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BARÃO DO RIO BRANCO – Resumo da biografia e obra



O BARÃO DO RIO BRANCO, José Maria da Silva Paranhos (Rio de Janeiro, 1845-1912) era filho do grande estadista do mesmo nome e que teve o título de Visconde do Rio Branco.

Estudou seis anos no Colégio de Pedro II, onde o curso era então de sete anos, e formou-se em Direito na Faculdade de São Paulo.

Foi professor interino de História e Corografia do Brasil no Colégio de Pedro II e exerceu o cargo de promotor público na comarca de Nova Friburgo, na província, hoje Estado do Rio de Janeiro.

Deputado geral pela província de Mato Grosso nas legislaturas de 1869 a 1872 e de 1872 a 1875, Rio Branco durante algum tempo colaborou no jornal A Nação, mas logo, desgostoso da política partidária, entrou a desempenhar em Liverpool, desde 1876, as funções de cônsul do Brasil, e depois da revolução de 1889, desta data até 1892, ocupou o lugar de superintendente geral da emigração.

Em 1894, nomeado ministro plenipotenciário e enviado extraordinário do Brasil perante o governo dos Estados Unidos da América, no processo de arbitragem da secular questão de limites entre o nosso país e a República Argentina, obteve aquele esplêndido triunfo, que foi a decisão do presidente Cleveland, dando-nos ganho de causa no território das Missões.

Perante o governo da República Helvética teve ainda a incumbência de advogar os direitos do Brasil na pendência de limites com a Guiana Francesa (110), e ainda aí logrou a mais assinalada vitória.

Desde 1902 até morrer foi ministro das Relações Exteriores e nesta qualidade dirimiu a intrincada (111) questão do Acre, assegurando ao Brasil, pelo tratado de Petrópolis, celebrado a 17 de novembro de 1903, entre nossa Pátria e a Bolívia, um novo, imenso e produtivo território, que em superfície excede vários Estados da União.

(110) Pronuncie-se Ghiana, não Guiana, pois que vem do topónimo francês Guiene; e leia-se o que escreve o ilustre Prof. Pedro A. Pinto, às pp. 93-95 do seu livro Vocábulos Médicos e de Outra Natureza, 1944. (111) Intrincado alter, de intricado, do verbo lat. intricare, enredar. A ressonância nasal da primeira sílaba influiu na segunda. O povo pronuncia, sob esse mesmo impulso nasalante, impingem, choramingar, marimbondo, geringonça, por impigem, choramigar, maribondo e gerigonça.

A criação do primeiro cardinalato sul-americano para o arcebispo do Rio de Janeiro, a celebração, nesta capital, da 3.a Conferência Internacional Americana, a participação conspícua do Brasil na Conferência da Paz em Haia, o tratado da lagoa Mirim e do rio Jaguarão, afirmando à República do Uruguai e ao mundo a perduração das generosas tradições da política brasileira no Continente — remataram a glória dêste Brasileiro, que de si sempre afastou todas as tentativas para o colocarem na presidência da República.

Rio Branco, que foi presidente do Instituto Histórico e Geográfico e membro da Academia Brasileira de Letras, escreveu: — Episódios da Guerra do Prata, 1825-1828, trabalho primeiramente estampado em uma Revista Mensal do Instituto Científico de São Paulo; um esboço biográfico do general José de Abreu, Barão de Cerro Largo, trabalho publicado na Revista do Instituto Histórico; anotações copiosas à obra de L. Schneider, A Guerra da Tríplice Aliança, traduzida do alemão pelo erudito Dr. Manuel Tomás Alves Nogueira; várias notícias em francês sobre o Brasil e o nosso café, divulgadas em 1884, quando Rio Branco representava o Brasil na exposição de Petersburgo; a parte histórica nota-bilíssima, escrita em francês, na obra Le Brésil en 1889, organizada pelo sindicato franco-brasileiro na Exposição Universal de Paris, naquela data: umas Efemérides Brasileiras, que primeiro apareceram no Jornal do Comércio do Rio de Janeiro e cujas l.a e 2.a edições, publicadas pelo Instituto Histórico, em 1918 e 1938, tiveram a meticulosa direção do eminente Prof. Basílio de Magalhães. São ainda do grande Chanceler as valiosíssimas Memórias apresentadas nos Estados Unidos e na Suíça para a defesa dos nossos direitos nas questões das Missões e do Amapá. Forma um livro de 840 páginas o trabalho de Rio Branco, reivindicando o último destes territórios.

Escritor que antes de tudo se propunha ser claro e metódico, Rio Branco essencialmente se distingue pela correção e limpidez do estilo.

O Barão de Cêrro-Largo

Votado ao esquicemnto, vivia o bravo barão do Cêrro–Largo ignorado nos subúrbios de Porto Alegre, só entregue às afeições da família. Tragava em silêncio a injustiça de que fora vítima, quando a presença do excelso fundador do Império, despertando entre os riograndenses o amortecido entusiasmo, fê-lo sair do seu retiro para oferecer à Pátria como simples soldado a sua espada gloriosa.

Infelizmente a presença do Imperador, se muitos benefícios levou ao exército, não pôde todavia produzir todas as vantagens que eram de esperar; e a sua volta súbita e inesperada fêz com que (112) a província recaísse na mesma prostração em que

(112) …fez com que — sintaxe paralela a fez que, ambas de uso na língua e já bem esclarecidas pelos filólogos. Mais corrente é a segunda, que em Os Lusíadas quase única se depara. (V. 30, 94; IX, 1, 78; X, 29, 123, 152 etc). Rui, na Réplica (147, nota 3) e Heráclito Graça nos Fatos da Linguagem, 1904 (pp. 312-317) carrearam exemplos decisivos para esclarecimento do assunto.

estivera antes mergulhada. Foi assim que mui dificilmente se pôde recolher o produto de uma subscrição popular, agenciada durante a presença do príncipe, com o fim de auxiliar as urgências do Estado nas despesas da guerra, e que dos homens que se haviam oferecido para reunir voluntários destinados a engrossar as fileiras do exército, apenas o barão do Cêrro-Largo cumpriu a sua promessa.

Que fatalidade pesava então sobre o governo do Brasil! Possuíamos um exército numeroso e aguerrido, que facilmente poderia ter-nos assegurado pronta a vitória e, não obstante, no teatro da luta havia apenas recursos insignificantes e uma força mais que diminuta!

Ao regressar para a corte, o Imperador deixara já no Rio Grande o novo presidente e o comandante-em-chefe do exército. Para o primeiro desses lugares havia sido nomeado o brigadeiro Salvador José Maciel, e para o segundo o tenente-coronel marquês de Barbacena (Felisberto Caldeira Brant Pontes).

O novo general quis aproveitar os serviços do ilustre barão do Cêrro-Largo, cujo nome conhecia e respeitava, e antes de partir para Sant’Ana do Livramento teve com êle uma larga conferência, manifestando-lhe por essa ocasião toda a estima e veneração que lhe votava.

Querendo dar-lhe no exército uma posição condigna ao alto posto que ocupava, ofereceu-lhe o marquês o comando de uma divisão, mas o velho general opôs-se formalmente a isso, e preferiu combater como simples soldado a aceitar tão honrosa comissão.

Depois dessa conferência o barão do Cêrro-Largo se dirigiu a São Gabriel, onde começou a reunir os voluntários que acudiam ao seu chamado, e o marquês encaminhou-se para Sant’Ana do Livramento, aonde chegou no 1.° de Janeiro de 1827, tomando posse do comando do exército dez dias depois.

Já a esse tempo se movia em procura da nossa fronteira o exército argentino do general Alvear, forte de onze mil homens e vinte e quatro bocas de fogo. (Formava três corpos ou divisões; um de infantaria ao mando do general E. Soler, era o 3.°

corpo; e dois de cavalaria, 1.° e IP, ao mando dos generais J. A. Lavalleja e Julián Laguna. A artilharia era comandada pelo coronel Iriarte). A inação em que estivemos por espaço de mais de um ano dera tempo a que o inimigo se preparasse descansadamente e assumisse a ofensiva, reconhecendo-se habilitado para guerrear-nos em nosso próprio território.

A direção que traziam os contrários era ignorada dos nossos, mas qualquer que ela fosse, devera decidir o marquês a abandonar Sant’Ana do Livramento, para se reunir às forças que às ordens do marechal de campo Gustavo Henrique Brown, chefe do estado-maior, se achavam na fronteira do Jaguarão.

O intento de Alvear era penetrar por Bagé, colocando-se entre Barbacena e Brown para batê-los separadamente; mas, apesar das precauções que tomara no intuito de ocultar seus movimentos, passou pela decepção de ver frustrado (113) o seu plano.

A 13 de janeiro o general-em-chefe (114) deixou SantAna do Livramento, e foi acampar na várzea do Morro Grande, margem esquerda do Cunha-Peru, destacando nesse dia o general Sebastião Barreto com mil e setecentos homens de cavalaria para observar em Bagé o inimigo, e certificar-se de seus movimentos.

Moléstia repentina e perigosa deteve o marquês naquele sítio até o dia 19; mas três dias antes, a 16, recebendo comunicação de que o inimigo se mostrara em força no passo das Pedras, e que uma de suas grandes avançadas penetrara em Bagé, expediu ordem a Gustavo Brown para que, quanto antes, se reunisse ao exército, e começou a forçar as marchas, tomando a 4 de fevereiro posição no arroio das Palmas, onde, protegido pelo terreno, esperou que o inimigo o viesse atacar.

No dia seguinte realizou-se a junção das forças que Brown conduziu desde a cidade do Rio Grande.

Vendo destruído o seu plano, Alvear não ousou atacar o pequeno exército imperial na posição que este ocupava, e tomou o partido de atraí-lo para o interior da província, procurando o vale de Santa Maria.

(113) frustrado — O povo inclina-se a eliminar, por dissimilação, o — r — de uma sílaba, quando há outro em sílaba contígua: assim a linguagem vulgar diz frustar, fragancia, prostar, própio, opróbio, rasto, pertu-bação, exprobar, procastinar etc, sem o r da sílaba seguinte. Evitem-se tais erros. (114) General-chefe, melhor do que general-em-chefe.

Quando o dia começou a despontar, avistou a nossa vanguarda forças inimigas. O barão deu-se pressa em prevenir o general-em-chefe, e este, firmemente persuadido de que grande parte do exército argentino estava já na margem esquerda do Santa Maria, acelerou a marcha, julgando que tinha de haver-se unicamente com uma fração dele.

Qual não seria a sua surpresa, quando, às cinco e três quartos da manhã, avistou em linha mais de dez mil homens, espe-rando-o firmes no lugar que haviam escolhido para oferecer-lhe combate?!

Já era tarde para recuar. Nossa vanguarda, ao mando do intrépido Cêrro-Largo, sustentava um renhido fogo de atiradores com as avançadas inimigas. Era preciso tomar posições e pelejar.

Nosso pequeno exército, apenas composto de cinco mil e quinhentos e sessenta e sete homens, com dez bocas de fogo, colocou-se em frente do inimigo, que se achava postado na coxi-lha de Santa Rosa, e o ataque começou, tendo lugar (115) a célebre batalha de Ituzaingô.

Esse punhado de bravos que não descansavam desde a madrugada de 19, e que desde então quase não haviam tomado alimento, tiveram de bater-se com exército duas vezes superior em número, e que a esta vantagem reunia a de estar em repouso havia dois dias.

(A força total do exército brasileiro, incluindo os 560 voluntários do Barão do Cêrro-Largo, montava a 7.287 homens, dos quais 4.298 de cavalaria, 2.189 de infantaria, 240 de artilharia; mas a 1.a brigada ligeira, ao mando de Bento Manuel e forte de 1.200 homens de excelente cavalaria, tendo sido destacada do exército no dia 3, só se reuniu a ela no dia seguinte ao da batalha, à qual não assistiram também 153 infantes. Deduzindo–se do número total estes 1.353 homens, ver-se-á que só estiveram presentes a ela 5.567 homens.

(115) Parece quase impossível fazer desaparecer esse lamentável galicismo de expressão: ter lugar (avoir lieu), tão generalizado está o seu uso entre todos os que, por ignorância ou descaso, menosprezam o idioma nacional. Realizar e efetuar são os verbos que correspondem àquela expressão francesa, de que tão grosseiramente abusam os noticiaristas. Tem lugar, entretanto, quando significa ter cabimento, ter guarida, ter colocação, é lídimo português, como se vê na derradeira linha do n. 58 da Réplica: "Qual a vantagem com que [essa redação] beneficia o texto [da lei] em clareza, elegância ou energia? Nenhuma. Logo, não tem lugar: deve sumir-se".

Está hoje provado pelos mapas oficiais, tanto do nosso exército como do exército republicano, que pelejaram em Ituzaingô, de um lado 10.557, argentinos e orientais, com 24 canhões, do outro 5.567 brasileiros, com 10 bocas de fogo. Entretanto, Alvear teve a habilidade de dizer na sua Exposición que só tinha 6.200 homens, e que os nossos eram 10.000, falsidade que ainda hoje se repete no Rio da Prata, apesar de estarem de há muito no domínio público os documentos que o desmentem. Não transcrevemos aqui esses mapas, mas eles se encontram na obra de Titara, que primeiro os publicou e na Memória do Sr. Machado de Oliveira, assim como nos Apuntes do Sr. A. D. Pascual).

Não cabe nos limites deste humilde trabalho dar aqui uma notícia circunstanciada da batalha de 20 de fevereiro de 1827, batalha em que tantos rasgos de valor e de heroísmo obraram os nossos soldados, faltando-nos apenas um general hábil e experimentado. Talvez o façamos mais tarde se, como desejamos, pudermos escrever a história dessa guerra desgraçada, cuja direção foi uma série não interrompida de desacertos fatais.

(Esboço Biográfico do General José de Abreu, Barão de Cerro-Largo, na Revista Trimensal do Instituto Histórico, Geográfico e Etnográfico do Brasil, tomo XXXI, parte 2.a, páginas 120 e seguintes).


Seleção e Notas de Fausto Barreto e Carlos de Laet. Fonte: Antologia nacional, Livraria Francisco Alves.

 

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