GONÇALVES DE MAGALHÃES E SEU GRUPO – Primeira fase do romantismo



Silvio Romero (Lagarto, 21 de abril de 1851 — 18 de junho de 1914) – História da Literatura Brasileira

Vol. III. Contribuições e estudos gerais para o exato conhecimento da literatura brasileira. Fonte: José Olympio / MEC.

TERCEIRA ÉPOCA OU PERÍODO DE TRANSFORMAÇÃO ROMÂNTICA — POESIA (1830-1870)

CAPITULO II

PRIMEIRA FASE DO ROMANTISMO: O EMANUELISMO DE GONÇALVES DE MAGALHÃES E SEU GRUPO

DOMINGOS José Gonçalves de Magalhães (1811-1882). — Não darei por miúdo a biografia deste escritor. Basta-me referir que nasceu no Rio de Janeiro em 1811; formou-se em Medicina em sua cidade natal, onde em 1832 publicou seu primeiro volume de poesias. Em 1833 partiu para a Europa, cujos principais países visitou, tendo por companheiros Sales Torres Homem e Araújo Porto Alegre. De volta ao Brasil em fins de 1836, ano em que publicou em Paris os celebrados Síispiros Poéticos, serviu de secretário do governo nas províncias do Maranhão e Rio Grande do Sul.

Foi deputado geral. Continuou a escrever, publicando : Antônio José ou O Poeta e a Inquisição, em 1839; Olgiato, em 1841; Amância, em 1844; Memória Histórica Documentada da Revolução do Maranhão, em 1848; a Confederação dos Tamoios, em 1856. Abraçou a carreira diplomática, representando o Brasil em diversos países da Europa e da América. Faleceu em Roma em 1882, deixando ainda publicadas outras obras.

Nenhum escritor brasileiro fez tão rápida e tão brilhante carreira; nenhum teve tanta fama, tão fácil nomeada e nenhum caiu tão depressa e tão profundamente. Hoje é preciso reabilitá-lo, fixando-o num lugar definitivo.

Quando apareceram as primeiras obras de Magalhães a imprensa desencadeou-se em louvaminhas formidolosas. Cada um queria ser ainda mais exagerado do que o seu antecessor em balançar o turíbulo e incensar o ídolo. Sales Torres Homem, Norberto Silva, Manuel de Macedo,

1. Refiro-me à edlção Garnier das obras completas de Magalhães.

Fernandes Pinheiro, Nunes Ribeiro e Araújo Porto Alegre foram os mais empenhados naquele doce lidar.

Tudo isto passou; o poeta deixou de ser lido, seu nome velou-se de olvido, e quando, morto o ilustre brasileiro, seu cadáver aportou a esta cidade, apenas um dos seus velhos amigos se apresentara para o levar ao descanso do túmulo…

Que lição a futuros escritores! Houve injustiça em tanto esquecimento; houvera antes excesso em tantos louvores. Este homem deve entrar para a história, levando consigo o valor exato dos seus trabalhos. Algumas notas capitais lhe descubro: era ativo e tinha desejos de influir; por isso tentou diversos gêneros: o lirismo impessoal nos Suspiros Poéticos, a elegia nos Mistérios, a epopéia na Confederação dos Tamoios, o teatro no Antônio José e no Olgiato, o lirismo subjetivista na Urânia, a filosofia nos Fatos do Espírito Humano e na Alma e o Cérebro. Era um talento sério, encarava tudo com um certo ar de solenidade, prestes a descambar em dureza.

Era também grave na escolha dos assuntos. Percorram-se, por exemplo, as páginas de seus Suspiros Poéticos; tudo são assuntos elevados e grandiosos. A execução, porém, ficava sempre abaixo do objeto. Nenhum poeta do século se ocupou de cousas tão remontadas e também nenhum acumulou tanta prosa metrificada. Era um talento objetivista, nutrido de uma filosofia palavrosa e vaga, de um panteísmo abscôndito. Espírito capaz de interessar-se por grandes fatos da história e grandes cenas da natureza, não possuía o dom de identificar-se com a grande vida do universo, e trazer de lá alguma cousa da poesia eterna, que circula e se expande por toda a imensa cadeia dos seres. A natureza lhe aparecia como um organismo abstrato e prosaicamente finalístico.

Deve ser estudado com amor e interesse, porque foi um trabalhador e porque amou este país. Veja-se o poeta e ouça-se o filósofo. Felizmente ele não pertence a certo grupo de charlatães, tão comuns em seu tempo, que julgava estar a grandeza intelectual em multiplicar livros e livros para tormento do público e especialmente da crítica.

Magalhães não escreveu muito; suas obras completas em primorosa edição de luxo não passam de dez volumes, perfeitamente portáteis.1

Possui quatro produções capitais por onde foi principalmente conhecido pelo público brasileiro. Dão a medida dos seus talentos e dos seus defeitos. O poeta lírico acha-se nos Suspiros; o poeta épico mostra-se na Confederação; o dramatista encerra-se no Antônio José; o filósofo patenteia-se nos Fatos do Espirito Humano.

Definir estes livros é determinar a natureza, a índple do talento do escritor; é desenhar-lhe a alma.

Como pensava em poesia? Ele mesmo vai dizer. Educado em pleno regímen clássico, nunca foi mais do que um clássico entre os românticos. A forma e o fundo de sua poesia são de um classismo pouco variado e pouco vigoroso.

Há uma certa nota dura e áspera que fica a vibrar perpetuamente ao ouvido. Do romantismo ele tomou apenas três sestros capitais: fazer da poesia uma sucursal da religião, maldizer sistematicamente do presente, divinizar o poeta e a sua missão.

O autor é típico em cada uma dessas manifestações mórbidas da romântica.

As provas são fáceis; ei-lo que fala do caráter e da natureza de sua poesia:

"O fim deste Livro, ao menos aquele a que nos propusemos, que ignoramos se o atingimos, é o de elevar a Poesia à sublime fonte donde ela emana, como o eflúvio d’água, que da rocha se precipita, e ao seu cume remonta, ou como a reflexão da luz ao corpo luminoso; vingar ao mesmo tempo a Poesia das profanações do vulgo, indicando apenas no Brasil uma nova estrada aos futuros engenhos.

"A Poesia, este aroma d’alma, deve de contínuo subir ao Senhor; som acorde da inteligência, deve santificar as virtudes e amaldiçoar os vícios. O poeta, empunhando a lira da Razão, cumpre-lhe vibrar as cordas eternas do Santo, do Justo e do Belo…

1 "O poeta sem religião, e sem moral, é como o veneno derramado na fonte, onde morrem quantos aí procuram aplacar a sede.

"Ora, nossa religião, nossa moral é aquela que nos ensinou o Filho de Deus, aquela que civilizou o mundo moderno, aquela que ilumina a Europa, e a América: e só este bálsamo sagrado devem verter os cânticos dos poetas brasileiros."2

Por mais respeitáveis que hajam sido os sentimentos religiosos do nosso romântico, é dubitável que andasse bem avisado em confundir a poesia com a religião. Enquanto a crítica moderna não se convencer que existem no espírito humano tendências diversas e irredutíveis, criadoras de outras tantas manifestações também diversas e irredutíveis, havemos de apreciar os terríveis desmantelos de que o nosso tempo tem sido por demais abundante. Poesia religiosa e religião poética, arte científica e ciência artística, e outras tantas antinomias grotescas, são o ridículo de nossos dias. Todas as criações intelectuais e emocionais da humanidade entram num esquema especial: religião, arte, ciência, política, indústria, direito e moral são as sete grandes instituições da humanidade.

Não há outras. A ciência ali abrange a filosofia, e a política margeia a moral e o direito.

É isto, pois: existem as formações religiosas, as artísticas, as filosóf ico-científ icas, as económico-industriáis e as ético-políticas e jurídicas. Em o espírito humano deve reinar a paz, e por isso cumpre que suas criações fundamentais não andem em luta; o conflito entre elas, conflito muitas vezes crudelíssimo, deve cessar; convém que andem o mais possível de acordo.

São, porém, distintas; confundi-las é prova de estreiteza intelectual. O espírito religioso pode não ter nada de poético; o poeta pode nada ter de religioso.

A confusão das duas cousas foi um erro grosseiro do romantismo. E nosso poeta compartilhou desse erro.

Outro abuso em que tropeçou foi a mania, igualmente romântica, de maldizer de seu tempo, sem razão para o fazer. Era uma das formas do patos retórico. "Tu vais, ó Lívio, ao meio do turbilhão em que se debate nossa Pátria; onde a trombeta da mediocridade abala todos os ossos, e desperta todas as ambições; onde tudo está gelado, exceto o egoísmo.. . "³

Era uma das formas da vaidade do poeta. Pode-se dizer sem receio; porque, feitas as reduções devidas no seu talento, ainda fica ele sendo um homem grandemente apreciável. Aquelas palavras e outras semelhantes foram preparando a crescente indisposição do público diante de Magalhães. Refere a tradição que, de volta de sua primeira viagem à Europa, ao avistar ele a cidade do Rio de Janeiro, saudara-a com esta imprecação: "Oh!- terra de ignorantes!…" Avalie-se do incômodo causado por tais palavras no centro do chauvinismo brasileiro.

2. Suspiros Poéticos, prefácio, sob o titulo — Lede.
3. Suspiros Poéticos, Lede, in fine.

 

O poeta dizia a verdade; a ocasião é que era imprópria. Como lírico o livro capital de Magalhães, disse eu, são os Suspiros Poéticos. É uma coleção de poesias enormes, eriçadas de prosaísmos capazes de molestar o mais contentável dos leitores. Foi um dos grandes defeitos do romantismo francês passados para o Brasil: o desmedido comprimento das poesias.

Quando se tem, por exemplo, contado a fortuna de haver lido um Lied alemão, delicioso pela forma e pelo fundo, comprimido em duas ou três estrofes, e se encontram a Invocação ao Anjo da Poesia, O Vate, A Poesia, Deus e o Homem de Domingos de Magalhães, é para deveras irritar.

São peças trotadas num diapasão monótono, numa retórica subalterna de uma longura de estafar.

O fundo das idéias é um espiritualismo à Cousin com laivos de panteísmo.

Não existem galas nem efusões líricas; o tom é pesado, a métrica indisciplinada.

Um pedaço ao acaso:

"Quando se arrouba o pensamento humano,
E todo no infinito se concentra,
De milhões de prodígios povoado;
Quando sobre o fastígio de alto monte,
Como um colibre sobre altivo robre,
Na vastidão’sidérea a vista espraia;
E vê o sol, que no Oriente assoma,
Como num lago em própria luz nadando,
E a noite, que se abisma no ocidente,
Arrastando seu manto tenebroso,
De pálidas estrelas semeado;
Quando dos gelos, que alcantis coroam,
Vê a enchente rolar em cataratas,
Por cem partes abrindo largo leito,
Fragas, e pinheirais desmoronando;
Quando vê as cidades enterradas
A seus pés na planície, e negros pontos
Aqui, e ali, moverem-se em ordem,
Como abelhas em tomo da colmeia;
O homem então se abate; um suor frio,
Qual o suor que o moribundo côa,
Rega-lhe o corpo extático; sua alma,
Como um sutil vapor, que o lírio exala,
Ferido pelo raio matutino,
Da terra se levanta; e o corpo algente
Qual um combro de pó morto parece…"

É este o estilo: períodos enormes, idéias de pouca monta.

Não tem a profundeza da poesia alemã, a idealidade da inglesa, nem os brilhos da francesa.

Tem os defeitos do sistema romântico, possuindo poucos de seus méritos.

A mania romanesca de considerar o poeta o rei dos homens não lhe foi estranha. Diz dele na peça O Vate:

"Umas vezes soberbo, impetuoso,
Qual águia que sublime o céu devassa,
E do céu sobre a terra os olhos desce,
Teu ígneo, alado gênio, no ar suspenso:
Não, ó mortais, não vos pertenço (exclama),
Eu sou órgão de um Deus; um Deus me inspira;
Seu intérprete sou; ó terra! ouvi-me."

Era esta a geral importância que os poetas românticos supunham caber-lhes em partilha. Uma inocente ilusão e nada mais.

O nosso fluminense escreveu poesias que são verdadeiras ladainhas; é um outro defeito seu. Eis um exemplo:

"Santa Religião, amor divino,
Que benefícios sobre a terra espalhas!
Quanto é misterioso
o Ser que inflamas!
De quanto ele é capaz!…
Vejo donzelas,
Reboradas por ti,
vencer a morte!

Ó das Religiões a mais perfeita,
Óó única de Deus, e do homem digna!
Religião plantada no Calvário,
E co sangue de Cristo alimentada!
Religião de amor, de paz, de vida!"

Falta só juntar a cada um destes versos o respectivo — ora pro nobis — para sair uma perfeita ladainha. Fora melhor que o autor dos Suspiros Poéticos pugnasse pela religião em boa prosa, deixando o verso para outros assuntos.

O poeta, porém, nem sempre foi assim fraco; teve seus momentos felizes; aqui e ali surgem eles em suas obras. Naquela de que se trata agora acha-se- inserta a celebrada ode a Napoleão em Waterloo, uma das produções mais elevadas do romantismo pátrio. Não é toda igual; quase sempre, porém, é digna de apreço. Eis os trechos principais:

"Waterloo!… Waterloo! Lição sublime Este nome revela à Humanidade! Um oceano de pó, de fogo e fumo Aqui varreu o exército invencível, Como a explosão outrora do Vesúvio Até seus tetos inundou Pompeia.

O pastor que apascenta seu rebanho;
O corvo que sanguíneo pasto busca,
Sobre o leão de granito esvoaçando;
O eco da floresta, e o peregrino
Que indagador visita estes lugares:
Waterloo!… Waterloo!… dizendo, passam.

Sim, aqui estava o Gênio das vitórias,
Medindo o campo com seus olhos de águia!
O infernal retintim do embate de armas,
Os trovões dos canhões que ribombavam,
O sibilo das balas que gemiam,
O horror, a confusão, gritos, suspiros,
Eram como uma orquestra a seus ouvidos!
Nada o turbava! — Abóbadas de balas,
Pelo inimigo aos centos disparadas,
A seus pés se curvavam respeitosas,
Quais submissos leões; e, nem ousando
Tocá-lo, ao seu ginete os pés lambiam.

Oh! por que não venceu? — O anjo da glória
O hino da vitória ouviu três vezes;
E três vezes bradou: — É cedo ainda!
A espada lhe gemia na bainha,
E inquieto relinchava o audaz ginete.
Que soía escutar o horror da guerra,
E o fumo respirar de mil bombardas.
Na pugna os esquadrões se encarniçavam:
Roncavam pelos ares os pelouros;
Mil vermelhos fuzis se emaranhavam;
Encruzadas espadas, e as baionetas,
E as lanças faiscavam retinindo,
Ele só impassível como a rocha,
Ou de ferro fundido estátua eqüestre,
Que invisível poder mágico anima,
Via seus batalhões cair feridos,
Como muros de bronze, por cem raios;
E no céu seu destino decifrava.

Grouchy, Grouchy, a nós, eia, ligeiro;
O teu Imperador aqui te aguarda.
Ah! não deixes teus bravos companheiros
Contra a enchente lutar, que mal vencida
Como vagas do Oceano encapelado,
Uma após outra em turbilhões se eleva,
Que furibundas se alçam, lutam, batem
Contra o penedo, e como em pó recuam,
E de novo no pleito se arremessam.

Ei-lo sentado em cima do rochedo,
Ouvindo o eco fúnebre das ondas,
Que murmuram seu cântico de morte;
Braços cruzados sobre o largo peito,
Qual náufrago escapado da tormenta,
Que as vagas sobre o escolho rejeitaram;
Ou qual marmórea estátua sobre um túmulo.
Que grande idéia o ocupa, e turbilhona
Naquela alma tão grande como o mundo?"

É uma coisa singular esta poesia; não se parece com nenhuma outra do autor. O momento psicológico que a produziu foi único em toda a vida de Magalhães.

Todos os outros trabalhos poéticos do notável fluminense foram feitos suavemente, pacatamente, ao correr da pena, entre uma palestra e uma chávena de café; o poeta não se alterava; conversando, ia escrevendo, e, interrom-pendo-se para despachar alguém, voltava sem perturbação ao trabalho, ao que se conta.

Tinha facilidade em escrever, mas quase sempre a facilidade oriunda da vulgaridade, da pouca madureza.

Assim foram escritos os Mistérios, a Confederação, as Tragédias.

Magalhães não era propriamente um temperamento poético, uma alma lírica.

Bem poucas das qualidades da grande poesia ele possuía; como lírico é quase ilegível. Dele ficará o exemplo de constância e amor ao trabalho. Ter-se-ão sempre em atenção os seus esforços para dar-nos teatro, poesia épica, lirismo e filosofia. O Napoleão em Waterloo, esse seu quase miraculoso produto, garanti-lo-á contra o esquecimento. É superior ao decantado Cinque Maggio de Manzoni.

Vejamo-lo na poesia épica.

Magalhães, educado na escola clássica, ficou sempre eivado dos sestros e amaneirados do sistema. O romantismo como poesia das sociedades novas, havia banido o poema épico, a pseudo-epopéia literária, só admissível na civilização ocidental até o século XVI.

Magalhães, no falsíssimo empenho de criar uma lite-tura nacional, falsíssimo, porque a nacionalização de uma literatura não é cousa para ser feita com as regrinhas de um programa; Magalhães, nesse empenho, que deve ser um resultado das forças inconscientes da história, quis dotar-nos com uma epopéia brasileira!… Para isto escolheu um episódio da conquista do Brasil, a resistência dos Tamoios contra os portugueses.

O episódio é bem escolhido, por ser.um fato histórico, por colocar frente a frente os conquistadores e os vencidos, por ser o momento da fundação do Rio de Janeiro, a grande cidade da América do Sul, e por trazer à cena a figura simpática do Padre Anchieta. Mas que prosaísmo! que falta de vida! que falta de força! que situações falsas! É um grande cartapacio em dez cantos em versos brancos, num estilo bronco e duro que raro melhora. Poucos terão a paciência de levar-lhe a leitura ao fim.

A idéia mesma do poema épico para o Brasil é uma infantilidade. Gente de ontem, sem mitos, sem tradições, sem heróis populares, pequena nação burguesa de outro dia, nós não possuímos definitivamente feições épicas.

Como representação étnica dos brasileiros, o livro é sem préstimo, por falso e incompleto; falso, porque a pintura dos caracteres selvagens e dos colonos é inexata; incompleto, porque falta ali o elemento negro, sem dúvida, sob o ponto de vista do trabalho, o mais considerável do Brasil.

A falsidade dos tipos indígenas, dos Aimbires, das Iguaçus, dos Pindobuçus e outros salta aos olhos. É só abrir o poema e ler ao acaso. São portugueses da classe média com cores selvagens.

Faça-se a síntese dos fatos, como eles se deram. O decênio de 1830 a 40 foi o tempo áureo de Magalhães; os Suspiros tinham levantado barulho em 1836; o Antônio José havia arrancado aplausos em 1838. São as duas obras capitais do poeta, aquelas de que algumas pessoas do povo de certa cultura se lembram ainda.

No decênio de 1840 a 50 o escritor pouco produziu.

Saíram Olgiato em 41; Amância em 44; a Memória da Revolução do Maranhão em 48. São três cousas inúteis, de uma fraqueza incontestável. É que o astro de Gonçalves Dias (1846) crescia no horizonte, e a estrela de Magalhães começava a empalidecer.

Ao decênio de 1850 a 60, já em seu declínio, pertencem a Confederação dos Tamoios — 1856, os Mistérios e Cânticos Fúnebres — 1858, e os Fatos do Espírito Humano, neste último ano.

Então Gonçalves Dias, Pena, Álvares de Azevedo e Macedo já pertenciam à história ou eram vultos conhecidos. As condições do meio literário já não eram as mesmas do tempo dos Suspiros Poéticos. A poesia brasileira havia ganho muito em vida, em graça e em primores de estilo.

O talento de Alencar era já uma realidade. Magalhães tinha ficado estacionário entre o imperador, Porto Alegre e Norberto Silva no Instituto Histórico.

Em nossa literatura, então como ainda hoje, havia um cenáculo, e aquele era da gente do Instituto em torno do imperante, moço, entusiasta; porém negativo na sua boa vontade.

José de Alencar pegou do poema de Magalhães e fez-lhe a crítica desapiedada; o barulho foi enorme, o escândalo era inaudito. Agitaram-se Israel e Judá; puseram-se a postos os defensores do poeta. Mas foi embalde.

Soares de Azevedo, Macedo, Montalverne, o próprio Montalverne!… perderam seu tempo. A derrota era um fato consumado. O poeta era um homem de pouca energia para a luta; não saiu a campo; nada disse. Alencar ficara triunfante. Desde então o cetro literário passou às suas mãos.

Os pontos de vista do escritor cearense não eram dos mais elevados, nem dos mais corretos em crítica literária; mas estavam na altura de seu tempo no Brasil.

O poema é em geral fraco, e é realmente para admirar o tempo gasto por Ferdinand Wolf em o analisar e gabar. Há em todo ele um ou outro pedaço mais elevado e mais poético. Os melhores, a meu ver, são a descrição do Amazonas, a partida dos guerreiros pela floresta, os queixumes de Iguaçu, e um pequeno trecho sobre Anchieta.

Iguaçu é a amante de Aimbire, o herói do poema. Marchando este chefe à frente de seus guerreiros a ferir

a luta com os portugueses, a heroína assiste de sobre um monte à partida daquele troço por entre a floresta. Punge-lhe a saudade, e o poeta escreve estes versos:

"Um ai do peito a mísera soltando, A maviosa voz destarte exala:

‘Só, eis-me aqui no cimo da montanha,

Dos meus abandonada; como um tronco

Despido, inútil no alto da colina,

A que os ramos quebrou Tupã coa frecha.

Só, eis-me aqui, do velho pai ausente,

Ausente do querido bem-amado,

Como viúva, solitária rola

Em deserto areal seu mal carpindo!

Ainda hoje o caro pai vi a meu lado;

Ainda hoje, o amante eu vi!… Fugiram ambos,

Velozes como os cervos da floresta:

Já fui feliz; mas hoje desgraçada!…’

E os ecos responderam — desgraçada!

‘Desgraçada!… E ainda vivo? Antes à guerra O pai e o bravo amante acompanhasse; Ouvindo sua voz, seu rosto vendo, Acabar a seu lado melhor fora.’

E os ecos responderam — melhor fora!

‘Gênios, que as grotas povoais e os vales, Gênios, que repetis os meus acentos, Ide, e do amado murmurai no ouvido Que a amante sua de saudades morre.’

E os ecos responderam — morre… morre!

Morre… morre! soou por largo tempo. O canto cala um pouco a triste moça, Murmurando dos ecos o estribilho, Como se algum presságio concebesse. Os negros olhos de chorar cansados Coas mãos ela os enxuga; mas de novo Desses doridos olhos as estanques Lágrimas brotam, que lhe o peito aljofram. Como goteja em bagas abundantes Da fendida taboca a pura linfa… Suspira e geme, e continua o canto; Mas temendo que os ecos lhe respondam, Em meia voz começa compassada:

‘Por que tão cedo, ó sol, hoje raiaste? Por que flamejas como acesas brasas? Ah! tu me queimas; teu calor modera, Que na marcha os guerreiros enlanguesce. Desta terra que é tua, destes bosques, Que após da enchente do geral dilúvio Plantou Tamandaré para seus filhos, Hoje os Tamoios em defesa marcham. Tamandaré foi pai dos avós nossos; Sempre Tamandaré a ti foi caro; Tu, ó sol, o aqueceste na velhice; Aquece os filhos seus; mas ok! não tanto.

‘Olhos meus, de chorar cansados olhos, Que tendes mais que ver? Já não distingo Naqueles densos bosques os guerreiros, Entre os ariribás e as sapucaias. Nada mais vejo que prazer me cause. Só estou sobre a terra! Vinde, ó feras! Não há quem me defenda: vinde ao menos Menos dura é a morte que a saudade. Sim, morrerei.’

E mais dizer não pôde; Em meio de um gemido a voz faltou-lhe, Os lábios lhe tremiam convulsivos, Como flores batidas pelos ventos. Cruza os braços no colo, os olhos cerra, Pende a fronte, e no peito o queixo apoia, As derretidas perlas entornando. Tal num jardim a pálida açucena De matutino orvalho o cálix cheio, Se o zéfiro a bafeja, a fronte inclina, Puros cristais em lágrimas vertendo. Não sei se dorme, ou se respira ainda; Mas parece entre pedras bela estátua, Que do abandono o desalento exprime! O sol, que ao ressurgir a viu chorosa, Nesse mesmo lugar chorosa a deixa."*

É este o tom do poema em seus melhores pedaços; é evidentemente muito pouco épico.

Magalhães procurou influir também no teatro. Nesta esfera o Antônio José ou O Poeta e a Inquisição dá a medida de seu talento.

Ainda neste ponto o poeta não foi um romântico emérito. Estes baniram a tragédia em favor do drama; o ilustre fluminense não esteve por isso e presenteou seus patrícios com produtos do gênero.

4. Confederação dos Tamoios, C. IV.
5. A tragédia íoi representada pela primeira vez em 1838, e saiu publicada no ano seguinte.

Antônio José, interpretada pelos grandes talentos de João Caetano e Estela Sezefreda, agradou bastante nos anos de 1838 e proximamente posteriores.5

Dói-me ainda neste ponto censurar o poeta. Sua tragédia é uma obra incolor, sem vida, sem um só tipo verdadeiramente acentuado, sem ação dramática. É um desconcerto perpétuo. Mariana tem um caráter dúbio; não se pode bem ver se ela é simples companheira e amiga de Antônio José, ou se verdadeira amante.

Antônio José, o protagonista, o espirituoso judeu das Óperas Portuguesas, o gaiato brasileiro dos autos, é transformado num raciocinador pedante. Fala uma linguagem impossível em Portugal em princípios do século XVIII. O Conde de Ericeira é um Mecenas pacato, medroso, sem talento e sem influência no meio político que o cercava. Frei Gil é um Lovelace de roupeta, sem graça, sem habilidade, transformado depois numa Madalena arrependida. A tragédia era cena bem executada por artistas de talento ilude um pouco; lida é lastimável quase.

De toda ela ficaram mais ou menos na memória dos que a ouviram aquele verso da cena II do III ato entre Antônio José e o Conde de Ericeira:

"Nasce de cima a corrupção dos povos"

e aqueles da mesma cena um pouco anteriores:

"Poeta que calcula quando escreve,
Que lima quanto diz, por que não fira,
Que procura agradar a todo o mundo,
Que, medroso, não quer aventurar-se,
Que vá poetizar para os conventos."

O seguinte monólogo de Antônio José na cena l.a do V ato não é mau:

"Morrer… morrer… Quem sabe o que é a morte?…
Porto de salvamento… ou de naufrágio!…
E a vida?… um sonho num baixel sem leme…’
Sonhos entremeados de outros sonhos,
Prazer, que em dor começa, e em dor acaba.
O que foi minha vida, e o que é agora?
Uma masmorra alumiada apenas,
Onde tudo se vé confusamente,
Onde a escassez da luz o horror aumenta,
E interrompe o recôndito mistério.
Eis o que é vida!.. . Mal que a luz se extingue,
O horror c a confusão desaparecem,
O palácio e a masmorra se confundem,
Completa-se o mistério… Eis o que é morte."

Rara era a composição do poeta fluminense em que ele não vazava uma metafisicazinha tirada do ecletismo francês. Na tragédia de que se trata o protagonista quase não abre a boca que não seja para ensinar filosofia aos seus companheiros. Seria preciso transportar para aqui a mor parte da tragédia, se o quisesse provar praticamente. Vejam — 1.° ato, cena V, onde começa: Sim, dizes bem, ladrões… ladrões, sicários!; 2.° ato, cena IV, onde começa — Há dias aziagos, em que o homem; 3.° ato, cena II, onde diz — Eis dos homens a fraca natureza!… ou no mesmo ato e cena este pedaço que é transcrito para de uma vez dar-se uma exata idéia do defeito assinalado:

"Sim, a filosofia! Onde está ela?
Termo pomposo e vão!.. .
Quereis que eu chore

Como Heráclito sempre atrabiliário,
Aborrecendo os homens com quem vivo?
Ou que como Demócrito me ria
De tudo quanto vejo? — Porventura
Nisso consiste a natureza humana?
Quereis que eu seja estóico como Zeno?
Que diga que não sofro, quando sofro?
Porventura não somos nós sensíveis?
Quereis que de Epicuro as leis seguindo,
Só me entregue ao prazer, ou que imitando
A Crates, e a Diógenes, me cubra
Com roto manto, e viva desprezado,
Sem me importar coas cousas deste mundo,
Como o cão que passeia pelas ruas?
Se eu vou seguir de Sócrates o exemplo,
Pugnar pela razão, a morte é certa."

É assim a poesia dramática do celebrado fluminense.

Se no lirismo as galas e os mimos da natureza cediam o lugar aos trechos raciocinantes de um metafisicismo sem força, no drama embalde procurareis a vida subterrânea da alma humana, essa alguma cousa de tenebroso que os grandes gênios vão encontrar sob as douraduras exteriores do viver social dos individuos.

Nessa pintura, digo mal, nessa revelação que se faz por atos e não por descrições, é que vai a força dos grandes dramatistas. Dela Magalhães não teve nem sequer o pressentimento.

Veja-se, por último, o filósofo, e conclua-se.

Nesta esfera o escritor fluminense deixou três obras: Fatos do Espírito Humano, A Alma e o Cérebro, Pensamentos e Comentários.

A primeira é a mais importante, analisá-la é conhecer a filosofia do autor.

Os Fatos do Espírito Humano apareceram em Paris em 1858.

O poeta, como disse, entrelaçou aos vôos, um pouco amortecidos, de sua imaginação, pedaços de sua metafísica; o filósofo exibiu provas de uma poesia desgraciosa nas páginas do seu livro.

Na história dos dous domínios intelectuais em que mais se exercitou não pode fazer uma figura muito eminente, como à mania patriótica quis a princípio parecer.

Magalhães foi um romântico tímido e um velho espiritualista catolizante.

Dotado de pouco vigor de imaginação, não teve brilhos de estilo; pouco profundo, não devassou seriamente nenhum dos segredos da ciência. Seu melhor livro de poesias é, como se viu, de 1836; ele balbuciava então as primeiras palavras de um sistema literário já decadente, cujos corifeus já eram vultos da história.

Quando apareceu como filósofo, foi coisa para surpreender a todos, que o supunham alheio às especulações profundas, e que deviam ter notado a sua incompetência para as graves questões.

Os Fatos do Espírito Humano, com ares de um quadro da filosofia do século XIX, são uma veleidade. O autor, que, desde algum tempo, vivia na Europa, devendo estar em dia com a ciência da época, e afirmando estar, mostra-se ali demasiado débil. Seu livro é uma espécie de cantilena declamatória, onde não se encontra um método científico, nem a segurança e a elevação das idéias.

Como é que o Visconde de Araguaia, — com a pretensão de "aventurar-se em novas teorias, tratando de todas as grandes questões da filosofia; expondo os sistemas mais acreditados e aceitos; refutando os que lhe pareciam contrários aos fatos, e procurando por um modo diverso do que o fizeram outros, resolver com a maior

6. Fatos do Espirito Humano, prólogo.

clareza que lhe foi possível algumas dificuldades", mostrou-se tão fortemente atrás dos grandes pensadores, então já vulgarizados?

Se a lei suprema por que deve a história julgar dos homens e escritores, é aferi-los pelo grau de desenvolvimento da época em que floresceram, claro é que Magalhães não saí muito engrandecido da operação da crítica. Não passou de um discípulo de Montalverne, desenvolvido por Cousin. Disse ele que ouviu a Th. Jouffroy, em Paris… Quanto-dista do pensamento profundo e do estilo sóbrio do insigne eclético! Foi um escritor quase vulgar, sem elevação de idéias, sem firmeza de doutrina, sem finezas de análise, sem habilidade de forma. Girou num círculo de raio tão curto, que não pôde enxergar os grandes astros que ilustraram o seu século. Todos os nobres espíritos que esclareceram com sua luz a Alemanha, a Inglaterra, a Itália e a França em seu tempo, o Visconde de Araguaia os não referiu, e, todavia, veio dizer-nos que expunha as teorias mais acreditadas e seguia a filosofia que mais exalta o espírito humano!…

Como todo romântico desconsolado e impertinente, ele insultou o seu século; porque o não compreendeu. Já é tão cediça e inaproveitável certa maneira de insurreição contra o tempo em que se vive que até um escritor de mínima estatura deve fugir de repeti-la: é desse apelo para o materialismo industrial e outras momices da espécie que falo. O nosso autor a empregou como quem estava às voltas com uma novidade. Publicou o seu livro, que trata de verdades morais, porque "não falta quem cure dos interesses materiais; quem com escritos os aconselhe, com discursos os apregoe, com obras os promova, com vantagens e lucros excite a cobiça a procurá-los, e não será ele de mais no meio de tanto materialismo industrial!"6

Vê-se, por esta passagem sermonática, que Magalhães foi pouco escrupuloso em repetir as antigualhas desprestigiadas.

O hegeliano Vera, sem dar-se aliás por grande escritor, para fugir à vulgaridade, caiu no extremo oposto também criticável: "Não quero ser o censor de meu tempo, porque eu também sou de meu tempo", disse ele. A escolher entre os dous extremos, antes este último com todos os seus pre-

juízos, do que a choraminga banal dos companheiros de Araguaia. Fazem estes uma impressão ainda mais incômoda do que a dos otimistas estólidos que andam, a cada instante, a badalar sobre as maravilhas da época. Por falar ocasionalmente no professor de Nápoles, vem a propósito para medir por ele o nosso filósofo.

Este foi um eclético ferrenho, como Vera era um hegeliano fanático; entretanto, que distância não vai entre a vasta coleção de obras do espirituoso italiano e os livros magros do escritor brasileiro! O napolitano abriu francamente luta com os mais notáveis pensadores que eram adversos ao seu sistema. Schopenhauer, Hartmann, Strauss, Darwin, entre tantos outros, sofreram-lhe os golpes ; e, se as suas razões nem sempre são das mais nutridas, o ridículo que joga aos contrários é sempre bem aproveitado. No brasileiro há ainda mais fraqueza científica, e de todo anda ausente o espírito.

Tenho pressa em desvendar a célebre exposição da sensibilidade, o que ele chamou a sua teoria nova.

O livro começa por uns capítulos onde o autor tratou de generalidades da filosofia, como ele a entendia, e discutiu, inspirado em Cousin e depois dele, os sistemas de Locke e de Condillac. Recuando até ao capítulo VIII, seja-me dado estudá-lo aí. É onde se acha a nova teoria da sensibilidade e os novos achados de nosso autor são muito interessantes.

Consistem nisto: ele é um duodinamista, como tantos outros; admite duas entidades imateriais no homem, a alma com o pensamento e a vontade, e a força vital, que se encarrega da vida, e a que ele atribui a faculdade de sentir. Neste último ponto é que se supõe original: todos os mais assertos seus confessa implitamente que são velhos na história da filosofia.

Não é muita cousa, e se se souber que Ahrens, no seu Curso de Psicologia publicado em 1835, já emitira mais ou menos aquela doutrina, a pretendida novidade se reduz quase a nada.

Tal foi; Ahrens admitia que o corpo tem como sua a sensibilidade, além de certo conhecimento que lhe é próprio e para o qual o espírito nada contribui.

Ao corpo por si pertencem, segundo o célebre publicista hanoveriano, a sensibilidade e a imaginaçã" "distinta do eu, a qual pode crescer no cérebro, e o espírito perceber objetos que ele não produziu ou para os quais cooperou fracamente".7

Magalhães não contesta o papel importantíssimo dos nervos e do cérebro na produção das sensações, mas para ele estes órgãos são instrumentos de um princípio superior. Qual é? A alma, respondem os espiritualistas em coro. A força vital, responde o filósofo-poeta, folheando talvez as páginas do livro esquecido de Ahrens.

De todos os obstruidores do terreno da ciência são os mais perigosos os sectários, como o nosso autor, dessa tríada no homem: um corpo, uma força vital e um espírito. O corpo alimenta-se, a força vital vive, e a alma pensa e quer.

O nosso compatrício, inclinado ao idealismo e ao misticismo, como se verá, julga que é muito grosseiro e mundano a alma sentir, como já lhe foi por Tobias Barreto ponderado, e atira esse pesado encargo para o seu companheiro terrestre, o princípio vital.8

O vitalismo é uma doutrina biforme e incômoda; o animismo é mais lógico; ambos desaparecem confusos diante da concepção de Rostan.9

O autor dos Suspiros Poéticos, que, apesar de médico, dá mostras de não conhecer este distinto colega, é bastante atrasado; meio politeísta, delicia-se em admitir as entidades.

Não é do número daqueles que se julgam forçados a abandonar a entidade transcendental — alma, como se exprime Herzen, e contentam-se com a outra, espécie de soberana imaterial, que preside aos fenômenos vitais.10

Não, ele só está satisfeito com ambas. É o requinte do metafisicismo. Não entra no plano deste trabalho o estudo do que seja a vida; não tenho, pois, que apreciar o quanto é inadmissível a concepção de Barthez e Lordat, tão plenamente admitida pelo poeta dos Cânticos Fúnebres.

Fugindo ao prazer que dar-me-ia a exposição das idéias de L. Rostan, hoje abandonadas pela teoria de uma matéria já de si viva, a chamada teoria do carbono; fugindo à oportunidade de apreciar a invectiva de Littré contra os que consagram a doutrina de ser a vida uma transformação das leis físico-químicas,11 conceda-se ao escritor brasileiro a existência de um princípio vital, distinto e independente do corpo e d’alma, e vejam-se os motivos por que lhe atribui o privilégio da sensibilidade.

7. Ahrens, obra citada.
8. Artigo de Tobias Barreto, sobre os Fatos do Espírito Humano de Magalhães, inserto no Jornal do Recife, em 1869.
9. Exposition des Principes de l’Organicisme, 2e édition, Paris, 1846.
10. Fisiologia delia Volontà, pág. 6.

 

O digno filósofo, em 1858, estava num ponto de vista mais atrasado do que Jouffroy em 1830, quando escreveu a memória sobre a Legitimidade da Separação da Psicologia e da Fisiologia.

O autor, apriorista, não se sente muito obrigado a provar as suas asserções; eis a segurança com que estabelece a premissa da sua argumentação:

"A existência de uma força imaterial que organiza o corpo é tão incontestável, como a existência de um espírito que pensa, e que não tem consciência de ser ele quem organizou o seu corpo, e quem opera no interior dos órgãos dele."12

O obscuro pelo mais obscuro…

A existência na Terra de um diplomata da Xua é tão incontestável, como o é no interior de nosso globo a existência do inferno, que não tem consciência de ser ele quem ergueu-lhe na superfície as montanhas!. . .

Enfim.. . concedido: existe o que o filósofo quer. Ouçamo-lo ainda:

"A sensibilidade está na força vital. É essa força quem se modifica e produz a sensação que se apresenta à nossa alma."13

Esta proposição parecia uma grande novidade; cumpria ao pensador prová-la, e por que não fazê-lo, quando "infelizmente em favor do que ele diz não pode citar a opinião de nenhum filósofo antigo ou moderno, pois todos de comum acordo atribuem à alma a sensibilidade"?

Ele pretende justificar a sua descoberta, e devo apreciar, um a um, a força de seus argumentos.

"Se a sensibilidade, diz, estivesse n’alma inteligente e livre, de cada vez que ela se lembrasse de uma sensação a sentiria de novo; como de cada vez que se lembra de uma concepção a concebe de novo; mas se se lembra de uma dor, ou de um cheiro, ela não os sente de novo, e quando se lembra de uma cor, não a vê e só a representa em um objeto qualquer percebido por ela."14

11. Médecine et Médecins, 2e édition, págs. 335 e 56.
12. Cap. VIII.
13. Cap. citado.
14. Loe. cit.. pág. 159.
15. O citado Tobias Barreto no Jornal do Recife, em 1869, no referido artigo.
16. Loc. cit.

Já foi ao filósofo demonstrado, por um dos seus críticos,15 que este argumento é futilíssimo, nada vale. Prova demais, porquanto a prevalecer o seu dito, fora mister despojar também a alma humana da vontade! Decerto, quando nos lembramos de uma volição passada, não a queremos de novo.

Mas isto não basta; preciso é dizer ainda ao autor de Olgiato por que é que, ao lembrar-nos de uma concepção, a concebemos de novo, e o mesmo se não dá com a sensação. Não é necessário pedir auxílio a uma ordem científica superior para fazê-lo. Pois não viu o filósofo que, sendo, segundo ensina a sua própria escola, a memória uma faculdade intelectual, uma vez que evoca fenômenos do entendimento, está dentro do círculo a que pertence, e aquilo que reproduz aparece em seu caráter primitivo?

Por outros termos, quando a memória se exerce, em tal caso, é sobre fatos pertencentes à ordem intelectual, e estes se apresentam como são, isto é, como idéias.

Outro tanto não se dá quando se exerce sobre fatos que pertenceram à sensibilidade ou à vontade. Neste caso, ela ressuscita só aquilo que é de sua alçada, a idéia da sensação ou da volição, e não estas em si mesmas.

Magalhães queria que ela fosse adiante e ressuscitasse os próprios fenômenos de uma esfera estranha, isto é, queria que nós todos fôssemos uns alucinados!

A razão fisiológica do que acabo de referir o nobre poeta devia conhecer. Devia saber que nos fenômenos da memória não se agitam as partes do cérebro onde trabalham a sensibilidade e a vontade.

Só a fraqueza deste primeiro argumento do filósofo me dispensava de ir adiante. É, porém, necessário prosseguir e examinar os outros motivos que alegou.

"O engano dos filósofos, que fazem da passividade de sentir uma faculdade da alma humana inteligente, provém de que a alma parece ter consciência das sensações, e imediatamente senti-las. Mas a consciência de uma sensação nada mais é do que a consciência da percepção de alguma cousa acompanhada de sensação."16

No terreno da psicologia, contesto que não haja consciência das sensações, e sim somente das percepções que as acompanham.

17. Lições de Fisiologia Elementar, pág. 210. Trad, de Daily.

Existem sensações perfeitamente conhecidas pela consciência que não lhe trazem a percepção de cousa alguma ; a sensação de dor, por exemplo, na maioria dos casos.

O digno médico devia conhecer o estado, que os fisiologistas denominam hipocondria, no qual até as sensações gerais não localizadas tornam-se patentes à consciência, sem todavia trazerem a percepção de objeto algum.

Mas nem é preciso recorrer a um estado patológico para patentear o engano dos Fatos do Espírito Humano.

Basta recordar que a sensação especial de cheiro, em muitos casos, não nos refere a percepção de um objeto. Podemos sentir o aroma de uma flor sem que a vejamos e saibamos qual ela seja. A percepção é que nunca se dá sem a sensação que se pode executar sem aquela.

Até em casos mórbidos a percepção vem acompanhada de seu inseparável apêndice. Nas alucinações dá-se a percepção sem objeto exterior, mas sempre seguida de sensações quaisquer que elas sejam. São até estas as falsas sensações que originam as falsas percepções, ou x alucinações psicossensórias. A que se reduz, à vista disto, a argumentação de Magalhães? Ele nada provou, limitando-se a afirmar gratuitamente. As sensações, até pelo órgão da ciência mais cheia de desabusos, são declaradas atos da consciência, ainda que esta última tenha sido, até agora, inexplicável em sua intimidade.

"Nós podemos, diz Huxley, classificar as sensações com as emoções, as volições e os pensamentos na categoria dos estados de consciência. O que vem a ser a consciência de um ato que se passa em nós ignoramo-lo. Como acontece que um fenômeno tão notável qual a aparição da consciência dos atos se patenteie como o resultado da irritação do tecido nervoso, nós não podemos conhecer, nem mais nem menos do que a aparição dos Djins, quando Aladino sopra a sua lâmpada. E, depois, todos os fatos finais da natureza acham-se no mesmo caso."17

É esta a verdade das cousas, é este o respeito da ciência, quando manejada por espíritos da têmpera do insigne naturalista filósofo.

Magalhães recusou à consciência o conhecimento da sensação, sem dar, para tanto, prova séria.

Custa-me até compreender como lhe pôde entrar no pensamento a possibilidade de ter-se a consciência de uma percepção sem, ao mesmo tempo, haver a da sensação que a origina. Seria bom que o filósofo fosse mais explícito neste ponto.

18. Págs. 166 e 167.
19. Opúsculos Históricos e Literários.

 

Depois de acabar o capítulo VIII de seu livro, como o tinha começado, por uma série de quase banalidades, o autor passou ao capítulo IX, onde exibiu o seu mais famoso argumento. As ninharias com que abriu esse capítulo são umas inoportunidades sobre a ordem dos sentidos exteriores no tocante ao auxílio que eles prestam à inteligência; aquelas com que o fechou são umas objeções que, fingiu, se lhe fariam, e às quais respondeu antecipadamente.

A principal consiste nuns considerandos sobre uma experiência de Flourens.

O autor simula que alguém lhe diga: os belos achados do naturalista francês, que tanto apreciais, achados com os quais provou que se a um animal tirarem-se os dous lóbulos cerebrais, ele perde todos os sentidos, deixa de ver e de ouvir; perde todos os instintos; não sabe mais defender-se nem abrigar-se, nem fugir, nem comer; perde enfim toda a inteligência, toda a percepção, toda a volição, toda a ação espontânea; estas belas experiências vos são contrárias, porque requerem também para o animal uma inteligência além da faculdade de sentir, uma percepção, uma livre vontade e consciência, e, portanto, uma alma, que se serve do cérebro, como instrumento… .18

É esta a objeção a que tem de responder.

Parece que se está a assistir a um dos saraus filosóficos, que tinham lugar no Rio de Janeiro no tempo da mocidade do autor, e que são por ele tão elogiados na sua biografia de Montalverne.19

Ali o velho franciscano fazia proezas e o poeta da Urânia, ainda em embrião, discutia se os animais têm alma!. ..

O filósofo sofisticou; pressentiu que a fisiologia cerebral lhe é adversa, e, para quebrar o valor da oposição, pejou-a de conseqüências, aos olhos de sua gente absurdas, para sair assim vitorioso.

Ninguém, a não ser algum desassisado, iria das experiências de Flourens concluir que o animal tem liberdade e alma, quando, em todo o caso, no próprio homem são ambas, liberdade e alma, questão aberta, e a ciência não parece muito disposta a reconhecê-las pelo velho método e no velho estilo. Não é tal a conclusão que se deve tirar daquelas premissas para ir-se ao encontro de Magalhães.

Basta concluir que os animais, sem a velha alma, têm uma inteligência, como têm uma sensibilidade, cousas que ninguém sinceramente atreve-se mais hoje a contestar; basta, sobretudo, concluir que de certos elementos do cérebro depende a sensibilidade, como deles depende a inteligência, não também como declamava a velha metafísica materialista; mas segundo ensinam os que pensam como Ludwig Noiré e todos os monistas idealistas.

Magalhães fantasiou argumentar com algum pobretão d’idéias para melhor levar-lhe vantagem.

A questão hodierna, já decidida, sobre os animais não é se eles têm ou não alma, e sim em que grau possuem inteligência e quanto, e como, distam do homem. Para o insigne e inestimável Ha2ckel os animais superiores têm todas as propriedades, que nós outros costumamos chamar espirituais, por consagração da língua, propriedades que só diferem das do homem quantitativamente e não qualitativamente.20

O nobre visconde devia ser bastante atilado para conhecer a diferença dos dous pontos de vista. Prossigamos.

Nas primeiras páginas do capítulo IX os Fatos do Espírito Humano encerram o seu mais vigoroso argumento. Aquiles vai sair a campo. Ei-lo: "Para que uma cousa se distinga de outra é necessário que ela não seja a cousa mesma da qual se quer distinguir. Nada se distingue de si mesmo, senão daquilo que não é ele."21

É esta a proposição erigida pelo filósofo em princípio geral, e que serve de maior ao seu arrazoado.

"Ora, se o eu fosse sensível, prossegue o autor, e recebesse a sensação como uma afecção, ou modificação sua, ele não se distinguiria dela, ele seria a sensação mesma, como bem disse Condillac; não teria por conseguinte percepção alguma; e mil sensações diversas que nele se sucedessem iriam passando, e ele, modificando-se de sensação em sensação, seria sempre a última, sem distinguir-se de nenhuma."22

20. História Natural da Criação. Licfto 10.», Paris, 3.» edição.
21. Cap. 9.°
22. Idem, ibld.

Tudo isto não se dá; o eu se distingue das sensações, logo elas lhe não pertencem. A tanto queria chegar o argumentador in barbara.

Eis um resultado esdrúxulo da velha metafísica; o motivo de tais e tão crassos enganos é a apriorística noção de causa que tinha o nosso autor.

Diz que não nos distinguimos de nossas afecções; que uma nossa idéia somos nós mesmos pensando; uma nossa volição somos nós mesmos querendo.

Certamente não nos podemos distinguir de nossas afecções, se por distinguir entender-se, como queria Magalhães, separar-se no todo, formando existências e substâncias à parte.

Esta, porém, não é a verdade das cousas; abstrata, e até concretamente, eu me distingo de minhas idéias e volições, como me distingo de minhas sensações. Sim; minha intuição do mundo e da realidade admite perfeitamente que eu me distinga, por exemplo, da idéia que formo do Aimbire de Magalhães. Tanto é isto verdade que, desaparecida a idéia, eu ainda persisto tão integralmente como dantes.

Não se compreende a razão por que o nobre autor abriu uma exceção em desfavor das sensações; destas o eu se distingue; do mais não, segundo ele. Por quê? A resposta não é capaz de tranqüilizar a qualquer. O eu, fantasiado aqui como espécie de entidade nebulosa, se distingue das sensações, porque as objetiva, diz o sábio brasileiro.

Ora, outro tanto, pergunto, não se dará com a volição e a idéia? Será certo que estas também se não objetivam? A idéia que formava o nosso escritor do seu vulto de gigante, que

"Entre os seus marechais ordens ditava",

não estaria objetivada? A idéia que, como poeta, fantasiou do vencido de Waterloo não o teria sido nunca?

Neste declive da espiritualidade à antiga ele foi direito ao misticismo, e nos últimos capítulos de seu livro assegurou que não temos certeza da existência real do universo, e que pensamos nele, porque é um pensamento de Deus, que no-lo comunica com a mesma arte e pela mesma forma por que o magnetizado percebe as idéias que vão pela mente do magnetizador!

Esta recente transformação da visão em Deus do Padre Malebranche, ou paródia da razão impessoal de

Cousin, acho-a tão fantástica, que a não julgo merecedora de um exame.

O filósofo não foi por certo dos mais profundos.

Veja mais Gonçalves de Magalhães na Antologia Nacional de Escritores.

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