GALBA – Imperador da Roma Antiga

GALBA – Imperador da Roma Antiga

Biografia de GALBA – Plutarco – Vidas Paralelas

Sérvio Sulpício Galba (Latim: Lucius Livius Ocella Servius Sulpicius Galba)

Desde o ano 749 até o ano 822 de Roma, depois de Cristo, ano 69.

GALBA

Como as tropas indisciplinadas são perigosas.

Ifícrates, general ateniense, dizia que é necessário que o soldado seja avarento, amoroso e voluptuoso, a fim de, para ter com que satisfazer às suas paixões, ele se arrisque mais corajosamente a todo e qualquer perigo: mas a maior parte dos outros é de opinião que os guerreiros devem ser como um corpo forte e robusto (1) que, porém, não tem nenhum movimento por si mesmo, mas se move segundo a vontade do comandante. Seguindo esta opinião diz-se que Paulo Emílio chegando à Macedónia, encontrou o exército cheio de tagarelice e de curiosidade, porque cada soldado queria ser comandante: ele não achando isso bom, mandou publicar uma ordem, que os soldados não se ocupassem de outra coisa senão em ter a mão pronta para empunhar a espada, bem afiada: e que quanto ao resto deixassem-no agir: pois ele teria o cuidado de fazer tudo o que lhe competia, de acordo com o seu cargo. Pelo que Platão que diz, que de nada serve ter um bom chefe, um sensato comandante, se os soldados também não forem sensatos e obedientes, julgando que a virtude de bem obedecer, tem também necessidade de uma natureza generosa, de um auxílio de boa alimentação, como a virtude real de bem mandar, visto que é ela mesma que tempera, num acordo equilibrado, a veemência da cólera ativa com a doçura e a naturalidade humana, tem muitos outros exemplos e suficientes testemunhos para verificar o seu falar e mesmo as misérias e calamidades que caíram sobre os romanos, depois da morte de Nero, mostram bastante que não há nada que mais se deve temer em um império, do que uma potência militar, a qual, licenciosamente, segue apetites loucos e desordenados.

Vista de olhos sobre as mudanças do império romano, logo depois da morte de Nero.

II. Demades, depois da morte de Alexandre, o Grande, comparava seu exército a Ciclope Poli-femo, depois que êle teve o olho vazado, vendo os movimentos insensatos, perturbados e cegos, com que êle se movia. Mas o império romano, dividido em várias partes, num mesmo tempo e amotinado em vários lugares contra si mesmo, caiu nos acidentes e inconvenientes, que os poetas contam dos Titãs, não tanto pela ambição dos que acabavam de ser declarados imperadores, como pela avareza e insolência dos soldados, que expulsavam para fora do trono imperial, os imperadores uns após outros, como uma cavilha afasta a outra. E no entretanto Dionísio, o tirano da Sicília, costumava chamar a Fereu (2) que tinha sido senhor e tirano da Tessália, durante dez meses somente, tirano de tragédia, zombando da rápida mudança do seu estado: o palácio e a casa imperial dos Césares em Roma, em menos tempo, que não dez meses, recebeu quatro imperadores, fazendo os soldados lá entrar um, e sair o outro, como se estivessem representando alguma peça sobre um palco; mas, ao menos tinham os habitantes de Roma, que eram assim oprimidos, uma consolação, e era, que não lhes era necessária outra vingança contra os que eram causa da sua opressão: pois eles os viam matar-se reciprocamente e mais justamente que nenhum outro, aquele que primeiro os tinha aliciado e que lhes havia ensinado a esperar tanto à mudança de um imperador, como ele lhes prometeu (3), condenando um ato muito belo, qual o de ter-se rebelado e revoltado contra Nero, tornando-o um ato de traição, por nele ter interposto a recompensa. Ninfídio Sabino, comandante dos soldados destinados à guarda dos imperadores, que se chamam soldados pretorianos, com Tigelino, quando viu a situação de Nero totalmente desespe radora, e ele prestes a fugir para o Egito, persuadiu aos mesmos soldados a declarar a Galba imperador, não estando mais Nero em Roma, pois já tinha fugido, prometendo-lhes (4) setecentos e cinqüenta escudos por cabeça, e aos outros, que estavam espalhados na guarda das províncias (5) cento e vinte e cinco, cuja soma era impossível ajuntar, se ele não fizesse dez mil vezes mais extorsões ao povo, do que o mesmo Nero. Esta promessa foi causa dc se fazer morrer incontinenti o próprio Nero (6), c pouco depois Galba (7), porque os soldados abandonaram um pelo outro, na esperança de receber esse presente e logo depois mataram também o outro, porque não o recebiam bastante segundo a sua própria vontade. Depois, procurando alguém que lhes desse outro tanto, eles perderam-se e perderam aos outros, por causa das revoltas e das traições em vez de encontrar o que desejavam.

Nascimento e início de Galba.

III. Querer expor detalhadamente tudo o que se fez ou que aconteceu depois, seria escrever uma história inteira e completa: mas eu, para mim, será suficiente não passar em silêncio os fatos mais notáveis, ou os acidentes e os inconvenientes que sucederam então aos Césares. É coisa sabida por todos, que Sulpício Galba foi o homem mais rico que jamais pisou no palácio dos Césares e embora de sua própria estirpe ele teve grande dignidade de nobreza, por ser da raça e da família dos Servíanos e sentia-se ainda mais honrado por ser parente de Quinto Catulo, que foi um dos primeiros homens do seu tempo em virtude e reputação, embora por fim, ele cedesse voluntariamente a autoridade e o prestígio a outros. Também era Galba de algum modo parente de Lívia, mulher de Augusto César, e por esse motivo em favor dela ele saiu do palácio imperial (8) quando foi tomar posse do seu consulado. E diz-se que tendo o comando do exército da Alemanha ele portou-se muito bem: e do mesmo modo no governo da Líbia, onde ele foi vice-cônsul e teve grande honra no desempenho do seu cargo, mais que qualquer outro: mas a simplicidade de seu viver e suas despesas regradas, sem super-fluidade alguma, foram consideradas avareza, quando ele foi declarado imperador, porque o louvor da sobriedade e da temperança que ele queria tornar habitual, era já coisa tão banal, por assim dizer, e tão desacostumada, que já não era novidade.

Seu proceder no governo da Espanha.

IV. Êle foi também mandado como governador à Espanha por Nero, antes que êle tivesse começado a temer os cidadãos de grande autoridade: mas, exceto isso, êle era doce e humano por natureza; a velhice aumentou ainda a opinião que se tinha dele, de que ele era tímido. Como os maus e malfadados procuradores de Nero (9) atormentassem cruel e desumanamente as províncias, ele não as pudesse socorrer, pelo menos era de algum conforto e consolação aos que eram julgados e vendidos como escravos por eles, ver que Galba lamentava a sua infelicidade e a injúria que se lhes fazia, como se fosse feita a ele mesmo. E como se tivessem feito versos difamatórios contra Nero, que se cantavam por toda parte, ele não os impediu nem proibiu, nem com isso se aborreceu, como faziam os procuradores de Nero: por essa razão ele foi ainda mais estimado e amado por aqueles que ali habitavam, com os quais tinha certa familiaridade, porque já era o oitavo ano que ele tinha nas mãos aquele governo, desde que Júnio Víndex, sendo governador das Gálias, se havia rebelado contra Nero: o qual, pelo que se diz, lhe havia escrito antes, que se rebelaria abertamente: mas Galba não deu crédito a isso, nem também o denunciou, nem o acusou como fizeram vários outros, que comandavam exércitos e se ocupavam do governo de províncias, que enviaram a Nero as mesmas cartas que Víndex lhes tinha escrito e impediam, quanto estava neles, a empresa, da qual tendo depois participado, elês se confessaram traidores a si mesmos como a ele.

Declara-se chefe da revolução suscitada por Júnio Víndex.

V. Mas, depois, tendo Víndex (10) abertamente declarado guerra a Nero, ele escreveu outra vez a Galba, rogando-lhe que aceitasse o império e se tornasse o chefe, de um corpo forte e poderoso, que não tinha senão necessidade de uma cabeça; eram os gauleses, dos quais havia já cem mil combatentes, todos prontos, de armas, e ainda se podiam recrutar outros; então se pôs o assunto à deliberação de seus amigos dos quais, uns foram de opinião que ele diferisse ainda, esperando que impressão e que mudança causaria em Roma essa notícia. Mas Tito Júnio, comandante da legião pretoriana, disse-lhe: "Galba, ainda consultas sobre isso? Pois deliberar se permaneceremos ou não fiéis a Nero (11), já é permanecer: é-nos necessário fazer um dos dois, ou não rejeitar a amizade de Víndex, como sendo Nero nosso inimigo, ou então acusá-lo e lhe fazermos guerra, porque ele te deseja ver imperador de Roma, antes que a Nero, tirano". Depois disso, por proclamações públicas, ele marcou um dia, no qual daria liberdade aos que lha fossem pedir. Esta notícia espalhou-se por toda a parte, e reuniu uma grande multidão de homens, dispostos a se rebelarem e mal apenas ele subiu à tribuna todos os assistentes o chamaram e declararam imperador. Todavia ele não quis logo a princípio receber essa denominação mas, acusando Nero e censurando alguns dos mais nobres personagens da cidade, que êle tinha feito morrer, prometeu que êle daria sua inteligência e sua prudência ao bem público do seu país, não se chamando nem César, nem imperador, mas somente lugar-tenente do senado e do povo romano.

Como Nero recebe esta notícia.

VI. Que Víndex havia agido sabiamente, convidando Galba para o império, pode-se verificar pelo testemunho do mesmo Nero: o qual tendo sempre mostrado que não se importava com Víndex e que não fazia caso algum da rebelião dos gauleses, logo que soube que Galba também se tinha rebelado, o que foi na hora da ceia, êle revirou a mesa por raiva e despeito: e no entretanto o senado tendo julgado Galba inimigo, ainda quis êle mostrar-se tranqüilo e divertir-se entre seus amigos, dizendo que esta notícia não lhe tinha vindo fora de propósito, porque êle também tinha negócios com dinheiro e era um expediente que lhe havia chegado bem em tempo, para ganhá-lo, porque logo êle teria os bens de todos os gauleses, como presa de guerra justa, depois de os ter reconquistado e de novo subjugado: e que logo que tivesse os bens de Galba, êle os podia vender visto que o mesmo se tinha declarado seu inimigo. E depois ordenou de fato que levassem e vendessem em leilão a quem mais desse, os bens de Galba. Ouvindo isto, Galba também, a som de trombeta, anunciou a venda de tudo o que era de Nero, em toda a província da Espanha e encontrou ainda mais gente disposta a comprá-los.

Galba arrepende-se da sua empresa.

VII. Todos os dias, por toda a parte havia gente que se rebelava contra Nero, que se reunia ao partido de Galba exceto Cláudio Macer, na África, e Virgínio Rufo, nas Gálias, o qual comandava as legiões destinadas à guarda da Alemanha: estes dois agiam separadamente, não tendo ambos a mesma intenção: porque Cláudio, tendo roubado muito e feito morrer muitos homens, por sua crueldade e avareza, mostrava evidentemente que ele nadava em duas águas, não sabendo, nem como deixar, nem como conservar o cargo do seu governo: e Virgínio, sendo comandante das legiões mais poderosas, que por várias vezes o haviam declarado imperador e o haviam querido obrigar a aceitar o império: ao qual ele sempre havia respondido que se não tinha decidido, nem a aceitá-lo, nem a tolerar que fosse ele dado a um outro senão àquele que o senado escolhesse. Isso a princípio turbou bastante a Galba: mas quando os dois exércitos de Víndex e de Virgínio, contra a vontade dos comandantes, que não o puderam impedir, como os cocheiros que não podem reter a corrida dos cavalos, que tomam o freio nos cientes, encontraram-se numa grande batalha, onde vinte mil gauleses ficaram mortos no campo e Víndex, que depois se matou, correu uma voz, que os vencedores, depois de tão bela vitória, ou obrigariam a Virgínio a aceitar o império, ou ele voltaria a Nero. Então Galba, muito assustado, escreveu a Virgínio, que viesse entrar em entendimentos para conservar o império e a liberdade dos romanos, e retirou-se a uma cidade da Espanha, que se chama Colônia (12), arrependendo-se do que já tinha feito e lamentando sua costumada tranqüilidade de vida, na qual ele tinha sempre sido educado, do que procurando fazer alguma coisa útil ou necessária à sua empresa.

Um de seus libertos anuncia-lhe que o senado o havia nomeado imperador.

VIII. Era já o começo do verão, e, uma tarde, pouco antes do anoitecer, chegou a ele um seu servo liberto, nativo da Sicília (13), que tinha vindo de Roma em sete dias, e sabendo que Galba descansava, sozinho, correu ao seu quarto, abriu a porta, e entrando contra a vontade dos criados, que estavam de guarda, notificou-lhe de como, vivendo ainda Nero, não aparecendo mais, porém, em público, o povo romano, primeiro e depois, o senado, o tinham chamado e nomeado imperador; logo depois espalhara-se a notícia de que Nero havia morrido; ele não quis crer, mas, tendo ido a determinado lugar, viu seu corpo estendido, inerte; tinha-se, então, posto a caminho para ali.

Grande prestígio de Ninfídio Sabino.

IX. Estas notícias alegraram muito a Galba e grande multidão de homens acorreu à porta de sua moradia, para certificarem-se, de que ele estava mesmo em segurança embora a notícia do mensageiro parecesse inverossímil, mas dois dias depois, chegou Tito com alguns outros do acampamento, que lhe deu particularmente a notícia de tudo o que o senado havia mandado. Tito foi assim promovido, em grau de honorabilidade, e o servo liberto teve o direito de usar anel de ouro, fazendo-se chamar de Marciano Vicei lo; e teve depois grande autoridade entre os libertos de seu senhor. No entretanto, Ninfídio Sabino em Roma, ia, não deva-garzinho, mas rapidamente usurpando toda a autoridade: considerando que Galba já era tão velho, que não poderia ser levado senão numa liteira a Roma, tendo a idade de setenta e três anos, acrescente-se ainda que, a legião de pretorianos que estava em Roma há muito tempo lhe queria muito bem, e não reconhecia outro superior senão êle, pela grandeza da promessa que êle lhes tinha feito: da qual êle tinha o prazer e a graça, e Galba ficava obrigado à dívida. Ordenou em seguida a Tigeli-no, seu companheiro no cargo de comandante dos pretorianos, que depusesse a espada: e dando muitos banquetes, mandava chamar a todos os que tinham sido cônsules, ou que tinham cargo no exér cito ou governo nas províncias, e os convidava em nome de Galba: e alguns soldados espalharam esta notícia pelo acampamento, que era necessário enviar embaixadores a Galba, para pedir-lhe a Ninfídio, como capitão e chefe perpétuo, sozinho e sem companheiros. O que o senado fazia em sua honra e seu favor chamando-o de seu benfeitor e indo todos os dias fazer-lhe a corte até mesmo em sua casa, querendo que ele fosse autor de todos os decretos que se propunham no senado e que os autorizasse, deu-lhe ânimo e coragem, e despertou-lhe o entusiasmo: de modo que em pouco tempo ele se tornou, não somente odioso, mas temível, aos mesmos que lhe iam fazer- a corte. E como os cônsules tivessem dado a correios públicos os papéis assinados e selados nos quais estavam exarados os decretos do senado, para levá-los ao imperador, e em virtude desses mesmos papéis os oficiais das cidades, logo que viam o selo, faziam fornecer carros e cavalos descansados aos mensageiros, para mais rapidamente continuar sua viagem, ele se irritou asperamente contra eles, por não terem levado também decretos assinados e selados, dele e dos soldados, para mau dá-los e o que ainda é pior, diz-se que esteve a pon to de depor os cônsules; todavia tendo ele se desculpado e suplicado que os perdoasse, ele acalmou a sua cólera.

Êle aspirava secretamente ao império.

X. Para agradar ao povo, ele deixou morrer em tormentos, aqueles que eram presos, dos domés ticos e familiares de Nero: dentre outros um gladiador e esgrimista exímio, que se chamava Spicilo, 0 qual eles colocaram por baixo das estátuas de Nero e o arrastaram por toda a cidade; a um outro chamado Apônio, um dos delatores de Nero, eles derrubaram por terra e por cima dele fizeram passar os carros carregados de pedras; e a vários outros do mesmo modo, fizeram em pedaços, a muitos mesmo sem que tivesse culpa alguma. Assim houve um certo Maunsco, dos melhores homens da cidade e lido por todos como tal, que disse em pleno senado: "Tenho grande medo que bem depressa tenhamos a lamentar a ausência de Nero". Assim Ninfí-dio, vendo sua esperança bem perto do objetivo que êle visava, gostava de ouvir que alguns cochichavam que êle era filho de Caio (14) César, aquele que governou o império romano depois de Tibério, porque Caio sendo ainda jovem tinha conhecido sua mãe, que era uma senhora de rosto muito lindo, filha de Calisto, um dos servos libertos de César, que êle tivera de uma costureira que êle sustentava; mas diz-se que Ninfídio já tinha nascido antes que Caio César tivesse conhecido sua mãe, e tinha-se a opinião de que êle tinha sido gerado por um esgrimista, de nome Marciano, do qual sua mãe se apaixonou, pela grande fama que êle gozava na cidade de Roma e de fato êle se parecia muito de rosto com êle, mais do que qualquer outro: mas êle mesmo confessava ser filho dessa Ninfídia, atri buindo porém a si somente, a derrota de Nero, êle não se julgava suficientemente recompensado com aa honras que por isso lhe advinham e com os bens de que gozava, nem de se sentar à mesa com Sporo, que Nero tanto tinha amado, o qual êle mandou chamar para os funerais de Nero, quando o corpo ainda ardia, e o reteve com êle, como se fosse sua esposa, e o chamava de Popeu (15): todavia, não contente com isso, ainda êle aspirava à sucessão do império, esforçando-se para isso, tanto em Roma, mesmo, por meio de algumas mulheres e homens que eram do senado e que o favoreciam secretamente, como por meio de um certo Geliano, que êle mandou à Espanha para espiar o que lá se fazia.

Virgínio Rufo reconhece Galba por imperador.

XI. Mas depois que Nero morreu, tudo aconteceu conforme os desejos de Galba; exceto que Virgínio Rufo, o qual nadava ainda em duas águas, o tinha em grande inquietação, porque temia, (além de êle comandar um exército grande e muito belicoso, tendo mesmo de data recente derrotado Víndex, e dominando uma boa parte do império romano, que era Gália total, que estava convulsionada, e estava para se rebelar) que ele não pres-tasse ouvidos aos que o exortavam a apoderar-se ele mesmo do império: pois não havia então gene-ral romano, que tivesse tão grande renome, nem que fosse de tal reputação como Virgínio, e com razão, como tendo servido na hora da necessidade com muita solicitude aos interesses dos romanos, tendo-os libertado de uma vez de uma cruel tirania e do perigo das guerras da Gália: todavia, perseverando ele na sua primeira resolução, reservou ao senado a eleição do imperador, embora ainda depois que a morte de Nero foi conhecida, muitos dos soldados fizessem-lhe grande instância e um comandante de mil homens, fosse até a sua tenda, apresentar-lhe uma espada desembainhada e dizer-lhe que se decidisse a aceitar o império ou a receber a espada em seu corpo. Mas depois que Fábio Valens, chefe de uma legião, fez o juramento de fidelidade a Galba, e recebeu cartas de Roma, nas quais se lhe escrevia que o senado havia ordenado, por fim, com grande dificuldade, persuadiu aos soldados de declarar e reconhecer a Galba como imperador, o qual lhe enviou por sucessor a Flaco Ordeônio, ao qual ele cedeu voluntariamente: e tendo-lhe passado o exército, foi encontrar-se com Galba, que se dirigia para Roma, diretamente, e o acompanhou, sem que Galba lhe desse alguma demonstração de descontentamento nem também de honra: sendo causa de um Galba mesmo que êle respeitava e de outros seus amigos, mesmo (1(>) Tito Júnio, pela inveja que tinha de Virgínio, cuidando impedir seu progresso, pelo que secundava e ajudava sem conhecê-lo, sua boa sorte, a qual lhe preparava meios de o tirar das guerras civis e dos males em que caíram depois os outros generais, para pô-lo em uma vida tranqüila e em uma velhice plena de paz e de repouso.

Galba recebe os deputados do senado.

XII. Finalmente, os embaixadores enviados da parte do senado encontraram Galba em Narbo-na, cidade da Gália, onde depois de o terem saudado, o advertiram que se apressasse o mais possível, para se apresentar ao povo romano que desejava singularmente a sua chegada. Galba os recebeu com bondade e delicadeza, fazendo-lhes boa acolhida, mas todavia, com reservas: pois embora Ninfídio lhe tivesse enviado vários oficiais e muitos móveis de Nero, jamais êle se serviu deles em todos os banquetes e festas que promoveu, senão dos seus próprios: e nisso mostrou-se homem magnânimo e vencedor de toda vaidade tola.

Perfil de Tito Júnio.

XIII. Júnio porém, deu-lhe logo a entender que esta magnanimidade e esta moderação civil sem pompa nem superfluidade, era uma maneira muito baixa de adular o povo, e que era uma certa honestidade que não se conhecia a si mesmo, mas desprezava sua grandeza. Persuadiu-o a usar os bens e os móveis de Nero, quando dava suas festas, sem nada poupar, em uma suntuosidade de aparato real. Em suma, o velho começou a mostrar eviden-temente que ele se deixava governar por Júnio, o qual era extremamente, e mais que qualquer outro, avarento, e além disso, dominado pelas mulheres: pois sendo ainda jovem, na primeira vez que esteve na guerra com Calvísio Sabino, êle levou a mulher de seu comandante, que era mulher luxuriosa, disfarçada em soldado, até a casa mesma do oficial, (17) que os romanos chamavam de Principia, onde a corrompeu: por essa razão Caio César mandou metê-lo na prisão, mas, da morte, êle escapou. Outra vez, ceando com Cláudio César, êle roubou um vaso de prata e Cláudio sabendo disso, mandou chamá-lo no dia seguinte, para cear com êle de novo: mas ordenou a seus oficiais que o servissem em vasos de barro. Assim este roubo pelo estratagema cômico de César pareceu mais digno de riso e de zombaria do que de ira e raiva: mas os que êle cometeu depois, por excessiva cobiça de dinheiro, quando êle tinha Galba em seu poder e toda a autoridade perante ele, deram a uns, causa justa e aos outros, aparente pretexto de trágicos ínconvenien tes e de muito graves calamidades.

Ninfídio tem inveja do seu prestígio perante Galba.

XIV. Ninfídio logo que Gehano voltou à Espanha, para onde ele o tinha enviado a fim de espionar o que Galba fazia, sendo advertido por ele de que Cornélio Lacon era comandante dos guardas e da casa do imperador e que Júnio tinha todo prestígio e autoridade e que jamais lhe fora permitido poder tão-sòmente aproximar-se de Galba nem falar com ele, em particular, porque todos os que estavam em redor dele julgavam-no suspeito e tinham-no sob vigilância, observando tudo o que ele fazia, e estava muito aflito: reuniu todos os comandantes de cem homens, chefes de grupos, oficiais particulares do acampamento dos pretorianos, aos quais ele demonstrou que Galba, como pessoa, era um bom velho e pessoa muito moderada, mas que ele não se governava por si mesmo, deixando-se levar por Júnio e Lacon, que tudo deitavam a perder: e portanto que seria bom, antes que eles viessem a se fortificar mais e a conseguir na direção dos negócios tão grande autoridade, como havia feito Tigelino, enviar embaixadores ao imperador, em nome de todo o acampamento, para mostrar-lhe que, afastando dele somente estes dois personagens, ele teria chegado melhor a Roma e seria mais agradável a todos. Os oficiais não acharam isso bom. pois lhes pareceu estranho e sem motivo querer dêsse modo ensinar a um velho imperador, como se se tratasse de um rapaz que então começava a experimentar o que é ter liberdade de mandar e prescrever-lhe de que servidores e amigos dever-se-ia servir e em quem devia acreditar ou não.

Procura fazer-se substituir a Galba.

XV. Ninfídio, vendo isto, tomou outro caminho e escreveu cartas a Galba, para amedrontá-lo, dizendo-lhe que havia muita gente em Roma que lhe era contrária, e que se estavam preparando para se rebelar contra ele; outra vez, que as legiões da Germânia movimentavam-se, e que ele sabia o mesmo das que estavam na Judéia e na Síria, e uma outra vez, que Cláudio Macer retinha na África os navios carregados de trigo que deviam vir a Roma: mas, por fim, vendo que Galba não fazia nenhum caso dele e não lhe dava crédito algum, ele determinou atacá-lo por primeiro, embora Cláudio Celso, nativo de Antioquia, homem sensato e que lhe era amigo fiel, o desaconselhasse muito disso, dizendo-lhe que ele sabia que não havia nem uma família e nem uma só casa em Roma que quisesse chamar a Ninfídio de César. E, ao contrário, vários outros zombavam de Galba, até um certo Mi-trídates, do reino do Ponto, que se vangloriava de que ele era calvo e enrugado: ‘p°ls os romanos, dizia ele, o têm agora em alguma conta: mas quando o tiverem visto, julgarão que é uma infâmia perpetua e uma sempiterna reprovação de nosso tempo, que ele tenha sido chamado e nomeado Césai ¡ foram de opinião que se levasse Ninfídio pela meia noite, ao campo, e lá o declarassem e nomeassem publicamente imperador.

Antônio Honorato persuade as coortes pretorianas, a permanecerem fiéis a "Galba.

XVI. Mas o primeiro oficial Antonio Honorato pela tarde reuniu os soldados que estavam sob seu comando, e na sua presença começou a censurar primeiro a si mesmo, e depois a eles, porque em tão curto espaço de tempo eles tinham mudado e trocado tantas vezes, sem se deixar governar pela razão, nem escolher o melhor, mas eram somente impelidos por algum mau espírito que os levava de uma traição a outra. "Ainda (disse ele) tinha a nossa primeira mudança alguma aparência de razão, isto é, os crimes e pecados de Nero, mas agora, de que acusamos a Galba para termos pretexto de lhe faltar à palavra? Êle matou sua mãe? Êle fêz morrer a esposa? Representou êle vilmente, como um farsante sobre um palco em pleno teatro? E todavia por esses atos infames, não tivemos nós jamais a coragem de abandonar a Nero, mas prestamos fé às palavras de Ninfídio, que nos deu a entender que foi êle quem por primeiro nos havia abandonado e que havia fugido para o Egito. Que queremos então fazer? Matar a Galba depois de Nero? Matar aquele que é parente de Lívia, para eleger imperador o filho de Ninfídia, como já fizemos morrer o filho de Agripina, ou então fazê-lo sofrer o castigo do que temerariamente ousou-fazer, e fazendo isso, vingar a morte de Nero e mostrarmo-nos leais e fiéis a Galba?" A estas palavras do oficial assen-tiram todos os soldados e foram aos outros companheiros, incitá-los a manter a fé e a lealdade que tinham jurado ao imperador, de sorte que vários retrocederam.

Ninfídio é morto.

XVII. Tendo-se por isso levantado grande celeuma, Ninfídio, cuidando, como outros dizem, que haviam sido soldados que o tinham chamado, ou então, querendo logo abafar esta rebelião, para conter os que hesitavam, ainda na dúvida, foi, com muitas lanternas, tochas e archotes, levando na mão um discurso que Ciconio Varro havia escrito e que ele tinha decorado para proferi-lo diante dos soldados: mas achando as portas do acampamento fechadas e vendo homens com armas sobre as muralhas, teve receio e aproximando-se pediu-lhes que lhe dissessem por que tinham suas armas e por ordem de quem. Responderam-lhe todos a uma voz, que não reconheciam outro imperador senão Galba: o que ele fez menção de aprovar, e ordenou aos que o seguiam de fazer outro tanto, e assim aproximou-se mais ainda: alguns soldados, que estavam perto da porta, abriram-lha, e o deixaram entrar com alguns homens. Mas não tinha ele bem entrado, que lhe deram um golpe de dardo, o qual um certo Setímio, que ia adiante dele, recebeu sobre o escudo, depois outros atacaram-no com as espadas desembainhadas, e o perseguiram, a ele que fugia, até a casa de um soldado, onde o massacraram: depois atiraram seu corpo a um lugar público, pondo barreiras em redor, a fim de que aqueles que quisessem pudesse vê-lo, no dia seguinte.

Atos tirânicos de Galba.

XVIII. Assim terminou Ninfídio seus dias; Galba foi avisado desse fato e ordenou que todos os seus cúmplices e companheiros de conjuração, que até então não tinham sido mortos por causa dele, fossem condenados à morte: como de fato o foram: dentre eles estavam Ciconio, o que havia composto o discurso, e Mitrídates, o do Ponto; mas, embora bem eles o tivessem merecido, julgou-se que isso não tinha sido feito, nem lícita, nem legalmente: isto é, ordenar que fossem mortos esses personagens, que eram de certa posição, sem lhes ter movido antes processo algum, porque todos esperavam ver sob esse novo imperador uma outra forma de governo, que ainda não tinham visto e estavam decepcionados e desiludidos daquilo que desde o princípio estavam aguardando: mas, ainda achou-se bem mais errado, o ter êle ordenado a morte de um cônsul, chamado Petrônio (18) Tertuliano, porque tinha sido fiel a Nero. Quanto a Macer, que êle mandara matar na África, por Treboniano, e a Fonteio, na Alemanha, por Valens, êle tinha certo motivo de temer, porque eles estavam em armas, e tinham autoridade no exército, pelo cargo que ocupavam, mas Tertuliano, que era idoso e sem armas, certamente ele o devia ter ouvido, para apresentar sua defesa, se ele tivesse querido de fato observar a moderação que prometera para com.seus adversários. Eis o que se censura nele.

Insolência da coorte dos marinheiros; Galba os manda matar.

XIX. Finalmente, quando ele já estava perto de Roma, mais ou menos uma légua e meia, encontrou-se envolvido num tumulto de marinheiros e de forçados que haviam ocupado o caminho e o tinham cercado de todos os lados: Nero os havia reunido numa legião, e tendo-os tirado do remo, os havia feito soldados; ali estavam para pedir-lhe que os confirmasse como homens de guerra e insistiam com tanta pertinácia, que não permitiam que os que tinham vindo procurar o imperador, pudessem aproximar-se dele e falar-lhe: faziam grande algazarra e barulho, pedindo as insígnias da legião e um lugar de guarnição para aquartelarem. Galba determinou que o procurassem outra vez, prometendo então escutá-los quando lhe viessem repetir o mesmo pedido. Eles, porém, disseram que aquilo era uma espécie de recusa e se amotinaram, perse-guindo-o com grandes gritos, a ponto de alguns mesmo terem tido a ousadia de desembainhar suas espadas: e então Galba ordenou aos cavaleiros que os atacassem. Nenhum deles resistiu, alguns foram esmagados pelas patas dos cavalos ali mesmo e outros, mortos, quando fugiam (19) . O que foi um mau e sinistro presságio para ele, entrar na cidade de Roma depois de tão grande efusão de sangue humano, e por cima de corpos de tantos homens mortos: mas embora alguns, antes, o desprezassem como velho e caduco, não houve um sequer que não o temesse e não estremecesse diante dele.

Procura retirar das mãos dos comediantes e homens dessa espécie, todos os dons que Nero lhes havia feito.

XX. Querendo ainda mostrar grande inovação, quanto à largueza e superfluidade desmesurada de Nero, parece que ele saiu fora do cumprimento do dever: porque, como um certo Cano, exímio tocador de flauta, tivesse tocado durante um jantar uma melodia muito agradável de se ouvir, ele o louvou e elogiou muito, depois ordenou que lhe levassem sua bolsa, da qual ele tomou alguns escudos e lhos entregou, dizendo que não era dinheiro público, mas do seu próprio, e ainda ordenou que se restituíssem severamente, os presentes que Nero tinha feito aos artistas de comédias, músicos, lutadores e a todos os demais que faziam demonstração de dotes pessoais, deixando-lhes a décima parte, somente: recolheu, porém muito pouco, porque a maior parte dos que o haviam recebido, já tinham gasto tudo, sendo na maior parte pessoas que vivem sem regra nem método, e unicamente do dia em que se acham; era necessário que fossem procurar os que tinham recebido ou comprado alguma coisa deles, e obrigá-los a restituir; e isso não linha fim, tanto ia a coisa longe, de um a outro e se estendia a um grande número de pessoas.

Mau proceder de Galba inspirado por Tito Júnio.

XXI. De tudo isso, porém, a vergonha e a desonra caíam sobre ele, mas a raiva e o ódio sobre Júnio, como quem tornava o príncipe avarento e mecânico para com os outros, enquanto ele, servm-do-se desordenadamente disso, recebia e vendia todas as coisas: o poeta Hesíodo diz que é preciso:

(20) Beber seu gole quando o tonel está cheio e igualmente quando ele está no fim.

Mas Júnio, vendo Galba tão velho e caduco, queria enriquecer com sua fortuna, enquanto ainda a conservava pensando que ela lhe começava e terminava ao mesmo tempo: e no entretanto fazia uma grave injustiça ao pobre velho, administrando mal, sob sua autoridade, nos principais negócios, e censurando, ou ainda impedindo àqueles que o príncipe por si mesmo, tinha boa vontade de fazer com justiça, como punir os ministros de Nero, dos quais fez morrer alguns, como um certo Élio, um Polí-clito, Petino e Patróbio: com isso o povo muito satisfeito ficou e clamava, quando os levavam ao suplício pela praça, que era uma procissão santa e bela e pedia aos deuses e aos homens, aquele que tinha sido o senhor e o guia de toda a tirania de Nero, Tigelino: mas o corajoso homem tinha ganho a dianteira, sobrecarregando a Júnio, com grandes compromissos e depois, fazendo morrer o pobre Tertuliano (21): porque somente ele não tinha abandonado nem odiado a Nero, sendo tal como era, sem que todavia fosse culpado, nem participante dos crimes e dos males que ele tinha cometido em sua vida: e aquele que tinha tornado a Nero digno de morte e depois ainda o abandonara ficou impune e dele nada se exigiu, servindo de belo ensinamento aos outros, e nada que não se pudesse esperar obter de Júnio, se algo se lhe desse: jamais o povo romano desejou tanto outra coisa, senão ver a Tigelino levado ao suplício e não cessava jamais nas assembléias do teatro ou nas contendas, de o pedir, até que o imperador os repreendeu por uma proclamação pública: na qual se dizia que Tigelino não viveria muito porque estava doente de tísica e todos os dias ia-se consumindo aos poucos: e pedia Galba ao povo que não tornasse seu principado áspero nem tirânico e cruel. O povo admirou-se disso, e não fez outra coisa senão rir-se: Tigehno sacrificou aos deuses para dar-lhes graças pela sua salvação e mandou preparar um suntuoso banquete, onde Júnio levantan-do-se de peito do imperador depois do jantar, foi jogar em casa de Tigelino, levando sua filha, que era viúva, com ele, à saúde da qual Tigehno bebeu, oferecendo-lhe um presente de vinte e cinco mil escudos (22) e mandou à principal de suas concubinas, tirar do seu pescoço para dá-lo, um colar que usava, no valor de quinze mil escudos (23).

Ódio geral contra Galba.

XXII. Depois disto as mesmas coisas que se faziam retamente e com justiça, eram mal interpretadas e tomadas em má parte: como o que se passou com os gauleses, porque eles se tinham sublevado com Víndex: pois julgou-se que não era tanto pela bondade e liberalidade do imperador que eles tinham sido libertados e isentados dos subsídios e tributos, que costumavam pagar, que eles tinham obtido direito de burguesia romana, como por o terem comprado de Júnio. Por essa causa e razão o povo cdiava o império de Galba: mas os soldados, por causa do presente que lhes havia sido prometido no princípio, alimentavam alguma esperança, pensando que, ainda que eles não tivessem tanto quanto lhes fora prometido, pelo menos teriam tanto quanto Nero lhes havia dado. Galba sabendo que se queixavam dele, disse então uma palavra digna de um príncipe grande e magnânimo: "Que ele estava acostumado a escolher os soldados, não a comprá-los" . Tendo sido transmitidas a eles estas palavras, geraram em seus corações uma grande ira contra ele, porque julgaram que era privá-los, nao somente, mas também ensinar os imperadores que viriam depois dele, o que eles tinham a fazer em casos idênticos .

Pensa em adotar alguém para ser seu sucessor.

XXIII. Todavia o amotinamento dos soldados pretorianos, que estavam em Roma, ainda era bastante oculto pelo respeito que eles tinham de Galba, o qual prendera os que tinham vontade de se rebelar porque nada viam ainda de modificação. Isso disfarçava de algum modo, e lhes impedia mostrar abertamente a sua má vontade. Mas os que antes haviam estado sob o comando de Virginio e que estavam agora sob Flaco, na Alemanha, julgando-se dignos de grandes recompensas pela batalha que tinham ganho contra Víndex e não tendo absolutamente nada, não se contentaram com o que lhes disseram seus comandantes, e não fizeram conta do mesmo Flaco, porque êle nada podia fazer, tanto era atormentado pela gota, acrescentando-se ainda que êle não tinha experiência nenhuma de negócios de guerra nem de estado. Um dia realizaram-se alguns jogos, em cujo início os comandantes e os capitães, segundo o costume romano, faziam votos e orações aos deuses pela saúde e prosperidade do imperador Galba; alguns fizeram barulho a princípio: depois como os capitães continuassem suas orações, por fim, os soldados responderam: se ele fôr digno. Do mesmo modo as legiões que estavam sob o comando de Tigelino, faziam muitas vezes as mesmas insolências, os procuradores e intermediários dos negócios de Galba disso o advertiram por carta. E êle teve medo, e pensando que o desprezavam, não somente por sua velhice, mas tam-bém porque êle não tinha filhos, deliberou adotar por seu filho um jovem qualquer, das mais nobres famíhas da cidade e declará-lo seu sucessor no império.

Quem era Oton.

XXIV. Marco Oton, de nobre descendência, sempre tinha sido muito escravo do prazer, e perdido na voluptuosidade, desde a infância, tanto ou mais ainda, que qualquer outro romano. E as-sim como Homero chama muitas vezes a Páns, o mando da bela Helena, pelo nome de sua mulher, porque não tinha êle em si outra qualidade recomendável, assim também Oton teve fama e foi co-nhecido em Roma pelo casamento com Popéia, da qual Nero se enamorou, quando ela ainda estava casada com Crispino (24) : mas, prestando ainda alguma honra à sua mulher e temendo sua mãe, êle encarregou Oton de a solicitar e corromper. Nero amava Oton e sentia prazer em sua companhia, porque ele era também dissoluto: tinha satisfação de ouvir que algumas vezes ele zombava dele, chamando de avarento e mecânico; a este propósito conta-se que Nero, tendo-se um dia untado com óleo e uma mistura de perfume, muito precioso, ele aspergiu um pouco, ao passar a Oton: este, no dia seguinte, deu uma festa em seu aposento, e, lá, de repente, apareceram muitos tubos de ouro e prata, de todos os lados da sala, que esguicharam daquele óleo perfumado, como se fosse água, molhando a todos os da sala. Tendo então desencaminhado e corrompido Popéia na esperança do amor de Nero, ele a persuadiu a se divorciar de seu marido. O que ela fez, e ele a recebeu depois em sua casa como esposa legítima e não se contentando tanto de ter parte nisso, como estando aborrecido e desgostoso de comunicá-lo a outrem. E deste ciúme Pcpéia mesma não se mostrava aborrecida, pelo que se diz: pois ela fechou algumas vezes a porta a Nero, ainda que Oton não estivesse em casa, quer porque ela quisesse tê-lo sempre no desejo, e não deixá-lo gozar do prazer à saciedade, ou como outros julgam, porque ela não queria a César algum por marido, mas não o recusava como amigo, porque ela era luxuriosa.

Oton esteve em perigo de vida, por causa do seu casamento com Popéia: era coisa estranha que Nero, tendo feito morrer sua mulher e sua irmã para as núpcias com Popéia, no entretanto perdoou a Oton. Mas foi porque ele tinha a Séneca por amigo, a pedido e por exortação do qual ele foi mandado à Espanha para lá do Oceano, ao governo dos lusitanos: onde, porém, procedeu com tan-ta sabedoria, que não foi desagradável nem abor-recido aos habitantes daquelas terras, os quais sa-biam bem que aquela comissão lhe havia sido con-fiada só para amenizar o seu exílio.

Como se insinuou nas boas graças de Galba.

XXV. Depois, quando Galba se rebelou, êle foi o primeiro de todos os governadores das províncias, que se juntaram a êle; mandou depois lesar tudo o que êle tinha de utensílios de ouro e de prata ao chefe da casa da moeda, entregou-lho para que fundisse e fizesse moedas; deu-lhe dos seus oficiais os que julgava os mais competentes e os mais adequados para o serviço de um príncipe: mos-trando-se, em suma, fiel, e tão bem experimentado nos negócios de estado, quando lho incumbiram disso, como nenhum outro na corte do imperador. E assim êle viajou muitas vezes no mesmo côche, com Galba, quando então procurou insinuar-se bem nas boas graças de Júnio, por meio de presentes que lhe mandava e por conversas agradáveis com que o entretinha: mas principalmente por lhe ceder voluntariamente o primeiro lugar, e por isso êle tinha sempre certamente o segundo em prestígio e autoridade: e o superava nisto, que êle fazia tudo o que se lhe pedia, gratuitamente e sem nada exigir, e recebia com facilidade e dava audiências gentilmente a todos os que queriam falar com êle; aos soldados, também muito êle auxiliou e fêz progredir nos cargos honrosos, parte pedindo-o êle mesmo, sem intermediários ao imperador, e parte ímpetran-do-o de Júnio e de dois libertos de Galba, Icélio e Asiático, que eram as três pessoas que mais prestígio tinham na corte, junto de seu senhor: e todas as vezes que êle servia a ceia ao imperador em seu aposento, êle corrompia os guardas que estavam de sentinela, fazendo dar a cada soldado um escudo: parecia que êle o fazia mais para honrar o imperador, mas de fato era para lhe dar um golpe, que assim êle ia conquistando os soldados e os guardas que estavam de sentinela.

Júnio aconselha a Galba adotar a Oton.

XXVI. Co mo Galba consultasse a quem elegeriam por seu sucessor, Júnio, apresentou-lhe Oton; isto êle o fazia com interesse, não sem recompensa, mas sob promessa, de que Oton desposaria sua filha, contanto que Galba o adotasse por filho e o declarasse seu sucessor no império. Mas Galba tinha sempre evidentemente mostrado que êle preferia o público ao particular, e procurava adotar, não aquele que seria mais agradável, mas o que seria mais útil ao império romano. E bem me parece a mim, que êle não quis instituir a Oton, herdeiro de seu patrimônio, por saber que êle era um homem desordenado, dissoluto e gastador, cheio de dívidas, pois devia cerca de quinhentos mil escudos (25) . E assim tendo ouvido o conselho de Júnio, sobre este assunto, suavemente sem nada responder, ele diferiu a solução para outra vez, e por então, fê-lo somente cônsul, e a Júnio, também: todos, porém, pensaram que no começo do ano êle o declararia seu sucessor no império. O que os soldados desejavam muitíssimo; mas quando êle estava paia resolver e decidir que determinação tomar a esse respeito, a rebelião das legiões da Germânia, que se sublevaram repentinamente, veio surpreendê-lo. Todos os soldados, em geral, o odiavam, por-que não lhes dera o prometido presente; aqueles, porém, particularmente alegavam como causa simulada da sua malquerença, que êle tinha afastado sem honra a Virgínio Rufo: e que os gauleses, que tinham combatido contra eles, eram remunerados com grandes privilégios e os que não tinham aderido a Víndex tinham sido punidos e castigados, de sorte que somente Víndex era tido em consideração, visto que êle o honrava e recompensava, embora estivesse morto, com pública oblação e sacrifícios fúnebres, como se só por êle tivesse sido declarado imperador.

O exército da Germânia nomeia Vitélio imperador

XXVII. Já se falava publicamente a este respeito nos acampamentos, quando veio o primeiro dia do ano, que os romanos chamam de calendas de janeiro; como Flaco tivesse feito reunir os soldados nesse dia para repetir o juramento de fidelidade ao imperador, segundo o costume, eles derrubaram as estátuas de Galba e juraram, em nome do povo e do senado romano somente. Vendo isso, os oficiais temeram tanto o perigo de ficar sem chefe, como o da rebelião, e alguém dentre eles se pôs a dizer: "Que fazemos, companheiros? Não elegemos outro imperador e não queremos aquele que está agora: mostrando assim que não recusamos, nem fugimos e evitamos a Galba somente, mas todo outro chefe e imperador que nos possa governar. Quanto a Flaco Ordônio, que não é senão uma sombra e uma imagem de Galba, eu sou de opinião que nós o deixemos lá, como está: mas Vitélio, governador da baixa Alemanha, não está longe de nós, apenas distante um dia somente, filho de um homem que foi censor em Roma, cônsul por três vezes, que foi par e companheiro, por assim dizer, de Clódio César, na administração do império, cuja pobreza, se ainda há alguém que a censure, no entretanto ela é uma prova certa de sua bondade e magnanimidade. Escolhamo-lo, então, e mostremos a todos que nós sabemos escolher melhor o nosso imperador do que os espanhóis e os lusitanos". Alguns dos soldados presentes aprovaram estas palavras, outros não: e um porta-insígnias, afastando-se secretamente do campo, foi levar a notíca a Vitélio, o qual tinha naquele dia, em sua mesa, uma grande reunião de amigos: e tendo esta notícia corrido logo todo o acampamento, Fábio Valens, comandante de uma legião, veio no dia seguinte, primeiro, com grande número de homens cavalo, e nomeou a Vitélio imperador; este fazia que rejeitava e não queria aceitar a princípio como temendo o cargo do império, demasiado grande e ido para ele: mas depois, estando cheio de comida e de vinho, veio a público e recebeu o cognome de Germânico, que lhe ofereceram, não querendo ainda aceitar o de César: imediatamente, os de Flaco, faltando ao juramento popular que tinham prestado em nome do senado, juraram obedecer fielmente a quanto prouvesse ao imperador Vitélio ordenar-lhes. Eis como Vitélio foi eleito imperador, na Alemanha.

Galba vai ao campo declarar Pison, seu sucessor.

XXVIII. Galba, sabendo desse novo movimento, pensou que era tempo de não deferir mais i adoção que ele tinha premeditado: e sabendo que aqueles, nos quais ele confiava, tinham-se dirigido, uns, para Dolabela, e a maior parte para Oton, não aprovou nem uma, nem outra coisa, e repentinamente, sem dizer uma só palavra mandou chamar a Piso (26), neto de Crasso e de Piso, que Nero tinha feito morrer, jovem de boa condição, o qual mostrava, pela gravidade moderada que ele havia recebido da natureza, que tinha nascido para a virtude. Galba veio imediatamente do palácio e foi diretamente ao campo para o declarar César e seu sucessor no império: mas, ao sair do palácio, viu grandes sinais e prodígios celestes, que o acompanharam: e, mesmo quando ele estava dentro do campo, e começara a declamar de cor uma parte do discurso e a ler outra parte, trovejou e relampejou, quando ele falava; caiu depois tão forte chuva e um granizo tão espesso sobre o campo e sobre toda a cidade, que se podia facilmente deduzir que os deuses não tinham como propícia aquela adoção e que nada sucederia de bem. Os soldados, pelo rosto triste, mostravam seu descontentamento e sua má vontade, mesmo porque então não lhes fizeram menção alguma de generosidade, e se maravilharam muito os assistentes pelo que se podia conjeturar do semblante e das palavras de Piso, que ele não se comovia com tão grande graça, embora não o fizesse por falta de conhecimento.

Intrigas de Oton, para se fazer nomear imperador pelo exército.

XXIX. Ccmo também por outro lado, facilmente se podiam notar, no rosto de Oton, vários sinais que traduziam o seu amargo despeito e a ira por se ver assim despojado daquela esperança: fora ele de quem por primeiro se havia falado como sendo o mais digno e, tendo chegado tão perto do poder, via-se ao depois logrado; julgou então que era isso sinal de que Galba tinha má opinião dele eque lhe queria mal, em seu coração, de modo que depois ele viveu sempre com temor e dúvida sobre sua pessoa: temendo a Piso, odiando a Galba e ficando zangado com Júnio, ele se foi, atormentado por diversas paixões, porque os adivinhos, os astró-logos e caldeus, que ele tinha sempre com ele, o admoestavam de não perder totalmente a esperança e de não desanimar de todo; e até um certo Ptolomeu, no qual ele muito acreditava, porque por várias vezes lhe havia predito e assegurado que Nero não o faria morrer, mas, ao contrário, que ele mon ena primeiro e que ele sobreviveria e seria imperador de Roma; pois, tendo-lhe já feito conhecer o verdadeiro começo, ele lhe assegurava que não devia desconfiar do final: mas, ainda mais o incitavam aqueles que secretamente o lamentavam e suspiravam por vê-lo tão ingratamente tratado por Galba, mesmo vários daqueles que tinham outrora ocupado cargos honrosos com Tigelino e Ninfídio, os quais estando agora afastados, juntaram-se a êle e o estimulavam: dentre outros, Vetúrio e Bárbio, um dos quais tinha sido Optio e o outro Tesseráno: assim chamavam os romanos àqueles que precediam como murmuradores, espiões e intermediários entre os comandantes: os quais, com um servo liberto chamado Onomasto, foram ao campo, onde corromperam alguns soldados com o dinheiro, e a outros, com promessas, pois eles já tinham má vontade e não desejavam senão uma ocasião qualquer para manifestar: pois, se os soldados, ao invés, tivessem todos tido boa vontade, não era essa uma obra que se poderia conduzir a termo em quatro dias, quanto havia de intervalo entre a adoção e a morte, que fazer assim revoltar-se todo o acampamento: pois eles foram mortos no dia quinze de janeiro, dia em que Galba sacrificou de manhã, no palácio, na presença de seus amigos: e o adivinho, que se chamava Ombrício, quando teve as entranhas da vítima em suas mãos, depois de as ter observado, disse, não com palavras encobertas e ambíguas, mas clara e abertamente, que ele via sinais de um grande tumulto e que havia perigo de traição sobre a cabeça do imperador, de maneira que parecia que os deuses lhe entregavam a Oton, pela mão: pois ele estava então atrás de Galba e escutava tudo o que o adivinho dizia e o que ele mostrava.

O exército o proclama.

XXX. Enquanto, porém, ele estava nessa agonia, mudando até a cor seu rosto, pelo medo que sentia, Onomasto, seu liberto, veio dizer-lhe que os mestres carpinteiros e pedreiros tinham chegado e o esperavam: era esse o sinal que haviam combinado, pelo qual Oton devia ir ter com os soldados. Diz-se, então, que ele, tendo comprado uma casa velha, queria ir mostrar aos empreiteiros (27) aquilo de que ele desconfiava: e, assim, separou-se dos demais e saiu do palácio, pelo quarteirão, que se chamai o aposento de Tibério, no lugar onde está a "lima dourada, para a qual convergem e onde se reúnem todos os grandes caminhos da Itália. Lá encontraram todos aqueles que por primeiro o haviam aclamado imperador e eram mais ou menos vinte e três: por isso, ainda que êle não fosse (instante, como parecia, por ser tão delicado em pessoa, tão fraco e efeminado em sua coragem, i invés, era decidido e imutável nos perigos, assim «Hiena êle, então, tanto teve medo, desistir de sua empresa: mas os soldados não o permitiram; rodeando sua liteira, com as espadas desembainhadas, ordenaram aos portadores que o levassem: êle repelia muitas vezes: "Eu estou morto", apressava eus portadores: alguns o ouviram, quando êle pas-ava, admirando-se, mais do que se perturbando, de ver com êle tão pouca gente, que tinha ousado empreender uma coisa tão arriscada. Quando o levaram-no pela praça, êle encontrou outros que vinham ter com êle e, ainda depois, outros, três a três, quatro a quatro, todos unindo-se ao seu grupo, gritando: César! César! com as espadas desembainhadas. Ora, o comandante, ao qual tocava naquele dia guardar o campo, Marcial, nada sabia da conspiração, mas, tendo-se admirado e assustado, êle os deixou entrar. Quando já estava dentro, não encontrou resistência alguma, porque os que não sabiam o que se passava foram envolvidos pelos que o sabiam, e que, por um compromisso feito há muito, se entendiam, estando esparsos cá e lá, seguiram os demais, por medo, no princípio e depois, de boa vontade.

Falsa notícia da morte de Oton.

XXXI. Foram logo contar tudo isso a Galba no palácio; estava ainda o adivinho terminando o sacrifício, de modo que os mesmos, que não prestavam fé àquele presságio e não queriam acreditar, ficaram muito admirados pelo significado da interpretação. Grande multidão de gente correu então logo para a praça do palácio, pelo que Júnio e Lacon, com mais alguns libertos, ficaram perto da sua pessoa, tendo as espadas desembainhadas, e Piso saiu para falar aos guardas do corpo: a legião Eslavônia estava aquartelada fora do campo, dentro do pórtico que se chama Vipsano, para lá mandaram apressadamente a Mário Celso, homem de bem, para conquistá-la. No entretanto, Galba estava em dúvida se devia ou não sair do palácio: pois Júnio não queria que ele saísse, mas Celso e Lacon insistiam muito que o fizesse, chegando mesmo a dizer palavras pesadas a Júnio, que o dissuadia. Nesse ínterim, correu a voz que Oton tinha sido morto dentro do acampamento: e logo depois chegou Júlio Atrício, um dos melhores e mais afamados soldados que havia entre os guardas, mostrando sua espada nua e dizendo que ele tinha matado o inimigo de César: tanto fez no meio do povo, que chegou perto de Galba e mostrou-lhe a espada ensangüentada. Galba observando-o atentamente, perguntou-lhe quem havia mandado que i l< tal fizesse: o soldado respondeu-lhe que fora a fé e o juramento de fidelidade que ele mesmo tinha feito: diante disso, toda a multidão clamou que ele fizera muito bem e bateu palmas em sinal de regozijo.

Galba é morto.

XXXII. Galba, então, pondo-se na liteira, se fez levar para fora do palácio, para sacrificar a Júpiter e também mostrar-se em público: mas não linha ainda descido à praça, que um vento contrário, por assim dizer, chegou-lhe ao ouvido, de que Oton era senhor do acampamento e de todo o exército. Então, como sempre acontece numa grande multidão de povo, uns gritavam que ele voltasse para trás, outros, que prosseguisse, dizendo-lhe que não duvidasse de nada, e outros que se pusesse de sobreaviso. Estando sua liteira no meio do tumulto, como numa tempestade do oceano, atirada para cá e para lá e às vezes a ponto de tombar, perceberam ao longe, alguns cavaleiros, antes, e depois também soldados de infantaria, que vinham dos lados do palácio de Paulo, gritando juntos em altas vozes (28) : Para fora, para fora, homem do povo! Todo o povo se pôs a correr, não desordenadamente, mas para os pórticos e lugares elevados da praça, como se se colocasse para ver algum espetáculo público; então, um certo Atílio (29) Sarcelo derrubou por terra uma das estátuas de Galba, o que foi como uma declaração da guerra, que se iniciava: todos os demais atiraram uma chuva de dardos contra a liteira, mas, quando viram que não podiam atingi-la, então, aproximaram-se de espadas em punho, sem que ninguém dos seus homens se dispusesse a defendê-lo, exceto um, que o sol naquele dia viu sozinho, entre milhares de homens, digno do impe rio romano; foi um oficial de nome Semprônio (30), que jamais tendo recebido um benefício particular de Galba, mas somente pelo dever e juramento de fidelidade, se pôs diante da liteira e, levantando um galho de videira que tinha na mão, com o qual os oficiais costumam bater nos soldados, quando precisam de corretivo, se pôs a gritar e a clamar, aos que atacavam, que não ofendessem o imperador. Mas por fim, quando viu que eles não desistiam e o faziam com intenção deliberada, desembainhou sua espada, aparando os golpes, até que lhe cortaram os jarretes: então, ele caiu por terra e a liteira de Galba tombou revirada no lugar da praça que se chama Lago Cúrtio, e Galba ficou prostrado por terra no meio da rua, coberto por uma couraça. Os soldados conjurados lançaram-se sobre ele, deram-lhe vários golpes e ele, mostrando-lhes a garganta, disse: "Matai-me, se é para o bem do povo romano!" Recebeu vários golpes nos braços e nas coxas, segundo $e diz, mas o soldado que 0 matou chamava-se Camúrio, da décima-quinta le-gião: outros dizem que foi um certo Terêncio, e outros ainda, Arcédio: alguns ainda dizem de um certo Fábulo, que, tendo-lhe cortado a cabeça, a embrulhou num pedaço de suas vestes, pois não a podia agarrar de outro modo, porque êle era todo calvo; seus companheiros não queriam que êle a escondesse, mas, ao contrário, a mostrasse, pondo bem em evidência a obra-prima que havia executado: pelo que êle a fincou na ponta de uma lança e foi sacudindo e agitando a cabeça daquele pobre velho, príncipe sábio e moderado, soberano pontífice e cônsul, correndo para cá e para lá, como fazem as mulheres tomadas pelo furor de Baco, nas festas Bacanais e agitando sua lança tinta de sangue que corria pelo chão.

Oton nomeado imperador pelo senado.

XXXIII. Quando apresentaram esta cabeça a Oton, diz-se que êle exclamou em voz alta: "Isto não é nada, companheiros, se não me apresentardes também a de Piso". Pouco depois trouxeram-na também: pois o moço tinha sido ferido e foi perseguido por um certo Marco (31), que o matou perto do templo de Vesta: também foi morto Júnio, que confessou bem alto que ele era um dos participantes da conjuração contra Galba, pois gritava, aos que o matavam, que Oton não sabia que o estavam matando. No entretanto, os soldados cortaram-lhe a cabeça a ele e a Lacon e as levaram a Oton, para receberem uma gratificação: mas, como diz o poeta Arquíloco:

De sete mortos que jazem sobre a terra, Há mil que deles se dizem matadores.

Também vários que nada tinham com esse assassínio mancharam suas espadas e suas mãos de sangue e as mostraram assim ensangüentadas, para receberem também gratificações, os quais Vitélio (32) depois mandou procurar e matar: também veio ao acampamento Mário Celso, a quem vários acusavam de ter persuadido os soldados de levar socorro a Galba e gritava ao povo que o matasse: isto, porém, Oton não queria fazer: todavia, temendo contradizer à vontade dos soldados, ele lhes disse que não deviam matá-lo com tanta pressa, pois havia coisas que antes deviam ser esclarecidas a respeito dele e ordenou que o atassem e o entregassem à guarda de homens de confiança. Feito isso, foi imediatamente convocado o senado, onde os homens repentinamente se mudaram por completo e juraram, sem mais, fidelidade a Oton, como se houvesse novos deuses; antes, haviam jurado a Galba e não tinham observado a sua palavra e lhe deram o nome de Augusto e de César, estando ainda os corpos sem cabeça estendidos no meio da praça, vestidos com seus trajes consulares. Quanto às cabeças, os soldados, depois, quando não sabiam mais o que fazer com elas, venderam a de Júnio à sua filha, por cento e cinqüenta escudos, a de Piso, sua mulher a obteve por pedido de um certo Ve-rânio (33), mas a de Galba, eles a entregaram aos servidores de Patróbio e de Vitélio (34), os quais, depois de a terem ultrajado de todos os modos, a lançaram no lugar onde se lançavam os corpos dos que os Césares faziam morrer, que se chamava Sestércio. Quanto ao seu corpo, Helvídio Prisco, com permissão de Oton, levou-o, e, de noite, Ágio, um seu liberto, sepultou-o.

Juízo sobre Galba.

XXXIV. Eis a história de Galba, personagem que, em riqueza e em nobreza, em nada ficava a dever aos demais romanos, mas, em ambas, era o primeiro no seu tempo, pois vivera durante o reinado de cinco imperadores, sempre com honra e boa reputação: de maneira que ele derrotou Nero pelo seu bom nome e pela estima que se tinha dele, não por seu poder, nem por sua força. Pois, daqueles que então tentaram fazer-se imperadores, uns não encontraram ninguém que os julgasse dignos, outros julgaram-se dignos por si mesmos: mas Galba, para o cargo, foi chamado e obedeceu aos que o tinham chamado, emprestando seu nome à coragem de Víndex, e, fazendo isso, ele foi causa de que seu movimento, que antes era chamado de atentado de inovações e rebelião, fosse chamado de guerra civil, depois que sua facção teve por chefe um personagem que se julgava digno do império, todavia, não fez tanto caso de tomar o governo para si, como de se dar a si mesmo ao governo: mas ele errou quando quis mandar nos soldados que Tige-hno e Ninfídio tinham corrompido com sua bajulação, como o haviam feito antigamente Cipião, Fabrício e Camilo aos soldados romanos do seu tempo. E, estando já consumido pela velhice, mostrou-se bom imperador e de estilo antigo, em seu proceder para com os soldados, somente: mas, por fim, deixando-se dominar pela ambição de Júnio e de La-con, bem como de seus servos libertos, a ninguém deixou que lastimasse o governo do seu império, mas, ao invés, deixou a muitos que tiveram pena e compaixão de sua morte.

Notas

  • (1) Esta passagem pareceu obscura a vários sábios que a tentaram corrigir, seguindo diversas conjecturas; nenhuma, porém, nos parece satisfatória. Talvez Plutarco quis dizer que como em um corpo em perfeita saúde, não há movimento isolado, mas todas as funções particulares são dirigidas por um princípio motor, cuja influencia universal os combina para o interesse comum: assim também em um exército, todos os atos, todos os movimentos particulares devem ser inspirados, presididos e governados pela vontade do general.
  • (2) Veja as Observações.
  • (3) 7.500 dracmas.
  • (4) 1.250 dracmas.
  • (5) Isto é. desonrando com isso.
  • (6) No ano 821 de Roma; êle matou-se.
  • (7) No ano 822 de Roma: reinou somente sete meses.
  • (8) No ano de Roma 775 e antes de Cristo, 22.
  • (9) Esses procuradores eram encarregados da percepção das taxas e da gestão dos negócios do imperador. Augusto os havia instituído. Seus direitos se estenderam pouco a pouco, diz Tácito. An. 1. XII: nas províncias e em Roma mesmo, eles exerceram quase todas as funções outrora atribuídas aos pretores. Cláudio lhes deu uma jurisdição universal e soberana. Ibid.
  • (10) No ano 821 de Roma.
  • (11) Traduza-se assim, segundo a correção de Justo Lipse: é Já não mais o ser.
  • (12) Outros dizem Clunia. — Amyot.
  • (13) Leia-se: corrigindo o texto segundo Suetônio e Tácito: chamado Icelo.
  • (14) Calígula que sucedera a Tibério, no ano 790 de Roma fora morto no ano de Roma, 794.
  • (15) Leia-se Popéia — Nero lhe havia dado os nomes de Sabina e de Popéia. que eram os da infame criatura que êle desposara, repudiando Otávia.
  • (16) Leia-se aqui, e em todos os lugares em que Plutarco fala disso, T. Vínio. — Veja a nota de Oudendorp sobre Suetônio. Galba, pág. 762.
  • (17) Isso não está no texto grego. O lugar que os romanos chamavam de Principia era o lugar onde se colocavam as águias e mitras insígnias militares: era lá que se convocava a assembléia dos soldados. Esse recinto era sagrado. Tácito não diz que foi Vinio que a introduziu em seu acampamento, mas que ela lá entrou por si mesma, por curiosidade, disfarçada de soldado.
  • (18) Cornélio Tácito o chama Turpiliano. — Amyot.
  • (19) Não todos e logo em seguida. Depois de os ter assim desbaratado, Galba os condenou a serem dizimados: e a legião, que era mais numerosa que as outras, ainda conservou-se bastante completa, como se vê em uetónio e Tácito.
  • (20) Les travaux et les jours, v. 366.
  • (21) Veja a nota sobre o cap. XVIII.
  • (22) Em grego: 250.000 dracmas. 194.531 libras e 5 s. de nossa moeda.
  • (23) Em grego: 150.000 dracmas. 116.718 libras e 15 s. de nossa moeda.
  • (24) Tácito diz que Oton a seduziu e a esposou e. a Nero, despertou a paixão do tirano, que ainda não a conhecia.
  • (25) 50 milhões de dracmas.
  • (27) Veja as Observações.
  • (28) Leia-se: Que todos lhes saíssem da frente.
  • (29) Tácito o chama de Virgílio. — Amyot.
  • (30) Cornélio Tácido o chama Denso. — Amyot.
  • (31) Outros dizem Murco. — Amyot.
  • (32) Aquele que. como vimos há pouco, fora proclamado pelo exército da Germânia e que reinou depois de Oton durante oito meses.
  • (33) Leia-se: sua mulher Verània.
  • (34) Tácito e Suetônio só falam de Patróbio.

 


Fonte: Edameris. Tradução brasileira de Prof. Carlos Chaves, com base na versão francesa de de 1616 de Amyot com notas de Brotier, Vauvilliers e Clavier.
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