Norbert Elias e a sociedade dos indivíduos



Norbert Elias e a sociedade dos indivíduos[1]

 

 

Jéferson Mendes[2]

Josiane Mendes[3]

 

Norbert Elias

 

 

Norbert Elias sociólogo alemão nasceu em Breslau em 22 de junho de 1897, de família judaica, precisou quando Hitler se tornou chanceler da Alemanha fugir e exilar-se na França em 1933, posteriormente estabeleceu-se na Inglaterra onde passou grande parte de sua vida. Infelizmente seus trabalhos tiveram reconhecimento tardiamente.

As obras de Elias destacaram-se por tratar da relação entre poder, comportamento, emoção, abarcando conhecimento sociológico, psicológico, antropológico e histórico. Formou-se nas universidades de Breslau e Heidelberg, lecionou na Universidade de Leicester durante sete anos (1945-62) ainda foi professor visitante na Alemanha, Holanda e Gana. O reconhecimento tardio veio apenas na década de 70 com a publicação de A sociedade de corte. Tendo ainda outros livros como, Os alemães, Os estabelecidos e os outsiders, Mozart: sociologia de um gênio, A peregrinação de Watteau à Ilha do Amor, O processo civilizador (2 vols.), Sobre o tempo, A sociedade dos indivíduos e A solidão dos moribundos.

A obra mais conhecida e dada como uma das mais importantes foram os dois volumes de O Processo Civilizador (Über den Prozess der Zivilisation), publicado em 1939, sendo traduzido para o inglês em 1969. O primeiro volume traça os acontecimentos históricos do habitus europeu, conceito-substância “sentimento” e “razão”, uma espécie de estrutura psíquica de cada indivíduo que é moldada pelas atitudes sociais. A principal questão de Elias no processo civilizador é o processo de individualização e formação dos Estados Nacionais, entre as mudanças em longo prazo.

 

[...] não fui orientado nesse estudo pela idéia de que nosso modo civilizado de comportamento é o mais avançado de todos os humanamente possíveis, nem pela opinião de que a ‘civilização’ é a pior forma de vida e que está condenada ao desaparecimento. Tudo o que se pode dizer é que, com a civilização gradual, surge certo número de dificuldades especificamente civilizacionais. Mas não podemos dizer que já compreendemos porque concretamente nos atormentamos desta maneira. Sentimos que nos metemos, através da civilização, em certos emaranhados desconhecidos de povos menos civilizados. Mas sabemos também que esses povos menos civilizados são, por seu lado, atormentados por dificuldades e medos dos quais não mais sofremos, ou pelo menos não sofremos no mesmo grau. Talvez tudo isso possa ser visto com um pouco mais de clareza se for compreendido como realmente operam esses processos civilizadores. De qualquer modo, foi este um dos desejos com que comecei a trabalhar neste livro [...] Acima de tudo, a natureza dos processos históricos – do que se poderia chamar de ‘mecânica evolucionária da história’ – tornou-se mais clara para mim, assim como suas relações com os processos psíquicos. Termos como sociogênese e psicogênese, vida afetiva e controle de instintos, compulsões externas e internas, patamar de embaraço, poder social, mecanismo de monopólio e vários outros dão expressão a isso. Mas fiz a menor concessão possível à necessidade de expressar com novas palavras coisas novas que se tornaram visíveis. (ELIAS, 1994, p. 18-19).

 

Elias trabalhou padrões europeus pós-medievais como violência, comportamento sexual, funções corporais, tempo, as profissões, o futebol, formas de discurso.[4] Elias não entendia o processo civilizador em termos metafísicos, como se a evolução social fosse devido a um progresso automático e específico.

Sendo tardiamente descoberto Elias trouxe para a sociologia conceitos novos, idéias novas, novas abordagens a respeito do desenvolvimento da sociedade e das mudanças históricas, do desenvolvimento dos indivíduos individual e socialmente. Criticava as correntes que objetivavam a pesquisa no indivíduo assim como a pesquisa na sociedade, que segundo ele não coalescem. Elias morreu em Amsterdã, 1 de agosto de 1990.

           

A sociedade dos indivíduos

 

Todos sabem o que se pretende dizer quando se usa a palavra “sociedade”, ou pelo menos todos pensam saber. A palavra é passada de uma pessoa para outra como uma moeda cujo valor fosse conhecido e cujo conteúdo já não precisasse ser testado. Quando uma pessoa diz “sociedade” e outra a escuta, elas se entendem sem dificuldade.

Mas será que realmente nos entendemos? (ELIAS, 1994, p. 63).

 

Norbert Elias parte da pergunta a respeito do que se entende por sociedade, como está sociedade é entendida a partir de um diálogo, entre uma conversa a respeito do que é uma sociedade as pessoas se entendem. No senso comum as pessoas se entendem, mas cientificamente falando nos entendemos. O que as ciências sociais entende por sociedade.

            Se a sociedade é nada mais nada menos que uma porção de pessoas juntas. Daí parte a questão principal uma porção de pessoas juntas na Índia, na China, na América, na Grã-Bretanha são iguais?, a sociedade européia do século XII é igual a sociedade européia do século XVI ou XX?. Logicamente que não. As sociedades possuem estruturas diferenciadas. A formação dessa estruturação social independe de cada indivíduo, independe da vontade das pessoas, ela é formada alegoricamente, sem um único planejamento. 

Segundo Elias dois campos disputam o diálogo a respeito do papel do indivíduo e da sociedade, essas duas correntes elaboram entendimentos antagônicos, uma corrente que defende a sociedade como se está fosse planejada a partir daí procuram para explicá-la exemplos das formações institucionais, como polícia, parlamento, etc., como a construção da estrutura social. Entendem o Estado como uma manutenção da ordem, e a linguagem como comunicação entre as pessoas, como se fossem criados com fins específicos por indivíduos isolados como se seguisse um planejamento racional.

A outra corrente entende o indivíduo como se não tivesse papel nenhum como a sociedade, como se este não tivesse papel nenhum a sociedade é concebida como uma entidade orgânica supra-individual que avança inelutavelmente para a morte, atravessando etapas de juventude, maturidade e velhice. Dessa forma, existe um grande abismo entre indivíduo e sociedade, todos os lados então possuem “antinomias”.

Para Elias a idéia que temos de sociedade e a idéia que temos de indivíduo nunca chegam a coalescer, “Ninguém dúvida de que os indivíduos formam a sociedade ou de que toda sociedade é uma sociedade de indivíduos” (ELIAS, 1994, p. 16), porém para chegar a essa idéia faltam modelos, faltam conceitos, fundamentações. Elias cita o exemplo dado por Aristóteles da relação das pedras e das casas. Para criar uma casa era necessário um conjunto de pedras.

Segundo Elias a Gestalt possui elementos que explicam como as várias partes formam um produto inteiro diferenciado, como a melodia que nada é em notas individuais que se torna diferente em sua soma. Daí a teoria dos conjuntos, “[...] as unidades de potencia menor – dão origem a uma unidade de potencia maior, que não pode ser compreendida quando suas partes são consideradas em isolamento, independentemente de suas relações” (ELIAS, 1994, p. 16).

Nem a sociedade nem o indivíduo existem sem o outro. Um não pode existir sem o outro, nem um se pertence, coexistem ambos. Sem indivíduo não tem sociedade, sem sociedade não tem indivíduo.

A partir dessas indagações vai se estruturando a grande tese de Elias, que entende que “A vida dos seres humanos em comunidade certamente não é harmoniosa” (ELIAS, 1994, p. 20), não somos certamente bons uns com os outros. Em sociedade a maioria das pessoas não se conhecem, porém existe uma ordem oculta que não é perceptível pelos sentidos, porque “Cada pessoa nesse turbilhão faz parte de determinado lugar” (ELIAS, 1994, p. 21), famintos sem teto fazem parte da ordem oculta, pessoas que exercem ou exerceram algum tipo de renda, exerceram algum tipo de função, que ao passarem pela rua essa função passa junto com ela, portanto o que existe é uma ordem invisível entre as pessoas. Essa ordem invisível é uma rede de funções interdependentes pela qual as pessoas estão ligadas entre si tendo peso e leis próprias.

 

[...] cada pessoa singular está realmente presa; está por viver em permanente dependência funcional de outras; ela é um elo nas cadeias que ligam outras pessoas, assim como todas as demais, direta ou indiretamente, são elos nas cadeias que as prendem. Essas cadeias não são visíveis e tangíveis, como grilhões de ferro. São mais elásticas, mais variáveis, mais mutáveis, porém não menos reais, e decerto não menos fortes. E é a essa rede de funções que as pessoas desempenham umas em relação a outras, a ela e a nada mais, que chamamos “sociedade” (ELIAS, 1994, p. 21).

 

Portanto, assim funcionam a ligação entre os indivíduos que é a propensão fundamental de sua natureza. Dessa forma, cada sociedade acaba ficando estruturada em suas origens, uma criança já nasce em uma sociedade estruturada, uma criança do século XII desenvolvia uma estrutura dos instintos e da consciência diferente de uma criança do século XX. A forma individual do adulto é a forma específica de cada sociedade.

Os indivíduos são suas relações. As redes humanas se desenvolvem e se apresentam como seres humanos. O homem é um ser social, para isso dependente da companhia de outros. É necessário um alto grau de maleabilidade e adaptabilidade das funções relacionais humanas. Essa maleabilidade e adaptabilidade é uma precondição para a estrutura das relações entre as pessoas ser tão mais variável do que entre os animais. A linguagem, a fala é um ajustamento social, necessário para o ser humano o que determina a linguagem do indivíduo é a sociedade em que ele cresce.

Os seres humanos são constituídos de uma ordem natural e de uma ordem social, essa ordem social deve sua própria existência a peculiaridade da natureza humana essa peculiaridade consiste na mobilidade e maleabilidade especial pelas quais o controle comportamental humano difere da dos animais que é algo natural, é algo herdado, portanto nos animais é um padrão fixo de controle comportamental em relação a outros seres e coisas, no ser humano tem que ser produzido entra em ação regularidades e processos automáticos que determinamos de “sociais”, em contraste com as regularidades orgânicas e naturais.

A sociedade possui divisões entre as funções “[...] quanto mais essa divisão avança numa sociedade e maior é o intercambio entre as pessoas, mais estreitamente elas são ligadas pelo fato de cada uma só poder sustentar sua vida e sua existência social em conjunto com muitas outras” (ELIAS, 1994, p. 44), ninguém nega que “A história é sempre a história de uma sociedade, mais sem a menor dúvida, de uma sociedade de indivíduos” (ELIAS, 1994, p. 45).

 

Bibliografias:

ELIAS, Norbert. A sociedade dos indivíduos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 1994.

ELIAS, Norbert. O Processo Civilizador, 2 vols. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1994.

VIANNA, Nildo. Introdução a Sociologia. Belo Horizonte: Autêntica, 2006.


[1] O presente tem por objetivo analisar o artigo “A sociedade dos indivíduos”, escrito em 1939 por Norbert Elias. Publicado pela editora Jorge Zahar.

[2] Professor/tutor nas áreas de História, Geografia, Filosofia e Sociologia. Graduado em História pela Universidade de Passo Fundo. Pós-graduando em Sociologia pela Universidade de Passo Fundo. Mestrando em História pela Universidade de Passo Fundo, bolsista CAPES. E-mail: mendesjeferson@yahoo.com.br.

[3] Graduada em Pedagogia pela Universidade de Passo Fundo. E-mail: josiane_mendes@yahoo.com.br.

[4] VIANNA, Nildo. Introdução a Sociologia. Belo Horizonte: Autêntica, 2006, p. 71.

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