Considerações acerca da liberdade e da ética na tese “A diferença entre as filosofias da natureza em Demócrito e Epicuro” de Karl Marx.

Considerações acerca da liberdade e da ética na tese “A diferença entre as filosofias da natureza em Demócrito e Epicuro” de Karl Marx.

Considerações
acerca da liberdade e da ética na tese “A diferença entre as filosofias da
natureza em Demócrito e Epicuro
” de Karl Marx.

 

Renato Almeida de Oliveira*

 

Resumo: Em 1839, Marx
inicia a preparação de sua tese de doutoramento, que será apresentada em 1841,
na Universidade de Iena, intitulada Diferença entre as Filosofias da
Natureza em Demócrito e Epicuro
. Mas o que levou um jovem estudante de
filosofia, discípulo de Hegel, participante do movimento jovem hegeliano de
esquerda, a dedicar-se aos estudos do atomismo grego? O objetivo deste artigo é
responder essa questão, explicitando como a filosofia atomista de Epicuro
influenciou a ética marxiana a partir da liberdade fundada num princípio
universal.

Palavras-chave: Liberdade,
ética, Epicuro e Marx. 

 

Em 1839, Marx inicia a preparação de sua tese de doutoramento, que será
apresentada em 1841, na Universidade de Iena. Tal tese fora intitulada Diferença
entre as Filosofias da Natureza em Demócrito e Epicuro
. Mas o que levou um
jovem estudante de filosofia, discípulo de Hegel, participante do movimento
jovem hegeliano de esquerda, a dedicar-se aos estudos do atomismo grego?
Certamente, as discussões suscitadas pelo atomismo constituíram-se em temas
clássicos da tradição filosófica. Contudo, não foi somente pela importância
histórica do atomismo que Marx debruçou-se sobre seus temas. Para entendermos o
que induziu o jovem estudante à análise das filosofias de Demócrito e Epicuro,
é necessária uma contextualização do ambiente filosófico alemão no qual Marx
estava inserido.

A filosofia alemã, desde o final século XVIII, com a Reviravolta
Transcendental de Kant, estava envolvida em discussões acerca dos princípios
fundamentais
do conhecimento e da realidade. Foram essas discussões a mola
propulsora do Idealismo Alemão. A filosofia Transcendental kantiana buscava os
fundamentos últimos de todo o conhecimento humano, o sustentáculo da
racionalidade enquanto tal. Com isso, Kant dá uma nova configuração à
filosofia, isto é, cria uma nova maneira de encarar o papel específico da
filosofia. Filosofar não significa mais tematizar objetos na tentativa de
conhecer a realidade em si mesma, como fazia a metafísica, mas fazer uma
crítica do próprio conhecimento, perguntar sobre as condições de possibilidade
do saber, ou seja, analisar o aparato categorial da consciência humana que
permite apreender a realidade por meio da experiência e organizá-la
conceitualmente. Desse modo, Kant formula uma filosofia crítica que fundamenta
as sentenças a priori, as sentenças que a razão pressupõe enquanto
fundamento do conhecimento dos objetos. Essa questão da fundamentação última
tematizada por Kant foi radicalizada por Fichte. Para este, o princípio último
do saber é auto-fundante, pois ele é pressuposto ineliminável de todo o
conhecimento, não podendo, portanto, ser abstraído sem ser pressuposto
(OLIVEIRA, M. A., 1997, p. 30). Mas qual seria esse pressuposto ineliminável?
Conforme Fichte, esse pressuposto fundamental é o Eu puro, que
auto-põe-se enquanto fundamento da experiência, porém, distinto dela, por
quanto, embora a experiência possa ser negada, o Eu é absoluto não
está sujeito à negação, pois sua própria negação o pressupõe.

Com Schelling a questão da fundamentação toma nova configuração. Ele
formula uma filosofia da fundamentação ontológica do conceito transcendental de
Eu elaborado por Fichte. Schelling parte de uma análise do conceito de saber, o
qual se dá na relação com a realidade. Desse modo, “a questão básica para
Schelling consiste em buscar uma instância capaz de fundar essa relação à
realidade como momento essencial do saber” (OLIVEIRA, M. A., 2002, p. 169).
Nesse sentido, Schelling vai além de Kant e Fichte, pois seu princípio procura
superar a separação entre sujeito e objeto criada no idealismo subjetivo e,
desse modo, fundamentar tanto o pensamento quanto a realidade. Conforme
Manfredo Oliveira:

 

Nesse sentido se trata aqui (…) de uma
transformação realista do idealismo transcendental
e de uma
transformação crítica do realismo ontológico
; ou seja, Schelling, que pretende
recuperar para a filosofia transcendental o terreno perdido do material, a
realidade enquanto natureza, quer superar no Eu a sua auto-referencialidade
pura. O princípio de Schelling não é mais simplesmente condição de
possibilidade da consciência, mas fundamento originário do saber e de toda a
realidade; ou seja, enquanto fundamento absoluto de si mesmo, ele está para
além da elação sujeito-objeto do pensamento e, enquanto tal, é o princípio do
ser e do pensar (Ibidem, p. 170).

  

Toda essa discussão a respeito da fundamentação última culmina no
Idealismo hegeliano. A filosofia de Hegel constitui-se enquanto tentativa de
articular as formulações do Idealismo Subjetivo de Kant e Fichte e do Idealismo
Objetivo de Schelling. Para Hegel, o pressuposto fundamental é a Razão
Absoluta
, e não a subjetividade, seja ela finita ou pura.  Razão Absoluta
significa unidade entre subjetividade e objetividade (Idéia). Em outros termos,
o fundamento do pensar e do real é a totalidade ou Absoluto, a inter-relação
entre os seres. Por isso Hegel afirma no § 20 da Fenomenologia do Espírito:
“O verdadeiro é o todo” (HEGEL, 2002, p. 36).

Portanto, a questão da fundamentação estava em pauta no contexto da
filosofia alemã desde o final do século XVIII. O movimento jovem hegeliano, do
qual Marx fazia parte, estava influenciado por essas discussões. Seus
intelectuais averiguavam a possibilidade de explicar o real a partir de um
princípio universal. Marx buscou na filosofia atomista grega esse princípio,
capaz de fundamentar e dar sentido à realidade e, acima de tudo, um princípio
material, contrário ao princípio abstrato-especulativo dos idealistas.

Além da questão do princípio fundante, outra ainda era latente no meio
dos jovens hegelianos, a saber, a questão acerca da liberdade. Hegel
havia formulado uma liberdade universal em seu sistema filosófico. Porém, no
âmbito da sua filosofia prática essa liberdade desaparecera, dando lugar a um
movimento necessário do Espírito na história. Desse modo, os jovens hegelianos
buscavam uma alternativa à concepção de liberdade formulada por Hegel.

Para Marx, contudo, não era razoável abandonar a filosofia hegeliana sem
analisá-la em seus pormenores; por isso ele recrimina seus companheiros do Doktorclub
(grupo de jovens intelectuais influenciados na filosofia hegeliana), por eles
abandonarem a filosofia de seu mestre sem mesmo analisá-la em suas formulações
fundamentais. Partindo do arcabouço conceitual de Hegel, Marx analisa a idéia
de liberdade no atomismo de Epicuro, almejando construir uma concepção própria
de liberdade e fundamentar uma ética.

Portanto, fica claro que existe um duplo interesse filosófico de Marx ao
estudar as filosofias da natureza de Demócrito e Epicuro. Por um lado, ele
busca um princípio único e universal capaz de explicar toda a realidade e, por
outro, elabora uma concepção ética fundada na liberdade, entendida como
possibilidade abstrata, isto é, como autonomia individual dada pelo próprio
movimento natural da realidade.

 

As
diferenças entre as filosofias da natureza de Demócrito e Epicuro

 

Resgatar a particularidade dos sistemas filosóficos pós-aristotélicos
(epicurismo, estoicismo e ceticismo), e não apenas inserí-los num esquema
genérico da filosofia grega, no qual eles apenas seriam analisados em
comparação às filosofias anteriores, é a tarefa imediata de Marx em sua tese de
doutorado. Em outras palavras, Marx pretende recordar a importância histórica
do epicurismo, do estoicismo e do ceticismo em relação as filosofias que os
precedera.

Os historiadores da filosofia consideram Platão e Aristóteles o ápice da
filosofia grega e menosprezam os sistemas filosóficos posteriores. As escolas
helenísticas, na maioria das vezes, são apresentadas como um apêndice, sem
nenhuma relação com seus antecessores, e quando tal relação é apresentada,
simplesmente mostra que essas escolas não contribuíram com nada de novo para o
desenvolvimento da filosofia. O epicurismo, por exemplo, aparece como “um
agregado sincrético da física de Demócrito e da moral cirenaica.” (MARX, 1972,
p. 135). Já o estoicismo seria “uma mistura da especulação sobre a natureza no
estilo heraclítico, da concepção cínico-ética do mundo e de uma pequena
quantidade de lógica aristotélica.” (Ibidem, p. 135). Por fim, o ceticismo
“constituiria o mal necessário que se teria oposto a esse dogmatismo.” (Ibidem,
p. 135). Marx se opõe a essas leituras “clássicas” na medida em que apresenta
diferenças fundamentais entre os sistemas filosóficos helenísticos e os
sistemas pré-helenísticos, tomando como referência uma relação particular, a
relação entre as filosofias de Demócrito e Epicuro.

Contudo, por que Marx toma particularmente a relação entre as filosofias
da natureza de Demócrito e Epicuro? Conforme ele, porque

 

adquiriu-se o hábito de identificar as físicas de
Demócrito e de Epicuro, ao ponto de apenas ver nas modificações realizadas por
Epicuro simples iniciativas arbitrárias […] Mas é justamente por esse hábito,
esse preconceito, ser tão antigo como a história da filosofia, por as
diferenças estarem tão escondidas que só se revelam ao microscópio, que o
resultado será tão mais importante se conseguirmos demonstrar a existência de
uma diferença essencial, estendendo-se até aos pormenores entre as físicas de
Demócrito e de Epicuro (Ibid, p. 138).. 

 

Diversos pensadores antigos se posicionaram criticamente sobre a postura
de Epicuro ante a filosofia de Demócrito. Para eles, Epicuro teria se
apropriado indevidamente da filosofia atomista democritiana como se fosse sua
elaboração. Na 1ª parte, 2º capítulo de sua tese, intitulado Opiniões sobre
a relação existente entre a física de Demócrito e a de Epicuro
, Marx
apresenta os argumentos dos críticos. Possidório, Nicolau, Sócion, Cícero e
Cotta são esses críticos. O último, por exemplo, questiona, na obra De
natura deorum
de Cícero: “Haverá alguma coisa na física de Epicuro que não
pertença a Demócrito?” (Ibidem, p. 139). A resposta a tal questão é negativa.
Para Cotta, bem como para os demais críticos, embora Epicuro tente reformular
alguns detalhes, essencialmente a sua filosofia é uma mera repetição da
filosofia do pensador de Abdera. As vozes são unânimes: Epicuro é um plagiador
e até mesmo um corrompedor da obra de Demócrito.

Além dos antigos, os padres da Igreja, em particular Clemente de Alexandria, e os filósofos modernos, especialmente Leibniz, reforçam o
coro de crítica a Epicuro. Para fins de ilustração, citamos uma afirmação de
Leibniz: “Grande parte daquilo que conhecemos desse grande homem (Demócrito) é
o que Epicuro dele aproveitou, e este nem sempre aproveitou o melhor” (Ibidem,
p. 141).

Contudo, Marx retira dessas críticas um testemunho fundamental para dar
cabo à sua opinião sobre a relação entre Demócrito e Epicuro: o fato inegável
de Epicuro ter bebido na fonte da filosofia democritiana, principalmente no que
diz respeito aos princípios dessa filosofia, ou seja, na idéia do átomo.

Distanciando-se das interpretações tradicionais, Marx sustenta uma
oposição fundamental entre as filosofias da natureza dos dois filósofos em questão. Primeiramente, Marx faz uma diferenciação genérica dos aspectos fundamentais
dos sistemas físicos de Demócrito e Epicuro. Por fim, ele realiza uma diferenciação
nos pormenores
de ambos os sistemas.

A diferença genérica diz respeito 1) às questões da verdade e da
certeza do conhecimento humano, 2) à forma como os dois pensadores encaram a
filosofia e praticam a ciência e 3) à relação entre realidade e pensamento (ser
e pensar).

A primeira diferença genérica entre as filosofias da natureza de
Demócrito e Epicuro refere-se à verdade e à certeza do conhecimento. Conforme
Marx, o pensamento de Demócrito no que concerne a essa questão é contraditório.
Para reforçar sua posição, ele cita duas passagens de Aristóteles, a primeira
da obra De anima e a segunda da Metafísica, nas quais aparecem
fragmentos de Demócrito que se contradizem fundamentalmente:

 

Lê-se na psicologia de Aristóteles: “Demócrito
considera a alma e o entendimento como uma mesma coisa, dado que para ele o
fenômeno é o verdadeiro”; e na Metafísica afirma-se o contrário: “Demócrito diz
que nada é verdadeiro, ou que o verdadeiro nos é escondido!” (Ibid, p. 144).

 

Desse modo, Marx explicita como, desde os antigos, a contradição no
pensamento de Demócrito a respeito da verdade já se apresentava. Em
conseqüência disso, a certeza sobre o saber não pode ser determinada. Para
Demócrito, todo fenômeno sensível é uma aparência subjetiva, ou seja, toda
experiência é fundada na opinião (doxa). Porém, como o fenômeno pode
constituir a verdade se ele é mutável? Nessa perspectiva, não pode haver uma certeza
acerca da verdade. 

Epicuro, por sua vez, afirma que o conhecimento deve ser convicto. É esse
comportamento de convicção que o sábio deve ter e tal convicção provém dos
sentidos, da percepção. Marx cita Epicuro: “Todos os sentidos são arautos do
verdadeiro. Nada pode refutar a percepção sensível […] Quanto ao conceito,
também depende das percepções sensíveis” (Ibidem, p. 146).

Portanto, para Epicuro, a verdade é acessível ao homem por meio da
sensibilidade. Contudo, para melhor compreensão desse pensamento, é necessário
entendermos que Epicuro faz da realidade um fenômeno objetivo, diferente de
Demócrito, que reduz a realidade a um fenômeno subjetivo. É a objetividade que,
em Epicuro, garante a veracidade do conhecimento.

A diferença na forma de conceber a verdade e a certeza do conhecimento
conduz-nos a uma segunda diferença entre os dois filósofos, qual seja, na forma
como ambos se dedicaram à prática da ciência, ou mais especificamente, como
encararam a filosofia.

Demócrito não encontrou satisfação na filosofia e, por esse motivo,
dedicou-se vivamente às ciências particulares, ou como denomina Marx, às
ciências positivas (física, matemática, astronomia, artes etc.), isto é, às
ciências experimentais. “É por isso que Demócrito percorre metade do mundo a
fim de comparar as experiências, conhecimentos e observações” (Ibid, p. 147).
Epicuro, por seu turno, satisfaz-se na filosofia, nela encontra a verdadeira
felicidade. Para ele, quem se dedica à filosofia alcança a liberdade e o
conhecimento autêntico. Desse modo, não há necessidade de buscar em outras
ciências o pleno saber. Por esse motivo:

Enquanto Demócrito é levado a dirigir-se a todos os
lugares do mundo, Epicuro só duas ou três vezes abandona o seu jardim de Atenas
para ir à Ionia visitar os seus amigos. Finalmente, enquanto Demócrito,
descrendo da ciência [da filosofia], opta pela cegueira, Epicuro, ao sentir
aproximar-se a hora da morte, meteu-se num banho quente, exige vinho puro e
recomenda aos seus amigos que sejam fiéis à filosofia (Ibid, p. 149).

 

Vejamos agora como ambos os filósofos gregos concebem
a relação entre liberdade e necessidade, que liga-se à relação entre ser e
pensar. Para Demócrito, a realidade é regida pela necessidade, pois os átomos
estão submetidos a um movimento determinado. Para Epicuro, é o acaso quem rege
o mundo, devido à declinação fundamental (clinamen). Essa diferença
implicará diretamente na forma como ambos explicam os fenômenos físicos.
Demócrito admite um determinismo a partir de uma “possibilidade real” (todo fato
é causado por um encadeamento de condições) e Epicuro admite uma “possibilidade
abstrata” (possibilidade entendida como autonomia).

 

A declinação do átomo da linha reta e a liberdade humana:
Marx e a ética epicuréia

 

Apresentada a diferença genérica entre as filosofias
da natureza de Demócrito e Epicuro, Marx detém-se nos pormenores dessa
diferença, considerando 1) a declinação do átomo da linha reta, 2) as suas
qualidades, 3) a diferença entre “átomos-princípios” e “átomos-elementos”, 4) o
tempo e, por fim, 5) os meteoros. Porém, como o ponto sobre o qual Marx
concentra a discussão é a noção de clinamen e como o interesse do nosso
trabalho é levantar algumas considerações acerca da liberdade e da ética na
tese doutoral de Marx, analisaremos apenas a idéia da declinação como
possibilidade de pensarmos uma vida ética fundada na liberdade.

Conforme Marx, a filosofia de Epicuro admite três movimentos distintos
dos átomos no vazio:

1)    
A queda em linha reta;

2)    
O desvio que os átomos realizam da linha reta;

3)    
O movimento de repulsão entre os átomos.

Demócrito admite apenas o primeiro e o terceiro movimentos. Não há uma
concepção de declinação em sua filosofia. Já em Epicuro essa concepção é
fundamental, e Marx a exalta, afirmando que Epicuro realiza de fato a determinação
puramente formal do átomo e chega ao conceito de pura singularidade que nega
todo o ser-aí determinado por um outro. Em outros termos, Epicuro concebe a
declinação (determinação puramente formal) que o permite formular uma idéia de
liberdade em oposição a qualquer formulação determinista, à necessidade (o
outro que determina o ser-aí).

Marx explica que na filosofia epicuréia existe uma oposição entre os
átomos e a linha reta. Embora aqueles estejam em movimento de queda nesta, o
átomo é um corpo autônomo e essa autonomia é exemplificada nos corpos celestes.
Tal como os corpos celestes, os átomos não se movem em linha reta porque esse
movimento é um movimento de não-autonomia. Portanto, a determinação formal do
átomo é a declinação que, por seu turno, opõe-se à materialidade do átomo que é
representada por Epicuro no movimento da linha reta. É a determinação formal
que expressa a liberdade do mundo. Nesse perspectiva, Marx cita Lucrécio: “A
declinação nega os fati foedera (determinações do destino) e, como
aplica imediatamente este fato à consciência, podemos dizer que a declinação
constitui no coração do átomo aquela qualquer coisa que pode lutar e resistir”
(Ibid, p. 170).

Cícero tece uma crítica ao princípio da declinação de Epicuro, por este
não ter demonstrado nenhuma causa para tal declinação. Porém, Marx sai em
defesa de Epicuro e afirma que a introdução de uma causa à declinação
resultaria em um novo determinismo, pois conduziria-nos a uma relação
necessária de causalidade. Desse modo,

 

perguntar a causa deste desvio corresponderia assim a
perguntar a causa que faz do átomo um princípio, pergunta evidentemente privada
de sentido para quem pensa que o átomo é a causa de tudo e que, portanto, não
pode ter uma causa (Ibid, p. 172).

 

Após apresentar a idéia de declinação, Marx considera em seguida um
aspecto fundamental conseqüente da declinação, a saber, a liberdade enquanto
princípio ético. A idéia de declinação que gera a liberdade, fundamenta a ética
epicuréia, haja vista tal ética relacionar-se, conforme Diógenes Laêrcio (1977,
p. 285-290), com os fatos que dizem respeito à escolha ou à rejeição. Devemos
escolher aquilo que nos causa prazer e rejeitar aquilo que nos causa dor. Desse
modo, os sentimentos têm um papel fundamental na ética epicuréia. Os
sentimentos de prazer e de dor, de quietude e de perturbação são critérios para
distinguirmos o bem do mal, constituindo assim o critério de escolha ou
da não-escolha, ou seja, a regra do nosso agir. Portanto, as sensações
tornam-se o critério axiológico do agir ético.

 Isso implica dizer que um princípio da física tem relação direta na
existência humana e fundamenta todo agir ético do indivíduo. Assim como o átomo
se liberta da sua existência relativa, da queda determinada pela linha reta, o
homem desvia-se da dor e da inquietação, revelando sua autonomia para alcançar
a felicidade e quietude (ataraxia), fim da vida ética. Desse modo, o
filósofo helênico conclui que para atingir essa felicidade, o homem deve buscar
o conhecimento da natureza. Nas suas palavras:

 

Devemos ainda sustentar que a função da ciência da
natureza é a determinação precisa da causa dos elementos principais e que nesse
conhecimento consiste a felicidade, e também no conhecimento da natureza real
dos corpos que vemos no céu, e na aquisição de conhecimentos afins que
contribuem para o conhecimento completo a esse respeito, indispensável também à
felicidade (Ibid, p 301).

 

Nessa perspectiva, a filosofia surge como essencial à vida humana, pois é
ela quem permite o conhecimento dos fenômenos naturais, ela nos ajuda a
refletir sobre as causas primeiras do cosmos. Na epístola a Meneceu ele
incentiva todos os homens, independente da idade, a filosofar. Citamos abaixo
as palavras iniciais da referida epístola:

 

Nenhum jovem deve demorar a filosofar, e nenhum velho
deve parar de filosofar, pois nunca é cedo demais nem tarde demais para a saúde
da alma. Afirmar que a hora de filosofar ainda não chegou ou já passou é a
mesma coisa que dizer que a hora da felicidade ainda não chegou ou já passou;
devemos, portanto, filosofar na juventude e na velhice para que enquanto
envelhecemos continuemos a ser jovens nas boas coisas mediante a agradável
recordação do passado, e para que ainda jovens sejamos ao mesmo tempo velhos,
graças ao destemor diante do porvir. Devemos então meditar sobre tudo que possa
proporcionar a felicidade para que, se a temos, tenhamos tudo, e se não a
temos, façamos tudo para tê-la (Ibid, p. 311).

 

Portanto, para Epicuro, o homem almeja ser feliz e essa felicidade
consiste na ausência de dor e perturbação e esse estado de vida é alcançado por
meio da investigação das causas dos fenômenos naturais. A finalidade do
conhecimento dessas causas, quer as consideremos em suas relações recíprocas,
quer isoladamente, é assegurar a paz de espírito ao homem, ser autárquico,
dependente apenas de si para atingir essa felicidade. Conclui-se daí, que a
ética epicuréia está diretamente relacionada com a filosofia da natureza. A
idéia de declinação possibilita a Epicuro fundamentar uma ética da liberdade.

Ainda a respeito da declinação, Marx extrai uma conseqüência
antropológica, que será fundamental à formulação posterior do seu conceito de
homem. O ser humano é um ser natural, sensitivo, mas pode abstrair dessa
condição e viver de modo livre, efetivar sua genericidade, assim como o átomo
declina do seu movimento natural de queda livre.

 

Assim, o homem só deixa de ser um produto natural
quando o outro com quem se relaciona for um homem singular, mesmo que não seja
ainda o espírito, e não uma qualquer existência diferente. Mas para que o homem
enquanto homem se torne, para si mesmo, o seu único objeto efetivamente real, é
necessário que tenha negado o seu ser aí-relativo, o poder dos seus apetites e
da simples natureza (MARX, 1972, p. 175).

 

Chegamos ao cerne da tese marxiana, qual seja, a fundamentação da
realidade, e especificamente da liberdade humana, a partir de um princípio
especulativo: a concepção epicuréia da “possibilidade abstrata”.

É válido ressaltar que Marx não defende a filosofia de Epicuro em sua
integralidade, mas apenas simpatiza com algumas de suas concepções, em especial
com a idéia de liberdade. “Insere-se nesse contexto seu manifesto apoio à
rejeição de Epicuro por qualquer tipo de determinismo físico na ciência. Seria
negar o próprio caráter do espírito considerá-lo sujeito às leis do movimento
físico; o espírito é autônomo em relação à natureza” (OLIVEIRA, A. R., 1997, p.
47).

Marx ressalta a liberdade porque esta é a capacidade que o homem possui
de se auto-determinar, de desenvolver suas potencialidades. Ao longo de sua
evolução filosófica, ele amadurecerá essa idéia por meio da concepção de
trabalho enquanto categoria fundamental de efetivação da liberdade humana. Em
sua tese ainda não se apresenta essa concepção de trabalho. Somente alguns anos
depois, por volta de 1844 é que essa concepção será formulada enquanto idéia
central do sistema filosófico marxiano. A idéia de trabalho em Marx se opõe a
forma estranhada de trabalho da modernidade, que assim como a “possibilidade real”
de Demócrito, que imprimia uma necessidade no mundo, o trabalho estranhado
suprime a liberdade humana e a torna sujeita a uma força exterior, o capital. O
trabalho será realizado apenas como uma necessidade natural, a sobrevivência
física do homem (MARX, 1989, p. 159-160).

Portanto, a influência de Epicuro no pensamento do jovem Marx é
fundamental para o desenvolvimento posterior de sua filosofia, porque foi o
filósofo helenista, na visão de Marx, quem melhor conseguiu formular uma
concepção de liberdade fundada num princípio universal e que, além disso,
subordinou a filosofia determinista da natureza a uma concepção moral do homem.

 

REFERÊNCIAS

  • LAÊRCIO, Diógenes. Vidas e doutrinas dos
    filósofos ilustres
    . Tradução de Mário da Gama Kury. Brasília: UnB, 1977.
  • MARX, Karl. Diferença entre as
    Filosofias da Natureza em Demócrito e Epicuro.
    Tradução de Conceição Jardim
    e Eduardo Lúcio Nogueira. Lisboa: Editorial Presença, 1972.

  • __________. Manuscritos
    Econômico-Filosóficos
    . Tradução de
    Artur Morão. Lisboa: Edições 70, 1989.

  • OLIVEIRA, Avelino da Rosa. Marx e a
    Liberdade
    . Porto Alegre: EDIPUCRS, 1997.

  • OLIVEIRA, Manfredo A. de. Sobre a
    Fundamentação
    . Porto Alegre: EDIPUCRS, 1997.

  • ___________. Para além da fragmentação:
    pressupostos e objeções da racionalidade dialética contemporânea. Rio de
    Janeiro: Loyola, 2002.

 


*            
Mestrando em Filosofia pela Universidade Federal do Ceará na Linha de Pesquisa
Ética e Filosofia Política.

               E-mail:
[email protected]

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