Nietzsche, o último filósofo




NIETZSCHE – "O ÚLTIMO FILÓSOFO"


por Vera Lúcia Vassouras

   Gênio (propositadamente) incompreendido pela humanidade.

   Provavelmente poucos estudantes de filosofia e até mesmo as "autoridades" denominadas filósofos conheçam sua obra. O pensador, vulgarmente conhecido como o "Anticristo" apenas por ter escrito uma obra com tal nome, aliás, desconhecida pelos seus críticos mais vorazes, traz, em seu prefácio, as justificativas que alimentaram as aves de rapina:

   "Este livro pertence àqueles leitores que são menos numerosos. Talvez até ainda não exista nenhum deles. Poder ser os que compreendem o meu Zaratustra: como me seria possível confundir-me com esses a quem, já hoje, se presta ouvidos? Só o depois de amanhã me pertence. Há alguns homens que nascem postumamente".

   É preciso neste momento lutar com todas as forças da vontade para não mergulhar na imensidão das verdades contidas no livro "O anticristo – imprecação contra o cristianismo".

   No trabalho que nos propomos apresentar parcialmente aos buscadores de conhecimento, o objeto principal do pensador é ser útil àqueles que pretendem entender o mundo e suas expressões e o lugar do filósofo diante desta complexidade. Ao mesmo tempo, busca desmistificar a farsa do racionalismo e do conceitualismo ritualístico. Escrito no século XIX, sua atualidade é constrangedora. Em notas para o prefácio, escreve:

   "Neste livro não tomo em consideração os eruditos contemporâneos e dou assim a impressão de os colocar entre o número de coisas indiferentes. Mas se se quer refletir tranqüilamente sobre coisas sérias, não se deve ser incomodado por nenhum espetáculo repugnante. Neste momento volto, contra a minha vontade, os olhos para eles para lhes dizer que não me são indiferentes, mas que gostaria de todo o coração que o fossem.

   Faço uma tentativa para ser útil àqueles que merecem oportunamente e seriamente ser iniciados no estudo da filosofia. Que esta tentativa tenha tido ou não êxito, sei no entanto, perfeitamente, que é necessário ultrapassá-la, e é exatamente o que lhe desejo, para o bem desta filosofia, o ser imitada e ultrapassada.

   A esses é necessário aconselhar, por boas razões, que se não submetam às directivas de alguns universitários, filósofos de profissão…

   Eles devem, antes de mais, desaprender toda a espécie de patranhas, e tornarem-se simples e naturais.

   Perigo de cair em mãos erradas."

   Ao contrário do que seus críticos pretendem fazer crer, os são como flechas que se dirigem, certeiras, ao coração do homem, seu espírito, sua razão. É uma esperança na humanidade, muito embora criminosos apropriem-se de frases soltas como esta: "Há que ser superior à humanidade pela energia, pela elevação da alma…pelo desprezo…", para tentar afastar o iniciante, claudicante e coberto pelos véus da mentira, da exuberância, do estilo, da singularidade, da inteligência e, de certa forma, do sofrimento que nos acomete ao aproximarmo-nos de Nietzsche. Para ele, o filósofo "deve simpatizar o mais profundamente possível com a dor universal". Afirma constantemente que sua escrita é de natureza "viril" e não vale nada aos "castrados".

   É de Nietzsche esta frase, também contida no "Livro do filósofo", cuja atualidade faz corar até mesmo as máscaras dos falsários, cuja produção inter-lectual aprisionou-se, longe das realidades cotidianas, afastados da natureza, enrijecidos, apoiando, pela apatia, a violência que dissemina povos e civilizações:

   "Sentimo-nos grandes quando ouvimos falar de um homem cuja vida dependia de uma mentira e que contudo não mentiu – ainda mais quando um homem de Estado, pela preocupação com a veracidade, destrói um império".

   Permito-me sugerir ao leitor que, pela primeira vez depare-se com Nietzshe, se possui vontade de conhecimento, não se deixe levar pelas "excitações" nervosas, pois, tal como a sede, na atualidade, é artificial, engendrada na repetição psicótica dos formadores de opinião. No texto, o leitor observará que o pensador possui um conhecimento raro até mesmo numa das mais produtivas épocas de criação filosófica da humanidade. Portanto, conhecer os pensamentos de Nietzsche é, em certa medida, conhecer-se a si mesmo, ainda que seja concientizar-se, com desgosto, da própria ignorância. Ler Nietzsche é um convite ao conhecimento, à busca da verdade, à resistência contra a passividade, enfim, uma possibilidade de fuga da prisão intelectual que hierarquiza os homens, dignifica a fraude, depõe contra a racionalidade.

   Àqueles que já conhecem alguns textos de Nietzsche é bom estarem atentos: toda tradução tem em si um pouco de fraude, um pouco de ignorância e muito de "ideologismos". Ademais, obrigados a nos submeter a traduções, que nos limitemos aos tradutores, afastando a crítica e a fraude do tipo: "Como entender…", "Como ler…" ou as compilações dos "especialistas". Há que se ler Nietzsche em suas próprias palavras, única possibilidade de aproximação intuitiva, berço e caminho da verdade.

   Com a palavra, Nietzsche:

   "Num ponto qualquer afastado do universo que se expande no brilho de inúmeráveis sistemas solares, houve uma vez uma estrela na qual animais inteligentes inventaram o conhecimento. Foi o minuto mais arrogante e mais enganoso da "história universal": mas foi apenas um minuto. Depois de alguns suspiros da natureza, a estrela congelou e os animais inteligentes morreram. – Esta é a fábula que alguém poderia inventar, sem conseguir, contudo, ilustrar que lamentável excepção, vaga, fugitiva e vã, o intelecto humano constitue no seio da natureza. Houve eternidades em que ele não existiu; e se o mesmo acontecesse agora, nada se passaria. Pois não há para este intelecto uma missão mais vasta que exceda a vida humana. É apenas humano e só tem o seu possuidor e produtor para o tomar tão pateticamente como se os eixos do mundo se movessem à sua volta. Mas se nos pudéssemos entender com a mosca, conviríamos que também ela evolui no ar com o mesmo pathos e sente voar nela o centro deste mundo. Não existe nada por pior ou mais insignificante que seja na natureza que, por um pequeno sopro desta força de conhecer, não fique inchado como uma odre; e da mesma maneira que todo o moço de fretes quer ter o seu admirador, também o homem mais orgulhoso, o filósofo, pensa que deve ter de todos os lados os olhos do universo apontados com um telescópio na sua acção e no seu pensamento.

   É notável que se o intelecto a produzir este estado de facto, uma vez que apenas foi concedido aos seres mais desafortunados, mais efêmeros e mais delicados, para manter a sua existência durante um minuto; o intelecto é esse excesso, sem o qual teriam todas as possibilidades de se salvar tão depressa como o filho de Lessing. Este orgulho ligado ao conhecer e ao sentir, venda atada aos olhos e aos sentidos dos homens, ilude-os quanto ao valor da existência dirigindo ele próprio sobre o conhecer a mais lisonjeira apreciação. O seu efeito mais geral é a ilusão, mas os efeitos mais particulares têm também alguma coisa deste mesmo carácter.

   Enquanto meio de conservação do indivíduo, o intelecto desenvolve suas forças principais na dissimulação; esta é, com efeito, o meio pelo qual os indivíduos mais fracos, menos robustos, subsistem, na medida em que lhes é recusada a possibilidade da luta pela existência com os cornos ou os dentes de um predador. Com o homem, esta arte da dissimulação atinge o auge: a ilusão, a lisonja, a mentira, o engano, as intrigas, os ares de importância, o falso brilho, o uso da máscara, o véu da convenção, a comédia para os outros e para si próprio, em resumo: o circo perpétuo da lisonja, são de tal forma a regra e a lei, que quase nada é mais inconcebível nos homens do que um instinto honesto e puro de verdade. Estão profundamente mergulhados nas ilusões e nos sonhos, os olhos só deslizam pelas superfícies das coisas, e ai vêem "formas", a sua sensação não conduz à verdade, mas apenas se contenta em receber excitações e tocar como sobre um teclado virado de costas para as coisas. Além disso, durante uma vida, o homem deixa-se à noite enganar no sonho sem que o seu sentido moral procure alguma vez por impedí-lo disso: quando deve haver homens que através da força de vontade, combateram no ressonar. Para falar inteiramente a verdade, que sabe o homem de si próprio? E de qualquer maneira, poderia ele aperceber-se integralmente dele, tal como é, como se estivesse exposto numa vitrine iluminada? Não lhe esconderá a natureza, a maior parte das coisas, mesmo sobre o seu corpo, com a finalidade de o manter afastado das dobras dos seus intestinos, da corrente rápida do seu sangue, das vibrações complexas das suas fibras, com uma consciência orgulhosa e quimérica? Ela atirou fora a chave: infortúnio para a curiosidade fatal que gostaria de olhar através de uma fenda, bem longe do cantinho da consciência e pressentiria então que é no que é impiedoso, ávido, insaciável, assassino, que assenta o homem na indiferença da sua ignorância, apegado ao sonho de uma certa forma como sobre as costas de um tigre. De que lugar, nesta constelação, poderia vir ao mundo o instinto da verdade?

   Na medida em que, face aos outros indivíduos, o indivíduo se quer conservar, a maior parte das vezes é para a dissimulação que numa situação normal utiliza o intelecto: mas como o homem, por tédio e necessidade simultaneamente, quer existir socialmente e gregariamente, tem necessidade de concluir a paz, e procura de acordo com isto, que pelo menos desapareça do seu mundo o mais grosseiro bellum omnium contra omnes. Esta conclusão da paz traz com ela qualquer coisa que se assemelha ao primeiro passo para a obtenção deste enigmático instinto da verdade. Quer dizer que está agora fixado no que doravante deverá ser "verdade", o que quer dizer que se encontrou uma designação das coisas uniformemente válida e obrigatória, e a legislação da linguagem fornece aqui, pela primeira vez, o contraste entre a verdade e a mentira. O mentiroso faz uso das designações válidas, as palavras para fazer com que o irreal apareça como real: diz, por exemplo, "sou rico", quando para o seu estado, "pobre" seria a designação correcta. Dá, assim, outro uso às convenções firmes por meio de substituições voluntárias ou de inversões de nomes. Se ele o fizer de uma forma interessada e, sobretudo, prejudicial, a sociedade nunca mais terá confiança nele e então, excluí-lo-á. Não é tanto o facto de serem enganados que aborrece mais os homens, mas o facto de sofrerem danos em virtude dos mesmos logros: no fundo, a este nível, eles não odeiam portanto a ilusão, mas as conseqüências desagradáveis e hostis de certas espécies de ilusão. É apenas num sentido tão restrito como este que o homem quer a verdade, as que conservam a vida; é indiferente em relação ao conhecimento puro e sem conseqüências e manifesta uma atitude hostil em relação às verdades prejudiciais e destrutivas. E além do mais: o que é que são estas convenções da linguagem? São talvez testemunhos do conhecimento, do sentido da verdade? As designações e as coisas coincidem? A linguagem é a expressão adequada de todas as realidades?

   É apenas graças à sua capacidade de esquecimento que o homem pode chegar a crer que possui uma "verdade" no grau que indico. Se não se quiser contentar com a verdade na forma de tautologia, isto é, com invólucros sem conteúdo, dirigirá eternamente ilusões contra verdades. O que é uma palavra? A representação sonora de uma excitação nervosa. Mas concluir de uma excitação nervosa para uma causa exterior a nós, é já o resultado de uma aplicação falsa e injustificada do princípio da razão. Como teríamos direito, se só a verdade tivesse sido determinante na gênese da linguagem, e o ponto de vista da certeza nas designações, como teríamos, pois, o direito de dizer: a pedra é dura: como se "dura" nos fosse conhecido de outra forma, e não só como excitação totalmente subjetiva. Classificamos as coisas segundo gêneros, designamos o pão como masculino, a planta como feminino: que transposições arbitrárias! Como nos afastamos do cânone da certeza por um vôo tão rápido! Falamos de uma "serpente": a designação apenas atinge o movimento de torsão e sendo assim também poderia convir ao verme. Que delimitações arbitrárias! Quantas preferências parciais tanto por esta propriedade de uma coisa, tanto por outra! Comparadas entre elas as diferentes línguas mostram que pelas palavras nunca conseguimos chegar à verdade, nem a uma expressão adequada: a não ser assim, não existiriam tão numerosas línguas. A "coisa em si"(que seria precisamente a verdade pura, sem conseqüências), mesmo para quem desse forma à língua, é totalmente inatingível e não vale portanto, os esforços que exigiriam. Só designa as relações das coisas aos homens com a ajuda das metáforas mais astuciosas para a sua expressão. Primeiramente transpor uma excitação nervosa para uma imagem! Primeira metáfora. A imagem de novo transformada num som articulado! Segunda metáfora! E cada vez um salto completo de uma esfera para outra esfera nova e totalmente diferente. Podemos imaginar um homem que seja completamente surdo e que nunca tenha em toda a vida tido a sensação sonora ou musical: espantando-se com as figuras acústicas de Chladni na areia, encontra a causa destas no estremecimento das cordas e julgará seguidamente que tem que saber o que é que os homens chamam "som", e assim acontece com todos nós relativamente à linguagem. Acreditamos que sabemos alguma coisa das próprias coisas quando falamos de árvores, de cores, de neve e de flores e, no entanto, só temos metáforas das coisas, que não correspondem de forma alguma às entidades originais. Tal como o som enquanto figura na areia, o X enigmático da coisa em si é tomado uma vez como excitação nervosa, depois como imagem, e enfim como som articulado. Em todo o caso não existe lógica na proveniência da linguagem, e todo o material no interior do qual e com o qual o homem da verdade, o cientista, o filósofo, trabalha e assim constrói, se não cai do céu, podemos contudo estar absolutamente certos que não provém também da essência das coisas.

   Pensemos ainda, particularmente, na formação dos conceitos. Cada palavra torna-se, imediatamente, conceito pelo facto de, justamente, não servir para a experiência original, única, absolutamente individualizada, à qual deve o seu nascimento, isto é, como recordação, mas deve simultaneamente servir para inumeráveis experiências, mais ou menos análogas, ou seja, rigorosamente falando, nunca idênticas, e só pode pois convir a casos diferentes. Todo o conceito nasce da identificação do não idêntico. Tão exactamente como uma folha nunca é idêntica a outra, assim também o conceito de folha foi formado graças ao abandono deliberado destas diferenças individuais, graças ao esquecimento das características, e acorda então a representação, como se houvesse na natureza, fora das folhas, alguma coisa que fosse "a coisa", uma espécie de forma original segundo a qual todas as folhas seriam tecidas, desenhadas, rodeadas, coloridas, onduladas, pintadas, mas por uma mão inábil, ao ponto de nenhum exemplar tivesse sido correctamente executado como a cópia fiel da forma original. Chamamos a um homem "honesto". Porquê neste momento agiu tão honestamente? perguntamo-nos. E temos o costume de responder: por causa de sua honestidade. A honestidade! Isto significa de novo: a folha é a causa das folhas. Não sabemos nada de uma qualidade essencial que se chamasse "honestidade", mas conhecemos bem numerosas acções, individualizadas, e consequentemente diferentes, a que chamamos idênticas graças ao abandono do diferente, e designamos agora como acções honestas; em último lugar, formulamos a partir delas uma qualidade oculta com o nome "honestidade". A omissão do individual e do real dá-nos o conceito como nos dá a forma; onde pelo contrário a natureza não conhece formas ou conceitos, e consequentemente gêneros, mas apenas um X, inacessível e indefinível para nós. Pois a nossa antítese do indivíduo e do gênero também é antropomórfica e não provém da essência das coisas: o que seria uma afirmação dogmática e, desta forma, tão improvável como a sua contrária.

   O que é então a verdade? Uma multidão movente de metáforas, de metonímias, de antropomorfismos, em resumo, um conjunto de relações humanas poeticamente e retoricamente erguidas, transpostas, enfeitadas, e que depois de um longo uso, parecem a um povo firmes, canoniais, e constrangedoras: as verdades são ilusões que nós esquecemos que o são, metáforas que foram usadas e que perderam a sua força sensível, moedas que perderam o seu cunho e que a partir de então entram em consideração, já não como moeda, mas apenas como metal.

   Ainda não sabemos de onde nos vem o instinto de verdade: porque até agora só ouvimos falar da obrigação que a sociedade impõe para existir: ser verídico, isto é, empregar as metáforas usuais: logo em termos de moral ouvimos falar de uma obrigação de mentir segundo uma convenção firme, de mentir gregariamente num estilo constrangente para todos. O homem seguramente esquece que as coisas se passam assim no que lhe diz respeito; mente, pois inconscientemente da maneira designada e segundo os costumes centenários – e, precisamente graças a esta inconsciência e a este esquecimento, chega ao sentimento da verdade. Deste sentimento de ser obrigado a designar uma como "vermelha", uma outra como "fria", uma outra como "muda", começa a despertar uma tendência moral para a verdade: em contraste com o mentiroso em que ninguém tem confiança, que todos excluem, o homem demonstra a ele próprio o que a verdade tem de honroso, de confiante, de útil. Como ser "razoável", ele coloca agora a sua acção sob a dominação das abstrações; deixa de sofrer por ser arrastado por impressões súbitas, por intuições; generaliza todas estas impressões em conceitos descoloridos e mais frios com a finalidade de ligar a estes o comportamento da sua vida e da sua acção. Tudo o que distingue o homem do animal depende desta capacidade de fazer volatizar as metáforas intuitivas num esquema, logo dissolver uma imagem num conceito. No domínio destes esquemas é possível uma coisa que nunca poderia ser conseguida por meio das primeiras impressões intuitivas: construir uma ordem piramidal segundo castas e graus, criar um mundo novo de leis, de privilégios, de subordinações, de delimitações, mundo que doravante se opõe ao outro mundo, o das primeiras impressões, como sendo o que há de mais firme, de mais geral, de mais conhecido, de mais humano, e em virtude disto, como o que é regulador e imperativo. Enquanto que cada metáfora da intuição é individual e sem igual, e por ser assim, sabe sempre fugir da toda dominação, o grande edifício dos conceitos mostra a regularidade rígida de um columbário romano e exala na lógica esta severidade e esta frieza que é própria das matemáticas. Quem estiver impregnado desta frieza dificilmente acreditará que o conceito, posto a nú, é octagonal como um dado, como este, inamovível, não é outra coisa senão o resíduo de uma metáfora, e que a ilusão da transposição artística de uma excitação nervosa em imagens, se não é a mãe, é contudo a avó de todo o conceito. No jogo de dados dos conceitos, chamamos "verdades" ao facto de utilizar cada dado segundo a sua designação, ao facto de contar com precisão os seus pontos, ao facto de formar rúbricas correctas e de nunca pecar contra o ordem de castas e a série de classes. Tal como os Romanos e os Etruscos dividiam o céu por meio de rígidas linhas matemáticas e, num espaço delimitado como se fosse um templum, conjuravam um deus, assim cada povo tem sobre ele um tal céu de conceitos matematicamente repartidos e, sob a exigência da verdade, pensa doravante, que todo o deus conceptual apenas dever ser procurado na sua esfera. É necessário aqui, admirar o homem em virtude de ser um gênio poderoso da arquitetura que consegue erigir, sobre fundamentos moventes e de uma certa forma sobre a água corrente, uma cúpula intelectual infinitamente complicada: – na verdade para encontrar um ponto de apoio sobre tais fundamentos, é necessário que seja uma construção como feita de teia de aranha, suficientemente fina para ser transportada com as ondas, suficientemente sólida para não ser dispersada pelo sopro do mais leve vento. Em virtude de ser um gênio da arquitectura, o homem eleva-se muito acima da abelha: esta constrói com a cera que recolhe da natureza, ele com a matéria bem mais frágil dos conceitos que apenas deve fabricar a partir dele próprio. Aqui é necessário admirá-lo bastante – mas não por causa do seu instinto de verdade, nem pelo puro conhecimento das coisas. Se alguém esconde alguma coisa atrás de uma moita, a procura nesse preciso local e a encontra, nada há de louvável nesta pesquisa e nesta descoberta: no entanto, acontece o mesmo em relação à procura e à descoberta da "verdade" no domínio da razão. Quando emprego a definição de mamífero e declaro, depois de ter observado um camelo, "eis um mamífero", uma verdade foi posta à luz do dia, mas tem, contudo, um valor limitado, quero dizer, que é inteiramente antropomórfica e que não contém um único ponto que seja "verdade em si", real e universalmente válida, abstraindo o homem. Aquele que procura tais verdades no fundo só procura a metamorfose do mundo nos homens, aspira a uma compreensão do mundo enquanto coisa humana, e obtém na melhor das hipóteses, o sentimento de uma assimilação. De uma forma semelhante ao astrólogo que observava as estrelas ao serviço dos homens e em conexão com a sua felicidade ou infelicidade, um tal investigador considera multiplicada de uma imagem original, a do homem. O seu método consiste em tomar o homem como medida de todas as coisas: mas assim parte do erro de acreditar que estas coisas existem como puros objectos diante dele. Esquece-se pois as metáforas originais da intuição enquanto metáforas e toma-as pelas próprias coisas.

   Não é senão pelo esquecimento deste mundo primitivo de metáforas, não é senão pela solidificação do que originariamente era uma massa de imagens a surgir, numa vaga ardente, da capacidade original de imaginação humana, não é senão pela crença de que este sol, esta janela, esta mesa, é uma verdade em si, em resumo, não é senão pelo facto de o homem se esquecer de si enquanto sujeito, e enquanto sujeito da criação artística, que vive com algum repouso, alguma segurança, e alguma coerência: se pudesse sair um só instante dos muros da prisão desta crença, estaria imediatamente acabada a sua "consciência de si". Já lhe custa bastante reconhecer que o insecto e o pássaro se apercebem de um mundo completamente diferente do do homem e que a questão de saber qual das duas percepções do mundo é a mais justa, é uma questão completamente absurda, uma vez que para poder ser respondida deveríamos já medir com a medida da percepção justa, ou seja, com uma medida "não existente". Mas parece-me, sobretudo, que a "percepção justa"- significaria: a expressão adequada de um objeto no sujeito – um absurdo contraditório: porque entre duas esferas absolutamente diferentes, como o sujeito e o objeto, não existe causalidade, nem exatidão, mas uma relação estética, isto é, uma transposição insinuante, uma tradução balbuciante numa língua totalmente estranha; para o que, em todo o caso, seria necessário uma esfera e uma força intermediárias construindo e imaginando livremente. A palavra "fenômeno" contém numerosas seduções, e é por isso que a evito o mais possível: pois não é verdade que a essência das coisas apareça no mundo empírico. Um pintor ao qual faltassem as mãos e que quisesse exprimir cantando a imagem que tem à sua frente, revelaria mais ainda por causa desta troca de esferas, que o mundo empírico não revela à essência das coisas mesmas. Mesmo a relação entre a excitação nervosa e a imagem produzida não é em si nada de necessário: mas quando a mesma imagem é produzida um milhão de vezes, que foi herdada de numerosas gerações de homens e que enfim aparece no gênero humano sempre na mesma ocasião, adquire finalmente para o homem a mesma significação que teria se fosse a única imagem necessária e como se esta relação entre a excitação nervosa original e a imagem produzida fosse uma estreita relação de causalidade; da mesma forma um sonho eternamente repetido seria sentido e julgado realidade pura. Mas a solidificação de uma metáfora não garante absolutamente nada no que diz respeito à necessidade e à autorização exclusiva desta metáfora.

   Todo o homem a quem são familiares tais considerações certamente sentiu uma profunda desconfiança em relação a todo o idealismo deste tipo cada vez que teve ocasião de se convencer claramente da eterna conseqüência, da omnipresença e da infalibilidade das leis da natureza; e tirou a conclusão: aqui, tanto quanto possamos penetrar, à altitute do mundo telescópio, e na profundidade do mundo microscópio, tudo é tão certo, comprido, infinito, conforme as leis e sem lacuna; a ciência terá de escavar eternamente com sucesso, este poço sem fundo e tudo o que se encontrar concordará e nada se contradirá. Como isto se parece pouco com um produto da imaginação: se fosse, deixaria advinhar num aspecto qualquer a aparência e a irrealidade. É preciso dizer contra isto: se tivéssemos, cada um por si, uma sensação de natureza diferente, nós próprios poderíamos percepcionar tanto como pássaro, como verme, planta, ou então se um de nós visse a mesma excitação como vermelha, outro como azul, e se um terceiro a ouvisse como som, ninguém falaria então de uma tal legalidade da natureza, mas apenas a conceberia como um criação altamente subjectiva. Depois: em geral, o que é para nós uma lei natural? Não a conhecemos em si, mas só pelos seus efeitos, isto é, nas suas relações com as outras leis da natureza, que por sua vez só são conhecidas por nós como conjuntos de relações. Logo, todas estas relações não fazem mais do que reenviar constantemente de uma para outra e, no que respeita à sua essência, são para nós completamente incompreensíveis; só aqueles com que contribuimos, o espaço, o tempo, isto é, relações de sucessão e de números, nos são realmente conhecidos. Mas tudo o que é maravilhoso e que justamente olhamos perplexos nas leis da natureza, o que comanda a nossa explicação e nos podia conduzir à desconfiança para com o idealismo, apenas se encontra no rigor único da matemática, na inviolabilidade única das representações do espaço e do tempo. Ora, nós produzimos estas em nós e fora de nós com a mesma necessidade com que a aranha tece sua teia; se estamos constrangidos a conceber todas as coisas apenas sob essas formas: não é de espantar que só aprendamos exactamente essas formas: pois todas devem conter as leis do número e o número é precisamente o que há de mais espantoso nas coisas. Toda a legalidade de que nos impõe no curso dos astros e no processo químico coincide no fundo com estas propriedades que nós próprios concedemos às coisas, de forma que nos impomos a elas justamente por este facto. Daqui se vê, sem dúvida nenhuma, que esta formação artística de metáforas, pela qual em nós começa toda a sensação, pressupõe já estas formas e está assim realizada nelas: é só a partir da firme perseverança destas formas originais que pode ser explicada a possibilidade segundo a qual é em seguida possível a constituição de uma construção de conceitos a partir das próprias metáforas. Esta construção é uma imitação das relações do tempo, do espaço e do número no terreno das metáforas.

   2. Com vista à construção dos conceitos, trabalha originalmente como vimos, a linguagem, e mais tarde, a ciência. Tal como a abelha trabalha simultaneamente na construção dos favos e no preenchimento destes com mel, também a ciência trabalha sem cessar neste grande columbário dos conceitos, no sepulcro das intuições, e constrói incessantemente degraus novos e mais altos, dá forma,   limpa, renova os favos velhos, e esforça-se sobretudo por encher esta frágil armação monstruosamente alteada e aí arrumar todo o mundo empírico, ou seja, o mundo antropomórfico. Quando até já o homem de acção liga a sua vida à razão e aos conceitos para não ser levado pela corrente e para não se sentir perdido, o cientista constrói a sua cabana junto à torre da ciência para poder ajudá-la e para encontrar proteção para si próprio. E necessita desta proteção porque existem forças temíveis que continuamente exercem pressão sobre ele e que se opõem à "verdade" científica, "verdades" de uma espécie totalmente diferente, dos tipos mais heterogêneos.

   Este instinto que leva à formação de metáforas, este instinto fundamental do homem de que não nos podemos abstrair nem por um instante, pois ao fazê-lo estaríamos a abstrair o próprio homem, este instinto, pelo facto de, a partir de suas produções volatizadas, os conceitos, se construir para ele um mundo novo, regular e rígido como uma fortaleza, nem por isso fica verdadeiramente submetido, mas apenas domado. Procura um novo domínio para a sua actividade e uma outra forma de escoamento que encontra no mito e sobretudo na arte. Confunde continuamente as rúbricas e as células dos conceitos, instaurando novas transposições, metáforas, metonímias; mostra continuamente o desejo de dar a este mundo do homem tão confusamente desperto, tão irregular, tão incoerente, uma forma cheia de encanto e eternamente nova como se fosse um mundo de sonho. Em si, o homem desperto só tem consciência disso através da trama rígida e regular dos conceitos; é exactamente por isso que chega a acreditar que está a sonhar quando o tecido dos conceitos é despedaçado pela arte. Pascal tem razão ao afirmar que se todas as noites sonhássemos o mesmo sonho ficaríamos tão preocupados como com as coisas com que efetivamente lidamos todos os dias; "se um operário estivesse seguro de sonhar todas as noites que era um rei, creio", diz Pascal, "que seria quase tão feliz como um rei que sonhasse todas as noites, durante doze horas, que era operário". O dia activo de um povo estimulado pelo mito, por exemplo o dos Gregos antigos, é, com efeito, tal como acontece no mito pelo prodígio agindo continuamente, mais análogo ao sonho do que ao dia do pensador desencantado pela ciência. Quando cada árvore pode falar como uma ninfa ou quando a própria deusa Atenas, se mostra repentinamente, enquanto conduz pelos mercados de Atenas uma bela parelha, em companhia de Pisístrato – era no que acreditava o honesto homem de Atenas -, então a todo o momento, tal como no sonho, tudo é possível, e toda a natureza é uma provocação para o homem como se fosse a mascarada dos deuses que se tivessem tornado um jogo de mistificação dos homens sob todas as formas.

   Mas é próprio do homem uma tendência invencível para se deixar enganar e fica como que ébrio de felicidade quando a rapsódia lhe conta, como se fossem verdadeiros, contos épicos, ou então quando em cena, o actor desempenha o papel de rei de uma forma mais real do que acontece na realidade. O intelecto, esse mestre da dissimulação é livre e libertado do trabalho de escravo tanto tempo quanto possa enganar sem prejuízo e celebra então as saturnais. Nunca está mais exuberante, mais rico, mais orgulhoso, mais ágil ou mais temerário: com um verdadeiro prazer criador, lança metáforas, confunde e desloca os limites das abstracções, de tal forma que, por exemplo, designa a corrente como o caminho movediço que leva o homem aonde ele vai habitualmente. Atirou para bem longe o sinal da servidão: normalmente ocupado com a actividade morna de mostrar a caminho e os instrumentos a um pobre indivíduo que aspire à existência, e como um servidor, buscando presas e despojos para o dono, transformou-se em dono e pode agora permitir-se apagar do rosto a expressão da indigência. Tudo o que doravante faz, traz em si, por comparação com a acção passada, a dissimulação, tal como a acção anterior trazia em si a distorção. Copia a vida humana, toma-a contudo por uma coisa boa e aparenta estar satisfeito com ela. Esta armação com as suas tábuas monstruosas dos conceitos aos quais o necessitado se agarra durante toda a vida, para se salvar, é, para o intelecto libertado apenas um andaime e um brinquedo para as suas obras mais audaciosas; e quando o parte, e ele fica feito em bocados, torna a compô-lo, ironicamente, colocando mais próximo o que é mais diferente, colocando mais separado o que é mais semelhante, manifestando, assim, que não tem necessidade do expediente da indigência, e que doravante não é conduzido por conceitos, mas por intuições. Destas intuições não há nenhum caminho regular que vá dar ao país dos esquemas fantomáticos, das abstracções: a palavra não é feita para elas, o homem torna-se mudo quando as vê, ou então só fala através de metáforas proibidas e uniões conceituais inéditas para responder de uma forma criadora, pelo menos por meio da destruição e logro das antigas barreiras conceptuais, imbuído da poderosa intuição do presente.

   Há épocas em que o homem racional e o homem intuitivo se mantém um ao lado do outro, um por medo da intuição, o outro desdenhando a abstracção; e o último é quase tão irracional como o primeiro é insensível à arte. Ambos desejam dominar a vida: este sabendo fazer face às necessidades mais importantes através da previdência, da prudência, da regularidade; aquele, como herói "demasiado alegre", não se dando conta das necessidades e só tomando por real a vida disfarçada em aparência e beleza. Onde, tal como na Grécia antiga, o homem intuitivo dirige as armas com mais força e mais vitoriosamente do que o adversário, a formação de uma civilização é mais favorável, a dominação da arte pode-se fundar na vida; esta dissimulação, este renegar a indigência, esta explosão das intuições metafóricas e sobretudo esta imediatez da ilusão acompanham todas as exteriorizações de uma tal vida. Nem a casa, nem o andar, nem a roupa, nada trai o facto de serem atingidos pela necessidade; parece que neles se devia exprimir uma felicidade sublime, uma serenidade olímpica e de uma certa maneira um jogo com aquilo que é sério. Enquanto que o homem conduzido por conceitos e por abstracções só se defende contra a infelicidade, sem mesmo conseguir a felicidade a partir destas abstracções, enquanto aspira ser o mais rapidamente possível libertado do sofrimento, pelo contrário, colocado no coração de uma cultura, o homem intuitivo recolhe imediatamente, a partir das intuições, juntamente com a defesa contra o mal, uma iluminação de brilho contínuo, um desabrochar, uma redenção. É verdade que quando sofre, sofre mais violentamente; sofre mesmo mais freqüentemente porque não consegue chegar a tirar lições da experiência, e assim recai continuamente na mesma armadilha. É tão razoável na dor como na felicidade, farta-se de gritar e fica-se sem consolação. Perante a mesma desgraça, como é diferente o estóico, instruído pela experiência e martirizando-se através dos conceitos! Ele, que normalmente só procura sinceridade, verdade, liberdade diante das ilusões e protecção contra as surpresas enganosas, usa agora na infelicidade a obra-prima da dissimulação, tal como o outro na felicidade; não possui um rosto humano móvel e animado, mas traz, de uma certa forma, uma máscara com traços dignamente proporcionados, não grita e não altera o som da voz: Quando uma tempestade se abate sobre ele, encolhe-se no casado e afasta-se com um passo lento sob o aguaceiro"

   Extratos "O livro do filósofo" – Friedrich Nietzsche
Título original: Das Philosophenbuch (theoretischestudien) – tradução – Ana Lobo – Rés-Editora Ltda. (Portugal)

    


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