Consciência - Filosofia e Ciências Humanas

A racionalidade e a origem da civilização ocidental



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10/12/07

A racionalidade e a origem da civilização ocidental

Michel Aires de Souza
http://filosofonet.wordpress.com/

 

Tornou-se axiomático pensar que a nossa civilização ocidental surgiu com os gregos. Desde de Weber passando por Adorno, Horkheimer, Freud e Nietzsche há uma crença de que a razão e a racionalidade adquire valor universal e significado no moderno ocidente e que se desenvolveu a partir das ciências, desde as cosmologias pré-socráticas e da lógica aristotélicas. A racionalidade técnica é essência do mundo moderno. A faculdade subjetiva do pensar se transformou em racionalidade, ou seja, em relação calculada entre meios e fins, o cálculo define a racionalidade pela eficácia e pela capacidade de classificar, ordenar, dispor e dominar os homens e a natureza. Esse pensamento pragmático e calculista se fundamenta na realidade objetiva e se manifesta no aparelho técnico-produtivo e científico, na escola e na mídia, no estado e em suas instituições. Em nossa opinião, a razão e a racionalidade não são produtos do desenvolvimento técnico e científico do ocidente, mas tem seu verdadeiro valor e significado nas práticas do comércio no oriente, desde a mais longínqua antiguidade na Mesopotâmia.

É natural pensar que os Gregos criaram a civilização ocidental, pois foram eles que criaram uma extensa gama de conhecimentos científicos, como também os grandes fundamentos do pensamento filosófico e do pensamento político. Contudo, mostraremos aqui que a nossa civilização, os nossos modos de ser, os nossos valores, a razão e a racionalidade surgem das práticas sociais do comércio na mesopotâmia, no Egito e no Vale do Indo.

A nossa cultura, entendida como os modos de existir, o cotidiano físico e simbólico, e o imaginário dos homens surgiu no antigo oriente. A razão e a racionalidade do mundo moderno foi impulsionada pelo comércio e se impôs na antiguidade por volta de 3000 a.C como um fenômeno ligado à própria organização dos indivíduos para viver em sociedade. Foi a racionalidade do comércio que fundamentou o sujeito como ser racional e moral.

A racionalidade do comércio surge na antiguidade como um instrumento para regularizar e normatizar a vida dos indivíduos. Os conceitos de classificação, ordenação, operação, procedimento eficaz e previsão são conceitos das próprias práticas comerciais. Esses conceitos surgiram na história das ciências e da filosofia como reflexo das próprias relações materiais de existência dos homens, nas práticas de intercâmbio material e intelectual, desde as antigas civilizações. A utilização técnica dos conhecimentos científicos, de extrema importância para as civilizações, foi certamente encorajada por condições econômicas. As comunidades antigas faziam a utilização planejada e racional de recursos materiais, intelectuais ou pessoais como meio de aquisição do lucro. As grandes civilizações da antiguidade e o desenvolvimento técnico-cientifico só puderam surgir porque o comércio as impulsionou.

Na mesopotâmia, no Egito e no vale do Indo não existiam matérias primas para se construir as primeiras cidades. Para fundá-las foram necessário buscá-las em outras regiões. Esses empreendimentos consolidaram a racionalidade na organização social e na centralização do poder econômico. Povos como os do Egito, Suméria, Bacia do Indo tiveram de criar alguma forma de sistema regular e racional de comércio ou troca para garantir o abastecimento de matérias primas. Foi o comércio que impulsionou a necessidade racional de drenagem de pântanos e selvas ribeirinhas, a manutenção de canais de drenagem, de diques protetores e dos projetos das grandes obras públicas para secar a terra e proteger a aldeia. Sem o intercâmbio de produtos e matéria primas não haveria o impulso para a organização e a construção das cidades, uma vez que toda região era semi-árida e não dispunha de recursos para a sua construção.

Foi por volta de 3000 a.C, no semi-árido, em torno do mediterrâneo oriental, até o leste onde fica a Índia que surgiram comunidades capazes de desenvolvimento cultural em valor e significado. Mas este desenvolvimento só foi possível com a formação de um governo teocrático. A racionalidade que surge com o comércio, só adquire verdadeira importância com os templos religiosos, que eram o centro da administração das comunidades. Os Sumérios foram os primeiros povos a instituir a racionalidade como uma força emanada do comércio, a partir dos templos religiosos. Foi através dos Ziggurates (templo de degraus) que se desenvolveu todo um sistema racional de contabilidade, de escrita e de administração das cidades. Gordon Childe descreve em seu texto “A Revolução Urbana” que nestas cidades teocráticas como as do Egito e da Suméria os Deuses foram os “primeiros capitalistas”. Nestas primeiras cidades já existia toda uma contabilidade racional dos ganhos e das perdas, da usura e do comércio dos templos. Já na Suméria o Ziggurate era uma espécie de templo que funcionava como uma empresa que cobravam impostos, emprestava dinheiro a juros e praticava o comércio. O Deus desses povos era apenas uma projeção imaginária que encontrava representantes e interpretes de seus mandamentos para administrar e ampliar seus bens.

O comercio, para abastecer as cidades de matéria primas, criou dois fatores de racionalidade para seus fins: a escrita e a contabilidade. Foi através da necessidade de contabilizar os bens do templo que surgiu a escrita e um sistema racional de quantificação dos produtos Segundo Gordon childe, o que mais impressiona nestes templos é sua contabilidade e racionalidade para gerar o lucro. Na Suméria, no templo de Erech, por exemplo, existia um excedente de riqueza real acumulado nas mãos dos deuses e administrado por sacerdotes, que exigia toda uma infra-estrutura para manter as riquezas. Existiam trabalhadores industriais especializados e um sistema organizado de transporte. Para registrar as transações comerciais, os Sumérios criaram um sistema de escrita denominado “cuneiforme”. Eram sinais em forma de cunha feitos com o auxílio de pontas de vime sobre pranchas de argila mole. A escrita surge para os registros das oferendas. Dessa forma, foram os Sumerianos os primeiros povos a criarem um sistema de escrita e de contagem racionalmente estruturado. “Era necessário descobrir uma forma de registrar as várias oferendas e sua utilização, caso o Deus exigisse de seu sacerdote a prestação de contas da administração. E, na verdade, no santuário de Ziggurate os escavadores encontraram uma tabuinha com a impressão de um selo e furos que sem dúvida são números. É a mais antiga placa de contabilidade do mundo, precursora imediata de uma longa série de contabilidade dos templos sumerianos. (CHILDE, 1988, p.31)”. A escrita foi a condição necessária para controlar os rebanhos, controlar a produção, anotar as mercadorias trocadas e registrar as características dos ritos e cultos religiosos. Ela também facilitou a organização das informações anotadas, o aprimoramento nas formas de comunicação, a seleção dos dados, a classificação de objetos, a fixação de pesos e medidas, a criação do sistema numérico, o desenvolvimento de conhecimentos sobre as estações do ano e do curso das estrelas que deram origem à astronomia e astrologia. A escrita aparece, portanto, como fator de racionalidade a serviço da organização do comércio e das cidades. Ela foi de extrema importância para o aperfeiçoamento das atividades sociais. Ela indica um nível de organização política e social bem desenvolvidos.

Outro fator de racionalidade que o comércio impulsionou foi o progresso na divisão do trabalho e na especialização técnica. Essa especialização do trabalho se deu principalmente por causa da descoberta e uso do bronze, que substituiu definitivamente a pedra na manufatura de todas as espécies de armas e ferramentas. As técnicas de trabalhar metais, ouro, prata, bronze, se desenvolveram com rapidez tornando-se profissões especializadas, como joalheiros e metalúrgicos. Nas cidades, os cidadãos passaram a serem classificados de acordo com sua função, incluindo os sacerdotes, os escribas, os mercadores, os artesãos, os soldados, os camponeses, os escravos domésticos e os estrangeiros. A divisão do trabalho e as desigualdades de riquezas entre os cidadãos criaram à necessidade de leis e de forças capazes de fazer cumprir as leis. A liderança natural do grupo, que nas aldeias era exercida pelos mais velhos e sábios, cedeu lugar ao governo de um só homem, geralmente o principal administrador do templo ou um grande chefe guerreiro, surgindo assim a Cidade-Estado.

O comercio criou também um sistema racional de transportes. De grande significação na origem das cidades foi a invenção da roda, da tração animal e também do arado de metal. A construção racional das primeiras cidades dependia da possibilidade de se organizar o transporte de grandes quantidades de produtos e de matérias primas. Os habitantes das cidades precisavam receber com regularidade alimentos vindos dos campos ou de localidades distantes. Era indispensável buscar em florestas e montanhas, por vezes longínquas, madeira, metais e pedras. Essas necessidades levaram a um grande aperfeiçoamento de formas racionais de transporte e de mão de obra. O comércio, de início, se processava por simples troca; depois, pelo uso do gado (pecúnia) como unidade de troca, ou por meio de artigos valiosos facilmente transportáveis, tais como os metais (cobre e posteriormente ouro e prata). O aparecimento de mercadores especializados deveu-se à necessidade de se adquirir produtos estrangeiros em regiões distantes, transformando essa atividade numa profissão.

Não podemos negar que na antiguidade oriental já existia todo um sistema racional de troca de mercadorias e uma forma de organização regular do comércio. Já existia também um estado racional, que incluía toda a uma hierarquia social, formada por diversas classes que produziam e comercializava produtos em escala industrial. Existia já uma administração orientada por regras racionais e com funcionários especializados. A apropriação do excedente da produção, racionalmente efetuada e calculada em termos de capital já era algo comum. Tudo era feito em termos de balanço, onde a ação individual das partes, baseada no cálculo, tornava-se cada vez mais uma necessidade do organismo social.

Por volta de 3000 a.C., as cidades dos vales dos rios Nilo, Tigre e Eufrates já constituíam civilizações com governos centralizado nas mãos do rei e o trabalho baseado na servidão dos camponeses. Foi através do comércio que a racionalidade atingiu a ordem do todo. Ela se tornou um produto e ingrediente que nasce e se desenvolve com a civilização. Do nosso ponto de vista, portanto, foi essa racionalidade do comércio que fundou o sujeito racional capaz de classificar, ordenar, dispor e comparar, de calcular os meios com os fins e de coordenar a ação impondo normas e regras ao convívio social. A razão não é uma estrutura apriori, que nasce pronta, acabada como acreditava a filosofia racionalista. A razão se desenvolveu historicamente através das praticas sociais do comércio. A nossa idéia tem seu fundamento no materialismo-histórico, uma vez que são as formas de existência que determinam as formas de consciência. É a vida material do indivíduo que determina seus modos de ser, agir pensar e valorizar. Foi, portanto, o comércio que construiu a civilização ocidental e fomentou o indivíduo racional e autônomo.

Bibliografia

CHILDE, Gordon. A revolução Urbana na Mesopotâmia. In: Modos de produção na antiguidade, Org. Jaime Pisky, São Paulo, Global, 1988

CHILDE, Gordon. O que aconteceu na história. Rio de Janeiro, Zahar, 1973

MARX, K & ENGELS, F. Ideologia Alemã. Lisboa. Editorial Presença, 1976.

ROUAULT, O. O cerimonial do comércio. In: História viva: Mesopotâmia, o berço da civilização. Revista história viva. Duetto Editorial, São Paulo, p.24-7

HUOLT, J.L. O advento das cidades. In: História viva: Mesopotâmia, o berço da civilização. Revista história viva. Duetto Editorial, São Paulo, p. 30-7

 

 

 

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7 Comentários para “A racionalidade e a origem da civilização ocidental”

  1. 7
    leonardo:

    nao gostei nao encontrei nd o q precisava

  2. 6
    Gustavo:

    Esse texto é otimo mudei de opinião..
    vou resumir ele e levar para o colegio !
    esclarece tudinho so preciso de resumir !*..*
    Bjooos
    E massa ..

  3. 5
    Gustavo:

    Esse texto eh gigantessesimoo..
    oua! e mutio interresante mais precisava de um resumo para a escola so que sse texto eh muito grande preguiça de copiar !
    mais eh perfeitoo

  4. 4
    Ramiro Farias Moreira:

    Trata-se de um ensaio muito bem desenvolvido… Parabens pela excelente abordagem de tema tão
    complexo. Estou me sentindo feliz por te-lo lido !

  5. 3
    Renatha:

    ADOREI ESSE TEXTO…
    CONTEM TODAS INFORMAÇOES SOBRE O Q EU REALMENTE PRECISO.
    E PODE TER CERTEZA Q SEMPRE ESTAREI AQUI, E TBM PASSAREI ESTE SITE PARA MUITA GENTE PODER FAZER UMA BOA PESQUISA.

    MUITO OBRIGADO!!!
    BJIM…

  6. 2
    ravena:

    essa texto tem tudo q eu queria

    brigadinho

    bjj
    ](bjossssssssss

  7. 1
    Messias Ferreira:

    Pelo que notei no texto, o que me esclareceu imensamente, é que, ao contrário do que chegam a afirmar certos escritores, a invenção da escrita é tão antiga quanto a invenção do fogo. Pode-se, então, afirmar que os “números” foram descobertos, também, após a escrita, uma vez que paa grafá-los, o ser humano necessitava possuir alguma noção de escrita, correto?
    Não posso me aprofundar muito no assunto, porem, este me intriga.

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