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Clara Camarão – exemplo de valor de uma brasileira


dona clara camarão

Exemplo de valor de uma brasileira

Dona Clara Camarão não era uma dessas descendentes dos conquistadores portugueses, que se pudesse vangloriar de um nascimento ilustre, mas uma índia gerada nos bosques brasileiros. Nasceu na taba ou rústica cabana levantada por seus pais, sôbre a rêde de algodão traçada por sua mãe, como indicava a sua tez avermelhada, como o dizia o perfil e os contornos de seu rosto, como o denunciavam seus negros e acanhados olhos e seus cabelos corredios e espargidos pelos ombros. -Ela soube tornar-se interes­sante e recomendável, não só pelas suas maneiras agradáveis, como pela intrepidez e bravura do seu ânimo, merecendo por isso a atenção dos seus compatriotas, e a afeição e dedicação do mais gene­roso e valente indiano que produziram as tribos brasileiras.

Ignora-se a que tribo de índios pertencia dona Clara Cama­rão, em que parte do Brasil viu a luz [1]), e até o seu nome primitivo embalde se percorrem a êste respeito, as páginas dos histo­riadores da Guerra Brasílica. E’ todavia de crer que, como seu marido [2]), descendesse dos Carijós e nascesse em Vila Viçosa, nas abas da serra do Ibiapaba, onde os jesuítas estabeleceram uma al­deia de índios, que assaz concorreu para a povoação da província do Ceará.

Ligada pelos laços do consórcio a dom Antônio Felipe Camarão, achava-se dona Clara, como êle, em Pôrto Calvo,onde o conde de Bagnuolo acabava de se fortificar, quando João Maurício de

Nassau, à testa de um exército nume­roso, tentou a conquista desta nascen­te vila, e tudo se pôs em movimento. Dona Clara Camarão empunhou as ar­mas, incitou com o seu exemplo as se­nhoras de Pôrto Calvo, que se desalen­tavam em gritos de terror, e marchou à sua frente contra os invasores holan­deses. Ações brilhantes encheram as páginas da história nesse dia; mas a sorte das armas foi desfavorável aos nossos, que, podendo ser vencedores, to­caram a retirada e abandonaram a vila. Ainda assim Henrique Dias com seus negros, Camarão com seus índios, e dona Clara com a sua esquadra feminil, escoltaram os habitantes de Pôrt Calvo, marchando para Madalena, e depois para o Penedo e final­mente para Sergipe, donde se passaram à Bahia em 1634.

Tanto esforço e tão admirável coragem mereceram ser can­tados pelo jovem poeta nacional José da Natividade Saldanha, que, por mais de uma vez, foi inspirado pelas ações ilustres de seus compatriotas.

Não foi, porém, só nesta ação x) que se assinalou dona Clara Camarão, que, no dizer de Damião de Fróis Perim, acompanhou seu marido em tôdas as campanhas, e teve parte em tôdas as vitórias.

O que admira é que, tendo Felipe IV, rei de Espanha, que estendia o seu pesado cetro sôbre o reino português e suas con­quistas, galardoado os serviços de Antônio Felipe Camarão, pre­miando-o com a mercê de cavaleiro do hábito de Cristo, e fazen­do-lhe a graça do dom, se esquecesse de sua espôsa, sendo que foi Ião ilustre como êle, ou mais ainda, se lhe levarmos em conta a delicadeza do sexo.

J. Norberto de Sousa e Silva.

Fonte: Seleta em Prosa e Verso dos melhores autores brasileiros e portugueses por Alfredo Clemente Pinto. (1883) 53ª edição. Livraria Selbach.



[1] Viu a luz — em vez de nasceu, veio à luz, soa a galicismo.

[2] Antônio Felipe Camarão, assim se chamou o índio Poti — tão fa­lado em “Iracema” de José de Alencar, e que tão relevantes serviços pres­tou nas lutas contra os holandeses, que haviam invadido o Brasil conquistando Pernambuco.

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