EL-REI – D. João VI no Brasil – Oliveira Lima



D. João VI no Brasil – Oliveira Lima
CAPÍTULO XXIV

EL-REI

Para bem se aquilatar da parte preponderante que de fato pertencia a no governo, do quanto pesava sobre a administração sua influência pessoal, é mister salientar a circunstância de que, exatamente ao transpor a culminância do seu reinado americano, o monarca dirigia só os negócios públicos. Só, quer dizer com seu valido Thomaz Antônio Villa Nova Portugal, valido pouco ambicioso e nada ganancioso, que se contentava com possuir a confiança do seu príncipe sem pretender exercer ação direta e pessoal no estado. Confidente e íntimo o foi porém, quase sem interrupção, desde o tempo em que o conhecera o regente de corregedor em Vila Viçosa e o passara logo para a Casa da Suplicação de Lisboa e depois para o Desembargo do Paço, a fim de ter sempre ao alcance, quando lhe convinha, um parecer judicioso e desinteressado sobre assuntos difíceis.

Barca e Aguiar tinham falecido ambos em 1817, Palmela continuava ocupado na Europa, Bezerra desaparecera do rol dos inválidos após poucos meses de governo; Thomaz Antônio, apesar dos seus 63 janeiros, era quem, por menos que se fizesse na opinião dos diplomatas estrangeiros, acudia a tudo nos fins do ano da revolução de Pernambuco e da ocupação de Montevidéu. E o processo tão bom pareceu a El-rei que nele persistiu, apenas chamando da Bahia, em fevereiro de 1818, para a pasta da Marinha o conde dos Arcos, novato nos conselhos régios, se bem que ve-rerano da administração colonial por própria conta.

Relata Palmela,786 que à sua chegada ao Rio em 1820, encontrou o governo nas mãos desses dois homens: "um [Thomaz Antônio] cheio de puras intenções, mas não tinha a menor idéia do estado de cousas na Europa nem de forma alguma de governo diverso do que existia entre nós desde o ministério do marquês de Pombal;787 o outro [Arcos] dominado de sentimentos cavalheirescos, e também de boas intenções, posto que assaz vagas e indefinidas, não gozava da confiança d’el-rei."

Thomaz Antônio ficara com efeito sendo, nesse ministério anormal em que lhe cabiam as pastas do reino, Erário, negócios estrangeiros e guerra, o homem de confiança de Dom João VI: tão arredado o colega da privan-ça real e tão alheio aos segredos do gabinete (o que reforça a crença de que – os seus serviços estrênuos da Bahia resgatavam um pensamento, pelo menos, de deslealdade) que se não pejava de perguntar a Maler,758 e isto sem ironia, muito candidamente ao que quis parecer ao encarregado de negócios de Sua Majestade Cristianíssima: "Expliquez-moi, s’il vous plait, ce que c’est que la guerre du rio de La Plata, dont la politique et le but sont aussi enigmatiques pour moi que les mouvemens du general Lecor?" E, depois de repetir na sua correspondência esta estranha pergunta ajuntava o agente francês: "Que Votre Excellence n’aille pas croire qu’il plaisantait lui même, je sais três bien qu’il n’était pas initié dans ces mystères."

Maler forçava certamente a nota da ingenuidade, pois não é crível que acreditasse em Arcos ignorar o que para ninguém era segredo: que a campanha do Sul tinha por objetivo a conquista da margem oriental do . No que ele tinha razão era em comentar para Paris que "l’un de ces ministres est beaucoup trop ministre, et l’autre trop peu", e teria também acertado se prognosticasse que uma pronunciada desinteligência surgiria desta situação desigual e humilhante para Arcos.

Num sentimento entretanto pareciam combinar os dois ministros, na antipatia às idéias liberais, distanciando-se ambos de Barca, como jubilosamente recordava Maler,789 pondo em relevo "os predicados sociais e amáveis" do antigo vice-rei do Brasil e observando que, com sua escolhe, para o ministério, o rei não só tinha querido recompensar-lhe os inestimáveis esforços em prol da restauração da autoridade legítima em Pernambuco, como agradar aos nacionais, que por certo estimariam ver elevado ao poder um antigo residente e perfeito conhecedor do reino americano e suas necessidades. Além disto reacendia no governo a tradição, já um tanto apagada, da facção antiinglesa790 dos tempos lisboetas, assim dando arras à corte britânica, com Thomaz Antônio, da velha amizade, e com Arcos fazendo-lhe negaças.

Confirmando o sabido, que Dom João VI consultava Thomaz Antônio sobre todo assunto de importância e que a este não falta inteligência nem sobretudo um grande conhecimento de minúcias administrativas, ponderava Maler que em desprendimento e patriotismo era o novo ministro-assistente ao despacho digno de suceder ao virtuoso Aguiar.

 

Era na verdade Thomaz Antônio honesto até a alma, complacente para com seu Senhor, rezingueiro com os ambiciosos, confiado às vezes em excesso com os aduladores, cheio de gravidade e de formalismos. Dir-se-ia a imagem do velho Portugal, de calções, capote e chapéu redondo, recuando diante do novo Brasil que avançava de botas de montaria e chicote, encarnado, com os defeitos da juvenilidade, no príncipe exuberante de vida como a mãe e como ela malcriado — um ill-educated and boiste-rous young man na frase de Luccock.

A influência do digno magistrado sobre o soberano e portanto indiretamente sobre a marcha da administração foi, quanto lhe permitia o ciúme governativo de Dom João VI, avultada e pode em suma dizer-se que benéfica porquanto, se se não distinguia por uma ampla visão política, recomendava-se Thomaz Antônio pelo seu raro escrúpulo. Em Portugal, quando deputado à Junta do Comércio, fazia todo o trabalho oficial para o conde de Vila Verde, que não passava de um lazzarone obeso e comilão, e desempenhara com eficiência o cargo de fiscal do Real Erário, conseguindo avolumar a arrecadação de receita e diminuir a despesa, o que é um resul-:ado colossal num país de inveterados abusos e inveterados desperdícios. No Brasil aonde acompanhou a corte, cuja trasladação fortemente aconselhara, foi nomeado chanceler-mor do Estado e tornou-se, cada dia mais ostensivamente, o conselheiro privado de Dom João VI, constituindo ele sozinho o kitchen cabinet de São Cristóvão. O seu parecer era cotejado com os dos ministros e freqüentemente seguido de preferência. Correspondia-se de Santa Cruz com os membros do gabinete, transmitindo-lhes as ordens reais que ele próprio muitas vezes determinara ou pelo menos sugerira. Destas foram, no dizer de Mello Moraes,791 a vinda da divisão auxiliar portuguesa que fez a campanha da Cisplatina; a distribuição de títulos de nobreza e cargos políticos pelos brasileiros natos com o fim de extirpar prejuízos nativistas e que somente redundou em acréscimo de intrigas e ciúmes entre os filhos dos dois reinos, e a franca entrada do caminho da abolição da escravatura, começando-se pela limitação do tráfico, cujo primeiro ensaio, no teria merecido o apoio de Thomaz Antônio.

Como não pedia, nem enredava, nem roubava, das suas poucas necessidades dando testemunho a modestíssima casa de Catumbi onde resi-dia mesmo quando primeiro-ministro, o seu conceito junto ao soberano criar raízes fortíssimas e contra ele não podiam prevalecer os zelos que do burguês jurista, filho de um pequeno advogado de província, nutriam os fidalgos da corte.

Como ministro792 tratou de fazer economias e manter em equilíbrio o orçamento. Pessoalmente pouco mais fez, que conste. O seu conselho valia mais do que a sua ação, e a sua iniciativa era sobrepujada pela sua tendência conservadora. Timorato sempre, faltando-lhe o hábito da responsabilidade, habituado como andava a agir por trás dos reposteiros do despacho régio, nem mais soube na velhice mostrar-se enérgico com relação aos desvios comuns entre o funcionalismo brasileiro e, em especial, as irregularidades de que era notoriamente culpado o tesoureiro-mor Tar-gini (visconde de São Lourenço), cuja preponderância continuou a vingar em matéria de fazenda como no tempo do probo Aguiar.

O renome de Targini chegara a tanto que as denúncias, que em 1817 choveram nas secretarias do Rio para serem apresentadas a el-rei, acusando todo mundo brasileiro, político e social, de ser composto de pedreiros livres (os quais até então se não tinham visto molestados, fechando o governo os olhos à sua tibieza religiosa por julgá-la compatível com o fervor dinástico)793 sobretudo abocanhavam o tesoureiro-mor — "que por todos os princípios engrossa a maledicência e traição contra pessoa de Vossa Majestade e seus direitos…. extorquindo os cabedais régios de V. M., não se aqui, como pela sua autoridade esgotando os das capitanias… O vulcão rebenta e estoura, e talvez sem remédio; a convenção ou partido da assembléia engrossa…"

Esta denúncia794 especificava mantas compradas a um compadre inglês por 1.000 réis para o arsenal do exército, cortadas ao meio e pagas pelo governo a 2.000 réis, ganhando a sociedade cinco contos para mais: vinte e dois praticantes do Erário nomeados a negócio para poderem escapar ao recrutamento forçado; os criados do serviço particular do trai dor retribuídos sob o título de contínuos do Erário, sem aí terem jamais aparecido para exercício; sua casa de moradia construída à sombra da edificação do mesmo Erário.

Uma outra denúncia, dirigida a Dona Carlota Joaquina, de quem se reclamava o "valor heróico" da sua compatriota Dona Luiza de Guzrmán visava não só Targini como todos os conselheiros do monarca. O delator anônimo, querendo no fundo impedir a remessa de socorros legalistas para a Bahia e Pernambuco e acabar com o exército pois aconselhava a prisão de todos os oficiais por desleais795 pretendia desvendar a ameaça de uma revolta de negros no caso de lavrar discórdia mais séria entre os brancos, e simulava revelar um assombroso plano de "pôr em desordem neste contigente a fim de introduzirem para o governo destes estados os irmãos de Bonaparte, que se acham nas Américas inglesas, e ao depois tudo se entregue a Bonaparte, arrancado pela força de Santa Helena".

É curioso que o senso popular tão bem discriminava entre tesoureiro-mor e ministro, que não pedia para eles igual punição: um era culpado de malversações, o outro só o seria de fraqueza. O pasquim, fruto da efervescência política de 1821, assim dizia:

Excelso rei,

Se queres viver em paz

Enforca Targine

E degrada Thomaz.

O ministro tinha as melhores preocupações de administração, quando o tesoureiro-mor só tinha, na voz do povo, os piores instintos de corrupção. Assim, foi Thomaz Antônio partidário decidido da colonização estrangeira, projetando outros núcleos suíços e alemães como o de Friburgo, e não os levando a efeito provavelmente pela oposição real. Dom João VI achara muito dispendiosa aquela experiência, na qual veio a sair cada imigrante por 1.500 francos, e opinava, segundo mesmo disse a Maler,796 que melhor houvera sido facilitar aos colonos a entrada à formiga do que concluir para sua introdução negócios onerosos, de que sobretudo se aproveitavam os empreiteiros, sem que a qualidade ou sequer o número compensasse a avultada despesa. O pior efeito do ensaio de Friburgo fora na verdade o de ser migração subsidiada, recolhidos os emigrantes à matroca entre gente pouco apta para tal fim e enganada por promessas miríficas. Diz von Leithold797 que muitos dos colonos vieram na idéia de serem senhores de terras e de negros, e outros tantos na esperança de reconstituírem suas fortunas e voltarem em pouco tempo, todos eles, como ricaços para suas terras. O desapontamento foi grande quando se encontraram sem escravos e com a terra em frente para cultivá-la com seus próprios braços. Desanimados, não poucos, os alemães — pois que esses imigrantes suíços e católicos eram em boa parte alemães do sul e pro-testantes — fizeram-se soldados. Da imigração portuguesa também foi Thomaz Antônio protetor, fundando em Santa Catarina uma colônia de pescadores da Ericeira e outras colônias em diversos pontos, para as quais ia dando baixa, substituindo-os por raças destacadas das forças que as guerras tinham acabado por acumular em Portugal e que o governo do Rio canalizara para o Brasil e para Montevidéu.

O conselheiro de Dom João VI não possuiu entretanto resolução, ou mesmo percepção intelectual bastante aguda para chegar até as medidas superiores e efetivas, de política doméstica, que melhor poderiam atrair e desenvolver a apreciada colonização européia, de tão fecundos resultados se hábil e inteligentemente encaminhada desde então.

Mais respeitador das formas do que o seria qualquer outro ministro da coroa, graças à sua educação jurídica, desaprovou de modo discreto a conduta do conde dos Arcos da Bahia, mandando executar sem garantias e até sem processo os revolucionários pernambucanos desgarrados ou arrastados; substituiu o secretário do novo governador Luiz do Rego, culpado de violências; ordenou, de preferência à sumária justiça militar, a alçada que funcionou na província rebelde, e também a inconfidência que se exerceu no Rio contra os pedreiros livres, valendo-se dos meios de denúncia, espionagem e inquéritos sob sigilo porque eram os que lhe facultavam a legislação e os costumes da época; por fim, não julgando ser uma sedição local motivo suficiente para retirar o rei ao Brasil sua benevolência e transformá-la em odienta perseguição, propôs a Dom João VI, por ocasião da sua aclamação em 1818, conceder uma anistia geral e completa que no último momento foi, ao que anda relatado em Mello Moraes.798 trocada por uma ordem, mal obedecida que veio a ser, de suspensão ca prisões e outras perseguições ainda em andamento por motivo da revolta de 6 de março de 1817.

Acompanhando o movimento imperialista peculiar ao momento, de fendeu Thomaz Antônio a política de prolongamento meridional da cos ta brasileira até o rio da Prata, sendo neste ponto o seu ardor igualado pela indiferença com que encarou a restituição de Caiena — terras, dizia ele, de que não precisava o Brasil, para o qual, não obstante, arquitetava em sua mente um glorioso porvir, repetindo, e decerto mais sinceramente com o poeta:

Povos! Se os lusos, com o invencível Gama

Ao mando do seu rei debelam reinos,

Hoje o que farão por seu rei guiados!799

Feitas as contas, somados os proveitos e descontadas as desvantagens o Brasil lucrara, assaz o temos visto, com a mudança da corte para o Rio de Janeiro, uma profunda alteração nas suas condições mercantis, econô micas, intelectuais, sociais e políticas. De fato ganhara a independência que seria consumada em 1822, mas que já antes se fizera sobremodo clara e e evidente.

Daquela alteração foram vários os instrumentos, vários mesmo os agentes, mas fator constante foi o monarca que ali, na sua colônia americana, se acolhera num momento dramático, ali gozara bem-estar físico,800 satisfações morais e até triunfos" bélicos, ali desejaria ter descansado para sempre, e pelo menos ali fundou e deixou uma dinastia para guiar os destinos da nova nacionalidade no encalço das suas honrosas tradições.

Dom João VI não foi o que se pode chamar um grande soberano, de quem seja lícito referir brilhantes proezas militares ou golpes audaciosos de administração: não foi um Frederico II da Prússia nem um Pedro I da Rússia. O que fez, o que conseguiu, e não foi afinal pouco, fê-lo e conseguiu-o no entanto pelo exercício combinado de dois predicados que cada um deles denota superioridade: um de caráter, a bondade, o outro de inteligência, o senso prático ou de governo. Foi brando e sagaz, insinuante e precavido, afável e pertinaz.

Da sua amabilidade contam-se traços de cativar. Quando a arquiduquesa Leopoldina, após a cerimônia do casamento, chegou a São Cristóvão, que tinha sido preparado para receber os nubentes, encontrou nos seus aposentos particulares o busto do imperador da Áustria, seu pai, e o rei fez-lhe entrega, para que lesse e se distraísse, de um livro que, ao abrir e folhear, verificou ela comovida conter os retratos de toda a sua família ausente.801 ‘

Para avaliar sua esclarecida eqüidade, basta referir o que observou o cônsul Henderson: que os ingleses residentes no Rio, quando lhes ocorriam dificuldades sérias com a administração, preferiam muito dirigir-se diretamente ao monarca, sempre disposto a fazer justiça, a entender-se com seus ministros. Freqüentes vezes na sua obra,802 o autor britânico elogia a cordura, a benignidade e o liberalismo de Dom João VI, que um escritor dos nossos dias,803 confundindo a miragem com a perspectiva, intitula com mais espírito do que verdade histórica um "real fantoche".

Também o ministro americano Sumter dizia gostar incomparavelmente mais de tratar com o rei, cuja bondade reconhecia e proclamava, do que de tratar com seus conselheiros, sobre quem lançava a culpa de quanto pudesse suceder de mau. "Falava em termos favoráveis do rei, mas julga pésima a a condição da sociedade e altamente desaprova os mil vexames e abusos praticados com o povo em nome do governo."804 Tão longe es-tava aquele diplomata de considerar o rei uma boa inteligência e amizade com os Estados Unidos, reputando-o em tal assunto muito mais adiantado do que os seus cortesãos.

São traços todos esses mais autênticos e fidedignos na sua simpática nobreza do que as anedotas picarescas que valeram a Dom João VI um renome — talvez não usurpado se contido nos limites do desenho e não puxado até a caricatura — de desmazelo bonacheirão e de esperteza sa-lóia, uma auréola barata de bonhomme Richard coroado, uma fama de rei filósofo, que apimentavam suas desventuras conjugais e a que emprestava verossimilhança o seu físico ingrato, homely como bruscamente o qualificou Prior.

Baixo, gordo, sangüíneo, tinha de aristocrático as mãos e pés muito pequenos, mas de vulgar as coxas e pernas muito grossas mesmo em relação à corpulência, e sobretudo um rosto redondo sem majestade nem sequer distinção, no qual avultava o lábio inferior espesso e pendente dos Habsburgos, sem porém a maxila protuberante e o queixo pontudo de alguns dos príncipes austríacos, cujos retratos nos foram legados por célebres artistas — que decerto não aninharam tal propósito maldoso — como exemplares indiscutíveis de degenerescência.

Em Dom João VI as imperfeições de todo ser humano não chegava" para que desmerecessem as sólidas qualidades. Se era tímido, pusilânime mesmo, como tal egoísta, ressentido, ciumento de atenções, amigo de monopolizar as deferências e inimigo de perdoar os agravos menores, também era clemente, misericordioso nas grandes ocasiões quando se fazia apelo direto ao seu coração, arguto em qualquer emergência, raramente ou nunca perdendo o equilíbrio moral, tão generoso para com seus fâmu los e validos quanto econômico e governante invariavelmente bem intencionado. Eram aqueles em suma pequenos defeitos a contrapor a um be conjunto de virtudes, raro num monarca despótico.

Seu senso político revelou-se em muita ocasião. Um dos mais fracos soberanos da Europa, vimos ter sido o único que escapou às humilhações pessoais por que fez Napoleão passar os representantes do direito divinos os Bourbons da Espanha e da Itália, ludibriados, depostos, vagabundos ou cativos; o rei da Prússia, expulso dos seus estados; o César austríacos compelido a implorar a paz e conceder ao aventureiro corso a mão de sua filha; o próprio czar, ora tendo que aceitar intimidades em entrevistas me moráveis, ora que rebater a invasão devastando províncias do seu Império

E não há dizer que Dom João VI seguia impulsos de momento, fazia política só de oportunismo. "A medida da emigração — escreve Prior -em tempo nos pareceu a todos tão estranha quanto desusada, e tem sido abusivamente comentada, um após outro, por quase todos os políticos da Europa; mas quer se haja originado na timidez ou na fraqueza, provando ser da mais profunda sabedoria política."

Calando a circunstância de que para a trasladação da corte portu guesa contribuíram em dose apreciável os ciúmes do príncipe regente pela sua mais valiosa colônia, despertados pelo conhecimento em que estava dos esforços empregados pela Inglaterra desde 1790 para emancipar a América Espanhola,805 Prior faz justamente sobressair o fato de ter o rei de Portugal ficado ileso dos maus tratos de Bonaparte e haver preservado a união com sua importantíssima possessão — "onde o desejo de independência era geral entre o povo e fraco o poder do governo local", ponderava ele com mais preciência do que exatidão.

A América do Norte verdade é que oferecia um exemplo feliz, "de há muito admirado, e que decerto teria sido imitado desde logo se os brasileiros possuíssem vigor de caráter igual ao daquele povo turbulento. Faltava também um ensejo para servir de pretexto plausível à renúncia da metrópole, mas esse o forneceria à colônia a invasão francesa, não havendo sombra de dúvida entre os que melhor conhecem o país que, a não ser pela chegada oportuna do governo, o Brasil teria seguido, senão precedido os esforços das colônias espanholas em prol da sua independência."807

A unidade de vistas provinha para a administração portuguesa de que, governando com estes ou com aqueles ministros, de diferentes opiniões, Dom João VI nos problemas essenciais impunha sempre sua orientação. Assim, enquanto permaneceu no Velho Mundo, nunca deixou de pôr sua confiança e fiar seu salvamento da aliança inglesa. Uma vez, porém, que percebeu quanto se esquivava no Novo Mundo, não só à coação das outras potências como à pressão da nação amiga, não quis mais sair da América e decidiu aí permanecer, malgrado todas as instâncias feitas em 1814 e 1815 pela Santa Aliança e nos anos subseqüentes reiteradas pela Grã-Bretanha. Dom João VI avaliara com justeza quão difícil tornavam os recursos incompletos de então qualquer eficaz demonstração armada a tão grande distância.

Sabemos que o êxodo de 1807 só foi precipitado na ocasião, no instante, não se calculando tão pronta a invasão e querendo o príncipe aguardar a suprema injúria e o paroxismo da crise, que justificariam sua atitude, pois da mesma forma que resolveu e preparou com tempo sua partida para o Brasil para o caso que se verificou, e que só irresponsáveis podiam deixar de prever dada a marcha dos acontecimentos políticos e perante o proceder de Napoleão com relação às velhas monarquias da Europa, refletiu Dom João maduramente na questão do regresso com a paz geral.

Pensou ele perfeitamente que a residência prolongada no Brasil até constituía uma melhor garantia da independência de Portugal do que o apoio interesseiro da Grã-Bretanha, porquanto as colônias espanholas lutando ainda desesperadamente pela emancipação, serviam de excelente penhor do recolhimento da metrópole, a qual bem compreendia que Portugal tentaria engrandecer-se na América do Sul do que perdesse na Península.

Era Dom João VI por demais inteligente para não descobrir que a integridade portuguesa, uma vez reposta a normalidade na Europa, era do interesse de todos, não só do gabinete de Saint James: o que provou mais tarde quando procurou que, em Laybach, as grandes potências conjuntamente garantissem a inviolabilidade do seu velho reino amotinado e inçado de iberismo democrático. Os aliados portugueses quase não precisavam ser solicitados nesse ponto. Eram espontâneos e naturais, não podendo qualquer dos fatores europeus de importância aspirar a destruir, o equilíbrio de fronteiras e de idéias restabelecido em Viena.

Já no século XVIII escrevia o abade Raynal que nunca a política previdente, inquieta e suspicaz daquele século suportaria que todos os tesouros do Novo Mundo caíssem nas mesmas mãos, ou que uma casa reinante, vindo a dominar só na América, ameaçasse a liberdade da Europa. A Portugal e Brasil não era lícito levar tão longe seu devaneio de domínic americano: a Espanha é que se não confessava, longe disso, vencida naa suas colônias, e até jurava tirar estrondosa desforra da perfídia portuguesa em se aproveitar das suas dificuldades.

Por todas estas razões políticas, e porque sua natureza era amiga daí comodidades, sobretudo aos 50 anos,807 e se sentia bem no Brasil, resistiu o rei ao desejo expresso, ao ciúme manifesto, às reclamações da antiga metrópole, tão desgostosa com a perda da sua posição de autoridade e de exclusivo econômico, que chegou a correr no Rio de Janeiro com grande insistência que os portugueses, renovando os episódios nacionais d: mestre d’Aviz e do duque de Bragança, iam aclamar soberano o joven duque de Cadaval, descendente, como os Braganças, do condestável Nunalvares.

Fora Cadaval, filho do duque falecido na Bahia à vinda de Lisboa, o primeiro fidalgo de nota a desertar a corte americana de Dom João VI regressando para Lisboa, a pretexto de tomar estado, com a duquesa sua mãe, na companhia de seu tio materno o duque de Luxemburgo, quando voltava de reatar as relações entre a França de Luiz XVIII e o governo português.808

Radicava-se também o boato da usurpação no fato relatado por De bret, bem informado nestes assuntos, de andar o jovem Cadaval mal visto na corte, porque, muito vanglorioso da sua estirpe e tendo a atiçá-lo o orgulho da velha fidalga francesa, contrariada no Brasil, onde perdera o esposo e levava uma vida acanhada, nunca quis aceitar emprego do seu real primo, a fim de conservar o distinto e raro privilégio de trocar visitas com o monarca e não passar à obrigação de comparecer ao beija-mão.809

Aliás era, nesse tempo de súbitas mudanças dinásticas, postas em moda pela Revolução e sugeridas pelo extraordinário destino de Bonaparte, o nome do duque de Cadaval com freqüência citado como o de um rei eventual de Portugal. A duquesa d’Abrantes, ao mencionar nas Memórias a sua compatriota duquesa de Cadaval, cuja beleza, encanto, dignidade e gênio administrativo — revelado na reconstrução financeira da casa ducal — exalta como é natural, escrevia, e isto em época posterior, depois da luta entre Dom Pedro e Dom Miguel, que Cadaval, o qual de resto tomara franco partido pelo rei legítimo, e, finda a contenda, se expatriou, podia vir ainda a sentar-se no trono português.

Não seriam porventura estranhas mesmo a essa expatriação da casa de Cadaval, que ainda perdura, semelhantes intrigas de sucessão, comparáveis com as que em França então se agitavam em redor do duque de Orléans e acabaram colocando a coroa sobre sua cabeça. Que uma conspiração existiu, formal ou incipiente, seguida ou interrupta, no intuito de substituir Cadaval a Bragança, ou pelo menos que foi uma realidade o pensamento de tal mudança, não pode sofrer dúvida.

De Lisboa escrevia para Paris o cônsul-geral Lesseps 810 que, na crise moral portuguesa, dois partidos se avantajavam e ganhavam terreno: o dos intelectuais dispondo de menos força porque nem possuía o consentimento tácito do povo, mas podendo vir a ter o apoio da tropa, e era o que pensava em república; e o de grande parte da nobreza, descontente do seu papel nulo, longe da corte, e estribada nas classes populares. Desejava esta facção uma mudança de dinastia, sem se derrubar a instituição monárquica, e tinha os olhos postos em Cadaval.

Era este o partido que se poderia denominar, fazendo recuar o apelido transplantado, do Greater Portugal, visando a recolonização do Brasil. O da república podia passar pelo Little Portugal, já que não descobria inconveniente em ficar o reino reduzido às suas proporções européias "suffisant à ses besoins par les seules ressources de son territoire et de son idustrie".811

 

Nem se pode ter por menos certo o fato, quando o marquês de Salva812 fazia julgar pelo tribunal do Sena e condenar a dois anos de prisão e 4.000 francos de multa o cônsul Sodré Pereira como autor do foto impresso em Paris e intitulado Pieces politiques.813 Incluía este folheto uma carta de Lisboa em que se aludia francamente à conspiração em favor do duque de Cadaval, e quem em Paris a recebera devia forçosamente pertencer ao grupo de portugueses aí residentes, em contato com os elementos jacobinos franceses e em correspondência com os liberais espanhóis, que tão ativa parte tomou no preparo da revolução constitucional do Porto, e depois de Lisboa, que assinalou o ano de 1820.

O afã de Marialva em perseguir os delinqüentes, assim patenteando sua devoção à dinastia, devia ser tanto maior quanto sua aliança com a casa de Cadaval era de família e interesses, e por motivo dela o tinham até querido tornar de novo suspeito aos olhos de Dom João VI, esquecido já de passadas tibiezas. Com efeito, uma das três irmãs do marquês estribeiro-mor desposara, muito nova, o velho duque de Lafões, cuja casa, ao extinguir-se por falta de sucessão masculina imediata, se vinculara por matrimônio na de Cadaval.

De 1815 a 1820 discutiu-se constante e acaloradamente em Portugal a volta da família real para a velha sede da monarquia. A partida de Dom João VI para Portugal seria no entanto o sinal certo da separação iminente, assim como a revolução pernambucana de 1817 fora o sistema iniludível da fermentação geral dos espíritos. Ninguém previu melhor esta cisão e tão bem definiu os acontecimentos como o abade de Pradt, ao escreve: sobre a mudança da corte:’14 "Formaram-se imediatamente duas nova: combinações entre Portugal, reduzido agora a colônia, e o Brasil vindo a ser metrópole; entre o Brasil aspirando a conservar o rei, e Portugal de sua parte aspirando a recuperá-lo; entre o Brasil vivificado e enriquecido pela presença do soberano, e Portugal humilhado e empobrecido pela sua ausência, e afligido pela distância."815

No velho reino o descontentamento não fizera mais do que ir crescendo até que se manifestou tumultuário e subversivo. No próprio oficio-so Investigador português em Inglaterra, que deixou de receber a subvenção e por isso teve de suspender a publicação,816 citavam-se em 181S as cortes de Coimbra, nas quais foi aclamado rei o Mestre d’Aviz, em abono da tese de que aos portugueses cabia o pleno direito de escolherem um soberano, estando vago o trono: e o trono devia considerar-se vago pois não era admissível, e segundo o abade de Pradt depunha até contra a honrada Europa, que uma corte da América tivesse possessões européias.

Aliás o incansável publicista encontrava as maiores vantagens em fazer se o rei de Portugal de todo brasiliano, apenas lamentando que a nova corte tivesse sido dominada por velha gente, os novos negócios manejados por homens antigos, os novos objetos regulados por instrumentos antiquados. Por isso se não vira inventar uma só medida, dizia ele, das de grande momento, afora a liberdade, de comércio, decretada em circunstâncias especiais, aplicável às condições do Brasil, onde tudo continuara a ser regido pelo sistema português, quando não colonial. O meio, as necessidades, tudo entretanto era diferente.

"Vassalo ou inferior de todos na Europa, el-rei do Brasil, pisando a terra da América, adquiriu um campo imenso; entrou na política do universo, em que lhe cabia tão pequena partilha, pelos seus territórios europeus. Súdito, em sua antiga habitação; na nova, é de todo independente; e participa no sistema de emancipação, que é a nova vida dos países, que o cercam."817 O que poderia vir a ser o reino americano criado pelo monarca português, devaneava-o a imaginação do abade, alimentada nessa época de sofreguidão mental por todas as quimeras liberais herdadas da transformação de idéias do século XVIII.

Única voz discordante aquém do Atlântico de que nos haja chegado a repercussão além da de Pradt, Hipólito era de parecer que, no estado de agitação e incerteza no qual se encontrava a América espanhola, caso o rei estivesse em Lisboa, se lhe devia aconselhar que embarcasse para o Brasil a cuidar dos seus interesses, visto representar o domínio ultramarino o melhor apanágio da coroa.

Assim o entendia Dom João VI, sem querer todavia ferir muito fundo o ciúme dos seus vassalos portugueses, antes afetando pelas formas um respeito meticuloso. Sua aclamação foi adiada de 1817 para 1818 por motivo da rebelião de Pernambuco, mas já fora transferida de 1816 para 1817, não tanto pela consternação causada pelo falecimento da rainha quanto pela razão apontada por Marrocos S1S como lhe havendo sido comunicada: "Dizem-me que a aclamação não se faz ainda, sem chegarem as deputações dos reinos de Portugal e Algarves, em razão de não haver Junta dos Três-Estados: não sei se isto é suprimento de cortes, mas parece-me um passo muito acertado, para não haverem depois questões, por não ser feita a aclamação na sede da monarquia: E por que não se fará lá? "Dicant Paduani." D. Maria I expirara a 20 de março de 1816: findara aos 82 anos o seu longo vegetar. A 23 de fevereiro, na sua minuciosa crônica à família dos acontecimentos da corte do Rio, dava Marrocos notícia da gravidade da sua condição havia mais de um mês. "De dia em dia a sua moléstia se tem agravado muito, principiando por uma disenteria, febre, fastio; e daqui tem proseguido a uma insensibilidade notável da cintura para baixo, inchação de pés e mãos, e olhos quase sempre fechados. Tem tido algumas ocasiões de alívio; porém, passado este, carrega-lhe novo ataque destes sintomas com mais força; e apesar das diligências e desvelos dos facultativos com socorros da medicina, nada até hoje nos tem dado motivos de alguma esperança de sua perfeita cura. Todavia não deixam de a levantar sempre da cama, e dentro de uma cadeirinha é conduzida todos os dias por dentro do Paço em forma de passeio, o que sem dúvida lhe é muito proveitoso: e por último há idéias e votos de a fazerem tomar novos ares em um sítio pouco distante daqui, a que chamam Mata-Porcos, onde foi a residência do falecido conde das Galvêas."

Quando no seu estado, por tantos anos normal, de bem-estar idiota, dava a rainha diariamente o seu passeio de carro pelas ruas da sua nova capital,819 que ela nunca chegou a conhecer e diferençar com os olhos do espírito. No Rio de Janeiro entretanto lhe foram prestadas as impressivas honras fúnebres devidas à sua hierarquia.

Assim que piorou extremamente a enferma e se declarou o artigo de morte, a 19 de março, saíram à rua confrarias e clero, secular e regular, com a cruz alçada e entoando ladainhas e preces, indo todos rojar-se na Real Capela ante o Santíssimo Sacramento e recitar as antífonas, versos e orações litúrgicas da ocasião. No palácio o ofício da agonia e os salmos penitenciais eram simultaneamente rezados pelo bispo capelão-mor, pelo núncio e por frei Joaquim Damaso, da Congregação do Oratório.820

Uma vez dado pela pobre demente o último alento, vestiram-lhe o cadáver de negro com a banda das três ordens militares e da Torre e Espada, cobriram-lhe os ombros com o manto das mesmas ordens e passaram-lhe o manto real de veludo carmesim bordado de estrelas d’ouro e forrado de cetim branco. Nestas galas mortuárias celebrou-se o beijão-mão da defunta na presença do novo rei — "o qual está na maior desolação possível de mágoa e de saudade, perdeu o comer e ainda persiste em contínuo pranto".821

Metido o corpo num caixão forrado de fina lhama branca e por fora de veludo negro, com drogas aromáticas secas e moídas dentro822 celebrou-se o funeral com as mesmas solenidades, em maior escala, observadas por ocasião do enterro do infante Dom Pedro Carlos: idênticos responsos e outros atos religiosos do ritual e da pragmática e uma impor tante exibição militar. Nas decorações lutuosas da igreja predominavam os tons roxos da viuvez, e a pompa da realeza ainda se afirmava na construção de colunas de capitéis coríntios e cúpula de veludo preto com ga lões de ouro e prata sob que repousava a essa, em redor da qual se sucediam em todos os altares missas encomendando a alma da soberana.

O ofício fúnebre foi presidido pelo núncio do papa, que rezou o responso final, seguindo até a porta.o cortejo em que figuravam a família real, a camareira-mor e as damas "vestidas de donaire", todos os circuns-tantes segurando tochas. No préstito formaram os cônegos e os nobres, de capas pretas, nas suas montadas também cobertas de mantas de luto, alumiados pelos criados de libre ostentando nos telizes do braço os brasões das casas fidalgas que serviam.

Puxavam o coche oito machos e escoltavam-no os regimentos de linha e de milícias "com os tambores cobertos de baetas negras, as bandeiras de rasto, e enlutadas com fumo, e com marchas muito maviosas".823 À porta da igreja da Ajuda desceu-se o caixão, que primeiro foi levado sobre o esquife da Misericórdia, aos ombros de irmãos pobres, num belo símbolo da igualdade humana perante a morte, e então carregado para o interior pelos grandes do reino e reposteiros do Paço, enquanto os oficiais da Real Casa quebravam suas insígnias em público.

Oito dias depois os vereadores da Câmara em sombria procissão, precedida por um cidadão de capa negra, com bandeira negra e o fumo arrastando do chapéu de largas abas, também quebrariam os escudos nos tablados adrede levantados na praça do Capim, no largo de Santa Rita, no Rocio e diante da Lapa do Desterro, concitando o povo a chorar a morte da sua rainha,824 cujo luto de um ano já o bando do Senado saíra a anunciar.

Contemplações pela saúde de Dom João fizeram reduzir o nojo a oito dias,825 decorridos os quais a família real recebeu pêsames e saiu a ouvir missa e aspergir o caixão, sendo recebida dentro do coro pela comunidade do convento, com a abadessa à frente, de pluvial negro.

As exéquias realizaram-se a 23 de abril, na Real Capela, forrada de alto a baixo de negro avivado de ouro que se casava com os entalhamentos dos altares, as franjas dos dosséis e o espaldar do sólio episcopal. Na vésspera, mergulhando nas trevas o mausoléu octógono com emblemas ma-jestáticos e inscrições latinas, tinha tido lugar o ofício de cantochão entoando os capelães e cônegos as lições, e os responsórios os músicos dirigidos pelo grave e pomposo Marcos Portugal. A cerimônia no próprio dia prolongou-se das 10 1/2 da manhã às 4 da tarde, executando-se a missa de pontifical e as absolvições do mesmo maestro Portogallo e proferindo o sermão o deão de Braga.

 

A cidade inteira como que carregara o luto em acompanhamento ao da dinastia, ecoando nas ruas e praças os cânticos de saudade que, no interior da maioria dos templos e conventos, provocava a real memória evocada nos sermões e jaculatórias, de encomenda dos regimentos, das irmandades, de todas as corporações militares, civis e religiosas, até da Ordem de Malta. Os bardos de nênias, os escrevinhadores de elogios históricos, os latinistas de epígrafes, os músicos de voz e de instrumentos, os armadores de igrejas e artífices em qualquer gênero, os oradores sagrados em férias, todas estas classes passaram um ano regalado, rivalizando em perícia e sinceridade, como rivalizavam na ostentação os que lhes pagavam a melancolia e o primor. Marrocos escrevia826 que começou a fazer coleção das inscrições sepulcrais, suspendendo-a "por não ter proporções para obtê-las de toda a parte, nem também mereciam essa fadiga".

Diz o cronista padre Luiz Gonçalves que nenhuma demonstração do pesar fluminense excedeu porém em magnificência as exéquias mandadas celebrar na própria igreja da Ajuda, com assistência do rei, pelo Senado da Câmara. A imaginação macabra dos decoradores dera-se largas na estatuiria simbólica: umas figuras de anjos com caveiras na mão, como Ham-lets de cemitério, equilibrando-se sobre as pontas dos obeliscos carregados de troféus nas bases, onde vinham prender-se as grandes cortinas de veludo negro que desciam do sobrecéu, em forma de coroa, do cenotáfio guardado pela sabedoria, exibindo esta inscrição lisonjeira a um tempo da rainha morta e do seu herdeiro:

Se abrigo o Filho Excelso me não fora, Ao céu, donde baixei, volvera agora.

O falecimento de Dona Maria I suspendera um complemento de separação de que resultaria para o filho um acréscimo dessa segurança pela qual lhe foi tão cara a terra brasileira. Dona Carlota Joaquina pretendia acompanhar a Espanha, donde muito provavelmente não regressaria à América, as duas Infantas que ali iam consorciar-se e cujo embarque fo: retardado pela repentina gravidade do estado da avó. "Muito gosto fazia de ser ela mesma a condutora de suas filhas, e de as entregar aos seus dois irmãos, fazendo com a sua real presença ainda mais festivas solenes as cerimônias dos reais consórcios."827

Menos de um mês antes do óbito da soberana, precisamente no dia para o qual fora marcada a partida das Infantas,828 escrevia Marrocos ao pai. "A partida de S. A. R. [Dona Carlota Joaquina] para Espanha ou para Lisboa, não é já objeto de dúvida: os preparos são decisivos em todos os ramos relativos a este ponto: toda a família, assim das senhoras como de criados, está pronta: deram-se a todos as competentes ajudas de custo; 1:000$000 à camareira-mor, 400$000 às Açafatas, e assim os mais em proporção, vindo a terrninar com as de 80$000 a Varredores e Moços de Quarto: Há tenção de ser a saída a 20 de março, e em quarta-feira será a Desobriga geral. Não posso explicar a V. Mcê. o fervor e a pressa, com que se está embarcando o trem pelas respectivas repartições; e vejo caixões que custam a carregar-se por 20 negros: a Nau S. Sebastião está muito linda, sendo renovada e pintada, assim como a Fragata Espanhola do Vigodet: e SS. AA. tem ido jantar a bordo muitas vezes: afirmam que as mais embarcações de guerra que foram conduzir a tropa a Santa Catarina, devem acompanhar, assim como certos navios mercantes, creio, de refrescos ou mantimentos. Apesar de todos estes preparos públicos e indubitáveis, há muitas apostas e questões particulares sobre a conclusão desta empresa; mas decerto nenhum fundamento há para estas dúvidas senão as reflexões políticas, que faz sugerir a atual moléstia de S. Majestade, não podendo combinar-se politicamente, no meio deste inconveniente, a retirada daquelas senhoras, quando mesmo S. A. R. por este motivo, não efetuou agora a sua costumada jornada de Santa Cruz neste mês, a que nunca tem faltado, por sua saúde, obrigando-se por isto, a uma contínua e vigilante atenção da moléstia de S. Majestade. Mas o tempo perde-se nestas reflexões, que, sem ser se-bastianista, ouso afirmar saíram goradas aos duvidosos."

As Infantas foram sós: Dona Carlota tinha agora deveres de rainha a cumprir, e ficou, sem que no entanto mais esta contrariedade lhe abatesse o espírito forte, como não deu mostras de enternecê-la em demasia a separação das filhas, a quem muito prezava. Por ocasião do bota-fora o rei demorou-se apenas um quarto de hora a bordo e retirou-se aos soluços: a rainha não chorou, atendeu aos últimos preparativos da viagem antes de descer, e foi, com os olhos secos e brilhantes, acompanhar por terra os navios em direção à barra, até perdê-los de vista na Praia Vermelha, donde lhes dirigiu o último adeus.829

Não é que fosse destituída de coração Dona Carlota; pelo contrário o seu humor caridoso era tão vivo quanto a sua índole vingativa. Marrocos conta a esse respeito uma anedota típica.830 Um servente metera sem razão alguma plausível, antes difamando-a vergonhosamente, a mulher num recolhimento, onde a deixou ao abandono e ao sofrimento. Justificando-se judicialmente e conseguindo recobrar a liberdade, a pobre pôs-se a servir para se manter e valer às duas filhinhas, obtendo por fim ser criada de uma das retretas da princesa real. Levada de sege para Botafogo, foi admitida a beijar a mão de Dona Carlota, e tão condoída ficou esta da penúria da rapariga, que para mais andava enferma, e ao mesmo tempo tão agradada dela, que lhe fez preparar logo roupa e pessoalmente ordenou ao médico da real câmara que a atendesse com todo carinho, correndo os remédios por conta do seu bolsinho. "Foi S. A. tão estremosa neste ponto, que ia lembrar à doente as horas, em que todos os dias havia de tomar os remédios, assistindo ali nessas ocasiões. Sabendo ao depois que ela tinha duas filhas pequenas e em desamparo, mandou logo buscá-las. vestiu-as nobre e magnificamente com um primoroso enxoval, e pô-las a educar e aprender em um Colégio de meninas, pagando mensalmente por sua educação 36$000."

Dom João era menos expansivo talvez nos seus impulsos generosos, mas em compensação não era tão rancoroso. Perdoava com muito mais facilidade. Na atmosfera suspicaz de Lisboa, inficionada de idéias jacobi-nas, um tempo houve em que o príncipe regente facilmente viu conspirações e atentados que lhe descobria a cada passo — e até os inventava — o Intendente de polícia Pina Manique:831 nem assim, porém, se tornou um tirano. Apenas desconfiava dos homens inteligentes e ilustrados que lhe não dessem prova particular do seu devotamento, aborrecendo mesmo a ciência por julgá-la madrinha de reformas políticas.

No Brasil mudara sua situação de espírito. Longe da França e reposto dos seus terrores demagógicos, enxergava as coisas com mais calma, abordava-as com mais discernimento, resolvia-as com mais longanimida de ainda, e tão acentuada e pessoal lhe ficou a feição que dela não despojou quando, de novo em Lisboa, se viu a braços com a agitação constitu cional e a reação absolutista.

São abundantes os exemplos da tolerância de Dom João. O general. bonapartista Hogendorp, antigo comandante em chefe de Wilna e ferven te admirador de Napoleão, viveu tranqüilo e isolado numa fazenda nos arredores do Rio, cultivando seus 20.000 pés de café, sem que jamais o incomodar a polícia ou deixasse o rei de usar para com ele de toda a contemplação. O velho militar, que era uma das curiosidades da capital fluminense, costumava até receber freqüentes visitas de diplomatas e ou tros estrangeiros, que o procuravam como um homem de reputação e valor

O episódio com o marquês de Loulé é o mais significativo. À revelia condenado à pena última por sentença dada em Lisboa a 21 de novembro de 1811, ditada pelo crime de lesa-pátria pois que pegara em armas com os franceses e servira às ordens de Massena, apesar de haver sido um mimoso do regente, Loulé alguns anos depois, em 1817, decidiu-se a ir ao Rio implorar o perdão real. Recolhido à prisão como contumaz, aí permaneceu treze meses, mas foi em seguida solto, dando-se-lhe o novo reino por menagem, e sucessivamente indultado, reabilitado e restabelecido nas suas honras, mercês e bens, ficando em esquecimento o fato capital e sem efeito algum a sentença primitiva. Mais do que isto, readmitiu o rei o fidalgo no seu serviço, dizendo ao seu séquito quando o ergueu do chão, onde ele se prosternara: foi o primeiro que se fiou no meu coração e se entregou nas minhas mãos.832 Marrocos, espantado, comunicava ao pai833 que o réu de alta traição fora convidado para o Paço e já entrara de semana como camarista.

O acadêmico Stockler, de cuja boca ouvira o rei o excelso elogio oficial da sua política americana, era outro traidor perdoado. Chegara inesperadamente ao Rio uns seis anos antes, em 1812, dizia ironicamente Marrocos8-4 que "para servir onde S. A. R. houvesse por bem empregá-lo", não o vendo ele contudo ir ao Paço e não tendo ainda beijado a mão do Príncipe. "Ele vive como em retiro fora da cidade, inculca muito de sua conduta exemplar no tempo do intruso governo, e publicou uma obra — Cartas ao autor da história geral da invasão dos franceses em Portugal, e da restauração deste reino. Rio de Janeiro 1813. 4? — em que pretende justificar-se com muita palavra ou parolada, assim como o seu Plano de Campanha com o duque de Lafões, porém é tão infeliz que cada vez se condena mais, e se atola no lodo."

A bondade proverbial de Dom João VI, a sua allgemein bekannte Herzensgute como a chamava von Leithold,835 era tanto mais espontânea quanto nem se podia dizer fosse estimulada por um cálido sentimento religioso. Dona Carlota era devota, mas a Dom João pouco faltava de fato para ser no íntimo voltairiano. Basta citar em abono do seu aborrecimento ao fanatismo o despacho do marquês de Aguiar ao ministro português em Roma José Manoel Pinto, declarando que o governo do príncipe regente de Portugal não aderia absolutamente ao restabelecimento da Companhia de Jesus feita pelo papa Pio VII por meio da bula Sollicitudo om-nium, "porquanto a corte do Rio de Janeiro não fora prevenida dessa deliberação pontificai e muito tinha a queixar-se das ofensas da Companhia de Jesus, contra a qual Portugal tinha tido que adotar medidas muito enérgicas". Propunha-se o príncipe regente conservar em pleno vigor o alvará de 3 de setembro de 1759, que expulsara a Ordem, e as instruções expedidas ao seu representante diplomático junto à Santa Sé eram de não aceitar discussão, nem escrita verbal, sobre o assunto.836

Não se é impunemente do seu tempo, tempo de dúvida e de negação, ainda que Dom João VI tivesse crescido numa corte de exterioridades beatas e sob a autoridade de uma mãe e rainha que a devoção levou à insânia. Por outro lado, porém, era neto pelo pai de Dom João V, que fazia dos conventos de freiras o retiro dos seus atrevidos galanteios, e pela mãe neto do rei que sustentara o anticlericalismo de Pombal,837 certo de que lhe aproveitava ao regalismo.

O filho primogênito de Dona Maria, o pranteado príncipe do Brasil Dom José, criado ao influxo de Pombal, Seabra e outros bons filhos do século XVIII, deixou lembrança das suas idéias adiantadas: Beckford delas se espantou numa conversação privada que tiveram nos jardins de Queluz Dom João era menos ilustrado mas não seria menos inteligente que o irmão, e dava seu exato valor à expressão tradicional de uma sociedade que era supersticiosa muito mais do que religiosa, sem esquecer que na França igualmente povoada de templos e de mosteiros, congregados do Oratório: e seminaristas se tinham transformado da noite para o dia em convencionais regicidas e desapiedados. Não havia que fiar tudo do freio religioso

Dom João compreendia no entanto que a Igreja, com seu corpo de tradições e sua disciplina moral, só lhe podia ser útil para o bom governo a seu modo, paternal e exclusivo, de populações cujo domínio herdara com o cetro. Por isso foi repetidamente hóspede de frades e mecenas de compositores sacros, sem que nessas manifestações epicuristas ou artísticas se comprometesse seu livre pensar ou se desnaturasse sua tolerância cética

Aprazia-lhe o refeitório mais do que o capítulo do mosteiro, porque neste se tratava de observância e naquele se cogitava de gastronomia, e para observância lhe bastava a da pragmática. Na Capela Real mais gozava com os sentidos do que rezava com o espírito: os andantes substituíam as meditações. Era o seu grande prazer a música; como a gulodice o seu pecadilho, e se uma e outra revestiam a forma eclesiástica, a razão estava em que as fazia forçadamente assumir tal aspecto o caráter dominante da sociedade portuguesa do tempo, freirática e voluptuosa.

Aos monarcas tíbios de fé católica e convencidos das excelências do despotismo esclarecido e magnânimo, como Carlos III d’Espanha José II d’Áustria, tinha Dom João por modelos, e nenhum desses, afeiçoados como eram aos progressos materiais e despidos de preconceitos ultramontanos, perdia seu tempo com ladainhas ou se entregava ingênuo nas mãos de um confessor astuto, que assim vinha a possuir a realidade do poder. Para mandar, el-rei bastava; para executar e mesmo aconselhar, uns poucos de competentes; para obedecer, a grande massa que se fazia necessário trazer satisfeita, interessando-se por ela, ativando-lhe o bem-estar proporcionando-lhe até vaidades para não ter que lhe suportar caprichos.

E quando estes pela força das coisas surgissem e não bastassem para contentá-los as comendas, os títulos, as promoções, as honrarias, os benefícios e as festas, que remédio senão contemporizar, aceder, afagar, para não perder tudo, para conservar o essencial? Monarca que assistira a tantas provações de outros e vira até rolar do cadafalso a cabeça de um, devia, se fosse sensato, dar-se por satisfeito com preservar a sua coroa ainda que mareada. O manto sobre os ombros agasalhava sempre e parecia sempre decorativo, quando mesmo o arminho fosse falso e o veludo de algodão.

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