Denis Diderot – Cartas a Sofia Volland
Tradução de J. Brito Broca e Wilson Lousada
Fonte: Clássicos Jackson
D I D E R O T
Filho de um artesão de Langres, Denis Diderot ali nasceu em 1713. Pez os primeiros estudos com os jesuítas, na cidade natal, vindo terminá-los em Paris. Não tendo seguido a carreira eclesiástica para a qual fora destinado a princípio, pôs-se a lutar ardorosamente pela vida, exercendo várias profissões. Ensinou matemática e trabalhou em livrarias. Vida sempre difícil e precária. Depois de certa época, dedicou o melhor do seu labor à publicação da Enciclopédia, por ele dirigida com a colaboração de grandes figuras da época. Esteve preso em Vincennes por causa da impiedade de um dos seus escritos. Em 1773 visitou a Rússia, como hóspede, de Catarina, a Grande, sua grande admiradora. Morreu em 1784, deixando uma obra enorme, mas muito fragmentária, na qual podemos destacar o seguinte: Pensées philosophiques (1746) ; Bijoux indiscrets, romance licencioso (1748); Lettres sur les aveugles (1749) ; Fils Naturel, teatro (1.757) ; Père de Famille, teatro (1758) ; Salons, crítica de arte, de 1765 a 1767. Os romances Jacques le Fataliste, Le Neveu de Rameau e La Religieuse são publicações póstumas.
CARTAS A SOFIA VOLLAND
Nenhuma obra de Diderot dará ideia do seu temperamento expansivo, ardente e desbordante, do seu espírito sempre alerta, numa actividade magnífica, como as cartas a Sofia Volland, a mulher que por longo tempo amou. Diderot tê-la-ia conhecido por voltas de 1755, quando já contava 42 anos e ela pouco menos do que isso. Quase todas as informações sobre essa ligação amorosa nos vêm por intermédio das cartas. Sofia devia possuir um espírito muito fino e culto para alimentar tão abundante correspondência, onde existe verdadeira enciclopédia de pensamentos, reflexões, observações. Aliás no século XVIII não. era difícil encontrar uma mulher culta e bela na burguesia francesa. Segundo o próprio Diderot, Sofia tinha a faculdade de pensar e sentir, como mulher ou homem, segundo lhe aprazia. E isso se percebe nas cartas. Diderot escreve a uma criatura amada e, ao mesmo tempo, a um amigo inteligente.
CXVI
Paris, 6 de outubro de 1765
Os ingleses têm como nós a mania de converter. Seus missionários embrenham-se nas florestas para levar nosso catecismo aos selvagens. Houve um chefe de tribo que disse a um desses missionários: "Meu irmão, olha minha cabeça; meus cabelos estão completamente grisalhos; de boa-fé acreditas que se possa fazer um homem da minha idade crer em todas essas tolices? Mas eu tenho três filhos. Não te dirijas ao mais velho, tu o farias rir; mas apodera-te do menor, a quem persuadirás de tudo o que quiseres". Um outro missionário pregava a outros selvagens nossa santa religião, e a pregação se fazia por um intérprete. Os selvagens, depois de terem ouvido algum tempo, mandaram perguntar ao missionário o que se lucraria com tudo aquilo. O missionário respondeu ao intérprete: "Respondei-lhes que serão os servidores de Deus". "Isso não, por favor, — replicou o intérprete ao missionário: eles não querem ser servidores de ninguém". — "Pois então, — disse o missionário, — dizei-lhes que serão os filhos de Deus". — "Isto é melhor, — replicou o intérprete". Com efeito, a resposta agradou aos selvagens. Uma vez que tratamos desse assunto, ainda um facto que eu soube por M. Hume, e que vos ensinará o que se deve pensar dessas pretensas conversões de canibais ou de hurons. Um pastor acreditava ter feito uma pequena obra-prima nesse género: teve a vaidade de mostrar seu prosélito; levou-o pois a Londres. Interrogam o pequeno huron; ele responde maravilhosamente. Condu-zem-no à capela; admitem-no à ceia ou comunhão que, como sabeis, se faz sob duas espécies; depois da ceia diz-lhe o pastor: "Então, meu filho, não se sente você mais animado pelo amor de Deus? A graça do sacramento não age em você? Sua alma não se sente ardente?" "Sim, — respondeu o pequeno huron, — o vinho faz muito bem, mas se me tivessem dado aguardente, acredito que ainda seria melhor". A religião cristã está quase extinta em toda a Inglaterra. Os deístas são numerosos, quase não há ateus; os que o são se escondem. Um ateu e um celerado são quase sinónimos para os ingleses. A primeira vez que M. Hume se encontrou à mesa do barão, sentou-se ao lado deste. Não sei a propósito de que o filósofo inglês achou que devia dizer ao barão que não acreditava nos ateus, criaturas que ele jamais vira. O barão lhe disse: "Contai quantos somos aqui". Éramos dezoito. O barão acrescentou: "Não erraríamos muito apontando quinze à primeira vista: os outros três não sabem o que pensar".
Um povo que acredita que é a crença num Deus e não as boas leis que fazem criaturas honestas, não me parece adiantado. Trato da existência de Deus, relativamente a um povo, como o casamento. Um é um estado, o outro uma noção excelente para três ou quatro cabeças bem pensantes, mas funesta para a generalidade. O voto do casamento indissolúvel faz e deve fazer quase tantos infelizes quantos esposos. A crença em Deus faz e deve fazer quase tantos fanáticos quanto crentes. Em toda a parte onde se admite um Deus, há um culto; em toda a parte onde há um culto, a ordem natural dos deveres morais fica invertida e a moral corrompida. Cedo ou tarde, chega um momento em que a noção que impediu de furtar um escudo faz degolar cem mil homens. Bela compensação! Tal foi, tal é, tal será em todos os tempos e em todos os povos o efeito de uma doutrina a que se dará mais importância que à própria vida. Um inglês’ achou bom publicar uma obra contra a imortalidade da alma; deram-lhe pelos jornais uma resposta bem cruel. Era um agradecimento concebido nesses termos: "Todos nós, prostitutas, proxenetas, ladrões de estrada, assassinos, patifes, pastores, soberanos, rendemos nossos humílimos agradecimentos ao autor do Tratado contra a imortalidade da alma, por nos ter ensinado que, se fôssemos bastante espertos para fugir aos castigos deste mundo, nada teríamos a temer no outro". Isto basta a respeito dos ingleses; minha fantasia agora é dizer-vos uma palavra a propósito dos espanhóis. Devo-as ao barão de Gleiken, que foi embaixador da Dinamarca em Madrid, e que é actualmente embaixador da Dinamarca na França. Realizamos, há algum tempo, em sua casa, um desses jantares elegantes de que vos falei algumas vezes. Depois desse jantar elegante pelo serviço, delicado pelas iguarias, encantador pela palestra, ouvimos a mais agradável música; depois, a leitura dos três primeiros cantos de um poema ao gosto de Ariosto; após a leitura, ainda música, em seguida a palestra e o passeio. A propósito da literatura espanhola, para dar-nos uma ideia do que fosse, o barão nos fez a análise de uma das suas melhores comédias santas que ele vira representar. O teatro mostrava um templo inteiro, o Santíssimo Sacramento exposto e toda uma multidão orando. O cenário mudava, e o teatro mostrava uma feira com lojas entre as quais existiam três de que uma era a loja da Morte, a segunda a loja do Pecado, e entre essas duas últimas, a terceira, a loja de Jesus Cristo. Cada uma tinha sua tabuleta; cada uma chamava os fregueses; o Pecado não sentia falta de fregueses e muito menos a Morte; mas o pobre negociante Jesus esperava em vão, na sua, e, cansado de não fazer negócio, aborrecia-se; o cenário mudava e viam-no armado de um chicote, com a Virgem Maria armada de outro, castigando e expulsando diante deles a Morte, o Pecado e todos os seus fregueses.
O actual núncio do Papa imaginou que essas espécies de peças aviltavam a religião, e pediu sua supressão ao ministério público. Por única resposta, mandaram-no à plateia do teatro, na primeira representação da peça de que acabo de falar. Com efeito, acrescentava o barão de Gleiken, as palavras das multidões prosternadas diante do Santíssimo Sacramento eram do maior patético e da mais alta eloquência; e os ouvintes, fundindo em lágrimas, cheios de arrependimento, batiam no peito aos socos: é que o que hoje vos faz rir ontem fez chorar; e o que faz chorar o espanhol de hoje, há-de fazê-lo rir um dia.
Quem acreditará que… que tudo isto é a carta de um amante terno e apaixonado à sua bem amada? Ninguém. Nem por isso o facto é menos verdadeiro.
Eu vos julgava farta da Inglaterra e dos ingleses. Torno a levar-vos para lá, entretanto, para provar-vos quanto um viajante e um viajante pouco se parecem. Helvetius regressou de Londres apaixonado pelos ingleses. O barão voltou, mas voltou desiludido. O primeiro escreveu ao segundo: "Meu amigo, se, como não duvido, você alugou uma casa em Londres, escreva-me bem depressa para que eu prepare minha esposa e meus filhos, e vá reunir-me a você". O outro respondia: "Esse pobre Helvetius, ele só viu na Inglaterra as perseguições que seu livro lhe proporcionou em França".
Jantámos duas vezes em casa da querida irmã com o senhor de Neufond. Na primeira vez, ele esteve muito bem; bebeu, riu, brincou, conversou, jogou, ganhou e esteve alegre; na segunda vez, esteve triste, mas triste como nunca. Não falou à mesa; ao deixá-la, calou-se; deixou-se ficar a um canto, de costas para os presentes, a cabeça erguida, fixada na porta, o rosto inflamado e o olhar como o de um furioso. Compreendeis alguma coisa de tudo isto? Poderíeis adivinhar com quem ele estava furioso? Mlle. Boileau sempre pretende que ele está ciumento; a querida irmã estava cheia de cuidados por isto; acha que ele estava entristecido com o meu bom humor. O relógio está marcando meia-noite; boa noite, minha amiga, boa noite. Quando poderei, a mesma hora, dizer-vos boa noite de viva voz? Estou bem cansado de dormir tão longe de todas vós. Se esta carta seguir amanhã, bem podereis receber quatro ao mesmo tempo,
CXIX
Paris, 12 de novembro de 1765.
Meu respeito a todas as senhoras.
É inútil prevenir-vos que deixei o isolamento e que estou novamente metido no turbilhão, circulando com todos os seres bizarros que o compõem, eu mesmo criatura tão bizarra como nenhum dos meus vizinhos. Sc eu tomasse em consideração todas as loucuras que se dizem e fazem, não ficaria muito diferente de um homem muito gordo que se queixava da multidão; e alguém bem poderia dizer-me como a ele: "Então! grande barril, gritas contra a multidão e és tu que a fazes; se os que aqui estão tivessem cada um apenas a metade do teu volume, seria preciso que se fossem ou se deixassem abafar". Já que não somos muito ajuizados, deixemos que os outros sejam loucos. Como fosse meu projecto retomar a história de minha vida, logo que o fim de minha tarefa me deixasse em liberdade, rabisquei pequenas notas numa folha solta que se tornou, por lapso de tempo, um logogrifo a decifrar. Não entendo mais nada. Eu vos falava, creio, da viagem do barão e dos ingleses, quando me interrompi. E leio no alto de minha agenda: não é nas condições subalternas, não é o homem que trabalha da manhã à noite, aquele que, reduzido à miséria, se vê constrangido a lutar com todas as forças por suas necessidades, pelo trabalho; é aquele que nasceu na opulência, que esgotou todos os gozos, o que se aborrece da vida e que se vai afogar no Tamisa. Não acrediteis que por causa dessa maravilhosa balança dos três estados da nação, essas criaturas sejam melhor governadas que nós. Um soberano que tem objectivos dignos e que deseja algumas vezes sacrificar as prerrogativas à felicidade da nação, nem sempre pode fazer isto: serve de exemplo Guilherme I que, no intuito de impedir que seus sucessores se tornassem senhores absolutos das deliberações, pela facilidade de criar a vontade um número ilimitado de pares ou membros da Câmara Alta, propôs à Câmara Baixa fixar irrevogavelmente os direitos do soberano sobre essas criações; e cuja proposta, por mais vantajosa que fosse para a liberdade pública, foi rejeitada quase unanimemente pelos representantes da nação, que sacrificaram nesse momento o interesse geral, à esperança que cada um deles podia ter de se tornar par um dia, ao sabor da vontade do soberano, cujo favor acabaria restringido se sua proposta tivesse sido aceita. Eis o que chamamos patriotas, cidadãos. Patriotismo, república, amor à pátria, bonitas palavras! bem respeitáveis, bem velhas, bem fora da moda, bem vazias de sentido, o pretexto mais honesto para amenizar o interesse pessoal, subterfúgio que nunca se deixa de usar, quando se pode, e que se deixa de lado, impudentemente, quando se trata de tomar partido pela pátria contra si mesmo. Quereis um exemplo chocante? Um homem honesto, não se sabe por que motivo, propôs na Câmara dos Comuns mandar prestar juramento a todos aqueles que viessem das diferentes províncias, para ocupar um lugar na qualidade de representantes, que não tinham comprado o sufrágio de seus concidadãos, e que tinham sido livre, voluntária e desinteressadamente eleitos. Pensais que uma proposta tão honesta pudesse ser rejeitada? Pensais que os homens pudessem ter dose tão forte de impudência para acusar–se a si próprios do crime de suborno, opondo-se francamente a uma precaução tomada contra o suborno futuro? Pois bem, a proposta foi rejeitada e tiveram esse despudor. É que as corporações legislativas não têm fé, nem lei nem probidade. Nada revela tanto quanto é detesta-
vel a natureza humana como a facilidade com que se consente nas piores acções, quando a desconfiança é mútua e ninguém responde pessoalmente pelo mal que se pratica. Não é pois o amor ao bem, ao justo, ao equitável, ao honesto que governa o homem; é a vergonha, o receio da censura, a perda da consideração. É um interesse que contrabalança outro.
Apesar da enorme riqueza dos poderosos, não há fausto nem luxo nem móveis preciosos, nem grande e imensa criadagem. Mas como a nação não tem escultor, nem pintor, porque não possui arquitectos nem palácios, e a tela colorida e a pedra talhada estão expulsas dos templos pela natureza do culto, eles têm a mania dos quadros, mas dos quadros antigos; das pedras gravadas, mas das antigas; das estátuas, mas das estátuas antigas; compram tudo quanto encontram, sem gosto nem escolha, consagrando-lhes quantias enormes e, o que prova que essas aquisições não são de conhecedores, é que nesses mesmos salões, vestíbulos e galerias, onde essas antiguidades estão amontoadas como nas lojas de belchiores, vemos as coisas mais preciosas e mais delicadas confundidas com peças medíocres, detestáveis até, que têm por único merecimento terem permanecido debaixo da terra dois mil anos, e que foram aceitas somente por causa da sua velhice; essas antiguidades, seus jardins exóticos e seus palácios góticos, eis o único objectivo de suas despesas, com as quantias avultadas que são obrigados a distribuir a seus vassalos, as refeições que lhes oferecem, os. vinhos caríssimos de França com que são obrigados a embriagar num dia duzentas pessoas que lhes absorvem os imensos rendimentos. Quereis conhecer em suma o resultado dessas eleições venais? Ide sabê-lo. Esse monarca ávido pensou aproveitar-se de um imposto sobre todas as bebidas; esse imposto, que causou grande alvoroço, chamava-la ciza. Como era uma sobrecarga para todos, todos protestaram. As províncias, julgaram de bom aviso notificar aos seus representantes, por emissários, que se opusessem ao imposto projectado quando disso se tratasse na Câmara. Um desses representantes, após ter feito esperar durante duas horas, no seu salão, os emissários da sua província, recebeu-os no seu gabinete.
"Então, meus senhores, disse ele ao recebê-los, de que se trata?" Os emissários se explicam. O representante os escuta; depois eis a resposta com que os despede: "Não, meus senhores, por minha fé isto não acontecerá. Eu vos comprei muito caro, e meu intento é vender-vos o mais caro que pude?". Eis o admirável governo inglês, de que o presidente Montesquieu falou tão bem, sem conhecê-lo. Considerai, minha amiga, que a máxima salus populi suprema lex esto é uma bela sentença e nada mais. Aquela que se observa, observou-se e observar-se-á em todos os tempos, é salus dominantium suprema lex esto. É do pastor e não do rebanho que a lei é salvaguarda, com esta diferença, que o pastor de gado tem a intenção de levar, às melhores pastagens, o boi que ele deve devorar; ao passo que o soberano pastor nos leva esqueléticos para o açougue. Aliás, o mesmo acontece lá como aqui. Aqui há dois poderes e discussões perpétuas a respeito das prerrogativas de ambos. Lá, há três, os Comuns, os Pares e o Monarca, e discussões perpétuas a respeito das prerrogativas desses três poderes. Um cidadão qualquer perguntava a um célebre advogado qual era o limite do poder dos Pares e o que se podia fazer sem ultrapassar esse limite. O advogado respondeu: "fazer esta pergunta e respondê-la é ultrapassar o limite".
Nossos ministros não são talvez muito bons; mas procuremos contentar-nos com eles já que em outras terras não são melhores. Nossa sociedade está talvez mal administrada, mas é condição comum a todas as sociedades. É certo que todo o poder que não tiver por objectivo a felicidade- geral é ilegítimo. É preciso concordar .com isso; mas apontem-me sobre a terra um único poder legítimo nesse sentido. Seríamos tão loucos chegando a desejar que houvesse uma administração única, feita propositalmente de acordo com os nossos desejos? Tenho por costume consolar-me de todos os males que suporto com todos os meus concidadãos; por que não me conformaria com um mal comum a todos os homens? Eis, minha amiga, um pequeno esboço de nossas palestras; se vos agradarem, continuarei. Um dos nossos que leu atentamente a história, fez uma observação singular: é que o despotismo papal fora no começo absoluto sobre os ingleses, que dele se livraram completamente, e é do mais duro e terrível peso sobre os espanhóis, para quem o Papa, no começo, não passava de um pequeno bispo estrangeiro sem autoridade, sem influência e sem importância. No começo do estabelecimento do cristianismo na Espanha, eram as vozes que presidiam aos concílios e decidiram indistintamente dos casos de fé e de interesse. A pessoa que observou essa esquisitice, explicou-a em duas palavras, dizendo que os papas nada eram, com efeito, quando a Espanha se converteu; e que estavam pelo contrário à frente de todas as suas loucas pretensões .quando o evangelho passou para a Inglaterra, e que acreditava simplesmente que o evangelho aí fora recebido conforme era pregado. O que aconteceu na Espanha, aconteceu também em Portugal. Houve entretanto, nesses últimos tronos, mesmo nos séculos bárbaros, soberanos que procuraram sacudir o jugo do clero. No século XII, pensai, minha amiga, o que é o século XII, eis o que fez um D. Sancho de Portugal. Um padre mandara construir uma casa. O pedreiro não o serviu a contento, e construiu um muro onde não se devia e o padre o matou. No mesmo instante eis o referido padre chamado ao tribunal da oficialidade e suspenso das suas funções por um ano. D. Sancho ficou revoltado que um celerado, poiser padre, sofresse tão pequeno castigo. Sabeis o que ele fez? Esse pedreiro tinha um filho; mandou aconselhar ocultamente ao filho que matasse o padre, assassino de seu pai. O conselho foi seguido. Arrastam o filho do pedreiro perante os tribunais leigos; foi condenado a morte. Mas era preciso que a sentença fosse sancionada pelo monarca, que escreveu em baixo, quando lha apresentaram para assinar: "Suspenso de suas funções por um ano. É-lhe vedado manejar a pá de pedreiro antes de um ano". Logo que minha carta chegar a Isle, Mlle. Melanie, apressai-vos, parti, vinde e vos faço ouvir o rei dos instrumentos e dos músicos. O instrumento chama-se pantaleone e o músico Osbruk. O pantalcone é uma espécie de psaltério de 4 pés de largura e 9 de comprimento, com 74 tons. Não quero dizer mais, haveria com que empanar toda a felicidade de vossa vida. Bom dia, minha amiga. Preferis que eu vos diga que me aborreço longe de vós, ardo do desejo de rever-vos, do que transimitir-vos essas ideias sérias e essas filosofias que nada têm de comum com a minha paixão e a vossa. Transmiti meus respeitos a todas as vossas amigas.
CLXXXVI
Haia, 15 de junho de 1774 Minhas senhoras e boas amigas
Não fiz uma viagem apenas agradável; fiz uma viagem bastante honrosa. Trataram-me como representante das pessoas honestas e hábeis de meu país. Dou a mim mesmo esse título, quando comparo os sinais de distinção com que me cumularam com os que eu tinha o direito de esperar somente pela minha pessoa. Ia com a recomendação do favor, muito mais segura ainda que a do mérito; e eis o que disse a mim mesmo: "Serás apresentado à imperatriz; agradecerás; ao fim de um mês, ela desejará talvez rever-te e te fará algumas perguntas; ao fim de outro mês, despedir-te-ás dela e regressarás". Não concordam, boas amigas, que seria assim que as coisas se teriam passado em outra corte qualquer que não a de Petersburgo ?
Aí, ao contrário, a porta do gabinete da soberana está aberta para mim todos os dias, desde três horas da tarde até as cinco e às vezes até as seis. Entro, fazem-me sentar, e converso com a mesma liberdade que me concedeis; ao sair, sou obrigado a confessar a mim mesmo que tinha, alma de escravo no país que dizem ser o dos homens livres, e que me encontrei com a alma de um homem livre no país que dizem ser o dos escravos. Ah! minhas amigas, que soberana! que mulher extraordinária! Não acusarão meu elogio de venalidade, porque coloquei os mais estreitos limites à sua munificência; é preciso que me acreditem, quando eu a pintar com suas próprias palavras; será preciso que todas vós digais que ela tem a alma de Brutus sob a aparência de Cleópatra; a firmeza de um e as seduções da outra; uma compostura inacreditável nas ideias com toda a graça e a subtileza possíveis de expressão; o amor à verdade levado tão longe quanto é possível; o conhecimento dos negócios de seu império, como o tendes dos assuntos domésticos; eu vos direi tudo isto, mas quando? Por minha fé, gostaria que fosse daqui a oito dias, porque é preciso menos para ir da Haia a Paris com a velocidade com que voltei de Petersburgo à Haia. Mas Sua Majestade Imperial e o general Betzky, seu ministro, encarregaram-me da edição do plano e dos estatutos dos diferentes estabelecimentos que a soberana fundou em seu império para a instrução da juventude e a felicidade do todos os seus súbditos. Irei o mais depressa possível, pois não duvideis, boas amigas, que eu esteja tão apressado em reunir-me aos que me são caros quanto eles podem estar em me rever. Ficai sabendo, enquanto isto, que se realizaram três milagres em meu favor: o primeiro, quarenta e cinco dias de bom tempo sem interrupção para ir; o segundo, cinco meses sucessivos numa corte, sem dar pasto à malignidade; e isto com uma franqueza de carácter pouco comum e que-nos expõe às intrigas dos cortesãos invejosos e astuciosos; o terceiro, trinta dias ininterruptos de uma estação sem igual, para voltar, sem outro acidente além de carros partidos: mudámos de condução quatro vezes. Quantos detalhes interessantes eu vos reservo para o cantinho da lareira! Começo a perder os traços da velhice que a fadiga me proporcionou; seria para mim tão bom encontrar-vos de perfeita saúde, que me entretenho com esta esperança. Confio muito nos cuidados de Mme. de Blacy e nos de Mme. Bouchard’. Cumprimento e beijo a ambas. Mme. Bouchard, que não perdoa facilmente uma bagatela, me permitirá aparentemente guardar um longo e profundo ressentimento de um mal que ainda não esqueci. A primeira vez que virdes o senhor Gaschon, dizei-lhe que, se seu negócio não está, feito, não é porque eu o tenha esquecido; as circunstâncias não eram propícias ao êxito num país onde a soberana calcula. Vi Euler, o bom e respeitável Euler, várias vezes; é o autor dos livros de que vosso sobrinho precisa. Espero que ele fique satisfeito. A princesa de Gallitzin havia tratado do caso antes da minha partida, e desde a minha chegada, o príncipe Henry encarregou–se do assunto. Dir-me-eis: por que confiar aos outros aquilo de que podemos cuidar pessoalmente? É que a edição de um dos volumes em Petersburgo se esgotou, e a edição do outro volume foi feita em Berlim, onde não quis passar, embora fosse convidado pelo rei. Não foi a água do Neva que me fez mal, foi um duplo ataque de inflamação de intestinos, com diarreia; foram cólicas e um terrível resfriado causados pelo rigor do frio em Petersburgo durante minha estada; foi uma queda numa barca em Mitau, ao voltar, que quase me mataram; mas a dor da queda e os outros acidentes se dissiparam; e se a vossa saúde fosse mais ou menos tão boa quanto a minha, ficaria satisfeitíssimo convosco.
Deixei Grimm doente em Petersburgo; está convalescente e prestes a voltar; regressa com a alma cheia de dor: a. landgravina de Armstadt, que ele acompanhara, sua amiga, mãe da grã-duquesa, acaba de falecer. Não poderia dizer-vos da extensão da perda que ele experimenta com a morte dessa mulher. Minha filha participa-me que, durante minha ausência, fostes bondosa com ela; agradeço-vos. Nada temais por minha saúde; recolhemos cedo, e raramente ceamos. Ainda não tenho coragem para trabalhar; é preciso deixar que o tempo consolide meus membros deslocados; é problema a ser resolvido pelo sono; também, desde minha volta, durmo oito a nove horas seguidas. O príncipe tem seu trabalho político; a princesa leva uma vida que não é mais compatível com a juventude, com a subtileza de seu espírito e o gosto frívolo de sua idade; pouco sai, quase não recebe, tem professores de história, de matemáticas, de línguas; abandona sem custo um grande jantar na corte para voltar a casa na hora da lição, ocupa-se em agradar ao marido; cuida pessoalmente da educação dos filhos; renunciou aos trajes pomposos; levanta-se e deita-se cedo, e minha vida está de acordo com a da sua casa. Divertimo-nos em questionar como verdadeiros demónios; nem sempre estou deacordo com a princesa, embora ambos estejamos contagiados pela anticomania, e pareça que o príncipe tenha tomado a sério contradizer–nos em tudo; Homero é um bobalhão; Plínio, um tolo chapado; os chineses, as criaturas mais honestas da terra, e assim por diante. E, como todos esses indivíduos não são nem nossos primos, nem nossos amigos íntimos, só animam a discussão a alegria, a vivacidade, a brincadeira, com uma pequena ponta de amor próprio que serve para temperá-la. O príncipe, que tantos quadros adquiriu, prefere confessar que nada entende de pintura a conceder a algum amador o mérito de entendido no assunto. Bom dia, boas amigas; aceitai meu terno respeito, e acreditai-me inteiramente vosso, como fui e serei toda a minha vida.
CLXXXVII
Haia, 3 de novembro de 1774
Minhas senhoras e boas amigas
Minhas malas foram ontem embarcadas para Soterdão; aqui só me resta o que se pode fechar numa valise para uma viagem de cinco a seis dias. O príncipe e a princesa de Gallitzin fazem o possível para me reter até o fim do mês; pretendem que deveria esperar, ao lado deles, a última resolução da corte da Rússia sobre um projecto cuja realização a própria imperatriz fixou para o mês corrente; mas esse projecto não tem fundamento. A edição de sua obra ainda não está acabada; concedi, em pensamento, oito dias ao impressor; passado esse prazo, quem quiser que acabe a tarefa. Apesar de todas as atenções de meus hospedeiros, apesar da beleza da estada na Haia, estou emagrecendo; é preciso rever-vos todos. A quem me dissesse, quando parti de Paris, que uma viagem que eu imaginava de cinco a seis meses seria quase três vezes mais longa, eu responderia que o profeta estaria mentindo. Enfim, vou regressar ao lar para não mais deixá-lo em minha vida; o tempo em que se conta por anos passou, e o em que é preciso contar por dias chegou; quanto menos rende juros esse tempo, mais importa empregá-lo bem. Tenho talvez ainda uma dezena de anos a viver. Desses dez anos, os resfriados, os reumatismos e os rebentos dessa família incómoda tomarão dois ou três; tratemos de economizar os outros sete para o repouso e para as pequenas felicidades que se podem antever além dos sessenta. Eis o meu projecto, no qual espero queirais ajudar-me. Pensei que as fibras do coração se encolhiam com a idade; nada disso; acho que minha sensibilidade aumentou; tudo me impressiona, tudo me aflige; serei o mais insigne choramingas entre os velhos que jamais conhecestes. Adeus, minhas senhoras e boas amigas; ainda um pouco e ver-nos-emos outra vez. Eu vos saúdo e abraço de todo o coração. Senhora de Blacy, dizem que, durante minha ausência, alguém me suplantou. Se continuastes a ser o que sempre fostes, teríeis agido melhor conservando minha amizade. Se vos despojastes da rigidez de vossos princípios, eu vos felicito pela vossa perversão e inconstância. Como serei beijado por Mme. Bouchard, se ela conservou seu gosto pela história natural! Tenho mármores, e outros tantos beijos pelos mármores; metais, e outros tantos beijos pelos metais; minerais, e outros tantos beijos pelos minerais. Como se arranjará ela para pagar toda a Sibéria1? Se cada beijo deve ter um lugar, aconselho-a a prover-se de amigas que se prestem a ajudá-la. Meus beijos, como deveis imaginar, serão os menores possíveis ; mas a Sibéria é muito grande. Teríeis cometido o mesmo erro que eu, se me deixásseis esquecer o senhor e a senhora Dijon. Recomendai-me ainda ao senhor Gaschon, se estiverdes com ele antes de mim. Ele ainda não terá resignado seu cargo de satélite do prazer, o mais excêntrico de todos os planetas, que o passeia em todos os horizontes. Adeus, boas amigas. Adeus. Muito breve estarei junto de vós, para não mais me afastar.
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2 Comentários para “Denis Diderot – Cartas a Sofia Volland”
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Fórum de Discussões
março 10th, 2010 at 9:27 pm
@Maria Lucia Siqueira: Aceita um cafézinho?
março 10th, 2010 at 9:00 pm
preciso receber em minha casa o exemplar das cartas de Sofia,e a metodologia de como trabalhar essas cartas como conteudo de filosofia no ensino medio