DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO – História do Brasil



-Manual Didático para a Terceira Série Ginasial por Ary da Matta (1947) 

UNIDADE VI
DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO

1. A vida rural; 2. Progresso da indústria: as minas; 3.

No início de nossa história colonial verificou-se o predomínio da vida rural sobre a vida urbana. Engenhos, fazendas, currais e campos de pastagens caracterizaram a nossa atividade econômica.

A mineração a partir dos fins do século XVII e até os meados do século XVIII trouxe novo aspecto à nossa vida colonial provocando movimento migratório do litoral para o interior e a fixação de grandes conglomerados humanos em torno das minas recém-descobertas.

O comércio foi regulamentado pela coroa, beneficiaram-se e estimularam-se companhias pelo sistema de monopólio, as quais realmente não atendiam às necessidades vitais de um harmónico desenvolvimento econômico social.

1.

Num quadro geral e muito reduzido a formação econômica do Brasil colonial pode ser assim esquematizada:

a)   ciclo   do  pau-brasil;
b)   ciclo   do  açúcar;
c)  ciclo  do   gado;
d)   ciclo   da   mineração.

Até o início do século XVIII nossa vida económica baseava-se na atividade rural com o desenvolvimento da agricultura e da pecuária, ao lado da extração do pau-brasil. A indústria surgia espontaneamente ligada àquelas atividades: usinas, curtumes, tecelagem, dependendo respectivamente da lavoura canavieira, do gado e da lavoura algodoeira.

PROGRESSO DA AGRICULTURA

O ciclo do açúcar. — Localizados a princípios somente na orla litorânea, não tardaram os engenhos e canaviais a internarem-se no sertão. A área da lavoura canavieira alargou-se consideravelmente ao findar o século XVII. Cresceu a massa de produção, desenvolveu-se o volume de exportação para uma população que de 100 000 almas em 1600 dobrava em 1700.

A lavoura açucareira trouxe o predomínio da vida rural sobre a vida urbana. À exceção das sedes de governo onde se verificava alguma concentração humana, a população distribuía-se peios engenhos, pelas usinas e canaviais, distanciados entre si por grandes desertos demográficos. A falta de estradas, as dificuldades de transporte, aumentavam ainda mais o isolamento em que viviam. No panorama do ciclo do açúcar houve, porém, durante a ocupação holandesa certo gosto pela vida citadina. Olinda e Recife, abrigando funcionários e colonos da Companhia das índias Ocidentais que fazia do comércio sua atividade principal, transformam-se em dois núcleos de intensa vida urbana.

O trabalho nos engenhos tornava-se cada vez mais complexo.

Havia dois tipos principais: o engenho real de grande montagem, exigindo alentado capital; e a engenhoca mais modesta, de produção reduzida.

O título de Senhor de Engenho não era apenas indicativo de uma situação económica privilegiada, mas também de uma posição de hierarquia social cuja posse dependia de mercê real e era concedido em carta régia como nos títulos de fidalguia. Mantinham as leis da nobreza, viviam vida faustosa.

Um engenho real no século XVII abrigava uma população de cerca de 400 almas produzindo 4 000 pães de açúcar, segundo depoimento do cronista Antonil (identificado por Capistrano como João António Andreoni, visitador da província e reitor do Colégio da Bahia). Junto a êle funcionavam serviços anexos: carpintaria, navegação, enfermaria, armazéns, transportes, portos, currais e pastagens. Todo o serviço religioso (batizados, casamentos, missas, ladainha, novenas, procissões) ficava a cargo do capelão do engenho, invejável posição, preferível até à de cônego da Sé da Bahia pelos proventos do cargo e projeção social.

Em sua grande maioria a população dos engenhos era composta de escravos africanos importados nos negreiros e tumbeiros. Mulatos e negros de ambos os sexos trabalhavam na lavoura de foice e enxada, na moendas e nos serviços domésticos. Criaram-se logo especialidades dos diversos serviços: barqueiros, canoeiros, calafates, carapinas (marceneiros), carreiros, vaqueiros, pastores.

Nas atividades industriais da produção açucareira as necessidades de serviço criaram especialidades técnicas que se distribuíram segundo uma hierarquia profissional. No vocabulário açucareiro, de Antonil recolhido pelo professor Teodoro Cabral e publicado no "Brasil açucareiro n.° 4, ano III, julho de 1935 (apud R. , História Econômica do Brasil — Brasiliana — vol. 100 — Cia. Editora Nacional) extraímos os seguintes ofícios:

Banqueiro — oficial que, de noite, fica encarregado da casa das caldeiras. O seu auxiliar chama-se ajuda–banqueiro.

Feitor — capataz. Havia o feitor da moenda, o feitor-mor, a quem o senhor do engenho outorgava ampla autoridade, inclusive a de castigar os escravos.

Mestre — é o técnico na-fabricação do açúcar, cabendo-lhe a direção de todos os serviços. O seu auxiliar diurno chama-se soto-mestre. No trabalho noturno, na casa das caldeiras, é substituído pelo banqueiro e pelo ajuda-banqueiro.

Soto-mestre — o mesmo que banqueiro. Desempenha, durante a noite, as mesmas funções que o mestre durante o dia.

Ainda em Antonil encontramos os tipos de açúcar:

—  branco macho, mascavo macho, branco batido,

mascavo batido. — branco macho fino, cara de forma.

—  branco macho redondo.

—  branco macho do baixo ou inferior.

O uso generalizado do chocolate, chá e café, modificando o cardápio da alimentação europeia, forçou o consumo do açúcar.

VIDA NOS ENGENHOS

Aos primeiros cronistas coloniais causou surpresa a vida faustosa que ostentavam os engenhos. O padre Cardim (Tratado da Terra e Gente do Brasil) surpreendeu-se de "Que na fartura parecem uns condes e gastam muito".

Frei Manuel Calado dá-nos também seu depoimento:

"As mulheres andavam tão louçãs e custosas que não se contentavam com os tafetás, os chamalotes, os veludos e outras sedas, se não que arrojavam as finas telas e os ricos brocados; e eram tantas as jóias com que se adornavam que pareciam chovidas nas suas cabeças e gargantas… Tudo eram delícias c não pareciam nesta terra senão um retrato do terral paraíso".

QUESTIONÁRIO REFLEXIVO

1  — Quais os principais ciclos da economia colonial brasileira?

2  — Quando foi introduzida a cana-de-acúcar no Brasil?

3  — Qual a área da lavoura canavieira no Brasil colonial?

4 — Qual a importância demográfica da atividade açucareira?

5 — Quais os serviços centrais e anexos de um engenho colonial típico do século XVII? 0 — Qual o valor econômico da atividade açucareira no Brasil colonial?

Sugestões para exercício de redação e exposição oral:

a)  — A civilização do açúcar.

b)  — A evolução dos engenhos.

c)  — A lavoura canavieira e o povoamento.

Ciclo do gado

Introduzido o gado em São Vicente e na Bahia em 1534 e 1549, respectivamente, para formar uma retaguarda econômica na vida agrícola, não tardou que seu desenvolvimento imprevisto o transformasse numa atividade rural autônoma. Currais e campos de pastagem se multiplicaram de tal forma, que, em 1701, uma carta’ régia proibia a aproximação do gado aquém de uma faixa litorânea de 10 quilômetros a fim de não danificar os canaviais. O gado era indispensável para o serviço da lavoura, empregado nos transportes e na movimentação das almanjarras das engenhocas.

Área do gado. — Já tratamos no capítulo da Unidade II da penetração da pecuária partindo da zona açucareira do norte para o nordeste e para o sul. Constituiu-se assim uma grande área de povoamento de fraca densidade demográfica nas fazendas, currais, invernadas e pastagens.

Na Bahia, a pecuária alastrou-se pelo São Francisco, de onde passou ao rio das Velhas, rio das Rãs, rio Tejuco, rio da Prata Preto e Paracatu (Minas), médio Jacuípe, médio Paraguaçu, médio Itapicuru na Bahia. Em Sergipe, nos rios Real c Sergipe. Em Pernambuco, desenvolveu-se no vale do Pajeu, atravessando ali a atual linha de fronteira da Paraíba até o rio Piranhas. No Piauí, o vale do Parnaíba. No Maranhão, o alto Mearim, o baixo e o médio Itapicuru e a área compreendida entre o Turiaçu e a margem direita do baixo Grajaú. No sul de Mato Grosso os vales dos rios Miranda, Taquari, São Lourenço e Piquiri (bacia do Paraguai) e Brilhante, Pardo, Verde (bacia do Paraná) e a região entre Vila Bela e Vila Maria. Em Goiás, o alto Tocantins e seus afluentes, seguindo para o sul até se encontrar com a área mineira do Paranaíba. No Rio Grande do Sul, desenvolveu-se a pecuária desde Vacaria até

EXPANSÃO DA PECUÁRIA

Expansão da pecuária.

(Baseado no mapa organizado pelo coronel J. Jaguaribe de Matos e que se

encontra na "História Económica do Brasil”, de Roberto Simonsen.)

Porto Alegre a este do médio Uruguai e seguindo uma linha do Ibicuí ao Camaquã. para o sul até o Prata. Na ilha dos Johanes (Marajó) e nos campos do alto rio Branco, desenvolveu-se também a área do gado.

O vaqueiro e o pastoreio. — As exigências da vida pastoril criaram um novo tipo de colono: o vaqueiro. Competia-lhe amansar e ferrar bezerros e novilhos, proteger o gado contra as cobras e as onças, preservá-lo das varejeiras, curar-lhe as bicheiras, conservar as pastagens, desembravar o gado dos grotões e pirambeiras, cavar cacimbas contra a seca. Seu lucro só se iniciava a partir do 4.° ou 5.° ano de serviço, guardando para si uma de cada quatro crias da manada que lhe fosse entregue.

Desdobravam-se assim as fazendas. Das primitivas sesmarias e seus grandes currais nasceram os "sobrados". Com as fazendas de criar, o peão passava a vaqueiro.

O gado oriundo da Península, da Holanda, da França, do Peru, era do tipo caracu, franqueiro, curraleiro, mocho, pantaneiro, e desenvolvia-se à lei da natureza sem qualquer preocupação seletiva por parte dos criadores.

Acampamento noturno de tropeiros c viajantes; no sertão mineiro.
(Reproduzido da "História Económica do Brasil", de Roberto Simonsen — Tomo I, Brasiliana.)

Cicio do couro. — O isolamento em que se encontravam os criadores, a abundância do gado, fizeram do couro a matéria prima quase exclusiva da vida pastoril no Norte. Capistrano de Abreu, focalizando este interessante problema, assim se expressa: "Pode-se apanhar muitos fatos da vida daqueles sertanejos dizendo que atravessaram a época do couro. De couro era a porta das cabanas, o rude leito aplicado ao chão duro, e mais tarde a cama para os partos; de couro todas as cordas, a borracha para carregar água, o mocó ou alforje para levar comida, a maca para guardar roupa, a mochila para milhar cavalo, a peia para prendê-lo cm viagem, as bainhas de faca, as bruacas

Animais de tropa da mesma época e procedência da gravura anterior.

e surrões, a roupa de entrar no mato, os banguês para curtume ou para apurar sal; para os açudes, o material de aterro era cevado em couros puxados por juntas de bois que carcavam a terra com seu peso, em couro pesava-se tabaco para o nariz".

QUESTIONÁRIO REFLEXIVO

1  — Quando foi introduzido o gado no Brasil?

2  — Quais os focos de irradiação do gado no Brasil?

3  — Qual a área da pecuária?

4  — Qual a importância do gado como fator da colonização?

5  — Qual a diferença entre "currais, campos de pastagem e invernadas"?

6  — Qual o tipo de gado aclimatado ao Brasil?

7  — Quais as funções do vaqueiro?

8  — Que foi o chamado "ciclo do couro"?

Sugestões para exercício de redação e exposição oral:

a)  — Irradiação da pecuária.

b)  — O gado e a expansão territorial do Brasil Colônia.

2. : as minas

O Brasil ao se iniciar o século XVIII. — Ao se iniciar o século XVIII, as descobertas das minas de Sabará, , Cuiabá^ Mato Grosso, deslocam do litoral para o sertão grande massa de colonos, mamelucos, negros e mulatos. Todo o litoral, desde o Oiapoc até o Prata, já estava reconhecido. Salvador, Recife, Olinda, Rio de Janeiro, São Paulo, São Vicente, floresciam. Fêz-se o povoamento do Amazonas com ‘a descoberta de minas e especiarias. A cana-de-açúcar no litoral e a pecuária no sertão ampliaram grandes áreas de povoamento. Desbravado o sertão pelas bandeiras, a expansão geográfica havia atingido a bacia do Uruguai, Paraguai e as cabeceiras dos afluentes da margem sul do médio e alto Amazonas.

CICLO DA MINERAÇÃO

Área das minas. — A mineração do ouro e dos provocou a formação de manchas demográficas de grande densidade de população em Minas, Bahia, Goiás, Mato Grosso, Maranhão, Pará e Amazonas.

Em Minas Gerais, a zona de mineração aurífera estendeu-se seguindo uma vertical desde o vale do alto Jequitinhonha e todo o vale de seu afluente Araçuaí e as cabeceiras do Verde Grande, até as cabeceiras do rio das Velhas e as regiões da margem esquerda do alto rio Doce. Nesta área, a ocorrência de diamantes se verificou em Grão Mogol e Araçuaí no norte, Diamantina ao centro, e em Sabará, Caeté e Vila Rica existiam as lavras auríferas mais exploradas. Ainda em Minas, encontravam-se áreas de mineração nas cabeceiras do São Francisco ao norte de Belo Horizonte (Curral d’el Rei, naquela época) e nas cabeceiras do Indaiá e dos afluentes mais orientais do alto Paranaíba.

Zonas de exploração de ouro c diamantes no Brasil colonial.

(Baseado no mapa organizado pelo cel. J. Jaguaribe de Matos e que se encontra

na "História Económica do Brasil", de Roberto Simonsen.

Na Bahia havia duas zonas: uma compreendida entre o alto Itapicuru e alto Jacuípe e a região sudeste da serra do Tombador. Uma segunda cortando a chapada Diamantina na direção sudeste-noroeste, desde o alto Paraguaçu até o médio e o alto Jacaré a este até as regiões vizinhas do Paranamirim e São Francisco até a altura de barra do rio Grande.

Em Goiás e. Mato Grosso, a área estendia-se desde o rio São Bartolomeu, confluente do Parnaíba, a este até o rio Cuiabá e as cabeceiras do Paraguai a oeste. Ao centro as regiões do alto Araguaia.

No Maranhão, o baixo Gurupi, no Pará, as regiões do cabo Norte entre o médio Oiapoc e o médio Cassiporé que transpunha até chegar às vizinhanças do litoral cujo ponto mais oriental foi Cunani, No Amazonas, a ocorrência se verificou nas cabeceiras do rio Branco.

Extração. — O ouro aluvional era obtido no leito dos rios e suas margens, nos tabuleiros, nas areias e cascalhos auríferos, nas águas correntes ou leitos secos, muitas vezes depositado em grandes caldeirões. A areia aurífera era peneirada na bateia pelos faiscadores que obtinham o metal, separavam-no do material estéril concentrando-o no fundo da bateia, imprimindo-lhe um movimento de lenta rotação.

Fora das águas correntes o ouro era obtido nas catas, perfurando-se canais e poços de pequena profundidade e tamanho reduzido.

Nas encostas abriam-se galerias. Era também muito empregado o recurso de se pôr a seco parcial ou totalmente o leito do rio, desviando-se a corrente para os trabalhos de extração. Nos flancos das montanhas, onde se verificava a ocorrência de cascalhos e areias auríferas ou filões e camadas, construíam-se quedas d’água artificiais, aduzidas, muitas vezes, a léguas de distância e que, caindo do alto do barranco sobre a terra, a revolviam, isolando por Este processo o material estéril do ouro que era recolhido. O ouro passava depois pelas canoas e recebia uma apuração final. Como se vê,, a extração exigia obras hidráulicas anexas de grande vulto, das quais ainda existem numerosos vestígios em Minas Gerais, como atestam os Mon-déus do Veloso em Ouro Preto.

População mineira. — Estatísticas estimativas da época calculam que. no correr do século XVIII e princípios do XIX a população era de 100 000 almas em Vila Rica (Ouro Preto) e 40 000 no Tijuco (Diamantina), toda ela votada à atividade mineiradora. Calcula-se em 23 °/o a população branca e livre e os restantes 77 c/o de negros e mulatos escravos.

SIDERURGIA

As primeiras notícias da descoberta do minério de ferro datam de 1589, segundo refere Pandia* Calógeras em As Minas’ do Brasil, Já em 1597 Afonso Sardinha, seu descobridor, iniciava a siderurgia apurando ferro em dois engenhos de fundação localizados nas minas de Bira-çoiaba ou Araçoiaba, comarca de Sorocaba, na então capitania de São Vicente. As atividades de Sardinha foram logo estimuladas pelo" governador D. Francisco de Sousa que forneceu recursos em dinheiro e em homens para aquela exploração.

Outras notícias referem que a .produção de Biraçoia-ba, embora reduzida, se manteve através do século XVII para ter incremente maior nos séculos XVIII e XIX. Antonil, em 1711 (Cultura e Opulência do Brasil), refere-se à produção de Biraçoiaba no governo de Artur de Sá. PedRo Taques, o famoso cronista vicentino, afirma que em 1772 a mesma fábrica de ferro funcionava regularmente.

Foram negros de São Vicente que introduziram a siderurgia em Minas Gerais pelo primitivo processo dos cadinhos, o que aliás já era uma técnica africana muito antiga. Feraduras para animais, aros de roda, instrumentos agrícolas e de mineração eram por eles fabricados desde a obtenção do mesmo até a forja.

Em 1785, alvarás e cartas régias suprimem no Brasil a fabricação de ferro que só voltou a ser restabelecida ,10 anos depois, em 1795, com as instruções que D. Luís Pinto de Sousa trouxe em nome d’El Rei aos governadores das

capitanias do Brasil. Não tardaram a surgir os grandes benefícios desta medida. Em 1801, um alvará mandava estabelecer uma fábrica de ferro em Ipanema. Com a transmigração bragantina de 1808 a siderurgia brasileira conheceu vertiginoso progresso. Em 1809, 1810 e 1811 alvarás e cartas régias se sucedem autorizando o funcionamento de novas fábricas com altos fornos e forjas de refinaria. E’ digno de menção especial, nesta fase, o intendente Câmara que em 1809 fundou a fábrica de Gaspar Soares em Minas Gerais, rivalizando com a de Ipanema em São Paulo..

A chegada do barão Guilherme Eschwege, que acompanhou D. João VI ao Brasil na qualidade de "Diretor das Minas de Ouro e curador do Gabinete de Mineralogia do Governo", dá novo impulso à siderurgia. Fundam-se usinas em Congonhas do Campo, Curral d’el Rei (Belo Horizonte), Itabira do Mato Dentro e Serro; melhora-se a técnica siderúrgica com a introdução de fornos suecos. Em 1815, depois de vários insucessos de tentativas de fazer correr ferro gusa em Gaspar Soares, o intendente Câmara conseguiu obter 6 500 arrobas de ferro em barra, em Minas Gerais.

Em Ipanema, Frederico Guilherme , sargento-mor do real corpo de engenheiros que acompanhou D. João VI ao Brasil, obtém em 1.° de novembro de 1818 a primeira corrida de ferro gusa no Brasil, logo seguida da corrida obtida pelo francês F. Monlevade na usina de Gaeté, em Minas Gerais.

Segundo Eschwege, em 1824 funcionavam no Brasil as fábricas de Congonhas do Campo, Morro do Pilar, forja de Manuel Gomes Gouveia, coronel Matta e as usinas do Jirau, Capanema, Itabira do Mato Dentro e Leme em Minas Gerais, além das usinas paulistas.

3. O comércio

O início da colonização portuguesa no Brasil, lembra o prof. Roberto Simonsen, coincidiu com a revolução económica do século XVI. À estabilidade económica da secular sociedade medieval sucederam as grandes mutações, provocadas pelos novos padrões de vida comercial, industrial e agrícola da modernidade processada em menos de um quartel de século. Surgem novas classes sociais, novas técnicas, novas aspirações, de vida em, face de novas descobertas, novos e maiores recursos, novas exigências sociais.

Entre a índia e o Brasil a exploração económica na modernidade seguem rumos paralelos e atendem situações peculiares diferenciadoras. na técnica de colonização.

A Índia possuía já sua vida económica organizada à margem do Ocidente. Ali a colonização foi apenas administração metropolitana garantida militarmente pelos dominadores que apenas desviaram para Portugal a corrente económica já existente. No Brasil, a colonização foi mais que o domínio militar; a criação e a descoberta de outras fontes de vida económica baseada na agricultura e na mineração.

No capítulo referente a "Manifestações iniciais da vida económica" destacamos a contribuição do pau-brasil e da cana-de-açúcar. Foi o pau de tinta efetivamente o primeiro grande interesse e preocupação da metrópole portuguesa, da pirataria francesa, espanhola, principalmente, no nosso litoral. O comércio deste produto iniciava-se na feitoria, trocando-se a madeira pelas cascavéis e terminaria nos portos europeus onde sempre encontrou ótimo mercado até a descoberta das anilinas, de origem mineral, pelos alemães nos meados do século XIX. A história das primeiras expedições é, afinal, a história do contrabando do pau-brasil e a enérgica repressão que sofreu por parte da coroa portuguesa.

O comércio do açúcar movimentou os portos do Brasil colonial com tal intensidade, que os holandeses chegaram a denominá-lo Zuikerland, isto é, terra do açúcar nas suas cartas de navegação e nos seus documentos oficiais.

Ao comércio do açúcar estiveram presas todas as tentativas de dominação estrangeiras que deram em resultado as lutas sangrentas que mantivemos pela defesa do território.

COMÉRCIO DO PAU-BRASIL

O pau-brasil era encontradiço em todo litoral, com exceção da zona do Recôncavo baiano. Estendia-se numa faixa litorânea desde o cabo de São Roque até Cabo Frio, sendo preferido por sua qualidade o que havia entre o cabo Santo Agostinho e o rio Real.

O regime de monopólio real, a que estava sujeito, manteve-se no Brasil até a independência. Seu comércio figurou em destaque no regimento de Tomé de Sousa, regulamentando-se minuciosamente a sua exploração que, a partir do estabelecimento do , recebeu organização metódica. Nos fins do século XVII.e início do século XVIII o comércio do pau-brasil figurava nos orçamentos com cerca de 60 000 cruzados.

Sob o de Filipe II, criou-se regimento rigoroso e minucioso especial, o Regimento do pau-brasil, para maior controle de seu comércio e preservação do monopólio real.

Sob o domínio holandês e a ocupação de parte da chamada "costa do pau-brasil", a Companhia das índias’ Ocidentais declarou também o monopólio do pau-brasil, conservado mesmo quando se abriu o mercado livre para todos os produtos do Brasil holandês. A extraçao e o comércio de pau de tinta obtiveram grande desenvolvimento na administração de Nassau, quando se fizeram concessões a exploradores em Pernambuco, Itamaracá, Paraíba, Rio Grande do Norte. Foi grande o lucro dos concessionários já pelo fornecimento à Companhia, já pelo largo contrabando que desenvolveram.

Privados do pau-brasil daquelas regiões, os portugueses fundam feitorias em Ilhéus e Porto Seguro.

Apenas reduzida percentagem da produção era consumida em Portugal no século XVIII. O grande comércio era o estrangeiro. De Lisboa era despachado para Flandres, Castela e Itália,

Caesalplnta echinata. (Reproduzida de "O Pau Brasil na história nacional", de Bernardlno José de Sousa — Brasiliana, vol. 1G2.)

Antuérpia foi o grande mercado distribuidor do pau–brasil para a Itália (sobretudo Florença), Alemanha e Inglaterra.

Valor econômico. — No início do século XVII o quintal adquirido por 1$000 era vendido em Lisboa a 4$000, com um bom lucro, já se vê.

Bernardino José de Sousa, tomando por base nesta mesma época um embarque de 10 000 quintais, assim contabiliza á transação:

Em mil réis Renda bruta…….. 40:000$000

A deduzir:

Custo no Brasil ………………………………………  10:000$000

Despesa de trnnsprte para Portugal ………….3:000S000

Pago à fazenda real…….    21:000$000

34:000$000

Saldo ……… 6:000$000

(15% sobre a renda bruta)

COMPANHIAS DE COMÉRCIO

Data de 1649 a fundação da Companhia Geral de Comércio do Brasil (alvará de 6 de fevereiro de 1649) para incrementar e garantir o comércio entre a colônia e a metrópole. Obrigava-se a enviar ao Brasil anualmente duas frotas poderosamente armadas em troca do monopólio de venda de vinho, trigo, azeite e bacalhau.

Não tardaram a surgir protestos e a Companhia foi dissolvida pouco depois.

Em 1682 surge outra Companhia, a Companhia do Comércio do Estado do Maranhão, com um monopólio de 20 anos e a obrigação de introduzir 500 escravos anualmente. Em 1684, reagindo contra os abusos da Companhia, insurge-se Manuel Bekman (o Bequimão) capitaneando uma revolta em São Luís, logo alastrada na capitania e que compeliu o governo a dissolvê-la em 1685.

No governo de Pombal criam-se no Brasil duas companhias de comércio: a Companhia Geral de Comércio do Grão-Pará em 7 de junho de 1755 e em 1758 a Companhia Geral de Pernambuco e Paraíba. Ambas prestaram bons serviços â economia do Norte. Desenvolveu-se ali a rizicultura, a lavoura algodoeira, canavieira, cacaueira e em 1727 o Pará já exportava café, ali aclimatado por Francisco de Melo Palheta, que o trouxera da . Em 1778 extinguiu-se a Companhia Geral de Comércio do Grao-Pará e Maranhão e em 1779 a Companhia Geral de Pernambuco e Paraíba. Motivou a extinção a série de abusos cometidos pelo monopólio de venda de produtos metropolitanos (trigo, azeite, vinho e bacalhau) suprimido por D. Maria I logo após a queda de Pombal.

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