Consciência - Filosofia e Ciências Humanas

Raimundo de Farias Brito – textos inéditos e dispersos (antologia)


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OS FENÍCIOS MO MUNDO (1)

. Os cuja história em grande parte perdeu-se e só chegou até nós por notícias e informações incompletas, não deixaram monumentos artísticos que atestem com segurança a fama que têm de haver chegado nas artes, sobretudo nas artes práticas, a um alto grau de desenvolvimento. Há, porém, notícia, senão documentada, pelo menos contestada, de importantíssimas fábricas industriais nas cidades de Tiro, Sidon e Arad. Está provado que havia, entre os , arquitetos, escultores, cinzeladores e fundidores de bronze; e não se contesta que fabricavam o vidro, que foram os inventores da púrpura, que foram os introdutores do alfabeto na Europa, que estavam já bastante adiantados em metalurgia, explorando minas e abastecendo o mundo com seus artefatos de metal.

É por se haverem distinguido em trabalhos de metal que historiadores e arqueologistas notáveis chegaram a considerá-los como o povo que verdadeiramente caracteriza a transição da época da pedra polida para a época da verdadeira civilização, isto é, para a época do bronze e do ferro.

Não é, porém, a sua indústria que deve aqui preocupar-nos, mas o seu comércio, pois foi principalmente o comércio que lhes deu fama e poder.

Não é mister empregar grande esforço, nem faz-se preciso ter vastos conhecimentos, basta observar o que se passa mesmo entre nós, em nossa vida ordinária, para conhecer o importante papel que representa o comércio na vida dos povos. É a principal fonte de vitalidade, porquanto pondo em circulação os capitais existentes, aumenta a riqueza, pondo ao mesmo tempo em evidência os elementos com que se conta e dando a medida da força de que se dispõe.

(1) pp. 282/288

 

Não é, porém, encarado somente por esse aspecto material quê ele se revela importante, tem também significação superior e até idealista (ninguém se admire), pois pensamos que se não é uma utopia a ideia cosmopolita de uma confraternização universal das nações, é principalmente pelo comércio que esta ideia é concebível e é somente pelo comércio que ela já começa a realizar-se. O comércio tem a propriedade admirável de fazer desaparecer todos os antagonismos de raças, fazendo prevalecer sobre a pessoa, o capital: por isto faz de todas as raças um só organismo. E hoje pelas relações económicas que se estabelecem entre todos os povos, fazendo-se de nação para nação as mesmas combinações que de indivíduo para indivíduo, criando-se um mecanismo todo novo na regulamentação das finanças, tornando-se, por assim dizer, o capital, independente do princípio das nacionalidades; hoje que a administração das finanças torna-se objeto de uma ciência nova, constituindo-se a base fundamental dos governos, já não é utopia afirmar-se que a humanidade inteira constitui um só corpo, obedecendo a um conjunto uniforme de princípios, tendendo para uma sistematização uniforme de leis. E neste caso é forçosa a conclusão: o comércio realiza o cosmopolitismo. E verifica-se assim por experiências seculares que a harmonia começa pelo estômago .

Para que se faça uma ideia do alto valor comercial e civilizador dos fenícios, é bastante o que aí fica, e é admirável isto, justificando-se assim plenamente o pensamento daqueles que sustentam ter sido, a Fenícia, a maravilha de seu tempo. Pois aquele pequeno povo que quase não tinha pátria (se é que a grandeza da pátria está na extensão do território) percorreu todo o mundo conhecido dos antigos e viveu em confraternização com todos os povos, quando a lei natural era, por assim dizer, a guerra. Sua lei era esta: viajar, viajar sempre. Mas assim procedendo, não tinha em vista fazer conquistas ou submeter pelas armas países distantes. Movia-os sentimento mais nobre: preocupava-os o comércio; queriam conhecer e civilizar.

RELIGIÃO E LITERATURA (¹)

Tal é a deficiência de documentos relativos aos fatos mais importantes da vida dos fenícios, que não seria absurdo ou exageração afirmar que nem sequer há certeza sobre a língua que falavam. Quanto à religião nada existe que possa orientar-ncs, além dos fragmentos de Sankhuniaton, mas é preciso dizer alguma cousa a respeito do assunto, pois tratando-se da literatura e da religião, trata-se da vida mental dos fenícios e tal é a parte verdadeiramente imperecível da vida dos povos.

 

(l) pp. 289/293

 

Nos fragmentos de Sankhuniaton, se bem que tudo seja incompleto e obscuro, não deixa, todavia, de haver alguma coisa curiosa; pelo que não julgamos fora de propósito transcrever alguns trechos.

Destes fragmentos consta uma quantidade inumerável de deuses; mas de todos eles os que se tornaram mais notáveis foram o feroz Baal e sua companheira, a impudica Astartéia, aos quais foram levantados magníficos templos por Hiram, o segundo monarca de Tiro. Em honra de Baal que era provavelmente o Maloch da Bíblia, sacrificavam-se crianças: em honra de Astartéia sacrificava-se o pudor, vendendo-se as mulheres fenícias no templo. O produto desta venda era aplicado às despesas do culto.

Deste modo era o culto de Baal e Astartéia, sanguinolento e brutal. Entretanto é para acreditar-se que não fosse de todo desnaturado e absurdo, podendo-se mesmo admitir em seu favor uma razão filosófica, pois parece que tinha por base o princípio da procriação. A tradição exagerando e descrevendo com cores sombrias as suas práticas e cerimónias religiosas, desfigurou-o, dando-lhe aspecto medonho e aterrador. Mas ele tinha suas raízes nas condições naturais do país e nas necessidades do povo. Os fenícios precisavam de multiplicar-se. Como quer que seja, porém, Astartéia era a deusa da prostituição e já adorada.

Será que a humanidade está sujeita alguma vez a enterrar-se no lodo? Ou pelo contrário deve explicar-se a extravagância como efeito desse princípio soberano que poderia chamar-se metafísica da justiça, consolando-se ou melhor reabilitando-se, um momento, uma classe infeliz e numerosa a quem não é dado tomar parte no banquete da vida e sobre quem pesa o desprezo do mundo?

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