Entrevista com Paulo Freire



 

PAULO FREIRE — O político que não busque a eficiência está fadado a não fazer nada. Como qualquer um de nós. O problema é saber que eficiência é essa. Eficiência em torno de quê? Em favor de quem? E como, como ser eficiente?

Para mim, a eficiência política de um homem ou uma mulher de esquerda passa pela sua compreensão e pela sua comunhão com as massas populares. Eu diria mesmo que negar a comunhão com as massas populares, em nome da eficiência, é defender a eficiência de quem pretende fazer a transformação para as massas populares, de cima para baixo. Assim como eu não aceito esse tipo de transformação revolucionária, eu não aceito esse (ipo de eficiência.

Entretanto, eu não quero deixar aqui a impressão de que eu acho que uma liderança tem de consultar as massas todo dia para saber o que fazer no processo de andamento revolucionário. Isso seria mesmo impossível. A liderança revolucionária tem de obrigar a criar em si mesma algumas qualidades especiais. Por exemplo: a intuição, a sensibilidade histórica, a capacidade de prever, de sonhar a fantasia. Até do ponto de vista do , a fantasia é uma espécie de antecipação do que pode ser um de amanhã.

Como disse um dia Amílcar Cabral, o grande líder da libertação da Guiné-Bissau: "Ai do revoluciona rio que não sonha!" E acrescentou: "O problema apenas é saber se sonha um sonho possível. Além disso, ele precisa saber se é capaz do lutar para realizar o sonho. Fora disso: ai do revolucionário que não sonha!"

Essa sensibilidade à flor da pele essa capacidade de sonhai, de fantasiar, de conhecer quase adivinhando os anseios das massas populares são virtudes que o revolucionário tem de criar. É preciso viver essas coerências. É o político que é educador o educador que é político.

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