EL CID, O CAMPEADOR

Espanha

Rodrigo Diaz, chamado de Bivar, é figura que se inclina tanto para a realidade como para o domínio da lenda. Cid, corruptela de seyyd, palavra árabe significando "senhor", foi o nome com que ficou em ambos os planos. Herói espanhol na luta contra os mouros, fêz-se o campeão do Cristianismo e, como tal, deu origem a copiosa produção literária, na qual figura, com repercussão universal, a tragédia CID, de Cor-neille, escrita em 163G.

CID, O CAMPEADOR

RODRIGO DIAZ, chamado o Cid, abandona o domínio de Bivar, já que seu senhor, Afonso VI, rei de Castela e Leão, o desterra. Muitos serviços prestou, bom vassalo que sempre foi, e leal, mas aos ouvidos do monarca tiveram mais crédito as insídias de alguns cortesãos do que a lembrança de tantas terras ganhas, das muitas riquezas obtidas pelo braço do nobre cavalheiro.

O Cid deixa, assim, o solar de Bivar. Seguem-no os seus, pois ninguém quis permanecer ali. Bivar fica ermo, o palácio com as portas abertas e os postigos sem cadeados. Vazios ficam os cabides onde antes se penduravam mantos e peles.

O Cid olha para tudo aquilo com lagrimas nos olhos. "Isto foi o que meus inimigos conseguiram’ — diz ele consigo mesmo, tomado de tristeza.

Cavalga em silêncio até Burgos. A cidade espera o Cid.

Pessoas vêm para as janelas, a fim de vê-lo passar, com seus homens e seus sessenta pendões ao vento. Ele, direito, com digno porte sobre sua montaria.

"Meu Deus, que bom vassalo, se tivesse um bom senhor!" — comentam as pessoas.

Todos sentem a desgraça em que caiu tão nobre cavalheiro, mas afastam-se dele, para que não tente dirigir-lhes a palavra. Fecham as portas, ao vê-lo, para que não lhe ocorra pedir-lhes hospitalidade para seus homens. Até a hospedaria está hermeticamente fechada.

Anoitecia, quando Cid ali chega. Chama à entrada, e ninguém responde. Ao insistir, aparece, medrosa, uma menina de seus nove anos:

— Oh! Campeador, que em boa hora cingiste a espada! O rei deu ordens peremptórias para que ninguém te acolha nem alivie tua fome! Não queira atrair o mal sobre nós!

O Cid, cabisbaixo, o coração sufocado de tristeza, segue seu caminho pelas ruas desertas. Entra na Igreja de Santa Maria. Encomenda-se a Deus. Depois, esporeia sua cavalgadura e cruza o Alanzón. Dispõe-se a passar a noite no Areal, fora dos muros da cidade.

Um burgalês, chamado Antolinez, corre a ajudá-lo com provisões. Faz isso às escondidas, servindo-se da escuridão da noite.

O Cid não leva dinheiro consigo, já que seus bens foram confiscados, precisamente quando mais iria precisar deles. Aquele mesmo Antolinez presta-se a proporcionar-lhe numerário por meio de engenhoso ardil. Há, na cidade, dois judeus, chamados Raquel e Vidas. Antolinez vai à casa deles, tira-os da cama, e diz-lhes:

— Há um caso de urgência, que lhes vai ser muito conveniente. O Cid, como sabem, deve abandonar o reino dentro de três dias. Terá que cavalgar com firmeza, e precisa apressar-se. Leva duas arcas repletas de ouro e pedras preciosas, e mal pode fazer caminho, assim carregado. Portanto, pensou que Raquel e Vidas poderiam ficar com elas, como fiança, em troca de trezentos marcos de ouro.

Os judeus entreolham-se. Uma pequena chama arde em suas pupilas. Pouco depois, já estão azafamados, ajudando a trazer para dentro de casa as arcas, e colocando-as em lugar onde ninguém possa vê-las.

Com o dinheiro já em sua bolsa, o Cid manda selar os cavalos e dobrar as tendas. Saem todos, com Antolinez, a caminho de Cardena, onde estão refugiadas Dona Ximena, esposa do Campeador, e suas duas filhas.

São Pedro de Cardena é um convento famoso. Ouve-se 0 canto do galo, e, logo, o toque de matinas. O abade está de pé, com um livro nas mãos, junto de uma janela, gozando a primeira luz do dia. Soam pancadas no portão externo do cenóbio. Há um alvoroço de hábitos negros no claustro e nos corredores. Um leigo transmite ao abade a palavra que vem passando de boca em boca, entre os monges: "O Cid!"

Num momento agrupou-se toda a comunidade, em silêncio, à meia-luz da aurora. Levam círios acesos nas mãos e há um ruído, lá fora, de aldrabas e correntes. Abre-se o portão externo. À débil claridade do dia nascente recortam-se as silhuetas das armaduras, os cimos.

O Cid entra, passando por ala dupla de monges: as chamas dos círios iluminam os olhos, fixos naquele que chega. Adianta-se com passo firme até o abade. Ajoelha-se diante dele, que imediatamente o faz levantar, suspenden-do-o com suas mãos delicadas.

Mais tarde aparece Dona Ximena. As aias trazem as meninas nos braços. A esposa cai de joelhos diante do Cid, quer beijar-lhe as mãos.

— Ai, que te desterram os malvados! — diz-lhe ela, chorosa.

Seis dias depois — e faltavam só três para esgotar-se o prazo que o rei dera ao Cid para sair do país — êle se dispôs a abandonar São Pedro de Cardena. Sua comitiva contava agora com mais cem homens, que a êle se haviam juntado. Prepararam as montarias. O Campeador dá cinqüenta marcos de ouro ao abade, para a manutenção de Dona Ximena e suas filhas.

Pela manhãzinha foi dita uma missa pelos que se iam. A esposa do Cid atirou-se contra as grades do altar-mor, desfeita em pranto.

A despedida foi comovente, e prolongava-se tanto que, já montado em seu cavalo, o Campeador não podia deixar de contemplar os seus.

Disse-lhe, então, Alvar Fanez, chamado Minaya:

— Onde está vosso ânimo? Pensemos apenas em esporear, e deixemo-nos de ociosidade.

Não mais se atrasou o Campeador. Soltou a rédea, e saiu a galope. Atrás dele vieram todos, em marcha. No silêncio ao campo, mal desperto ainda, somente ouvia-se o rumor das patas dos cavalos.

Passaram o Espinhaço do Can, Santo Estêvão de Gormaz e Navapalos. Cruzaram o Douro. De todas as povoações saíam homens a cavalo, com armadura, escudo e lança, para se reunirem a eles. Passaram a noite em Figuereula.

O Campeador dormia ali profundamente quando um anjo acercou-se dele.

— Cavalga, — disse-lhe o anjo, — que ninguém jamais cavalgou com tanta sorte. Tudo em tua vida será para bem.

Terminava o prazo dado pelo rei, e o grupo abandonou Castela, pela serra de Miedes. A primeira façanha do Cid no desterro foi a conquista de Castejón de Hcnares, toman-do-a à mão dos mouros. Tinham, o Cid e sua comitiva, acampado num outeiro que ficava junto do povoado, e ali passaram a noite. Ao despontar do dia, ia Castejón despertando lentamente, como em tantos outros dias, bem alheio à proximidade de cristãos. Do acampamento ouvia-se distintamente o cacarejar das galinhas, o balido das ovelhas, o relinchar dos cavalos. Saíam os homens de suas casas, as enxadas no ombro, esfregando ainda os olhos. Ao fim de uma hora poder-se-ia afirmar que na povoação só havia mulheres, velhos e crianças. Então, o Cid deu ordem para que se iniciasse o ataque.

Êle, com o grosso de suas mesnadas, entrou bruscamente na aldeia, enquanto uma partida de cem homens a cavalo realizava uma razzia pelo campo circundante, recolhendo frutas e gado.

O que acontecera em Castejón repetiu-se em Alcocer. Corria o Cid com seus homens pelas margens do Jalón. Ia fazendo-se rico cm gado, ouro, prata, armas, cavalos. Terrer e outras povoações de mouros preferiram pagar-lhe tributo a sofrer seus saques.

Primeiro em Calatayud, depois na própria Valência, as Façanhas do castelhano alarmaram a gente sarracena, e o rei daquela última cidade achou que já era tempo de pôr côbro aquelas correrias. Mandou contra êle mais de três mil homens, exército perfeitamente equipado, com cavalos para muda, e tendo a seu favor as populações de quantas cidades e aldeias ia cruzando.

Os do Cid não passavam de trezentos, e tinham seu acampamento numa colina chamada El Poyo. Ali cercaram-nos os mouros. Tiraram-lhes a água. Os alimentos escasseavam.

De início, o Cid resistia à idéia de dar-lhes combate. Tão grande desproporção entre aquelas forças! Porém, depressa reuniram-se em conselho, e todos optaram pela luta.

Os mouros atroavam o ar com seus tambores. Exibiam milhares de lanças, em companhias bem cerradas. Os castelhanos permaneceram durante muito tempo uns contra os outros, parados, como que temerosos. O próprio Campeador recomendava prudência. "Esperai, ainda!" Obedeciam-no todos, mas, de pronto, um cavalo, como que desbocado, saltou fora do pelotão. Era a montaria do impetuoso Pero Bermudez, o qual, levantando na mão o estandarte, avançou, sozinho, contra os árabes.

Não podiam abandoná-lo. Os trezentos seguiram Pero Bermudez. Então, foi o gritar de uns para outros, o partir-se de lanças, o tombar de cavaleiros, o correr sangue pelas cotas de malha de uns e pelas couraças de outros, pela manga de muitos. Os cristãos acabaram com uma grande quantidade de mouros, mas o que decidiu a batalha foi ter o Cid ferido o chefe mouro, Fariz. Ficavam dois mil sarracenos, e dois mil foram os que volveram ao inimigo as garupas de suas montarias, em debandada.

Todo o acampamento, com suas tendas luxuosas, caiu em mãos dos castelhanos. A presa foi enorme.

O Cid sentia-se seguro e forte. O número de seus homens crescia com sua fama, com suas vitórias. Contava agora com tendas, gado, cavalos, armas incontáveis, e abundância de ouro e prata. Como iam longe os tempos da burla feita a Raquel e Vidas!

Continuava, porém, em desgraça aos olhos do rei. E tinha os olhos sempre postos em Burgos! Mandou, pois, que Alvar Fanez ali fosse ter, levando para Afonso VI um presente em ouro, prata e cavalos.

O rei recebeu com honra o emissário. Disse que os presentes lhe davam prazer e mostrou-se favorável a Minaya, dizendo que desde aquele momento perdoava-lhe ter seguido o Cid, e que lhe devolvia suas terras e bens, que tinham sido confiscados. Quando Alvar Fanez insinuou, entretanto, a possibilidade do perdão para o Cid, o rei respondeu, de maneira definitiva, que as semanas que se tinham passado eram poucas para que um desterrado voltasse a gozar de suas graças, e que, no momento, não desejava falar naquele assunto.

Corrida a margem do Jiloca, o Cid adentrou-se para o Norte, em direção de Monzón e Huesca, através de Alcaniz. O reizinho oscense era tributário do conde de Barcelona, Ramón Berenguer, e, sendo assim, este último organizou um exército e saiu ao encontro dos que vinham, como quem vai a uma caçada. Considerava os castelhanos do Cid um bando de salteadores, sem pátria, que se dedicavam à pilhagem, em nome apenas da sua audácia.

O encontro teve lugar no pinheiral de Tevar. Os homens do Cid vinham justamente de uma batida, carregados de despojos, e cansados. Os catalãos, com boas horas de repouso no corpo, dispostos, bem alimentados. Os primeiros usavam selas pesadas e botas sobre as calças. Os outros traziam arreios leves e não tinham couro a apertar-lhe as pernas.

A vitória sorriu ao Cid. O conde barcelonês foi feito prisioneiro, e não conseguia sair do assombro de que fora tomado. "Que eu tenha sido vencido por estes indivíduos mal calçados!" Não se dignava aceitar nada das mãos dos castelhanos, pois que ele, um conde soberano, consideraria tal coisa uma afronta. Mas o Cid insistia de vez em quando para que êle comesse, e acabou por consegui-lo, ao fazer-lhe a promessa de libertá-lo logo depois.

Tendo cumprido sua promessa, o Cid, rico com a presa tomada aos catalãos, voltou sua atenção para o Sul.

Desceu por Jerica, Onda, Almenara e pelas terras de Burriana. Entrou em Murviedro. Vinham os castelhanos de terras ásperas, de trigo, e de tratos incultos, de trechos rochosos e declives sem vegetação, onde apenas nas veigas dos rios havia manchas verdes, de escassa vegetação, e de pronto se viram numa extensão enorme de terras- de cul-tura, cruzadas por fossos, canais e regos, nas quais os limoeiros e as laranjeiras exalavam atmosfera perfumada de jardim.

Saquearam grandes povoações: Játiva, Denia, Cullera. Chegando a Benicadell puseram-se, por assim dizer, a um tiro de flecha de Valência. Sentiam já próxima a grande cidade. Dominavam caminhos que iam terminar em suas mas e praças. A cada momento detinham-se para apodera -rem-se de carregamentos de provisões, artigos que bem podiam estar destinados à mesa do rei valenciano.

Para o Cid era como sentir a dois passos, atrás de umas moitas, o ofegar do animal procurado trabalhosamente, durante todo um dia de caçada. Continha-o certo respeito, á idéia de iniciar o assalto da cidade, por isso ia cortando os pontos através dos quais ela recebia suas provisões, cerrando aos poucos um cerco que depressa foi total. Ainda esperava. Mas um dia não se conteve. Pôs em pé de guerra seu exército, e encaminhou-se, decidido, para Valência.

No décimo mês de assédio, Valência viu entrar pelas torres de Quarte uns homens rudes, que com o ferro das armaduras e os elmos sem penacho combinavam cores pardas e cinzentas em suas capas, calças e saios.

O poder e a glória do Cid eram grandes. Mantinha e ditava a lei em Valência, cidade que reis desejariam possuir. Era rico, respeitado, senhor de milhares de almas… Mas não esquecia seu solar de Bivar. Nem a Afonso, que considerava seu senhor natural.

Enviou-lhe, pois, nova embaixada. Dessa vez com muito mais ouro e prata, com pedrarias e várias tendas tomadas aos mouros, bem como centenas de cavalos.

O ânimo do rei parecia, então, muito melhor disposto. Consentiu que Dona Ximena e as filhas do Cid fossem ter com êle, em Valência.

Com que rapidez montou a cavalo o Campeador! Toda Valência estava engalanada, e os cristãos em atitude festiva. Chegavam a esposa e as filhas do senhor da cidade. Dias antes já havia partido uma comitiva para recebê-las na metade do caminho. O Cid dispôs-se a aguardá-las às portas da cidade.

Vinham pendões, estandartes, bandeiras. Um conjunto belíssimo de ouros, vermelhões, verdes, brancos, azuis, ga-ranças, sépias, nos trajos dos que compõem a comitiva, nas gualdrapas da cavalaria.

Dona Ximena desceu de sua liteira. O Cid desmontou. Todos viram as lágrimas a correr sobre aquele rosto curtido, tão varonil, quando ele abraçou-se à esposa. As filhas já estavam mocinhas, e seus cabelos finos, ondulados, esponjosos, misturavam-se à barba crespa, cerrada, de seu pai, quando o abraçaram.

Sinos de Valência, com que gozo faziam fremir o ar! Além disso, flautas, clarins, zabumbas, tambores. Na comitiva havia cem sacerdotes e frades, o bispo com sua tiara e seu báculo, cânticos, flores. . .

A manhã era clara, de céu límpido. Da torre do alcácer, o Cid mostrou a cidade à esposa, e ela a viu grande, extensa, como um tabuleiro multicor de telhados e de silhuetas airosas de torres e campanários. Para além das casas, de um lado estcndia-se mancha verde, interminável, e de outro uma franja azul que chegava até o horizonte: os campos de cultura, e o mar.

A primavera adiantava-se. O Cid parecia rejuvenescido. A vida prosperava, na Valência cristã, com o conseqüente ciúme de toda a mourama. Ciúme que os da península tinham de reprimir, incapazes como eram de combater o Campeador, mas que Yusuf, imperador de Marrocos, achava absolutamente necessário eliminar, eliminando sua causa.

Um dia, os sentinelas da costa deram aviso. Chegavam naves dos mouros. Muitas. Os sinos de Valência tocaram a rebate. Dona Ximena ficou muitíssimo alarmada, mas o Cid não só se mostrava sereno, mas jovial e despreocupado. Nem se apressava, ao vestir sua túnica acolchoada, a cota de malhas, a armadura, a coifa almofadada que se usava sob o elmo. Não se precipitou para calçar as botas, para fixar as esporas. Montou, num salto leve, seu cavalo Babieca. Dona Ximena apareceu a uma janela, com expressão preocupada, e o Cid lhe disse:

— Não temais. Alegrai-vos, antes. Estou orgulhoso, porque pela primeira vez vossos dulcíssimos olhos me verão

combater. Riqueza grande, maravilhosa, vem ao nosso encontro, com aqueles sarracenos. Alvíssaras!

Não se enganou. Certamente eram grandes, magníficas as riquezas que em tendas, objetos, armas e cavalos obteve o Cid. Poucos foram os mouros que puderam embarcar novamente em seus navios. Vitória famosa, que aumentou ainda mais o renome do senhor de Bivar.

Afonso VI não mais deu ouvidos aos inimigos do Cid. A uma nova embaixada que o procurou, expressou o desejo de vê-lo, para uma reconciliação, para o perdão. E também para tratar do casamento das filhas do Campeador com os infantes de Carrion, que as haviam solicitado como esposas, desde que viram crescer a estrela e a fortuna de seu pai.

O encontro foi realizado às margens do Tejo.

Vinha o rei com seu esplêndido e numeroso cortejo de castelhanos, galegos, leoneses, com muitos cavalos, palafréns e mulas.

Vinha o Cid, seguido pelos seus.

Afonso o esperou de pé. Chegava o Campeador a cavalo. Mandou parar os que o acompanhavam. Adiantou-se sozinho, por alguns metros. Desmontou. Deu dois, três passos para a frente. Já diante do monarca, ajoelhou-se, beijou o chão: chorava.

— Levantai-vos — disse-lhe o rei. — Beijai-me antes as mãos do que os pés, pois contais com o meu amor. Perdôo–vos e vos devolvo o meu favor. Que todos os presentes me ouçam.

O Cid regressou a Valência. Dentro de pouco tempo realizou-se o casamento de suas duas filhas, Dona Elvira e Dona Sol. Os infantes viviam à larga, como genros de tão poderoso senhor. Mas, se sabiam muito bem regalar-se, pois vestiam do melhor, colecionavam os mais belos cavalos e se rodeavam de criados e luxos de toda espécie, seu valor deixava muito a desejar.

Desde o início ninguém os considerou grandes coisas, no que se referia a manejar a lança ou a espada. Nunca foram vistos como primeiros, nem mesmo entre os mais adiantados, na hora da luta, mas todos se calavam porque respeitavam o Cid e suas filhas. Entretanto, tendo acontecido fugir um leão de sua jaula, no Alcácer, aquela fama, abaixo da média, que até então não havia sido comentada ao ar livre, modificou-se para outra, que falava de franca e clara covardia, e provocava desprezo e zombarias. Eles tinham sido vistos correndo até esconderem-se vilmente atrás de seu sogro, procurando o amparo dele. Não se faziam, assim, simpáticos nem queridos. Dizia-se, desde a ocasião do casamento, que queriam Dona Elvira e Dona Sol não por si próprias, e sim pelos grandes bens do Cid.

Contudo, ainda por ocasião de um ataque de mouros, Pero Bermudez não só cobriu a fuga deles diante do inimigo, mas disse que os vira batalhar com denôdo.

Quanto maior era o desprezo dos cavalheiros, maior era o ressentimento dos infantes. O coração deles transbordava de fel. Sua própria glória e fortuna envenenava-lhes a alma. Afinal, o fato de se aproveitarem delas cinicamente não justificava que lhas atirassem constantemente em rosto, desejosos de que as perdessem.

Com ânimo exaltado dirigiram-se para seu solar de Cur-rión. Disseram ao Cid que para ali iam fazer companhia a suas esposas. Seu intento, porém, era outro, bem tôrvo.

O Cid dera-lhes esplêndida comitiva. Encabeçava-a um de seus fiéis: Félez Muñoz. Achando aquilo ainda pouco, deu-lhes suas espadas preferidas: Tizona e Colada.

O caminho para Currión passava por um bosque altíssimo e espesso. O carvalhal de Corpes. Pernoitou ali a comitiva. Ao amanhecer, os infantes deram ordens para que os criados, com as mulas de carga, se adiantassem pelo caminho. Félez Muñoz e os outros deviam escoltá-los. Eles e suas esposas desejavam permanecer um pouco mais no bosque.

Quando já se poderia supor que os criados e a escolta estariam bem afastados, os infantes substituíram as provas de amor, com que haviam cumulado suas esposas durante a noite, por um feroz espancá-las com as correias dos animais, cravando-lhes ainda esporas. Rasgaram-lhes, assim, os trajos e a pele. Alternavam as correadas implacáveis com insultos e gritos. Em vão suplicavam as damas, pois eles respondiam:

— Pagai vós pelo Cid e pelos seus. Aqui ficareis, abandonadas e escarnecidas.

Algumas horas depois de estar cavalgando com os criados e as mulas de carga, Félez Muñoz começou a desconfiar. Por que estavam se demorando tanto para alcançá-los, os infantes e suas esposas? Que lhes teria acontecido? Deixou passar mais algum tempo, mas resolveu, por fim, voltar ao carvalhal, levado por estranho pressentimento.

Dona Elvira e Dona Sol estavam amarradas a uma árvore, feridas, com os corpos quase despidos, cheios de chagas e ensangüentados. Félez Muñoz socorreu-as.

A afronta chegou aos ouvidos do Cid. Toda a Espanha teve conhecimento dela. O caso comoveu os reinos de Castela e Leão. O próprio monarca achava que uma ação daquelas não poderia ficar sem castigo, e mandou convocar o Tribunal de Justiça, em Toledo.

Enquanto aquilo se fazia, esperava-se que o Cid, parte principal ofendida, exigisse com muita firmeza a reparação devida à sua honra. Muito astutamente, porém, começou ele por reclamar a devolução do dote, depois a das espadas Tizona e Colada. Acederam pressurosamente os infantes, acreditando que com aquilo se livrariam de tudo o mais. Entretanto, o Cid deixara para o fim o desafio para o campo da honra.

Foram vencidos os dois infantes, um por Bermudez, outro por Antolinez.

Reparada a ofensa, as filhas do Cid foram dadas em matrimônio aos infantes de Navarra e Aragão. Afonso VI reabilitou plenamente seu antigo vassalo.

Fonte: Maravilhas do conto popular. Adaptação de Nair Lacerda. Cultrix, 1960.

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