BÓLOTOV – A  EXECUÇÃO  CAPITAL  DE  PUGACHEV

BÓLOTOV – A EXECUÇÃO CAPITAL DE PUGACHEV

Literatura – Contos Russos

ANDREY BÓLOTOV

(1738
— 1833)

ANDREI Timofeevich BÓLOTOV é um dos
espíritos mais originais do século XVIII na literatura, russa. Nasceu em 1738
e morreu em 1838. Suas "Memórias", como as de Danilov. do príncipe
Sachovskoj, ou da princesa Natalia Borísovna Dolgorúkova. são a fonte segura
para o conhecimento desses tempos na Rússia. As "Memórias" de Bólotov
se referem, especialmente, aos  fatos  históricos  desenrolados  entre   os  
séculos XVII      e XVIII. Os trabalhos de
Bólotov foram escritos entre 1789 e 1816. Nas revistas de caráter satírico que se publicavam então (começando em 1769) podem os estudiosos tomar conhecimento da vida intelectual dessa quadra.

Bólotov não é propriamente um
contista. Êle figura como um representante remoto da prosa
literária russa anterior aos tempos de Púchkin, quando a literatura tomou
verdadeiro impulso. Assim como Bólotov, também Karamzin poderia representar
bem a prosa dessa época- Avvakúm seria outro escritor bastante antigo para dar
a esta coleção um aspecto mais notadamente cronológico em relação às origens
literárias da Rússia. Contenta-mo-nos com Bólotov que aqui traz a marca do
século XVIII      russo e para isso nos servimos
de uma sua expressiva narração que tem muito de conto embora seja uma narração histórica.

A  EXECUÇÃO  CAPITAL  DE  PUGATCHEV

Naquele tempo toda Moscou
ocupava-se somente de Pugatchev. (1) Este monstro já fora, então,
levado lá e era mantido sob grilhões e toda Moscou ia ver o malfeitor como se fora um animal raro e tagarelava a seu
respeito. Contra êle, como contra um delinqüente político, se preparara, por
ordem da imperatriz, um importantíssimo e formal processo de Estado e ninguém
duvidava que êle seria executado.

Não fizera em tempo de
alcançar, saindo de Moscou, a última barreira, quando deparei com um oficial
meu conhecido, o Sr. Obubov, que ali morava e que gritou para mim:

—   Eh, eh, eh, Andrei Timofeitch,
para onde você vai correndo?

—   Volto para casa — disse eu.

—   Mas como, meu caro, você deixa
uma tal festa, pela qual toda a gente vem aqui até a pé?

—   Mas que festa? — perguntei.

—    Como,
você não sabe que hoje vão executar Pugatchev e dentro de uma par de horas, no
máximo? Pare, meu senhor, vale a pena ir assistir.

—    O
que você diz! — exclamei. É realmente uma pena! Quisera, deveras, assistir também,
mas agora que já estou em viagem, não tenho vontade de voltar.

—    Por
que voltar? Também eu vou. Vamos juntos no meu trenó. A carruagem ficará aqui
no meu quintal à tua espera.

—    Muito
bem, meu caro — disse eu, descendo logo da carruagem e entrando em sua casa,
onde me arrumei rapidamente, de modo que, poucos minutos depois, sentados no
trenó, voávamos para Boloto que era o lugar escolhido para a execução capital.

Encontramos toda a praça de
Boloto e a estrada que para lá conduzia desde a ponte de Bedra repletas de uma
massa enorme de gente.

Não posso dizer quanto estava
contente que o acaso me tinha dado um companheiro conhecido de todos os
policiais e bem informado de tudo. Levando-me de braço dado, êle não corria,
voava deveras, comigo, para achar o lugar mais cômodo para ver o espetáculo. E
logo vimos um rapaz numa alta carreta escoltada por soldados a cavalo. Estava
sentado ao lado de alguém e, em sua frente, sentava-se um padre.   A carreta
fora ajustada de um modo especial e era completamente aberta, a fim de que todo
o povo pudesse ver o delinqüente. Todos, de fato, o devoravam com os olhos e um
baixo e surdo murmúrio perpassava pelo povo. Mas nós não tínhamos tempo de
observar demoradamente o cortejo que procedia muito lentamente e, após ter
olhado por alguns minutos, nos apressamos em direção ao patíbulo para conseguir
o lugar mais cômodo para ver. Toda a zona do patíbulo estava circundada a
distância bastante grande, por um compacto e bem fechado cerco de soldados ali
postados com os fuzis carregados e em tal zona não se fazia entrar ninguém do
povo miúdo. Mas ao meu companheiro, como pessoa conhecida e de muitas relações,
e a mim, fizeram passar sem dificuldades. De resto, nós éramos também nobres e
a estes e aos senhores faziam passar sem detê-los. E como se reunira em grande
número deles, e isto porque Pugatchev se havia revoltado sobretudo contra os
mesmos, podia-se considerar e chamar, o acontecimento e o espetáculo do dia, a
verdadeira vitória dos nobres sobre aquele malfeitor, seu inimigo comum.

Eu e o Sr. Obubov tínhamos
conseguido, passando a custo entre a multidão de senhores, chegar até o patíbulo
; colocamo-nos a 20 ou 30 pés de distância, do lado oriental do mesmo,
exatamente onde Pugatchev devia ouvir a sentença condenatória do Senado, que
lhe deveriam ler. Deste modo, tínhamos o lugar mais cômodo para ver e,
enquanto não o tivessem levado lá, bastante tempo para examinar o patíbulo e o amplo
círculo em que este se achava, ainda não totalmente cheio de gente. O patíbulo,
erguido no centro, era em forma de quadrilátero, alto de uns bons pés,
recoberto externamente em todos os lados, por tábuas e, em cima, por uma
espaçosa plataforma cercada de um parapeito. Ascendia-se à mesma somente do
lado sul, por meio de uma escada sobre a qual havia uma roda fixada lá em cima
com uma pontuda haste de ferro. Em torno do patíbulo, num espaço de 150 a 200
pés, tinham sido erguidas, em círculo, algumas forcas, com os nós corredios já
prontos, pendentes de cada uma delas e com as respectivas escadinhas. Junto a cada uma vimos,
já prontos, os carrascos e os prisioneiros a serem executados, vigiados por
sentinelas. E assim outros, da mesma turma de malfeitores, estavam estendidos
no chão e acorrentados aos pés do patíbulo.

Apenas a carreta, com o
malfeitor, chegou, este foi agarrado, arrastado para baixo e levado pela
escadinha até a plataforma, onde foi colocado na extremidade do lado oriental,
justamente defronte a nós. Num instante toda a plataforma se encheu de
carrascos, de condenados e de guardas, porque os melhores amigos e confidentes
de Pugatchev deviam perder sua vida juntamente com êle, no patíbulo, de sorte
que já tinham sido preparados em todos os cantos e pontos do mesmo, os cepos e
os machados.

Junto a Emelka Pugatchev logo
apareceu o secretário, tendo em mãos a decisão do Senado e, diante dele,
embaixo, exatamente perto de nós, a cavalo, o Sr. Arbarov que era, então, o
chefe supremo da polícia.

Assim que tudo ficou pronto,
começou a leitura da sentença. Nós estávamos justamente ao lado do Sr. Arbarov,
tao perto que podíamos ouvir palavra por palavra o que estava sendo lido. A
nós, porém, não interessava tanto a leitura quanto a vista do delinqüente
condenado. E como a leitura lenta e em voz alta durou muito tempo, dado que na
decisão do Senado eram nomeados todos os cúmplices de suas ações delituosas e
eram relatadas todas as leis por força das quais êle devia ser executado,
tivemos todo o tempo para observar comodamente o monstro. Êle estava ali, de
pé, envolto numa longa pele de carneiro, num estado de torpor e
semi-inconsciência e não fazia senão benzer-se e rezar. Seu aspecto e imagem
não me pareciam corresponder em nada às ações que havia cometido. Não parecia
tanto um brutal e feroz bandido quanto um vivandeiro ou ta-berneiro de ínfima
ordem. Tinha uma barba pequenina, os cabelos despenteados e, em geral, um
aspecto insignificante e tão pouco semelhante ao do defunto imperador Pedro
III que eu tivera ocasião de ver tantas vezes de perto, que, olhando-o, nada
mais fazia que repetir:

— Deus meu! até que ponto de
cegueira chegou nosso tolo e crédulo povinho para tomar este mau sujeito pelo
defunto Pedro III!

Entretanto, embora observando-o
atentamente, tivemos também tempo de olhar atrás de nós, as forcas colocadas
em torno do patíbulo. Vimos como todos os condenados à morte, tinham sido
empurrados escadas acima, cada um com a cabeça no capuz e o nó corredio em volta
do pescoço e como os carrascos os seguravam, prontos a empurrá-los escadas
abaixo, ao primeiro sinal. E como todos tinham que morrer no mesmo instante que
o seu chefe, não pudemos ver a sua execução e penso que ninguém a tenha visto,
porque os olhos de todos estavam fixos no patíbulo e em Pugatchev.

Assim que terminou a leitura,
arrancaram a pele de carneiro e as roupas do malfeitor condenado à morte e o
deitaram no cepo, porque, por força da sentença, se lhe deviam cortar antes os
braços e as pernas e depois a cabeça. Muitos dentre o povo acreditavam que, no
último momento, haveria um ato de clemência e uma ordem de perdão, os malandros
o desejavam, os bons o temiam. Mas esta era uma
preocupação inútil: o delito não era daqueles que podiam merecer perdão. Além dsso, a
imperatriz não quisera imiscuir-se pessoalmente tio caso e o tinha deixado ao
pleno e absoluto arbítrio do Senado. Portanto, êle devia receber,
inexoravelmente, a digna recompensa de todas as suas atrocidades. Condido, durante a sua execução,
verificou-se algo de estranho e inesperado, ou seja que, ao
invés de cumprir-se quanto fora estabelecido na sentença, de esquartejá-lo, isto é, de cortar-lhe as pernas e os
braços, o carrasco, repentinamente, lhe cortou a cabeça.
Só Deus sabe porque isto aconteceu: se porque o carrasco fora subor-nado pelos delinqüentes para
Pugatchev não sofrer longamente,
se por um verdadeiro e próprio engano, ou se pela perturbação do carrasco que
nunca até então executara uma
sentença de morte. Seja como fôr, nós ouvimos apenas o funcionário que estava
perto do mesmo, gritar-lhe   de repente, com grande irritação:

Filho de um cão! que faz você? — e logo depois:
Depressa, os braços e as pernas.

No mesmo instante, se ergueu um
grande clamor dos outros patíbulos e, num momento, a cabeça de Pugatchev se
achou fincada na ponta de ferro sobre a estaca e seus membros cortados e o
tronco ensangüentado sobre a roda.

Imediatamente foram empurrados
escadas abaixo também os outros condenados, de modo que, virando-nos, vimos
todos eles pendentes das forcas. Um grandíssimo alarido, feito de exclamações e
de gemidos, difundiu-se, então, na grande massa de povo, que assistira a este
raro e extraordinário espetáculo.

De tal forma cumpriu-se a
execução e teve fim a sangrenta e estranha ignomínia. As partes do cadáver do
monstro deviam ser levadas em vários pontos da cidade para serem queimadas em
determinados lugares e as cinzas deviam ser esparsas ao vento. Não vimos,
porém, tudo isto. Enquanto a multidão se distanciava, fomos também nós procurar
nosso trenó e voltamos às portas da cidade.

(Das "Memórias" —
1789-1816)

(1) Famoso rebelde da época de
Catarina, condenado à morte em 1775. Foi estudado pelo poeta Púchkin que
percorreu, pessoalmente, a zona em que se deu a revolta por êle chefiada.
(Pronuncia-se Pugatchóv)

 

Fonte: Martins Editora.

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