ARGUMENTOS POPPERIANOS EM FAVOR DO INDETERMINISMO CIENTÍFICO
Ronaldo Pimentel* e Tiago Luis T. Oliveira**
Introdução
A discussão determinismo versus indeterminismo sempre foi debatida na história da filosofia. E muitos dos argumentos em favor do determinismo partiram da eficácia da ciência na previsão de eventos. O sucesso da mecânica newtoniana e das leis de Kepler para a explicação do funcionamento da natureza e para a previsão calculada de eventos futuros sugeria ser o mundo determinado e previsível.
Isso não se dá sem problema quando o assunto é o campo moral. Whitehead fala da dicotomia ocidental da nossa crença no livre-arbítrio e nossa convicção de que a natureza se comporta como um mecanismo materialista. Essa ambigüidade se assemelha à dupla pertença religiosa dos chineses que causa espanto no Ocidente:
Todo o mundo se surpreende de que um chinês possa ser de duas religiões: confucionista em algumas ocasiões e budista em outras. Se isso é verdade quanto à China, não sei; também ignoro se, na verdade, essas duas atitudes são realmente incompatíveis. Mas não pode haver dúvida de que fato análogo é verdadeiro em relação ao Ocidente, e que as duas atitudes em questão são incompatíveis. Um realismo científico baseado no mecanismo conjuga-se com uma crença estável no mundo dos homens e dos animais superiores como constituídos de organismos autodeterminados. Essa incompatibilidade radical na base do pensamento moderno responde, em grande parte pelo que há de dúbio e instável em nossa civilização.[1]
De fato, nem Kant escapou a essa ambigüidade, aceitando a priori o determinismo científico e tentando resguardar a liberdade no tocante à razão prática. Ora, essa ampla aceitação de uma ciência considerada determinista acaba por conceder o melhor argumento para os que acreditam ser o mundo um mecanismo determinado.
O objetivo de K. Popper, ao escrever o segundo volume do pós-escrito à sua “Lógica da descoberta científica”, foi mostrar a inconsistência dos argumentos deterministas. Ele não se propõe a discutir as doutrinas metafísicas do determinismo e do indeterminismo, mas supõe ser possível provar que o determinismo científico não se sustenta nem mesmo nas teorias prima facie deterministas da física clássica. Na obra “O universo aberto”, Popper tenta desmontar o melhor argumento determinista: o argumento do determinismo científico. Dessa forma, o autor pode questionar a solução kantiana de aceitar o determinismo científico ao aceitar a mecânica newtoniana.
1 – Conceituando e problematizando o determinismo “científico”
A primeira analogia usada por Popper para explicar o determinismo é a do filme: um filme que possa ser retroagido ou adiantado conforme o gosto de quem assiste. Analogamente, nos vemos diante do passado (a parte já assistida) e do futuro determinado pelo diretor daquele filme.
O determinismo também aparece ligado a uma concepção religiosa. Deus onipotente e onisciente já tem o conhecimento prévio de todos os eventos futuros, o que significa que o mundo é lugar do previsível, mesmo que esse conhecimento futuro apenas seja acessível à divindade. O que ocorre com o determinismo científico é a secularização desse determinismo religioso: substituamos Deus por natureza e leis divinas por leis naturais.
Outra fonte de sustentação do determinismo é o senso comum que atribui à causalidade, ou seja, à possibilidade de fazer perguntas “porquê” sobre qualquer acontecimento, o fato de que todo acontecimento tem uma causa e, portanto é determinado. Esse é um problema no qual o próprio Hume incorreu, ao tentar explicar o determinismo em sua “Investigação sobre o entendimento humano”.
Para Karl Popper a lógica da explicação não supõe previsão e, portanto, não implica necessariamente o determinismo científico. A concepção de acontecimento e as explicações exigidas pelo senso comum são qualitativas, ou seja, não exigem exatidão nas previsões e nem e nem precisão das condições iniciais dadas para determinar um acontecimento futuro.
Dessa forma, já podemos delinear o que Popper considera por determinismo científico como capacidade de prever com a precisão desejada qualquer acontecimento, a partir de condições iniciais precisas:
O determinismo “científico” requer a capacidade de prever qualquer acontecimento com qualquer grau de precisão que se deseje, desde que nos sejam dadas condições iniciais suficientemente precisas. (…) É evidente que temos de explicar “suficientemente” de uma maneira tal que nos privemos do direito de alegar – todas as vezes que falhemos nas nossas previsões – que nos foram dadas condições iniciais que não eram suficientemente precisas.[2]
Para o autor, portanto, o determinismo científico torna necessário que uma teoria responda pela sua imprecisão e dê antecipadamente quais condições iniciais permitem o determinado grau de exatidão requerido. Popper chamou a essa exigência de princípio de determinabilidade.
O filósofo da ciência, no entanto, dá dois conceitos desse princípio, um considerado mais fraco e outro mais forte, mais exigente. O conceito fraco do princípio de determinabilidade diz respeito apenas ao grau de precisão das condições iniciais:
Assim, qualquer definição satisfatória de determinismo “científico” terá de basear-se no princípio (da determinabilidade) de que podemos calcular a partir da nossa tarefa de previsão (em conjunção com as nossas teorias, é claro) o grau de precisão exigido das condições iniciais.[3]
O conceito mais forte vai além. Ele exige uma inversão de que as condições iniciais precisas possam ser calculadas da precisão dos resultados:
Para certos fins, pode ser útil trabalhar com um princípio de determinabilidade um tanto mais forte, a que chegamos referindo-nos à precisão dos resultados de medições possíveis a partir das quais as condições iniciais podem ser calculadas, e não à precisão das condições iniciais. Assim, neste sentido mais forte, uma tarefa de previsão pode não ser determinável por não podermos determinar a partir dela (e da teoria) o grau de precisão requerido de medições possíveis em que possamos basear nossas previsões.[4]
As atenções de Popper se voltarão para o conceito mais fraco, mesmo reconhecendo que o determinismo “científico” demandaria a definição forte do princípio de determinabilidade. O fato é que se uma teoria não for determinável no sentido fraco, ela tampouco será no sentido forte. E qualquer exemplo de previsão definitivamente não determinável invalidaria o determinismo “científico”. Dessa forma, caso o princípio da determinabilidade não seja universalmente satisfeito, não haveria razões para acreditar no determinismo “científico”.
2 – Argumentos contra o determinismo
Muitos autores, como o próprio Whitehead já mencionado, afirmam que o determinismo só vale para a mecânica, não se aplicando à biologia[5]. Os deterministas, no entanto, com o argumento a partir do estudo do comportamento, afirmam a possibilidade de se prever cada vez melhor os comportamentos de homens e animais superiores e que essa previsão tende a tornar-se tão precisa quanto a mecânica planetária.
Karl Popper, evidentemente, não reconhece no estudo dos comportamentos um argumento válido para reforçar o determinismo científico. Qualquer que seja o nosso conhecimento comportamental, ele não seria capaz de preencher os requisitos do princípio da determinabilidade. Mesmo que se conheça, por exemplo, todas as reações de um gato, e possa-se prever que ele pulará do muro, ninguém seria capaz de prever com precisão a quantos centímetros ele pulará desse muro. Muito menos saberia dizer quais as condições iniciais que possibilitariam reduzir a margem de erro nessa previsão.
Qualquer tentativa de complementar nossa tarefa de precisão por meio de um conhecimento maior do sistema nervoso e do cérebro do animal, só faria reconhecer que é preciso abandonar o argumento do comportamento em favor da fisiologia e da física, aceitando-as, essas sim, como ciências deterministas.
Mas mesmo a fisiologia não parece ser determinista para Popper. Em seu “Universo Aberto”, o autor compara o processo do disparo de um nervo com o de uma explosão: é necessário um fator crítico (um potencial elétrico para o nervo e uma temperatura crítica no caso da explosão) abaixo do qual esse efeito não ocorre. Esse é o chamado princípio do tudo-ou-nada[6].
É possível prever o momento em que uma explosão ocorre, aumentando gradativamente a temperatura. Mas é impossível medir com toda precisão que queiramos uma temperatura porque essa é um efeito de massa. Em outras palavras, a temperatura é essencialmente uma média, uma quantidade molar.
Analogamente, temos motivos pra crer que o potencial crítico para o disparo de um nervo dependa também de efeitos de massa. Um exemplo é o efeito de fadiga, que com muita probabilidade depende da presença ou ausência de quantidade suficiente de concentração de moléculas de alguma substância qualquer.
Com isso, o filósofo vienense entende nada indicar que o princípio da determinabilidade se aplica a efeitos de massa. Ainda que isso fosse possível, não teríamos idéia de como ele poderia ser aplicado. E que mesmo se nossa capacidade de previsão possa aumentar, isso não confirma o determinismo científico naquela área de conhecimento:
De um modo bastante geral, podemos dizer que, se bem que o nosso conhecimento, e, com ele, a nossa capacidade de prever, possa aumentar continuamente numa determinada área, esse facto por si mesmo nunca pode ser usado como argumento a favor da ideia de que algo como o determinismo “científico” se verifica nessa área. É que o nosso conhecimento pode aumentar continuamente sem se aproximar desse gênero muito especial de conhecimento que satisfaz o princípio da determinabilidade.[7]
Popper rejeita a cômoda posição do senso comum que acredita haver no mundo eventos previsíveis como relógios e eventos imprevisíveis como nuvens. O conhecimento das nuvens (e da meteorologia) poderia aumentar de tal forma que esses eventos poderiam chegar à categoria dos eventos semelhantes ao relógio. Os relógios, por sua vez, se estudados detalhadamente, podem unir-se aos eventos da categoria “nuvens”. Basta repararmos que, para medir o fluxo de calor que afeta o comprimento do pêndulo, acabaríamos por assemelhar o relógio a uma nuvem de moléculas, com a dificuldade de previsão típica dos eventos “nuvens”. Também se quisermos manter dois relógios marcando o mesmo horário, os mecanismos de regulação de ambos seriam claramente diferentes. E ainda que seja possível para um bom relojoeiro descobrir a causa do atraso de um relógio, seria impossível explicar os minutos exatos do atraso pelo estudo dessa causa e se, removida a causa, o relógio seguiria sem necessidade de mais acertos. Neste caso, mesmo os relógios não poderiam satisfazer o princípio da determinabilidade.
Há ainda um último argumento determinista que Popper pretende refutar: o argumento a partir da Psicologia. O filósofo considera esse argumento mais antigo do que o argumento a partir do comportamento, mas também mais fraco do ponto de vista da defesa do determinismo. O autor estabelece as origens modernas desse argumento mais evidentes em Hobbes, Spinoza, Hume e Priestley. Hobbes, por exemplo, acredita ser a vontade causada, donde se segue que as ações voluntárias teriam causas necessárias. Hume introduziu duas idéias: a idéia de inferências de motivos para ações voluntárias, e a idéia de inferência do caráter para a conduta.
Popper admite causas psicológicas (medos, desejos, esperanças, intenções) que na lógica da situação servem melhor para explicar uma novidade ou conquista original de aprendizado do que as causas fisiológicas e físicas. O autor, porém, nega que a existência de causas psicológicas levem a aceitação do determinismo científico, pois este demandaria que essas causas nos permitissem prever um acontecimento com o grau de precisão desejado:
Não nego que uma questão como “qual foi o motivo da acção dele?”ou uma pergunta “porquê” como “porque ele fez isso?” possam ser perfeitamente razoáveis; nem que igualmente o posse ser uma resposta como “fê-lo por inveja (ou por ambição, ou por vingança)”. Mas todas as respostas deste género, mesmo que sejam altamente sofisticadas, não são muito mais do que tentativas grosseiras de classificar, ou, quando muito, de construir um esquema situacional hipotético que torne a acção racionalmente compreensível.[8]
Finalmente, o filósofo vienense dá quatro motivos pelos quais o indeterminismo deve ser considerado prima facie aceitável e o ônus da prova recai sobre os deterministas:
1) A idéia do senso comum da diferença entre relógios e nuvens indica que a pré-determinação e a previsibilidade são uma questão de grau;
2) Outro argumento do senso comum que defende serem os organismos menos determinados e previsíveis do que sistemas simples, e que os organismos superiores são menos determinados do que organismos inferiores;
3) Deveria ser possível, segundo o determinismo, prever descobertas e criações artísticas unicamente pela fisiologia e pela física;
4) O indeterminismo, ao propor a existência de ao menos um acontecimento não pré-determinado, tem uma asserção mais fraca do que o determinismo científico, diante do qual todos os acontecimentos seriam previsíveis.
Até aqui Popper tentou refutar os argumentos deterministas. Cumpre agora mostrar a inconsistência do principal argumento dessa postura: o determinismo científico.
3 – Argumentos contra o determinismo científico
3.1. O modelo nomológico-dedutivo e o modelo explicativo de Popper
O modelo de explicação causal é importante, em que a ciência termina por ter parâmetros explicativos deterministas, isso é um recurso metodológico de busca cada vez mais acurada que não exclui o falseacionismo. As ciências deterministas em geral que respondem às perguntas “por que” não devem ser vistas como respondendo a essas perguntas com enunciados necessários mas com um enunciado no sentido de uma explicação provisória para um fato; ao invés de uma decorrência necessária, a ciência torna-se explicativa pela descrição da sucessão de eventos que ocorre numa estrutura explicativa.
As necessidades levam a pressupostos essencialistas que dão a impressão de necessidade aos enunciados, nesse caso, esses pressupostos terminam por tornar uma determinada teoria como se fosse a descrição última das coisas e dos eventos que ocorrem no mundo. Segundo Popper, o mundo 3[9] deve ser independente do mundo 1[10], mesmo que as teorias do mundo 3 forem utilizadas para descrever o mundo 1. As teorias científicas não passam de conjecturas que habitam o mundo 3, são incompletas e são apenas tentativas de se descrever o mundo 1. O paradigma da incompletude é de grande importância nos argumentos que Popper desenvolve para refutar o determinismo científico e para mostrar a precariedade do conhecimento teórico-científico.
A relação entre o mundo 1 e o mundo 3 não pode ser dada por uma descrição de essências e a natureza de uma relação causal não é dada pelo uso de propriedades intrínsecas à natureza das coisas pertencentes ao mundo 1. As leis gerais são descrições conjecturais sobre o que ocorre na natureza de modo que não há explicação definitiva sobre os processos naturais. Cada sistema explicativo possui um campo explicativo restrito, a utilização de um sistema explicativo mais amplo é a utilização daquele sistema que será capaz de explicar o máximo de eventos naturais mas não todos os eventos da natureza. A incompletude inerente do conhecimento científico também pode ser notada na alegoria do argumento que Popper utiliza ao comparar as teorias científicas à redes que pescam peixes graúdos mas não pesca os peixes pequenos, deixa escapar detalhes do mundo 1 ao explicá-lo.
O uso do falseacionismo se baseia na busca de teorias que descrevem de modo verdadeiro as coisas que existem no mundo. A crença nas essências é dogmática e não torna possível a utilização do falseacionismo. Dizer que as teorias são conjecturas não exclui o realismo dessas teorias já que elas se referem ao real e é no mundo 1 que elas devem ser testadas. Essa realidade do mundo 1 é descrita incompletamente e não é totalmente determinada e o mundo é intocável em seus aspectos essenciais. O mundo não é explicado em seus aspectos essenciais mas sim através das múltiplas possibilidades de existir algum modo de descrever esse mundo através de um mecanismo teórico causal. Assim, há um modelo explicativo do mundo em que a ciência torna capaz de explicar os fenômenos do mundo.
Esse modelo é o nomológico-dedutivo, que é uma derivação do modelo explicativo de Popper. A estrutura de um argumento que formalmente corresponde ao modelo nomológico-dedutivo ou ao modelo explicativo de Popper é dado por (1) Leis gerais mais (2) os casos particulares e seguidamente temos (3) a explicação ou a conclusão do argumento como sendo o resultado da explicação.
As leis gerais são expressas por enunciados universais que correspondem a essas leis, são as condições universais. As condições iniciais são os casos particulares que ocorrem em (2), em que são dados por enunciados que contenham uma descrição delimitada por um espaço e tempo particular, daí decorre logicamente a conclusão. Segundo o modelo explicativo de Popper, (3) é o explicandum, (1) e (2) são os explicans que são dados por uma determinada teoria. O explicandum depende das condições iniciais e a explicação é uma conseqüência lógica dos explicans ao explicandum. Essas explicações são as relações causais que procuram responder aos tipos de perguntas “por que”.
A aplicação da noção de causa e efeito em Popper é equivalente ao modelo nomológico-dedutivo desde que se respeite o critério de falseamento das teorias. Para dizer que A causa B é necessário a existência de uma lei geral e uma situação particular descrita por uma proposição particular, daí a dedução do efeito, ou seja, B. B é o efeito segundo determinada teoria. O modelo é conjectural e não está ligado necessariamente à realidade e sim a uma teoria determinista. A essas teorias denominamos teorias deterministas prima facie.
Por isso, qualquer modelo explicativo em Popper tem um caráter provisório segundo os critérios de falseamento e a sua verdade depende da verdade da teoria em que está ligado. Nenhuma teoria da explicação deve ser derradeira, já que a estrutura legiforme da natureza não é possível de ser obtida completa e precisamente. Assim, a estrutura do mundo nunca pode ser dada por teorias deterministas. Daí Popper passa a descrever e criticar as teorias deterministas, enfocaremos nas teorias deterministas científicas, que caracterizam o determinismo “científico”.
As críticas se centralizam no problema da previsão, e a previsão é um tipo de explicação e a diferença temporal entre a previsão e a explicação não é muito importante no modelo explicativo de Popper. A única diferença que pode conter é a posição em relação ao tempo dos termos contidos no esquema explicativo. Essa diferença não afeta a assimetria entre o passado e o futuro.
3.2. Refutação do determinismo “científico”
Para refutar o determinismo “científico”, Popper cria uma versão super simplificada do determinismo aliada a um demônio de Laplace. O demônio deve ser capaz de realizar previsões a partir de dentro, ou seja, previsões precisas dos estados físicos do sistema em que se encontra. Esse demônio realiza as previsões de acordo com que um homem é capaz de fazer, mas que também pode ser feito por uma máquina ou a máquina que prevê, esse homem, demônio ou máquina, tem que saber colher com precisão o máximo de dados possível.
Refutando essas idéias de acordo com a sua concepção incompleta do conhecimento teórico, que se dá como se fosse uma rede que capta algo mas não tudo, e a idéia de que o que é determinado numa teoria não pode determinar o mundo 1, porque não há uma ligação necessária, Popper tem razão o suficiente para defender o caráter indeterminista da realidade. Segundo a definição dos três mundos, que são independentes entre si, a criação teórica ocorre no mundo 3, mundo dos argumentos e das criações humanas que fazem parte do coletivo. A verdade ou falsidade de uma determinada teoria ocorre quando há a conjunção entre o mundo 3 e o mundo 1. Daí é que se gera inclusive as tecnologias que vão influenciar no mundo 1 de alguma maneira. Assim, as teorias são colocadas em testes rigorosos do mundo 3 ao mundo 1, validando os argumentos e esquemas que obedecem o modelo explicativo de Popper.
Porém, o conhecimento falível mostra a incompletude do mundo 3, não há uma previsão ilimitada e portanto a refutação do determinismo “científico” no sentido forte. A solução de um determinado problema pelo mundo 3 leva a reabrir novos problemas que ainda não são resolvidos e essa é a incompletude inerente do mundo 3. Segundo o indeterminismo, há eventos que não são determinados. Porém, o indeterminismo não exclui a possibilidade de existir eventos que são fisicamente determinados e que possuem regularidades, esses eventos estão localizados em teorias prima facie deterministas que passaram pelo critério de falseamento.
3.3. O argumento de Hadamard
O argumento de Hadamard é a refutação de um determinismo “científico” mais forte. O argumento envolve a estabilidade do sistema solar. Segundo Hadamard, não há sentido dizer que há uma estabilidade do sistema solar. Para Popper, o problema da estabilidade do sistema solar é irresolúvel, dado que não é possível ter com toda a precisão o estado inicial do sistema, tal fato da irresolubilidade, faz com que algum dia haja a solução do problema, dado que há a possibilidade de aumento no grau de precisão. Mas como vimos o grau de precisão está ligado à determinação das teorias. Não há a possibilidade de previsão do comportamento para todos os instantes de tempo em relação aos seus estados físicos. Esse é o argumento que refuta a possibilidade de existência de um determinismo “científico” no sentido forte.
O argumento de Hadamard então, segundo essa interpretação do Popper é análogo ao argumento do Teorema de Incompletude de Gödel. Assim como não podemos prever todas as situações possíveis de um sistema em um determinado tempo, também não podemos decidir numa aritmética formalizada todos as proposições verdadeiras segundo essa linguagem aritmética. A pergunta pela possibilidade de existir num sistema em que haja a gravitação de vários corpos como o sistema solar um grau de precisão tal que seja possível prever o próximo estado físico do sistema é uma pergunta que se assemelha aos resultados do Teorema de Incompletude de Gödel porque é indecidível, mas não é uma pergunta sem sentido, como afirmava o próprio Hadamard, o sentido existe, a pergunta não tem uma resposta satisfatória de acordo com as teorias físicas deterministas.
4 – Argumentos em favor da indeterminação
Nos argumentos em favor da indeterminação, Popper se apóia na não possibilidade de existir uma teoria que satisfaça os anseios de um cientista determinista no sentido forte. Quer dizer, as teorias são incompletas, no sentido dos teoremas de Gödel e em relação ao argumento de Hadamard, com a impossibilidade de existir uma teoria determinista que determine um estado físico de um sistema em qualquer tempo escolhido. Na definição das teorias científicas como redes, a alegoria está na impossibilidade dessas teorias apreenderem em suas redes causais detalhes dos sistemas físicos.
4.1. Definição de ciência como rede
Esse é o principal argumento contra o determinismo científico e se aplica ao poder das teorias de elucidarem o mundo dos fatos ou ainda de realizarem previsões com o uso de seu poder causal de acordo com o mundo dos fatos, o mundo dos sistemas físicos ou o mundo 1. Pelas teorias serem precárias em relação à previsão, não conseguem realizar uma previsão total em relação aos sistemas físicos que descrevem. O argumento contra o determinismo “científico” consiste em ver as teorias como redes.
Vejo as nossas teorias científicas como invenções humanas – como redes concebidas por nós para apanhar o mundo. Elas diferem, sem dúvida, das invenções dos poetas e até das invenções dos técnicos. As teorias não são só instrumentos. O que temos em mira é a verdade: testamos as nossas teorias na esperança de eliminar as que não sejam verdadeiras. Deste modo, podemos conseguir melhorar as nossas teorias – até como instrumentos –, ao fazer redes cada vez mais bem adaptadas para apanhar o nosso peixe, o mundo real. Contudo, elas nunca serão instrumentos perfeitos para esse fim. Elas são redes racionais de nossa autoria e não deveriam ser tomadas, erradamente, por uma representação completa do mundo real em todos os seus aspectos. Nem mesmo se forem altamente bem sucedidas; nem mesmo se parecerem dar excelentes aproximações da realidade.[11]
A teoria, e seu sucesso, não significa que a teoria está diretamente relacionada com o mundo. As teorias não possuem nenhum compromisso ontológico direto com o mundo apesar tentar ser uma descrição o mais fiel possível dos fatos em relação ao mundo. Não há nenhuma ligação misteriosa entre uma teoria e o mundo. Por isso, não é possível inferir de uma determinada teoria, o caráter determinista do mundo. As teorias são deterministas prima facie; não significa que o mundo que elas descrevem é intrinsecamente determinista. As teorias apenas descrevem o mundo, uma teoria não é boa nem má, apenas ilumina determinado aspecto do mundo sem interferir. As teorias tem a necessidade apenas de serem verdadeiras. A descrição do mundo é feita por teorias universais, o que deve garantir também a simplicidade e a testabilidade da teoria. Pelos testes de uma determinada teoria é que se torna possível ter teorias verdadeiras. As teorias verdadeiras passam por testes rigorosos e as teorias universais é que são o foco da ciência.
4.2. Assimetria entre passado e futuro
O segundo argumento em relação ao determinismo é a assimetria entre o passado e o futuro. Temos em mente ao desenvolver esse argumento que nenhuma cadeia causal futura é capaz de influenciar algo que se encontra no passado. Isso é trivialmente dado em relação ao passado, e é isso que garante ao passado ser fechado aos acontecimentos. Mas constitui um erro pensar que o futuro é completamente determinado pelo passado, novamente, o que queremos dizer é que podemos ter previsão de algo que acontecerá no futuro segundo as variáveis precisamente colhidas no passado. Admitida ainda a abertura do futuro (que o futuro não é completamente determinado pelas coisas que aconteceram no passado) e o fechamento trivial do passado, o tempo tem uma direção, a direção do tempo em seu decorrer é o futuro e ele está fechado de um lado e aberto para outro. Concluímos assim que há uma assimetria temporal. Como o tempo é assimétrico, há processos que são irreversíveis, como no caso de propagação de ondas a partir do lançamento de uma pedra no lago que nunca tornam possível que uma onda retorne ao ponto de sua propagação como se fosse um filme passado ao contrário.
Porém, todas as nossas ações humanas no presente são em certa medida uma tentativa de influenciar o futuro, e de determinar uma parte do futuro. Mas a incapacidade de previsão completa está na abertura do futuro e no fechamento do passado. Popper mostra isso através da teoria da relatividade especial, que é uma teoria prima facie determinista.

Aqui, vemos que o passado está fechado e o futuro, aberto. Acreditamos que o que fazemos no presente (contemporaneidade possível) é capaz de determinar o futuro. O futuro é completamente aberto, já que não pode ser predeterminado por nós e o passado é completamente fechado no sentido de que nada no futuro afeta o passado. Agora mostraremos o caso em que há a previsão possível de A para B.
Não
há possibilidade aqui de possuir uma previsão confiável de B já que há um ponto
futuro em relação a A que não ocorre de ser captado pela relação causal de A em
direção à B e esse ponto faz parte dos fatos passados relevantes a B e que está
no fechamento futuro de B. Assim, a previsão de A para B não é totalmente
precisa. Há e
feitos de P
que atingem B, mas os efeitos de P não atingem A. Quando a relatividade mostra
que não há um demônio laplaciano, então não há previsibilidade a partir de
dentro. Devemos supor que há um demônio laplaciano capaz de prever B, que não
seja humano, ele deve ser capaz de ter todas as condições iniciais necessárias
e todas as relações causais para prever B. A é o presente. B é onde se dará a
previsão. O demônio consegue obter informações espaço-temporais suficientemente
grandes, enormemente maiores que a dos seres humanos: A região além que o
demônio consegue é traçada por C:

O demônio precisa de informação suficiente para prever B, para tanto, precisa de todo o passado de B, ou seja, o traçado do passado de B, para tanto, a linha C pode ultrapassar todo esse passado. A linha C também passa por toda área em que o demônio consegue realizar previsões, e, ainda assim, terá informações sobre um ponto D, além de B, dada a área que C delimita para o demônio é infinita, em que as informações são dadas de acordo com o traçado de C, assim, o demônio não realiza realmente o que entendemos por uma previsão, mas é algo como uma lembrança do demônio, ou no caso, uma retroprevisão, porque a presença do demônio não está estabelecida em um ponto anterior a B mas num ponto infinitamente localizado no futuro delimitado pela linha infinitamente grande de C e o demônio realiza uma retroprevisão para todo fato que se encontra em qualquer ponto em qualquer futuro.
Se for assim, não é uma previsão a partir de dentro e também não é uma previsão no sentido em que entendemos por previsão, pois o demônio deve estar no futuro de qualquer situação dada de dentro do sistema. Paradoxalmente, qualquer previsão feita, em teoria da relatividade, faz com que o que prevê, como o demônio laplaciano, esteja assim localizado no futuro do que ele prevê, assim, o que acontece é que toda previsão na verdade não é uma previsão porque ela está no passado e o previsor está no futuro. Assim, é o futuro que é completamente desconhecido nesse caso, portanto, uma vez conhecido o futuro, ele faz parte do passado. Conclui Popper:
A relatividade especial, apesar do seu caráter prima facie determinista, não pode, portanto, ser usada para apoiar o determinismo “científico”, por duas razões. (1) As previsões exigidas pelo determinismo “científico” têm de ser interpretadas, do ponto de vista de própria relatividade especial, como retrovisões. (2) Sendo retrovisões, elas parecem, do ponto de vista da relatividade especial, ser computadas no futuro do sistema previsto. Logo, não se pode dizer que elas são computadas dentro desse sistema: não satisfazem o princípio da previsibilidade a partir de dentro.[12]
Assim, a teoria da relatividade refuta a idéia de que uma teoria prima facie determinista seja possível derivar a verdade do determinismo, apesar de seu caráter prima facie.
4.3. Questão da previsão histórica e do crescimento do conhecimento
O crescimento do conhecimento tem como decorrência a impossibilidade de uma previsão precisa. Devemos ter em mente aqui o que já foi desenvolvido na argumentação de Popper, a definição de ciência como uma teia e a assimetria entre o passado e o futuro, que impossibilita a existência de um determinismo que fixa o futuro em relação ao passado. A questão da previsão histórica é o terceiro argumento e o menos fundamental de todos. Não há como prever acontecimentos se eles são previsíveis somente de acordo com o crescimento do nosso conhecimento. Assim, não há como ter previsões totalmente precisas se as ferramentas para obter previsões – ainda que próximas da previsão – ainda não foram criadas.
4.4. A impossibilidade da auto-previsão
Na impossibilidade da auto-previsão, o sistema passa a não ser determinado a partir de dentro, ou seja, não há como ter uma previsão completa de dentro dele mesmo. Se não sabemos como o sistema teórico se modifica, também não há como ter as mesmas previsões em relação aos mesmo fatos, nem como o homem, conhecedor do mundo através desse sistema, irá agir sobre o sistema. Assim, a previsão com precisão só é possível a partir de fora e não é completamente previsível a partir de dentro. O curso da história humana, e o modo como o homem age no mundo, é influenciado pelo seu conhecimento do mundo, o crescimento desse conhecimento também modifica o modo como os homens lidam com a natureza. Assim como não é possível ter uma previsão do aumento do conhecimento, também é impossível ter uma previsão a partir de dentro dado que essa previsão está relacionada com o aumento do conhecimento, o que refuta a idéia de um demônio de Laplace e a idéia de previsão de teorias ou a previsão de avanços científicos. Se se prevê uma teoria, paradoxalmente isso não é uma previsão mas sim a descoberta de uma nova teoria.
4.5. O argumento filosófico de Haldame: Crítica ao reducionismo
Diz o último argumento que a apreensão da verdade depende do uso crítico da racionalidade sem ser reduzido a um procedimento finito característico de uma máquina de calcular, análogo ao teorema de incompletude de Gödel. O materialismo aparece alegoricamente em Haldame, já que contemporaneamente, um tipo de visão materialista seria representada pela máquina de calcular. De dentro do materialismo, não há como saber se ele é verdadeiro, assim como em uma aritmética consistente, não há como obter a consistência de uma aritmética a partir de dentro com o uso de seus procedimentos finitos. A crítica ao reducionismo faz parte da crítica da própria idéia de determinismo científico.
De um lado, o argumento se mostra análogo à não-demonstração da consistência, o segundo teorema de incompletude, e o mais forte. E se mostra análogo ao primeiro teorema de incompletude – que diz que há sentenças indecidíveis por um procedimento finito que contenha a aritmética – levando em conta a existência de teorias complexas irredutíveis à teorias inferiores. Assim como consideramos que há partes da matemática irredutíveis à aritmética e que não são expressas por seu conteúdo finitário, ou como ainda há conteúdos aritméticos não expressos por procedimentos finitos. O exemplo de Popper é dado pelas funções contidas na linguagem comunicativa humana. De acordo com que se tornam mais complexas, essas funções não são redutíveis aos níveis inferiores de linguagem. Funções expressivas como as que são sintomática de qualquer organismo animal não são capazes de terem reduzidas às essas funções a função argumentativa que é o uso da linguagem como meio de crítica racional e que os humanos utilizam para criar as suas teorias científicas.
Esta é precisamente a questão de Haldame. É a afirmação de que, se o determinismo “científico” for verdadeiro, não podemos, de uma maneira racional, saber que ele é verdadeiro; cremos nele ou descremos dele, mas não porque julguemos livremente que os argumentos ou as razões a favor dele são sólidos, antes porque se dá o caso de sermos determinados (de nos ter sido feita uma lavagem ao cérebro) de modo a acreditar nele ou a não acreditar nele, ou até a acreditar que o julgamos e aceitamos racionalmente.[13]
Com esses argumentos, Popper pretendeu mostrar a ciência como uma aproximação da realidade, mas não como uma descrição fiel da mesma. A metáfora da rede exemplifica bem essa postura. Muitas teorias, principalmente da física, são deterministas, mas isso não significa que o mundo seja determinado. Popper admite que o passado é determinado, mas afirma ser o futuro aberto. Ele igualmente admite causas para o comportamento e para ações voluntárias, mas a causalidade não implica determinação. As explicações científicas devem responder às perguntas “porquê” segundo o modelo explicativo causal. Deve-se, porém, reconhecer as limitações das teorias científicas, que podem ser falseadas e, por essa razão, incompletas na tarefa de “apanhar o mundo”. Nesse artigo, não tratamos da questão do livre-arbítrio, mas fica claramente indicado que o sucesso da ciência determinista não pode ser usado como argumento válido para afirmar que todos os eventos no mundo são fechados. Ao contrário, como indica o próprio nome da obra de Popper, vivemos num universo aberto, e, em muitos sentidos, imprevisível.
REFERÊNCIAS:
AGUIAR, Túlio X. Causalidade e direção do tempo: Hume e o debate contemporâneo. Belo Horizonte: UFMG, 2008.
POPPER, K. O universo aberto. Trad. Nuno Ferreira da Fonseca. Lisboa: Dom Quixote, 1988.
STUBERT, Willllian Rodrigo. Explicação causal e indeterminismo na filosofia de Karl Popper. Dissertação de mestrado. Curitiba: UFPR, 2007. (disponível em: http://www.filosofia.ufpr.br/docs/diss_willian2007.pdf)
WHITEHEAD, Alfred North. A ciência e o mundo moderno.Trad. Hermann Herbert Watzlawick. São Paulo: Paulus, 2006 (Col. Philosophica)
[1] WHITEHEAD, Alfred North. A ciência e o mundo moderno. São Paulo: Paulus, 2006. p. 100.
* Ronaldo Pimentel é licenciado em Filosofia pela UFJF e mestrando em Filosofia pela UFMG/CNPq
** Tiago Luís Teixeira de Oliveira é Bacharel Licenciado em Filosofia pela PUC-MG, mestrando em Filosofia pela UFMG e professor do Colégio Santo Antônio (Belo Horizonte – MG)
[2] POPPER, K. O universo aberto. Lisboa: Dom Quixote, 1988. p. 31.
[3] Idem, p. 32 (grifos do autor)
[4] Idem, pp. 32-33.
[5] Whitehead defenderá que todo o conceito do materialismo só se aplica à lógica e não aos organismos. Cf. WHITEHEAD, op. cit. p. 104.
[6] Cf. POPPER, op. cit. pp. 35-36
[7] POPPER, K. O universo aberto, pp. 36-37.
[8] Idem, p. 42.
[9] Mundo dos argumentos, instituições humanas, racionalidade, cultura e das teorias científicas.
[10] Mundo em físico, químico e biológico.
[11] POPPER, K. O Universo Aberto, pág. 58
[12] POPPER, pág. 36
[13] POPPER, K. O universo aberto, pág. 92
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One Response para “ARGUMENTOS POPPERIANOS EM FAVOR DO INDETERMINISMO CIENTÍFICO”
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abril 17th, 2009 at 7:17 am
Muito concernentes os ângulos apreciados. Grato.