Consciência - Filosofia e Ciências Humanas

EXPANSÃO GEOGRÁFICA – História do Brasil




História do Brasil -Manual Didático para a Terceira Série Ginasial por Ary da Matta (1947)


UNIDADE    IV

EXPANSÃO GEOGRÁFICA

1.  Os centros iniciais da vida colonial;    2.  Conquista das regiões setentrionais;   3.  As entradas e as bandeiras;   4. Os  tratados de limites.

A vida colonial desenvolveveu-se em centros iniciais: São Vicente, São Paulo, Salvador, Cabo Frio, Sergipe d’El Rei, pontos de dispersão de atividade colonizadora dos portugueses e seus descendentes do Brasil.

A conquista das regiões setentrionais firma o domínio peninsular para o norte do rio Real até o cotovelo do Brasil e se espraia pela costa Jestc-oeste, Vai ao Oiapoc e penetra no vale amazônico. As entradas e bandeiras varam sertões para além do meridiano de Tordesilhas multiplicando o primitivo território que lhe havia concedido a diplomacia lusitana.

Os esforços dos sertanistas brancos, índios, mamelucos, negros, na expansão geográfica do Brasil colonial, que esboçaram nossas fronteiras a largas pinceladas, foram recompensados nos meados do século XVIII pelos tratados diplomáticos que nos garantem, por influência do santista Alexandre de Gusmão, a posse daqueles territórios pelo  "uti possidetis".



1.   Os centros iniciais da vida colonial

O povoamento do Brasil fêz-se em 5 etapas bem definidas :

a)        a fixação no litoral desde o cabo de São Roque até Cananéia;

b)        alargamento progressivo desta primitiva faixa litorânea com a infiltração nos vales dos rios costeiros até encontrar a barreira dos contra-fortes da Serra do Mar;

c)         a conquista do Norte, cortando os sertões da Bahia e  Pernambuco até  encontrar a  costa  leste-oeste;

d)        o movimento bandeirantista do planalto, segundo o roteiro do Tietê, Paraíba do Sul, Paraná, Paraguai, Madeira,   Tapajós;

c) as reduções jesuíticas meridionais de Cerro Tape, Guaíra, Iguaçu, que levavam ao Prata.

Este movimento de irradiação de que falam os itens c e d partiu de centros iniciais localizados nas capitanias de Pernambuco, Sergipe, Bahia, Espírito Santo e São Vicente.


2.   Conquista das regiões setentrionais

A CONQUISTA DA PARAÍBA

Primeiras tentativas. — Até 1579 a costa do Brasil entre a Paraíba e o Maranhão estava ainda sujeita à influência dos traficantes franceses. Nesta época o governador Lourenço da Veiga tomou providências para que fosse efetivada uma nova expedição à Paraíba. Dela se encarregou o rico proprietário pernambucano Frutuoso Barbosa que se propôs conquistá-la cm troca da nomeação de capitão-mor por um decénio e o direito de explorá-la, o que lhe foi concedido em carta régia de 25 de janeiro de 1579. Frutuoso Barbosa esperava assim completar a infeliz campanha iniciada naquela capitania, no tempo do governador D. Luís de Brito, pelo ouvidor geral Fernão da Silva.

Em 1580, o recem-nomeado "capitão de mar e terra1‘ D. Frutuoso fundeou em Pernambuco com soldados, colonos, frades franciscanos e beneditinos, pronto a colonizar a Paraíba. Maltratada por uma tormenta, a flotilha foi dispersada e parte afundada na altura do Recife e o concessionário, arrastado às Antilhas e à Europa, teve que regressar sem sequer ter saltado na Paraíba.

A expedição de 1583. — Em 1583, no governo de Manuel Teles Barreto, Diogo Flores Valdez que voltava de uma malograda expedição no estreito de Magalhães, pro-põe-se a nova tentativa de conquistar a Paraíba. Foram três os comandantes nesta tentativa. Diogo Flores Valdez chefiou a expedição marítima enquanto que por terra avançavam forças sob o comando de Frutuoso Barbosa e D. Filipe de Moura. A junção das duas colunas deu-se no rio Paraíba, fronteiro a Cabedelo, fundando-se ali um povoado batizado por Frutuoso  "cidade Filipéia"  (1.°  de maio  de 1584) e o forte de S. Filipe, cujo comando foi entregue ao espanhol Francisco Castrejón, ficando D. Frutuoso como governador  da cidade.

Ataque do chefe Piragibe. — Os tupiniquins, insuflados pelos franceses expulsos da Paraíba, atacam o forte de S. Filipe, comandados pelo chefe Piragibe (braço de peixe). Castrejón defendeu-se bravamente contando também com o auxílio do ouvidor Martim Leitão e seu lugar–tenente, o mestre de campo Francisco Barreto. A expedição de socorro, depois. de vários encontros com Piragibe, atingiu penosamente o forte, desafogado pela expulsão dos índios para além do rio e da destruição de suas tabas e roçados. Voltam a Olinda deixando Pêro Lopes no comando da praça, ao lado de Castrejón. O forte de São Filipe, depois da retirada de D. Frutuoso, resistiu ainda, mas, minados pelo cansaço, pelo desânimo e pelas moléstias, os colonos destruíram a fortificação, afundaram navios, inutilizaram a artilharia, apagando-se vestígios daquela colonização.

A pacificação. — Martim Leitão soube explorar a rivalidade entre tupiniquins e seus aliados tabajaras, então combatendo os brancos na Paraíba. Obteve a aliança de Piragibe e não tardou que, por influência de João TavaVes, os próprios tabajaras tomassem o partido dos portugueses contra franceses sempre hostis.

Em maio de 1587, Martim Leitão voltou a Pernambuco considerando pacificada a Paraíba e fixada a colonização portuguesa, onde deixou lançado alicerce de um engenho real.

A CONQUISTA DE SERGIPE

Movimentos iniciais. — A ideia da conquista de Sergipe existia desde o governo de Mem de Sá, preocupado com a catequese dos tupinambás aldeados além do rio Real. Jesuítas para lá enviados não puderam conter a cobiça de soldados e colonos que prejudicaram enormemente

a obra da catequese. Garcia d’Ávila pensou também nesta conquista. Em 1574 uma expedição enviada pelo governador D. Luis de Brito Almeida acabou por anular qualquer tentativa de aproximação, devastando seis povoados no rio Real e massacrando os indígenas numa guerra atroz.

A conquista de Cristóvão de Barros. — Melhor sucedido nesta empresa foi Cristóvão de Barros, que chefiou em 1589 uma expedição marítima e terrestre ao local onde já se achava fundada Santa Luzia. Em breve foi anulada a resistência do chefe Boipeba no rio Vaza Barris e o morubixaba retirou-se para o sertão com grandes perdas (1 de janeiro de 1590).


Cristóvão de Barros fundou então na foz do rio Sergipe o forte e a cidade de São Cristóvão. Seu filho, António Cardoso de Barros, recebeu sesmarias desde o rio Sergipe até o São Francisco. Outros agraciados foram Tomé da Rocha e Rodrigo Martins. O primitivo arraial levantado junto ao forte por Cristóvão de Barros foi pouco depois deslocado para a margem oposta onde levantaram a igreja de São Cristóvão e novas fortificações no local onde até hoje se mantém. O domínio português no rio Real afastou os franceses ainda mais para o norte, no Rio Grande, onde fizeram seu reduto.

CONQUISTA DO RIO   GRANDE   DO   NORTE

A fundação da capitania do Rio Grande do Norte, iniciada em 1591, data do governo de D. Francisco de Sousa, também conhecido pela alcunha de D. Francisco das Manhas. Os franceses, expulsos do rio Real e definitivamente afastados da região com a fundação do Forte de São Cristóvão e a cidade de Sergipe dei Rei, foram localizar-se mais ao  norte, insuflando  os  potiguaras  contra  os portugueses.

A   expedição   de Mascarenhas   Homem. — Ao

Rio Grande foi enviada uma expedição de grandes recursos, comandada por Manuel de Mascarenhas Homem e Alexandre de Moura. Dividiram-se os expedicionários. Mascarenhas Homem, ao qual se juntou Jerónimo de Albuquerque, seguiu por mar, atingindo, seu objetivo em janeiro de 1598; a coluna enviada por terra era comandada por Feliciano Coelho, capitão-mor da Paraíba. Encontrou sérios obstáculos no caminho e foi atacada por epidemias de bexigas. Somente em março Feliciano Coelho retomou a marcha com sua coluna muito reduzida e foi em socorro de Mascarenhas Homem. Foi fundado então, onde hoje é Natal, o forte dos Três Reis Magos, cujo comando foi entregue a Jerónimo de Albuquerque. Jerónimo de Albuquerque era filho de Maria do Arco-Verde e orgulhava-se de sua descendência indígena. Conseguiu   anteriormente  pacificar os   potiguaras,   fazendo valer seu parentesco junto aos índios. As pazes foram afinal juradas na Paraíba, a 15 de junho de 1599, por ordem do governador D. Francisco de Sousa.

CONQUISTA DO CEARÁ

Para completar o domínio português no Norte restava ainda assegurar o domínio  do Maranhão.

Pedro Coelho de Sousa propôs-se chefiar uma expedição para incorporar aquela região. Atingiu o rio Jagua-ribe em 1603, conquistou a amizade dos indígenas e campeou incólume o litoral até a serra de Ibiapaba, onde teve que vencer a resistência dos tabajaras, ainda mais uma vez insuflados pelos franceses. Pedro Coelho não soube usar de sua vitória com grande proveito mas assim mesmo desceu a serra e foi até o Paranaíba. Desgostou tabajaras e potiguaras, índios fiéis, fugiu às promessas, realizou massacres inúteis e não pôde manter-se no Ceará.

Dois jesuítas, os padres Francisco Pinto e Luís Figueira, tentam pacificar o Maranhão. Levando consigo índios capturados por Pedro Coelho, conseguiram recobrar a confiança dos selvagens e puderam transpor a serra de Uruburetama e atingir depois a de Ibiapaba. A viagem dos dois religiosos termina tragicamente com um assalto dos tapuias, de que resultou a morte de Francisco Pinto. Luís Figueira logrou escapar para Pernambuco, milagrosamente.

A conquista do Ceará foi obtida pelo esforço e prestígio pessoal de um jovem colono de 18 anos, Martim Soares Moreno (personagem do romance Iracema de José de Alencar), que havia aportado ao Brasil em 1602. Tomou parte na expedição de Pedro Coelho ao Maranhão. Soube conquistar a confiança dos selvagens e fêz-se amigo pessoal do chefe potiguar Jacaúna, de quem obteve confiança e respeito. Tenente do forte dos Reis Magos, Martim Soares Moreno conservou e ampliou esta • amizade e chegou mesmo com o consentimento do chefe Jacaúna segundo refere Capistrano, a levar um seu filho para apresentá-lo ao governador, D. Diogo de Menezes. Em 1611, Soares Moreno fundou junto ao rio Ceará um fortim de onde conseguiu, com o auxílio dos índios que aldearam perto do forte, trazer assustados os franceses que ali faziam aguada.

CONQUISTA DO PARÁ

Após a conquista do Maranhão deveria Alexandre de Moura prosseguir na penetração do Pará, desalojando os franceses. Como não se verificasse a existência de qualquer estabelecimento inimigo naquela região, enviou ao Pará, como capitão-mor, Francisco Caldeira Castelo Braiico, à frente de expedição de três embarcações, 150 homens e 10 peças de artilharia, acompanhado do piloto António Vicente Codrado e do capitão Pedro Teixeira, um dos heróis de Guaxinduba e que iria celebrizar-se mais tarde na penetração do Amazonas.

A expedição tomou duplo caráter de exploradora (deveria saber o que havia além do Cabo Norte) e colonizadora. Caldeira Castelo Branco arrancou pelo litoral com grande cautela, sondando, reconhecendo, e penetrou pelo Guajará e a 35 léguas do mar, à margem direita do Pará, fundou em janeiro de 1616 num pontal junto ao rio Gaumá o fofte do Presépio e a cidade de Santa Maria do Belém, primitivo núcleo da atual capital paraense.

CONQUISTA DO AMAZONAS

O Amazonas era conhecido dos espanhóis desde o século XVI. Em 1541 Francisco Orellana, explorador espanhol vindo do Peru, desceu-o até a foz. Ém 1637 Pedro Teixeira navegou-o em sentido contrário até Napo, de onde passou a Quito, em território peruano (15 de agosto de 1638). Em 16 de março de 1639, de volta-, na barra do Aguarico, tomou posse em nome da coroa portuguesa das terras que ficam entre aquela barra e o Atlântico.

Pe)dro Teixeira foi então nomeado capitão-mor do
Pará.


CONQUISTA DO PIAUÍ

A conquista do Piauí foi um episódio do desenvolvimento da pecuária no norte do Brasil. Ao contrário das regiões vizinhas, a conquista partiu do sertão para o litoral.

Foram os irmãos Domingos Afonso Mafrense, depois cognominado o Sertão, e Julião Afonso Sena, rendeiros da casa da Torre (onde possuíam 4 fazendas de gado), que em 1674 obtiveram do coronel Francisco Dias d’Ávila auxílios para fundar novas fazendas mais para o interior. Avançaram pelos sertões de Pernambuco, transpondo a serra que passou a chamar-se dos "Dois Irmãos".

Nos campos do Piauí tiveram numerosos encontros com os indígenas e a vitória só lhes foi assegurada pelo auxílio do bandeirante paulista Domingos Jorge Velho, famoso prcador de gentio. Puderam, assim, os dois irmãos, instalar cerca de 30 fazendas de gado nas sesmarias que lhes foram doadas e que abrangiam praticamente toda a área do Piauí.

QUESTIONÁRIO   REFLEXIVO

1   — Quais os centros iniciais da vida  colonial?

2   — Quando se iniciou a conquista da Paraíba?

3   — Quais as primeiras  tentativas?

4   — Que resultados apresentou  a  expedição  de   1583?

5   — Quais  os  chefes que  mais se  destacaram   nessa  empresa?

6   — Que nos lembra a data  1587  na história paraibana?

7   — Quais as primeiras  tentativas  de   conquista de   Sergipe?

8   — De que  modo  Cristóvão  de   Barros   obteve    o   domínio,   de

Sergipe?

— Qual o   motivo   da    importância    histórica    de    Mascarenhas

Homem?

10      — Quais os principais sucessos  desta expedição?

11 — Que nos lembra a data 15 de j,unho de 1599?

12       — Quando se iniciou a conquista do Ceará?

13       — Que dificuldades  encontraram os  conquistadores?

14       — Qual o mérito de Martim Soares Moreno?

15       — Quando foi realizada a conquista do Ceará?

16       — Quais os conquistadores do Pará?

17   Quais as primeiras penetrações no Amazonas?

18       — Como se realizou  a conquista e a colonização  do  Piaui?

Sugestões para exercícios de redação e exposição oral:

a)    — A inftuência francesa no Nordeste.

b)    A politica da expansão portuguesa na  costa leste-oeste.

c)    Martim Soares Moreno c a colonização do Ceará.


3.   As entradas e as bandeiras

A conquista do Norte, iniciada na Paraíba e ultimada com a posse da costa leste-oeste até o Pará, e a con-, sequente penetração do Amazonas completaram a ocupação periférica do Brasil pela colonização portuguesa nos meados do século XVII.

O movimento de penetração no interior inicioú-se com as primeiras entradas que datam da primeira década do século XVI e adquiriu maior intensidade e profundidade com o movimento das bandeiras nós inícios do século XVII.

Ambos os termos, entradas e bandeiras, se referem, portanto, a movimentos de exploração e colonização que partiram.do litoral para o sertão. Entre elas os historiadores distinguem sensível diferença: entradas são os movimentos de iniciativa oficial das expedições exploradoras de terra realizados dentro dos limites estabelecidos pelo Tratado de Tordesilhas; como bandeiras compreendem os movimentos de iniciativa particular das expedições que levaram suas explorações além dos limites  estabelecidos  pelo  meridiano   de.marcador.

Basilio de Magalhães classifica os movimentos de expansão geográfica segundo dois ciclos:

1.°) ciclo das entradas ou ciclo oficial da expansão geográfica do Brasil, processado entre 1504 e 1696;

2.°) ciclo das bandeiras ou ciclo espontâneo de expansão geográfica do Brasil, processado entre 1526 e 1700.

O primeiro ciclo (englobando movimentos oriundos de regiões diferentes e processado em épocas diferentes) é subdividido segundo os centros de irradiação local: ciclos baiano, sergipano, espirito-santense e cearense. Os movimentos do segundo ciclo são agrupados e subdivididos segundo as finalidades específicas de cada um: ciclo do ouro de lavagem, ciclo da caça ao índio (conquista do sul), ciclo do ouro e do diamante (conquista das Gerais e Mato Grosso).


AS    ENTRADAS

As primeiras notícias de penetração datam dos primeiros documentos do século XVI e aparecem relatadas já na Carta de Caminha e na correspondência de Vespúcio. No entanto data de 1504 documentadamente a primeira entrada no sertão realizada por Vespúcio em Cabo Frio, no vale do rio São João.

Em 1531, Martim Afonso enviou quatro portugueses a explorar o sertão ribeirinho à Guanabara, onde vararam 230 léguas, como aparece no Diário de Navegação de Pêro Lopes. Esta entrada trouxe notícia de ter encontrado cristal e as minas de ouro e prata do Paraguai.

Uma segunda entrada foi resolvida no mesmo ano, diante das informações do língua Chico Chaves, de Cana-néia, que se propunha a partir para o sertão e voltar 10 meses depois com 400 escravos carregados de ouro. Foi-lhe confiada uma expedição de 80 homens ao partir a 1.° de setembro e, ao que parece, foi destroçada pelos carijós ao sul de Cananéia. Uma outra versão aproxima esta entrada da rota de Aleixo Garcia e do capitão José Sedenho, os quais, partindo de São Vicente pelo Anhembi, passaram ao Paraná de onde se transferiram ao Paraguai, onde foram massacrados pelos naturais. Uma terceira entrada realizou uma penetração no Rio da Prata, descoberto em 1516 por Solis. Comandou-a o próprio irmão do comandante. da flotilha que explorou rio acima até as regiões dos índios carandius.

Ciclo baiano. — Desde 1538, em Porto Seguro, iniciaram—se pequenas penetrações no sertão. Com a chegada à Bahia de Tomé de Sousa em 1549, recrudesceu o entusiasmo pela cata de jazidas, como referiam os colonos portugueses ali radicados. O governador autorizou então a entrada de Miguel Henriques e Bruza de Espinosa, que acabaram naufragando no São Francisco, não muito longe da foz. Uma segunda expedição foi confiada ao comando de Espinosa, espanhol que antes habitara o Peru e residente em Porto Seguro, o qual partiu acompanhado pelo jesuíta Azpilcueta Navarro. A expedição partiu em março de 1544, já no governo de Duarte da Costa, percorreu cerca de 350 léguas, penetrando pelo rio Caravelas, passou ao Jequitinhonha até alcançar a serra Diamantina, de onde passou ao São Francisco. Pela margem direita do rio alcançou o Mangabi e o Pardo, voltando ao ponto de partida em 1555  (Calõgeras).

Em 1561, Vasco Rodrigues Caldas, à frente de 100 companheiros, penetrou no sertão pelo vale do Paraguaçu, atingindo a Chapada Diamantina, onde a expedição foi dispersada pelos tupinaés.

Data de 1568 a entrada de Martins Carvalho que, partindo de Porto Seguro, percorreu 220 léguas de sertão peias regiões dos rios Jequitinhonha, Doce, Mucuri e São Mateus, onde descobriu as areias auríferas das Minas Novas.

Em 1573 Sebastião Tourinho, de Porto Seguro, penetrou pelo São Mateus, alcançou a lagoa de Juparanã, margeou o rio Doce. Seguindo a direção de nordeste, encontrou a Chapada Diamantina e voltando-se para leste alcançou o Itamarandiba e o Jequitinhonha. Encontrou pedras coradas.

António Dias de Adorno, neto de Caramuru, filho de Paulo Adorno e Filipa Dias (filha de Paraguaçu e Diogo Álvares), realizou em 1574 uma entrada por ordem do governador D. Luís de Brito e Almeida. O roteiro desta viagem é assim balizado por Calõgeras: "Subiram o rio Caravelas, pasaram ao vale do rio Mucuri, deixam o Mucuri buscando as vertentes do Araçuaí (onde encontrou amostras de metais puros) e subiram até as cabeceiras. Ali a expedição se dividiu: parte voltou descendo o Jequitinhonha em canoas; um segundo grupo, tendo à frente Adorno, continua em direção do norte, preando índios, e voltou ao litoral com 7 000 selvagens depois de um percurso de 200 léguas varando sertões".

Ciclo sergipano. — A mais famosa entrada do ciclo sergipano foi a de Belchior Dias Moreira (outro neto de Caramuru), e que já se salientara ao lado de Cristóvão de Barros, nas expedições realizadas entre 1537 e 1590 por ocasião da conquista de Sergipe, e estabelecera-se no rio Real com suas fazendas de gado.

As façanhas do sertanista Belchior Dias Moreira foram erroneamente atribuídas a seu filho natural e herdeiro, Ro-bério Dias, por Rocha Pita, na sua "História da América Portuguesa", publicada em 1890, erro este sanado por CaPISTRANO DE ABREU.

Belchior Dias deveria ter partido do rio Real pelas alturas de 1595, tomando por eixo de penetração o rio Itape-curu. Dali se transferiu para o sertão de Manacará, serra de Monte Santo, de onde partiu para alcançar a serra de Jabonica. Tomando rumo de oeste subiu o rio Salitre, percorrendo depois as fraldas orientais da Chapada Diamantina. Em Curuçá encontrou ametistas e salitre. Continuando o roteiro atingiu a serra de Itabaiana, de onde voltou ao ponto de partida.

A entrada de Belchior Dias Moreira, nula quanto ao imediato interesse de encontrar o El Dourado no sertão sergipano, teve a virtude de voltar para a serra de Itabaiana os olhos cobiçosos de monarcas, palacianos e governadores. As declarações do sertanista, de haver naquela região dos sertões do São Francisco tanta prata "como ferro em Bil-bau", criaram a lenda das "Minas de Prata" até hoje não encontradas.

Belchior pretendia alcançar em Madrid vantagens especiais com a sua propalada descoberta, cujo segredo guardou avaramente apesar de promessas e ameaças. Para verificar a exatidão das notícias das descobertas de Belchior, Mem de Sá e D. Luís de Sousa foram até à serra de Itabaiana.

Entre 1671 e 1675, no governo de Afonso Furtado, um bisneto de Belchior Dias Moreira, o coronel Belchior da Fonseca Saraiva Dias Moreira, mais conhecido pela alcunha de "Moribeca", saiu à caça das Minas de Prata de Itabaiana, orientando-se por uma cópia do roteiro atribuído a seu bisavô. O Moribeca subiu o rio Real até as suas cabeceiras e às do rio Jabibiru. Das regiões do Canini simulou trazer minérios de prata que entregou ao governador.   Tais notícia chamaram, ainda mais uma vez, as atenções da metrópole. Em 1673 Portugal enviou ao Brasil, como "administrador das minas de prata de Ifabaiana", D. Rodrigo de Castelo Branco, que explorou aquelas regiões.

Em 1694 e 1696 duas novas entradas são realizadas à procura do tesouro de Belchior. A primeira foi chefiada pelo próprio Moribeca e a segunda pelo coronel Pedro Barbosa Leal, mais feliz que o Moribeca, pois conseguiu encontrar, em seu roteiro, ametístas em Orocori e algum ouro na serra de Itabaiana.

Ciclo cearense. — As primeiras entradas do ciclo cearense já foram citadas neste volume, no capítulo referente à conquista do Ceará.

A exploração de recursos minerais preciosos só mais tarde foi iniciada em São José dos.Cariris. Os holandeses, intalados no Brasil desde 1630 até 1654, enviam também entradas ao interior. Em 1649 o Ceará foi explorado por Matias Beck que encontrou alguma prata em Itapareja e Maranguape.

Ciclo espírito-santense. — As entradas nas regiões meridionais tiveram por foco o Espírito Santo. Em 1596, Diogo Martins Cão, por alcunha o "Mata-negros", partiu por ordem de D. Francisco de Sousa ã cata da Serra das Esmeraldas (Vapabuçu). Uniu-se aos paulistas, aos quais solicitou auxílio, obtendo de Antônio Proença escravos armados sob o comando de seu filho Francisco Proença. A expedição redundou em fracasso tendo no entanto atingido a Bahia em 1598.

Em 1634, no governo de D. Diogo de Oliveira, os jesuítas, tendo à frente o padre Inácio de Siqueira, procuram também a Serra das Esmeraldas, seguindo as pegadas da entrada anterior de Marcos de Azevedo, em Í612, nos vales dos rios Doce, Suaçuí, Arauanã, até a lagoa Água Preta, logrando encontrar esmeraldas. A entrada dos inacianos não apresentou nenhum resultado económico.

Em 1644, Salvador Correia de Sá e Benevides foi nomeado governador e administrador geral das minas do Sul.

Em seu governo foram realizadas duas entradas no sertão do Espírito Santo. A primeira chefiada pelo próprio governador e a segunda por seu filho João Correia de Sá.

Em 1667, Agostinho Barbalho Bezerra, administrador das minas de Paranaguá e da Serra das Esmeraldas, recebeu a incumbência de uma entrada bafejada pelos favores reais. Barbalho Bezerra faleceu no sertão, à procura da Serra das Esmeraldas, com muitos companheiros. Em 1668, alguns expedicionários sobreviventes chegaram de volta ao litoral.

QUESTIONÁRIO  REFLEXIVO

1  — Quais  as  causas, que  mais  contribuíram   para   a    expansão

geográfica do Brasil colónia1,3

2   Que diferença se costuma fazer entre entradas e bandeiras?

3   — Quais as primeiras notícias de entradas no sertão?

4   — Quais  as mais  célebres  entradas do   ciclo   baiano?

5   — Qual  a região  explorada por  Sebastião  Tourinho e  António

Dias   Adorno,   respectivamente? G — Quais os principais movimentos de penetração do ciclo sergipano?

7   — Qual o motivo da celebridade de Belchior Dias?

8   — Qual a área explorada por este ciclo?

9   — Quais os principais movimentos do ciclo cearense?

10       — Quais os grandes  sertanistas do  ciclo  espírito-santense?

11 — Que resultados apresentou este ciclo  de penetração?

12 — Quais os resultados gerais do chamado ciclo oficial de ex-

pansão geográfica?

Sugestões para exercício de redação e exposição oral:

a)    Os (ocos do movimento de expansão sertanista das entradas.

b)        A lenda das Minas de Prata.

c)        — A  contribuição  dos  exploradores  jesuítas.

EXERCÍCIOS

Assinalar num mapa-mudo o itinerário aproximado dos movimentos sergipano e baiano.

Assinalar na carta do Brasil as áreas exploradas pelos sertanistas do ciclo das entradas.


As Bandeiras

Ao contrário do que se viu no capítulo precedente a respeito das entradas, o movimento bandeirantista do planalto varou sertões para além do meridiano demarcador, alargando a colonização na sua marcha para oeste.

Para Capistrano de Abreu as bandeiras devem ser estudadas e classificadas mais quanto aos rios que navegaram, vadearam e cujas margens seguiram do que aos centros de onde se irradiaram.

O termo "bandeira", aqui empregado, ter-se-ia originado do costume tupiniquim de levar à frente de suas tropas uma bandeira, sinal de guerra. Ao chefe da bandeira assistia o direito de vida e morte de seus comandados, exercendo a justiça a seu modo. Admitia associados à empresa que concorriam com dinheiro ou tropa e que gozavam de certo prestígio junto ao chefe. Compunham-se as bandeiras de colonos, mamelucos, negros, curibocas, índios pacificados armados de arco e flecha. Levavam pólvora, chumbo, balas, machados, cordas, sal e mantimentos. O grosso da alimentação era obtido na caça c na pesca, frutos e mel silvestres, palmitos e não raro os produtos das próprias roças dos selvícolas que encontravam em caminho. Ves-tiam-se de tecido de algodão grosseiro, protegiam-se contra as setas com colete de couro acolchoado. Na cabeça levavam barrete ou pano amarrado na nuca sob o cha-pelão de couro desabado.

O roteiro das bandeiras. — As bandeiras forma-vam-se no planalto paulista. A presença do Tietê correndo sertão a dentro, na direção este-oeste, onde se procurava encontrar as cobiçadas "minas facilitava o caminho da penetração.

Capistrano de Abreu, o grande mestre de nossa história, assim resume o roteiro das bandeiras:

"Os bandeirantes deixando o  Tietê alcançaram o Paraíba do Sul pela garganta de São Miguel, desceram-no até Guapacaré, aluai Lorena, e dali passaram a Mantiqueira, aproximadamente por onde hoje transpõe a E. F. Rio e Minas. Viajando em rumo de ]un-diaí e Mogi, deixaram à esquerda o salto do Urupungá, chegaram pelo Parnaíba a Goiás. De Sorocaba partia a linha de penetração que levava ao trecho superior dos afluentes orientais do Paraná e do Uruguai. Pelos rios que desembocam, entre os saltos do Urubupungá a Guairá, transferiram-se da bacia do Paraná para a do Paraguai, chegaram a Cuiabá e a Mato Grosso. Com o tempo a linha do Paraíba ligou o planalto do Paraná ao do S. Francisco e do Parnaíba, as de Ceará e Mato Grosso ligaram o planalto amazânico ao rio–mar pelo Madeira,  pelo   Tapajós e pelo   Tocantins".

PRINCIPAIS BANDEIRAS

Ciclo do ouro de lavagem. — Os primeiros movimentos pertencentes a este ciclo tiveram por núcleo São Vicente. A primeira bandeira foi a de. Aleixo Garcia, realizada em 1526. Partiu de São Vicente, transpôs o Paraná e pelo Paraguai alcançou o Peru. A segunda foi a de Ulrico Schmidei, que foi ao Paraguai em 1534. Dali voltou em dezembro de 1552 e chegou a São Vicente em janeiro de 1553.

O movimento bandeirante propriamente dito, tendo por origem o planalto paulista, data de 1552, quando começam as primeiras bandeiras nas vizinhanças da serra.do Cubatão. Em 1559, sob o governo de Mem de Sá, Brás Cubas e Luís Martins realizam duas bandeiras à procura de ouro. A primeira atingiu o curso médio do Rio das Velhas ou, segundo outros, o São Francisco, onde encontrou jazidas de pedras verdes. A segunda, chefiada por Luís Martins, en–controu ouro em Caatiba.

Em 1584 organizou-se no Rio de Janeiro uma bandeira chefiada por Heliocloro Eobanos que levou consigo a Sebastião Teixeira que descobriu ouro de lavagem em Iguape, Paranaguá e Curitiba. Estas minas foram depois exploradas por Jerónimo Leitão, capitão-mor de São Vicente e por seu genro John White Hall.


António  Raposo  Tavares. (Estátua  de L.   Brizolara,   existente   no peristilo   do   Museu Paulista.)



Pelas alturas de 1590 os dois Afonso Sardinha, pai e filho, descobrem ouro de lavagem nas serras Jaraguá (São Paulo e Ivoturva no Paraíba). O governador D. Francisco de Sousa, atraído pela notícia do descobrimento dos Sardinha, partiu em 1599 para São Vicente, de onde enviou André de Leão à cata das jazidas auríferas de Minas Gerais. A bandeira de André de Leão (segundo Derby) "desceu o Tietê, alcançou o Parnaiba, desceu-o até seu trecho enca-choeirado, transpôs ali a Mantiqueira através dos cursos d’á-gua pertencentes à bacia do Prata e foi ter à cabeceira do São Francisco, na Serra de Pitangui, que julgou ser a Saba-rabuçu, a serra, das esmeraldas".

A mais célebre bandeira deste ciclo foi a de Fernão Dias Pais (não se deve acrescentar o sobrenome Leme) — acompanhado de Matias Cardoso de Almeida e Manuel de Borba Gato, Garcia Rodrigues Pais (filho). Partiu de São Paulo a 21 de julho de 1674, à cata das jazidas de esmeraldas. Sete anos ficou no sertão o sertanísta famoso peio trabalho, tenacidade e coragem. Orientou-se pelo roteiro dê André Leão atingindo as nascentes do rio das Velhas, em*Minas Gerais. Por onde passou levantou pousos e roças que se transformam depois em importantes cidades: Vituruna, Pa-raopeba, Sumidouro do Rio das Velhas, Roça Grande, Tucam-bira> Itamarentiba, Esmeraldas, Mato das Pedrarias, Serro Frio ‘("o seu pé como o de um deus fecundava o deserto" — Bilac, "O Caçador de Esmeraldas").

Deixando as cabeceiras do rio das Velhas, tomou rumo norte e passando pela serra de Itacambira o vale do Jequitinhonha, foi à lagoa de Vapabuçu e do Serro Frio.

Fernão Dias Pais morreu no Sumidouro do Rio das Velhas em 1681, julgando ter encontrado esmeraldas quando na verdade encontrara apenas turmalinas sem qualquer valor comercial.



Placa comemorativa do monumento de  António Raposo Tavares, no peristilo do Museu Paulista.

Resultados da bandeira de Fernão Dias Pais.

— Embora o objetivo principal e imediato não fosse alcançado, as consequências desta expedição foram as mais fecundas. Fundaram-se núcleos de povoamento que se transformaram em futuras cidades iniciando-se assim o povoamento do sertão. Explorou-se extensa zona onde futuras bandeiras encontrariam jazidas riquíssimas. No ponto de vista geográfico das comunicações, os três sertanistas que acom panharam Fernão Dias Pais conseguiram soluções definitivas, como lembra Calógeras: "Matias Cardoso tigou as minas aos currais do São Francisco na Bahia; Borba Gato esquadrinhou o rio das Velhas; Garcia Rodrigues Pais abriu a via de comunicação mais rápida entre as minas e o Rio de Janeiro".


Fernão Dias Pais (Medalhão   de   bronze   de   D.   Adalberto   Oresligt.)

CICLO DA CAÇA AO ÍNDIOPrear índios no sertão e dcscê-los para o litoral foi outra finalidade dos sertanistas de São Paulo, e que teve início no segundo quartel do século XVII. Alguns movimentos idênticos, mas de pouca projeção, precederam esta data. Neles se enquadram a bandeira de 1561 em que tomou parte Anchieta e a de 1562, chefiada por João Ramalho, no rio Paraíba do Sul. O governador Jerónimo Leitão capitaneou uma bandeira que destroçou aldeias selvagens do Anhembi. Nicolau Barreto, irmão do capitão-mor de São Vicente, Roque Barreto, em 1602 chegou até o rio das Velhas e o Paracatu preando e descendo gentio em número de 3 000. Em 1611, Fernão Pais de Barros atacou os índios do Paranapanema.

As reduções jesuíticas do Paraná e do Paraguai.

— Os jesuítas espanhóis no seu movimento missionário fundaram na bacia do Paraná e do Paraguai grande número de reduções, onde eram aldeados os índios catequisa-dos. Entre o Paranapanema, Itararé, Iguaçu e o Paraná fundam a "Província âo Guaíra". Havia ainda as províncias do Paraná, Cerro, Tape, Santo Inácio Guaçu.

E’ fácil perceber a cobiça dos preadores de índios diante de milhares deles agrupados numa só região.

Contra o Guaíra partiu Manuel Preto em 1619, atacando Jesus-Maria e Santo Inácio, de onde voltou com 1 000 índios para São Paulo. Grande devastação no Guairá foi realizada em 1629 pelo famoso bandeirante mestre de campo António Raposo Tavares, acompanhado de 69 paulistas de prol, 900 mamelucos e cerca de 2 000 índios auxiliares. Propunha-se Raposo Tavares não apenas escravizar índios mas também expulsar daquelas terras, que declarava pertencentes à coroa portuguesa, os espanhóis ali radicados. Esta bandeira apossou-se rapidamente de São Miguel, Santo António, Jesus-Maria, Encarnação, São Xavier e São José, massacrando e aprisionando milhares de selvagens. Os sobreviventes e fugitivos retiraram-se para Loreto e Santo Inácio, onde mais tarde foram perseguidos.

Em 1636, outra expedição de vulto, sob o comando do mesmo António Raposo Tavares, partiu de São Paulo em direção da Província do Tape que dominou em 1637 e de onde passou para a Província do Uruguai (1638) daí expulsando os jesuítas egressos do Tape que ali se tinham refugiado, afastando-os para os territórios entre o Uruguai e o Paraná.

Uma última façanha de António Raposo Tavares foi a sua bandeira que partiu de São Paulo em 1691 para atacar aldeamentos de Mato Grosso, na serra de Maracaju, no vale do Paraguai. Depois de destruí-las (Xerez, Itatim, Nossa Senhora da.Fé),: tomou o caminho da Bolívia e do Peru, transpôs os Andes, foi ao.Pacífico e, descendo depois o Amazonas, voltou a São Paulo pelo litoral. Foi assim o único bandeirante que cortou o continente de oceano a oceano.

Data de 1673 a bandeira de Bartolomeu Bueno da Silva, o primeiro Anhanguera, ao rio Vermelho, em território goiano, apresando tribos e de lá trazendo amostras de ouro e grande número de índios. Obteve dos selvagens a revelação das minas auríferas fazendo arder um vasilhame com aguardente e ameaçando queimar-lhes os rios caso não revelassem o local das jazidas. Deste episódio é que se originou a alcunha de Anhangiíerct, feiticeiro. Levou consigo o filho de 12 anos, seu homónimo, e conhecido como o segundo AnhangUera e que mais tarde explorou as minas de Goiás.

CICLO DO OURO

Os dois ciclos anteriormente estudados, ciclo do ouro de lavagem e ciclo da caça ao índio, permitem o estabele-cimento de caminhos e roteiros mas, com exceção da bandeira de Fernão Dias Pais, não apresentaram nenhum elemento de fixação de povoamento. A posse efetiva do solo sertanejo em consequência do movimento bandeirante foi motivada pela abertura de minas auríferas que condensaram em torno os primeiros núcleos de urbanização além da Mantiqueira. O ouro de lavagem, a caça ao índio, eram apenas episódios de passagem, de duração efémera: a mineração, o garimpo, foram os elementos fixadores que povoaram o sertão, provocando uma grande corrida.


Ao ciclo do ouro pertencem as bandeiras de Garcia Rodrigues (filho de Fernão Dias Pais) que na bandeira por êle chefiada, em 1690, encontrou ouro em Minas Gerais e a de António Rodrigues Arzão, que partiu de Tau-baté em 1693 e foi até o rio da Casca. Dali foi ao Espírito Santo com amostras de puro.

Em 1694 Bartolomeu Bueno de Siqueira encontrou ouro em Itapava e no rio das Velhas, de onde retirou algumas oitavas de ouro.

Ainda de Taubaté saiu António Dias, descobridor de Ouro Preto em 1698.

Em 1719 Pascoal Moreira Cabral, que chefiava uma bandeira preadora de índios, encontrou as minas de Cuiabá, Mato Grosso, no Coxipó-Mirim, ali fundando o arraial de Forquilha.

O século XVIII que se inicia foi o século de mineração, do abandono da lavoura litorânea. Em 1709 foi fundada a capitania de São Paulo e Minas do Ouro. Mais tarde, em 1720, Minas Gerais obteve autonomia administrativa, passando a ter governo independente, do de -São Paulo e Rio.

REPRESENTAÇÃO ESQUEMÁTICA APROXIMADA DO   MOVIMENTO BANDEIRANTISTA.

Baseada na Carta de. Ensaio Geral de Bandeiras Paulistas, de Afonso de  Taunay, no diagrama de Vicente Tapajós.

1) Pedro Teixeira — 1638.

2)    António Raposo Tavares — 1651.

3)    António Raposo Tavares — 1650.

4)    Francisco de Oreilana — 1542.

5)    Pedro Teixeira (1637), António Raposo Tavares — 1651.

6)    Sebastião Pais de Barros — 1675.

7)    António Raposo Tavares — 1640.

8)    Mateus    Cardoso   de   Almeida ~ 1689-1698,

9)  Domingos Jorge Velho — 1671.

10) Domingos Jorge Velho — 1695.

11) Fernão Dias Pais — 1676.

12) António Raposo Tavares — 1639.

13)    António Raposo Tavares — 1649.

14)    António Raposo Tavares — 1649.

15)    Manuel Campos Bicudo e António Pires de Campos — 1675.

16)    Pascoal Moreira Cabral — 1719.

17)    Luís Castanho de Almeida - 1671.

18)   Bartolomeu Bueno da Silva—    1725

19)   Bartolomeu Bueno da Silva—  1673.

20)    Bartolomeu   Bueno   de  Siqueira —  1676.

21)    Matias    Cardoso    de   Almeida — 1685.

22)    Azpilcueta Navarro e Francisco de Espinosa — 1553.

23)           Garcia     Rodrigues     Pais Betim — 1607.

24)    Brás Cubas — 1560.

25)    Fernão  Dias Pais  e Manuel Borba Gato — 1681

26)    André de Leão —1601.

27)    António Rodrigues — 1693.

28)           Bartolomeu  Bueno  de  Siqueira — 1694.

29)           Afonso Sardinha —  1599.

30)           D.  Luís  de  Céspedes  — 1628.

31)           Fernão Dias Pais — 1628.

32)   Antônio   Raposo   Tavares — 1633.

.                                     Bandeirantes


QUESTIONÁRIO  REFLEXIVO

1  — Qual a origem do termo "bandeira" empregado nos movi-

mentos de expansão geográfica?

2   — Como eram organizadas estas expedições?

3   — Qual o roteiro aproximado das bandeiras paulistas?

4   — Quais as finalidades do movimento  bandeirantista?

5   — Como poderemos classificá-las?

6   — Quais as principais bandeiras do ciclo de ouro de lavagem?

7   — Qual o motivo da importância histórica de Fernão Dias Pais?

8   — Quais os resultados próximos e remotos desta bandeira?

9   — Quais as bandeiras que pertencem ao eido da. caça ao índio?

10  — Quais   os   motivos   de  antagonismos  entre   bandeirantes   e jesuítas?

11   — Quais os principais aspectos  da  biografia de António Raposo Tavares?

12  — Qual a área geográfica explorada pelos bandeirantes deste ciclo?

13       — Qual a lenda do Anhanguera?

14       — Quais as bandeiras do ciclo do ouro?

15       — Qual o motivo da importância histórica de Pascoal Moreira Cabral?

16  — Que diferença poderemos fazer entre o ciclo do ouro de lavagem e o ciclo das minas?

17       — Qual a área geográfica explorada pelos bandeirantes?

18       —  Como podemos caracterizar a nossa atividade económica do século XVIII?

Sugestões para exercício de redação ê exposição oral:

a)    Resultados gerais do bandeirantismo.

b)   Biografia de Fernão Dias Pais.

c)    O que deve o Brasil aos sertanistas e bandeirantes.

4. Os tratados de limites

O movimento de penetração bandeirante determinou o recuo para oeste do meridiano demarcador estipulado no Tratado de Tordesilhas de 1494. Triplicou-se assim a primitiva área geográfica do Brasil, que Portugal já havia conquistado peia sua hábil diplomacia, seis anos antes da expedição de Cabral à nossa Terra.O movimento de expansão geográfica do Brasil co­lonial foi condicionado a fatôres geográficos da hidro­grafia e da orografia. O curso dos rios e a distribui­ção especial das principais bacias (Prata, Amazônica, S. Francisco, Paraíba), a linha das serras cortadas nas gargantas, balizaram o caminho dos desbravadores e condicionaram a silhueta que hoje ostenta o Brasil. No sul e sudoeste o movimento foi chocar-se com a colo­nização espanhola que subia do Prata. Na planície amazônica, partindo do Atlântico, a penetração se de­teve diante dos espanhóis do Peru. A fronteira de oeste orientou-se seguindo o rumo dos afluentes da margem direita do Amazonas.A posse de tão extensa conquista do sertão, regulada em normas de direito internacional, foi objeto de vá­rios tratados de limites garantidores de seu domínio efe-tivo constituindo uma herança cujo património defen­demos e conservamos ardorosamente.

Tratado de Utrecht (11 de abril de 1713). — O Tratado de Utrecht foi assinado entre Sua Majestade Cris­tianíssima Luís XIV, rei de França e da Navarra, e Sua Majestade Portuguesa D. João V, rei de Portugal e Al­garve. Por êle se reconhecia a legitimidade da posse por­tuguesa sobre as terras do Cabo Norte, situadas entre o Amazonas e o Oiapoc (artigo VIII) e também a posse das terras de ambas as margens do rio.Amazonas (artigo X), bem como sua navegação. Portugal se obrigava a respeitar a soberania francesa em Caiena, sendo vedada a presença de súditos franceses ao sul do Oiapoc e de súditos portugueses em Caiena (artigo XII).


Com este tratado foi fixado o limite setentrional do Brasil. O forte de Macapá foi reconstruído.


TRATADO DE MADRID (1750)


O Tratado de Madrid, de 1750, procurava resolver a questão de limites entre possessões portuguesa e espanhola na América do Sul, provocada pelo movimento de expansão dos sertanistas brasileiros. A linha de fronteira estipulada por este instrumento diplomático delimitou, envol-yendo-o juridicamente, com pequenas diferenças, a silhueta do Brasil contemporâneo.
O Tratado de 13 de janeiro de 1750 foi assinado entre S. AI. Católica D. Fernando VI, rei de Espanha, e S. M. Fidelíssima D. João V, rei de Portugal e Algarve. Negociou o Tratado por parte de Portugal o embaixador em Madrid, D. Tomás da Silva Teles, visconde de Vila Nova de Derveira, e por parte da Espanha o Secretário de Estado D. José Carbajal y Lencaster.
Na verdade todo trabalho preparatório, negociações diplomáticas em Roma, estudos e pesquisas de direito que possibilitaram o tratado, foram executados pelo nosso compatriota Alexandre de Gusmão, irmão do Padre-voador Bartolomeu Lourenço de Gusmão, pioneiro da aeronáutica, de velha linhagem santista.
Alexandre de Gusmão. — Alexandre de Gusmão, chamado pelo embaixador Araújo Jorge "o avô dos diplomatas brasileiros", nasceu em Santos, em 1695. Fez sólidos estudos no Colégio dos Jesuítas de Santos, de onde passou para Lisboa. Aos 20 anos iniciou sua carreira diplomática como secretário do embaixador português em Paris, por nomeação de D. João V.
Em Roma, embaixador na corte pontifícia, cativou a confiança e a admiração de Benedito XIII, do qual obteve para o monarca português o título de Fidelíssimo. Foi membro do Conselho Ultramarino, onde encontrou boas oportunidades de prestar excelentes serviços à sua terra na­tal. Com a questão do Tratado de 1750, introduziu no direito internacional uma nova figura jurídica — o direito do “uti possidetis” reconhecido até’então »no direito pri­vado, isto é, o direito de posse do primeiro ocupante, gra­ças ao qual foram reconhecidos como de posse lusitana os territórios conquistados e colonizados pelos nossos serta-nistas da expansão geográfica.

 

A linha de fronteiras do tratado. — De sul para o norte a linha de fronteira se iniciava no litoral da Lagoa do Castilhos, contornava o serro dos Castilhos Gran­des, passando depois pelas cabeceiras do rio Negro, de onde alcançava as cabeceiras do Ibicuí. Descia o íbicuí até o Uruguai subindo-o até o Peperiguaçu, acompanhan­do seu leito até suas cabeceiras. Destas cabeceiras subia pelo mais alto terreno até encontrar seu contra-cabeçante, o Santo António, descendo-o até o Iguaçu, afluente do Pa­raná. Descia o Iguaçu até o Paraná, cujo leito acompa­nhava até encontrar o Igurei, de cujas cabeceiras, pelo ponto mais alto do terreno, seguia o mais próximo afluen­te do Paraguai, passando pelo canal principal em tempo seco, atravessando os pântanos que se seguem até a boca do Jauru, de onde seguia em linha reta até a confluência do Mamoré com o Guaporé. Descia o Guaporé até sua confluência com o Mamoré, descendo o Madeira até seu ponto médio (entre a foz do Guaporé e . o Amazonas). Deste ponto a linha de fronteiras se orientou em direção leste-oeste até encontrar a margem oriental do Javarí, descendo o seu álveo até o Amazonas. Descia o Ama­zonas até a boca mais ocidental do Japurá. A linha de fronteiras subia então pelo meio do Japurá até suas cabe­ceiras. Deste ponto a linha se orientaria para este pas­sando pelo “divortium aquarum” entre a bacia do Orenoco e a bacia Amazônica.

Para traçar no terreno as fronteiras estipuladas no Tratado, foram nomeadas duas comissões: a primeira cons­tituída por Xavier de Mendonça Furtado, representante português, e D. José de Iturriaga, espanhol, para as fronteiras setentrionais (do Jauru ao extremo norte). A segunda comissão, composta do marquês de Vai de Lírios, espanhol, e de D. Manuel Rodrigo Lobo, governador do Rio de Janeiro, foi incumbida das fronteiras meridionais (dos Castilhos Grandes ao Jauru).
Pelo seu artigo XV, o tratado estipulava a posse espanhola da Colónia do Sacramento e no artigo XVI cedia a Portugal o território dos Sete Povos das Missões do Uruguai.

TRATADO DE SANTO ILDEFONSO


O tratado de Madrid trouxe gerais descontentamentos entre as partes contratantes. No Brasil foi muito impopular e considerado prejudicial. Sua realização prática pelas duas comissões encontrou reações locais de grande violência. Os comerciantes lusitanos da Colónia do Sacramento não admitiam ali o domínio espanhol; indios guaranis aldeados pelos jesuítas espanhóis opuseram-se de armas na mão aos demarcadores das fronteiras, o que levou o governador Gomes Freire de Andrade a atacá-los e vencê-los em Caibaté, Churuchi, São Martinho e São Lourenço. ‘
No norte a fixação da foz do Japurá criou outros tantos embaraços entre os demarcadores.
O geral descontentamento, a desconfiança, os obstáculos surgidos, foram de tal monta, que D. José I e D. Carlos III resolveram anulá-lo pelo Tratado do Pardo, de 12 de fevereiro de 1761, assinado por José da Silva Peçanha e Ricardo Wall.
D. Maria I, herdeira e sucessora de D. José I, afastou do governo o onipotente ministro marquês de Pombal e deu início à chamada Viradeira (reação sistemática e violenta àquela política). Fiel a esta nova orientação, iniciou logo com a Espanha as negociações de um novo tratado para resolver as questões de fronteiras de seus domínios sul-americanos. Foi assim assinado, em 1.° de setembro, o Tratado de Santo Ildefonso. Este tratado introduzia modificações nas fronteiras meridionais consagradas pelo de Madrid de 1750, desde Castilhos Grandes até o Peperi-guaçu. A nova linha sairia do Chuí, abandonando o Ibicuí. O Brasil perdeu o território das Missões (entre o Uruguai, Ibicuí e Peperiguaçu), de onde S. Borja era o principal centro e a Espanha mantinha a posse da Colónia do Sacramento. Como se vê e como lembra o Visconde de São Leopoldo, foi o "Tratado mais que todos leonino e capcioso", lesivo inteiramente, acrescentamos, aos interesses do Brasil.


Sugestões para exercício de redçção e exposição oral:

a) — Biografia de Alexandre de Gusmão.
b) — O Brasil nos meados do século XVIII.
c) — Compare a linha demarcadora do tratado de 1755 com as
nossas fronteiras atuais.


EXERCÍCIO

Redija um questionário sucinto sobre os Tratados de Limites do século XVIII.

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