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O torrão natal – J. M. de Macedo



O torrão natal

Um célebre poeta polaco, descrevendo em magníficos versos uma floresta encantada do seu país, imaginou que as aves e os animais ali nascidos, se por acaso longe se achavam, quando sen­tiam aproximar-se a hora da sua morte, voavam ou corriam e vi­nham todos expirar à sombra das árvores do bosque imenso onde tinham nascido.

O amor da pátria não pode ser explicado por mais bela e de­licada imagem.

Coração sem amor é um árido, quase sempre ou sem­pre cheio de espinhos e sem uma única flor que nêle se abra e o amenize. }

Haveria somente um homem em quem palpitasse coração tão sêco, tão enregelado e sem vida de sentimentos: o homem que não amasse o lugar de seu nascimento.

Depois dos pais que recebem o nosso primeiro grito, o solo pátrio recebe os nossos primeiros passos: é um duplo receber, que é duplo dar.

As idéias grandes e generosas dilatam o horizonte da pátria;

a , a lingua, os costumes, as leis, o govêrno, as aspirações fazem do uma nação uma grande família, e de um país imenso a pátria dc cada membro dessa família.

Mas, deixem-me dizer assim, a grande não pode fazer olvidar a pequena pátria: dessa árvore majestosa que se chama a nação, o país, não há quem não sinta que a raiz é a família e o berço pátrio.

Há nesse santo amor uma escala ascendente, que vai do lar doméstico à paróquia, da paróquia ao município, do município à província, da província ao império: ama-se o todo, porque se ama cada uma de suas partes.

Com efeito, é impossível negar que em suas naturais e sua­víssimas predileções o coração distingue sempre, entre todos Os distritos, cidades e diverss pontos do país, o torrão limitado do berço pátrio; pobre ou mesquinho, esquecido ou decadente, agreste ou devastado, é sempre amado por nós e sempre grato para nós.

E’ por isso e por muito mais, é porque foi meu berço, berço daqueles a quem mais amei e amo, é porque no seu solo tenho se­pulturas queridas, é porque me guarda em seus lares amigos dedi­cados, é porque desejo ter em seus campos um abrigo na minha velhice que começa, e no seu cemitério um leito para dormir o úl­timo sono, é enfim, por todos êsses laços da vida e da morte que a vila de Itaboraí me é tão querida.

J. M. de Macedo.

. Alex. Herc. Escr.

Fonte: Seleta em Prosa e Verso dos melhores autores brasileiros e portugueses por Alfredo Clemente Pinto. (1883) 53ª edição. Livraria Selbach.

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