Consciência - Filosofia e Ciências Humanas

HEMPEL E O CRITÉRIO EMPIRISTA DE SIGNIFICADO


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01/23/06

HEMPEL E O CRÍTERIO EMPIRISTA DE SIGNIFICADO
por Josailton Fernandes de Mendonça

Universidade do Estado do Rio Grande do Norte – UERN         

1) O problema da significação na linguagem cientifica

            Um dos fatos importantes da linguagem e mais especificamente da linguagem científica é o de que é possível construir sentenças gramaticalmente corretas mas, não inteligíveis. Um exemplo é a sentença “Meu sonho foi três vezes maior que o teu”, ou “O sábado está na cama”.

            Este tipo de sentenças chamou a atenção dos filósofos os quais a partir de então passaram a investigar a linguagem na busca de critérios que permitissem a formação de enunciados inteligíveis.

            E nestas investigações perceberam que muitos problemas que a tradição considerou como legitimamente filosóficos-científicos eram na verdade graves problemas de linguagem. Esta desconfiança levou a questionar a inteligibilidade dos enunciados de metafísica. Enunciados como “O ser é o não ser não é” ou “As propriedades tem um modo de existência que é independente de sua realização”, pareciam padecer da mesma carência de inteligibilidade que enunciados com “ O sábado está na cama”. 

            Mas se no tipo de reflexão filosófica este problema já é muito grave, dando origem a dificuldades para legitimar o pensamento filosófico como racional e lógico, o problema ganha  proporções maiores ou talvez mais visíveis na ciência.

            Com efeito, o discurso científico normalmente se apresenta como aquele que mais de perto trata de exorcizar os enigmas da realidade. Assim seu compromisso com verdade ou a falsidade a faz mais diretamente ligada ao modo de ser das coisas do mundo. Daí que os seus enunciados devem acima de tudo estar isentos dessa falta de inteligibilidade, sob pena do discurso científico não se diferenciar muito da ficção.

            A preocupação então dos filósofos recaem sobre a linguagem científica. Principalmente porque esta, muito embora ciente de seu rigor e comprometimento com a verdade ou falsidade das coisas, era repleta de conceitos os quais tornavam suas sentenças muito próximas da metafísica.

            Daí que o critério de inteligibilidade ou significatividade dos enunciados científicos deveria se pautar por uma exigência a qual garantisse a característica marcante do conhecimento científico,  qual seja, a de ser um saber sintético a priori. O critério então deveria ser empirista.

2. O Critério Empirista de Significado: A Testabilidade

            Como é sabido para o empirismo somente a experiência pode ser a fonte do conhecimento e, portanto, só no domínio da experiência perceptiva é que as sentenças têm valor científico. É neste contexto que Hempel (1970) informa que se as sentenças científicas fazem asserções cognitivamente significativas é porque tais asserções são verdadeiras ou falsas, o que as definiriam como analíticas ou contraditórias ou passíveis de serem submetidas, pelo menos potencialmente, a evidencia experimental.

            E ainda segundo Hempel, essa exigência de poder ser submetida a teste ou evidência experimental se constitui numa característica marcante das asserções cognitivamente significativas, segundo o critério empirista.

            Este critério então estabelece a testabilidade como parâmetro para a significatividade das sentenças. Isto quer dizer que uma sentença que faz asserção empírica deve ser capaz de ser conflitada com fenômenos diretamente observáveis e esses fenômenos são descritos por uma classe de sentenças chamadas de sentenças de observação. Logo o que se pode denominar de Principio da Testabilidade, irá exigir que as sentenças ditas científicas, se relacionem com uma classe de sentenças de observação. Obviamente trata-se aqui de relações lógicas (HEMPEL, 1970).

            Mas o Princípio da Testabilidade somente estará garantido se encontramos um critério exato de aplicabilidade, isto é, um modo de proceder que seja na verdade a aplicabilidade do mencionado princípio. Hempel apresenta então dois critérios, por assim dizer, clássicos, a saber, a verificabilidade e a falseabilidade.

            A verificabilidade irá dizer que uma sentença tem significado empírico se e somente se não é analítica e dela decorre logicamente uma classe finita e consistente de sentenças observacionais, as quais, diga-se de passagem, não precisam ser verdadeiras nem falsas, mas em principio testáveis (HEMPEL, 1970).

            A falseabilidade por sua vez diz que uma sentença tem significado empírico se e somente se sua negação não é analítica e dela resulta uma classe logicamente consiste de sentenças de observação.

            Um exemplo esclarecerá a aplicação do princípio segundo os dois critérios mencionados. Considere a sentença “Samuel tem Sarampo”. Segundo o Principio da Testabilidade esta sentença tem seu significado pelo fato de decorrer logicamente de uma classe de sentenças de observação tais como “Samuel tem febre”,  “Samuel tem machas púrpuras no corpo”, “Samuel tem olhos lagrimejantes”, “Samuel tem lesão de Koplic na Bochecha”. Ora, segundo o critério da verificabilidade estas sentenças de observação verificam ou constatam a verdade do enunciado “Samuel tem sarampo”.

            Mas a aplicação do mesmo princípio pode ocorrer ainda se, ao invés de se utilizar as sentenças de observação para verificar, usar para tentar falsear a sentença geral. Seria o caso de uma classe de sentenças de observação negadoras, tais como “Samuel não tem Febre”, “Samuel não tem manchas púrpuras no corpo”, “Samuel não tem olhas lagrimejantes”, “Samuel não tem lesão de Koplic na bochecha”, logo “Samuel não tem sarampo”.  Tem-se assim o Principio da Testabilidade aplicada segundo o critério da falseabilidade.

            Hempel justifica a passagem do critério da verificabilidade para a falseabilidade pelas dificuldades daquele. E a principal refere-se ao fato dos enunciados científicos serem constituídas por sentenças quantificadas universalmente ou existencialmente. Por exemplo “Todos os homens tem Sarampo”, isto é, "x (Px É Sx). A sentença exige para sua verificação uma classe infinita de sentenças de observação, isto é, Pa1, Pa2, …. Pao que contraria o princípio da testabilidade além de ser humanamente impossível, face a exigência empirista e, assim sendo,  não se pode configurar esta sentença como significativa.

            Quanto ao critério de falseabilidade, segundo Hempel (1970, p. 106), o mesmo apresenta a mesma dificuldade. Não há um número conclusivo de sentenças de observação negativas capazes de falsear uma sentença quantificada universalmente.

            Hempel (1970, p. 105-106), apresenta mais objeções aos critérios da verificabilidade e falseabilidade os quais não expus aqui. De qualquer forma quando Hempel apresenta tais críticas é para mostrar as dificuldades de aplicabilidade do Princípio da Testabilidade como parâmetro de significatividade para as sentenças científicas, particularmente através dos critérios de verificabilidade e falseamento.

  1. Análise dos Termos das Sentenças como critério de Significado

            O critério de significação de uma sentença através da análise de seus termos constituintes parece, segundo Hempel, ser uma alternativa as dificuldades do Principio da Testabilidade além de garantir o ponto de vista geral do empirismo.

            A idéia básica então é a de que é possível caracterizar uma sentença cognitivamente significante por certas condições as quais seus termos constituintes têm que satisfazer. Essas condições referem-se à exigência de ter uma referência experimental e, portanto seu significado deve ser capaz  de explicação por referência exclusiva a observações.

            Neste sentido esta abordagem exigirá que se tente especificar de antemão o vocabulário que pode ser usado para formar as sentenças. Os elementos deste vocabulário, segundo Hempel, são constituídos por termos lógicos e termos de significado empíricos. Estes últimos dizem respeito aqueles termos definíveis ou explicáveis em função dos termos de observação, os quais podem ser ou predicados de observação (azul, quente, etc.) ou  nomes de objetos físicos ( água, vulcão, etc.).

            O problema, no entanto aparece sob a exigência da conexão lógica, a partir do qual se construirá um adequado critério de significatividade, entre os termos empiricamente significativos e os termos observacionais. Aqui Hempel apresenta as soluções propostas por Carnap.

De fato para Carnap qualquer termo que tenha significado empírico deve ser definível em função dos termos de observação. Assim por exemplo na sentença “x é solúvel na água” o termo “solúvel” tem significado empírico se e somente se quando x for colocado na água x se dissolva efetivamente. Mas  segundo Hempel esse esforço é altamente restritivo  e muitos termos importantes da linguagem científica não poderiam ter explicitamente definidos.

            Como é o caso dos construtos teóricos os quais são comuns nas teorias científicas. Termos como quark, anti-matéria, ribonucléico, e outros. Neste caso então Hempel afirma que ao se considerar as teorias como sistemas dedutivos axiomatizados e, portanto com um vocabulário constituído de termos básicos, termos definidos e termos lógicos, com seus postulados, a teoria pode ser desenvolvida formalmente sem qualquer consideração do significado empírico dos seus termos extra-lógicos, que são os construtos teóricos da teoria.

            Contudo esse sistema formal somente se constituirá uma teoria científica se se dispuser de uma interpretação empírica de certos termos ou sentenças.

            Neste caso Hempel apresenta e comenta dois critérios que tal sistema formal deve satisfazer em nome de sua cientificidade: O primeiro deles é o de que “um sistema teórico é cognitivamente significante se somente se é parcialmente interpretado de modo que nenhuma de suas sentenças primitivas (postulados) seja isolada. Lembrando que ele denomina de sentenças isoladas aquelas que são perfeitamente dispensáveis na dedução. Mas considerando as limitações desta exigência, Hempel propõe um novo critério de sentido: o critério de interpretação parcial.

            Por esse critério uma teoria T portadora de um vocabulário V (termos descritivos da linguagem de T) e de um vocabulário W formado pelos termos previamente conhecidos que se constituem numa base para as observações relativas ao vocabulário V. Então um sistema de interpretação para a teoria T consiste de um conjunto de proposições compatíveis com T de tal modo que esse conjunto não contenha nenhum termos descritivo além daqueles fornecidos pelos vocabulários  de V e W, e ainda que os termos de V e W ocorra essencialmente em T.

            Com efeito, num sistema como esse estabelece uma conexão entre os termos teóricos e os termos empíricos sem precisar traduzir o primeiro em função dos últimos e, portanto não permite que se substitua uma proposição teórica por uma proposição empírica nem tampouco substituir um termo teórico por uma expressão de observação. Naturalmente, lembra Hempel, que uma tal teoria não pode ter sentenças isoladas, já que estas não contribuem nem para a explicação nem a predição que a teoria quer fornecer.

            A idéia de Hempel, embora proveitosa em vários aspectos ainda é insuficiente para vencer todos os problemas, mas já isto é outra história.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

LADRIÉRE, J. Filosofia e Práxis Científica. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1978.

ALSTON, W.  Filosofia Del Lenguaje. Madrid: Alinza Editorial, 1974

HEMPEL, C.G. Empiricist Criteria of Cognitive Significance: Problems and Changes. In: Aspects of Scientific Explanation and Other Essays in the Philosophy of Science. New York. The Free Press, 1970, p. 101-122. 

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