lord Castlereagh instruções para que se deixasse ali em paz a revolução portuguesa, no próprio benefício da conservação da autoridade de Dom João VI, cuja presença só por si daria satisfação às queixas e colocaria de novo a nação nos seus eixos, sem que se avivassem suspeitas nativistas e se abonasse a opinião dos que pretendiam querer a Inglaterra conservar Portugal numa dependência indecorosa.914 Longe do tumultuar das paixões e do pugnar dos partidos, mais avisadas providências ainda poderia o rei ir entrementes arquitetando para defrontar com a situação.
A opinião pública britânica já era no conjunto liberal bastante para festejar as mudanças políticas de que estava sendo teatro a Península Ibérica, e ao gabinete conservador não convinha criar, mormente de motu próprio, mais tropeços à sua gestão. Em Nápoles também o constitucionalismo obtivera uma vitória, que mais efêmera seria que as outras, e o ministro Acourt não fora retirado, se bem que lhe não tivessem expedido novas credenciais.
Lord Castlereagh previa acertadamente que Dom João VI se adaptaria à ordem de coisas dominante em Portugal e tratava de contemporizar, aconselhando até D. José de Souza a responder à circular de Hermano Braamcamp, ministro dos negócios estrangeiros do governo liberal de Lisboa, ao corpo diplomático português, nos mesmos termos que o encarregado de negócios britânico havia escolhido, para que se desse a conhece: a harmonia que reinava entre as cortes de Saint James de São Cristóvão Souza não julgou todavia dever ir além de uma carta particular, declinando entrar em relações com a Junta antes de receber instruções do Rio de Janeiro.915
Fora D. José de Souza quem havia recebido o maço de exemplares da circular e o remetera a Marialva, que o devolveu sem lhe querer dar destino. O marquês estribeiro-mor não se ajeitava muito com essa política de conciliação e não só se recusava a responder a qualquer comunicação de Lisboa, como solicitava por nota a suspensão das funções do encarregado de negócios francês em Lisboa — o que o ministro barão Pasquier verbalmente lhe prometeu — e não cessava de insistir na intervenção. Chegou a despachar Navarro de Andrade para Troppau, onde os soberanos aliados iam "consertar algumas medidas relativamente aos sucessos que tem tido lugar no decurso deste ano no meio-dia da Europa".916
Em corte alguma, das principais
pelo menos, permanecera inativa nessa crise a diplomacia portuguesa. Para evitar a união
ibérica podia bem contar-se com a Inglaterra, mas a concurso da Rússia parecia igualmente
precioso pelo que
significava por si, e pela preponderância que nos anos de 1815
a 1825 essa potência exerceu sobre os outros
países da Europa. Por isso logo que o movimento do Porto respondeu ao levante espanhol, o
ministro
Invocava o diplomata português a assinatura coletiva dos tratados de Viena que, no seu dizer, continham implícita uma garantia geral e recíproca dos territórios respectivos das potências signatárias, assim como da legitimidade e independência dos seus governos. Na sua resposta, a chancelaria russa, arredando de vez os ajustes do tratado de 1799 entre o Império e Portugal por terem sido ipsofacto anulados em 1808 — não se renovando suas estipulações e dando Portugal as mãos à Inglaterra, então no campo adverso à Rússia — chamava a atenção da legação portuguesa para a teoria eminentemente conservadora sustentada nesta matéria pelo governo de São Petersburgo.
A Rússia propusera com efeito em Aix-la-Chapelle uma garantia explícita, universal e recíproca a fim de converter num fato material e incontestável o espírito das transações que constituíam o direito público europeu. Esta proposta não estava contudo ainda aceita e a chancelaria de São Petersburgo rejeitou ligar-se por um acordo categórico, mas isolado. O despacho mandado em julho de 1820, antes da revolução do Porto, ao barão de Thuyll, ministro no Rio de Janeiro, rezava que a Rússia oferecia a Portugal, no caso de agressão por parte da Espanha, o mesmo apoio moral que dera a esta por ocasião da agressão portuguesa no rio da Prata. A mal disfarçada ironia da resposta contida em substância nesse despacho, indica que não passara até então o mau humor russo, cultivado por Tatischeff e pelo governo de Fernando VII.
Antônio de Saldanha levaria para Laybach o seu plano particular, de mais vastas proporções, e em que entrava Marialva. Consistia em mover o diretório europeu a agir em nome dos seus princípios no benefício da monarquia portuguesa, opondo-se pela força às idéias revolucionárias propagadas no velho reino e iniciando em Portugal a tarefa salutar da repressão e restabelecimento da ordem na Península, "pois que daquele reine é que se devia trabalhar para o sossego e quietação da Espanha".919
O provecto plenipotenciário português conversara com Capo d’Istria e Metternich, que ambos julgavam o momento azado para medidas gerais, tendo Metternich adotado este modo de ver do ministro de Estrangeiros da Rússia depois da revolução de Nápoles cujo contágio era para recear nos domínios italianos do império austríaco. Viena acedera já a que coubesse à França na Espanha o papel que à Áustria cabia na Itália, de abafar todo movimento sedicioso, surpreendendo-se o chanceler de que a essa política ativa preferisse a Inglaterra a inação, sobretudo por ser de temer a reunião de Portugal à Espanha.
A coadjuvação da Grã-Bretanha era necessária, mas esta potência cujo assentimento as outras não podiam dispensar, esquivava-se de mos trar hostilidade a movimentos que não fossem puramente republicanos Já no decorrer de 1820, querendo a Rússia arrastar as nações aliada a uma intervenção anticonstitucional na Espanha, tendente a consolidar a paz européia, recusara o governo de que Castlereagh fazia parte, terminantemente associar-se a qualquer demonstração militar ou sequer política naquele sentido, a qual só poderia originar uma nova deflagração, em seu entender.
A
Inglaterra, que argumentava historicamente com os males enormes resultantes da interferência
estrangeira nos negócios da França em 1792 achava-se então no período de voluntário
retraimento, de intencional isolação, indecisa entre a combinação autocrática que tutelava o continente
e a inclinação liberal que prevalecia a meio do seu povo: uma incerteza de que em breve a resgataria o
gênio ousado de Canning, colocando-a resolutamente à frente do movimento
constitucional e oferecendo combate à reação entronizada na Europa e disposta a avassalar de
novo a América Tampouco
queria a França naquele momento envolver-se nos negócios da Península: não era chegado o
instante
Outra razão pela qual a Inglaterra se negava a intervir direta e ativamente nesse caso, era a de pretender por tal meio compelir Dom João VI a voltar para Portugal. Não contando o rei com auxílio estrangeiro para esmagar a revolução, força lhe era esperar acalmá-la com sua presença. Ora, o ensejo aparecia afinal em extremo propício à realização daquele desígnio constante da política inglesa no tocante aos negócios portugueses, pelo qual se sacrificara até Strangford: não podiam de boa mente perdê-lo em Londres.
Por esta circunstância especial, e também pela razão geral de que o verdadeiro protetorado exercido sobre o velho reino não devia comportar co-participantes, desconvinha pois à Inglaterra que fossem os negócios da Península tratados no Concresso, ou melhor reunião soberana de Laybach. Chegou mesmo a declarar não ter ali plenipotenciário, apesar de se achar presente e tomar parte nas conferências lord Stewart, e a aconselhar Antônio de Saldanha a retirar-se para Londres e lá aguardar o desenrolar dos acontecimentos.919
De outro lado Bernstorf sugeria ao plenipotenciário português que ficasse, o que eqüivalia a dizer continuasse à trabalhar no sentido da intervenção estrangeira. Tratou Antônio de Souza efetivamente de alcançá-la nas audiências em que foi recebido pelos imperadores da Áustria e da Rússia, em ambos os soberanos encontrando inequívoca boa vontade no prestarem apoio à causa dos tronos contra os povos. Esbarrava porém com a frouxa disposição da França, "que se desculpava com a sua situação interior" — a qual o recente assassinato do duque de Berry por Louvei patenteara incerta e agitada — e com a pouco disfarçada repugnância da Inglaterra, ‘ ‘que não só não queria intervir, porém que quase protestava contra tudo que se fazia a respeito de Nápoles".
Escrevia a este propósito Lesseps920 que o afastamento da Inglaterra das cortes reacionárias e sua adoção de um sistema de neutralidade tinham ferido o espírito dos liberais portugueses, insinuando ao mesmo tempo que a França obrara mal em aceder em tese à repressão, posto que lhe levantando restrições na prática. Bastava contudo isto para desmanchar o concerto das nações aliadas, cuja falta de união ficaria publicamente demonstrada no verificar-se uma mediação parcial e poderia assim causar, nas próprias palavras do czar Alexandre, maior mal do que bem à causa geral.921
A fim de não acirrar os ciúmes da Inglaterra e na falta de instruções positivas e terminantes da corte do Rio, retirou-se no entanto Antônio de Saldanha de Laybach sem lograr que as três grandes potências ultra-conservadoras — Áustria, Rússia e Prússia —, as mais empenhadas em suprimir todo germe demagógico, ‘ ‘adotassem uma resolução peremptória acerca dos negócios de Portugal".
Sentiam-se aquelas outra nações tolhidas sem o assenso da França e da Inglaterra, desta sobretudo, da qual, no dizer do plenipotenciário, Portugal era considerado um satélite. Referia Antônio de Saldanha que se não afoitavam as poderosas cortes do norte a "ingerir-se nos negócios deste Reino, com o receio de que aquela potência julgue uma tal intervenção como um ataque feito a sua propriedade. Tal é a triste situação a que nos achamos reduzidos."922
Tendo ido a Paris ver Marialva, esteve D. José de Souza com Antônio de Saldanha no regresso de Laybach e, procurando saber deste se haveria intervenção, ficou certo de que ela se não daria, não tanto pela distância do foco sedicioso quanto pela impossibilidade de promover-se contra Portugal uma liga reacionária à qual faltasse o concurso britânico. Resignaram-se as nações aliadas a aguardar em Portugal o tratamento pela sugestão das medidas violentas tomadas contra Nápoles, julgando igualmente mais acertado não proceder desde logo contra a Espanha para não "aumentar os males que ali se estão sofrendo, e comprometer mais a pessoa d’el-rei".923
O governo britânico, assumindo
uma atitude que nada tinha de ambígua, declarou em despacho circular aos governos estrangeiros
que reputava
perigosa a ingerência das potências coligadas nas transações interiores dos outros estados,
protestando que não aderiria às medidas que a tal respeito se pudesse ter
Deplorou o ministro de Estrangeiros da Grã-Bretanha na aludida entrevista com D. José de Souza,924 que a publicidade dada à declaração das intenções dos aliados de abafarem as revoluções levadas a cabo por facções armadas, e a referência feita aos sentimentos do governo inglês no assunto, tivessem posto este na necessidade de dirigir circular em questão, que o prendia nas suas operações. .
O soberano de Portugal e Brasil tampouco desejava, antes repudiava uma intervenção da Santa Aliança no seu reino europeu. O monarca que fúteis compiladores de memórias, como a doidivana duquesa de Abrantes, expuseram quase imbecil aos olhos da posteridade, e de quem escarneceu sem dó, glosando anedotas postiças, um historiador cheio de talento e também de prevenções como Oliveira Martins, compreendeu o que muitos políticos, julgados tanto mais atilados do tempo, não quiseram perceber, o que escapou a Metternich como a Chateaubriand, a saber, que com a intervenção estrangeira apenas lucraria a causa popular.
Antônio de Saldanha andara avisadamente retirando-se de Laybach. A circular expedida do Rio de Janeiro a 30 de janeiro de 1821, concernente à revolução portuguesa, dizia expressamente aos representantes diplomáticos não ter Dom João VI "por agora a intenção de empregar meios de coação nem de pedir socorros militares aos seus aliados para sujeitar os seus vassalos extraviados". A Inglaterra não ficava excluída dessa "resolução final" que Castlereagh dizia em Londres a D. José de Souza não haver ainda sido tomada pelo rei sobre o sistema que se propunha seguir.
A brandura ingênita e o claro senso político de Dom João VI acham-se estampados naquelas palavras. Os representantes diplomáticos, Marialva e Antônio de Saldanha, estavam sendo mais realistas do que o rei. O que este queria era tão somente que a Inglaterra mantivesse com relação à Espanha a sua obrigação de garantia de integridade da monarquia portuguesa, e a isto de bom grado anuía o governo de Londres. Havendo-lhe Souza figurado a hipótese de mandarem os espanhóis tropas contra Portugal como uma em que cabia a Dom João reclamar positivamente o efeito do compromisso britânico, nada objetara lord Castlereagh, alegando até que sobre este ponto muito tempo havia que sir Henry Wellesley tinha levado uma comunicação oficial ao governo de Madri.925
Este era porém um caso de ameaça à independência portuguesa. Com respeito aos seus súditos, sobre que se exercia a sua soberania, que o abade de Pradt desrespeitosamente tachava de itínerante (souverai-neíé voyageuse), achava o rei de Portugal e Brasil preferível, mais decoro-so, mais digno e mais hábil, agir livre de sugestões e de socorros de fora: "… S. M. se não determinará a recorrer a meios extremos e violentos senão quando se achem esgotados todos os de conciliação, e quando se vejam frustradas as diligências que intenta praticar para atrair por concessões justas, razoáveis e compatíveis com o decoro e segurança de sua real coroa os ânimos daquela gente extraviada, não sendo de esperar de corações de portugueses um tal excesso de infelicidade e de ingratidão".937 Dom João VI está todo ele nestas nobres palavras, de estadista e de homem de coração.
Elegendo tal norma de proceder, o rei ia mesmo de encontro às idéias do seu conselheiro habitual e habitualmente escutado, Thomaz Antônio, cujo projeto imediato, ao chegarem ao Rio as notícias da revolução portuguesa, fora obter para combatê-la o auxílio marítimo da Rússia — que ele acreditava não lhe seria negado pelo czar Alexandre, o pacificador da Europa e árbitro dos seus destinos — no caso de se malograrem em Londres os esforços de D. José Luiz de Souza.927
O visconde da Lapa destruiu porém logo essa ilusão, fazendo ver ao seu chefe a quase impossibilidade de alcançar o que se almejava da pane do gabinete de São Petersburgo, pouco inclinado a entrar nesse terrena em conflito com a Inglaterra, protetora reconhecida de Portugal. Tudo| conspirava contra: além das contínuas ausências do czar da sua capital dificultando quaisquer inteligências, os negócios italianos, mais próximos e mais prenhes de perigos ainda, absorviam a atenção geral das grandes chancelarias, as quais, sobretudo por causa deles, não tinham no congresso de Troppau, em 1820, dedicado particular cuidado aos negócios portugueses, limitando-se a declarações teóricas de resistência ao espírito de revolta e salvaguarda dos interesses da legitimidade.
Por isso e por intuição política sua escrevia, com muito acerto, o ministro português na Rússia aquilo mesmo que com diferença de dias mandava no Rio Dom João VI exprimir ao seu corpo diplomático por palavras diversas: "Chamar forças externas para coadjuvar a expulsão de inimigos externos, é o que a história apresenta a cada passo; porém para sossegar as desordens internas é sempre arriscado… A massa da nação é ainda sã, e sendo a força moral a que se deve procurar encaminhar, não posso ocultar, que o emprego da força marítima, só poderia servir para a irritar, e conduzir aos desvarios a que a desesperação pode arrastar."928
O conselho era bom e tanto mais merece ficar assinalado, quanto em Paris se estavam celebrando aqueles conciliábulos de representantes conspícuos do Reino Unido, Marialva à frente, que o Correio Braziliense ver-berava com muita acrimônia. Hipólito bem supunha o plano de reação desaprovado na corte do Rio, mas imaginava mal que o diretório de diplomatas em Paris estava tomando a dianteira à chancelaria fluminense e impondo o seu modo de pensar, quando na verdade a inspiração partira simultaneamente de Marialva e de Thomaz Antônio, o qual era incapaz de ir de encontro nos seus atos à vontade real. Sustaria porém tal inspiração a benignidade inteligente de Dom João VI, um momento empanada, ao recuperar sua lucidez e pôr-se em harmonia com uma melhor compreensão das conveniências do momento histórico.
No essencial se não enganava todavia Hipólito, antes acertou logo em julgar o rei pessoalmente infenso aos manejos do chamado partido aristocrático,929 que na sua constante ainda que mais disfarçada malevo-lência a Palmela, o publicista acreditava dirigidos por este estadista, de fato empenhado em conciliar as coisas muito mais do que em ajustá-las pela força "… Mas parece-nos que não será difícil o dar algumas provas, de que não é el-rei quem obra contra Portugal, que não é do soberano de quem se devem temer oposições a um sistema constitucional, em que os empregados públicos sejam responsáveis por sua gerência, que é, em duas palavras, tudo quanto a voz pública pede e exige; el-rei não tem interesse em opor-se a isso; porque com a existência dessa responsabilidade nada perde, antes muito ganha. Os governantes, que são os que verão suas mãos atadas para não fazer mal, são os que se devem suspeitar de fazerem essa oposição a um sistema para lhes porem freio… E é de esperar que as cortes de Portugal nunca se esqueçam de fazer a devida distinção entre os sentimentos d’el-rei, e os de um partido de intrigantes, cujos fins são manter seus interesses, a despeito dos da nação, e da mesma autoridade do Rei."930
Se fosse exato que Palmela, nomeado havia muito ministro dos Negócios Estrangeiros e assumindo afinal a pasta, inspirar e fomentar o denegrido "conciliábulo aristocrata" de Paris — no intuito, pouco crível aliás, de desbravar para si o terreno e permitir-lhe num campo livre o cultivo das regias concessões — maior merecimento tocaria ainda à atitude perspicaz do rei no assunto.
Foi bem um gesto privativo dele, esse que tão de acordo se achava com o pensar do gabinete britânico e tão de harmonia estava com recentes ensinamentos da história, que indicavam haver a intervenção estrangeira custado a vida a Luiz XVI e a Maria Antonieta. Além disso era óbvio — óbvio para quem tivesse bons olhos — que uma intervenção estrangeira podia ocorrer em Portugal e aí abafar com relativa facilidade o movimento liberal, mas não poderia ir sufocá-lo no Brasil, onde ele repercutiria mais vivamente mercê mesmo da reação criada em Portugal.
Para isso seria indiferente ficar o rei no novo reino ou voltar para o velho. A questão não era tanto essa: era sobretudo, como muito bem o colocava Hipólito, o resistir ou entrar a realeza no caminho das reformas constitucionais, o governar arbitrariamente ou com um ministério responsável e popular, cujos interesses não estivessem vinculados ao das classes privilegiadas. Somente assim ficaria garantida, dado o progresso dos tempos, a integridade da monarquia. De outro modo a revolução caminharia impávida em Portugal, anulando a coroa, e se propagaria ao Brasil.
Pernambuco, apesar da residência da corte no Rio, sublevara-se antes de Portugal, e se a tentativa fora mal sucedida — como também o fora pelo mesmo tempo em Lisboa o ensaio de Gomes Freire — depunha isto apenas contra as circunstâncias do momento. O fato provava que o germe do governo constitucional existia no Brasil independente de Portugal, tendo bastado para a fecundação o contato da América espanhola, depois do exemplo dos Estados Unidos. Não alcançaria constituir empecilho suficiente contra a corrente a popularidade pessoal do rei, que o periodista do Correio carinhosamente descreve "brando, pacífico, sofredor, indul gente; sem ambição, nem avareza, nem crueldade"; porquanto ao lado de Dom João VI existia um ministério de gente corrupta — Hipólito poderia ter escrito, com mais verdade, de gente eivada de preconceitos — que com sua presença excitava contra o trono e contra o velho regime as novas paixões populares.
Essa era com efeito a questão, posta nos seus termos gerais e políticos; no caso particular de que se trata, havia porém que contar com um elemento a mais, fornecido pela discórdia criada entre as duas metades da monarquia, das quais uma reclamava a sua dinastia, sob pena de fazer voar o trono em estilhaços, e a outra timbrava em conservar a investidura recebida de cabeça do império.
Em Londres descortinava-se claro, e era de Londres que Souza aconselhava931 e reputava mesmo inadiável a vinda do príncipe real para o velho reino, ficando embora na América Dom João VI para prevenir qualquer revolta análoga à das colônias espanholas; por outra, "restabelecendo-se a autoridade de S. M. em Portugal sem a pôr em perigo no reino do Brasil". Uma situação forte nasceria de tal combinação e seria igualmente vantajosa às duas partes, preparando a futura consolidação da união por "um sistema de governo ajustado ao espírito do século" e repousando sobre uma reciprocidade de interesses. A benefício da sua própria conservação, a dinastia teria contudo que se dividir.
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