COMÉRCIO DOS ÁRABES — RELAÇÕES ÁRABES COM EUROPA, CHINA E ÁFRICA



Dr. Gustave Le Bon (Sorbonne)

A Civilização árabe (1884) – volume V

Capítulo IX

COMÉRCIO DOS ÁRABES — SUAS RELAÇÕES COM VÁRIOS POVOS

I

RELAÇÕES DOS ÁRABES COM A ÍNDIA

A atividade comercial dos árabes não foi inferior à que eles desenvolveram nas ciências, artes, letras e indústrias, e numa época em que os europeus apenas suspeitavam a existência do extremo Oriente, e em que a África, com exceção de algumas costas, era desconhecida, os árabes mantinham relações comerciais com a índia, a China, o interior da África e os países menos explorados na Europa, como a Rússia, a Suécia e a Dinamarca.

Até agora suas explorações têm sido contadas de um modo tão incompleto, que um sábio como Sedillot, competentíssimo em tudo quanto a eles se refere, nem sequer menciona as suas relações com o norte da Europa. Embora a nossa exposição tenha de ser breve, esperamos seja suficiente para demonstrar que é necessário chegar até aos tempos contemporâneos para encontrar um povo capaz de competir em atividade comercial com os árabes.

As primeiras relações deles com a índia remontam aos tempos mais recuados da história, mas tudo parece indicar que antes de Maomé os hindus traziam seus produtos às costas da Arábia, em vez dos árabes irem buscá-los à índia, e que só pouco antes da aparição do Profeta os navios árabes partiram dos portos do Iemen para aquele país.

Logo que seu poderio ficou bem firmado, os árabes deram às suas relações comerciais uma extensão considerável, que logo alcançou o Coromandel, Malabar, Sumatra, as grandes ilhas do arquipélago, atravessando o golfo de Sião e chegando ao sul da China. ligava por meio de caravanas os grandes centros do Oriente, como Samarcanda, Damasco, Bagdad, etc., com a índia, através da Pérsia e Cachemira. Mas os comerciantes que preferiam a via marítima iam aos portos do golfo Pérsico, como por exemplo o de Siraf, ou contornando a Arábia chegavam aos do Mar Vermelho, preferindo o de Aden. Chegadas as mercadorias ao golfo Pérsico eram expedidas para Bagdad, de onde passavam em caravanas para todas as cidades próximas. Mas as mercadorias enviadas para Aden eram levadas para Suez, e daí para Alexandria e todas as cidades marítimas da Síria, Na Alexandria os mercadores estrangeiros, genoveses, florentinos, písanos, catalões, etc., iam buscá-las importando-as para a Europa. Assim o Egito se tornou o traço de união entre o Oriente e o Ocidente, e já provamos como esse comércio foi uma das origens mais importantes da riqueza dos califas.

 

Três caminhos principais, um terrestre e dois marítimos, punham os árabes em comunicação com a índia; o terrestre

 

F;y. 323 — Cofre de marfim esculpido do século XII. Estilo indo-árabe (Museu de Kensiington).

F;y. 323 Cofre de marfim esculpido do século XII. Estilo indo-árabe (Museu de Kensiington).

 

Fig. 324 Cofre árabe áe Marrocos, em marfim esculpido, do século XI; segundo uma antiga gravura.

Fig. 324 — Cofre árabe áe Marrocos, em marfim esculpido, do século XI; segundo uma antiga gravura.

 

Numerosíssimas eram as mercadorias transportadas por esses caminhos; em Adem, por exemplo, trocavam-se os produtos da China e da Arábia pelos da Etiópia e do Egito, isto é, davam-se escravos da Núbia, marfim e ouro em pó em troca de porcelanas da China, tecidos de Cachemira, e sobretudo especiarias, aromas e madeiras preciosas.

II

RELAÇÕES DOS ÁRABES COM A CHINA

As relações indiretas dos árabes com a China, por intermédio dos hindus, são anteriores a Maomé, porém as diretas só começaram depois da fundação do Império.

Do mesmo modo que para a índia, existiam caminhos marítimos e terrestres para ir à China, partindo os primeiros das costas da Arábia, ou dos portos do golfo Pérsico, de onde se navegava diretamente para o sul da China.

Existem várias narrativas de viagens dos árabes à China, sendo uma das mais antigas aquela de que falamos em outro capítulo, feita pelo mercador Sulaiman em 850 da nossa era. Sabe-se além disso, não apenas pelos objetos chineses encon-

trados nos inventários dos tesouros dos califas, mas também pelas embaixadas que mutuamente se enviaram os primeiros califas e os soberanos chineses, que eram freqüentes as relações entre os dois povos.

Parece-nos, contudo, que a via marítima não foi muito praticada, e talvez a terrestre fosse mais cômoda e preferida. Assim, os produtos levados da China para Samarcanda, no Turquestão, eram trasladados diretamente de Alepo, na Asia Menor, de onde se estendiam em seguida a todas as cidades importantes do Oriente.

Fig. 325 — Vaso de bronze de estilo sino-árabe (coleção Schejer).

Fig. 325 — Vaso de bronze de estilo sino-árabe (coleção Schejer).

Em uma narrativa intitulada o Kitai Namah, publicada na Pérsia em fins do século XV, e da qual Schefer deu a conhecer alguns capítulos, certo mercador muçulmano enumera os caminhos terrestres que então se seguiam para ir à China, e eram três: "O de Cachemir, o de Khoten e o da Mongólia".

A mesma narrativa inclui pormenores interessantes sobre as mercadorias que então podiam negociar-se na China, figurando entre elas os leões, coisa muito de surpreender. Em troca de um desses animais os chineses davam 30.000 peças de pano.

Os negociantes importavam também da China pedras preciosas, coral, cavalos, lãs, tecidos escarlates de Veneza, etc, recebendo por sua vez cetim, brocado, porcelanas, chá e diferentes produtos farmacêuticos.

Embora não tenhamos relato algum das relações dos muçulmanos com os chineses, nem tivéssemos qualquer notícia das dos califas com os imperadores daquele país, uma prova da extensão das relações dos muçulmanos com eles seria o surpreendente fenômeno de que existem hoje disseminados pelo Celeste Império (mais de 20 milhões) (*> de muçulmanos, havendo cem mil na cidade de Pequim, com onze mesquitas.

III

RELAÇÕES DOS ÁRABES COM A ÁFRICA

As relações dos árabes com a África foram também muito importantes, pois todas essas regiões da África Central que os viajantes modernos percorrem hoje com tanta fadiga, e das quais cada exploração provoca enorme sensação na Europa, eram perfeitamente conhecidas dos árabes. E a particularidade de que sua religião fosse aceita por muita dessa gsnte que eles visitavam na qualidade de simples mercadores, prova até que ponto sabiam agradar. Na maioria das partes onde hoje conseguem penetrar os viajantes, encontram rastros do islamismo, e estou convencido de que os exploradores modernos que se proponham estudar a África miudamente, sem ajuda do Estado, o conseguirão e até mesmo enriquecerão imitando simplesmente os árabes, organizando caravanas comerciais. Logra-se muito melhor ser bem recebido por um povo oferecendo-lhe mercadorias em troca das dele, do que atravessando-lhe o território sem objetivo aparente, e travando com êle lutas sangrentas tão logo manifesta a mais ligeira desconfiança.

 

 

Os árabes do Magrebe estavam sobretudo em relações com as partes mais ocidentais da África, e os do Egito com as regiões orientais e cen- trais, e uma vez atravessado  o Sahara iam buscar ouro, marfim e escravos à Nigéria.

As investigações dos árabes estendiam-se às regiões mais importantes da África, incluídas as cidades que os modernos dificilmente visitam como Tombuctu; as  costas e regiões centrais também eram visitadas.

‘Seguindo as praias da África — diz Sedillot, — alcançam primeiro o estreito de Beb-el-Mândeb, e su cessivamente Zanzibar e o país dos cafres; fundam Brava, Mombaça e Quiloa, de onde é retirado um irmão do rei de Chiraz; fundam também Moçambique, Sofa-la, Melinde e Magadoxo; ocupam as ilhas próximas das costas e muitos pontos de Madagascar… Não foi menos sensível a influência .do Corão no centro da África, que ainda conhecemos tão pouco, pois os estabelecimentos que os árabes fundaram ñas costas orientais, facilitam-lhes por esse lado a entrada no interior da região. Os muçulmanos visitavam o país dos Somalis, povo tranqüilo e hospitaleiro, que forma com Socotora um depósito de comércio muito importante; a Abissínia, o Sennaar e Kordofão, que estava em contínuas relações com o Egito e era a verdadeira chave do Darfur e do Uadai; de-Tripoli dirigiam-se também para o Fezzan, e as caravanas que saíam do Magreb não hesitavam em aventurar-se pelas areias do Sahara, que cobrem, desde as margens do Nilo até ao oceano, uma superfície avaliada em duzentas mil léguas quadradas; daí internavam-se pelo Sudão e a Nigéria. Competia à raça árabe marcar a sua passagem entre aquelas povoações africanas de um modo indelével, e todos os viajantes modernos reconhecem a melhoria que produziu no físico, no moral e no intelectual’.

Fig. 326 – Vaso de bronze sino-ãrabe (coleção Schefer)

Fig. 326 - Vaso de bronze sino-ãrabe (coleção Schefer)

 

Fig. 327 a 329 — Vasos em bronze de estilo sino-árabe (coleção Schefer).

Fig. 327 a 329 — Vasos em bronze de estilo sino-árabe (coleção Schefer).

RELAÇÕES DOS ÁRABES COM A EUROPA

A Europa esteve durante muito tempo em relações com os árabes por caminhos diferentes: 1.° pelos Pirinéus, 2.° pelo* Mediterrâneo, 3.° pela parte que conduzia ao norte da Europa, através da Rússia, seguindo o curso do Volga, intervindo a particularidade de que os árabes de Espanha utilizaram os dois primeiros, e os do Oriente o último.

Como os árabes residiram muitos séculos no sul de França, é evidente que haveria firmes relações através dos Pirenéus; mas as expedições comerciais faziam-se sobretudo pelas costas do Mediterrâneo, e os árabes achavam-se então em contacto com povos muito mais comerciais e adiantados que os que habitavam a França na época do poder árabe de Espanha.

Senhores do Mediterrâneo, enviavam a todos os povos europeus e africanos que os rodeavam os produtos da sua indústria e da sua agricultura, como algodão, açafrão, papel, sedas de Granada, couros de Córdova, cutelaria de Toledo, etc, e os portos espanhóis de Cadiz, Málaga, Cartagena, etc, eram centros de uma atividade que contrasta melancolicamente com seu estado atual. *

Nenhuma notícia se encontra nas antigas crônicas chegadas até nós do comércio dos árabes com o norte da Europa; porém, documentos mais precisos provam sua existência, indicando não apenas os caminhos seguidos mas também as datas em que se iniciou e terminou o comércio. Esses documentos são as moedas que os árabes deixaram nos caminhos percorridos, e as que escavações modernas todos os dias descobrem.

Com o auxílio dessas moedas sabemos que o ponto de partida era o mar Cáspio, onde os mercadores dos centros comerciais como Damasco, Bagdad, Samarcanda, Teeran e Tiflis, se juntavam para subir o Volga desde Astrakan até Bolgar (depois Simbirsk e hoje Ulianovsk), situada no país dos antigos búlgaros da Rússia, que servia de depósito comercial para a Ásia e o norte da Europa. Acredita-se que os árabes não passaram desta cidade. Encarregavam-se então dos produtos comerciais de diferentes nações, que acompanhavam subindo o Volga, do qual apenas se afastavam para descer à bacia do Báltico e alcançar o golfo da Finlândia.

Os mais importantes emporios do norte da Europa eram Nov-gorod, o Schleswig e sobretudo as ilhas do Báltico, isto é, Gothland, Oland e Bornholm, onde foram encontradas centenas de moedas árabes

Fig. 330 — Vaso de cobre incrustado de prata, do estilo moderno de Damasco; segundo fotografia do autor.

Fig. 330 — Vaso de cobre incrustado de prata, do estilo moderno de Damasco; segundo fotografia do autor.

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Do golfo da Finlândia os mercadores dirigiam-se para todos os pontos importantes das praias do mar Báltico, ou sejam as costas da Suécia, da Finlândia, da Dinamarca e da Prússia. Subiam então os rios que encontravam nas costas, como o provam as moedas árabes encontradas na Silésia e na Polônia, e especialmente nos contornos de Varsóvia.

A existência de numerosas moedas árabes num trajeto determinado prova claramente que seus possuidores estavam em relações comerciais com o império árabe, mas oferece apenas indicações sobre a verdadeira nacionalidade daqueles árabes, embora saibamos que professavam o islamismo ainda seguido por algumas populações russas. As inscrições cúficas que se descobriram na Rússia provam também que os árabes tinham colônias suas entre os kazars e os búlgaros, mas nada indica que os mercadores árabes tenham ultrapassado Bolgar. Provavelmente eram os antigos búlgaros da Rússia que transportavam as mercadorias até à Dinamarca, e assim este país, que segundo a crônica não passava de um ninho de corsários, deve ter-se ocupado mais de comércio que de pirataria.

O principal artigo do comércio dos árabes com o norte da Europa era o âmbar, matéria muito procurada no Oriente, peles para vestuário, estanho, e, segundo alguns textos árabes, mulheres escravas. Os dinamarqueses recebiam, em troca dessas mercadorias, tecidos e tapetes do Oriente, jarras cinzeladas e jóias. É muito provável que por esse caminho chegassem a diferentes regiões da Europa Ocidental numerosos produtos do Oriente, entre eles os artigos de prata, não sendo de estranhar que certas peças desse gênero existentes no Museu de Estocolmo com o rótulo de pertencerem à idade de ferro, tivessem chegado do Oriente pelo caminho que assinalamos, pois muitas possuem cunho verdadeiramente oriental.

A data das moedas descobertas na Rússia desde a embocadura do Volga até às praias do mar Báltico, prova que o comércio dos árabes começou no tempo dos primeiros califas e não passou do século XI, sendo portanto sua duração de uns quatro séculos. Com efeito, a última moeda descoberta é de 1040. As dinastias asiáticas mais freqüentemente representadas nessas moedas são as dos abassidas. É verdade que entre essas moedas se encontram algumas dos árabes espanhóis, mas tão raras que provavelmente só penetraram no norte da Europa depois de estarem em mãos dos mercadores de Damasco e Samarcanda.

Os motivos que puseram termo ao comércio dos árabes com o norte da Europa são muito simples: as guerras intestinas que surgiram na Ásia, a imigração dos búlgaros e as perturbações da Rússia interromperam-no no século XI, e se mais tarde êle não se reatou deve-se a que as cruzadas tiveram como resultado desviar o tráfico da Europa com o Oriente dos caminhos terrestres, obrigando-o a tomar os marítimos, motivo pelo qual os venezianos, a partir do século XII, absorveram o comércio do Oriente com o Ocidente, fazendo passar por suas mãos todos os produtos que se trocavam entre aquelas diferentes partes do mundo.

civilização árabe

Tradução de Augusto Souza. Fonte: Paraná Cultural ltda

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