DAS OBRAS DO ESPÍRITO, por La Bruyère



Retirado do volume “Pensadores Franceses” da Coleção Clássicos Jackson. Volume XII, tradução de J. Brito Broca e Wilson Lousada.
Jean La Bruyère nasceu em 1645 em Paris e morreu de apoplexia em 1696. Faz parte, junto com La Rochefoucauld e outros, do grupo chamado de “moralistas franceses”

    Tudo está dito, e chegamos tarde demais, depois que há mais de sete mil anos há homens, e que pensam. Sobre o que diz respeito aos costumes, o melhor e mais belo já foi tomado por outros; agora não fazemos senão respingar nos antigos e nos mais hábeis dentre os modernos

   O que é preciso é procurar chegar a uma maneira de pensar e a uma maneira de falar que sejam justas, sem querer trazer os outros ao nosso gosto e aos nossos sentimentos; esta é uma empresa grande demais.

   Fazer um livro é um ofício, como fazer um relógio; alguma coisa mais é precisa, além de ter , para ser autor. Um magistrado tinha chegado, por seu mérito, à mais alta dignidade da magistratura, era homem desembaraçado e prático nos negócios; fez, porém, imprimir uma obra moral e essa pode ser considerada rara pelo ridículo.

    Não é tão fácil alcançar a fama com uma obra perfeita como fazer valer uma obra medíocre graças ao nome que já se tem

   Uma obra satírica ou que faz a narração dos fatos, e que é distribuída em folhas volantes, secretamente, com a condição de ser devolvida do mesmo modo, sendo medíocre, passará por maravilhosa; a impressão é que o escolho.

   Retirando de muitas das obras de moral o aviso ao leitor, a mensagem que leva a dedicatória, o prefácio, o índice das matérias, as aprovações da crítica, o que fica são apenas algumas páginas que mal merecem o nome de livro

   Há certas coisas cuja mediocridade é insuportável: a poesia, a música, a pintura, o discurso em público
Que suplício é ouvir declamar pomposamente um frio discurso ou recitar com versos medíocres com toda a ênfase de um mau poeta!

   Certos poetas são sujeitos, no gênero dramático, à produção de longas tiradas de versos pomposos, que parecem fortes, elevados, e cheios de grandes sentimentos; o povo escuta avidamente, com os olhos no alto, e de boca aberta, crê que essa poesia lhe agrada, e quanto menos entende, mais a admira; não tem tempo nem para respirar, apenas tem tempo para exclamar e aplaudir. Acreditei, outrora, na minha primeira juventude, que essas passagens em verso eram claras e inteligíveis para os atores, para a platéia e para os balcões de teatro; que os atores se compreendiam entre si e que, com toda a atenção que eu dava à recitação, era minha a culpa se não entendia nada; hoje, porém, estou desenganado a este respeito.

   Não se viu, até hoje, uma obra-prima do espírito que seja obra de muitos: Homero fez a Ilíada, Virgílio a Eneida, Tito Lívio as suas Décadas, e o Orador romano as suas Orações

   Há na arte um ponto de perfeição, como a bondade ou a maturidade, na natureza: aquele que tem este sentido de perfeição, e o ama, tem um gosto perfeito; aquele que não tem esse sentido justo, e ama pouco mais ou menos a perfeição, tem um gosto defeituoso. Há, pois, um bom gosto e um mau gosto, e é justo que os gestos se discutam.

   Há mais vivacidade de espírito do que gosto, na maior parte dos homens: ou, para melhor dizer, há poucos homens cujo espírito se acompanhe de um gosto seguro e de uma crítica judiciosa.

   A vida dos heróis enriqueceu a história, e a história embelezou a vida dos heróis: assim, não sei quem mais deva, de uns e de outros, se aqueles que escreveram a história, aos que lhe forneceram uma tão nobre matéria, ou se estes grandes homens aos seus historiadores.

   Montões de epítetos são maus louvores: são os fatos que conferem os louvores, e, também, a maneira de os contar.

   O verdadeiro espírito de um autor consiste em bem definir e em bem descrever. Moisés, Homero, Platão, Virgílio, Horácio, não estão acima dos outros escritores senão por suas formas de expressão e suas imagens: é preciso exprimir o verdadeiro para escrever naturalmente, fortemente, delicadamente.

   Deve ter sucedido com o estilo o que sucedeu com a arquitetura: abandonou-se inteiramente a ordem gótica, que a barbárie tinha introduzida, para os palácios e para os templos; fez-se apelo, de novo, ao dórico, ao jônico, ao coríntio: o que não mais se via senão nas ruínas da antiga Roma e da velha Grécia, transformado em moderno, brilha nos nossos pórticos e nos nossos peristilos. Do mesmo modo, não se pode, escrevendo, encontrar a perfeição e, quando é possível, exceder os antigos senão imitando-os.

    Quantos séculos se passaram antes que os homens, nas ciências e nas artes, pudessem voltar ao gosto dos antigos, voltando, enfim, ao simples e ao natural!

   Alimenta-se quem escreve do suco dos antigos e dos modernos mais hábeis, expremendo-os, tirando deles o mais que pode, enchendo com eles as suas próprias obras; e quando, enfim, é autor, e crê que pode marchar sozinho, é para se insurgir contra eles, para os maltratar, assim como essas crianças, decididas e fortes, à custa do bom leite que as nutriu, e que batem na ama.

    Um autor moderno prova ordinariamente de duas maneiras que os antigos nos são inferiores, pela razão e pelo exemplo; mas vai buscar a razão ao seu gosto particular, e o exemplo às suas próprias obras. Confessa que os antigos, por muito desiguais e pouco corretos que sejam, tem belos rasgos de espírito; e cita-os, e por isso consegue, porque eles são realmente belos, que se leia a crítica que lhes faz.

    Alguns, entre os mais hábeis, pronunciam-se a favor dos antigos, contra os modernos, mas são suspeitos, porque advogam em causa própria, tanto suas obras feitas no gosto das da antiguidade: sua defesa deve por isso ser rejeitada.

    Quem escreve devia ter gosto em ler suas obras àqueles que sabem bastante paras as poderem apreciar e corrigir.

   Não querer ser aconselhado nem corrigido em suas próprias obras é pedantismo.
É preciso que um autor receba com igual modéstias os elogios e a crítica que fazem à sua obra.

   Entre todas as diferentes formas de expressão de um dos nossos pensamentos, há uma só que é boa; nem sempre a encontramos quando falamos ou quando escrevemos: é verdade, entretanto, que ela existe e que qualquer outra coisa que não seja ela é fraca e não satisfaz o homem de espírito que procura fazer-se entender.

   Um bom autor, e que escreva com cuidado, reconhece muitas vezes que a expressão que procura há longo tempo sem conseguir achá-la, que acaba finalmente por encontrar, é a que era a mais simples, a mais natural, e parecia que devia ser a primeira a apresentar-se-lhe e sem esforço.

   Os que escrevem por fantasia são inclinados a retocar o que escreveram; como a fantasia não é sempre fixa e varia neles conforme a ocasião, perdem facilmente o entusiasmo por esta ou por aquela forma de expressão e pelos termos que antes lhes pareciam os melhores.

   A mesma justeza de espírito que nos leva a escrever boas coisas conduz-nos também à apreensão de que não sejam bastante boas para merecerem que as leiam.

   Um espírito medíocre pode crer que escreve divinamente; um bom espírito deve escrever com todos os cuidados da razão.

    Persuadiram-me, diz Aristo, a ler as minhas obras a Zoilo; fi-lo: elas impressionaram-no, primeiro, e, antes que tivesse tempo de as achar más, elogiou-as, modestamente, na minha presença, mas não as louvou, depois, diante de ninguém: não o culpo por isso, mas nada mais peço a um autor, lamento-o até por ter escutado belas coisas que não foram escritas por ele.

    Aqueles que, por sua condição, são isentos de inveja, entre autores, é que tem paixões ou necessidades que os distraem e os tornam frios em relação às concepções alheias: não há quase ninguém, por sua disposição de espírito, de coração ou de fortuna, que esteja em estado de se entregar ao prazer que pode dar a perfeição de uma obra escrita.

    O prazer da crítica tira-nos o prazer, mais vivo, de nos deixarmos tocar pelas coisas belas deste mundo.

   Muitas pessoas vão até compreender o merecimento de um manuscrito, cuja leitura foi feita em sua presença, e são incapazes de se declararem a seu favor sem antes terem visto o caminho que está reservado à obra depois de impressa, ou a sorte que a espera na opinião dos mais hábeis; não arriscam uma opinião, e esperam, para serem levados pela opinião da massa e arrastados pela multidão; e, no fim, dirão que foram os primeiros a aprovar a obra e que o público os segue, a eles, sem sua crítica.

    Alguns, que leram uma obra, citam dela algumas passagens de que não compreenderam o sentido, e que eles alteram, ainda, com tudo que lhes acrescentam de seu; e essas passagens, corrompidas e desfiguradas, que não são senão as idéias que eles tem, com sua própria expressão, são assim expostas à censura, sustentando eles que são más e inaceitáveis, no que são naturalmente acompanhados por toda gente; mas o caso é que as passagens da obra que esses críticos julgam estar, e que na verdade não são as da obra, não são piores, nem tão más, como a versão que eles dão.

    Não há obra tão perfeita que não se desfaça completamente ao sopro da crítica, se o autor quiser levar em consideração todos os censores contando que cada um há de arrancar da obra a parte que menos lhe agrada.

    É a experiência feita de que, quando dez pessoas retiram de um livro uma expressão ou sentimento que lhes não agrada, logo se encontram outras dez que reclamam e exigem: “Por que suprimir este pensamento? é novo, belo, e a forma de expressão é admirável.” Aqueles outros afirmam, pelo contrário, ou que deixariam de parte este pensamento ou que lhe dariam outra forma. Uns dizem: ” Há um termo, na sua obra, que foi muito bem achado, e que pinta a coisa ao natural”. Outros dirão: “Há um termo que é ousado, e que, ademais, não representa bem o que você mesmo talvez tenha querido dizer”. E, entretanto, é da mesma passagem e da mesma palavra que todos dão sua opinião; e todos são conhecedores, e assim tidos por toda a gente. Que outro partido pode seguir o autor senão o de ousar, em vista disso, ser da opinião dos que o aprovam?

   Um autor sério não está obrigado a encher seu espírito de todas as extravagâncias, de todas as grosserias, de todas as más palavras que se podem dizer e de todas as ineptas aplicações que se podem fazer à respeito de algumas passagens de suas obras e, menos ainda, a suprimi-las; deve continuar convencido de que, por maior que seja a escrupulosa exatidão na maneira de escrever, sempre haverá alguns maldosos espíritos, dispostos a metê-lo em ridículo, cujo frio sarcasmo é um mal inevitável, e para os quais as melhores coisas de uma obra só servem, muitas vezes, para eles encontrarem, nessas passagens, as tolices que têm no espírito.

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