Guerra dos Boêres – Crônica de Olavo Bilac

Guerra dos Boêres – Crônica de Olavo Bilac

Guerra dos Bôeres – Olavo Bilac

 

 

Guerra
dos Bôeres

 

 

Um dia, não
há muito tempo, um pobre lavrador, sob a fulguração
causticante do sol, ia impelindo sua charrua pela terra selvagem do Sul da
África. Era um descendente dessa forte raça holandesa, que,
em luta constante com o mar, foi a criadora da sua terra, conquistando-a palmo
a palmo à voracidade das águas. Ia impelindo o arado, e
levava às costas a espingarda embalada, para se defender dos zulus
ferozes que rodavam perto… De repente, alguma cousa rebrilhou no
chão, com um mágico esplendor. Seria um raio de sol, brincando
nas arestas de um calhau?

Era
ouro! Daí a meses toda a Europa tinha os olhos voltados para esse novo
El Dorado, e em poucos anos Johannesburgo, a golden city, surgia da
terra, cheia da agitação e do burburinho de 100 mil
habitantes.

Ora, neste momento, as
vastas minas do Transvaai’ não ecoam o estrupido das carretas, nem o
choque das picaretas ferindo as rochas, nem o estampido das bombas de dinamite.
O ouro dorme em paz no seio da terra fecunda. Todos aqueles espadaúdos boers
de mãos enormes maltratadas pelo trabalho, de largas barbas em
leque, louras como o metal que extraem das minas — deixaram por terra as
picaretas e as alavancas, empunharam as carabinas, todos apercebidos para a
guerra, todos dispostos a defender com a última gota de sangue a
pátria que o seu esforço criou.

Gente
sábia e rude, educada na estreita severidade da meditação
contínua da Bíblia — a gente boer pensa que a
liberdade vale mais que todo o ouro do universo, e destruirá todas
as suas minas antes de as deixar cair nas mãos ávidas da
Inglaterra.

Não
é realmente belo ver aquele pequeno povo, de pé, sereno e
intrépido, afrontando a força da mais poderosa nação
da Terra? Também, não é de crer haja atualmente no planeta
quem se não apaixone pelo conflito do Transvaal. A questão
Dreyfus sumiu-se, apagou-sc da memória de todo o mundo: agora, quando se
abrem os jornais, o que se procura com ansiedade é saber se a Inglaterra
leva por diante o capricho da sua ambição, ou se, mais prudente,
resolve respeitar o direito sagrado de um povo que já soube um dia
castigar com rara severidade a aventura de Jameson e Cecil Rhodes.

Ah! a fome
do ouro! Em que arriscados passos não se mete a gente, por amor do lindo
metal, que a Natureza previdente armazenou no seio da terra,
disfarçando-o em amálgamas vários, como para esconder da
nossa cobiça essa origem perene de horrores e de sangueiras!

Por amor
dele, a alma se endurece, o coração fica seco como um arcai,
afiam-se as unhas à Rapina, aguçam-se os dentes à
Traição, e o espírito, excitado pelas
tentações, inventa requintes de crueldade, cria prodígios
de àstúcia.

Ainda
há poucos dias, no Prata, a polícia descobriu
maquinações de um sindicato de nova espécie. O sindicato
segurava, em qualquer companhia, por uma alta soma, a vida de qualquer homem
robusto, moço, possuidor de uma saúde de ferro. Quem é
moço e forte tem apetites. Quando viam o seguro regularizado, os
prodigiosos malfeitores abriam ao rapaz, de par em par, a porta do vício
— aquela "lata porta quae ducit ad perditionem", como diz a
Bíblia. Metiam-lhe na algibeira um punhado de moedas de ouro,
introduziam-no em todas as rodas sem escrúpulos; bem depressa, o jogo, o
álcool e o amor minavam o organismo da vítima. E quando a Magra
chegava, e entre os braços descarnados sufocava a presa, o sindicato
recebia o seguro e ia procurar novos apetites e novas misérias que se
deixassem explorar… É macabro!

Mas, enfim, os crimes
que a fome do ouro faz cometer por este ou aquele indivíduo, são
cometidos às ocultas, e são reprovados, e verberados, e
castigados pela sociedade. Os crimes que a sociedade não reprova nem
castiga, são aqueles que ela própria comete, embrulhada nessa capa
de salteador que se chama o "interesse da civilização",
e posta por trás desse escudo que a gente vagamente conhece pelo nome de
"razão de Estado".

Agredir um
homem para lhe tomar o fruto das suas economias, é uma
ação negra que leva a gente ao calabouço e ao
patíbulo. Mas agredir um povo para lhe arrebatar a fortuna, a liberdade
e a honra, é uma ação gloriosa e bela, que se pratica com
uma sem-cerimônia sem-par.

Que
se há de fazer se a vida é isso mesmo? Ah! tu és um povo
brioso, mas fraco? eu, que tenho canhões e soldados, fuzilo-te,
esquartejo-te, como-te, e celebro a minha façanha com festas
públicas, e agradeço ao Senhor Deus dos exércitos a
força que me deu!

E
lembrar-se a gente de que os delegados à Conferência da Paz ainda
não tiveram tempo para curar as dispepsias que adquiriram durante as
sessões desse congresso humanitário!

Em maio a rainha da
Holanda pedia a bênção do papa; o papa, estendendo na
direção da Holanda a sua trêmula mão transparente,
pediu a proteção de Deus e de toda a corte celeste para aqueles
apóstolos do bem; e abriu-se o Congresso. Por longos meses os delegados
comeram, amaram, beberam, admiraram Rembrandt, cabecearam de sono no salão das conferências,
pronunciaram discursos que ninguém ouviu — enquanto os povos,
nutrindo uma esperança falaz, acreditavam que o Espírito Santo
estivesse pairando sobre a grave assembléia, inspirando as deliberações
em que se devia firmar a tranqüilidade do mundo.

Pois,
sim! O Congresso da Paz, como todos os congressos, perdeu a saúde,
o tempo, a paciência e o latim. E mal haviam os congressistas
começado a consertar os estômagos arrebentados pelos
banquetes internacionais — a meiga, a doce, a generosa Inglaterra mostrou
logo ter aproveitado as lições pacíficas, querendo
impor ao povo livre do Transvaal a sua soberana vontade.

Por Deus! todo mundo
sabe que a guerra é inevitável," e que existirá
enquanto existir a besta humana com as suas ambições e a sua
crueldade. Mas para que mascarar essa crueldade espontânea, natural,
irremediável, fingindo uma boa vontade que não existe, e fazer
alarde de uma civilização que é a mais descarada
mentira? O negro selvagem da África, quando encontra um negro de tribo
inimiga, atraca-se com ele, e procura matá-lo para comê-lo.
Mas faz isso naturalmente, e não vive a clamar aos quatro ventos do
Universo que existe uma cousa chamada Justiça, e não comparece a
Congressos de Paz, e não tem poetas que exaltem as virtudes da sua
raça, e não se condecora com o título pomposo de
civilizado!

E…
o melhor é não ir adiante! A gente o que deve fazer,
é pôr as barbas de molho, e ir tomando cautela, que é o
caldo de galinha das sociedades doentes…

s. a.

Gazeta de
Notícias
8/10/1899

369

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