A evolução no pensamento de Comte



A evolução do pensamento de Auguste Comte

Ricardo Ernesto Rose Jornalista, Licenciado em Filosofia e Pós-Graduando em

Em seu processo de desenvolvimento da sociológica, o pensamento de Augusto Comte passou por três etapas. Na primeira fase, que vai aproximadamente de 1820 a 1826, Comte analisa a sociedade de seu tempo, avaliando o desenvolvimento da industrialização – a havia sido recentemente introduzida no processo produtivo e era a grande novidade nos transportes; os aspectos sociais – migrações do campo para as cidades, surgimento de uma classe operária; e científico tecnológicos – a física vai ampliando sua área de conhecimento enquanto a química e a dão seus passos iniciais. Comte chega à conclusão que um novo tipo de sociedade estava nascendo; científica e industrial, em oposição à sociedade que estava morrendo, a teológica, ainda ligada ao modo de pensar dos teólogos e sacerdotes. Através desta análise, Comte acaba concluindo que uma ordem social que chamou de teológico-militar estava em decadência, sendo substituída por outra que denominou científico-industrial.

Assim como muitos de seus contemporâneos, Comte acreditava que estava vivendo em uma crise civilizacional. Esta idéia era comum à época em que Comte iniciava o desenvolvimento de suas teorias, no início do , e partilhada por vários intelectuais. As grandes mudanças sociais e tecnológicas tiveram um forte impacto sobre as mentes mais esclarecidas da época. Como exemplo, temos um texto do escritor, poeta e pensador italiano Giaccomo Leopardi, escrito em 1825:

“Ora, para chegar ao atual estado de civilização ainda não perfeita, quanto tempo tiveram que sofrer esses povos? Tantos anos quanto se pode enumerar, desde a até os tempos mais próximos. E quase todas as invenções de maior necessidade ou proveito para a conquista do estado civil originaram-se não da razão, mas de meros acasos: de modo que a civilização humana é mais obra de sorte do que de natureza; e onde estes acasos não ocorreram vemos que os povos ainda são bárbaros, mesmo que tenham tanta idade quanto os civilizados.” (Leopardi: 1992, p. 103)

Em uma segunda fase do desenvolvimento de seu pensamento, que vai aproximadamente de 1820 a 1842, Comte amplia sua perspectiva, procedendo a uma análise mais aprofundada da história e do desenvolvimento das ciências. Como resultado desta avaliação histórica e epistemológica, Comte desenvolve a lei dos três estados e a classificação das ciências.

A lei dos três estádios reflete o desenvolvimento da maneira como as sociedades – e também dos indivíduos – compreendem e se situam no mundo. Assim, segundo Comte, as sociedades passam pela fase teológica, metafísica e positiva.

Na primeira, a fase teológica, o pensamento religioso tem forte influência na forma como a sociedade enxerga o mundo, também condicionando a forma como os indivíduos se relacionam entre si. A “vontade de Deus” e o pensamento teológico são hegemônicos em uma sociedade situada neste estádio, a exemplo da medieval (século V ao XV), dominada pela visão religiosa do mundo e pela igreja católica – com todas as suas implicações culturais e políticas. No estádio teológico as sociedades têm uma visão fatalista do universo e se vêem à mercê da vontade de divindades.

Já no metafísico, a sociedade é dominada pelo pensamento abstrato, período em que se desenvolve a filosofia e têm início as ciências naturais. Comte localiza o início deste estádio a partir do Renascimento, quando figuras como Leonardo da Vinci e Galileu, Bacon e Descartes, estabeleceram as bases do pensamento filosófico-científico moderno. No entanto, mesmo neste , ainda são evocadas entidades abstratas, como a natureza, a liberdade e outras. Foi somente no científico – cujas bases teóricas foram colocadas ainda do período metafísico por cientistas como Galileu, Kepler, Newton e outros – que a humanidade entra no período . Não mais sujeito as divindades ou princípios abstratos, o homem agora segundo Aron “[...] se limita a observar os fenômenos e a fixar relações regulares que podem existir entre eles, seja num momento dado, seja no curso do tempo; renuncia a descobrir as causas dos fatos e se contenta em estabelecer as leis que o governam.” (Aron: 2008, p. 87).

Comte, no entanto sabia que a passagem de um estágio para o outro não ocorre ao mesmo tempo em todas as disciplinas intelectuais. Desta forma, a lei dos três estágios, na avaliação de Comte, só tinha sentido quando associada com a classificação das ciências. Isto queria dizer que a maneira de pensar positiva havia se imposto primeiramente à matemática, já com os gregos e modernamente com Descartes, e Newton, entre outros. Daí passou para a física de Galileu, que utilizava a matemática como linguagem, depois para a química e a biologia, em um grau crescente de complexidade. O desenvolvimento deste processo, cada vez ganhando em consistência e incorporando conhecimentos de todas as outras ciências, tem coroamento na criação de uma ciência positiva da sociedade, a sociologia. Esta idéia de desenvolvimento cumulativo está sempre presente na obra de Comte:

“Chega-se assim gradualmente a descobrir a invariável hierarquia, a um tempo histórica e dogmática, igualmente científica e lógica, das seis ciências fundamentais, a matemática, a astronomia, a física, a química, a biologia, e a sociologia, das quais a primeira constitui necessariamente o ponto de partida exclusivo e a última o fim único e essencial de toda a filosofia positiva, considerando doravante como formando, por sua natureza, um verdadeiramente indivisível, onde toda a decomposição é radicalmente artificial, sem ser, aliás, de nenhum modo, arbitrária, relacionando-se tudo isso enfim à Humanidade, única concepção plenamente universal.“ (Comte: 2007, p.94)

Comte não estabeleceu uma metodologia rígida para a pesquisa sociológica. No entanto, em diversas partes de sua obra, escreve sobre a observação direta e indireta, o método experimental, os métodos comparativos, o método classificatório e o método histórico.

Muitas de suas idéias não eram exclusivas e nem originais. A lei dos três estados, já se encontra sob outra forma na obra do historiador Giambatitsta Vico (16881744) e mais remotamente nos escritos de Joaquim de Fiore (século XIII). Este último estabelece as três idades ou eras para a história humana: a era do Pai, do Filho e do Espírito Santo; cada uma delas refletindo um tipo diferente de prática da religião cristã (Fiore foi censurado pela Igreja e seu pensamento classificado como herético).

Em sua ciência, a sociologia, Comte queria aliar o aspecto científico ao reformista. Acreditava que a vida social era governada por princípios básicos que poderiam ser descobertos. A atuação da sociologia, segundo Comte, deveria ser baseada na pesquisa de fatos verificáveis, a partir dos quais fosse possível formar teorias sociais. Por um lado, Comte queria criar uma ciência que pudesse explicar diversos aspectos do desenvolvimento humano, através da descoberta de leis gerais – já que Comte acreditava em um certo determinismo na história humana. Por outro, também esperava descobrir regras que pudessem transformar a sociologia como guia de conduta da humanidade – fato que o levou mais tarde a fundar a Igreja Positivista. Assim, apesar de muitas vezes partir de premissas não científicas, é inegável que Comte deu à sociologia os princípios fundamentais de uma ciência, contribuindo para seu desenvolvimento futuro.

O positivismo, teoria de que é possível observar os fatos sociais e daí extrair conhecimentos confiáveis para então elaborar teorias sobre o funcionamento da sociedade, está em grande parte ultrapassado e atualmente exerce pouca influência na sociologia. Seus críticos afirmam que o positivismo dá uma ênfase desnecessária a fatos superficiais, sem dar atenção a outros mecanismos que não podem ser observados.

Bibliografia:

  • ARON, Raymond. As etapas do pensamento sociológico. São Paulo. Martins Fontes: 2008, 884 p.
  • COMTE, Auguste. Discurso sobre o espírito positivo. São Paulo. Editora Escala: 2007, 110 p.
  • MORAES FILHO, Evaristo de. (org.) Comte – Série Sociologia. São Paulo. Editora Ática: 1978, 207 p.
  • GIDDENS, Anthony. Sociologia. Lisboa. Fundação Calouste Gulbenkian: 2010, 725 p.
  • JOHNSON, Allan G. Dicionário de Sociologia. Rio de Janeiro. Zahar Editores: 1997, 300 p.
  • LEOPARDI, Giacomo. Opúsculos Morais. São Paulo. Editora Hucitec: 1992, 285 p.

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