DAS ARVORES QUE SERVEM PARA MEDICINAS – Tratados da Terra e Gente do Brasil – Fernão Cardim
Fernão Cardim (1540? – 1625) – Tratados da Terra e Gente do Brasil
VI
DAS ARVORES QUE SERVEM PARA MEDICINAS
Cabureigba — Esta arvore he muito estimada, e grande, por causa do balsamo que tem; para se tirar este balsamo se pica a casca da arvore, e lhe põem hum pequeno d’algodão nos golpes, e de certos em certos dias vão recolher o óleo que ali se estila; chamam-lhe os portuguezes balsamo por se parecer muito com o verdadeiro das vinhas de Engaddi; serve muito para feridas frescas, e tira todo sinal, cheira muito bem, e delle, e das cascas do pão se fazem rosairos e outras cousas de cheiro; os matos onde os ha cheirão bem, e os animaes se vão roçar nesta arvore, parece que para sararem de algumas enfermidades. A madeira he das melhores deste Brasil, por ser muito forte, pesada, eliada e de tal grossura que dellas se fazem as gangorras, eixos, e fusos para os engenhos. Estas são raras, achão-se principalmente na Capitania do Espírito Santo.
Cupaigba — He huma figueira commumente muito alta, direita e grossa; tem dentro delia muito óleo; para se tirar a cortão pelo meio, onde tem o vento, e ahi tem este óleo em tanta abundância, que algumas dão hum quarto, e mais de óleo; he muito claro, de côr d’azeite; pára feridas he muito estimado, e tira todo sinal. Tambem serve para as candêas e arde bem; os animaes, sentindo sua virtude, se vêm esfregar nellas; há grande abundância, a madeira não vale nada.
Ambaigba — Estas figueiras não são muito grandes, nem se achão nos matos verdadeiros, mas nas copueras, onde este roça; a casca desta figueira, raspando-lhe da parte de dentro, e espremendo aquellas raspas na ferida, pondo-lhas em cima, e atando-as com a mesma casca, em breve sara. Dellas ha muita abundância, e são muito estimadas por sua grande virtude; as folhas são ásperas, e servem para alisar qualquer pao; a madeira não serve para nada.
Ambaigtinga — Esta figueira he a que chamão do inferno :achão-se em taperas, dão certo azeite que serve para a candêa: têm grande virtude, como escreve Monar-des3, e as folhas são muito estimadas para quem arrevessa, e não pôde ter o que come, untando o estômago com óleo, tira as opilações, e eólica; para se tirar este óleo, põem-na ao sol alguns dias, e depois a pisão, e cozem, e logo lhe vem aquelle azeite acima que se colhe para os sobreditos effeitos.
Igbacamuci - Destas arvores ha muitas em São Vicente: dãó humas fruetas, como bons marmeilos da feição de huma panella, ou pote; tem algumas sementes dentro muito pequenas, são único remédio para as câmaras de sangue.
Igcigca — Esta arvore dá a almecega; onde está cheira muito por hum bom espaço, dão-se alguns golpes na arvore, e logo em continente estilla hum óleo branco que se coalha; serve para emprastos em doenças de frialdade, e para se defumarem; também serve em lugar de incenso.
Ha outra arvore desta casta chamada Igtaigcigca, se, almecega dura como pedra, assi mais parece anime do que almecega, e he tão dura e resplandescente, que parece vidro, e serve de dar vidro á louça, e para isto he muito estimada entre os índios, e serve também para doenças de frialdade.
Ha hum Rio entre Porto-seguro, e os llhéos que vem mais de 300 léguas pelo sertão: traz muita copia de rezina que he o mesmo anime, a que os índios chamão Igtaigcica, e os portuguezeí incenso branco, e tem os mesmos effeitos que o incenso.
Curupicaigba — Esta arvore parece na folha com os pecegueiros de Portugal; as folhas estilão hum leite como o das figueiras de Espanha, o qual he único remédio para feridas frescas e velhas, e para boubas, e das feridas tira todo sinal; se lhe picão a casca deita grande quantidade de visco com que se tomão os passarinhos.
Caaróba — Destas arvores ha grande abundância as folhas dellas mastigadas, e postas nas boubas as fazem secar, e sarar de maneira que não tomão mais, e parece que o pao tem o mesmo effeito que o da China, e Antilhas para o mesmo mal. Da flor se faz conserva para os doentes de boubas.
Caarobmoçorandigba — Este pao parece que he o da China: toma-se da mesma madeira que o de iá, e sara os corrimentos, boubas, e mais doenças de frialdade; he pardo, e tem o âmago duro como pao da China.
labigrandi — Esta arvore ha pouco que foi achada, e he, como dizem alguns
indiaticos, o Betele nomeado da índia; os rios, e ribeiros estão cheios destas arvores: as folhas comidas são único remédio para as doenças de fígado, e muito neste Brasil sararão já de mui graves enfermidades do figado, comendo dellas.
3 Emonoardes, na cópia manuscrita.
Ha outra arvore também chamada Betele, mais pequena, e de folha redonda; as raízes delia são excellente remédio para a dôr de dentes, mettendo-a na cova deites, queima como gengibre.
Dizem também que ha neste Brasil a arvore da canafistola; he ignota aos índios; os Espanhóes usão dela e dizem que he tão bôa como a da índia.
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