As meditações cartesianas e o nascimento da subjetividade moderna

As meditações cartesianas e o nascimento da subjetividade moderna


As meditações cartesianas e o nascimento da subjetividade
moderna



por Miguel Duclós

Baseado nas anotações de aula da professora Marilena
Chaui

   
Esse texto procura analisar o modo como Descartes formulou o problema da
dúvida hiperbólica na primeira meditação e
provou como a alma é mais fácil de conhecer do que o corpo,
dando início assim ao nascimento do sujeito moderno, e gerando a
semente do idealismo radical e solipsista.

    O texto está
ambientado no final do Renascimento, e o autor, como Bacon, procurava formular
a base sólida e metódica da ciência moderna, mais enxuta
e prática do que a medieval, esta baseada principalmente em Aristóteles.
O Renascimento é geralmente considerado um período de transição
entre a Idade Média e a Idade Moderna; sendo assim, os autores desse
período não teriam características completas de nenhuma
dessas idades. No entanto, a esse tempo pertencem autores do porte de More,
Erasmo, Maquiavel e outros humanistas, cientistas como Galileu e Copérnico,
artistas até hoje colocados entre os melhores do mundo (principalmente
os italianos e os irmãos Van Eyck, que revolucionaram a pintura
com a técnica a  óleo), e por isso alguns estudiosos
modernos resolveram interpretar o pensamento renascentista como um sistema 
completo e estruturado.

    O racionalismo
nessa época não era tão exacerbado, apesar de a razão
já ter sido considerada o principal instrumento para conhecer o
mundo. O universo era considerado, segundo o conceito de Semelhança,
como um todo harmônico, cuja harmonia era feita por seres que se
relacionam por amizade e ódio. Essas relações são
a própria causa da compreensão de uma coisa por outra, de
fato, devido a esse sentimento de totalidade, uma coisa é signo
de outra.

    Não pretendo
entrar em detalhes de como estavam divididas as atividades do saber, a
filosofia natural, a magia e a alquimia. Muitas correntes estavam em desacordo
com outras, e o pensamento avançava, às vezes contraditório,
às vezes indo contra a estrutura social retaliadora e centenária,
em busca de um conhecimento não mais cíclico teocêntrico,
mas sim de domínio sobre a natureza, da virtú contra
a fortuna, antropocentrado, buscando conhecer o mundo ao redor através
de leis comprovadas pela razão. Deus, nesse momento, é conhecido
pela teologia, o cosmos pela astrologia, e o poder pela filosofia política,
cujo maior exemplo é  Maquiavel. O princípio arcano
(arché= início, primórdio) é então
dado como secreto e incognoscível. Giordano Bruno refuta a divisão
do mundo como terreno (humano) e celeste (divino), e o declara infinito.
Assim, todo o lugar é centro, e nenhum lugar é circunferência.
Pagou preço caro por isso. A frase Sapere audi (Ousa saber)
exemplifica bem a busca ousada por respostas novas.

    A razão
e a fé são campos diferentes de busca. Estiveram misturadas
na teologia escolástica, mas Descartes declara, em seu Discurso
do método para bem conduzir a própria razão e procurar
a verdade nas ciências
, que as verdades divinas estão
além dos raciocínios comuns, e é necessário
assistência divina e mesmo ser mais que um simples homem para ter
acesso à revelação. É nessa primeira parte
do discurso do método que Descartes explicita seu descontentamento
com a forma como eram conduzidos a ciência e a filosofia pelos doutos
senhores de Academias e escolásticos. A atividade social era muito
importante para ser considerado digno. Muitas vezes, uma pessoa já
conseguia a glória independente de sua personalidade ou valor pessoal,
mas sim por ocupar certo cargo importante.

    Mas vamos entender
melhor as críticas às teorias aristotélicas. Aristóteles
havia definido dez tipos de substâncias diferentes (qualidade, quantidade,
relação, tempo, posse, lugar, ação, paixão,
etc.). Uma substância é aquilo que existe em si e por si,
sem depender de outra coisa. Todo o resto são os modos ou atributos
das substâncias. A física aristotélica estudava o movimento,
sendo movimento entendido como qualquer alteração. Tudo o
que é matéria se move, pois é imperfeito, e está
sujeito ao devir. O imperfeito aspira à perfeição,
e o perfeito não muda. Para Aristóteles, só Deus não
mudava. Seu Deus era assim, imóvel para si mesmo, causa primeira
de tudo, não deseja nada, pois nada lhe falta. Os corpos podem ser
pesados e leves, e são animados por um movimento eterno. A principal
virtude é a amizade. Os seres se modificam segundo regras fixas,
estabelecidas pela causa final (aquela da finalidade da mudança
de um corpo). A inteligência (entelechia) se move em direção
a um fim. No aristotelismo, as causas podem ser:

    1.material

    2.formal

    3.eficiente

    4.final

    Com o surgimento
da nova física moderna, de Kepler, Copérnico e Galileu, o
aristotelismo cai por terra, com a prova de que é a Terra que gira
em torno do Sol, e não o contrário.

    Apenas a causa
eficiente vai permanecer na filosofia moderna, e se tornar a lei da causalidade.
Na causa eficiente deve haver tanta ou mais realidade que o efeito (conforme
explicado por Descartes no início da 3ª meditação),
e causa e o efeito devem ser da mesma natureza. E Descartes vai declarar
viva apenas três substâncias: a extensa, o pensamento, e a
divina.

    Com toda essa
reviravolta no que até então era considerado certo, e que
servia de base para a educação do europeu, Descartes resolve
abandonar esse ensino, e procurar a verdade no Grande Livro do Mundo. Depois
de duvidar de tudo que tinha aprendido, encontrava-se nas trevas, sozinho.
Ele precisava de um método para recomeçar a construir o caminho
do conhecimento, ou pelo menos as bases dele. O método dá
origem a um  problema fundamental da filosofia moderna: o sujeito
do conhecimento. Esse sujeito serve para controlar a razão nos ditames
do conhecimento. A base de toda descoberta é um axioma tirado por
intuição intelectual, mas para ir além dele se deve
usar da dedução. A corrente dedutiva leva em conta a ordem
das razões, isto é, a ordem como as coisas se apresentam
ao entendimento em seus graus de simplicidade, e não a ordem das
matérias, ou a ordem das coisas nelas mesmas. Para Descartes, o
mais simples era o mais absoluto, por ser o mais universal. Até
a modernidade, o objeto era considerado com características que
deveriam imprimir no sujeito o conhecimento verdadeiro. Com Descartes,
o sujeito deve buscar, através da razão, melhorar suas características
para buscar o conhecimento verdadeiro. O método para se conduzir
a razão está ligado à arte (ars), que como
técnica, se opõe ao acaso. Deve ter regras simples e universais,
e com o menor número de regras descobrir o maior número de
coisas. Descartes tira da certeza da geometria, a noção de
que é preciso um procedimento para conhecer. Daí a importância
fundamental da ordem e da medida. O pensamento contínuo deve buscar
uma proporção contínua, e ir aumentando gradualmente
seu saber. Mas para não recorrer em erro, é preciso que se
entenda ser o método necessário para a busca da verdade.
A razão precisa de auxílio, e de disciplina. Uma das regras
é a da enumeração. Os passos da cadeia de pensamentos
devem ser repetidos várias vezes, até se aproximarem da certeza
da dedução. O entendimento é o único capaz
de conhecer, mas é auxiliado nessa tarefa pela memória e
imaginação.

    Para começar
um conhecimento sólido e seguro, claro e distinto, devemos livrar
nossas mentes das falsas certezas. Daí ser necessária a dúvida
metódica e a meditação. O ato de meditar é
um recolher-se em si mesmo, onde são passadas a limpo nossas próprias
falhas, recapitulando noções marcantes, se afastando assim
dos vícios corporais e buscando elevar a alma. O ato de duvidar
não é à toa, mas vem por razões maduramente 
consideradas, tanto que Descartes só o fez quando já tinha
esperado tanto a hora certa, que não mais poderia fazer novamente.
A dúvida cartesiana não é cética, pois o cético
não acredita ser o homem capaz de ver qualquer verdade. Antes disso,
a dúvida é um instrumento epistemológico, um recurso
que o sujeito do conhecimento tem a seu dispor.

    O que é
duvidoso é aquilo a respeito do qual eu posso perguntar ser de uma
maneira diferente. Ou seja,  pode ser considerado possível
ilusão aquilo que é inseguro. Todo o processo passível
de dúvida gera uma série de conhecimentos  que estão
na alçada da dúvida. A dúvida não é
idiossincrática,  mas trata dos alicerces e bases do conhecimento.
A primeira meditação é conhecida como a da dúvida
hiperbólica,
exagerada. A primeira dúvida é a dos sentidos. Os sentidos
algumas vezes são enganosos. Para validar a dúvida dos sentidos,
Descartes retoma o argumento dos sonho. Não sabe se está
sonhando ou acordado. Afinal estou aqui nesta cadeira, mas muitas vezes
tive impressão de algo com aparência semelhante quando estava
sonhando. Ou seja, você é iludido durante o sonho achando
que está acordado. Daí a importância fundamental de
se perceber estar em um sonho e a começar a explorar o espaço-éter.
Como todos sonham, o argumento do sonho é válido, e o meditante
não está louco, como os mendigos que juram estar cobertos
por ouro.

    O sexto parágrafo
apresenta a comparação muito interessante entre a pintura
e os sonhos. Diz nosso autor que os sonhos são como quadros e pinturas,
e não podem ser formados senão à semelhança
de algo real e verdadeiro. Os pintores usam de todo o artifício
para fazer uma forma inteiramente nova, mas tudo o que conseguem é
combinar  misturar.  A palavra artifício significa justamente
isso, combinar e compor com o que já existe na natureza. A palavra
facio
está ligada a factum (feito) e fictum, essa última
ligada a fingio ligada a ficio. O artista,
através de sua técnica, cria uma ficção, uma
quimera (chimaera), como no caso de sátiros e  sereias.
É  a combinação heterogênea de uma coisa
por outras coisas, é só pode ser entendida como representação,
muitas vezes só pode ser dita e não pensada. A dúvida
encontra seu limite nos sétimo e oitavo parágrafos. Não
é permitido duvidar das naturezas simples das percepções,
como o espaço e o tempo, figura, etc. A geometria e aritmética,
que trata de coisas simples e universais não estão sujeitas
a dúvidas. Para resolver esse impasse, Descartes diz ter a opinião
(não certeza ainda na 1ª meditação) de que existe
um Deus e levanta a possibilidade de ser Ele  enganador: “Ora, quem
me poderá assegurar que esse Deus não tenha feito com que
não haja nenhuma terra, nenhum céu, nenhum corpo extenso,
nenhuma figura, nenhuma grandeza, nenhum lugar, e que, não obstante,
eu tenha os sentimentos de todas essas coisas e que tudo isso não
me pareça existir de maneira diferente da que vejo?”. Tal Deus é
considerado bom pelos cristãos, mas mesmo assim permite que certas
vezes se engane, de tal forma que  é possível pensar
que talvez se engane nas coisas mais simples possíveis. Esse argumento
não é novo, já o encontramos antes em alguns céticos,
como Guilherme de Ockan. Se sou o efeito de uma causa divina, como poderia
me enganar? Pois causa e efeito tem de ser da mesma natureza, segundo a
causa eficiente. Ockam se insurgiu contra o tomismo, onde Deus cria as
coisas que já estavam no seu intelecto por liberdade (contingência),
ato de sua infinita vontade. Para Ockam não existe essência
universal, pois o universal é abstração do singular.
Esse Deus seria onipotente, e por isso cria o princípio da identidade
e da não contradição. Mas se faz isso porque 
quer, nada o impede de criar outras coisas, como a contradição.
Deus cria o singular e não o universal. Antes se sermos o todo,
somos sujeitos percebendo e significando o mundo de maneira única.
A explicação para não estar tudo ligado, seria o fato
de que Deus pode aniquilar qualquer singular, sem afetar o geral. Aniquilar
significa fazer voltar ao nada.

    Descartes fala
que se  algumas pessoas não acreditarem em um ser tão
onipotente assim, devem considerar que enganar é imperfeição,
e quanto menos poderoso Deus for,  mais chance terá de me enganar.
As pessoas atribuíram “ter eu chegado ao estado e ao ser que possuo”
:

    1. a algum destino
ou fatalidade. Esta é uma perspectiva histórica da filosofia
, a noção de que as coisas se ligam assim é pertencente
aos estóicos, e combatidas no século XVII. Cada coisa, para
os estóicos, seria regida por leis naturais e necessárias,
pois fazem parte da chama divina e universal. Nossa causa não é
livre, mas determinada por outras. A palavra fatalidade vem de factum,
que significa fado.

    2. ao acaso:
posição dos epicuristas, que diziam ser o mundo formado por
átomos que se conectam e desconectam ao acaso.

    3. por conexão
das coisas, ou seja, a potência ordenada de Deus.

    Continuando com
a suposição de que Deus cria singulares, e não universais,
quem poderá garantir que o que se vê é o que existe?
Afinal, não há ordem universal.

    Por prudência,
Descartes resolve desconfiar da existência de um Deus assim. A prudência
é uma das virtudes clássicas, e está ligada à
moral. Descartes formula nesse trecho uma moral provisória.

    No parágrafo
onze, Descartes fala da necessidade de lembrar dos resultados de sua meditação.
Pois pelo costume crenças e opiniões familiares ganharam
um direito sobre ele, o de ocupar seu espírito. É apresentado
o risco da heteronomia de pensamento, ao invés de uma autonomia.
Para escapar disso, é necessário recordar os resultados da
dúvida. O recordar é um lembrar voluntário, um esforço
da mente. Já a força do costume, o hábito, é
uma segunda natureza, mais falsa que a primeira. Descartes prefere, ao
invés dessa heteronomia, um auto-engano que utilizará até
seu pré-juízo se transformar em juízo. A meditação,
por ser espiritual,  tomou um rumo que diferia muito da vida prática,
e agora essa vida trata de cobrar suas dívidas. Nesse ponto, é
feita distinção entre agir e conhecer. A auto-enganação
tem a função de fazer assombroso espectro do Deus enganador
se tornar uma hipótese, mudando assim de estatura, passar de opinião
forte a vaga hipótese. Fica explícito então 
o poderio da vontade do sujeito.

    A nova hipótese
é o gênio maligno, também ardiloso e enganador, um
diabrete que influi em nossas sensações, enganando-nos. A
diferença entre o Deus Enganador e o gênio maligno é
que um age no espírito, e o outro no corpo. Mas Descartes desconfia
do seu corpo, das sensações. Nada existe e o corpo também
não, assim o gênio maligno também perde importância.

    Descartes termina
a primeira meditação demonstrando preguiça, um dos
sete pecados capitais. É como um escravo que pensa ser livre. Com
a meditação interrompeu-se o fluxo das coisas ilusórias,
e hipóteses assustadoras foram levantadas na mente do meditante.
Mas a segunda natureza soterra esse movimento de interiorização
de busca da primeira natureza. Isso lembra os prisioneiros da caverna de
Platão, que acreditavam serem livres e estarem vendo tudo o que
existe, e um deles se solta em busca da luz, simbolizada pelo Sol. É
no Fédon que Platão diz que a luz divina se transforma em
matéria sem luz. Para os cristãos, Deus é a luz e
a alma pode receber essa luz (lux-luz , lumem-objeto iluminado),
que pode ser natural (razão) ou supranatural, concedida pela graça
divina (fé). Já para os neoplatônicos, o Uno (incognoscível
e eterno), emana luz,  o intelecto, da onde saí o inteligível,
que emana as coisas. É de se notar que a primeira meditação
termina de forma a exigir a segunda.

    A afirmação
de que o espírito é mais fácil de conhecer do que
o corpo foi escandalosa no ponto de vista da tradição filosófica.
Essa afirmação inaugura a filosofia moderna. Na tradição
filosófica, o espírito era mais digno, mas não mais
fácil de se conhecer do que o corpo. A 2ª meditação
começa com uma recapitulação da anterior, e 
passa para um sentimento de angústia. Descartes diz não ser
mais capaz de esquecer as dúvidas a que chegara no dia anterior,
e se sente como em um abismo. Nesse ponto, há uma parada: ou a nova
ciência surgirá, ou o ceticismo estará justificado.

    Descartes faz
uma analogia entre si  próprio e Arquimedes. Arquimedes precisava
apenas de um ponto fixo, para que, usando a alavanca, conseguisse mover
o mundo de lugar. Descartes procura ao menos uma verdade que seja certa
e indubitável. Com a geometrização do espaço
e a infinitização do universo, havíamos perdido o
centro. Descartes procurava um ponto fixo, ou seja, uma base sólida
onde pudesse erguer seu palácio do conhecimento. Pergunta Descartes:
“O que poderá, pois, ser considerado verdadeiro? Talvez nenhuma
outra coisa a não ser que não há nada de certo”. Descartes
começa a hesitar, coisa que antes não havia acontecido. Nesse
recurso literário, expõe sua dúvida sobre se depender
ou não do corpo para existir. Porém, a brecha é aberta,
quando ele descobre que para receber a ação do Deus Enganador,
precisa ser. Ele não pode deixar de ser enquanto receber a ação
do Deus Enganador. Essa é uma primeira afirmação verdadeira:
“Eu sou, existo”. Ela é verdadeira toda a vez que a concebo em meu
espírito. Ou seja, a frase é verdadeira em um sentido atual, 
não potencial. Ele ainda não demonstrou nada além
disso, e deve ter cuidado para não atribuir ao ser outra coisa que
não ele mesmo.  Assim, para conservar a primeira evidência,
é preciso atenção.

    Conhecer está
ligado a perceber, que está ligado a ver. Esse ver pode ser com
os olhos do corpo e com os olhos do espírito.  Com os olhos
do espírito eu tenho uma intuição intelectual, vejo
com certeza, entendo, vejo a coisa na sua totalidade. A mathema
acreditava que o espírito podia apreender de uma só vez o
objeto em sua inteireza. E quando se vê completamente, se tem a evidência.
Já a atenção é a atividade intelectual que
busca a evidência, a afirmação de que só conhecemos
o que é claro e distinto, e a exigência de que devemos começar
por coisas mais simples. Para o juízo não cair em erro, é
necessário a atenção. Mas o que é esse “eu
que existe”?  Esta é uma indagação metafísica.
Descartes refuta a concepção clássica de homem por
Aristóteles e os tomistas, a de que o homem é um animal racional.
Pois perguntando-se o que é racional, cairia-se em questões
mais complicadas  e indesejáveis no momento.

    A primeira evidência
veio enquanto o meditante estava pensando, e se torna verdadeira toda vez
que em um ato atual, ele a concebe em seu espírito. As coisas vieram
conforme as ordens do pensamento, e ele foi quem deu a medida. Descartes
diz- e aí ele volta o verbo ao passado- que considerava o corpo
uma máquina composta de ossos e carne. A alma seria feita de éter,
um corpo sutil, rarefeito, algo como um vento ou uma flâmula tênue.
Para Platão,  alma podia ser temperante (desejos), irascível
(coração) e racional. Para os estóicos, era um sopro
sutil. Para Aristóteles, há quatro almas: vegetativa, locomotiva,
sensitiva e intelectiva.  Descartes fica com o quarto tipo de alma,
o pensamento. O pensamento é, para Descartes, ao mesmo tempo alma
e espírito. Sob a mira do Ser ardiloso e poderoso que emprega todas
a sua indústria a enganar, Descartes diz não poder estar
tão certo da natureza das coisas corpóreas. Depois de falar
o que não pertence ao seu ser, Descartes dá a  resposta 
para a pergunta “o que sou?”, que é:  “uma coisa que pensa”
(res
cogitans)
. E uma coisa que pensa é uma coisa que concebe, que
duvida, que afirma, nega, quer, imagina e que sente.

    Nesse ponto interromperei
a exposição pois já atingi o objetivo proposto. A
certeza do Cogito cartesiano inaugura o sujeito moderno, dando importância
fundamental ao ser que pensa, em oposição a um Deus que pode
enganar-me. A força do pensamento subjetivo é tal que Descartes
chega a duvidar que as pessoas que ele vê andando vestidas na rua
não sejam autômatos movidos por mola. Tal afirmação
tem um tom solipsista. Foi exposto também como é problematizado
o sujeito do conhecimento, que com ordem e medida, procura conhecer as
coisas em sua inteireza. Descartes falará então das outras
duas substâncias, a extensa, onde se tornou famoso seu exemplo da
cera que muda muito mas não deixa de ser extensa, e a divina. Tentará
provar que  Deus existe e não é mal, mas pelo contrário,
ajuda a transpor o abismo entre o sujeito e o objeto.

BIBLIOGRAFIA

1. Anotações da aula
da professora Marilena de Souza Chauí

2. Descartes, René. Volume
da coleção Os Pensadores, editora Nova Cultural, São
Paulo SP. Livro usados nesse volume: Discurso do método para
bem conduzir a razão e procurar a verdade nas ciências

e Meditações concernentes à Primeira Filosofia
nas quais a existência de Deus e a Distinção Real entre
a Alma e o Corpo do homem são demonstradas

3.Cottinghan, John. Dicionário
Descartes
Editora Zahar

4.Chauí, Marilena Primeira
filosofia
Artigo sobre filosofia moderna

5. Descartes, René. Regras
para a direção do espírito
. Edições
70. Portugal, Lisboa.

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