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Nietzsche e o Futurismo Italiano




Nietzsche e o Futurismo Italiano

Paula Ignacio

 

 

O Movimento Modernista Futurista deu-se no início do séc. XX, durante o chamado período “entre guerras”. Nessa época, a civilização ocidental passava por um constante crescimento industrial, principalmente na Inglaterra e nos Estados Unidos. A Itália avançava a passos curtos, pois passava por um momento delicado, não havia emprego para todos, e a população vivia a ignorância de massa.

 

Alguns artistas abastados da burguesia italiana, que tinham acesso a culturas de outros países, como a França, por exemplo, que era a capital cultural ocidental, desejaram o avanço econômico, industrial e cultural para seu país também. O poeta e escritor Filippo Tommaso Marinetti decidiu então publicar num jornal em Paris um manifesto de fundação do futurismo italiano. O Manifesto foi publicado em 1909, no jornal de grande circulação Figaro.

 

É um manifesto curto, mas contém 11 pontos cruciais para a implementação do futurismo como necessário a uma nova arte italiana.

 

A Itália, principalmente depois do renascimento, sempre foi um país reconhecido por preservar sua cultura, e principalmente, sua “grande arte”. O Futurismo veio para propor uma nova arte, aliada à nova situação econômica, a uma nova maneira de ser, agir, ver, no início do fervor do capitalismo no mundo.

 

O Futurismo era o movimento dos homens de um novo tempo, de uma vida industrializada, mecanizada, uma vida do homem que corria contra o tempo, do homem que agora agia sobre a natureza e a conseguia controlar através da máquina.

 

 

Propostas do Manifesto

 

Os onze pontos fundamentais do primeiro manifesto publicado por Marinetti, de fundação do Futurismo são:

1 – “Nós queremos cantar o amor ao perigo, o hábito da energia e da temeridade”.

 

2- “A coragem, a audácia, a rebelião serão elementos essenciais da nossa poesia”

 

3- “A literatura exaltou até hoje a imobilidade pensativa, o êxtase, o sono. Nós queremos exaltar o movimento agressivo, a insônia febril, o passo de corrida, o salto mortal, o bofetão e soco”.

 

4- “Nós afirmaremos que a magnificência do mundo enriqueceu-se de uma beleza nova: a beleza da velocidade”.

 

5- “Nós queremos entoar hinos ao homem que segura o volante”.

 

6- “É preciso que o poeta prodigalize com ardor, fausto e munificência, para aumentar o entusiástico fervor dos elementos primordiais”.

 

7- “Não há mais beleza, a não ser na luta. Nenhuma obra que não tenha um caráter agressivo pode ser uma obra prima”.

 

8-“Porque haveríamos de olhar para trás, se queremos arrombar as misteriosas portas do impossível”?

 

9- “Nós queremos glorificar a guerra – única higiene do mundo – glorificar o militarismo, o patriotismo, o gesto destruidor dos libertários, as belas idéias pelas quais se morre e o desprezo pela mulher”.

 

10- “Nós queremos destruir os museus, as bibliotecas, as academias de toda natureza, e combater o moralismo, o feminismo e toda vileza oportunista e utilitária”.

 

11- “Nós cantaremos as grandes multidões agitadas pelo trabalho, pelo prazer ou pela sublevação, cantaremos as marés multicores e polifônicas das revoluções nas capitais modernas”.

Marinetti se refere ao canto dos poetas de uma nova ordem, a poesia mais enérgica, que não teme o futuro. Quando ele diz que não se deve temer o novo, nisso já está implícita a idéia de rebelar-se contra o velho, e essa característica deveria ser fundamental para o homem futurista.

 

Segundo ele, os artistas e escritores romanceavam demais, falavam sobre futilidades, amores, angústias, exaltavam a distância amorosa, a distância de se conquistar qualquer objetivo. A nova poesia proposta por ele era exatamente o contrário dessa. Era inclinada e incitava a ação, e uma ação mais agressiva diante da vida e da nova realidade que se apresentava.

 

Com a mecanização e o começo da industrialização em Milão, que era a cidade onde ele vivia, ele percebeu que também havia a necessidade de um avanço no pensamento e na arte da Itália. A consciência de que o homem era capaz de dominar a natureza através das máquinas, e de que isso acarretaria em um rápido desenvolvimento era importante. O homem da velocidade simbolizava o homem do rápido desenvolvimento, o homem que segurava agora um volante era o homem mecanizado que se apresentava.

 

Contudo, a implementação desse movimento só se daria diante de uma postura mais agressiva daqueles que aderissem às novas idéias propostas. Era necessário que estes mergulhassem profundamente nos elementos primordiais do seu sentir e pensar, e deixassem transbordar seus instintos mais agressivos.

 

Havia a necessidade de destruição do passado para o advento do novo, e para que isso acontecesse, a postura agressiva era fundamental. No entanto, essa agressividade para destruição do passado também remetia a uma estética da guerra, uma estética de dominação do tempo. Os artistas seriam “combatentes” que atirariam contra toda e qualquer tentativa de cristalização do tempo.

 

Aliado a isso, a misoginia. O desprezo pela mulher também era fruto da industrialização. O homem dominava a natureza, ele avançava contra o tempo, e a mulher representava resistência às mudanças, anti-modernidade.

 

Nascia o Futurismo, extremamente nietzscheano. A destruição de uma moral do passado, a agressividade do novo homem, que o impele à ação, a misoginia, já que o feminino representa pouca belicosidade, a tentativa de dominação da natureza (súper-homem), o homem belicoso, que aspira à guerra, à luta, ao combate.

 

 

A Influência do Pensamento de Nietzsche

 

           

            O Movimento Futurista não comportava uma visão simples do futuro. Os futuristas pensavam o tempo agora de uma nova maneira, como os outros movimentos modernistas. Eles rejeitavam o passado, e se preocupavam com o futuro, mas através de ações agressivas no presente. Era uma nova consciência de tempo, a consciência do que o agora é capaz de proporcionar, e da rapidez do desenvolver da história a partir dessa consciência de tempo.

 

            Eles adotaram uma retórica mais agressiva exatamente para que o novo pudesse surgir, ao mesmo tempo em que se destruía aquilo que era antigo. Eram agressivos em todas as artes, e isso estendia-se para a vida como um todo, pois a imposição daquilo que era novo e tecnológico se fazia presente o tempo inteiro.

 

            Por isso a exaltação de uma estética da guerra, da limpeza através da destruição do antigo, tudo pelo progresso, tudo para o avanço, para a mecanização, dominação da natureza, na tentativa de alcançar a transcendência e tornar-se um súper-homem.

 

            Essa postura anárquica, tentativa de destruição da própria cultura, moral e arte, condiz com o pensamento do filósofo alemão Friedrich Nietzsche, e reconhecemos nitidamente a influência de alguns dos seus principais conceitos para a elaboração do manifesto de fundação do futurismo.

 

 

 

 

Vontade de Poder

 

No livro Genealogia da Moral, o filósofo mostra em um primeiro plano a necessidade de desconstruir a moral já dada do homem ocidental, afim de descobrir como seria a moral ideal, de acordo com a natureza humana.

 

            Para isso, ele analisa e critica a historiografia da moral do homem ocidental, o valor que têm todos os valores construídos até então. Questiona o uso de ideologias, de crenças, pois essas estabelecem valores falsos e ofuscam a realidade.       

 

            E nos mostra que por trás dos valores construídos pelo homem, tais como a justiça, liberdade, igualdade, esconde-se a Vontade de Poder pervertida.

 

A sua moral nada tem a ver com efetividade, como a moral aristotélica, por exemplo. A moral que Nietzsche nos apresenta procura elevar em muito a verdadeira natureza dos homens, que, para ele, é pura Vontade de Poder.

 

A Vontade de Poder é inata, segundo ele. A civilização ocidental destruiu e fez com que o homem internalizasse sua força. Todos os homens são naturalmente agressivos, e por causa das leis e da vida em sociedade, da sociedade de paz, foram obrigados a reprimirem seus instintos agressivos. Segundo ele, disso resultou um masoquismo, que sente certo prazer ao provocar a dor em si mesmo, já que a crueldade que seria destinada a outros homens foi reprimida para dentro de si mesmo.

 

No Livro A Vontade de Poder, Nietzsche exalta que não necessariamente existe uma cartilha para se tornar um súper-homem, mas existem aspectos básicos que podem fazer com que se destrua a moral já dada e cada um daqueles que buscarem o além-homem podem tentar.

 

Em primeiro lugar, o homem que age segundo a sua própria força não é um homem do ressentimento. Ele carrega consigo um extremo orgulho de si mesmo. A moral que conhecemos até então, exalta a obediência e o quietismo, tudo o que representa a fraqueza. A vontade de poder faz com que os homens ajam racionalmente, mas exaltando seus instintos, e disso resulta um sentimento de força. A ação impele a esse sentimento. E a ação agressiva, ainda mais. A crueldade externalizada é a ação e de certo a dominação. E dominar faz parte desse orgulho, desse sentimento de força, que deve ser único. Segundo ele, é também inato que nenhuma vontade de poder pode se sobrepor à do outro, pois não sabemos ao certo como ela deve ser para cada um. Mas certos aspectos da vontade de poder podem ser universais.

 

Os homens da “nova moral” nietzscheana deveriam ter almas frias e rudes, e o distanciamento de qualquer tipo de afetuosidade.

 

            Seria de extrema importância a estima por si próprio. Esse homem deveria deixar-se guiar apenas pelas “paixões afirmativas”, que são as maiores fontes de força, tais como o orgulho, a saúde, a hostilidade, a misoginia, o amor pela guerra e a vontade de poder.

 

            O manifesto de fundação do futurismo nos mostra uma proposta adaptada e muito parecida com essa.

 

            Para o filósofo, o maior dentre os instintos dos homens é o desejo de atacar. E isso foi reprimido na sociedade de paz. O homem forte tem instinto belicoso. A subordinação, a submissão e a obediência não fazem parte dessa alma belicosa.

 

            No entanto, Nietzsche questiona a impulsividade. Os fortes agem conforme os instintos, buscando as paixões afirmativas, mas não necessariamente com pressa nas suas tomadas de decisões. Os homens do futurismo exaltavam a impulsividade, na medida em que deveriam ter pressa tanto no pensar como no agir, os “homens mecanizados, da velocidade”. Era uma pressa voltada para a ação, e a ação voltada para o futuro, principalmente o futuro imediato.

 

            A vontade de poder age sobre os homens como uma força acumulada que precisa ser desprendida, mas que, para isso, precisa encontrar algum tipo de resistência para se efetivar. No caso do movimento futurista, a maior resistência que encontravam era contra o passado. A Itália preservava a sua arquitetura, a sua arte, a sua resistência ao novo, ao moderno. As paixões afirmativas buscam declarar-se contra as coisas, atacá-las com crueldade. E era essa a proposta de Marinetti.

           

Ser rude para com outros homens, além de satisfazer o , também colocava os outros à prova, o que faria com que eles também pudessem demonstrar sua força e tentativa de auto-superação.

 

Súper-Homem, Além-Homem

 

            A demonstração da força, a destruição de um passado para o desenvolvimento do novo também coincidia com o conceito de Súper-Homem nietzscheano.

 

            A consciência da força do homem e a elevação dessa consciência traziam à tona a Vontade de Poder. Mas isso exigiria uma auto-superação contínua, a busca pelo Além-Homem.

 

            O Súper-Homem seria a tentativa de re-naturalização do homem da Vontade de Poder.

 

            No seu livro “Assim Falou Zaratustra”, Nietzsche diz que Deus morreu. E que o homem deve morrer também. Se Deus não o criou, o homem não pode continuar estagnado, como se fosse criação divina. O homem deve tentar buscar a auto-superação.

 

            A proposta do primeiro manifesto futurista coloca à prova os homens da velocidade. Estes deveriam deixar de lado todo o passado recente e buscariam freneticamente o agora e o futuro imediato, deixando-se guiar pelos instintos agressivos de destruição procurando também destruir a da antiga noção de tempo constantemente. Era necessário transcender-se a todo momento.

 

O Apolíneo e o Dionisíaco

 

            Nietzsche, em seu livro “O Nascimento da Tragédia”, descreve a arte e os artistas como apolíneos ou dionisíacos. O apolíneo é uma referência ao deus da mitologia grega Apolo, que era um símbolo do sol, ou seja, tudo o que trazia à luz, e era símbolo principalmente de racionalidade que sobrepunha tudo o que fosse instintivo. Portanto, o apolíneo dizia respeito à racionalidade, à moral antiga que deveria ser respeitada.

 

No entanto, o dionisíaco, numa referência a outro Deus grego de natureza oposta, Dionísio, era o artista destacado e exaltado por ele, era aquele que mergulhava profundamente nas forças caóticas da vida, o “súper-homem”, súper-artista, que deveria transcender as limitações e mediocridade da vida cotidiana e mesmo da racionalidade.

 

Dionísio era o Deus que exaltava as forças instintivas do homem, e exatamente por isso estimulava a criatividade. Não seguia a moral já dada, pelo contrário, era amoral. Nesse caso, para Nietzsche, o artista dionisíaco também poderia, com a nova representação da realidade, destruir completamente o passado.

 

“A arte, na versão que Nietzsche oferece das coisas, é o produto de uma alma dionisíaca inquieta e trágica que recria constantemente o mundo em forma estética, e, assim fazendo, destrói os resíduos mortais do passado. O artista tece uma rede infinita de formas ilusórias, que, enfim, torna-se o hábito dos demais”.[1]

 

            E não havia nada que o artista que se embrenhava freneticamente nas linhas futuristas quisesse mais do que ser um artista dionisíaco. Deixar-se guiar pelas forças destrutivas e agressivas de um instinto que se fazia presente a todo momento, recriar uma nova forma de agir e de pensar, dominar a natureza através das máquinas e com isso destruir Deus, exaltar a sua natureza belicosa através da Vontade de Poder na busca pelo Súper-Homem.

 

            Vontade de potência, diz Nietzsche, significa "criar", "dar" e "avaliar". Nesse sentido, a vontade de potência do super-homem nietzschiano o situa muito além do bem e do mal e o faz desprender-se de todos os produtos de uma cultura decadente.

 

Os Artistas “Dionisíacos” do Futurismo Italiano

 

            Os principais representantes da arte futurista italiana são Umberto Boccioni, Giacomo Balla e Carlo Carrà, todos pintores. Todos os três procuraram em suas pinturas revelar o inconsciente através das cores, os movimentos e a rapidez com que se desenvolvia o tempo através das técnicas cubistas e expressionistas. São pinceladas rápidas, que revelam rapidez nas ações executadas tanto no que retratavam nas telas, como a própria ação de pintar. Também retratavam a iluminação nas ruas das cidades, os trens, as indústrias, tudo o que revelava o novo, e a manifestação nova do olhar.

 

Seria necessário entregar-se a uma nova maneira de observar o tempo, a imagem e a cor. Somente um novo homem seria capaz de captar uma nova imagem. Uma tentativa de transcender o próprio homem e antiga maneira de enxergar as coisas.

 

Houve também a tentativa de pintar, além do estado psicológico do novo homem do “progresso”, as novas imagens que se apresentavam nas cidades, a percepção dos novos cheiros, dos barulhos.

 

Luigi Russolo não era músico, mas tentava a todo custo reproduzir os novos barulhos da nova cidade, criando instrumentos próprios.

 

Podemos perceber uma tentativa de transcender até mesmo a sensorialidade humana, uma tentativa de aguçar tudo aquilo que era completamente novo. Era a destruição da grande arte, da grande música que antes exaltava a imobilidade, a inação, o êxtase.

 

Umberto Boccioni criou uma escultura chamada “Formas únicas de continuidade no espaço”:

 

É uma imagem quase barroca do homem do futuro, apresentado não só como  uma forma musculosa a deslocar-se no espaço com temível poder, mas também como um novo tipo de ser em evolução no tempo, rumo a algo além do humano”.[2]

 

            Foram inúmeras tentativas de materialização de Súper-Homens transcendentes, de homens da ação, do movimento agressivo, de destruição, de captação de instintos, durante o futurismo, que foi muito discutido até o ano de 1920. Mas estes não durariam muito, uma vez que precisavam buscar a auto-superação do tempo, o tempo todo. A Vontade de Poder, e seu constante vir-a-ser.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Bibliografia

 

HUMPHREYS, R. Futurismo. Ed. Cosac & Naify, São Paulo, 1999.

BERNARDINI, Aurora Fornoni. O Futurismo Italiano. Ed. Perspectiva, São Paulo, 1980.

NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da Moral. Editora Brasiliense, São Paulo, 1987.

NIETZSCHE, Friedrich. A Vontade de Poder. Vol. II. RÉS Editora, Porto, 2004.

NIETZSCHE, Friedrich. A Origem da Tragédia. Ed. Madras, São Paulo Porto, 2005.

 

 

 

 

 

 

           

 

 

 

           

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


[1] HUMPHREYS, R. Futurismo. Ed. Cosac & Naify, São Paulo, 1999. pg. 17.

[2] Idem, pg. 42

 

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