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Notícia acêrca dos jacarés e seus ovos, das tartarugas e maneira de as colher


Notícia acêrca dos jacarés e seus ovos, das tartarugas e maneira de as colher

jacaré amazônia

Hoje mataram os escravos um jacaré a tiro de bala, e o trou­xeram para eu ver: é a fera mais cruel e voraz dos rios do Pará.. Mas êste, disseram-me que era ainda novo, e contudo tinha duas varas e meia de comprimento; o costado negro, de pele dura, te­cido pelo feitio de conchas; o ventre alvo, com algumas malhas pretas, e tão rijo como uma tábua; a cabeça é o mesmo ferro, não en­tra com ela o chumbo e a bala, so­mente pelo toutiço e pelos ouvidos; cospe [1]) os golpes do machado, co­mo o penhasco; a bôca rasgada de­masiadamente; a dêste, ainda que pequeno, tinha dois palmos de com­prido ; aberta à guisa de alçapão, deixando aparecer nas guelas um sumidouro espaçoso e profundo, e dentes grandes e pontudos; a lín­gua pegada à parte inferior da, bôca, que por isso dizem alguns que a não tem (a cauda, por modo de colubrina; e as pestanas, de que vai acompanhada, agudas como o fio de navalha; na figura exte­rior, parece-se com o lagarto; é mui sensível nos olhos. Quando querem fazer prêsa, a primeira diligência é açoutá-la com a cauda, e com a mesma a conduzem à bôca; devoram tôda carne, e também gente, quando a acham descuidada, especialmente sendo meninos: correm à praia, e os arrebatam; mas não acometem no fundo dá­gua; e por isso os índios, quando se vêm – perseguidos dêles, mer­gulhando, lhes escapam fàcilmente. Hoje me trouxeram os índios grande quantidade de ovos de jacaré: são volumosos, muito mais que os das grandes perúas, alvos, mas não tão finos e levigados como os ordinários. Mandei quebrar uns poucos e tinham já as crias formadas, que deixavam ver assaz a enormidade e horror de que a natureza dotou esta fera. … As tartarugas suprem na­quelas terras a falta que há de gado. São monstros; algu­mas há que carregam dois homens; no sabor, na vista, de­pois de guisados, não têm muita diferença do carneiro; fecham-se-lhes 100 ovos e mais, de que no país fazem manteiga para a luz, e também para tempero de comer. Quando chega o tempo em que desovam, sobem do rio às praias, abrem com as unhas uma grande cova na areia, onde deixam os ovos bem co­bertos, calcando ainda com o peito o mesmo lugar. Depois de al­guns dias aparecem na superfície enxames de tartaruguinhas, e vão logo correndo ao rio. Êste tempo da desova é o mais favorá­vel à pesca; estão as praias cheias; correm -os índios, voltam-nas de costas: ficam presas, sem poderem dar um passo.

(Idem)

tartaruga ovos amazônia ilustração


[1]Levigados — lisos.


1) E’ o que chamamos tatuagem.



[1] Cospe — rebate, faz ressaltar, ricocheteia. ‘

Fonte: Seleta em Prosa e Verso dos melhores autores brasileiros e portugueses por Alfredo Clemente Pinto. (1883) 53ª edição. Livraria Selbach.

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