Consciência - Filosofia e Ciências Humanas

Biografia de Aníbal de Cartago, por Plutarco – Vidas Paralelas


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04/20/08

XIII.Aníbal, então, veio de Turim à região dos insúbrios e teve como antagonista a Públio Cornélio Cipião, que partiu apressadamente de Marselha, e atravessando o Pó e o Ticino, acampara não muito longe do inimigo: de modo que, pouco tempo depois, tendo ambos os generais saído para reconhecimento, houve uma escaramuça de cavalarianos, que durou algum tempo, sem que se pudesse saber quem levaria vantagem. Finalmente, os romanos, vendo o cônsul mui aflito, quando os cavaleiros númidas avançavam para cercá-los por trás, foram obrigados a recuar e, assim, pouco a pouco, retiraram-se, defendendo-se como melhor podiam, para salvar o cônsul, chegaram até seu próprio acampamento . Diz-se que, então, P. Cornélio Cipião foi salvo por seu filho, (depois cognominado o Africano) que ainda era muito jovem: louvor que, certamente (tanto é soberano, quanto prestado em tão grande juventude), é assaz verossímil, e conforme às grandes empresas depois por ele realizadas. Cipião, tendo assim experimentado quanto seu inimigo era mais poderoso do que ele em cavalaria, determinou colocar-se num acampamento, no qual a infantaria estivesse mais garantida, e pudesse combater com maior vantagem. E assim, durante a noite ele atravessou o rio Pó, com o menor ruído possível, e se dirigiu a Plaisance.

 

XIV. O mesmo fez, pouco tempo depois, T. Semprônio Longo, que tinha sido chamado novamente pelo senado, da Sicília, a fim de que os dois cônsules dirigissem os negócios públicos com a mesma autoridade e de comum acordo. Aníbal igualmente os seguiu com todo o seu exército e acampou com todos os seus soldados perto do rio Trébia, esperando que, pela proximidade dos dois acampamentos, apresentar-se-ia logo alguma ocasião de combater, o que ele desejava ardentemente, não só porque ele não podia mais e por mais tempo sustentar a guerra por falta de víveres, mas também porque ele suspeitava da volubilidade dos gauleses: pois, assim como bem depressa se teriam unido a ele e gozado da sua amizade, levados pela esperança de melhoria e pelo renome da vitória por ele conquistada, também, pensava ele, por alguma causa fútil, (como se a guerra se prolongasse por muito tempo em seu país) eles voltariam toda a raiva e o ódio que tinham contra os romanos, contra ele, como o único autor da guerra. E, por isso, procurava de, por todos os meios, o motivo para travar a batalha. Durante essas tratativas, Semprônio, o outro cônsul, encontrou um grupo de inimigos carregados de presas de guerra e esparsos pelo campo, aos quais ele atacou e pôs em fuga: imaginando, por este episódio, o resultado de toda a batalha, pela feliz sorte que tinha tido, concebeu uma grande esperança da vitória, se por acaso os dois exércitos se encontrassem e viessem a lutar. Pelo que, desejando praticar algum ato extraordinário, antes que Cipião deixasse o consulado e que outros fossem eleitos em seu lugar, deliberou travar a batalha, mesmo contra a vontade do outro cônsul, seu companheiro, o qual julgava não haver coisa mais fora de propósito do que arriscar os negócios públicos, quando todos, ou quase todos os gauleses estavam em armas contra eles.

 

XV. Aníbal foi avisado de tudo isso, por meio dos espiões que ele havia enviado ao acampamento dos inimigos. Por isso, fino e astuto como ele era, escolheu logo um lugar entre os dois campos, todo coberto de sebes e moitas, onde pôs seu irmão Mago, de emboscada, com uma tropa de elite. Depois ordenou aos cavaleiros númidas que corressem até às muralhas e trincheiras dos romanos e os provocassem, para os trazer à batalha. Depois de ter remunerado o resto do exército, levou-o em ordem, a fim de estar sempre preparado para o que acontecesse. O cônsul Semprônio, ao primeiro tumulto dos númidas, mandou logo também seus cavaleiros contra eles e depois seis mil soldados de infantaria, e por fim saiu ele mesmo do acampamento com todo o exército. Era pleno inverno e fazia muito frio, também nos lugares fechados pelos Alpes e pelo monte Apenino. Os númidas, como lhes havia sido ordenado, atraíam os romanos pouco a pouco para aquém do no Trébia, até que, tendo chegado ao lugar, de onde podiam reconhecer suas insígnias, de repente, voltaram-se contra os inimigos que estavam em desordem. É costume dos númidas recuar muitas vezes, propositalmente, e depois parar de repente, quando lhes parece, para voltar a atacar o inimigo, mais fortemente e com mais fúria do que antes. Por isso Semprônio reuniu logo seus cavaleiros e preparou a batalha, segundo o momento o exigia, para ir enfrentar seu inimigo, que o aguardava enfileirado para a luta. Aníbal tinha seu exército pronto, para aproveitar a ocasião que se lhe apresentava. A refrega começou primeiro, no encontro da cavalaria ligeira, depois, pela infantaria; mas os cavaleiros romanos, não podendo suportar o choque dos inimigos, foram logo desbaratados. E as legiões sustentaram a batalha com tal esforço, com tanta coragem, como elas sabiam resistir, quando não se exigiria senão o trabalho das tropas de infantaria. Mas, de um lado, os cavaleiros e os elefantes os assustavam e, de outro, a infantaria os perseguia de muito perto, combatendo com grande violência, contra corpos esfomeados e enregelados. Os romanos, suportando tantos males e perigos, dificuldades que lhes vinham de todos os lados, com uma coragem e magnanimidade acima das próprias forças, combateram sempre, até que Mago, saindo da sua emboscada, veio atacá-los de improviso, com grandes gritos, e o batalhão do meio, dos cartagineses, veio por ordem de Aníbal lançar-se sobre os cenomânios. Vendo então os romanos que seus aliados fugiam, perderam a coragem. Dizem que dez mil soldados romanos de infantaria se retiraram a Plaisance, passando todos através dos inimigos. O resto do exército que fugia foi na maior parte reduzido em pedaços pelos cartagineses (22). O cônsul Semprônio fugiu assim das mãos dos inimigos, não sem grande perigo para sua pessoa. A vitória também custou caro a Aníbal, pois ele perdeu um grande número de homens e seus elefantes foram quase todos mortos.

(22) No ano 536 de Roma.

 

XVI. Depois desta vitória, Aníbal percorreu toda a região, passando tudo a ferro e fogo: tomou várias cidades e com poucos soldados desbaratou e pôs em fuga um grande número de camponeses, que se haviam ajuntado para dar-lhe combate, sem alguma ordem. Depois, no começo da primavera, pôs novamente em campo seu exército, mais cedo do que o tempo o exigia, e querendo passar à Toscana foi repelido por uma grande tempestade, junto ao vértice do Apenino, e por isso obrigado a fazer regressar seu exército para os arredores de Plaisance: mas bem depressa se pôs novamente em campo, por várias causas necessárias. Se não se tivesse salvado com esse alvitre, pouco teria faltado para cair nas emboscadas dos gauleses, que, estando descontentes por ter a guerra se prolongado demasiado em seu país, tinham-no como único culpado e causador da guerra. Obrigado por causa do perigo, julgou necessário apressar-se em passar seu exército para outra província. Além disso, pensava também que muito lhe haveria de servir para conservar sua reputação perante os estrangeiros, e para encorajar os seus se ele pudesse fazer, que aparecesse como assaz grande o poder dos cartagineses, que seu general, era de grande ânimo e coragem a ponto de ir fazer a guerra em lugares tão próximos da cidade de Roma. Pondo de lado todas as outras coisas, fez marchar o exército pelo monte Apenino, depois, passando pela região dos ligúnos, desceu à Toscana, pelo caminho que leva às planícies e pântanos das imediações do rio Amo (23) . O rio Arno estava naquele tempo muito cheio e transbordava, inundando todos os campos vizinhos. Por isso Aníbal, levando um exército tão numeroso, não pôde evitar a perda de muitos homens e animais, antes de poder escapar desses lugares pantanosos. E, de fato, ele mesmo, embora assentado sobre o dorso de um enorme elefante, o único que lhe restava, pelo trabalho e esforço ininterrupto, não descansando nem de dia, nem de noite, e pelo ar prejudicial, perdeu um dos olhos.

(23) A. direita do Tibre. onde ele se lança.

 

XVII. Nesse ínterim, o cônsul G. Flamínio, ao qual havia sido confiado o exército de Semprônio, tinha vindo a Arezzo, contra a vontade do senado, que estava aborrecido, porque ele, deixando em Roma seu companheiro Gneu Servílio, tinha-se retirado da província, ocultamente, sem as insígnias consulares e sem ajudantes. Ele era homem altivo por natureza, e tinha sido elevado bem alto pelo favor do povo, de modo que se tinha tornado tão atrevido, que se via bem claramente, e que ele tudo faria sem consideração nem premeditação. Sabendo de tudo isto, Aníbal julgou que seria melhor provocar o cônsul e fazer que ele entrasse em combate, antes da chegada do seu companheiro. Fazendo então marchar seu exército pela região de Fiesole (24) e de Arezzo (25), ele devastava e incendiava toda a região vizinha, enchendo-a de medo e de terror, sem ter outra finalidade, que destruir e queimar, até que chegou às montanhas cortonenses (26), e depois ao lago denominado Trasimeno. Tendo reconhecido o lugar, ele só cuidava em surpreender o inimigo em alguma emboscada e, para isso, mandou ocultar alguns cavaleiros nas elevações próximas, junto do estreito que leva ao Trasimeno e por trás da montanha colocou sua cavalaria ligeira. E com o resto do exército desceu ao campo, julgando que o cônsul não se conservaria impassível, como de fato aconteceu. Pois aqueles que têm a mente ardendo facilmente se expõem e caem nas emboscadas dos inimigos e frequentemente arriscam toda sua sorte, por não quererem acreditar num bom conselho. Flamínio vendo que a região estava toda devastada, o trigo cortado, as casas queimadas, apressou logo a marcha do seu exército, contra o parecer de todos, que eram de opinião, que ele devia esperar seu companheiro. Tendo, ao cair da tarde, chegado aos estreitos do lago Trasimeno, aí mandou estabelecer o acampamento, embora seus homens não estivessem nem cansados, nem esgotados pelo trabalho suportado na viagem. No dia seguinte, ao romper da madrugada, sem de qualquer outro modo inspecionar a região, passou o monte.

 

(24)      Acima do Arno.
(25) A esquerda do Arno, perto do lago Clusino
(26) De Cortona. cidade que está entre o Tibre e o Amo, acima do lago Trasimeno.
(27) No ano 537 de Roma.

 

 

XVIII. Então Aníbal, que há muito já se mantinha preparado, em pé de guerra, não esperando senão a ocasião de atacar, vendo os romanos lançarem-se na planície, fez sinal aos seus homens qua atacassem os inimigos. Os cartagineses, então, surgindo de todos os lados, pela frente e pela retaguarda, bem como pelos flancos, fecharam o inimigo entre o lago e as montanhas. Os romanos, ao invés, entrando na batalha, sem ordem alguma, combatiam cercados ainda por uma densa neblina, que lhes tirava a visão e os deixava como nas trevas, de modo que foi mesmo coisa extraordinária, como eles puderam sustentar por tanto tempo a refrega, pois estavam cercados de todos os lados. Combateram assim mais de três horas, com tanto ardor e coragem, que não perceberam os três grandes tremores de terra que então se deram, e jamais recuaram, até que souberam que o cônsul, indo de linha em linha, para dar coragem aos soldados, tinha sido derrubado e morto por um soldado de nome Ducário. Tendo então perdido seu general, perderam também todas as esperanças e fugiram, uns para as montanhas, outros para o lago, muitos dos quais foram mortos, na fuga. Ficaram (28) uns quinze mil no campo e uns dez mil salvaram-se de diversas maneiras. Dizem que havia ainda uns seis mil homens de infantaria, que desde o começo da luta tinham fugido para a encosta da montanha, com grande esforço, e permaneceram sobre um outeiro até o fim do combate, quando desceram, sob palavra de Aníbal, mas foram traídos e feitos em pedaços.

 

(28) Plutarco, na Vida de Fábio Máximo, acrescenta outros tantos prisioneiros. L’Écluse.

 

XIX. Depois desta grande vitória, Aníbal deixou partir, em liberdade, sem preço de resgate, a vários italianos prisioneiros, depois de os ter tratado com humanidade, a fim de que a fama da sua humanidade e clemência se divulgasse por todas as nações, embora por sua natureza ele fosse total mente contrário a tais virtudes. Pois era altivo e cruel de natureza, e tinha sido desde sua infância treinado no manejo das armas, exercitado no morticínio, nas traições e vinganças para com os inimigos, sem se importar com ordens, leis ou costumes civis. Eis como ele se tornou um dos generais mais cruéis, dos mais astutos e sagazes, em enganar os inimigos, de que jamais se teve notícia. Como ele estava sempre atento em iludir o inimigo, os que ele não podia vencer em guerra aberta procurava surpreendê-los em alguma emboscada ou cilada, como se pode ver pela presente batalha, e pela que ganhara antes contra o cônsul Semprônio, perto do rio Trébia. Mas voltemos ao nosso assunto e deixemos este argumento para outra vez.

 

XX. Quando se soube em Roma da derrota do cônsul Flamínio, que tinha sido vencido e morto com uma grande parte do exército, uma onda de lágrimas e de luto se espalhou pela cidade; uns tinham compaixão, pela calamidade pública, outros, pelas perdas sofridas e outros ainda por ambas as razões. E de fato, era um espetáculo muito triste, ver correrem de porta em porta, por toda a cidade, homens e mulheres em grande número, para ter notícias de seus parentes e amigos. Narra-se por escrito que duas mulheres, estando em grande aflição pela sorte de seus filhos, morreram repentinamente, pela grande alegria que sentiram, vendo-os sãos e salvos, contra toda a sua esperança. Nesse mesmo tempo o cônsul Servílio, companheiro de Flamínio, mandava-lhe quatro mil soldados de cavalaria, pois não tinha ainda sido notificado da batalha travada perto do lago Trasimeno; soube, porém, a caminho, da derrota de seus companheiros; como nessa ocasião eles pensavam em retirar-se para a Úmbria (29), foram cercados pela cavalaria dos inimigos e levados a Aníbal. Estavam os negócios públicos, em Roma, em grave perigo, por causa de tantas perdas sucessivas; determinou-se então criar um magistrado ordinário e seria também criado um cargo de ditador, que, como de costume, era o remédio extremo, reservado para os tempos mais difíceis e de grave risco para as coisas públicas. Mas, como o cônsul Servílio não podia regressar a Roma porque todas as passagens estavam ocupadas pelos inimigos, o povo de um partido, que ainda não estava resignado, criou ditador a Q. Fábio, que depois recebeu o cognome de Máximo e foi por ele nomeado chefe da cavalaria de M. Minúcio. Fábio era homem de grande inteligência, de muita prudência, e de muito alto conceito nos negócios públicos. E assim todos os cidadãos confiavam imensamente nele, persuadidos de que a honra da cidade se poderia manter sob o governo de tal chefe, melhor do que sob o de qualquer outro. Fábio soube disso e depois de ter com grande cuidado e diligência dado suas ordens para as coisas mais necessárias, partiu da cidade; após ter recebido o exército das mãos do cônsul Servího, acrescentou-lhe mais duas legiões e assim foi enfrentar o inimigo.

 

(29) A esquerda do Tibre, no mar Adriático.

 

XXI. Aníbal tinha-se retirado do lago Trasimeno e tinha tomado o caminho de Espoleto (30), para verificar se, ao primeiro ataque, ele podia capturar a cidade. Vendo, porém, que seus habitantes se haviam colocado sobre as muralhas e a defendiam muito bem, se pôs a saquear a região circunvizinha, queimando casas e aldeias; depois retirou-se para a Apúlia, pela Marca de Ancona, para o país dos marsianos e peligmanos. O ditador seguiu-lhe as pegadas, e acampou perto da cidade de Arpi (31), não muito longe do campo dos inimigos, com o objetivo de retardar a guerra, contemporizando. Os negócios dos romanos estavam então em tal estado, pela temeridade e louca ousadia dos generais do passado, que se julgava mesmo como vitória o não ser vencido pelo inimigo tantas vezes vitorioso. Por isso muitas coisas então se modificaram, com a mudança do comandante. Aníbal, depois de ter alinhado seus homens para a luta, vendo que o inimigo não se movia, se pôs a saquear toda a região, esperando que assim poderia atrair o ditador à luta, quando visse que as campinas dos seus aliados eram saqueadas na sua presença: ele, porém, nem por isso se incomodou, mas conservava sempre seus homens unidos, como se a coisa em nada absolutamente o visasse.

(30) Na úmbria. C
(31) Na Apúlia.

 

XXII. Aníbal ficou muito apreensivo pela tardança do general romano; mudava então constantemente de lugar, a fim de, marchando por diversos lugares, se lhe apresentasse alguma ocasião de enganar o inimigo ou então de travar combate. E assim, passando o monte Apenino, veio a Sâmnio (32) : mas, porque, um pouco antes, alguns habitantes da Champanhe (33), que haviam sido aprisionados, junto do lago Trasimeno, tinham sido gratuitamente libertados e soltos, davam-lhe esperança de poder tomar a cidade de Cápua, ele mandou o exército marchar, tomando um guia, que conhecia a região, para ser levado a Cassino (34) . O guia, porém, em vez de Cassino, entendeu Casilino (35), enganando-se pela semelhança das palavras, e os levou por um caminho completamente contrário, a Calentino e Caleno (36) e de lá aos arredores de Stella (37) . Mas, como se encontravam numa região rodeada de montanhas e de rios, Aníbal, percebeu que ele se tinha enganado: e mandou matar cruelmente o pobre homem que os havia guiado. Fábio, no entretanto, usava de grande paciência, deixando Aníbal correr livremente de um lado para outro, até que ele tivesse ocupado os montes Galicano (38) e Casilino, onde ele colocou guarnições, por ser um lugar de grande comodidade. E assim, quase todo o exército dos cartagineses ficou rodeado, e eles teriam sido forçados a morrer ali, por falta de víveres, ou então a fugir com sua grande vergonha, se Aníbal não tivesse evitado o perigo, com um expediente, dos que costumava imaginar. XXIII. Sabendo do perigo em que se encontrava, com todo o seu exército, e tendo observado a oportunidade das circunstâncias, ordenou aos seus soldados que lhe trouxessem uns dois mil bois, dos que tinham apanhado pelos campos e de que estavam bem provistos; tendo-lhes feito amarrar tochas nos chifres, mandou que alguém as acendesse e espantasse os animais para o vértice das montanhas, quando fizessem a primeira troca de sentinelas. Tudo se fez exatamente conforme tinha sido ordenado: quando os bois corriam para o alto do monte com as tochas acesas nos chifres, o exército os seguia a passo lento. Os romanos, que há muito haviam posto boa guarnição sobre as montanhas, ficaram assustados com essa cena e temendo alguma emboscada abandonaram incontinenti suas posições. Fábio mesmo, pensando que era algum ardil do inimigo, conservou seus homens no acampamento, não podendo saber de fato de que se tratava. No entretanto, Aníbal passou a montanha, não longe dos banhos Suessamanos (39), que os da região chamam agora a Torre dos banhos, e retirou-se com todo o seu exército, salvo, para os arredores de Alba: mas logo depois o fez marchar como se quisesse se dirigir diretamente a Roma, mas depois retrocedeu e foi à Apúlia, onde tomou Glerene, cidade rica e abundante de tudo: aí determinou passar o inverno.

(32)      No país dos Samnitas: a cidade de que L’Écluse fala. provavelmente chama-se Samnício.
(33)      Campânia.
(34)      No Lácio.
(35)      Na Campânia.
(36) A cidade municipal, chamada Cales, está a sete milhas de Casilino. Calácia, que aqui se chama Calentino, está ao oriente do verão de Cales.
(37) Não é uma cidade, mas um território perto da Calácia, de Cales e de Casilino.
(38) É também um território vizinho.
(39) De Sinuesse, na costa da Campânia.

 

XXIV. O ditador seguia-lhe ainda os passos e foi acampar não longe dos cartagineses, ao pé de Laurino (40) . Mas tendo sido chamado a Roma por causa de negócios do governo, teve de se retirar apressadamente; mas, deu ordem ao seu substituto que se conservasse quieto (41),. e não atacasse o inimigo e de modo algum combatesse durante a sua ausência. Porquanto ele estava decidido a manter sua primeira deliberação, isto é, não provocar o inimigo, nem combater, mesmo que o inimigo o provocasse. Todavia, M. Minúcio (assim se chamava o seu substituto) pouco se importando com as determinações do ditador, logo que ele virou as costas, atacou um grupo de inimigos, que tinha ido colher forragem e estava esparso pela campina, matando muitos deles, e os outros os foi perseguindo até o seu acampamento, A notícia desta escaramuça espalhou-se logo e chegou mesmo a Roma, e deram a ela tanta importância, que foi considerada uma vitória, e tanto prazer causou ao povo, que logo igualaram o poder do lugar-tenente ao do ditador Fábio: coisa que jamais havia sido feita antes. Fábio suportou paciente e magnânimamente essa injúria, que absolutamente não havia merecido e, depois, regressou ao acampamento.

 

(40) Larino, cidade dos freatanianos, que se limitam com os pelignianos e com os samnitas.
(41)      Comandante da cavalaria.

 

 

XXV. Havia então dois ditadores ao mesmo tempo (42), o que antes jamais havia acontecido, nem disso jamais se havia falado: dividiram eles o exército pela metade e ambos comandavam com poder absoluto, cada qual sobre o seu exército, como os cônsules costumavam fazer. Com isso Minúcio ficou muito orgulhoso, a ponto de deliberar ousadamente empreender a batalha sem dá-lo a conhecer ao seu companheiro, coisa que Aníbal, tantas vezes vencedor, jamais havia ousado fazer; levou seu exército a um lugar onde ele foi cercado pelo inimigo, de modo que Aníbal os ia matando à vontade, sem que eles tivessem esperança de poder escapar, se Fábio não tivesse chegado oportunamente, em tempo e hora precisas, para lhes prestar auxílio, tendo mais em vista, porém, o bem público, do que a injúria que havia recebido. Pois chegando à batalha com o seu exército ainda descansado causou medo a Aníbal, de tal modo que as legiões romanas tiveram oportunidade para se retirar a um lugar seguro. Por esse motivo Fábio obteve fama de muito grande virtude e de prudência, tanto entre os seus como entre os inimigos. Pois, diz-se que Aníbal, regressando ao seu acampamento, afirmou que naquele dia ele havia vencido a M. Minúcio, mas que ele tinha sido vencido por Fábio. Minúcio, mesmo depois, reconhecendo a sua prudência, e considerando que era mesmo necessário, segundo as palavras de Hesíodo, obedecer a um melhor do que ele, foi com todo o exército ao acampamento de Fábio e renunciando ao seu cargo, saudou-o com toda a reverência, como pai, de modo que naquele dia houve grande alegria entre os soldados.

(42)      Não de nome: mas o povo tinha dado ao comandante da cavalaria um poder igual ao do ditador, do qual èle anteriormente não era senão o lugar-tenente.

 

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3 Comentários para “Biografia de Aníbal de Cartago, por Plutarco – Vidas Paralelas”

  1. 3
    A história de Astarte, de Andrea Pazienza | Blog do Miguel:

    [...] Jan 11th, 2010 by Miguel Essa história não teve fim, já que o grande ilustrador italiano Andrea Pazienza faleceu antes de terminá-la. Pazienza era conhecido pela sua riqueza de detalhes e informações nas reconscituições históricas. Os quadrinhos mostram Astarte, um cão de guerra nascido na Anatólia, região asiática da hoje Turquia e treinado pelos púnicos na guerra contra os romanos. O próprio general cartaginês Aníbal aparece contando suas estratégias para vencer o inimigo. Aníbal de Cartago é conhecido como o “pai da estratégia”. Sua Biografia é contada por Plutarco em suas Vidas Paralelas. [...]

  2. 2
    j lopes:

    Ainda sobre Aníbal esqueci de citar a batalha do Lago Trasimeno onde mais uma vez Anibal deixou a marca de sua genialidade no cotrole do campo de batalha. Nesta batalha Aníbal massacrou duas legiões romanas. Não poderia também deixar de citar os valorosos guerreiros númidas, que foram os instrumentos sem os quais o artista não conseguiria realizar a sua obra prima. Esses númidas, cavaleiros velozes foram realmente o terror dos exércitos romanos. Guerreiros aldazes atores principais de todas as grandes vitórias dos Exercitos Cartagineses em campos da Peníssula Itálica.

  3. 1
    j lopes:

    É para mim uma honra muito grande travar contato com a história de homens brilhantes, como foi Aníbal, seus dois irmão Magon e Asdrubal. Também do lado dos romanos a família Cipião que tão grandes e ilustres homens produziu para sua pátri. Nos últimos anos tenho me debruçado sobre a história das Guerras Púnicas. É incrível a raça demontrada por esses homens. Quando leio essas guerras mais me convenço: O vencido venceu ao vencedor. No final Roma venceu. Mas as façanhas de Aníbal na travessia épica dos Pireneus e dos Alpes, suas vitórias em Tesino, Trébia e Canas jamais serão esquecidas e o colocam verdadeiramente no topo entre os comandantes do campo de batalha. No final os romanos prevaleceram por que antes de e tudo já eram uma grande nação, patriota, dígna como bem assim mostra a história. Poderia também afirmar que Aníbal foi o grande professor daquele que viria a ser o maior imperio de todos os tempos, o Império Romano. Na verdade Aníbal é o professor de todos que o sucederam. Acho que foi Aníbal que desvendou para o mundo a arte da guerra. Não sou um apologista da guerra, porém não é difícil perceber as marca da arte em suas ações e manobras no campo de batalha. Que gênio. Homens assim só aparecem de milênio em milênio.

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