DEFESA DO TERRITÓRIO – História do Brasil

DEFESA DO TERRITÓRIO – História do Brasil

História do Brasil -Manual Didático para a Terceira Série Ginasial por Ary da Matta (1947) 

História do Brasil de Ary da Matta
Cap. 1 – O descobrimento
Cap. 2 – Os primórdios da colonização
Cap.3 – A formação étnica
Cap. 4 – Expansão geográfica
Cap. 5 – Defesa do território
Cap. 6 – Desenvolvimento econômico
Cap. 7 – Desenvolvimento espiritual
Cap. 8 – O sentimento nacional

UNIDADE V
DEFESA DO TERRITÓRIO

1. As incursões francesas; 2. As incursões inglesas; 3 As invasões holandesas.

A cobiça de ingleses, franceses, holandeses pela nossa terra exigiu da parte da coroa e dos brasileiros um grande esforço em defesa do território. Do Rio de Ja­neiro e do Maranhão foram desalojado:- os franceses, desejosos de ali estabelecerem feitorias de colonização, após um penoso esforço de que .resultou firmar-se defi­nitivamente a posse portuguesa nas terras do Brasil.
As incursões inglesas são meros atos de pirataria sem maiores consequências em nossa formação social, polí­tica e económica.
Às tentativas de estabelecimento de um Brasil Holandês reagimos, os brasileiros,. espontaneamente, numa luta desigual, pelos recursos militares de que dispunha o invasor. Nossa vitória, mais que sucesso militar, foi principalmente a afirmação do sentimento nativista que com êle nasce e nos acompanha até as campanhas da independência.

O brilho passageiro da administração nassoviana, atendendo aos caprichos de um príncipe inteligente e bem intencionado, não justifica de modo algum a manuten­ção do domínio da Companhia das Índias Ocidentais em nossa Pátria.

1. As incursões francesas

Desde os primórdios de nossa vida colonial, os fran­ceses disputaram aos portugueses pontos do litoral, onde levantaram feitorias para o contrabando do pau–brasil e de onde foram sempre desalojados pelas ar­madas de guarda-costa e pelas expedições portugue­sas, sucessivas a partir dos meados do século XVI.
Alguns estabelecimentos franceses lograram radicar-se em nosso território: em 1555, no Rio de Ja­neiro de onde foram expulsos em 1567; e em 1612, no Maranhão de onde os desalojou Jerónimo de Albuquer­que; no início do século XVIII, em 1710 e 1711, corsá­rios franceses pilham o Rio de Janeiro como represália à política de aliança portuguesa à Inglaterra então em luta com os Bourbons de França.
Franceses no Rio de Janeiro em 1555 — A ten­tativa de colonização francesa no Rio de Janeiro, em 1555, iniciada por Villegaignon no ilhéu Seregipe e continuada por Bois le Comte até a vitória portuguesa de 1567, de que resultou a expulsão dos franceses daquela praça, já foi por nós estudada- no capítulo 3 da unidade II. Tal episódio foi, realmente, o primeiro de uma série que exigiu grandes esforços da colonização portuguesa já aliada a elementos nacionais para manter a defesa do nosso território numa época em que, lembra Capistrano de Abreu, o Brasil po­deria ser francês ou continuar português. A aliança dos índios da Praia Grande, a mediação dos jesuítas entre os tamoios hostis, constituem os primeiros elementos de de­fesa do território, já com certo acento nativista.
Franceses no Maranhão. — Expulsos da Guana­bara em 1567 e logo em seguida de Cabo Frio, continua­ram os franceses a usar de sua influência junto ao gentio do litoral, o que de certo modo prejudicou os trabalhos de conquista do Norte.

Em 1594 os armadores diepenses Charles de Vaux e Jaques Riffault, saídos do porto de Brest, chegaram à ilha do Maranhão, ali estabelecendo uma feitoria francesa, con­tando, como sempre, com a aliança dos tupinambás. Pouco depois Charles de Vaux parte para a França conseguindo interessar Henrique IV em sua obra. O monarca francês encarregou Daniel de la Touche, senhor de la Ravardière, de examinar no próprio local as condições para o estabeleci­mento de um núcleo de colonização francesa.
Quando Daniel de ia Touche voltou a dar conta de sua missão, já Henrique. IV havia sido assassinado (1610), mas obteve de Maria de Médicis, regente na minoridade de Luís XIII, o necessário auxílio para colonizar o Maranhão.
,Em 1612 partiu da Bretanha a expedição de Daniel de la.Touche associado a Nicolau de Harley e Francisco de Rassily, composta de 3 navios com 500 aventureiros e 4 capuchinhos. Um temporal na Mancha arrastou-os à In­glaterra, de onde tomaram o rumo da ilha do Maranhão. AH levantaram um forte que recebeu o nome de S. Luís, cons­truíram armazéns, casas, convento franciscano.
A nova colónia progrediu rapidamente, desenvolveram–se canaviais e usinas, incentivou-se o comércio do pau–brasil.
Expulsão dos franceses. — Em 1613 o governa­dor Gaspar de Sousa ordenou a Jerónimo de Albuquerque, nomeado capiíão-mor da conquista do Maranhão, que de­salojasse os franceses para completar a conquista do litoral este-oeste. Albuquerque levou consigo Martim Soares Mo­reno, herói do Ceará; pretendeu levantar um forte em Ca-mocim, que foi transferido depois para a baía das Tarta­rugas, cm Jererecuacara.
Martim Soares Moreno seguiu numa lancha pelo Rio Preá e alcançou a baía de S. José, onde encontrou um for­tim francês artilhado com 20 peças. O explorador mila­grosamente conseguiu esquivar-se a seus inimigos. Uma tempestade arrastou-o às costas da Venezuela. Dali passou a São Domingos e logo depois a Sevilha, de onde Jerónimo

Fortaleza de Villegaignon (de uma gravura antiga).

de Albuquerque se retirou para Pernambuco deixando uma guarnição em Jererecuacara.
Para melhor acompanhar a luta contra os franceses, Gaspar de Sousa transferiu-se para Olinda.
Em 1614, nova expedição contra os franceses da ilha do Maranhão foi confiada ao mesmo Jerónimo de Albuquerque, auxiliado por Diogo de Campos Moreno. Penetraram pelo Rio Preá e foram atacar os franceses do fortim de Itapari, na baía de S. José, enquanto o grosso das forças francesas se concentrara na baía de São Marcos. Prosseguiram até Guaxenduba e levantaram o forte de Santa Maria, fronteiro às guarnições francesas da ilha. A 12 e 19 de novembro, o inimigo atacou o forte com ajuda de índios, mas foi rechaçado pela tropa comandada por Jeró­nimo de Albuquerque e seu filho António, Diogo de Cam­pos, Francisco Frias, Gregório Fragoso e Manuel de Sousa e Sá. A ofensiva portuguesa que se seguiu foi coroada de êxito e o morticínio amedrontou la Ravardière, de que re­sultou uma trégua assinada a 27 do mesmo mês.

A trégua foi quebrada por Alexandre de Moura, no­meado "governador geral de armada e conquista", que de­cidiu abandonar o ataque pelo rio Preá e investir diretamente sobre o inimigo fortificado na baía de São Marcos. Jerónimo de Albuquerque cooperou com o novo chefe mar­chando por terra e a 3 de novembro de 1615 la Ravardière entregou a praça.

Durara quase um século a luta contra os franceses que, expulsos do Maranhão, abandonaram definitivamente o plano de conquista e se retiraram para as Guianas. Jerónimo de Albuquerque em memória de sua vitória passou a assinar-se Maranhão. 

                                                                                 

QUESTIONÁRIO REFLEXIVO

1  — Quais as mais célebres incursões francesas no Brasil?
2  — Que nos lembra as datas 1594 e 1612 na história da capi-
tania do Maranhão?
3  — Quem governava o Brasil nesta época?
4  — Quais os chefes da chamada "França Equinocial"?
5  — Quais os principais chefes da reação aos franceses do Ma-
ranhão?
6  — Qual a participação de Martim Soares Moreno nesta luta?
7  — Quais as posições francesas e portuguesas ao se iniciar a
campanha de expulsão de 1614?
8  — Que nos lembra a data 3 de novembro de 1615?

Sugestões para exercício de redação e exposição oral:
a)  — Villegaignon c a tentativa de colonização francesa no Rio de
Janeiro.
b)  — Jerônimo de Albuquerque Maranhão.

2. As incursões inglesas
A rivalidade anglo-espanhola refletiu-se no Brasil, en­tão colónia da Espanha.
Contra os estabelecimentos espanhóis do Brasil os in­gleses realizam, como represálias, atos de simples pirataria, sem cogitar de estabelecer permanentemente núcleos de co­lonização.
Data de 1583 a primeira, incursão inglesa, quando o corsário Edicardo tenta desembarcar em Santos. Foi infe­liz em sua tentativa e teve que se retirar perseguido de perto pela esquadra espanhola.
Em 1587 um outro pirata inglês, Robert Withrington, atacou a Bahia tentando apossar-se da cidade do Salvador, sendo rechassado. Vingou-se o corsário devastando, pilhan­do e saqueando o Recôncavo bravamente defendido por Cristóvão de Barros e pelo Padre Cristóvão de Gouveia e índios catequisados.
Thomas Cavendish, o pirata elegante da época, sur­preende em 1591 a população santista recolhida na igreja, nssístíndo à missa. Aprisionou-a no templo e deu início a um saque de dois meses. Mais tarde parte de sua tripula­ção foi morta quando voltava a Santos, desastre que se repetiu em seguida no Espírito Santo.
Em 1595 assinala-se um último ato de pirataria. Ja­mes Lencaster e o francês Jean Verner atacam o Recife e dominam a cidade durante cerca de um mês, levando va­liosos despojos, em tão grande número, que tiveram que fretar barcos franceses e holandeses para o seu transporte.

3. As invasões holandesas

Antecedentes. — Ao findar o século XVI a Holanda, tornado independente da Casa d’Áustria em 1579, transforma-se nas Pro­víncias Unidas sob o governo de Guilherme o Taciturno, pas­sando a ser uma grande potência comercial e marítima. Amster-dam, Haia, Roterdam, foram portos movimentadíssimos. Suas ligações com Portugal datam do período medieval em que os flamengos iam procurar em Lisboa os produtos e drogas com que serviam os portos do norte europeu e ali deixavam tecidos, cereais, aparelhos náuticos, peixe salgado. Com as grandes na­vegações da Idade Moderna e consequente formação do império português, mercadores holandeses encontram em Lisboa os dis­putados produtos tropicais com que serviam sua grande clientela da Europa Setentrional.
Com a passagem de Portugal para o domínino da Espanha, perderam os holandeses o seu grande entreposto de. drogas e produtos tropicais. Não tardou que contra eles Filipe II exercesse represálias. Em 1585, 1590, 1595 e 1599 confiscou-lhes as cargas, encarcerou tripulações.

Pintura a óleo sobre madeira (0,34 >: 0,01), assinada por Franz Post e datada de 1648 — coleção do Palácio Guanabara, Rio de Janeiro.

Em 1602, para resolver a situação comercial e pôr fim às dissensões internas entre opulentos mercadores, foi criada a Com­panhia das índias Orientais. Diante dos excelentes resultados desta empresa, foi fundada a Companhia das índias Ocidentais, com um capital de mais de 7 000 000 de florins e um privilégio de ,24 anos; dispunha de cinco câmaras (Amsterdam, Zelândia, cidade dos Maás, Frísia e distritos do Norte) e em administrada por um conselho de dezenove membros. A Companhia operaria na África, no litoral atlântico da América, da Torra Nova e no litoral do Pacífico.

Contra o Brasil foram realizadas duas invasões; a primeira contra a Bahia em 1624; a segunda contra Pernambuco em 1630.

 

PRIMEIRA INVASÃO

O ataque à Bahia. — A expedição holandesa co­meçou a se reunir em fins de 1623, na ilha de São Vicente do Cabo Verde, partiram em março do ano seguinte em direção ao Brasil e a 8 de maio chegaram à Bahia de To­dos os Santos e a 9, transposta a barra, saltaram no pontal de Santo António sem encontrar resistência..
Era então governador do Brasil D. Diogo de Mendon­ça Furtado. Avisado a tempo da premeditada invasão, reu­niu soldados, armou colonos, índios e escravos e dispôs-se à resistência. Como tardasse a invasão e a ausência pro­longada do pessoal dos engenhos prejudicasse a lavoura voltaram para o interior abandonando a defesa do litoral e assim foram surpreendidos pelo inimigo.
A população retirou-se em pânico para o interior, in­cendiou carregamentos de açúcar, pau-brasil, fumo, peles, para que não caíssem nas mãos do invasor.
Da cidade do Salvador saíram bispo, clérigos, gente qualificada, internando-se no sertão, nos engenhos retirados, da capital. Abertas as vias de sucessão verificou-se que o governo caberia a Matias de Albuquerque Coelho que na ocasião se encontrava em Pernambuco. Para substituí-lo nesta emergência foi nomeado capitão-mor interino o desembargador Antão de Mesquita, logo substituído pelo bis­po D. Marcos Teixeira, o quinto titular daquela diocese. Sem dispor de tropas regulares para repelir o inimigo, adotou-se o sistema de guerrilhas. Organizaram-se companhias de emboscadas que agiam de modo a impedir que o inimigo se internasse no sertão à cata de recursos ou que se -articulasse com outros povoados.

Henrique- Dias.

Mal teve conhecimento da notícia Matias de Albuquer­que não teve descanso. Enviou reforços em dois caravelões que arribam às costas de Sergipe danificados por uma tem­pestade.

D. Francisco de Moura, nomeado capitão-mor do Re­côncavo, pôde reunir os reforços que obtivera de Matias de Albuquerque com as três caravelas que trouxera. As guer­rilhas internavam-se até Itapagipe e até a ponta de Santo Antônio.

João Fernandes Vieira.

Os principais chefes holandeses desaparecem. Johan-nes van Dorth foi vitimado numa emboscada; Albert Schout, seu sucessor, morreu de uma enfermidade contraída e seu-irmão e sucessor, Willem Schout, mostrou-se incapaz para o cargo.
Para libertar a Bahia do jugo holandês, ameaça direta no México e ao Peru, Olivares, ministro espanhol, enviou forte esquadra luso-espanhola sob o comando de D. Fra-dique de Toledo Ozório. D. Fradique chegou à Bahia em 29 de março de 1625, distribuiu seus barcos em linha fe­chando a baía desde a Ponta de Santo António até Itapa-gipe. Desembarcou em Santo António, avançou por São Bento, Palmeiras, Carmo, sitiou a cidade; a 30 de abril o inimigo assinava a capitulação. Nada pôde fazer o socorro holandês comandado por Hendrikszoon.

Forte Santo António da Barra estado atual. (Gentileza do S. P. A. H. N.)

 

QUESTIONÁRIO REFLEXIVO

1  —Qual a situação da política flamengo-ibérica no início do século XVII?
2  _ Que nos lembram as datas 1580 e 1640 na história portuguesa?
3  _ Qual a finalidade da Companhia das índias Ocidentais?
4  _ Quando foi realizado o primeiro ataque flamengo à Bahia?

5  — Quais os chefes holandeses?
6  — Qual a situação do Brasil ao se iniciar a invasão de 1624?
7  — De que recursos dispúnhamos para resistir ao invasor?
8  — Quais os chefes do movimento?
9  — Qual o motivo da importância histórica de D. Fradique de
Toledo Ozório? 10 — Como e quando foram expulsos os flamengos da Bahia?

Sugestões para exercício de redaçao e exposição oral:
a)   — Portugal e Holanda ao findar o século XVI.
b)   — Os chefes da resistência aos holandeses no ataque à Bahia.

Segunda invasão

(1630-1654)

O primeiro desastre que sofrera a Companhia das ín­dias Ocidentais com a derrota na Bahia foi largamente compensado com os lucros advindos do apresamento da "frota da prata" por Pieter Heyin, em setembro de 1628, junto ao litoral cubano. Só esta operação lhes acarretou um lucro igual ao dobro do capital empregado e os divi­dendos distribuídos pelos acionistas chegaram a 50 %.
Animados por este sucesso, os holandeses retomaram o plano de um ataque ao Brasil, desta vez dirigido contra a capitania de Pernambuco, então governada por Matias de Albuquerque.
Em dezembro de 1629 a esquadra holandesa (52 na­vios, dois iates, 13 chalupas, 3 780 marinheiros e 3 500 soldados) partiu de São Vicente de Cabo Verde e chegou a Pernambuco em 13 de fevereiro, iniciando o ataque no dia seguinte.
O ataque a Olinda. — Os olindenses, comandados pelo bravo Matias de Albuquerque, não dispunham de re­cursos militares para resistir à pressão de forças incompa­ravelmente maiores. Por outro lado as obras de fortifica­ção e defesa litorâneas, mal artilhadas e pior municiadas, não poderiam resistir.
O inimigo dividiu-se em 3 colunas de ataque. A ar­mada, sob o comando do almirante Lonck, atacou a barra e foi obrigada a retroceder por encontrá-la obstruída. Die-derich van Veerdenburgh, com 3 000 homens, tomou o rumo do Pau Amarelo e um terceiro grupo marchou diretamente para Olinda.. Os atacantes encontraram débil resistência logo dominada e à noite já eram senhores da praça.
Retirada de Matias de Albuquerque. — Matias de Albuquerque retirou-se para o interior destruindo na­vios, carregamentos e armazéns. Resistiu ainda algum tempo mas a 2 de março pôde a esquadra atacante penetrar na barra.


Na região entre o Capibaribe e o riacho Parnamirim, fundou o Arraial do Bom Jesus, logo povoado pelos que se furtavam ao domínio holandês. Dali pôde repelir vários ataques. O sistema de guerrilhas ofereceu outra vez ótimos resultados. Desde a fundação do Arraial do Bom Jesus, co­meçou a salientar-se o _ índio D. António Filipe Camarão (Poti) com seu terço de índios. O inimigo ficou isolado em Olinda, surpreendido muitas vezes nos seus fortes, fle-chado ou laçado quando se aventurava fora da cidade à cata de recursos que escasseavam em Olinda e Recife. Os espanhóis abandonaram a colónia à sua própria sorte, en­viando reforços ridículos. Reinóis, ilhéus, mazombos, índios, negros, mamelucos, mulatos, grupam-se espontaneamente em torno do general Matias de Albuquerque e tomam a ini­ciativa do combate ao invasor sem se preocupar com ques­tões dinásticas peninsulares e política europeia.
A 5 de maio de 1632 D. António de Oquendo qpman-dou uma esquadra para socorrer a Paraíba, Pernambuco e Bahia. Esta esquadra teve um encontro com a esquadra holandesa de Adrian Jansen Pater, nas alturas de Ilhéus, de que resultou a morte do almirante inimigo, apesar do que puderam os holandeses continuar a manter a supre­macia marítima.
Em terra, Matias de Albuquerque continuou a inquie­tar os invasores.
Calabar (1632-1635)* — A passagem de Domingos Fernandes Calabar, natural de Porto Calvo, para as hostes flamengas modificou sensivelmente a sorte das armas. O conhecimento perfeito da topografia pernambucana, o conhe­cimento minucioso do litoral e das veredas do sertão, trou­xeram ao inimigo um auxílio que compensou largamente a ação de Matias de Albuquerque.
Não tardaram os primeiros sucessos obtidos graças a Calabar: o ataque a Iguaraçu, penetrações no rio Formoso, a ocupação dos Afogados, incursões em Alagoas, ocupação

de Itamaracá e Rio Grande. Em seguida foi atacado o forte de Nazaré, no Cabo de Santo Agostinho.
Preparou-se depois, em fins de 1634, a conquista da Pa­raíba, governada por António de Albuquerque. Não obstante a heróica resistência dos nossos, os holandeses ali desem­barcaram em 24 de dezembro. António de Albuquerque re-tirou-se para Pernambuco. O inimigo, comandado por Ar-tichowsky, atacou çm seguida o arraial do Bom Jesus que caiu em 3 de junho, após heróica resistência. Segismundo van Schkopp foi atacar o forte de Nazaré no cabo de Santo Agostinho, ainda em nossas mãos. A 2 de julho de 1635 caiu a praça.
Matias de Albuquerque e sua gente retiram-se para Serrinha, em Alagoas, onde foram reunir-se a Bagnoli.
De passagem o general tomou Porto Calvo, onde se encontrava Calabar com 360 homens, vencendo-os com ape­nas 140. Calabar foi enforcado e a coluna abandonou Por­to Calvo e prosseguiu para o sul.
Em 15 de dezembro de 1635, por ordem de Filipe IV, D. Luís de Rojas Y Borja assumiu o comando em substi­tuição de Matias de Albuquerque, de quem recebeu a mais desinteressada e leal cooperação. D. Luís, morto na Mata Redonda quando combatia Arciszewsky, foi substituído poi Bagnoli. O novo comandante retomou o sistema de guerri­lhas, auxiliado pelos capitães André Vidal de Negreiros, Henrique Dias, Camarão, Rebelo e Souto.

 

NASSAU E O BRASIL HOLANDÊS

Em 1637 chegou a Pernambuco o príncipe João Mau­rício de Nassau Siegen, contratado pela Companhia por 5 anos para governar a colónia. Trazia o titulo de "Go­vernador, capitão-general e almirante das. forças de mar e terra da Companliia das índias Ocidentais e dos territó­rios conquistados ou a conquistar pela mesma no Brasil".
Chegado a Pernambuco tomou logo a iniciativa de con­quista, atacando Alagoas, de onde expulsou Bagnoli tomando Porto Calvo sob nosso domínio desde D. Luís de Ro­jas Y Borja. Na atual cidade de Penedo, próximo à foz do São Francisco, levantou o forte Maurício. Invadiu Ser­gipe e fez ocupar o Ceará. Entusiasmado com estes suces­sos tentou apossar-se de Salvador, na Bahia, em abril de 1638. A cidade, bravamente defendida pelo governador Pe­dro da Silva, Camarão e Luís Barbalho, resistiu à investida. Em socorro da Bahia, a Espanha enviou uma esqua­dra comandada por D. Fernando Mascarenhas. Na altura de Itamaracá a esquadra espanhola obteve vitória sobre a holandesa, comandada por Corneliszoon (12 de janeiro de 1640) mas em seguida a giande frota foi destroçada por Huyghens. D. Fernando Mascarenhas voltou então à Bahia.

Administração de Nassau. — Mais do que qua­lidades de soldado, Maurício de Nassau revelou grandes virtudes dç administrador e estadista. À primeira fase de seu governo de consolidação da conquista scguiu-se um período de reconstrução interna e pacificação da socie­dade. Procurou conciliar portugueses e holandeses, ju­deus, católicos e calvinistas, ensaiou um programa de liberdade religiosa, favoreceu a todos os agricultores conce­dendo largos créditos, atraiu para seu círculo de relações os naturais da terra.
Nem" sempre primou pela lealdade e parece não ter sido muito limpo de mãos com respeito ao dinheiro da Companhia.
Incrementou a produção açucareira com a intro­dução de moendas metálicas, regulamentou a extração do pau-brasil, desenvolveu a pecuária no Rio Grande, prote­geu os rebanhos com leis especiais. Reedificou Olinda, aumentou a área da cidade do Recife fazendo ocupar a ilha vizinha de Martim Vaz, saneada desde 1637. Ali cons­truiu o príncipe os palácios de Friburgo à margem do Beberibe e Boa Vista às margens do Capibaribe. Fundou um jardim botânico, um jardim zoológico. Fez-se cercar de sábios e artistas. Os irmãos Post (Pieter e Franz) inspiraram-se na natureza brasileira nos seus quadros famosos e obras de arquitetura. Os cientistas Willen Pizo e Gcorg Marcgraf estudaram a flora e a fauna brasileira, de onde surgiu a "Historia Naturalis Brasiliae". Marcgraf construiu ainda um observatório astronómico nos jardins de Friburgo.

A 1 de dezembro de 1640, Portugal recuperou sua independência separando-se da Espanha e aclamando como rei o duque de Bragança, que subiu ao trono com o título de D. João IV. Em junho, Portugal concluiu pazes com a Holanda, seguindo-se um tratado de aliança ofensiva e defensiva na Europa e de uma trégua de 10 anos nas lutas coloniais.
"Em virtude disso D. Jorge de Mascarenhas, marquês de Montalvão e primeiro vice-rei do Brasil, e Maurício de Nassau celebram pazes.

Em 1644 Nassau retirou-se para a Europa desgostoso com a Companhia. A inépcia de seus sucessores agravou a situação dos colonos, provocando reações sucessivas, des­truindo a obra de aproximação iniciada por Nassau.

 

QUESTIONÁRIO REFLEXIVO

1  — Quais os chefes flamengos da invasão de 1630 a Pernam-
buco?
2  — Como foi realizado o ataque?               
3  — Quais os chefes da reação brasileira ao invasor flamengo
de 1630?
4  — Em que consistia o sistema de guerrilhas ou sistemas de
emboscada?
5  — Que nos lembra a data 5 de maio de 1632?
6  — Quais os principais sucessos do chamado Período Calabarino?
7  — Qual a área dominada pelo invasor em 1637?
8  — Quais as primeiras medidas tomadas por Nassau para a
expansão territorial do domínio flamengo no Brasil?
9  — Quais os resultados imediatos da administração nassoviana? 10 — Quais os mais célebres cientistas e artistas do Brasil Ho­landês?

Sugestões para exercício de redação e exposição oral:
a)   — Causas gerais das guerras flamengas.
b)   — Matias de Albuquerque.
c)   — Administração de Nassau.

Insurreição Pernambucana (1645)

Após a volta de Nassau à Holanda, a violenta pressão da Companhia sobre os colonos, através de seus adminis­tradores, agravou as relações já tensas entre invasores e in­vadidos. Que o espírito de resistência jamais diminuiu, prova-o a existência permanente das companhias de embos­cadas agindo no sertão sob o comando de Bagnoli, Cama­rão, Henrique Dias, Vidal de Negreiros, ocasionando con­tínuas baixas às disciplinadas forças holandesas.
O sentimento nativista despertado, a liberdade reli­giosa maltratada pelo fechamento e destruição de templos, proibição do culto católico aliado aos prejuízos causados pelo esbulho dos engenhos, determinaram o irrompimento de um movimento insurrecional em Pernambuco, do qual resultou a definitiva expulsão dos holandeses do solo bra­sileiro.

O que torna o movimento insurrecional pernambucano particularmente importante em nossa formação nacional é o fato de que a iniciativa foi de elementos brasileiros de todas as procedências, condições sociais e raciais, à reve­lia mesmo dos tratados celebrados na Europa entre Portu­gal e Holanda c a trégua de 10 anos estabelecida pelos signatários em suas lutas coloniais.

 

A CAMPANHA MILITAR

O início do movimento. — O movimento de reação teve início na Bahia, dados os recursos existentes na­quela capitania. O chefe apontado em Pernambuco foi o ilhéu João Fernandes Vieira, há muito radicado na terra, desde que viera, ainda menino, da ilha da Madeira. Lu-

tara ao lado de Matias de Albuquerque. Acomodando-se com os holandeses, fêz grande fortuna e graças à sua libe­ralidade granjeou grande popularidade. Privou da intimi­dade de Friburgo e Boa Vista. Fêz-se amigo pessoal do Príncipe, impôs-se aos invasores entre os quais gozava de grande prestígio.
Da Bahia, o bravo paraibano André Vidal de Negreiros veio procurá-lo para propor-lhe o comando dos insurretos. Pa Paraíba para Pernambuco vieram Camarão e Henrique Dias. Vidal de Negreiros e Mártim Soares Moreno, pretex­tando dominar as primeiras manifestações insurrecionais, Chegam a Pernambuco com forças regulares e desembar­cam em Serinhaém em-28 de julho de 1645, pouco antes de estalar o movimento em Pernambuco.
A primeira vantagem obtida foi a rendição do forte de Nazaré, por 18 000 florins, então comandado por van Hoongstraten.
A 3 de agosto, houve um primeiro encontro no Mon­te das Tabocas, expressiva vitória de Fernandes Vieira, Vidal de Negreiros, Henrique Dias, Camarão, com a maio­ria das nossas forças armadas de pau ferrado, foice, arco e flecha.                                                        
Em breve a insurreição alastrou-se até o São Fran­cisco com a tomada do Pontal de Serinhaém. Em 19 de abril de 1648 feriu-se a primeira batalha dos Guararapes com a vitória completa dos nossos, comandados por Francisco Barreto. A 19 de fevereiro de 1649 travou-se a segunda batalha dos Guararapes que acabou por estafar a combalida resistência holandesa. As demais vitórias foram Obtidas facilmente. Os fortes inimigos entregaram-se sem grande resistência.         
Em 26 de janeiro de 1654 o inimigo assinava a capilulacão da Campina do Taborda, comprometendo-se a abandonar o Brasil e reconhecendo a soberania portuguesa.

RESULTADOS

O perigo comum uniu os elementos díspares do Bra­sil. Portugueses do reino e das ilhas, mazombos, negros, mulatos, mamelucos, curibocas, lutam ombro a ombro, re­velam seus heróis, seus mártires, seus chefes. A vitória so­bre as aguerridas hostes holandesas, as melhores da Eu­ropa, deu-lhes uma consciência de força e poder que os equiparava àqueles no ponto de vista militar.
O sentimento nativista surgiu daí espontaneamente e, passado o perigo, pacificada a terra, não foi mais possível aos colonos portugueses manter a antiga ascendência que tinham anteriormente.

QUESTIONÁRIO REFLEXIVO

1  — Quais as causas próximas e remotas da Insurreição pernam-
bucana de 1645?
2  — Quais os chefes deste movimento?
3  — Qual a importância do movimento de 1645 na formação de
nosso espírito autonômico?
4  — Qual a área dominada, pelos flamengos ao se iniciar a in-
surreição?
5  — Quais as vitórias decisivas que obtivemos sobre os invasores?
6  — Que nos lembra a data 26 de janeiro de 1654?-
7  — Quais as consequências próximas e remotas das guerras
flamengas?
8  — Que ligação podemos fazer entre as guerras flamengas e a
formação de nosso sentimento nativista? ‘

.Sugestões para exercício de redação e exposição oral:
a)  — A participação ativa do índio e do negro nas guerras fla-
mengas.
b)  — A vitória de Guararapes como símbolo de pujança militar.
c)  — Primórdios do nativismo no Brasil.

EXERCÍCIO

Assinalar num mapa-mudo as praças brasileiras e flamengas e os principais encontros das duas forças.

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