A RAPOSA E O MOCHO e A Raposa e o GALO – Fábulas de Animais



A RAPOSA E O MOCHO

Estava um mocho piando num galho de castanheiro. Ouvindo-o a raposa aproximou-se cautelosa, saltou-lhe em cima, filando-o.

 Cá tenho ceia!

O mocho, sabendo a sorte fatal, pensou num ardil para livrar-se da morte certa. E começou a dizer para a raposa:

 Oh raposa! Hoje apanhaste caça real. Não deves calar essa façanha e sim proclamá-la para que todos a ouçam, conhecendo teu valor.

Vai a raposa, toda orgulhosa, ouvindo. Continua o mocho:

 Ali passam uns lavradores. Grita alto: colhi mocho, mocho comi!

A raposa, convencida pela lisonja, abriu a bocarra, gritando:

 Mocho colhi! Mocho comi!…

E logo o mocho atirou-se num voo, pelo ar em fora, livre e gritando por sua vez:

 Coma a outro e não a mim…

Muito conhecida nos fabulários de Portugal e Brasil, onde o mocho é substituído pelo canção (Cyanocorax cyanoleucus). Nas versões espanholas de León e Ávila, colhidas pelo prof. Au relio M. Espinosa ("Cuentos Populares españoles", III, números 258 e 259) o alcaraván escapa fazendo o zorra gritar: Alcaraván comi! Aoredor do tema, o animal captor persuadido que deve falar, deixa a vitima fugir, há longa biblio grafia, variantes estudadas em vários folclores K 561.1 no "Motif-Index" de Stith Thompson encontrando-se em Chauvin, como de origem ábe, no velho poeta inglês Chaucer (segundo Robinson), entre os negros americanos, Cab Verde, Jamaica, Hotentócia. Maior indicação de fontes na relação que acompanha os "motivos" Mt. 6, (o animal preso pergunta ao captor a direção do vento); Mt. 122 (o lobo perde a presa que lhe pediu para que examinasse o passaporte, etc; que o olhasse de face, que cantasse, etc): uma pausa para orar, Mt. 227. É corrente em toda Europa nessas diferentes modificações.

A RAPOSA E O GALO

Uma raposa viu um galo pousado em cima de um pinheiro e não podendo agarrá-lo, começou-lhe a falar cá de baixo.

 Oh galo, não sabes? Veio agora uma ordem para todos os bichos serem amigos uns dos outros. Nós cá as raposas já não temos guerra com os cães, estamos amigos; e tu podes-te descer cá para baixo, que eu já te não faço mal.

Estava nisto quando vem uma matilha de cães, e farejando-lhes a raposa, botam-se atrás dela. A raposa ia sendo agarrada, mas fugia o mais que podia. O galo, de cima do pinheiro gritava-lhe:

 Mostra-lhe a ordem,! Mostra-lhe a ordem! A raposa, ainda de longe lhe respondia:

—Não tenho vagar! Não tenho vagar! E fugia por entre uns tremoçais, que já estavam secos, e faziam uma grande bulha, e ela dizia:

 Ai que rica festa, e logo hoje que vou com tanta pressa.

É a versão portuguesa de Airão, Teófilo Braga, "Contos Tradicionais do Povo Portu guez", II.», pp. 173-4. Porto. 1883.

O mestre indica uma variante inglesa, no "Contos Populares da Gram Bretanha", tradução de Brueyre. É a fabula de la Fontaine, Le

Coq et le Renard. O Prof. Espinosa regista uma versão espanhola de Santiponce, Sevilha, "El galo y la zorra". Fugindo, rosnava a zorra: "Ya me voy, que pué que aqué no entienda bien la orden", "Cuentos Populares Españoles", III, p. 455. É o Mt. 62 de Aarne Thompson, Peace among the Animals. Stith Thompson assim re sume: "The fox tries to beguile the cock by reporting a new law establishing peace among the animals. Dogs appear and the fox flees saying that the dogs have not heard of the new law". J 1325 dos "Motif-Index". O tema é conhecido na Estonia, Filândia, Dinamarca, No ruega, no conto 86 dos irmãos Grimm, Livôniia entre os indígenas norte-americanos. Lancaster estudou-o no "Publications of the Modern Lan guage Association of America", XXII, 33, "The Peace Fable".

Fonte: Os melhores contos Populares de Portugal. Org. de Câmara Cascudo. Dois Mundos Editora, 1944.

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