Apontamentos do texto A RAZÃO NA HISTÓRIA – Uma Introdução Geral à Filosofia da História, de Hegel

Apontamentos do texto A RAZÃO NA HISTÓRIA – Uma Introdução Geral à Filosofia da História, de Hegel

Apontamentos
do texto A RAZÃO NA HISTÓRIA – Uma Introdução Geral à Filosofia da História, de
Georg Wilhelm Friedrich HEGEL. (Capítulos do número 1 ao 3.)

                       Por Ângelo Fornazari Batista .
Trabalho originalmente apresentado para o professor Márcio Benchimol na disciplina Filosofia das Ciências
Humanas – Unesp – Filosofia.

 

“Na história, o pensamento está subordinado aos dados
da realidade, que mais tarde servem como guia e base para os historiadores. Por
outro lado, afirma-se que a filosofia produz suas idéias a partir da
especulação, sem levar em conta os dados fornecidos. Se a filosofia abordasse a
história com tais idéias, poder-se-ia sustentar que ela ameaçaria a história
como sua matária-prima, não a deixando como é, mas moldando-a conforme essas
idéias, contruindo-a, por assim dizer, a priori. Mas, como se
supõe que a história compreenda os acontecimentos e ações apenas pelo que são e
foram e que, quanto mais factual, mais verdadeira ela é, parece que o método da
filosofia estaria em contradição com a função da história.” (HEGEL, 2001:52) Ao
contrário de uma possível contradição metodológica entre essas ciências, Hegel
afirma que a história do mundo só pode ser contada e contemplada a medida que
ela se valha da filosofia.

É pela especulação e reflexão racional que
a filosofia se sustenta. E haja vista que “na história do mundo as coisas
aconteceram racionalmente”, (HEGEL, 2001: 53) vislumbramos o ínicio dessa união
entre as ciências supracitadas. Para provar a existência de uma razão no mundo,
Hegel nos dá o exemplo de Anaxágoras, cujo feito foi observar que há um sistema
solar no qual os planetas giram ao seu redor. Porém, diz Hegel, ao grego não
foi possível inferir qualquer racionalidade sendo contemplada, pois no seu
tempo ela estava ainda velada. Percebe-se claramente que a história do mundo
hegeliana visa, portanto, uma teleologia. Ora, sendo uma teleologia comandada
pela razão, não iria ela ser contra qualquer doutrina religiosa? Não para
Hegel, já que ele vê em Deus a Razão Absoluta. Aliás, Razão e Deus são termos
correlatos e, pode-se dizer, significam uma mesma coisa: requisito lógico do
mundo, cujas potencialidades inerentes se manifestam no decorrer da história.
Metodologicamente, Hegel assim compreende o estudo da história do mundo:
“devemos tentar seriamente reconhecer os caminhos da providência, os seus
significados e as suas manifestações na história, e seu relacionamento com o
nosso princípio universal[1]
(HEGEL, 2001:57) (“Reconhecer os caminhos da providência” implica uma certa
passividade daquele que estuda ou quer conhecer a história passada; não é a toa
que ele emprega o verbo contemplar em sua obra.) Se assim é, qual o objetivo
final do mundo?

Dissemos acima que o mundo, para Hegel,
deve ser pensado racionalmente, que todos acontecimentos históricos passados
foram necessários; donde seu aspecto teleológico. Esse plano divino é
manifestado ao mundo mediante o “Espírito de um povo”, visando a Idéia de
Liberdade. Ou seja, esta idéia é a força motriz da história, ao passo que o
Espírito de um povo é expressão de uma realidade histórica finita, que por
processos dialéticos busca sobrepujar as potencialidades infinitas da Idéia.

Pelo caráter objetivo do “Espírito de um
povo”, as subjetividades que constituem uma nação e até mesmo as dos próprios
indivíduos, são consideradas por Hegel apenas como um primeiro passo do
movimento dialético. Todas as paixões particulares servem para serem
aniquiladas, dando lugar a universalidade de que a Idéia de Liberdade
necessita. Nem mesmo os heróis, aqueles que serviram de exemplo para uma
mudança do Espírito de uma época à outra, tinham consciência da objetividade de
suas paixões, pois “a história do mundo dá início ao seu objetivo geral
– compreender a idéia de Espírito – apenas em uma forma implícita (ansich),
ou seja, como Natureza, como um instinto muito profundo e inconsciente” (HEGEL,
2001: 71). Torna-se preciso, então, compreender a ligação entre o particular e
o universal, – entre o subjetivo e o geral – cujo casamento propicia a história
do mundo.

Sendo a Idéia[2],
condição lógica para o mundo, ela não está contida nele. Ou melhor, ela não
necessita dele para sua preservação. Enquanto tese, a Idéia “é o universal, o
imanente, o representado” (HEGEL, 2001: 72), isto é, ela não tem ao quê se
comparar. É necessário, pois, um outro lado cujas qualidades neguem o conteúdo
da Idéia. Este outro lado é chamado por Hegel de consciência, Ego, ou átomo.
Estes conceitos são a “negatividade infinita” da Idéia. Eles são sua finidade e
sua forma. É desta lógica dialética que Hegel vê surgir o mundo, como síntese
entre a Idéia e o Ego[3].

O mundo é composto pela Natureza e pelo
Espírito. O primeiro, o campo da necessidade, o segundo da liberdade. Enquanto
aquele se manifesta mediante a natureza; este se caracteriza, em uma primeira
instância, por meio do indivíduo.

É pela característica da liberdade que o
homem é um ser moral. Tal fato implica “em que ele cumpra os deveres de sua
posição social” (HEGEL, 2001:76), além de ter a consciência de pertencer a um
determinado “Espírito de um povo”. Pois “o indivíduo não cria o seu conteúdo,
ele é o que é, expressando tanto o conteúdo universal quanto o seu próprio
conteúdo”. (HEGEL, 2001: 77) . Ou seja, a ligação entre o subjetivo e o geral,
dá-se neste momento.

A união supracitada, segundo Hegel, só se
manifesta por meio do Estado. Esta instituição abarca todo o conjunto moral de
seus indivíduos. Só através de sua presença é possível falar em liberdade e
autoconsciência no indivíduo. Porque “a Idéia de liberdade necessariamente
implica lei e moral”. (HEGEL, 2001, 92). O Estado é o campo das objetividades.
Um espaço pontual no qual podemos assinalar e nos referir quando pensamos na
História do mundo. Enquanto o indivíduo morre, o Estado, através de
abstrações, permanece. Isto é, apesar do Estado grego morrer com o povo grego,
ele permance historicamente. Sua “morte”, deu lugar, concordando com Hegel, a
outro Estado mais perfeito, mais consciente de si e tendo seus indívíduos com o
conceito da Idéia de Liberdade mais aflorado e rígido.

Por se tratar apenas de um texto de
apontamentos sobre a referida obra de Hegel, pararemos por aqui. Entretanto,
deixaremos uma última citação de Hegel que confirma a enorme função que o
Estado tem para seu sistema filosófico: “O Estado é a realização da Liberdade,
do objetivo final absoluto, e existe por si mesmo. Todo o valor que tem o
homem, toda sua realidade espiritual, ele só a tem através do Estado.(HEGEL,
2001:90)

 

Bibliografia:
HEGEL, G.W.F. A Razão na História – Uma
Introdução geral à Filosofia da História. Trad. Beatriz Sidou. São Paulo. Ed.
Centauro. 2001


[1] Este
princípio é de que a Razão sempre esteve no mundo.

[2] Já mencionamos que a
Razão é condição lógica do mundo. No texto em questão, Razão, Deus e Idéia são
conceitos de mesmas qualidades. Portanto, Idéia é, obviamente, fundamento
lógico para criação do mundo.

[3]
Sabemos que Hegel nunca mencionou termos como tese, síntese e antítese. Porém,
para esclarecer essa árida passagem do texto, optamos por esses vocábulos tão
comuns quando se trata em explicar a dialética hegeliana.

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