Consciência - Filosofia e Ciências Humanas

O ESPETÁCULO DAS RUAS – D. João VI no Brasil – Oliveira Lima




D. João VI no Brasil – Oliveira Lima

CAPÍTULO XXV

O ESPETÁCULO DAS RUAS

 

Nunca, como em tempo de Dom João VI, foi a corte do Rio de Janeiro tão animada, nem as suas ruas tão pitorescas. Formigavam nelas tipos hoje desaparecidos e que eram representativos de outros costumes e de outras idéias, os andadores das almas e pedintes de irmandades por exemplo, com suas opas verdes, escarlates e azuis, estendendo aos transeuntes e abrindo debaixo das janelas os largos sacos vermelhos que traziam cosida a imagem do Santo ou da Virgem, gravada numa pesada chapa de prata; ou os cumpridores de promessas devotas, tirando por humildade cristã e não por necessidade esmolas para uma missa em ação de graças.

As superstições continuam a florescer na nossa capital fluminense — um recente e curioso inquérito sobre as religiões do Rio o demonstrou, exibindo nomeadamente em toda a sua crueza as grotescas e terríveis superstições negras — mas não mais se ostentam como quando percorriam a cidade os vendedores de arruda, que todas as negras compravam para se preservarem de feitiçarias; ou se dava em cheio com um ruidoso funeral de filho de rei africano (o qual continuara na a exercer prestígio e autoridade sobre os ex-vassalos de seu pai), cujo cadáver fora velado por deputações das diferentes nações da Costa, e se transportava numa rede, precedida de um negro atirando foguetes e bombas e de outros executando em todo o percurso cabriolas pelo chão, e seguida de uma multidão cor de ébano, em parte silenciosa, lúgubre e burlesca a um tempo, em parte tangendo instrumentos esquisitos e entoando cantigas estridentes.

Era sobretudo a população de cor que emprestava à capital do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves o seu aspecto estranho e único na monarquia, compartilhado é claro pelas outras cidades do litoral brasileiro. Em Lisboa, não obstante o forte contingente africano, predominavam os brancos; nas possessões d’África os negros estavam quase sós; no Rio de Janeiro era que se equilibravam em número descendentes de europeus e de africanos, avolurnando-se constante e simultaneamente ambas as correntes com a enxurrada de reinóis atraídos pela corte e as levas de escravos arrebanhados pelos negreiros.

As numerosas e impressivas litografias que acompanham o texto das obras de Debret e de Chamberlain, e que são a mais completa e interessante documentação artística da residência americana de Dom João VI, fornecem uma idéia bastante precisa do que era o carnaval perpétuo dessa cidade sob muitos aspectos ainda colonial, sob outros, não menos abundantes, exótica, e apenas cortesã por algumas, mais raras, feições.

Daria ocasionalmente esta última nota uma traquitana de desembargador da Casa da Suplicação, com sua beca de seda negra e ao pescoço o colar carmesim de Cristo, ou a sege de um ministro d’estado, escoltada pelos correios a cavalo, de farda azul com golas e punhos vermelhos agaloados de ouro, botas altas e chapéu armado de oleado. Muito mais freqüentes apareciam no entanto outros espetáculos, menos aristocráticos. Ora seria um batizado de negros novos, com seus padrinho e madrinha de cor, espaventosamente vestidos; ora um casamento de mucama e copeiro de casa de tratamento; ora um enterro de anjinho preto, cujo corpi nho, quando o permitiam as posses dos pais, era levado numa vistosa cadeirinha adrede alugada-, ou pelo menos carregado sem acompanhamento num singelo taboleiro, com flores artificiais espetadas nos quatro cantos. Aos enterros dos negros adultos concorriam sempre um mestre de cerimônias de vara na mão e transudando importância, um rufador de caixa-tambor e algumas carpideiras que salmodiavam e batiam palmas para acompanharem o ritmo do pranto. Se de todo era destituída de bens a gente do morto, o corpo expunha-se na rua dentro da rede mortuária, a fim de recolher os óbolos dos viandantes que permitissem a inurnação, a qual sempre custava alguma coisa. Não havia risco de ficar um cadáver insepulto, porque a caridade dos próprios negros se manifestava infalivelmente para com os falecidos irmãos desvalidos.

Semelhantes cortejos, festivos e fúnebres, de contínuo os oferecia a cidade no seu ar pronunciadamente africano, que foi perdendo depois da abolição do tráfico, da progressiva extinção dos negros da Costa, do aumento da imigração européia e da diluição dos mestiços na população branca, ganhando de todo, senão a cor, os modos e o aspecto geral e uniforme do resto da gente. Noutros tempos, porém, desempenhavam os pretos papel muito considerável na vida quotidiana da cidade, na sua existência econômica e na sua existência doméstica, e se por um lado se achavam então mais perto, pela constante importação dos seus contingentes, da primitiva selvajaria, por outro tinham basto ensejo de dar largas a todas suas qualidades de dedicação e afetividade.

Como, sem faltar à verdade de uma reconstrução literária, expulsar do tablado fluminense da época esse mundo animado de barbeiros ambulantes armados de medonhas navalhas, cesteiros vendendo os samburás que teciam, mercantes de galinhas, de caça, de palmitos, de leite, de capim para forragem, de milho, de carvão, de cebolas e alhos, de sapé para colchões, quitandeiras de angu e café, carregadores, condutores de carros de bois que chiavam desesperadamente pelas ruas sem calçamento ou guarnecidas de lajes, puxadores de carretas com fardos, quatro adiante e dois atrás empurrando, à moda japonesa? Na própria rua do Ouvidor, que já armava pretensões a elegante, abundaram os barbeiros pretos até algum tempo depois da chegada da família real, quando ali se estabeleceu, com suas pomadas e loções perfumadas, o cabeleireiro da corte Monsieur Catilino, e abriu loja a costureira da moda, Madame Josephine.

Assim perpassava o incessante movimento popular de negra algazarra e negra alegria, que variavam raras carruagens e menos raras cadeirinhas, particulares ou de aluguel, de que costumavam utilizar-se com muito garbo as mulatas da vida airada, inculcando-se a si e ao seu luxo. Os palanquins em que se pavoneavam estas sacerdotizas do amor fusco tinham, muito deles, a coberta toda enfeitada de esculturas douradas e fechavam-se dos lados com pesadas cortinas de veludo e seda, bem agaloadas.838

Afora esse bulício normal, as ruas do Rio de Janeiro mais vida ainda tomavam amiúdo com as funções do culto, entre as quais primavam as procissões, que eram repetidas, fornecendo ocasião e pretexto para as elegâncias femininas e as pompas das irmandades. Debret enumera e descreve sete principais: a de São Sebastião, a 28 de janeiro, oito dias depois da festa do padroeiro da cidade; a de Santo Antônio, na quarta-feira de Cinzas; a do Senhor dos Passos, na segunda sexta-feira da quaresma; a do Triunfo, na sexta-feira que precede o domingo de Ramos; a do Enterro, na sexta-feira santa; a do Corpo de Deus, e a da Visitação, a 2 de julho, todas com o seu infalível cortejo de soldados de barretina dependurada do antebraço, estandartes e guiões religiosos, congregações sacras e leigas, músicos e cantores da Real Capela, camaristas e outras pessoas gradas, inclusive os mais elevados figurões da corte, nos seus uniformes bordados.

 

Passavam os préstitos ao som das músicas, dos cânticos e dos foguetes por entre multidões compactas que acudiam por devoção e por prazer, havendo sempre nesses dias um farto negócio de doces e bolos com que lucravam as negras quitandeiras, e um grande comércio de balas, cuja lo jinha mais reputada e afreguesada ficava à rua da Ajuda.

Na procissão de São Sebastião o orago ostentava a fita e placa em diamantes de comendador de Cristo, cuja patente recebera e cuja tença era aplicada ao custeio da sua capela. Mais brilhante e vistosa desfilava porém a de Santo Antônio, que saía do convento dos franciscanos, com um sem número de imagens e grupos resplendentes no meio das gazes de ouro e prata simulando nuvens iluminadas pelos raios do sol, donde espreitavam curiosamente o mundo rostinhos de querubins.

Tudo no cortejo era rico e aparatoso, contrastando com a pobreza regulamentar da Ordem: os anjinhos de saias tufadas de bailarinas, carregada com os adereços de família; os andores recobertos de veludo carmesim franjado de ouro; as velas, obras-primas dos cerieiros, com flores de mil cores, aves fantásticas e cabecinhas aladas; as enormes estátuas vestidas de sedas claras e paramentadas de jóias. Com os santos populares, que eram muitos, incluindo o preto São Benedito, alternavam um rei, uma rainha, um papa com seu sacro colégio de cardeais e São Luiz Rei de França transportando os três cravos e a coroa de espinhos, mas, sem respeito algum pelas tradições dos alfaiates medievais, regressando da cruzada com um fato do século XVII, cabeleira de médico de Molière e mantéu estrelado de mágico. 

A procissão dos Passos era toda de uma tonalidade roxa. A imagem carregava-se na véspera à noite para o templo donde tinha de sair o présti-to a fim de voltar à primitiva igreja, e ali afluía a população inteira a beijar o pé machucado e ferido do Senhor. Cada ano repetia-se com a mesma concorrência a cerimônia devota, que oferecia um ponto de reunião e ensejo para a exibição de vestuários e exercícios de namoro.

As procissões constituíam, com as noitadas já tradicionais e um tanto abandonadas do Passeio Público e as representações no teatro, as grandes para não dizer únicas distrações fluminenses no tempo d’el-rei Dom João Vi, mas nada se comparava, pelo encanto na união do místico e do profano, àquele beija-pé da segunda sexta-feira da quaresma. Sobressaíam na multidão as mulheres. Velhas e moças, fidalgas, burguesas, mucamas e prostitutas, todas corriam a prostenar-se na capela e todas faziam alarde de garridice igual: as prostitutas de corpetes de sedas vivas, saias de cambraia da Índia ou de renda sobre um fundo de seda, meias de seda branca e sapatos de cores variadas. Ao sair para refazer em sentido inverso o trajeto da noite anterior, ia o andor rodeado de lanternas de metal dourado na ponta de longas hastes, levadas por pessoas de distinção, e guardado por archeiros do Paço com suas alabardas e no seu uniforme peculiar, ainda hoje usados pelos de Portugal.

Na procissão do Triunfo figuravam todos os passos da Paixão de Cristo, e Nossa Senhora das Dores com o coração golpeado por sete espadas gotejantes de sangue. Na do Enterro misturavam-se penitentes sombrios, de capuz cobrindo toda a cara, apenas com orifícios nos lugares dos olhos, e soldados romanos armados de ponto em branco, sob o comando de um centurião de capacete descomunal. O corpo de Jesus, coberto por um lençol franjado de ouro, era seguido de uma Madalena de carne e osso, representada, em homenagem por certo à moral, por um mancebo vestido de mulher.

A procissão do Corpo de Deus, bem viva ainda na lembrança popular, assemelhava-se sem tirar nem pôr a uma mascarada, compreendendo São Jorge a cavalo, o homem de ferro, picadores e cavalos ricamente ajae-zados da Real Casa, músicos negros de vestes escarlates, atiradores de foguetes: uma palheta de cores opostas nas peles e nos estofos, uma galeria de trajos de estilos e feitios os mais diversos, uma combinação espavento-sa de cetins e veludos, ornatos de ouro e prata, brocados raros e fitas garridas.

O último dos préstitos religiosos saía da Capela Real levando a imagem da Virgem e encontrava-se a meio caminho com a irmandade da Misericórdia transportando Santa Isabel, mãe de São João Batista. Dava-se então na rua e ao natural a cena da Visitação: as duas imagens tocavam-se e beijavam-se seguindo juntas pára a Misericórdia onde, reunida no interior da igreja a diretoria desta instituição pia, cuja opulência e extensiva caridade acreditariam qualquer sociedade, prestava conta pública da sua gerência anual.

Esta procissão da Visitação era festa municipal por excelência, empunhando os camaristas o palio, precedidos dos vereadores, maceiros e outros oficiais do Senado. Qualquer das festas, porém, significava o templo da sua celebração todo enfeitado pelos armadores com panos de damasco carmesim, galões de ouro e prata e guarnições de gaze prateada; iluminado pelos círios dos castiçais e velas dos candelabros, que faziam brilhar os vasos dourados, as cercaduras trabalhadas dos altares e os res-plendores dos santos; perfumado pelas ervas e ramagens espargidas sobre os tapetes ou sobre as lajes, e pisadas pelos magotes de fiéis que se apinhavam presos de curiosidade, ávidos de distração ou sacudidos de fervor religioso.

Fora das igrejas, as festas do culto traduziam-se por outras muitas manifestações, invariavelmente ruidosas e joviais. Eram o foguetório característico dos préstitos e arraiais portugueses; os animados leilões de prendas em benefício do padroeiro; as cantigas e danças variadas de gentes de variadas origens, casando-se o fandango com o batuque. Das janelas, nas ruas percorridas pelo cortejo, pendiam as colchas de damasco da índia e de seda da China e os panos de veludo debruados de ouro sobre que se debruçavam princesas e damas da corte com turbantes de gaze, diademas de brilhantes e grandes plumas no toucado, e senhoras abastadas enfarpeladas de seda, decotadas à luz do dia e pesadas de jóias. As ruas juncavam-se de palmas e folhagens e, depois do sol posto, aclaravam-se com as velas de sebo colgadas pelas armações de latão nas fachadas das casas, com espelhos por trás para lhes refletir a fraca chama. Por essas ruas, decoradas e clareadas, se escoava num rumor prazenteiro a assistência congregada de longe para a função.

Para as mulheres essas festas, então, tinham o melhor dos atrativos. Para as fluminenses tafulas da época as procissões eqüivaliam ao que para as parisienses de hoje são as corridas de Longchamps: o lugar e o momento de estrearem novos vestidos e arvorarem novas galas. Para as que não eram sécias, sempre havia o encanto de um luxozinho a mais, quando não de um namorico. O espetáculo mesmo em si era tão apurado e decorativo que, com todos seus preconceitos britânicos e protestantes, não pôde Henderson deixar de observar que o efeito atingido devia qualificar-se de imponente (the general effect of the whole was very imposing).

Uma procissão diária nas ruas do Rio de Janeiro ou de qualquer outra das nossas cidades coloniais, era a do Viático, o conhecido Nosso Pai, levado aos moribundos e doentes debaixo do palio ou da umbela, segundo o acompanhamento ia mais ou menos luxuoso. Ladeavam o sacerdote os irmãos do Santíssimo, de opa vermelha, um tangendo a campainha sem parar, outros alçando a cruz e ps castiçais. A estes se agregava um sem número de devotos entoando a ladainha e assim fazendo acompanhamento vocal à música militar, de trombetas ou de tambor e pífano segundo a arma, que precedia a guarda chamada do posto mais próximo, e marchando com as espingardas em funeral e a barretina na mão ou segura ao braço pela correia do queixo.

Todas as igrejas repicavam à passagem do cortejo sagrado, o qual nc caso de chuva, se reduzia ociosamente a uma sege a passo, conduzindo o sacerdote, o cibório e o sacristão a cruz e uma lanterna de prata, e indo ao lado do carro um negro a pé, tocando a sineta. No caso de ser o enfermo que esperava o sacramento membro da família real ou empregado da real casa, o padre era transportado num coche do Paço com criados de libré, a cavalo, para carregarem os tocheiros e tangerem a campainha que provocava as orações e evocava no espírito dos transeuntes ajoelhados uma simpatia dolorida.

Menos freqüentemente do que os séquitos religiosos, percorria as ruas da cidade o bando municipal proclamando aos habitantes algum acontecimento, auspicioso ou lutuoso, ocorrido na corte. Formavam-no os mei rínhos a cavalo, os almotacés,839 os vereadores vestidos de negro com gola e punhos de renda branca e chapéu preto de plumas brancas, montados em animais ajaezados, empunhando o estandarte desfraldado, e várias pessoas de posição em grande uniforme, nas suas carruagens, precedendo o préstito a cavalaria da polícia e seguindo-o a música de um regimento da milícia.

Outros muitos espetáculos curiosos ofereciam ainda as ruas do Rio de Janeiro, muito concorridas não só de negros e mulatos, como de grande número de ciganos, vindos não se sabe bem donde, de espanhóis do Prata, fugidos à guerra civil, e de marinheiros estrangeiros, ingleses sobretudo, desembarcados dos numerosos vasos de guerra e navios mercantes. Entre os nacionais da melhor classe a vista era interessante da variedade de modas, espelho da variedade de opiniões, trajando uns à antiga, de chapéu armado e espadim, outros à inglesa, sem cabeleira, de meias botas, longa sobrecasaca e chapéu de castor.

A nota popular era entretanto a mais divertida sempre. Um dos folguedos mais animados dos tempos coloniais costumava ser, no sábado santo, a queima do Judas, representado por uma figura grotesca, cavalgada pelo diabo em pessoa e que, recheada de bombas, se fazia explodir e se despedaçava ao romper da aleluia, por entre o entusiasmo da multidão.

Depois da chegada da corte, este divertimento ruidoso foi proibido para evitar ajuntamentos que por muita jovialidade se podiam facilmente tornar desordeiros. E bem avisado andou o Intendente geral da polícia, pois que no sábado santo de 1821, três dias antes do embarque da corte para Lisboa, um magote compacto de arruaceiros enforcou e queimou em efígie a céu descoberto, em vez do Judas tradicional, alguns personagens conspícuos da administração, entre eles o próprio Intendente geral e o comandante militar da polícia. Com esta variante nos traidores imolados, recomeçou aliás o divertimento sem nada perder da sua popularidade.

 

Continuara porém a efetuar-se sob Dom João VI a conhecida mascarada do imperador do Espírito Santo, tom que contrastava a tocante cerimônia do bodo aos presos, que não eram então sustentados pelo Estado mas tão somente pela caridade pública, atirando-lhes esmolas os transeuntes e mandando-lhes diariamente a irmandade da Misericórdia, pelos calcetas destacados para esse serviço de abastecimento, sopa e farinha. O grande jantar da festa de Pentecostes era contudo levado processionalmente de véspera à prisão, em carroças atochadas de comestíveis, pelas irman dades do Santíssimo com os seus estandartes erguidos, música e grande

acompanhamento.

A clemência do rei, denotando-se pelas constantes comutações de penas últimas, raramente permitiu ao contrário que durante sua estada no Brasil cruzasse as ruas da capital o sinistro préstito dos condenados à morte. Refere Debret que em quinze anos de residência no Rio apenas assistiu a duas execuções, uma delas já sob o império e política, tendo sido preciso que se desencadeassem as ferozes paixões partidárias para que uma outra revolução pernambucana, a de 1824, oferecesse a Dom Pedro I para fazer por assim dizer reviver, com o cortejo dos sentenciados d’estado, um espetáculo quase desaparecido no teatro fluminense.

Bem lúgubre aliás a cena. Caminhava o réu de alva, os pés descalços o crucifixo nas mãos ligadas e a corda no pescoço, com as duas pontas para trás seguras, assim com a calda da alva, por um dos dois carrascos negros acorrentados. Sustentavam o mísero seus confessores e guardava-: a irmandade da Misericórdia, que tomava conta do cadáver, para lhe da: sepultura, depois que o atiravam abaixo da forca, onde ele se balouçar: espectral, de capuz puxado sobre o rosto, cavalgado nos ombros por um dos algozes, para fazer peso, no momento em que a corda se enrolava t

o nó se apertava…

Quando o corpo era de um condenado pelo crime de parricídio cortavam-se-lhe a cabeça e mãos para ficarem expostas às vistas do públi co aterrado e à voracidade dos urubus.

A falta de segurança, efeito da alteração da vida coletiva, não da comiseração regia, convertera-se numa das feições piores da existência flu minense. Os escritores estrangeiros do começo do reinado americanc de Dom João VI a não mencionam, ao passo que os do fim a relatam demo radamente. Os assaltos noturnos tinham-se tornado comuns. Conta um Leithold — a quem doutra vez, quando ausente arrombaram os ladrões a porta e carregaram toda a bagagem, inclusive o seu uniforme de capitão de hussardos — que regressando uma noite a pé do teatro, foi perseguido

 

por uma quadrilha de negros armados, devendo a salvação à pusilanimidade dos atacantes mais do que ao próprio sangue frio, pois que, embora mostrando disposição de defender-se, deixara dominar-se pelo terror.

Queixando-se ele no dia imediato do ocorrido ao cunhado, Silvestre Pinheiro Ferreira informou-o de que nas noites precedentes a polícia recolhera à cadeia não menos de 300 indivíduos de cor, cada um dos quais tinha uma faca que facilmente passariam de vagabundos a agressores. Seis anos antes de von Leithold, já Marrocos escrevia ao pai840 que cidade e subúrbios andavam infestados de ladrões, cujas proezas começavam logo à boca da noite, acometendo transeuntes, pilhando casas e muitas vezes completando o roubo pelo assassinato.841

"Tem sido tal o seu descaramento que até avançam a pessoas mais distintas e conhecidas, como foi o próprio chefe da polícia; o chefe de Divisão José Maria Dantas recebeu por grande favor duas tremendíssimas bofetadas por cair no erro de trazer pouco dinheiro, depois de lhe roubarem o relógio etc. Além disto tem degolado várias mulheres, depois de sofrerem outros insultos; o que tudo têm dado que fazer ao Corpo da Polícia, e não sendo este suficiente para as rondas e patrulhas, multiplicadas em todas as ruas, o intendente mandou armar e apontar todas as justiças de paisanos para ajudarem as da polícia; mas os pobres Aguazis até já foram acometidos e insultados pelas grandes quadrilhas de ladrões, que lhes tem dado coças. Com efeito grande número deles foram já presos, e estão bastante sentenciados a pena última, dos quais vão amanhã 3 para o Oratório. Faz-se agora um novo recrutamento muito rigoroso em conseqüência daqueles sucessos, e para se aumentar o Corpo de Polícia e os outros regimentos; pois o caso está muito sério, por não poder-se andar na rua muito tarde. Eu recolho-me às oito horas da noite e nunca as minhas digressões se extendem para longe, mas só se limitam a casa de Feli-ciano palestrar com o meu velho padre Mazzoni."

Na carta de 8 de junho de 1818 referia Marrocos continuar a perseguição aos ladrões e assassinos, tendo havido em abril 28 mortes violentas: o que mostra que de pouco ou nada valeram as providências tomadas e que o mal era grave. Maler confirma842 que os assassinatos na cidade e arredores se tinham tornado freqüentíssimos e muitos com circunstâncias bárbaras. A polícia chegava a prometer recompensas a quem descobrisse os malfeitores, não surtindo as mais das vezes efeito o recurso. Contudo, à data do ofício de Maler, havia 83 indivíduos presos e condenados à pena capital por homicídio, alguns até reincidentes, sem que se lhes aplicasse a sentença por falta de assentimento real.

 

Em condições tais de inseguridade, não é de admirar que reinasse na capital, senão um terror negro, uma apreensão bastante forte de um levante da gente de cor. Os atrozes feitos de São Domingos estavam ainda frescos nas memórias e no próprio Brasil, na Bahia, se dera "um grande tumulto de negros" que causou grande susto e teve sua importância. Dos historiadores penso ser Handelmann o único que lhe faz referências, mas a correspondência de Marrocos843 supre uma vez mais a falta e indica que o Rio ouviu com temor a relação do ocorrido em São Salvador.

"…: eles mataram muitos brancos, e alguns eram negociantes; alguns soldados também foram mortos, assim como outros negros, que não queriam associar-se ao tumulto. Lançaram fogo a muitos engenhos, aos armazéns da pesca da Baleia, e a mil outras partes, de maneira que se afirma que só a Fazenda Real perdera mais de 300$ cruzados. É muito para se temerem ali estes acontecimentos; porque tem os negros a boa circunstância de não se unirem nas suas senzalas e ranchos, senão os filhos da sua mesma terra, e não acompanham, nem contraem amizade com outros; e como é imensa a variedade de nações deles,844 não se unindo elas, vem a ser os ranchos de cada uma pouco numerosos; isto sucede aqui no Rio de Janeiro, onde entram negros de todas as nações, e por isso inimigos uns dos outros. Porém na Bahia por uma inclinação natural dos habitantes, entram só negros da Costa da Mina, e muito poucos de alguma outra nação, sendo por esse motivo todos eles patrícios, companheiros e amigos; e em qualquer desordem, ou tumulto, todos são unânimes, como neste se acharam, e só mataram os que não eram seus patrícios. A muita liberdade, que o governador lhes tem dado, e o pouco caso que faz das suas desordens, julgando-os incapazes de empresas grandes, produziram talvez esta explosão, que há de ficar em lembrança: com efeito conseguiu-se prender 10 negros e os mais, que eram em grande número, fugiram para o mato, e ali se embrenharam."

Se à noite inspiravam pavor, de dia recobravam as ruas do Rio de Janeiro a sua alacridade, pois que de todo tempo e naquele especialmente foram, ao que parece, concorridas, alvoroçadas e barulhentas. Pelo calçamento de pedra extraída dos grandes morros de granito que expõem ac sol coruscante os seus flancos nus, e pela estreiteza das bitesgas que, após semanas de seca se cobrem de um pó fino, que acinzenta a atmosfera, co mo que naquelas ruas ressoam dobrado todos os ruídos. Alarido maior do que as recuas de mulas ariscas galopando atrás da madrinha e tangidas dos lados da cidade nova pelos tropeiros paulistas armados de chicote, ou do que os bandos de negros ganhadores transportando fardos e sempre entoando cantigas que só interrompiam para se persignarem diante de cada retábulo de santo ou das almas do purgatório, faziam porém pelas raras praças e numerosas yielas ou estradas, os batedores e cadetes que precediam e rodeavam as carruagens reais, compelindo os estrangeiros — os nacionais não ousariam esquivar-se à usança — a desmontarem das suas cavalgaduras ou apearem-se dos seus carros para saudar, de chapéu na mão e dorso curvado, a augusto passeante.

A residência da família real tivera também por efeito adicionar um elemento novo e precioso às antigas diversões e folganças da colônia, e vinha a ser o espetáculo das festas de corte, das quais o anterior viver dos vice-reis mal podia dar uma idéia. Não eram tanto as paradas militares, as procissões religiosas, o Te-Deums e réquiems nas igrejas, as luminárias e fogos de artifício agora empregados para celebrar os aniversários das pessoas reais ou festejar a chegada de novas felizes da guerra peninsular, o que excitava a curiosidade e despertava a admiração, como eram as cerimônias peculiares à monarquia. A população do Rio de Janeiro nem podia bem imaginar o que deviam ser os cortejos esplêndidos da realeza em toda sua pompa legendária. Entretanto entraram tais cortejos súbito a surgir para sacudir o torpor da pacata cidade ao mesmo tempo que lhe emprestavam feições bem acentuadas de elegância, de distinção e de luxo.

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