Miguel (admin)

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  • A acusação de ressentimento em Nietzsche, lembra de certa forma a acusação de Heidegger a Nietzsche, de que a metafísica não teria sido superada – conceito de vontade de potência e conceito de eterno retorno.

    Isso foi adaptado e usado à larga por Habermas quando acusa toda a herança nietzscheana de autores que criticam a razão de terem caído numa “contradição performativa”, ou seja, criticar a razão a partir da própria razão, esvaziando a validade de verdade de um discurso no interior da própria estrutura desse discurso.

    Essa postura me parece um pouco esperta, complexa ou problemática? Será que Nietzsche não se precavê da acusação já em seus próprios escritos?

    Além disso existe o problema de confundir a biografia do autor com sua obra, que é terrível. A obra deve ser pensada separadamente da biografia, pois o contrário exige um trabalho sério e meticuloso, que muitos não estão dispostos a empreender. Rousseau escreveu Emílio porque abandonou seus filhos? É complicado querer justificar a intrincada problemática do autor com o que ele tenha vivido, mesmo nos casos que ele dá indicações autobiográficas em sua própria obra.

    Se você ler uma biografia mais extensa, como o trabalho pioneiro de Daniel Halevy, verá que a vida de Nietzsche e a confecção de sua obra envolve vários tipos de momentos, da grande angústia à grande esperança, de intensa atividade à enfermidade. Querer sintetizar a figura de Nietzsche como ressentido é ceder a uma simplificação injustificável, ter uma postura de inverter o que o autor escreveu com base na sua psicologia, que não pode ser esboçada senão com muito esmero e ressalva.

    O método genealógico que identifica a origem ressentida da moral dos fracos não se atém a um caso particular, mas está tomando a moral em sentido geral, a argumentação dele também é justificada e cheia de nuances.

    Enfim, pode até se verificar o ponto de vista reiterado, mas meu princípio é de manter um distanciamento, e não se deixar levar por emoções ou sentimentos como asco, que revela uma postura ideologizante e categórica na abordagem de um clássico.

    em resposta a: Um homem que amou a natureza humana #79427

    Interessante nesse tópico de natureza humana é lembrar a Profissão de fé do vigário saboiano, que Rousseau expõe no livro Emílio. Em todo caso de dúvida, o homem deve tomar como verdadeiro aquilo que seu coração aponta quando perguntado em seu íntimo. Esse é o sentido também das Confissões, em que Rousseau pretende se apresentar com toda verdade em seu espírito.

    Não admitir como verdadeiro aquilo que o coração aponta como falso é um dos princípios. Será que esse coração do vigário saboiano pode ser aproximado do coração de Pascal, o das frase de que o coração tem razões que a própria razão desconhece?

    Uma das concepções mais antigas de virtude é a de agir segundo a natureza. Thomas More foi um otimista ao acreditar que a virtude é possível, bastando para isso o homem cumprir sua natureza de ser racional.

    Algo interno é belo, quando, visto de fora, cumpre sua natureza, sua razão de ser.

    em resposta a: Sócrates – mártir ou louco? #72042

    Paulo: É uma abordagem interessante tomar a posição de ambos os personagens diante da morte, em seus últimos momentos de vida, na companhia de seus discípulos, e daí extrair as dissemelhanças.

    A comparação, realmente, eu creio que seja feita mais tendo em vista a figura humana, mesmo. Mas o autor, no final, aborda as diferenças em termos de doutrina, não sei se a comparação perde ainda mais o senso, uma vez que existem muitas diferenças entre o cristianismo e o paganismo, não obstante a síntese feita pelos católicos. Mas a argumentação se refere mais às diferenças entre os tipos de imortalidade da alma, e não creio que seja por isso (defesa da alma imortal) que exista a comparação.

    O autor acerta ao enfatizar a figura do mártir, que morreu injustamente, como o ponto comum. Mas parece também estar “puxando a sardinha” para o lado de Sócrates, ao enfatizar sua serenidade.

    A morte de Sócrates tem um lado também pontualmente mais político que a de Jesus, já que ele era uma figura importante da sociedade ateniense, ao passo que Jesus era um profeta com o qual os romanos só se preocuparam tardiamente, não é assim?

    Também a comparação é feita não somente na questão da morte, mas por terem sido homens inteligentes, que viveram de maneiras simples, acessíveis ao povo, Sócrates na praça com sua maiêutica, Jesus pregando dentro e fora dos templos, e com desapego aos confortos e ao modo de vida local.

    em resposta a: O carácter formativo da filosofia #76173

    Um professor que trabalha bastante a questão da filosofia no Ensino Médio é o Celso Favaretto, da USP, também teórico da Tropicália :-)

    Ceramente, a filosofia em sala de aula no ensino médio é bastante diferente da faculdade. O Bacharelado forma pesquisadores e/ou professores universitários.

    A abordagem no Médio é diferente. Parecem existir três grandes vertentes de abordagem:

    A primeira, mais tradicional, clássica, é da História da Filosofia. Curso panorâmico ou de análise, trata diretamente sobre os autores, usando os manuais e compêndios ou os próprios autores. Sua desvantagem é a extrema abstração do assunto, e o pouco interesse que desperta numa classe atual. Existem muitos bons livros escritos na forma de curso. Esse tipo exige do professor a formação e o conhecimento de vários tópicos de filosofia.

    Uma segunda maneira de lidar com a disciplina é organizando aulas-debate em torno de temas atuais e polêmicos, por exemplo, bioética e clonagem, aborto, corrupção na política, política internacional. Esse tipo é mais interativo e procura desenvolver um espírito crítico, reflexivo, nos alunos, que sai de sua timidez e de seu mundo imediato para rever os conceitos e valores que a mídia/família escolha lhe dá. O problema desse tipo é o relativo distanciamento em relação ao corpo de textos propriamente dito da filosofia. Também exige que o professor atue como um mediador e orientador.

    E o terceiro tipo é o de uma abordagem da filosofia clássica usando elementos do mundo real ou imediato dos alunos. Por exemplo a relação entre um filme da moda como Matrix e a filosofia de Platão, ou então o questionamento de valores da personagem de quadrinhos Mafalda, o capitalismo no Tio Patinhas, a luta de classes na novela das oito etc.

    De qualquer forma, é preciso considerar que o grau de atenção e abstração de um aluno do médio costuma ser em geral, muito baixo. Vários colegas professores relatam que é preciso conquistar os alunos e o silêncio de forma amigável: falar de futebol, de rock etc. A linha dura não parece surtir um bom efeito. Muitos também relatam que apenas dois ou três alunos em cada sala fazem a aula valer a pena. Numa aula de 50 minutos, o professor conseguirá talvez, 15 minutos de atenção contínua. O que parece ser muito pouco para tratar minimamente uma questão da filosofia.Como escapar da superficialidade ou decoreba, então? Ele terá de ficar esperando de tocaia para o “Touchet”, que é uma oportunidade de introduzir o aluno numa experiência de raciocínio formal.

    Temos de considerar nesse debate um outro, que é de que não é possível ensinar a filosofar, mas somente a história da filosofia. Como já apontou o Mênon, se a virtude pudesse ser ensinada, os filhos de Péricles seriam os mais virtuosos da Hélade. Você ensina a filosofia, e o aluno pode ou não conseguir desenvolver um pensamento filosófico próprio a partir disso.

    em resposta a: Resumo do livro VIII da República de Platão #79571

    Olá Paloma

    Um resumo é algo oposto de uma explicação detalhada. Talvez se você nos explicasse melhor sob qual prisma o curso está sendo dado etc.

    Na edição da Calouste tem algumas notas:

    “Ao principiar o livro VIII, Sócrates recapitula a legislação estabelecida para a cidade ideal e seus guardiões e propõe-se regrassar ao caminho annterior (VIII 543c). Recorda ainda que Gláucon estava a referir-se às outras quatro espécies de governo, quando foram interrompidas por Polemarco e Adimanto (VIII-544b). Retomada a discussão nesse ponto, vão se descrever essas quatro espécies e a maneira (anti-histórica, mas convicente) como degeneram umas das outras. Deste modo traça o quadro da timocracia (ou governo que preza as honrarias), oligarquias, democracia e tirania, bem como do homem, que corresponde a cada uma.

    A descrição do ponto mais baixo a que chegou a degradação humana põe de novo a questão inicial da felicidade e virtude de cada uma destas espécies, em relação com as qualidades que predominan na cidade, com a conclusão de que o tirano, escravo dos mais sórdidos prazeres e apetites, é o que mais se opõe ao filósofo-rei, que tem acesso aos prazeres puros e reais, e de que é a justiça, e não a injustiça, que traz vantagens a quem a pratica.”

    em resposta a: O carácter formativo da filosofia #76172

    Ao dar uma olhada nessa lista, deparei-me com a seguinte frase:

    “Será que somos os próprios coitadinhos excluidos ou somos os preguiçosos reclamões que não assumimos uma postura realmente transformadora no nosso próprio quintal?”

    Para não aumentar a leva dos que reclamam, vou incluir-me no bando dos que perguntam: como seria um transformador do quintal?

    Alguma proposta concorreria em eficiência e esperança contra as de mudança no sistema de ensino, e, em especial, o ensino da filosofia?

    Em outra época a filosofia teve importância na mudança do mundo. Talvez a citação caiba contra alguém que tenha resumido a filosofia em pedantismo acadêmico inerte, a pergunta “que filosofia?” caberia se a filosofia fosse pensamento de gueto, contudo, entendendo a filosofia ao modo dos antigos, como reflexão que considera o todo e que se pratica na vida – faço questão de esquecer os casos tristes de patologia filosófica em que departamentos acadêmicos tornam-se torcidas organizadas desse ou daquele filósofo, produzindo muito papel para compensar a falta de produção de filósofos –, enfim, não imagino nada mais transformador do que a filosofia. Transforma o agricultor, a horta no quintal e ainda exporta legumes.

    []'s

    em resposta a: O carácter formativo da filosofia #76171

    Gostaria de passar esse link no site orkut.com, onde existe um fórum somente sobre o Ensino de Filosofia:

    http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=392858

    abs

    em resposta a: Pragmatismo #75464

    Juliana: Segue abaixo o verbete Pragmatismo da adaptação portuguesa do excelente dicionário de Ferrater Mora. Uma outra indicação valiosa de leitura é o livro de Larry Laudan – A ciência e o relativismo, onde vários filósofos tecem uma série de diálogos sobre os principais problemas da epistemologia contemporânea desde o chamado “fim da epistemologia” em Wittgenstein e a “morte da epistemologia” proclamada pelo pragmatista e ironia Rorty.

    ______

    PRAGMATISMO — —Dá-se este nome a um movimento filosófico que se desenvolveu
    sobretudo nos Estados Unidos e na Inglaterra mas que teve ampla repercussão
    na filosofia contemporânea. O pragmatismo norte-americano surgiu por volta de
    1872 no Clube Metafísico. As linhas principais deste movimento foram traçadas
    por Peirce no seu artigo ““Como tornar claras as nossas ideias””, de 1878. Nele
    defende que ““toda a função do pensamento consiste em produzir hábitos de
    acção”” e que ““o que uma coisa significa é simplesmente os hábitos que
    envolve””. Mais concretamente, dizia Peirce, jogando com as palavras:
    ““concebemos o objecto das nossas concepções considerando os efeitos que se
    podem conceber como susceptíveis de alcance prático. Assim, pois, a nossa
    concepção deste efeito equivale ao conjunto da nossa concepção do objecto””.
    Contudo Peirce propôs depois o nome de _pragmaticismo para a sua doutrina
    para a diferenciar do pragmatismo de William James, que é uma transposição
    para o campo ético daquilo que primitivamente se tinha pensado num sentido
    puramente científico e metodológico. Peirce destacou que o seu pragmatismo
    não é tanto uma doutrina que expressa conceptualmente aquilo que o homem
    concreto deseja e postula, mas sim uma teoria que permite dar significação às
    únicas proposições que podem ter sentido.

    Pode afirmar-se que predominaram duas tendências no pragmatismo: a primeira
    afirma que ““o significado de uma proposição consiste nas consequências
    futuras de experiência que (directa ou indirectamente) prediz que vão
    acontecer, não importando que isso seja ou não crível””; a segunda defende que
    ““o significado de uma proposição consiste nas consequências futuras de a
    crer.
    ___________

    Agora o dicionário em filosofia em cdrom (espanhol) da Herder:

    _________
    pragmatismo HIST.

    (del griego BD(:”, pragma, acción) Escuela filosófica surgida en los EE.UU. a finales del s. XIX y comienzos del XX, cuyos propulsores más destacados fueron Charles Sanders Peirce, William James y John Dewey. Peirce fue el iniciador del método que implica este sistema, formulando el principio de que el interés e importancia de un concepto reside únicamente en los efectos directos que consideramos pueda tener en la conducta humana. A este método de otorgar significado a los conceptos, tendente a eliminar lo metafísico, llamó Peirce «pragmatismo» (que luego cambió por «pragmaticismo» para diferenciarlo de lo que él creía que eran desviaciones de su pensamiento), inspirándose en la praxis de la filosofía griega y la «práctica» de Kant. Estas ideas iniciales se difundieron entre los miembros del denominado «Club metafísico» de Cambridge, entre los cuales se contaba W. James. Éste las popularizó sobre todo con su obra Pragmatismo, de 1907. James generalizó la búsqueda del sentido no sólo de los términos, sino también de las grandes cuestiones metafísicas, y la configuró como una teoría sobre la verdad (ver texto ). Según James, más que en un acuerdo o concordancia con la realidad, la verdad consiste en lo que es ventajoso para el pensamiento, o en la consecución de una relación satisfactoria con la realidad; la ventaja y la
    satisfacción se refieren a lo útil, o a lo práctico; «verdadero» es una clase de «bueno»(ver texto ).

    Ese aspecto relativista del pragmatismo fue corregido, o discutido, por J. Dewey que analiza el concepto de lo «verdadero en la práctica» en términos que se acercan a los requisitos de una investigación científica. Dewey llamó instrumentalismo a su manera de enfocar el pragmatismo: el conocimiento es un proceso de investigación, en el cual las ideas son los instrumentos (ver texto ); de ellas no decimos propiamente que sean verdaderas o falsas en sí mismas, sino que los medios de que nos valemos para investigar cuáles de nuestras creencias sirven para resolver nuestros problemas son de índole variada; el término de la investigación no es la verdad o la certeza absoluta, sino una«afirmabilidad
    garantizada», esto es, un prudente juicio práctico que se apoya en el conjunto de afirmaciones que desarrolla metódicamente la empresa (comunidad) científica. Dewey ha sido considerado como uno de los filósofos americanos más influyentes del presente siglo: muchas de sus ideas han repercutido en diversos aspectos de la educación, la ética, la sociología y la política.

    ___________________

    Engraçado: a expectativa de certas pessoas que esperam encontrar em seus filósofos deuses ao invés de seres humanos…

    …não justifica invalidar suas grandes contribuições, o que há de criticável em todos eles.

    em resposta a: O Mito da Caverna #74020

    Olá …pessoal gostaria que me ajudassem a fazer uma analise da afirmação final de Sócrates no Mito da Caverna.

    Nos extremos limites do mundo inteligivel est´a idéia do bem, a qual só com muito esforço se pode conhecer, mas que, conhecida, se impôe à razão como causa universal de tudo o que é belo e bom, criadora da luz e do sol no mundo visível, autora da inteligência e da verdade no mundo invisível, e sobre a qual, por isso mesmo, cumpre ter os olhos fixos para agir com sabedoria nos negócios particulares e públicos.

    Na minha opinião, a saída do cativo deu-se pela buscado conhecimento, a verdade……gostaria de saber se está certo.

    Obrigada…..}}}

    em resposta a: Substância e Substrato #79556

    Só sei que, no final, a hypokeimenon de Aristóteles foi associada pelos filósofos contemporâneos à linguagem e ao sujeito do inconsciente.

    em resposta a: Banquete de Platão #74130

    cindi

    você encontra o banquete nesse endereço:
    http://www.odialetico.hpg.ig.com.br/filosofia/dialogos/banquete.htm

    em resposta a: Banquete de Platão #74129

    queria pedir para vcs mandarem urgentemente hoje o texto O BANQUETE pra mim.
    eu tenho um seminário sobre esta texto.}

    em resposta a: Substância e Substrato #79555

    A linguagem foi convertida em problema para Aristóteles uma vez que, no sistema aristotélico, ela assume uma função de representação das coisas.

    Antes de continuar, talvez valeria a pena lembrar o que Heidegger resgatou acerca do conceito de logos na tradição platônico-aristotélica: “Se dissermos que a significação fundamental de logos é 'fala', esta traduçao literal terá pleno valor unicamente depois de determinarmos o que quer dizer 'fala'. (…) Logos se 'traduz', ou seja, se interpreta, como razao, juizo, conceito, definicao, razao de ser ou fundamento, proposiçao. Mas, como poder-se-á modificar 'fala' para que logos signifique tudo o que se acabou de enumerar, e o signifique dentro de uma linguagem científica? (…) o logos é o que permite ver algo, a saber, aquilo de que se fala, e o permite ver ao que fala ou a os que falam uns com os outros. A fala permite ver…” [O Ser e o Tempo, Heidegger]

    O problema da linguagem, portanto, assume em Aristóteles um lugar de destaque diretamente ligado com a passagem da lógica para a ontologia. Em Platão o propriamente “real” se localizava na “idéia”, que se manifestava no discurso no jogo da dialética, em que ia se revelando, e no qual a reminiscência tinha um papel. Aristóteles, ao “dissolver” o mundo das idéias, se depara então com um novo problema: como o “real” pode ser trazido para o discurso? Em outros termos, como logos pode continuar sendo entendido como era e qual a ligação entre o “real” e a “fala”?

    A linguagem, se não “traz” exatamente as coisas para o discurso, tem uma função de representaçao delas, a linguagem transmite as coisas. “Das coisas que se dizem (twn legoménon), umas são feitas com conexão (symplokén), com liame, outras, sem qualquer espécie de correlação. A correlação está em indicar um estado posicional (ele se encontra sentado), uma possessão (ele porta uma caneta), uma açao (ele escreve), e outras categorias mais.” [cf Dorion, “A despersonalizaçao da dialética em Aristóteles”]

    O importante é a ligação que Aristóteles faz entre os termos de um discurso. Para ele, a simples elocução de um termo isolado, descontextualizado, não permite significar: dizer simplesmente “caneta” sem uma contextualizaçao nao permite perceber logicamente nenhum estado, possessao ou qualquer outro atributo.

    Das coisas que são (tnm óntwn), por sua vez, podemos enumerar algumas espécies:
    1) algumas sao ditas de um sujeito, mas nao se encontram em nenhum sujeito (“homem”);
    2) algumas nao sao ditas de um sujeito, mas estao em um sujeito (“branco”);
    3) algumas sao ditas de um sujeito e estao em um sujeito (“ciencia”);
    4) algumas nao estao em nenhum sujeito e nao sao ditas de nenhum sujeito (“certo homem”).

    O que vale é destacar a importancia da correlaçao entre o sujeito/predicado, uma vez que, onde nao há predicaçao, correlaçao entre termos, há somente termos isolados que nao permitem a formaçao dos juizos do falso e do verdadeiro. Onde nao há correlaçao, nao existe nem falso nem verdadeiro.

    As formas de predicaçao do sujeito e da atribuiçao a este de modos especificos de “ser” e “estar” sao um mínimo de 10 (as dez categorias: substancia, quantidade, qualidade, relaçao, lugar, tempo, posicao, ter, agir, sofrer).

    Em Aristoteles, “aquilo que é” não se confunde com “aquilo que se diz”, e, na análise do discurso, destaca-se o conceito de ousia, que, na perspectiva do discurso é substancialmente (1) aquilo que é passivel de atribuiçao ou (2) aquilo que é atribuivel e predicavel.

    É a partir dessa dupla conceituaçao que Aristoteles diferencia a “substancia primeira” (1) da “substancia segunda” (2). Portanto, o termo “substancia” (ousia) nao é univoco, e, em sentido primeiro e próprio, corresponde somente à substancia primeira (correspondendo à substancia segunda somente por via indireta).

    A substancia primeira é, na funçao discursiva, o sujeito (ypokéimenon) para o qual convergem as atribuiçoes predicativas; mas um sujeito, ao ser predicado de algo, tem, por predicaçao indireta (por atraçao), atribuidas a si todas as caracteristicas abrangidas pelo predicado.

    Por exemplo: ao se afirmar “Platão é homem”, pode-se significar que este sujeito em particular (Platao) participa de todos os predicativos que possam existir para o termo “homem” (animal, racional, discursivo, etc). Esse tipo de fenomeno ocorre na predicaçao por derivaçao e coloca em relaçao um elemento (substancia primeira) com as caracteristica do que é proprio do genero (substancia segunda).

    Mas nem toda predicaçao é por derivaçao. Por exemplo: ao se afirmar “Isto é branco”, a definiçao de “branco” não será predicada ao sujeito por derivaçao, como ocorreu no caso anterior. A cor se manifesta somente em um corpo e nunca separada. Após as substancias primeiras, somente os generos e as espécies sao as substancias segundas, porque, das coisas predicadas, sao estas as únicas que manifestam a substancia primeira.

    Resumindo: se nao existissem as substancias primeiras, seria impossivel que existissem as demais coisas, pois as outras ou predicam das primeiras ou estao nelas. Todas as categorias existem em funçao da substancia primeira, e somente as substancias primeiras sao substancia (ousia) em sentido próprio, pois podem ser “substrato” de todas as demais coisas.

    E, se isso não complicou mais, talvez ajude um pouco :-)

    Não consigo ler Nietzsche sem um profundo e autêntico sentimento de asco. Trata-se, é fato, de um asco que terei sempre renovado, pois é inevitável esbarrar com Nietzsche, pela importância que ainda se atribui a seu pensamento nos meios acadêmicos. Para mim poucas coisas parecem mais ridículas do que o Super-Homem nietzscheano. Mas chega a ser engraçado observar como os simpatizantes dessa filosofia usam e abusam do conceito de “ressentido”, aplicando-o sem o menor critério a tudo e a todos, quando uma leitura fria de Nietzsche não deixará nunca de apontá-lo como um dos campeões do ressentimento. Russel perfila genealogicamente o autor de Assim Falava Zaratustra entre os pensadores românticos, Jean-Jacques à frente. Como tal, tem seu apelo. É bem o tipo de voz destinada a fazer eco no grande poço dos recalques humanos.

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