Nota sobre o conceito de mimesis e katharsis na Poética de Aristóteles



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Sobre o conceito de mimesis e katharsis na de Aristóteles
por Miguel Duclós

A primeira dificuldade encontrada no estudo da Poética de Aristóteles é seu caráter esotérico. O texto é esotérico, e foi feito para o uso interno de Aristóteles ao ministrar seus cursos no Liceu. A segunda dificuldade é que os textos chegaram até nós de forma incompleta. Toda a parte relativa à comédia se perdeu. Para piorar, Aristóteles, contrariando sua praxe, não explicita em momento algum da Poética o que entende exatamente por mimesis e katharsis, os dois conceitos fundamentais da obra.

É certo, porém, que Aristóteles utiliza estes termos com sentidos inteiramente diversos de Platão. Em Platão, as artes condenáveis são aquelas reguladas pela mimesis, e a mimesis é entendida como imitação. Uma poesia, para Platão, é mimesis. O poeta representa o mundo sensível, que por sua vez é cópia da Idéia imutável, que constitui a realidade.

Este sentido negativo de mimesis – imitação, simulacro -, tal como é empregado por Platão, foi a tradução do termo que se consolidou na tradição filosófico-literária ocidental. Aristóteles, porém, dá ao termo um caráter positivo e uma importância maior, a ponto do termo, que é apenas mais um no vocabulário platônico, se tornar um conceito no interior da Poética. Os conceitos de mimesis (traduzido por imitação) e katharsis (traduzido por purgação, purificação)  serão as peças fundamentais que estruturam a definição de tragédia no capítulo III da Poética: "É pois a tragédia imitação de um caráter elevado, completa  e de certa extensão, em linguagem ornamentada e com as várias espécies de ornamento distribuídas pelas diversas partes do drama, imitação que se efetua não por narrativa, mas mediante atores, e que suscitando o terror e a piedade, tem por efeito a purificação destas emoções".

A palavra mimesis em Aristóteles está ligada à techné (arte) e à physis (natureza). Na Física  de Aristóteles está escrito que a arte imita a natureza. A mimesis aristotélica alcança uma dimensão ontológica, por determinar o modo de ser do poema trágico. O autor trágico é um imitador da ação na Poética, e da natureza na Física. Mas, como explica Victor Knoll, a ação imitativa é o transporte do particular para o universal, uma atividade que procura reassumir os procedimentos da physis, ou: "a misesis tem como material a história, que converte em fábula por força da techné segundo a physis".(KNOLL, Discurso, 1995).

O termo grego physis pode ser traduzido como a semente a partir da qual as coisas se desenvolvem, fonte de movimento e mutação dos seres naturais, a realidade enquanto se realiza, tudo aquilo que brota espontaneamente do chão, em oposição ao Hades.

A poesia é, então, imitação. Mas a imitação pode imitar homens melhores ou piores. A imitação de homens melhores resulta na tragédia, e a imitação de homens piores resulta na comédia. O ato de imitar, para Aristóteles, é congênito ao homem, juntamente  com a harmonia e o ritmo. Este caráter inato e muitas vezes até mesmo inconsciente da atividade imitativa é mais uma mostra da nobreza que ela adquire na teoria aristotélica.

Porém a mimesis do poeta trágico não faz dele um mero imitador ou plagiador, como em Platão. O imitar aristotélico das ações é uma criação, pois resgata o mundo nos mesmos moldes pelos quais ele se produz, e isto se dá pelo intermédio do próprio mundo.

A mimesis é, para Aristóteles, portanto ativa e criativa. A catarse é um efeito suscitado pela tragédia no público. Os atores, que imitam ações, na catástrofe final com que terminam as peças trágicas, suscitam no público terror e piedade, visando a catarse destas emoções. O terror, por ver os personagens amigos das tragédias (ou o herói trágico ou o personagem principal) se darem mal no desfecho da trama. Como em Édipo Rei – o exemplo de tragédia perfeita -, que mata seu pai, casa-se com sua mãe e no final cega-se em punição purgativa. Estas ações catastróficas podem se dar de três maneiras: quando os personagens sabem o que estão fazendo, quando sabem o que fazem, mas não sabem que isso é  ruim (No já citado Édipo Rei de Sófocles ele casa com sua mãe sem o saber), ou quando praticam as ações em completa ignorância.

A piedade ou a compaixão é uma sensação causada pela desgraça dos personagens. A platéia – que era extremamente exigente e ativa no teatro grego -, sente pena e repugnância. A força destas emoções é um prazer causado pela mimesis destes personagens, que leva à catarse das emoções.  A catarse é uma mistura de alívio e prazer. Para Albin Leski, a catarse não está ligada a nenhum  efeito moral, entender a questão desta forma soa como um anacronismo  cristão.  Ou seja, não há, no sentido próprio da Poética, uma "purificação do Espírito", uma ascese da alma. Os espectadores não se sentem melhores por expulsar o mal de suas almas, tal sentido se assemelha a uma moral cristã tal como a Idade Média pinta.

Tradução da Poética usada: Eudoro de Souza.

Link: Comparação da visão da Poesia de Platão em “A República” e de Aristóteles em “A Poética”

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