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TRATADO DESCRITIVO DO BRASIL em 1587 – Gabriel Soares de Sousa – Primeira Parte

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Índice

TRATADO DESCRITIVO DO BRASIL em 1587
Gabriel Soares de Sousa

PRIMEIRA PARTE: Roteiro geral, com largas informações de toda a costa do Brasil

Proêmio

Como todas as coisas têm fim, convém que tenham princípio, e como o de minha pretensão é manifestar a grandeza, fertilidade e outras grandes partes que tem a de Todos os Santos e demais Estados do Brasil, do que os reis passados tanto se descuidaram, a el-rei nosso senhor convém, e ao bem do seu serviço, que lhe mostre, por estas lembranças, os grandes merecimentos deste seu Estado, as qualidades e estranhezas dele, etc, para que lhe ponha os olhos e bafeje com seu poder, o qual se engrandeça e estenda a felicidade, com que se engrandeceram todos os Estados que reinam debaixo de sua proteção, porque está muito desamparado depois que el-rei D. João III passou desta vida para a eterna, o qual principiou com tanto zelo, que para o engrandecer meteu nisso tanto cabedal, como é notório, o qual se vivera mais dez anos deixara nele edificadas muitas cidades, vilas e fortalezas mui populosas, o que se não efetuou depois do seu falecimento, antes se arruinaram algumas povoações que em seu tempo se fizeram. Em reparo e acrescentamento estará bem empregado todo o cuidado que Sua Majestade mandar ter deste novo reino, pois está capaz para se edificar nele um grande império, o qual com pouca despesa destes reinos se fará tão soberano que seja um dos Estados do mundo porque terá de costa mais de mil léguas, como se verá por este Tratado no tocante à cosmografia dele, cuja terra é quase toda muito fértil, mui sadia, fresca e lavada de bons ares e regada de frescas e frias águas. Pela qual costa tem muitos, mui seguros e grandes portos, para nele entrarem grandes armadas, com muita facilidade, para as quais tem mais quantidade de madeira que nenhuma parte do mundo, e outros muitos aparelhos para se poderem fazer.

É esta província mui abastada de mantimentos de muita substância e menos trabalhosos que os de Espanha. Dão-se nela muitas carnes, assim naturais dela, como das de Portugal, e maravilhosos pescados; onde se dão melhores algodões que em outra parte sabida, e muitos açúcares tão bons como na ilha da Madeira. Tem muito pau de que se fazem as tintas. Em algumas partes dela se dá trigo, cevada e vinho muito bom, e em todas todos os frutos e sementes de Espanha, do que haverá muita qualidade, se Sua Majestade mandar prover nisso com muita instância e no descobrimento dos metais que nesta terra há, porque lhe não falta ferro, aço, cobre, ouro, esmeralda, cristal e muito salitre; e em cuja costa sai do mar todos os anos muito bom âmbar; e de todas estas e outras podiam vir todos os anos a estes reinos em tanta abastança, que se escusem os que vêm a eles dos estrangeiros, o que se pode facilitar sem Sua Majestade meter mais cabedal neste Estado que o rendimento dele nos primeiros anos; com o que pode mandar fortificar e prover do necessário à sua defesa, o qual está hoje em tamanho perigo, que se nisso caírem os corsários, com mui pequena armada se senhorearão desta província, por razão de não estarem as povoações dela fortificadas, nem terem ordem com que possam resistir a qualquer afronta que se oferecer, do que vivem os moradores dela tão atemorizados que estão sempre com o fato entrouxado para se recolherem para o mato, como fazem com a vista de qualquer nau grande, temendo-se serem corsários, a cuja afronta Sua Majestade deve mandar acudir com muita brevidade, pois há perigo na tardança, o que não convém que haja, porque se os estrangeiros se apoderarem desta terra custará muito lançá-los fora dela pelo grande aparelho que têm para nela se fortificarem, com o que se inquietará toda Espanha e custará a vida de muitos capitães e soldados, e muitos milhões de ouro em armadas e no aparelho delas, ao que agora se pode atalhar acudindo-lhe com a presteza devida. Não se crê que Sua Majestade não tenha a isto por falta de providência, pois lhe sobeja para as maiores empresas do mundo, mas de informação do sobredito, que lhe não tem dado quem disso tem obrigação. E como a cu também tenho de seu leal vassalo, satisfaço da minha parte com o que se contém neste Memorial, que ordenei pela maneira seguinte.

 

CA P Í T ULO I

Em que se declara quem foram os primeiros descobridores da província do Brasil, e como está arrumada.

A província do Brasil está situada além da linha equinocial da parte do sul, debaixo da qual começa ela a correr junto do rio que se diz das Amazonas, onde se principia o norte da linha de demarcação e repartição; e vai correndo esta linha pelo sertão desta província até 45 graus, pouco mais ou menos.

Esta terra se descobriu aos 25 dias do mês de abril de 1500 anos por Pedro Álvares Cabral, que neste tempo ia por capitão-mor para a Índia por mandado de el-rei D. Manuel, em cujo nome tomou posse desta província, onde agora é a capitania de Porto Seguro, no lugar onde já esteve a vila de Santa Cruz, que assim se chamou por se aqui arvorar uma muito grande, por mando de Pedro Álvares Cabral, ao pé da qual mandou dizer, em seu dia, a 3 de maio, uma solene missa, com muita festa, pelo qual respeito se chama a vila do mesmo nome, e a província muitos anos foi nomeada por de Santa. Cruz e de muitos Nova Lusitânia; e para solenidade desta posse plantou este capitão no mesmo lugar um padrão com as armas de Portugal, dos que trazia para o descobrimento da Índia para onde levava sua derrota.

A estas partes foi depois mandado por Sua Alteza com três caravelas de armada, para que descobrisse esta costa, com as quais andou por elas muitos meses buscando-lhe os portos e rios, em muitos dos quais entrou e assentou marcos dos que para este descobrimento levava, no que passou grandes trabalhos pela pouca experiência e informação que se até então tinha de como a costa corria, e do curso dos ventos com que se navegava. E recolhendo-se com perda de dois navios, com. as informações que pôde alcançar, as veio dar a el-rei D. João, o III, que já neste tempo reinava, o qual logo ordenououtra armada de caravelas que mandou a estas conquistas, a qual entregou a Cristóvão Jacques, fidalgo da sua casa que nela foi por capitão-mor, o qual foi continuando no descobrimento desta costa e trabalhou um bom pedaço sobre aclarar a navegação dela, e plantou em muitas partes padrões que para isso levava.

Contestando com a obrigação do seu regimento, e andando correndo a costa, foi dar com a boca da Bahia, a que pôs o nome de Todos os Santos, pela qual entrou dentro, e andou especulando por ela todos os seus recôncavos, em um dos quais — a que chamam o rio do Paraguaçu — achou duas naus francesas que estavam ancoradas resgatando com o gentio, com as quais se pôs às bombardas, e as meteu no fundo, com o que se satisfez e se recolheu para o Reino, onde deu suas informações a Sua Alteza, que, com elas, e com as primeiras e outras que lhe tinha dado Pedro Lopes de Sousa, que por esta costa também tinha andado com outra armada, ordenou de fazer povoar essa província, e repartir a terra dela por capitães e pessoas que se ofereceram a meter nisso todo o cabedal de suas fazendas, do que faremos particular menção em seu lugar.

CAPÍTULO II

Em que se declara a repartição que fizeram os de Castela com el-rei D. João III de Portugal.

Para se ficar bem entendendo aonde demora e se estende o Estado do Brasil, convém que em suma declaremos como se avie-ram os reis na repartição de suas conquistas, o que se fêz por esta maneira. Os reis católicos de Castela, D. Fernando e D. Isabel, sua mulher, tinham começado de entender no descobrimento das Índias Ocidentais e algumas ilhas, e porque esperavam de ir este descobrimento em tanto crescimento como foi, por atalharem as diferenças que sobre isso se podiam oferecer, concertaram-se com el-rei D. João o III de Portugal, se fizesse uma repartição líquida, para cada um mandar conquistar para sua parte livremente, sem escrúpulo de se prejudicarem. E acordados os reis desta maneira, deram conta deste concerto ao Papa, que além de aprovar, o louvou muito. E como tiveram o consentimento de Sua Santidade, ordenaram a repartição desta concordância, fazendo baliza na ilha das do Cabo Verde, de barlavento mais ocidental, que se entenda a de Santo Antão, e contando dela 21 graus a meio equinociais de dezassete léguas a meia de cada grau, e lançada daqui

uma linha meridiana de norte sul, que ficassem as terras e ilhas que estavam por descobrir para a parte do oriente, da de Portugal; e lançada essa linha mental como está declarado, fica o Estado do Brasil da dita , qual se começa além da ponta do rio das Amazonas da banda de oeste, pela terra dos caraíbas, donde se principia o norte desta província, e indo correndo esta linha pelo sertão dela ao sul parte o Brasil e conquistas dele além da baía de São Matias, por 45 graus pouco mais ou menos, distantes da linha equinocial, e altura do pólo antárctico, e por esta conta tem de costa mil e cinquenta léguas, como pelas cartas se pode ver segundo a opinião de Pedro Nunes, que nesta arte atinou melhor que todos os do seu tempo.

 

CAPÍTULO III

Em que se declara o princípio de onde começa a correr a costa do Estado do Brasil.

Mostra-se claramente, segundo o que se contém neste capítulo atrás, que se começa a costa do Brasil além do rio das* Amazonas da banda de oeste pela terra que se diz dos caraíbas do rio de Vicente Pinzon. Desse rio de Vicente Pinzon à ponta do rio das Amazonas, a que chamam o cabo Corso, são quinze léguas, a qual ponta está debaixo da linha equinocial; dessa ponta do rio à outra ponta da banda de leste são trinta e seis léguas. E ao mar doze léguas da boca desse rio estão ilhas, as quais demoram em altura de um terço de grau da banda do sul. Essas ilhas se mostram na carta mais chegadas à terra, o que é erro manifesto. Nessas ilhas há bons portos para surgirem navios, mas para bem hão se de buscar de baixa-mar, -sudoeste, porque nesta conjunção se descobre melhor o canal. A este rio chama o gentio de Mar Doce, por ser um dos maiores do mundo, o qual é muito povoado de gentio doméstico e bem acondicionado, e segundo a informação que se deste rio tem, vem do sertão mais de mil léguas até o mar; pelo qual há muitas ilhas grandes e pequenas quase todas povoadas de gentio de diferentes nações e costumes, e muito dele costuma pelejar com setas ervadas. Mas toda a gente que por estas ilhas vive, anda despida ao modo do mais gentio do Brasil e usam dos mesmos mantimentos e muita parte dos seus costumes; e na boca clêste rio, e por êle acima algumas léguas, com parte da costa da banda de leste, é povoado de tapuias, gente branda e mais tratável e doméstica que o mais gentio que há na costa do Brasil, de cujos costumes diremos adiante em seu lugar.

CAPÍTULO IV

Em que se dão em suma algumas informações que se têm deste rio das Amazonas.

Gomo não há coisa que se encubra aos homens que querem cometer grandes empresas, não pôde estar encoberto este rio do mar Doce ou das Amazonas ao capitão Francisco de Orellana que, andando na conquista do Peru em companhia do governador Francisco Pizarro, e indo por seu mandado com certa gente de cavalo descobrindo a terra, entrou por ela adentro tanto espaço que se achou perto do nascimento deste rio. E vendo-o caudaloso, fez junto dele embarcações, segundo o costume daquelas partes, em as quais se embarcou com a gente que trazia e se veio por êsse rio abaixo, em o qual se houveram de perder por levar grande fúria a correnteza, e com muito trabalho tornou a tomar porto em povoado, na qual jornada teve muitos encontros de guerra com o gentio e com um grande exército de mulheres que com êle pelejaram com arcos e flechas, de onde o rio tomou o nome das Amazonas. Livrando-se este capitão deste perigo e dos mais por onde passou, veio tanto por este rio abaixo até que chegou ao mar; e dele foi ter a uma ilha que se chama a Margarita, donde se passou à Espanha. Dando suas informações ao imperador Carlos V, que está em glória, lhe ordenou uma armada de quatro naus para cometer esta empresa, em a qual partiu do porto de S. Lucas com sua mulher para ir povoar a boca deste rio, e o ir conquistando por êle acima, o que não houve efeito por na mesma boca deste rio falecer este capitão de sua doença, de onde sua mulher se tornou com a mesma armada para a Espanha.

Neste tempo — pouco mais ou menos — andava correndo a costa do Brasil em uma caravela, como aventureiro, Luís de Melo, filho do alcaíde-mor de Elvas, o qual, querendo passar a , desgarrou com o tempo e as águas por esta costa abaixo, e vindo correndo a ribeira, entrou no rio do , e neste das Amazonas, de cuja grandeza se contentou muito; e tomou língua do gentio de cuja fertilidade ficou satisfeito e muito mais das grandes, informações que na ilha da Margarita lhe deram alguns soldados, que ali achou, que ficaram da companhia do capitão Francisco de Orellana, os quais facilitaram a Luís de Melo e navegação deste rio, e que com pouco cabedal e trabalho adquirisse por êle acima muito ouro e prata. Do que movido Luís de Melo, se veio à Espanha, e alcançou licença de el-rei D. João III de Portugal para armar à sua custa e cometer esta empresa, para o que se fêz prestes na cidade de ; e partiu do porto dela com três naus e duas caravelas com as quais se perdeu nos baixos do Maranhão, com a maior parte da gente que levava; e êle com algumas pessoas escaparam nos batéis e uma caravela em que foi ter às Antilhas. E depois deste fidalgo ser em Portugal, se passou à Índia, onde acabou valorosos feitos; e vin-do-se para o Reino muito rico e com tenção de tornar a cometer esta jornada, acabou no caminho em a nau São Francisco, que desapareceu sem até hoje se saber novas dêle.

 

CAPÍTULO V

Que declara a costa da ponta do rio das Amazonas até o do Maranhão.

A ponta do leste do rio das Amazonas está em um grau da banda do sul; dessa ponta ao rio da Lama há 35 léguas, a qual está em altura de um grau e três quartos; e ainda que este rio se chame da Lama, podem entrar por êle adentro e estarem muito seguras de todo o tempo, naus de 200 tonéis, o qual rio entra pela terra adentro muitas léguas.

Deste rio à ponta dos baixos são nove léguas, a qual está na mesma altura de um grau e 3/4. Nessa ponta há abrigada para os barcos da costa poderem ancorar.

Da ponta dos baixos à ponta do rio Maranhão são dez léguas, onde chega a serra Escalvada, e entre ponta e ponta tem a costa algumas abrigadas, onde podem ancorar navios da costa, a qual ponta está em dois graus da banda do sul.

Até aqui se corre a costa noroeste-sueste e toma da quarta de leste-oeste; e dessa ponta do rio a outra ponta são 17 léguas, a qual está em altura de dois graus e três quartos. Tem este rio do Maranhão na boca — entre ponta e ponta delas para dentro — uma ilha que se chama das Vacas, que será de três léguas, onde esteve Aires da Cunha quando se perdeu com sua armada nestes baixos; e aqui nessa ilha estiveram também os filhos de e aí tiveram povoado, quando também se perderam nos baixos deste rio, onde fizeram pazes com o gentio tapuia, que tem povoado parte desta costa, e por este rio acima, onde mandavam resgatar mantimentos e outras coisas para remédio de sua mantença.

Por este rio entrou um Bastião Marinho, piloto da costa, com um caravelão, e foi por êle acima algumas vinte léguas, onde achou muitas ilhas cheias de arvoredo e a terra delas alcantilada com sofrível fundo; e muitos braços em que entram muitos rios que se metem neste, o qual afirmou ser toda a terra fresca, cheia de arvoredo e povoada de gentio, e as ilhas também. Neste rio entra o de Pindaré, que vem de muito longe.

Para se entrar neste rio do Maranhão, vindo do mar em fora, há de se chegar bem à terra da banda de leste por fugir dos baixios e do aparcelado, e quem entrar por entre ela e a ilha entra seguro.

Quem houver de ir deste rio do Maranhão para o da Lama ou para o das Amazonas, há de se lançar por fora dos baixios com a sonda na mão, e não vá por menos de doze braças, porque esta costa até aqui dez léguas ao mar, vaza e enche nela a maré muito depressa, e cm conjunção de Lua tem grandes macaréus; mas para bem não se há de cometer o canal de nenhum destes rios senão de baixa-mar na costa, o que se pode saber pela Lua, o que convém que seja, pelos grandes perigos que nesta entrada se oferecem, assim de macaréus, como por espraiar e esparcelar o mar oito e dez léguas da terra, pelo que é forçado a chegar-se à terra de baixa-mar, pois então se descobre o canal mui bem; e neste rio do Maranhão não podem entrar, por este respeito, navios grandes.

CAPÍTULO VI

Em que se declara a costa do rio do Maranhão até o rio Grande.

Aliás fica dito como a ponta de sueste do rio do Maranhão, que se chama esparcelada, está em dois graus e 3/4. Desta ponta à baía dos Santos são treze léguas, a qual está na mesma altura, e esta baía é muito suja o tem alguns ilhéus; mas também entram nela muitos navios da costa, onde têm surgidouro e boa abrigada e maneira para se fazer aguada nela. Desta baía dos Santos ao rio de João de Lisboa são quatro léguas, o qual está na mesma altura, onde também entram caravelões, por terem nele grande abrigada. Do rio de João de Lisboa à baía dos Reis são nove léguas, a qual está em dois graus. Nesta baía estão algumas ilhas alagadas da maré de águas vivas por entre as quais entram caravelões e surgem à vontade. Desta baía ao rio do Meio são 17 léguas, o qual está na mesma altura de dois graus, onde também entram caravelões. Entre este e a baía dos Reis entra outro rio que se chama do Parcel, onde também os navios da costa têm boa colheita. Deste rio do Meio à baía do Ano Bom são 11 léguas, a qual costa está na mesma altura de dois graus, aonde entram navios da costa e têm muito boa colheita, a qual baía tem um grande baixo. No meio e dentro dela se vêm meter no mar o rio Grande dos tapuias, e se navega um grande espaço pela terra adentro e vem de muito longe; o qual se chama dos tapuias por eles virem por êle abaixo em canoas a arriscar ao mar desta baía, da qual à baía da Coroa são 10 léguas; e está na mesma altura onde entram e surgem caravelões da costa. Da baía da Coroa até o rio Grande são três léguas, onde começaremos o capítulo que segue. E corre-se a costa até aqui leste-oeste.

CAPÍTULO VII

Em que se declara a costa do rio Grande até a do Jagoarive.

Como fica dito, o rio Grande está cm dois graus da parte do sul, o qual vem de muito longe e traz muita água, por se meterem nele muitos rios; e, segundo a informação do gentio, nasce de uma lagoa em que se afirma acharem-se muitas pérolas. Perdendo-se, haverá dezesseis anos, um navio nos baixos do Maranhão, da gente que escapou dele que veio por terra, afirmou um Nicolau de Rezende, desta companhia, que a terra toda ao longo do mar até este rio Grande era escalvada a maior parte dela, e outra cheia de palmares bravos, e que achara uma lagoa muito grande, que seria de 20 léguas pouco mais ou menos; e que ao longo dela era a terra fresca e coberta de arvoredo; e que mais adiante achara outra muito maior a que não vira o fim, mas que a terra que vizinhava com ela era fresca e escalvada, e que em uma e em outra havia grandes pescarias, de que se aproveitavam os tapuias que viviam por esta costa até este rio Grande, dos quais disse que recebera com os mais companheiros bom tratamento. Por este rio Grande entram navios da costa e têm nele boa colheita, o qual se navega com barcos algumas léguas. Deste rio Grande ao dos Negros são sete léguas, o qual está em altura de dois graus e um quarto; e do rio dos Negros às Barreiras Vermelhas são seis léguas, que estão na mesma altura; e numa parte e noutra têm os navios da costa surgidouro e abrigada. Das Barreiras Vermelhas à ponta dos Fumos são quatro léguas, a qual está em dois graus e 1/3. Desta ponta do rio da Cruz são sete léguas e está em dois graus e meio em que também têm colheita os navios da costa. Afirma o gentio que nasce este rio de uma lagoa, ou junto dela, onde também se criam pérolas, e chama-se este rio da Cruz, porque se metem nele perto do mar dois riachos, em direito um do outro, com que fica a água em cruz. Deste rio ao do Parcel são oito léguas, o qual está em dois graus e meio; e faz-se na boca deste rio uma baía toda esparcelada.

Do rio do Parcel à enseada do Maconve são onze léguas, e está na mesma altura, a qual enseada é muito grande e ao longo dela navegam navios da costa; mas dentro, em toda, têm bom surgidouro e abrigo; e no rio das Ostras, que fica entre esta enseada e a do Parcel o têm também. Da enseada do Macorive ao monte de Li são quinze léguas e está em altura de dois graus e dois terços, onde há porto e abrigada para os navios da costa; e entre este porto e a enseada de Macorive têm os mesmos navios surgidouro e abrigada no porto que se diz dos parcéis. Do monte de Li ao rio Jagoarive são dez léguas, o qual está em dois graus e 3/4, e junto da barra dêste rio se mete outro nele, que se chama o rio Grande, que é extremo entre os tapuias e os potiguares. Neste rio entram navios de honesto porte até onde se corre a costa leste-oeste; a terra daqui até o Maranhão é quase toda escalvada; e quem quiser navegar por ela e entrar em qualquer porto dos nomeados há de entrar neste rio de Jagoarive por entre os baixos e a terra porque tudo até o Maranhão defronte da costa são baixos, e pode navegar sempre por entre eles e a terra, por fundo de três braças e duas e meia, achando tudo limpo, e quanto se chegar mais à terra se achará mais fundo. Nesta boca do Jagoarive está uma enseada onde navios de todo o porte podem ancorar e estar seguros.

CAPÍTULO VIII

Em que se declara a costa do rio de Jagoarive até o cabo de São Roque.

Do rio Jagoarive de que se trata acima até a baía dos Arrecifes são oito léguas, a qual demora em altura de três graus. Nesta baía se descobrem de baixa-mar muitas fontes de água doce muito boa, onde bebem os peixes-bois, de que aí há muitos, que se matam arpoando-os assim o gentio potiguar, que aqui vinha, como os caravelões da costa, que por aqui passam desgarrados, onde acham bom surgidouro e abrigada.

Desta baía ao rio S. Miguel são sete léguas, a qual está em altura de três graus e 2/3, em a qual os navios da costa surgem por acharem nela boa abrigada. Desta baía ao rio Grande são quatro léguas o qual está em altura de quatro graus. Êstc rio tem duas pontas saídas para o mar, e entre uma e outra há uma ilhota, que lhe faz duas barras, pelas quais entram navios da costa. Defronte deste rio se começam os baixos de São Roque, e deste rio Grande até ao cabo de São Roque são dez léguas, o qual está em altura de quatro graus e um seismo; entre este cabo e a ponta do rio Grande se faz de uma ponta a outra uma grande baía, cuja terra é boa e cheia de mato, em cuja ribeira ao longo do mar se acha muito sal feito. Defronte desta baía estão os baixos de S. Roque, os quais arrebentam em três ordens, e entra-se nesta baía por cinco canais que vêm ter ao canal que está entre um arrecife e outro, pelos quais se acha fundo de duas, três, quatro e cinco braças, por onde entram os navios da costa à vontade.

CAPÍTULO IX

Em que se declara a costa do cabo de São Roque até o porto dos Búzios.

Do cabo de São Roque até a ponta de Goaripari são seis léguas, a qual está em quatro graus e 1/4, onde a costa é limpa e a terra escalvada, de pouco arvoredo e sem gentio. De Goaripari à enseada da Itapitanga são sete léguas, a qual está em quatro graus e 1/4; da ponta desta enseada à ponta de Goaripari são tudo arrecifes, e entre eles e a terra entram naus francesas e surgem nesta enseada à vontade, sobre a qual está um grande médão de areia; a terra por aqui ao longo do mar está despovoada do gentio por ser estéril e fraca. Da Itapitanga ao rio Pequeno, a que os índios chamam Baquipe, são oito léguas, a qual está entre cinco graus e um seismo. Neste rio entram chalupas francesas a resgatar com o gentio e carregar do pau de tinta, as quais são das naus que se recolhem na enseada de Itapitanga.

Andando os filhos de João de Barros correndo esta costa, depois que se perderam, lhes mataram neste lugar os potiguares, com favor dos franceses, induzidos deles muitos homens. Deste rio Pequeno ao outro rio Grande são três léguas, o qual está em altura de cinco graus e 1/4; nesse rio Grande podem entrar muitos navios de todo o porte, porque, tem a barra funda de dezoito até seis braças, entra-se nele como pelo arrecife de Pernambuco, por ser da mesma feição. Tem este rio um baixo à entrada da banda do norte, onde corre água muito à vazante, e tem dentro algumas ilhas de mangues, pelo qual vão barcos por êle acima quinze ou vinte léguas e vem de muito longe. Esta terra do rio Grande é muito sofrível para esse rio haver de se povoar, em o qual se metem muitas ribeiras em que se podem fazer engenhos de açúcar pelo sertão. Neste rio há muito pau de tinta, onde os franceses o vão carregar muitas vezes.

Do rio Grande ao porto dos Búzios são dez léguas, e está em altura de cinco graus e 2/3; entre este porto e o rio estão uns lençóis de areia como os de Itapuã, junto da baía de Todos os Santos. Neste rio Grande achou Diogo Pais de Pernambuco, língua do gentio, um castelhano entre os potiguares, com os beiços furados como eles, entre os quais andava havia muito tempo, o qual se embarcou em uma nau para a França porque servia de língua dos franceses entre os gentios nos seus resgates. Neste porto dos Búzios entram caravelões da costa num riacho que neste lugar se vem meter no mar.

CAPÍTULO X

Em que se declara a terra e costa do porto dos Búzios até a baía da Traição, e como João de Barros mandou povoar a sua capitania.

Do porto dos Búzios a Itacoatigara são nove léguas, e este rio se chama deste nome por estar em uma ponta dêle uma pedra de feição de pipa como ilha, a que o gentio por este respeito pôs este nome, que quer dizer "ponta da pipa". Mas o próprio nome do rio é Garatuí, o qual está em altura de seis graus. Entre esta ponta e porto dos Búzios está a enseada de Tabatinga, onde também há surgidouro e abrigada para navios em que detrás da ponta costumavam ancorar naus francesas e fazer sua carga de pau de tinta. De Itacoatigara ao rio de Goaramataí são duas léguas, o qual está em seis graus esforçados; de Goaramataí ao rio de Caramative são duas léguas, o qual está em seis graus e 1/4, e entre um e outro rio está a enseada Aratipicaba, onde dos arrecifes para dentro entram naus francesas e fazem sua carga.

Deste porto para baixo, pouco mais ou menos, se estende a capitania de João de Barros, feitor que foi da casa da índia, a quem el-rei D. João III de Portugal fez mercê de cinquenta léguas de costa partindo com a capitania de Pêro Lopes de Sousa, de Itamaracá. Desejoso João de Barros de se aproveitar desta mercê, fêz à sua custa uma armada de navios em que embarcou muitos moradores com todo o necessário para se poder povoar esta sua capitania e em a qual mandou dois filhos seus que partiram com ela, e prosseguindo logo sua viagem em busca da costa do Brasil foram tomar terra junto do rio do Maranhão, em cujos baixos se perderam. Deste naufrágio escapou muita gente, com a qual os filhos de João de Barros se recolheram em uma ilha que está na boca deste rio do Maranhão, aonde passaram muitos trabalhos, por se não poderem comunicar desta ilha com os moradores da capitania de Pernambuco, e das demais capitanias, os quais depois de gastarem alguns anos, despovoaram e se vieram para este Reino. Nesta armada, e em outros navios que João de Barros depois mandou por sua conta em socorro de seus filhos, gastou muita soma de mil cruzados, sem desta despesa lhe resultar nenhum proveito, como fica dito atrás. Também lhe mataram os potiguaras muita gente onde se chama o rio Pequeno.

C A P Í T U L O XI

Em que se declara a costa da baía da Traição até Paraíba.

Do rio de Camaratibe até a baía da Traição são duas léguas, a qual está em seis graus e 1/3, onde ancoram naus francesas e entram dos arrecifes para dentro. Chama-se esta baía pelo gentio potiguar Acajutibiró, e os portugueses, da Traição, por com ela matarem uns poucos de castelhanos e portugueses que nesta costa se perderam. Nesta baía fazem cada ano os franceses muito pau de tinta e carregam dele muitas naus. Desta baía da Traição ao rio Maguape são três léguas, o qual está cm seis graus e meio. Do rio de Maguape ao da Paraíba são cinco léguas, o qual está em seis graus e três quartos; a este rio chamam — na carta de marear — de São Domingos, onde entram naus de 200 tonéis, e no rio de Maguape entram caravelas da costa; mas o rio de São Domingos se navega muito pela terra adentro, de onde êle vem de bem longe. Tem este rio um ilhéu da boca para dentro que lhe faz duas barras, e pela que está da banda do norte entram caravelões que navegam por entre a terra e os arrecifes até Ita-maracá, e pela outra barra entram as naus grandes; e porque entravam cada ano neste rio naus francesas a carregar o pau de tinta com que abatia o que ia para o Reino das mais capitanias por conta dos portugueses e porque o gentio potiguar andava mui levantado contra os moradores da capitania de Itamaracá e Pernambuco, com o favor dos franceses, com os quais fizeram nessas capitanias grandes danos, queimando engenhos e outras muitas fazendas, em que mataram muitos homens brancos e escravos; assentou Sua Majestade de o mandar povoar e fortificar para o que mandou a isso Frutuoso Barbosa com muitos moradores, o que se começou a fazer com mui grande alvoroço dos moradores destas duas capitanias. Foi Deus servido que lhe sucedesse mal com lhe matarem os potiguares (em cuja companhia andavam muitos franceses), trinta e seis homens e alguns escravos numa cilada, com o qual sucesso se descontentaram muito os moradores de Pernambuco; e se desavieram com Frutuoso Barbosa de feição que se tornaram para suas casas, e êle ficou impossibilitado para poder pôr em efeito o que lhe era encomendado, o que se depois efetuou com o favor e ajuda que para isso deu Diogo Flores de Valdez, general da armada que foi ao estreito de Magalhães.

CAPÍTULO XII

Em que se trata de como se tornou a cometer a povoação do rio da Paraíba.

Na baía de Todos os Santos soube o general Diogo Flores, vindo aí do estreito de Magalhães, com seis naus que lhe ficaram da armada que levou, como os moradores de Pernambuco e Itamaracá pediam muito afincadamente ao governador Manuel Teles Barreto, que era então do Estado do Brasil, que os fosse socorrer contra o gentio potiguar que os ia destruindo, com o favor e ajuda dos franceses, os quais tinham neste rio da Paraíba quatro navios para carregar de pau de tinta; e, posto este negócio em conselho, se assentou que o governador, naquela conjunção, não era bem que saísse da Bahia, pois não havia mais de seis meses que era a ela chegado, onde tinha por prover em grandes negócios convenientes ao serviço de Deus e de el-rei e do bem comum, mas que, pois naquele porto estava o general Diogo Flores, com aquela armada, e Diogo Vaz da Veiga com duas naus portuguesas da armada em que do Reino fora o governador, das quais vinha por capitão para o Reino, que um capitão e outro fossem fazer este socorro, indo por cabeça principal o capitão Diogo Piores de Baldez, o qual chegou a Pernambuco com a armada toda junta, com que veio o ouvidor geral Martim Leitão e o provedor-mor Martim Carvalho para, em Pernambuco, a favorecerem com gente e mantimentos, como o fizeram, a qual gente foi por terra e o general por mar com esta armada, com a qual ancorou fora da barra, e não entrou dentro com mais que com a sua fragata e uma nau das de Diogo Vaz da Veiga, de que era capitão Pedro Correia de Lacerda, em a qual o mesmo Diogo Vaz ia, e com todos os batéis das outras naus. Em os franceses vendo esta armada puseram fogo às suas naus e lançaram-se com o gentio, com o qual fizeram mostras de quererem impedir a desembarcação, o que não lhes serviu de nada, que o general desembarcou a pé enxuto, sem lho poderem impedir, e chegou a gente de Pernambuco e Itamaracá por terra com muitos escravos e todos juntos ordenaram um forte de terra e faxina onde se recolheram, no qual Diogo Flores deixou cento e tantos homens dos seus soldados com um capitão para os caudilhar, que se chamava Francisco Castrejon que se amassou tão mal com Frutuoso Barbosa não o querendo conhecer por governador, que foi forçado a deixá-lo neste forte, só, e ir-se para Pernambuco, de onde se queixou a Sua Majestade para que provesse sobre o caso, como lhe parecesse mais seu serviço. E sendo ausente Frutuoso Barbosa, veio o gentio por algumas vezes afrontar este forte e pô-lo em cerco, o qual sofreu mal o capitão Francisco Gastrejon. E, apertado dos trabalhos, desamparou este forte o largou aos contrários, passando-se por terra à capitania de Itamaracá, que é daí dezoito léguas, e pelo caminho que lhe matou o gentio alguma gente que lhe ficou atrás, como foram mulheres e outra gente fraca. Mas, sabendo os moradores de Pernambuco este destroço, se ajuntaram e tornaram a este rio da Paraíba, com Frutuoso Barbosa e se tornaram a apoderar deste forte, o qual Sua Majestade tem agora socorrido com gente, munições e mantimentos necessários, a quem se juntou uma aldeia do gentio tupinambá, que se apartou dos potiguares, e se veio viver à borda da água, para ajudar a favorecer este forte. Este rio da Paraíba é mui necessário fortificar-se, uma por tirar esta ladroeira dos franceses dele, outra por se povoar, pois é a terra capaz para isso, onde se podem fazer muitos engenhos de açúcar. E povoado este rio, como convém, ficam seguros os engenhos da capitania de Itamaracá e alguns da de Pernambuco, que não lavram com temor dos potiguares, e outras se tornarão a reformar, que eles queimaram e destruíram. Dos quais potiguares é bem que façamos este capítulo, que se segue, antes que saiamos do seu limite.

CAPÍTULO XIII

Que trata da vida e costumes do gentio potiguar.

Não é bem que passemos já do rio da Paraíba, onde se acaba o limite por onde reside o gentio potiguar, que tanto mal tem feito aos moradores das capitanias de Pernambuco e Itamaracá, e a gente dos navios que se perderam pela costa da Paraíba até o rio do Maranhão. Este gentio senhoreia esta costa do rio Grande até o da Paraíba, onde se confinaram antigamente com outro gentio, que chamam os caetés, que são seus contrários, e se faziam crudelíssima guerra uns aos outros, e se fazem ainda agora pela banda do sertão onde agora vivem os caetés, e pela banda do do Grande são fronteiros dos tapuias, que é a gente mais doméstica com quem estão às vezes de guerra e às vezes de paz, e se ajudam uns aos outros contra os tabajaras, que vizinham com eles pela parte do sertão. Costumam estes potiguares não perdoarem a nenhum dos contrários que cativam, porque os matam e comem logo. Este gentio é de má estatura, baços de côr, como todo o outro gentio; não deixam crescer nenhuns cabelos no corpo senão os da cabeça, porque em eles nascendo os arrancam logo. Falam a língua dos e caetés; têm os mesmos costumes e gentilidades, o que declaramos ao diante no capítulo dos . Este gentio é muito belicoso, guerreiro e atraiçoado, e amigo dos franceses, a quem faz sempre boa companhia, e, industriado deles, inimigo dos portugueses. São grandes lavradores dos seus mantimentos, de que estão sempre mui providos, e são caçadores bons e tais flecheiros que não erram flechada que atirem. São grandes pescadores de linha, assim no mar como nos rios de água doce. Cantam, bailam, comem e bebem pela ordem dos , onde se declarará miudamente sua vida e costumes, que é quase o geral de todo o gentio da costa do Brasil.

CAPÍTULO XIV

Em que se declara a costa do rio da Paraíba até Itamaracá, e quem foi o seu primeiro capitão.

Do rio da Paraíba, que se diz também o rio de São Domingos, ao rio de Jagoaripe, são duas léguas, em o qual entram barcos. Do rio de Jagoaripe ao da Aramama são duas léguas, o qual está em altura de sete graus, onde entram caravelões dos que navegam entre a terra e o arrecife. Deste rio ao da Abionabiajá são duas léguas, cuja terra é alagadiça quase toda, e entre um rio e outro ancoravam nos tempos passados naus francesas, e daqui entravam para dentro. Deste rio ao da Capivarimirim são seis léguas, o qual está em altura de seis graus e meio, cuja terra é toda chã. De Capivarimirim a Itamaracá são seis léguas, e está em sete graus e 1/3. Itamaracá é uma ilha de duas léguas onde está a cabeça dessa capitania e a vila de Nossa Senhora da Conceição. Do redor desta ilha entram no salgado cinco ribeiras, cm três das quais estão três engenhos; onde se fizeram mais, se não foram os potiguares, que vêm correndo a terra por cima e assolando tudo. Até aqui, como já fica dito, tem o rio de Itamaracá umas barreiras vermelhas na ponta da barra; e quem houver de entrar por ela adentro ponha-se nordeste-sudoeste com as barreiras, e entrará a barra à vontade, e daí para dentro o rio ensinará por onde hão de ir. Por esta barra entram navios de cem tonéis, e mais, a qual fica da banda do sul da ilha, e a outra barra da banda do norte se entra ao sueste, pela qual se servem os caravelões da costa. De Itamaracá ao rio de Igaruçu são duas léguas, onde se extrema esta capitania da de Pernambuco; dessa capitania fêz el-rei D. João III de Portugal mercê de Peio Lopes de Sousa, que foi um fidalgo muito honrado, o qual, sendo mancebo, andou por esta costa com armada à sua custa, em pessoa foi povoar esta capitania com moradores que para isso levou do porto de Lisboa de onde partiu; no que gastou alguns anos e muitos mil cruzados com muitos trabalhos e perigos, em que se viu, assim no mar pelejando com algumas naus francesas que encontrava (do que os franceses nunca saíram bem), como em terra em brigas que com eles teve de mistura com os potiguares, de quem foi por vezes cercado e ofendido, até que os fêz afastar desta ilha de Itamaracá e vizinhança dela. E esta capitania não tem de costa mais de vinte e cinco ou trinta léguas, por Pêro Lopes de Sousa não tomar as cincoenta léguas de costa que lhe fêz mercê Sua Alteza tôdas juntas, mas tomou aqui a metade e a outra demasia junto à capitania de São Vicente, onde chamam Santo Amaro.

CAPÍTULO XV

Que declara a costa do rio de Igaruçu até Pernambuco.

A vila de Cosmos está junto ao rio de Igaruçu, que é marco entre a capitania de Itamaracá e a de Pernambuco, a qual vila será de duzentos vizinhos pouco mais ou menos, em cujo termo há três engenhos de açúcar muito bons. Do rio de Igaruçu ao porto da vila de Olinda são quatro léguas, e está em altura de oito graus. Neste porto de Olinda se entra pela boca de um arrecife de pedra ao su-sudoeste e depois norte-sul; e, entrando para dentro ao longo do arrecife, fica o rio Morto, pelo qual entram até acima navios de 100 tonéis até 200, tomam meia carga em cima e acabam de carregar onde chamam "o Poço", defronte da boca do arrecife, onde convém que os navios estejam bem amarrados, porque trabalham aqui muito por andar neste porto sempre o mar de levadio; por esta boca entra o salgado pela terra dentro uma légua ao pé da vila; e defronte do surgidouro dos navios faz este rio outra volta deixando no meio uma ponta de areia onde está uma ermida do Corpo Santo. Neste lugar vivem alguns pescadores e oficiais da ribeira, e estão alguns armazéns em que os mercadores agasalham os açúcares e outras mercadorias; e desta ponta da areia da banda de dentro se navega este rio até o varadouro, que está ao pé da vila, com caravelões e barcos, e do varadouro para cima se navega com barcos de navios obra de meia légua, onde se faz aguada fresca para as naus da ribeira que vem do engenho de Jerônimo de Albuquerque; também se metem neste rio outras ribeiras por onde vão os barcos dos navios a buscar os açúcares aos paços onde os trazem encaixados e em carros; este esteiro e limite do arrecife é muito farto de peixe de rêdes que por aqui pescam e do marisco; perto de uma légua da boca deste arrecife está outro boqueirão, que chamam a Barreta, por onde podem entrar barcos pequenos estando o mar bonançoso. Desta Barreta por diante corre este arrecife ao longo da terra duas léguas, e entre ela e êle se navega com barcos pequenos que vêm do mar em fora, e quem puser os olhos na terra em que está situada esta vila, parecer-lhe-á que é o cabo de Santo Agostinho, por ser muito semelhante a ele.

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