Consciência - Filosofia e Ciências Humanas

Algumas implicações do dois-em-um socrático na perspectiva arendtiana



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11/18/06

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ALGUMAS IMPLICAÇÕES DO DOIS-EM-UM SOCRÁTICO, NA PERSPECTIVA ARENDTIANA.

Por: Pedro H. S. Pereira (graduando em Filosofia . UFSJ / Direito no IPTAN).

Orientador: Prof. José Luiz de Oliveira (doutorando – UFMG).

Resumo

O presente artigo aborda o princípio moral do dois-em-um socrático, e as implicações trazidas pela sua presença naqueles que se utilizam da faculdade do pensar, que exercitada de maneira incessante, é capaz de nos deixar perplexos. A abordagem estende-se também àqueles que abrem mão dessa faculdade, demonstrando as conseqüências a que estão sujeitos. A irreflexão é fruto da massificação, e somente o exercício do pensar é capaz de nos livrar das implicações negativas advindas deste fenômeno.

Palavras-chave: dois-em-um / pensar / implicações.

Introdução

Quando nos dispomos a trabalhar quaisquer questões relativas à nossa consciência, a figura do filósofo grego Sócrates e seus intrigantes questionamentos aporéticos, nos leva através dos escritos da filósofa Hannah Arendt,1 a dedicarmo-nos de forma mais metódica ao presente assunto.

Quanto à figura de Sócrates, por não ter este deixado quaisquer escritos referentes a seus ensinamentos, tudo aquilo a que temos acesso a seu respeito, provém principalmente de seus discípulos Platão e Xenofonte, que transcreveram em algumas de suas obras, diálogos mantidos por Sócrates com outros cidadãos da polis grega.

É partindo da proposição de um destes diálogos platônicos, o Górgias, que encontramos o princípio moral do dois-em-um, na resposta de Sócrates ao interlocutor Cálicles enquanto dialogavam sobre o mal: “eu preferiria que minha lira ou um coro por mim dirigido desafinasse e produzisse ruído desarmônico, e que multidões de homens discordassem de mim do que eu, sendo um, viesse a entrar em desacordo comigo mesmo e a contradizer-me”.2

Como percebemos, Sócrates se importava incessantemente com a boa relação entre ele e o seu eu, pois é essa relação que faz do pensamento uma verdadeira atividade na qual sou ao mesmo tempo quem pergunta e quem responde3, quem propõe e coíbe a prática de atos impensados, quem chama a atenção e adverte moralmente sobre a ilicitude de minhas ações.

O modelo do dois-em-um de Sócrates

Ao trabalhar o modelo socrático do dois-em-um, Arendt quer estabelecê-lo como um referencial para o pensar, pois Sócrates, quando no exercício do dois-em­um, não quis em momento algum correr o risco de ficar em desacordo consigo mesmo4. Neste caso, o dois-em-um consiste em uma diferença que se estabelece dentro de minha própria unicidade5; isto é, o dois-em-um de Sócrates se realiza na pessoa considerando a companhia de sua própria consciência, e por isso não permite que esta entre em contradição consigo mesma.

A interpretação feita por Arendt a respeito do dois-em-um, é caracterizada pela amizade e pela contradição, pois para que haja amizade, torna-se necessário que eu e minha consciência estejamos em bons termos, caso contrário, terei que viver com o incômodo da contradição do eu consigo mesmo. Sócrates tinha enorme preocupação com essa condição dual e implicadora, pois sempre que ia cometer qualquer ato considerado reprovável pelo seu eu, sentia a presença de um demônio6 que o fazia mudar de idéia, e seguir pelo caminho mais correto: “Aquela minha luz profética, aquela de demônio, durante todo tempo (…) sempre se me opunha, mesmo em circunstâncias de pouca monta, assim que estivesse para fazer alguma coisa que não fosse me sair bem.”7 Logo, temos que o dois-em­um também funciona como uma espécie de senso reprovador que, através de seus princípios morais, não nos diz o que fazer, diz o que não fazer; não nos sugere princípios para a ação, coloca-nos demarcações que as ações não devem transpor,8e faz com que ajamos a todo momento cientes de seus resultados perturbadores, ao irmos de auto-encontro após o cometimento de algo reprovável.

Sócrates foi um cidadão que não abriu mão de forma alguma dessa sua condição dual. Em mais um dos diálogos Platônicos, o Hípias Maior, Sócrates, em conversa com Hípias, descreveu de forma bastante peculiar a interação mantida com seu eu, que consistia em ter sempre o esperando em casa um sujeitinho com o qual além de dividir o mesmo teto, tinha que estar de acordo para que ele não o perturbasse e questionasse sua estadia.9

Decerto, o dois-em-um é uma implicação daqueles que buscam fazer companhia a si mesmos, pois aqueles que a renegam e primam em viver internamente sós numa fuga dessa realidade, acabam por ter como resultado, uma má formação da própria consciência, e esta segundo Arendt, é o alicerce para o ego pensante, à medida em que nos faz cientes de nosso posicionamento e realidade perante a sociedade, levando-nos à notoriedade: “O que o pensamento torna real, no meio deste processo infinito, é a diferença na consciência, [...] é apenas sob essa forma humanizada que a consciência torna-se a característica notória de um homem…”10

Algumas Implicações morais trazidas pelo dois-em-um

Todos somos capazes de exercitar o pensar, porém, este é suscetível de manobra por aqueles que não querem ter o peso de lidar com um ser questionador e intrigante ao se depararem com seu eu. Como nos ensina Arendt no texto Pensamento e considerações morais,11 “o pensar [...] não é prerrogativa de uns poucos; é antes uma faculdade que está sempre presente em todos; do mesmo modo, a inabilidade de pensar, não é .prerrogativa. de muitos, aos quais falta potência cerebral, mas sim a possibilidade sempre presente em todos [...] de esquivar-se dessa interação consigo mesmo…”12 Essa fuga se dá porque o dois­em-um quando posto em prática nos incomoda, como diz Shakespeare em sua obra Ricardo III13, é como milhares de línguas que ficam todo tempo a nos condenar por nossos atos perjúrios, e nos faz refletir profundamente sobre as atitudes tidas pelo eu interior como ilícitas, e assim, torna-se sempre mais viável o desvio dessa interatividade, pois não implica em nenhum tipo de autocontradição contínua frente a nossas ações.

Sabemos que aos olhos da sociedade, enquanto a conduta tida como reprovável por nossa consciência não é desvendada no âmbito externo, há a possibilidade através do esquivar-nos da auto-interação, de reprimirmos ao castigo trazido pela violação moral cometida. Porém, quando o pensar é colocado em prática, sentimos as fortes conseqüências trazidas pelo senso interior, que partindo da realidade externa e se internalizando em nossas mentes através da consciência, faz com que nos sintamos mal e fiquemos perplexos ao cometer

qualquer ato moralmente reprovável, como ocorreu com Caim,14 que ao matar seu irmão Abel, viu-se no direito de ser morto por qualquer um que viesse a ter ciência do fato de ele ter desrespeitado a ordem divina. Tal exemplo nos faz claramente compreender que “a razão pela qual não devemos matar, mesmo quando não podemos sem vistos por ninguém, é que não queremos de modo algum estar juntos a um assassino.”15

A fuga da auto-interação e da faculdade do pensar pode nos levar a resultados desastrosos em nossa convivência social, vez que não abre as portas para as diversas facetas e possibilidades do vir a ser da realidade, fazendo com que ajamos quase que mecanicamente. Arendt cita como exemplo deste tipo de agir, o criminoso de guerra nazista Adolf Eichmann, que diferentemente do que ela imaginara, não era nenhum monstro ou ser demoníaco:

“A única característica específica que se podia detectar em seu passado, bem como em seu comportamento durante o julgamento e o inquérito policial, afigurava-se como algo totalmente negativo: não se tratava de estupidez, mas de uma curiosa e bastante autêntica incapacidade de pensar.”16

É por esta simples razão que ele, seguindo as ordens de seus superiores, cometeu o massacre de milhares de judeus durante a ascensão do regime nazista, como nos fala Nádia Souki em seu artigo sobre a mencionada questão:

“Eichmann era um homem que não parava para refletir. Ele não tinha perplexidades e nem perguntas, apenas atuava, obedecia. Seu desejo de agir corretamente, de ser um funcionário eficiente, de ser aceito e reconhecido dentro da hierarquia, o tornou [...] incapaz de fazer a diferença entre encaminhar ofícios e assinar ordem para o massacre de milhares de pessoas.”17

Quando questionamo-nos acerca da proliferação do regime totalitário dentro da organização estatal alemã, talvez não consigamos imaginar o porquê de sua tão irrestrita aceitabilidade. O incrível é que este fenômeno propiciado pela não utilização da faculdade do pensar, chamado por Arendt de massificação, nos leva como no caso de Eichmann, a querer agir única e exclusivamente sobre os moldes e condutas impostas pela e dentro da realidade a qual estamos inseridos, levando-nos a agir monotonamente, para estarmos em conformidade com o todo18.

Em sua obra Ricardo III, Shakespeare nos dá um exemplo bastante interessante através do personagem Ricardo, da condição impensante sendo “destruída” pela utilização da faculdade do pensar, devido ao encontro profundo com o eu através das referidas implicações morais trazidas pelo dois-em-um.

Almejando unicamente a ascensão ao poder, Ricardo não deixou de medir esforços para alcançar mesmo que de forma cruel o trono inglês. Seu intenso desejo de sagrar-se rei levara-o a renegar sua dualidade até o momento em que foi a seu encontro, vendo-se em profunda contradição devido aos hediondos atos cometidos:

“Perjúrio, perjúrio em mais alto grau, homicídio, terrível homicídio, em mais horrorendo grau, todos os crimes levados ao grau supremo, ocorrem em multidão para acusar-me, gritando todos: .Culpado! Culpado!. Desaparecei! Nenhuma criatura humana me ama! E se morrer nenhuma alma terá piedade de mim [...] Pareceu-me que as almas de todos aqueles que eu assassinei, na minha tenda entraram, e cada um ameaçava sobre a cabeça de Ricardo a vingança de amanhã!”19

Note-se que as reações tidas por Ricardo após o exame de consciência, possibilitam-nos entender o porque de ser tão necessário o contínuo cultivo de nossa condição dual, para que não sintamos o embate frontal do reflexo negativo das implicações morais advindas de atos incorretos que cometemos, o que nos leva a uma contradição tão maior quanto forem as regras e leis morais por nós transgredidas durante o tempo em que não exercitamos o pensar.

Considerações finais

A irreflexão e fuga do dois-em-um trazido pelo não pensar, tem se mostrado um fato bem corriqueiro com o fenômeno da massificação. Em sua realidade a massificação nada mais é do que uma forma de apologia ao não pensar, a medida que deixa de levar em conta a necessidade que temos de nos posicionar criticamente frente à realidade daquilo com que lidamos. Arendt nos alerta acerca dessa situação, pois segundo ela, não podemos deixar de lutar em nenhum momento contra a ascensão do não pensar: “quando todos se deixam levar impensadamente pelo que os outros fazem e por aquilo em que crêem, aqueles que pensam são forçados a aparecer…”20

E é através da maiêutica, um processo socrático pelo qual pode-se levar as pessoas a pensar, parir suas próprias idéias e abrir os olhos para a realidade, que se torna possível disseminar a utilização da faculdade do pensar e fazer com que o dois-em-um socrático passe a ser princípio de peso em momentos de decisão em qualquer indivíduo, levando-o para e pelo caminho mais coerente. Do contrário, a fuga do próprio eu, e o alastrar dessa possibilidade não pensante, concorre para o aumento da realidade mecanicista, e o fim do policiamento integral trazido pelo senso implicador gerado em cada um através da faculdade do pensar.

Notas

1 Johannah Arendt (1906-1975) foi uma filósofa alemã de ascendência judia que presenciou a ascensão da Alemanha nazista, e a partir da realidade histórica e filosófica vivida durante a vigência do regime totalitário, desenvolveu alguns dos seus principais questionamentos filosóficos que sempre circundam em torno do poder questionador trazido pelo pensar.
2 GÓRGIAS, 482c.
3 ARENDT, Hannah.. A vida do Espírito. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1992, p.139.
4 Idem, p.137.
5 Idem.
6 Note-se que de acordo com Abagnano em seu Dicionário de Filosofia (ABAGNANO,1960, p.224), os demônios eram para os gregos como seres divinos que, apesar de não supremos, tinham habitualmente a função de mediação sobre alguma atitude dos indivíduos, não necessariamente agindo de forma maléfica, exemplo disso dado pelo autor é do próprio Sócrates, que tinha um demônio que não o deixava fazer coisas erradas, chamando sua atenção sempre quando partia para a ratificação de alguma.
7 PLATÃO. Apologia de Sócrates. São Paulo: Nova Cultural, 2000. p.95.
8 ARENDT. Hannah. Desobediência Civil. In: Crises da República. São Paulo: Perspectiva, 1973. p.60
9 Cf: op. Cit.3, p.141.
10 Op. Cit. 3. p.140.
11 ARENDT, Hannah.Pensamento e considerações morais. In: A Dignidade da Política. Rio de Janeiro: Relume Dumará,1997. p.143 ss.
12 Idem, p.166.
13 SHAKESPEARE, Willian. RicardoI. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1995. p. 651 (Coleção Obras Completas).
14 Gênesis 4,1-16.
15 ARENDT, Hannah. Filosofia e Política. In:A Dignidade da Política. Rio de Janeiro: Relume Dumará,1997. p.103.
16 Op. Cit. 11, p.143. Cf: Eichmann em Jerusalém. Na citada obra, Arendt, que presenciou o julgamento e condenação de Eichmann pelos crimes cometidos por este durante a vigência do regime nazista, relata fatos de seu julgamento, além de se utilizar da figura deste para trabalhar questões relativas ao pensar.
17 SOUKI, Nádia. Hannah Arendt e a banalidade do mal. In: Extensão. Belo Horizonte. V.8. nº26. p.53. ago. 1998.
18 Sobre esta experiência totalitária a que Arendt se refere em muitos de seus textos, demonstra-se bastante proveitosa a análise do filme baseado em fatos verídicos “A Onda”, com a direção de Leslie Waldman, Michael Kick e Paul Deason, estrelando Danny Marmontejo, Frank Lloyd, Max Copage (e outros), que conta a história de um professor de uma cidadezinha da Califórnia nos Estados Unidos, que desenvolveu uma experiência totalitária com sua turma, levando-a a resultados bastante desastrosos em seu convívio.
19 Op. Cit.13. p.651-652
20 Op Cit. 11. p.167.

 

Bibliografia consultada:

ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Mestre Jou, 1960.

ARENDT, Hannah. A vida do Espírito. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1992.
A Dignidade da Política. Rio de Janeiro: Relume Dumará,1 997.
Crises da República. São Paulo: Perspectiva, 1973.
Eichmann em Jerusalém. Belo Horizonte : Companhia das Letras, 1999.
BIBLIA de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 1998.
A Onda. Direção de Leslie Waldman, Michael Kick e Paul Deason. Produção: Bruce Hendricks. Atores: Danny Marmontejo, Frank Lloyd, Marc Copage e outros. T.A.T. Comunications Company,1981.

PLATÃO. Apologia de Sócrates. São Paulo: Nova Cultural, 2000.
Górgias. Pará: Universidade Federal do Pará, 1980. Vol III-IV (coleção diálogos)

SHAKESPEARE, Willian. Ricardo III. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1995. (Coleção Obras Completas).

SOUKI, Nádia. Hannah Arendt e a banalidade do mal. In: Extensão. Belo Horizonte. V.8. nº26. p.51 -59. ago. 1998.

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No Responses para “Algumas implicações do dois-em-um socrático na perspectiva arendtiana”

  1. 1
    Ana assis Almeida:

    O texto me pareceu muito incipiente. Nao sei da formacao do autor, mas acredito que suas informacoes sobre a filosofia socratica ficam muito a desejar, talvez porque sua especialidade seja mesmo Hanna Arendt.

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