Possibilidade e Realidade na Conduta de Má-fé



Possibilidade e Realidade na Conduta de Má-fé
por Miguel Duclós

A melhor ilustração acerca da tensão existente entre possibilidade e realidade na Conduta de Má-Fé é o exemplo da mulher que vai a um primeiro encontro, exposto na página 101 de O Ser e o Nada1, no Capítulo "As Condutas de Má-Fé". Ali vemos uma mulher tentando negar para si todo o entorno de significações, comprometimentos e impulsos que a situação carrega, agarrando-se ao significado explícito, à coisificação da atmosfera. Ela é perfeitamente consciente do propósito que está pressuposto para o desenlace do encontro, das intenções por trás dos atos do cavalheiro, do apelo sensual presente em um simples toque de mão. No entanto, mente a si ao despir a ocasião desses atributos e situá-lo fora do fluxo temporal, encarando-o como mera qualidade objetiva. A priori, despoja a ocasião de sua intencionalidade, limita seu parceiro a um objeto, ao Em-si. Nega assim sua liberdade ao afirmar-se como transcendência. Mas ao mesmo tempo que tenta escapar da intencionalidade indo em direção ao transcedente, ela se deixa conquistar como coisa, afirmando-se como facticidade. Esse ajuste do foco da transcendência como facticidade e vice-versa é característica da conduta de má-fé.


A mulher do exemplo, ao isolar assim o presente, vive-o sem ao viver. Timidamente, escapa da interação real, para espiritualizá-la. A admissão do desejo que envolve a cena e ao qual ela aspira a "humilharia e causaria horror". A mulher admite o desejo, mas o apreende não como sendo o que é, e sim em sua transcendência. Sua consciência faz o movimento entre a facticidade e a transcendência. Se projeta além da imanência, navegando nos diferentes níveis de temporalidade, sem deixar que a percepção encontre o fato e o presente, muito embora saiba o que está ocorrendo , a um nível que reprime. A consciência é concebida, de acordo com a herança fenomenológica, em seu caráter intencional, eliminando-se a concepção coisista da imagem. O movimento da consciência entre facticidade e transcendência não deve ser entendido, entretanto, como um retorno aos dualismos rechaçados por Sartre, já que não há a oposição corpo/espírito.


É essa, aliás, a definição de má-fé: mentir a si mesmo. Sartre apresenta a má-fé como tendo a mesma estrutura da mentira, mas suprimida da dualidade entre enganador e enganado. Quem mente e quem recebe a mentira são a mesma pessoa. A consciência não é nada em si mesma, mas uma intencionalidade que tem de se relacionar com o mundo. A consciência busca o ser, e portanto é sempre consciência de alguma coisa. O ser da consciência é a consciência de ser. Ou, de acordo com a primeira fórmula sartreana: "a consciência é um ser para o qual, em seu próprio ser, ergue-se a questão de ser ser enquanto este ser implica um outro ser que não si mesmo". Essa translucidez é que transforma, de certa forma, a má-fé em boa fé, já que quem está de má fé está ao menos consciente dela. Esse é o caráter da negação interna, que torna a má-fé tão peculiar dentro do conjunto de negatividades que é próprio ao ser humano. Como diz Sartre na página 92, o ser humano não só revela negatividades no mundo, como pode tomar atitudes relativas em relação a si. A diferença crucial entre má-fé e mentira deriva da unidade da consciência, já que ambas possuem a mesma estrutura. Na má-fé, porém, a consciência afeta-se a si mesma. Quem mente e quem recebe a mentira são uma mesma pessoa: eu preciso conhecer a verdade para poder escondê-la de mim.


Como enuncia a famosa fórmula sartreana, "a existência precede a essência. Isso implica na situação solitária e na total responsabilidade humana perante sua liberdade. O homem, ciente de sua finitude, receia ser livre, se torna um ser angustiado, e por isso procura abrigo na transcendência, no Absoluto. Atribui os fatos de sua vida ao destino, à Deus, à circunstâncias externas que agem indiferentemente, e mesmo contra a sua vontade. Sua liberdade para se efetivar, tem de ser consciente de sua situação como realizador de possibilidades. A vida é uma escolha constante entre possibilidade que só termina com a morte. O momento da morte transforma a vida em destino, na frase de Malraux. A ironia se dá quando se constata que essa fuga para a transcendência só é possível graças à mesma liberdade que o homem reluta em aceitar. Essa é sua conduta de fuga. Nesse contexto, a má-fé se revela como essencial se tomarmos o ser-no-mundo não como um estar de uma coisa em outras, mas sim como caráter constitutivo da existência humana. A consciência encontra o outro, em sua busca pelo ser. Cegamente, tenta atribuir existência ao para-si. A mentira, definida como conduta de transcendência, em direção ao nada, presume a existência do outro, a minha existência, e a existência do outro para mim. A negação recai sobre o exterior, que é expulso da consciência. Essa adota uma atitude cínica, ao afirmar internamente a verdade e negá-la para o outro. Algumas pessoas trazem a negação na sua própria estrutura subjetiva, e toda a sua experiência na Terra não passa de repetições e variações do Não. A teoria da mentira ilustra uma mentira ideal e uma má-fé ideal, sendo que as mentiras vulgares ficam geralmente no intermédio entre as duas. Sartre chama a má de um fenômeno evanescente, com uma estrutura precária, justamente pela dificuldade já apontada que surge entre a translucidez da consciência e a má-fé. Não é possível realmente mentir a si mesmo deliberada e cinicamente: a mentira retrocede e desmorona ante o olhar da consciência.


A rejeição da linguagem coisificante permite também Sartre tecer uma crítica à psicanálise. É a esta que geralmente se recorre para se tratar do problema caracterizado por Sartre como a má-fé. Porém, a psicanálise introduz o conceito de mentira sem mentiroso. O papel deste seria exercido pelo inconsciente. O sujeito consciente se encontra então diante de fenômenos psíquicos factícios alheios, instintos primordiais não verdadeiros nem falsos, mas reais, assim como a mesa e a cadeira são reais. Perde a sua unidade psíquica proporcionada pela translucidez da consciência para a cisão entre Id (inconsciente) e Ego (eu). A explicação através de matrizes comuns permite afirmar que há uma verdade por parte do enganador, o Id. O acesso a essa verdade seria dificultado pela censura. A ação de uma terceira pessoa, o psiquiatra, é necessária para vencer esse bloqueio. A cura se daria pela identificação do complexo causado pela experiência traumática. O determinismo psicológico torna o sujeito externo a si mesmo: " Sou meus próprios fenômenos psíquicos, na medida em que os constato em sua realidade consciente: por exemplo, sou esse impulso de roubar tal livro desta vitrine, formo corpo com esse impulso, ilumino-o e me determino em função dele a cometer esse roubo. Mas não sou esses fatos psíquicos na medida em que os recebo passivamente e sou obrigado a erguer hipóteses sobre sua origem e verdadeira significação, exatamente como um cientista conjectura sobre a natureza e essência de um fenômeno exterior". (pg. 97)

A explicação psicanalítica é mais do que insatisfatória, é também mais uma conduta de fuga. Evita a responsabilidade e liberdade, e relega ao outro o poder de cura. Com conhecimento de psicanálise eu posso tentar a auto-terapia, mas apenas aplicando esquemas abstratos, regras apreendidas e pré-definidas. Freud rejeitou a filosofia discriminando-a de relações com sua psicanálise porque estava aspirava a certeza científica. A ciência da mente procura resultados confiáveis como as ciências naturais. A mente é tratada assim como mais um elemento natural, um objeto passível de investigação elucidativa e submetido a leis estáveis. Mas Sartre apreende bem a lição de Hume ao desprover dessa "ciência" a pretensão da certeza. As certeza é dada somente pela intuição. Os resultados da psicanálise, se obtidos, seriam da ordem da probabilidade de hipóteses científicas. A psicanálise coloca o sujeito como outro em sua relação consigo mesmo, só que o outro estaria numa estrutura psicológica mais profunda: "Assim, a psicanálise substitui a má-fé pela idéia de uma mentira sem mentiroso; permite compreender como posso não mentir a mim, mas ser mentido, pois me coloco, em relação a mim mesmo, na situação do outro; substitui a dualidade do enganador e do enganado, condição essencial à mentira, pela dualidade do "Id" e do "Eu", e introduz em minha subjetividade mais profunda a estrutura subjetiva do mit-sein." (pg 97). Ao atribuir a ação do homem a impulsos do inconsciente, a psicanálise nega a translucidez da consciência. A consciência é consciência de ser consciência. Sartre nega que ela exerça um papel secundário no fenômeno da má fé, nega sua subordinação ao inconsciente. È impossível um saber ignorante de si, todo saber é consciência de saber. A consciência não poderia ter relaxado a sua vigilância para deixar de discernir os impulsos que resultam em censura. Dizer o contrário é dizer que a consciência é também ignorante dos impulsos instintivos lícitos. Sartre cita os experimentos do psiquiatra Wilhelm Stekel, para quem o núcleo de toda psicose seria consciente.


A antítese da má-fé é aquilo que Sartre chama de sinceridade, sobre a qual não iremos explanar em detalhes. Para nosso objetivo, basta dizer que a sinceridade aparece quando o homem pode ser o que é, em todos os sentidos. A estrutura da sinceridade, porém, é idêntica á da má fé, já que ser apenas o que se é é ser em-si, e o homem não é o que é. Nesse sentido, a sinceridade exigiria que nos façamos ser o que somos. Nosso modo de ser é dever ser o que somos. Sartre dá um exemplo do garçom (pg. 106) que cumpre total o ritual gestualítico da maneira de ser dos garçons. Enquanto ele segue esse ritual de conduta, está brincando de ser garçom. Mas não pode sê-lo da mesma maneira que a mesa é mesa. Não pode ser uma coisa-garçom. Só pode sê-lo na medida da representação para os outros e para si. Mas representar já não é ser: "se represento, já não o sou: acho-me separado da condição tal como o objeto do sujeito – separado por nada, mas um nada que dela me isola, impede-me de sê-la, permite apenas julgar sê-la, ou seja, imaginar que a sou". (pg. 106-07).



A questão dá má-fé é uma parte da teoria de Sartre que encontra estrita consonância com a literatura. Embora o personagem de Sartre que seja quase uma encarnação da má-fé seja Antoinette Roquentin, de A Náusea, iremos tentar aproximar algumas das considerações feitas com os personagens de A Idade da Razão2, primeiro romance da Os Caminhos da Liberdade. Essa, ao meu ver, é a parte da trilogia que encontra relações mais definidas com o objeto de nosso estudo. Mathieu DeLarue é o professor de filosofia que se vê às voltas com um problema, sobre o qual o romance gira: sua namorada está grávida, e ele procura dinheiro para pagar o aborto. Mathieu é um homem maduro, chegando aos 40 anos, assim como sua namorada, Marcelle. Mas esta quase não tem vida social, fica confinada na casa de sua mãe, é cheia de conflitos, insegurança, e dúvidas. Trata Mathieu com carinho e condescendência. Mas Mathieu está longe de querer assumir um compromisso definitivo com ela. Vaga como folha ao vento sabendo que não está vivendo sua vida verdadeiramente. Mas espera uma oportunidade, ao mesmo tempo que flerta com Ivich, irmã de seu aluno e admirador Boris. Completando o círculo de personagens principais temos Daniel. Homem bonito, bem financeiramente, é sempre assediado pelas mulheres, mas nutre desprezo e ódio por elas e por quase tudo à sua volta.


A técnica narrativa de Sartre é soberba, um personagem por capítulo é abordado, num tempo simultâneo, o narrador girando como uma roleta impessoal, implacável e indiferente. As possibilidades de Mathieu vão se esgotando, na medida em que vê suas tentativas, uma a uma, frustradas. Seu tempo também escoa rápido, pois Marcelle revelou sua gravidez já tarde, e dentro de mais um mês o feto estará grande demais e o aborto será arriscado. Daniel, apesar de ter os quatro mil francos necessários, nega-os ter. Ele mantém encontros às escondidas com Marcelle. Mathieu se vê então obrigado a recorrer a Jacques, seu irmão tabelião, coisa que não queria. Jacques foi um rebelde durante a juventude, tendo participado do movimento surrealista, mas amadureceu, virando um burocrata da advocacia e fazendo um casamento de conveniência com uma mulher da sociedade. Se transformou num perfeito burguês, definição que não nega, mas sustenta. Jacques também tem o dinheiro, mas não quer emprestá-lo. Aproveita a visita do irmão para tecer severas críticas à sua vida pessoal. Mathieu estaria agindo como um homem casado, seu romance com Marcelle não teria mais nada de aventura. Ele vai visitá-la rotineiramente e lhe conta seus problemas no trabalho. Hipocritamente, estaria fugindo da responsabilidade sob a fachada de ser um amante, e não um esposo. Com 34 anos, já não têm nada de jovenzinho, e precisa atingir a idade da razão. Mathieu é um burguês, segundo Jacques, embora não o admita. Vive perfeitamente como burguês e tem uma situação financeira estável como funcionário público. Mas rejeita a burguesia e condena o modo de vida da sociedade parisiense. Jacques teria tido a coragem de assumir sua condição burguesa e entrar para a sociedade. Mathieu participa dela sem se deixar comprometer. É quase um espectro, vive sem viver. Apega-se a uma visão da liberdade plena que experimentou na juventude mas que agora se revela fugidia. Poderia se pensar numa acusação semelhante à que As Leis faria a Sócrates, se aceitasse o exílio, conforme relata o Criton de Platão: “Pois bem, Mathieu, desfrutaste esse tempo todo de nós, a Sociedade Parisiense, e mesmo assim nos nega. Usaste nossos bares, comeste nossas comidas, recebeste teu salário, repousaste faceiro nos braços de Marcelle durante todos esses anos, e mesmo assim não queres arcar com as conseuências dos teus atos. Tudo o que pedimos é que cases com Marcelle e admita ser burguês e conivente”.


No plano dos fatos, a acusação de Jacques se verifica. Mathieu estaria agindo de má-fé, apegando-se à uma transcendência. Ao mesmo tempo que desfruta da sociedade burguesa, não se vê envolvido nela, não se vê como um burguês. Essa fuga naturalmente é a razão de sua angústia. A ocasião da gravidez o coloca em cheque. Jacques oferece uma quantia ainda maior do que a que Mathieu pede se esse assumir sua posição e se casar com Marcelle. Sua conduta para com Marcelle a humilharia. É tão egoísta que sequer pensa que Marcelle pode querer ter o filho. Que afinal, não queira ser apenas sua amante, como no princípio do romance, mas sua esposa. Mathieu foge dessa pacata vida em família em nome de sua liberdade. Tem um amigo da juventude, Brunet, que é militante comunista. Brunet, como Jacques, teve a coragem de se assumir como o que é. Ou como brinca de ser. Toda a sua vida está sintonizada com o partido, com as agitações políticas que precederam a Segunda Guerra. Ele convida Mathieu a entrar nesse mundo de decisões reais e ações rápidas. Mas Mathieu, sofregamente, nega. Também não é isso que quer. Não se vê atraído pela agitação do partido, embora esse pareça ser o portador da única forma de contestação efetiva da sociedade burguesa na época. Mathieu flagela-se quando vê o velho amigo se afastar, decepcionado. Brunet, esse homem forte, tornaria o mundo real ao passar por ele. A vida de Mathieu é espectral, evanescente, justamente porque nega a intencionalidade do presente. Sua vida cotidiana não estaria à altura de seu projeto de liberdade, e assim ele se pede no vazio.

Mas o que quer Mathieu, afinal? As acusações de Jacques parecem ser justas, mas não seria possível, talvez, pensar numa defesa, numa justificação para a conduta de Mathieu? O próprio Brunet parece entender os motivos do amigo. Como dissemos, Mathieu teve um vislumbre da liberdade plena durante a juventude e sobre ela montou o verdadeiro projeto da sua vida. Enquanto não surge a oportunidade de realizá-lo, vai se arrastando pelas suas preocupações mundanas, deixando que decidam por ele aqui e ali. Pois ele próprio não tem uma justificativa convincente para seu modo de agir. Dependendo das circunstâncias, pode cometer alguns atos extremos, desvairados, como quando finca o canivete em sua mão com Ivich, "para afirmar sua liberdade". Mathieu se guarda para algo maior, para verdadeiras ocasiões, enquanto é arrastado pelo mundo em turbilhão. Para alguns, no entanto, é Daniel o personagem que mais se assemelha a alguém livre na narrativa. Daniel toma decisões espontâneas, livres, e age de acordo com elas. Durante alguns momentos, parece flutuar entre uma calhordice quase criminosa e cínica e bondade encenada. No final, assume-se pederasta, o que pode ser considerado, se associarmos com o homossexual do exemplo de O Ser o Nada (pg. 110), uma postura redentora por sua sinceridade. Ele age bondosamente com Marcelle, e de certa forma, a ama. Casa-se com e ela e torna-se pai adotivo do filho do amigo Mathieu. Mas é um ser solitário, que não deixa sua vida ser direcionada por circunstâncias externas.


Mathieu, depois de rejeitar o filho, a amante, os alunos e os amigos, encontra-se também só, como realmente sempre esteve. Sua consciência para de trafegar entre a facticidade e o vazio e encontra o momento presente. Essa afinal é sua entrada na Idade da Razão. Uma entrada tardia, talvez, e que traz consigo as marcas do passado, mas que ao mesmo tempo permite esperar do futuro apenas a exploração do presente como escolha ilimitada e responsável diante de infinitas possibilidades que por todo lado se desdobram.


1SARTRE, Jean-Paul. O Ser e o Nada. Tradução de Paulo Perdigão. Editora Vozes. Petrópolis, 1997. A bibliografia está contida nas notas.

2SARTRE, Jean-Paul. A Idade da Razão. Tradução de Sérgio Milliet. Editora Brasiliense. São Paulo, 1984. Para a formação de Idéias, foram consultados ainda O que é literatura? , do mesmo autor e o texto de Maurice Blanchot "Os Romances de Sartre" in A Parte do Fogo. Tradução e Ana Scherer. Rocco. Rio de Janeiro, 1997.

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