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Ilíada de Homero – Canto X




Ilíada de Homero – Canto X
Versão de Odorico Mendes para o português

ARGUMENTO DO LIVRO X


Agamémnon vela enquanto os Gregos dormem. — Mcnelau vem ter
com ele e oferece seus serviços. — Agamémnon dá suas instruções a
seu irmão, e os dois Atridas vão acordar os principais chefes. — Conver-
sação entre Nestor e Agamémnon. — Despertados os chefes, reúnem-se
em conselho. — Nestor propõe mandar um espião ao campo inimigo.
— Vão Diomedes e Ulisses. — De sua parte Heitor reúne os chefes
Troianos e promete um esplêndido prêmio a quem vá espiar o campo
dos Gregos. — Vai Dólon. — Ulisses e Diomedes, vendo-o, o prendem.
— Dólon explica a situação respectiva dos diferentes povos do exército
Troiano, e é morto por Diomedes. — Chegados às tendas dos Traces,
Diomedes mata doze guerreiros e seu rei Ileso, que dormiam, enquanto
que Ulisses apodera-se dos cavalos. — A conselho de Minerva, Diomedes
e Ulisses se retiram. — Despertados por Apoio, os Troianos correm
ao lugar da mortandade. — Chegam Diomedes e Ulisses ao campo dos
Gregos. — Nestor é o primeiro que os apercebe. — Os Gregos os
acolhem com alegria. — Fala de Nestor. — Resposta de Ulisses. —
Depois de haverem descansado Ulisses e Diomedes fazem libações a
Minerva.

Liga os demais a noite em mole sono;
Em claro a passa o rei de tantas gentes,
Gravíssimos cuidados ruminando:
Qual de Juno pulcrícoma o consorte
Lampeja crebro, se aguaceiro ajunta,
Granizo ou neve que embranqueça as lavras,
Ou se abre à guerra amarga as fauces negras;
Tal suspira, e as entranhas lhe estremecem.
Turbado considera em cerco de Ílio
Os muitos fogos, o rumor dos homens,
Das tíbias e trombetas; mas, se atenta
O Aquivo exército e as silentes praias,
Aos Céus queixando-se os cabelos carpe,
No íntimo geme o coração brioso.
Melhor enfim parece-lhe ao Nelides
Ir consultivo e combinar com ele
Como os Dânaos defenda. Ergue-se, os peitos
Reveste, calça fúlgidas sandálias,
De um leão fulvo com sangüíneos laivos
Pele talar enverga, apunha a lança.

De Menelau às pálpebras o sono
Também não pousa; pelos Dânaos treme,
Que em seu favor sulcando a azul campina,
Audazes debelar vieram Tróia.
De um pardo forra com manchado espólio
O dorso largo, aéneo casco mete,
E hasta na mão robusta, o irmão procura,
Supremo regedor que o povo adora.
À popa inda se armava, e ledo encontra
Ao pugnaz Menelau, que assim lhe fala:
"Armas-te, augusto irmão? nocturno espia
Mandar intentas? Que nos falte hei medo
Quem sozinho se arrisque pelo escuro:
Requer nímia ousadia empresa tanta."

A quem o régio irmão: "Celeste aluno,
Precisamos conselho em tal perigo,
Pois, mudado o Satúrnio, hoje prefere
De Heitor os sacrifícios. Nem vi nunca,
Nem de algum filho ouvi de ou deusa,
Que num só dia como Heitor obrasse!
Mortal sim, mas de Júpiter valido,
Executou façanhas estremadas,
Que longo viverão na mente Argiva.
Tu corre, a Ajax e Idomeneu convoca;
Vou Nestor acordar, que incite os guardas,
Cuja coorte sacra, entregue ao filho
Mormente e a Merion, de grado o atende."
Submisso Menelau: "De mim que ordenas?
picar à tua espera, ou, convocados,
Vir ter contigo?" — O rei tornou-lhe: "Fica;
Receio um desencontro em desvairados
Caminhos do arraial. Por onde fores,
Grita e alerta, nomeia em honra a todos
Seus pais e estirpe; o tom de orgulho evita.
Participemos das comuns fadigas:
Desde o berço a lidar nos fadou Jove."

Com estas precauções o irmão despede.
Acha na tenda o maioral Nelides
Em brando leito, ao pé luzentes armas,
O escudo, o capacete e lanças duas,
O bem lavrado boldrié, que o cinge
Ao comandar cruíssimas batalhas,
Pois dos anos ao peso inda reluta.
No cúbito arrimado, alça a cabeça,
A perguntar: "Quem ronda o campo e a frota
Por treva espessa, quando os mais repousam?
Buscas um guarda ou companheiro? Fala;
Que hás mister? Sem falar não te apropínques."

"Nestor, glória da Grécia, o Atrida açode,
Sou Agamémnon. Mais que a todos Jove
Mc oprime, e cessará quando este alento
Em mim cesse, e os joelhos não se dobrem.
Vagueio, por fugir-me o grato sono:
A guerra, o dano dos Aqueus me pesa;
Por eles desfaleço esmorecido;
O coração tituba e sai do peito,
Convulsos tenho os membros. Já que velas
A meditar, à guarda me acompanhes;
Vejamos se em descuido as sentinelas
Dormem cansadas: próximo o inimigo,
Empreenderá talvez nocturno assalto."

E o de Gerena: "O providente Padre
Nem tudo acabará que Heitor cogita;
Creio, alto rei, que amargo lance o espera,
Se Aquiles bane a cólera funesta.
Já já te sigo. Despertemos outros,
Diomedes grã lanceiro; ínclito Ulisses,
O ágil filho de Oileu, valente Meges.
Ao divo Telamónio alguém se expeça
E ao régio Telamónio que as naus tem longe,
E um do outro não perto. Embora o estranhes,
O honrado amigo Menelau censuro:
Dorme, e tu só te afanas? Não devera
Contigo os chefes deprecar afável,
Quando urge uma cruel necessidade?"

Replica o Atrida: "Às vezes a espertá-lo
Eu te exorto, ancião, porque a miúde
Hesita e se retém, não por incúria,
Não por moleza, sim por ter os olhos
Fitos no meu exemplo: a mim contuâo
Hoje ele antecipou-se, e os que desejas
Foi convocar. Às portas e entre os guardas
Vamos, que juntos acharemos todos."

E Nestor: "Nenhum grego há jus agora
De argui-lo e impugnar seu mando e aviso."
Então se arnesa, as nítidas sandálias
Ata aos pés, amplidúplice e punícea
Clâmide abrocha de lustrosa felpa,
Rijo eriagudo pique hasteia, e parte.

Ao gritar junto às naus dos lorigados,
O cauto Ulisses lhe surgiu da tenda:
"Por que sós percorreis na opaca noite
O campo e a frota? ameaça algum desastre?"
E o Gerénio: "Prudente como Jove,
Longânimo Laércio, não te agastes:
Dor crua agrava os Dánaos; vem conosco,
Outro invitemos que da fuga ou prélio
Deve deliberar." Ulisses pronto
À tenda volta, embraça o escudo e segue-os.
Dão com Diomedes fora, e em torno os sócios
Por travesseiro a adarga, a ressonarem,
Fixas de conto as lanças, o éneo lume
O do raio imitando: o herói dormia
De um boi selvagem no estirado coiro,
Com purpúreo tapete à cabeceira.
O idoso Pilo ao calcanhar o toca,
E o repreende e amoesta: "Sus, Tidides;
Inteira a noite logras? nem te acorda
O fragor dos Troianos, que se acampam
Na colina e das naus mui pouco distam?

O herói sacode o sono e clama: "É nímio
O ardor e zelo teu; falecem moços
Que pelo acampamento aos reis despaches?
És, magnânimo velho, és incansável."
E ele: "Amigo, assim é, galhardos filhos
Tenho e outros muitos que chamar-vos possam;
Mas risco atroz nos preme: vida ou morte
Pende aos Gregos do gume de um cutelo.
Tu, que és moço c de mim te compadeces,
Ajax de Oileu convoques e o Filides."
Leonina talar pele ombreia fulva
Logo Diomedes, pega a lança e corre,
Volve aqueles guerreiros conduzindo.

Juntam-se à guarda, e alerta em armas todos
Estão seus cabos. Se em vigia assídua
O redil ovelhum molossos rodam
E o lobo sentem vir do monte à selva,
Mesclam ladros às vozes dos pastores,
A quem morreu nas pálpebras o sono:
Destarte, morto o seu na infausta noite
O campo Teucro olhando os atalaias,
Ao mais leve rumor atentos eram.
O ancião folga e os louva: "Assim! meus filhos,
Nenhum se renda ao pérfido repouso,
Por não sermos escárnio do inimigo."

Eis salta o fosso, e vão-lhe após os Dânaos
Reis congregados; à consulta acrescem
Merion e o Nestório Trasimedes.
Num sítio pousam da sangueira puro,
Entre o espaço onde, envolto em sombra densa,
Heitor pôs termo à grega mortandade.
Quando uns e outros vários debatiam,
Fere o ponto Nestor: "Acaso, amigos,
Há quem, no braço afouto, ao campo extremo
Dos bravos Teucros vá, para que apanhe
Desgraçado inimigo, ou mesmo indague
Se eles ali permanecer tencionam,
Ou recolher-se ufanos da vitória?
Incólume e informado nos regresse,
Que terá fama eterna e ínsígne prêmio:
De cada capitão que em nau comanda
Preta ovelha e de mama um cordeirinho
Alcançará, presente incomparável,
E sempre no banquete um posto honroso."

Disse; todos em roda emudeceram.
Falou porém Diomedes valoroso:
"O coração, Nestor, a entrar me impele
No próximo arraial; mas outro sócio
Me dará mor denodo e mor firmeza:
Dois entre si advertem-se, combinam;
Um, se concebe, é lento e menos ousa."
Querem-no já seguir de Marte servos
Os Ajax, Merion; com ânsia o filho
De Nestor; Menelau de ardida lança:
Anela penetrar no campo Ulisses,
Que tem sempre na mente empresas grandes.

E o rei dos reis: "Amigo predilecto,
Prestam-se muitos, à vontade escolhe;
Nem por algum respeito ou má vergonha,
Considerando o sangue e a realeza,
Um inferior guerreiro tu prefiras
Ao que julgues mais apto." — Assim discursa
Pelo seu louro Menelau temendo.
Porém Diomedes: "Se me dás a escolha,
Posso o Laércio preterir divino,
Paciente, animoso, caro a Palas?
Com tão completo herói, constante e sábio,
Ileso hei-de sair de ardentes chamas."

E Ulisses: "Nem me gabes, nem rebaixes,
Que os Dânaos do que valho estão cientes.
Vamos, Diomedes; as estrelas caem,
Acena o albor, a noite já descamba,
Resta apenas um terço." Vestem-se ambos
De hórridas armas. Do belaz Nestório
Tidides, que deixara a bordo a sua,
Recebe adaga ancípite e a rodela,
E sem cristã e cimeira elmo taurino,
Simples galero, defensão de imberbes.
Cede Merion a Ulisses o terçado,
Coldre e arco, e de pele um capacete
Que, de rígidos loros dentro o forro,
De javali tem fora os brancos dentes,
Em reforço com arte à roda apostos,
E feltro espesso o fundo lhe guarnece.
De Eliona as casas de Amintor Orménio
Antólico arrombando, ali furtado
A Anfidamas, Citério o deu na Escândia;
Em penhor Anfidamas da hospedagem,
A Molo; Molo, a Merion seu filho,
Que ao Laércio cobriu com ele a fronte.

De ponto em branco, dos consócios partem.
Tela estrada Minerva à dextra envia
Garça que, invisa em feia baça treva,
Grasnar ouviam. Ledo Ulisses ora:
"Filha do Egífero, a quem nada oculto,
Neste aperto me assiste, ó protectora,
Mais do que nunca; dá que às naus voltemos,
Mudas árduas acçÕes que aos Teucros doam."

Tidides segue: "Ajuda-me e acompanha,
Indomável Tritónia, como a Tebas
A meu pai, dos Aqueus eriarnesados
Legado, que os largou do Asopo às ribas.
Aos Cadmeios a paz Tideu levava;
Mas de volta acabou gentis façanhas,
Graças a ti, benévola deidade.
Preserva-me igualmente; em honra tua
Aneja imolarei do jugo intacta,
Larga de fronte, com dourados cornos."

Encomendando-se à fautora Palas,
Deitam-se os dois leões por noite escura,
Por montes de cadáveres, por armas
Da carnagem recente ensangüentadas.

Também não dorme Eleitor, excita os cabos
E com eles concerta: "Há quem se atreva,
Por obter alto nome e digno prêmio,
O inimigo espreitar? Prometo um carro
E de cerviz altiva os dois mais finos
Corcéis de junto a frota, a quem me explore
Se inda a velam de noite, ou se aterrados
E lassos de destroço, os Dânaos tratam
Só da fuga, e não mais guardá-la querem."
Disse, e em redondo foi silêncio tudo.

Mas um Dólon, do arauto Eumedes filho,
Irmão de cinco irmãs, torpe de facha,
Leve de pés, em ouro e bronze rico,
A Heitor voltou-se: "Heitor, o ânimo forte
A perserutar me instiga as naus veleiras;
Arvora o ceptro, o coche eri-esplendente
Jura dar-me e os frisões do exímio Aquiles.
Explorador não sou que iluda e falhe:
Entrado no arraial, me acerco à popa
Agamemnónia; ali talvez da fuga
Ou da peleja os príncipes debatam."

O ceptro pega Heitor: "Fico ao de Juno
Altitonante esposo que essa biga
Outro nenhum transportará dos nossos;
Nela só brilharás." Foi jura falsa;
Mas Dólon inflamado encruza a arco,
De lobo enfronha-se em fouveira pele,
De pele de fuinha um gorro encacha,
Toma dardo pontudo, c às naus caminha,
Donde por ele Heitor não terá novas.

Já, fora do tropel, cortava a trilha.
O Itaco, ao lubrigá-lo: "Alguém, Diomedes,
Sai da parte contrária, acaso espia,
Ou despir os cadáveres pretende?
Passe por nós um pouco, e dele à pista,
O agarremos depois. Se em pés nos vence,
Para as naus, de hasta em reste, o impele sempre,
A fim que não se esgueire e não se acolha."

Desviam-se, e agachados entre os mortos
Os deixa o incauto. Longe quanto os sulcos
De mulas distam, mais que bois aptadas
A charrua a tirar por denso alquive,
Encalçam-no; ao rumor se tem, supondo
Ser o do sócio que avocá-lo vinham;
De lança a tiro, ou menos, reconhece-os,
Rápido move os joelhos fugitivo,
Mas eles apressados o perseguem:
Qual dois sabujos de raivosos dentes
Mais e mais lebre ou corça em brenha apertam,
Que cisca-se a guinchar, assim Diomedes
E Ulisses vastador o acossam lestos,
Impedindo a escapula. À guarda e à frota
Próximo o espia, a vulnerá-lo Palas,
Por que nenhum blasone de primeiro,
A Tidides influi, que bradou: "Pára,
Ou desta lança ao bote a vida rendes."

Aqui, de jeito a vibra que lhe esflore
O húmero dextro e finque-se na terra:
Dólon, quedo e medroso, os queixos bate,
Soa da boca pálida o rangido,
Aferram-no açodados, e ele chora:

”Vivo deixai-me redimir, que tenho
Bronze, ouro, ferro de lavor difícil,
E vos dará meu pai riqueza infinda,
Se preso me souber na grega armada."

Logo o matreiro: "Eu te afianço a vida,
Conta a verdade sem temor. No escuro
Às naus caminhas, quando os mais repousam 1
Despir tentas os mortos? Vens mandado,
Ou por teu mesmo impulso nos espias?"

O mísero a tremer: "Num laço infesto
Caí de Heitor, o coche eriesplendente
Prometeu-me e os frisões do exímio Aquiles,
Em prêmio de ir pela sombria treva
Explorar diligente, ao pé da frota,
Se inda a velam de noite, ou se aterrados
E lassos do destroço, os Dânaos tratam
Só da fuga e não mais guardá-la querem."

Sorriu-se o astuto: "Apetecias muito,
Frisões que homem nenhum sofreia e doma,
Excepto o Eácio que gerou mãe deusa.
Mas tu sê franco: Heitor onde é que estava?
Onde o seu márcio arnês, onde os cavalos?
Onde o grosso da tropa, onde os vigias?
Eles ali permanecer intentam,
Ou recolher-se alegres da vitória?

Volve o de Eumedes: "A verdade exponho.
De Ilo ao túmulo sacro, Heitor e os chefes,
Livres do burburinho, deliberam;
Certos não há vigias e atalaias;
Os Troianos, senhor, todos alertas,
Exortam-se ao luzir de acesos fogos;
A multidão porém de auxiliares,
Sem mulheres nem filhos, nos da terra
Descansa e dorme." — "E dormem, torna Ulisses,
Mistos mais os Troianos cavaleiros,
Ou com longo intervalo? Nada encubras."

E Dólon: "Nada encubro. Ao mar vizinham
Cares, Caucomes, Lelagas, Peones
Arci-recurvos, ínclitos Pelasgos
A Fimbra, Lícios e arrogantes Mísios,
Eqüestres Frígios, campeões Meónios,
P a r a que mais! se o campo entrar desejas,
Sentou na extrema os Traces recém-vindos
Reso Eiónides rei com seus cavalos,
Quais nunca vi grandíssimos e belos,
Auras na rapidez, no candor neve:
O coche é de relevos de ouro e p r a t a ;
Áureo o arnês de admirável artifício,
N ã o próprio de mortais, mais sim de numes.
Às alígeras naus levai-me agora,
Ou de rijo amarrai-me, até que à volta
Verifiqueis se falo ou não sincero."

M i n a z  T i d i d e s : " C e r t o embora informes
De nossas mãos não contes evadir-te:
Se te soltarmos ora, ou te remires,
Virás espia ou combatendo às claras,
Em torno as mesmas naus; se aqui te mato,
Cessas por uma vez de ser danoso."

Súplice a forte m ã o do Grego ao mento
Lança do infeliz; a adaga os tendões ambos
Da garganta lhe tronca; inda falava,
E rodou-lhe a cabeça na poeira.
De lobo a pele, de fuinha o gorro,
O extenso dardo e o arco renitente
Sacam-lhe os dois, e à predadora Palas
Oferta-os o Laércio deprecando:
"Aceita-os, alma deusa, a quem no Olimpo
Invocamos primeira; tu nos guia
Dos Traces ao quartel e aos seus cavalos."

Disse, eleva o despojo, e a tamargueira
Folhuda em que o suspende esgalha, canas
Lhe enfeixa à roda, que tornando enxerguem
Xa incerta pressurosa escuridade.
Entre armas e sangueira, enfim chegaram
Dos Traces ao quartel, que de fadiga
Ressonavam, dispostos em três filas.
Ao lado arneses belos, a parelha
Ao pé de cada um. No centro o Eiónides
A dormir, tinha atrás do coche atados
Em loros os sonípedes ginetes.
Ulisses, que os descobre: "Ei-lo, Diomedes,
O guerreiro, os frisões que assinalou-nos
O morto espia. Tens a espada em ócio?
Desprega o teu valor; solta os cavalos,
Ou deixa-os a meu cargo e imola os homens."

A olhicerúlea então lhe dobra o esforço;
Aqui e ali talhava, os ais restrugem,
Roxa de sangue a terra: qual salteia
Truculento leão rebanho ou fato
Não vigiado; assim cai Diomedes
Sobre os Traces, e a doze arranca a vida,
Quantos ele estoqueis. Ulisses cauto
Pelos pés arredava, por que andando
Os novos crinipulcros não se espantem,
Pouco avezados a pisar cadáveres.
O herói vai-se ao trezeno, ao triste Reso,
Que expira ao despertar de um pesadelo,
Onde Minerva toda a noite a imagem
Lhe pôs daquela morte à cabeceira.
O ítaco, desprendendo os corredores,
Pelos freios da chusma a subtraí-los,
De arco os fustiga, havendo-lhe esquecido
No vário assento o esplêndido chicote,
E a Diomedes adverte assobiando.

Este, se audaz insista na matança,
Pelo temão se o coche de áureas armas
Tire cheio, ou se o leve aos próprios ombros
Dúbio examina; mas ali Minerva:
"Já, regressa aos baixeis; não te afugentem,
Ó filho de Tideu, caso outro nume
Alerte os Frígios." Ele a voz divina
Sente e monta um cavalo: o seu verbera
De arco o Laércio; à desfilada arrancam.
O argenti-archeiro deus não cego espreita,
Vê com Tidides Palas; desce e grita
Furioso pelo Trácio Hipocoonte,
Bravo primo de Reso e conselheiro.
Este salta, examina o sítio vácuo
Dos corcéis e os guerreiros palpitantes
E o cruor fresco e negro; urrando geme,
Chama o parente. Num ruído imenso,
Tumultua-se o campo: o feito o assombra;
Salvarem-se os varões foi pasmo aos Teucros.

Junto ao corpo do espia Ulisses pára;
O sócio apeia-se, o cruento espólio
Toma e entrega ao de Júpiter valido,
E torna a cavalgar. Tocados voam
Para a frota os unguíssonos contentes.

O Pílio o seu trotar sentiu primeiro:
"Se não desvairo, príncipes e amigos,
De cavalos o estrépido me soa.
Oh! se Diomedes e o Laércio fossem,
Com Troianos solípedes roubados I
Mas receio que à turba sucumbissem
Tão bizarros Aqueus." — Mal acabava,
Desmontam-se eles: de alegria todos,
Estreitadas as dextras, os saúdam.
Interroga Nestor: "Esses cavalos,
Nobre Ulisses, da Grécia adorno e brilho,
Donde os houvestes? Penetrando o campo,
Ou de um deus recebendo-os no caminho?
Radeiam como o Sol. Não fico ocioso,
Bem que velho, e combato sempre os Teucros;
Mas nunca tais corcéis meus olhos viram:
De encontradiço deus julgo um presente;
Sois ambos do Nubícogo mimosos,
Da Glaucopide sua amados ambos."

E Ulisses: "O Neleio, ó glória nossa,
Com tamanho poder, um deus querendo,
Fácil nos doaria outros melhores;
Mas recém-vindos estes são dos Traces.
Diomedes chefes doze e o rei matou-lhes;
Próximo às naus, do espia demos cabo
Que explorá-las Heitor e os seus mandaram.

Disse, e fez os corcéis pular o fosso,
E iam com eles os Dânaos jubilosos.
Ao Diomedes presepe os ata em loros
Bem recortados, onde os mais comiam
Suave trigo, e à popa sua Ulisses
O de Dólon depõe sanguento espólio,
Enquanto a Palas sacrifício apontam.
N’aba do mar cervizes, coxas, pernas,
Do suor que lhes mana, os dois expurgam:
Depois que a sordidez mais crassa escorrem
N’água salgada, e o coração confortam,
Em tinas pulidíssimas se banham,
Untam-se de óleo, com prazer almoçam,
E de plena cratera entornam vinho,
Que a Minerva melífico libavam.

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