PERCURSOS DE HEIDEGGER PELO HUMANISMO

PERCURSOS DE HEIDEGGER PELO HUMANISMO

PERCURSOS DE HEIDEGGER PELO HUMANISMO 

Isabel Rosete



A extensa obra de  Heidegger  é marcada por uma obscuridade proposital. Sua insistência em apelar para uma radicalização do pensamento metafísico tornou-o um dos filósofos mais enigmáticos do século XX. A dificuldade do estudo de sua doutrina só tem paralelo com o exame das peças que sobraram dos textos de Heráclito de Éfeso (c. séc. VI a. C.). Deste, ao menos, grande parte do problema interpretativo decorre do fato de ter restado apenas fragmentos de seu pensamento. Além disso, eles foram escritos em uma língua cujo contexto foi perdido com o desaparecimento de sua cultura. Ficaram tão somente as opiniões grafadas daqueles que os interpretavam segundo sua ótica pessoal, desde a antiguidade.


Heidegger não tem essa atenuante. À exceção de Ser e Tempo (1927), que ficou inacabado, todos os outros textos de sua autoria foram publicados na íntegra, em língua moderna (alemã) e durante sua vida. Se as teses e idéias de Heidegger são obscuras, isso deve-se a sua maneira hermética de reinterpretar os termos metafísicos, a partir de um retorno à origem helênica da discussão sobre o ser e o pensar. Por vezes, esbarra-se na dificuldade de traduzir o significado de suas palavras e conceitos, devido à interpretação inovadora que ele impõe aos termos das línguas grega e alemã.


Palavras como physis (em grego, “natureza”), dasein (em alemão, “ser-aí”), ousia (“substância”ou “essência” grega) e zeit (“tempo”, alemão), por exemplo, fazem parte de um vocabulário que já não é mais o dos helenos e alemães, mas sim heideggeriano. Isso porque, a linguagem, para esse autor, será o elemento mais característico da essência humana. E só através de uma linguagem apropriada pode aflorar a verdade de todas as coisas, pondo às claras o fundamento de tudo. A metafísica de Heidegger procurava, então, retomar o questionamento do ser e a busca de seu fundamento, por intermédio da linguagem originária.


Nesse sentido, a linguagem, comparada ao logos helênico, é a base do real sobre a qual os fenômenos se expõem com clareza. O homem, enquanto portador da língua, é um ser privilegiado para responder como o “ser-aí” deve ser compreendido na sua condição temporal. Contra a vertente aristotélica da metafísica, que faz com que o homem perca sua humanidade, ao ser considerado um ente entre os demais, Heidegger procura mostrar que as relações das coisas existentes é provisória e atrelada ao tempo em que elas ocorrem. O fenômeno, ao manifestar-se no tempo, portaria o sentido do ser. Ao passo que o homem, com sua linguagem, concebido como contemporâneo do ser, em sua existência ao lado do ser, proporcionaria a oportunidade de entendimento desse “ser-aí” presente no tempo, não como um objeto de estudo fixo, constituído por diversas categorias reificadoras – que transformam o ser em uma coisa sujeita à experiência concreta. Ao se manifestar de vários modos o ser revelaria a sua essência no tempo, ao contrário da concepção aristotélica que visava sua classificação, de acordo com as diversas maneiras de existir atemporais. Heidegger entendia o homem como aquele ser portador da verdade e que sua essência seria a preservação dessa verdade, por intermédio de um pensar radical, calcado na origem do pensamento pré-socrático. A nova metafísica proposta por ele supõem haver um único significado autêntico do ser, a saber, aquele cuja essência se encontra na temporalidade própria. Qualquer outra forma de reconhecimento do ser, baseada numa técnica de pesquisa científica, provocaria o esquecimento e a ocultação da verdade do ser.


O conceito de Dasein, traduzido por “ser-aí”, assume um papel fundamental na metafísica heideggeriana. É o “ser-aí”que permite o entendimento do ser, a partir do próprio ser em três níveis de conhecimento. No nível ôntico, o “ser-aí” seria determinado pela presença do ser, entre os entes. No estágio ontológico, o “ser-aí”é compreendido como existência num tempo determinado, “aí”, fundamentando o ser. Por fim, na esfera ôntico-ontológica, o “ser-aí”determinar-se-ia pelo ser em sua atuação no mundo, princípio de realização de todas ontologias tradicionais. A despeito dessas três etapas de conhecimento do ser, Heidegger vai propor uma nova ontologia que se funde na verdade do ser irredutível a sua entificação e prática cotidiana.


“Ser-aí” é aquilo que é característico do homem. Só o homem, na concepção heideggeriana, existe como um “ser-aí”capaz de revelar-se, sem se esgotar ou identificar com ele. O homem teria a possibilidade de trazê-lo à luz e apresentar-se enquanto tal, ou seja, sendo um ser que se mostra no tempo. Por ser dotado de linguagem, o homem tem a condição necessária para a manifestação do próprio ser no tempo, não como objeto tradicional das ciências e filosofia ocidental, mas na forma de uma subjetividade entrelaçada, na qual sujeito e objeto se mesclam em um pensamento originário.


Talvez essa seja a grande contribuição crítica de Heidegger à filosofia. Ele foi um dos primeiros a tentar superar a relação SUJEITO-OBJETO, na qual a filosofia – notadamente a Teoria do Conhecimento – havia se detido. Foi pioneiro ao propor uma alternativa para o impasse para o qual a modernidade caminhava, apontando as dificuldades que tal dicotomia proporcionava à compreensão metafísica do ser. Ao chamar atenção para a linguagem como veículo de manifestação do ser, Heidegger queria dizer que tanto nos significados das palavras, como nos sons que elas transportavam, haveria um ser que fala por intermédio da língua.


Na época em que a Carta Sobre o Humanismo fora impressa – em 1947, logo após o final da Segunda Guerra Mundial (1939-45) – a primeira parte da extensa obra de Heidegger já havia sido divulgada. Enquanto isso, na França de 1943, Jean-Paul Sartre publicara “O Ser e o Nada”, fato que marcaria o advento do existencialismo francês. Heidegger, no entanto, sempre manteve-se desvinculado da corrente existencialista, não só porque era contra qualquer classificação do pensamento, mas, sobretudo, por causa do papel fundamental exercido pelo conceito de “nada”, entre os franceses – para quem o nada poderia gerar a sensação de náusea existencial. Em Introdução à Metafísica (1953), ele irá propor a pergunta metafísica fundamental “porque há simplesmente o ser e não antes o nada?” justamente para mostrar que toda confusão imposta ao conhecimento do ser ocorre por se supor que o nada nadificante possa existir em algum ente. Para Heidegger, essa noção de nada seria capaz de obscurecer o ser ao se tornar mais um ente entre os outros, fator pelo qual a questão metafísica fundamental não pudera ser respondida, até então, pela filosofia ocidental.


Além disso, embora Heidegger já tivesse um renome respeitado no continente europeu, jamais ele escrevera uma obra com o teor explicitamente “humanístico” e “ético”. Sua vinculação ao partido nazista, até o final da guerra, tornava ainda mais suspeitas as intenções do autor de Ser e Tempo. Diante desse cenário, Jean Beaufret, existencialista francês que tentava relacionar a obra de Heidegger ao existencialismo, escreve uma carta pedindo ao pensador alemão que ele esclarecesse qual significado poder-se-ia dar ao humanismo abalado por duas guerras mundiais sucessivas.


Carta Sobre o Humanismo é, portanto, a resposta dada por Heidegger às indagações de Beaufret. Em linhas gerais, o filósofo alemão irá propor, tendo por base o fragmento 119 de Heráclito, que a ética abandone o moralismo superficial e o legalismo dos códigos de costumes e procure encontrar a sua raiz na morada do próprio ser humano. A partir da compreensão radical da morada do ser no homem, seria possível entender como emergem todos os comportamentos e costumes cotidianos de cada um.


Logo no primeiro parágrafo da Carta, a essência do agir – tema da ética é relacionado com o consumir e produzir que só pode se realizar naquilo que já é, ou seja, no próprio ser. No homem, o pensamento forneceria o acesso à linguagem e esta a manifestação da verdade do ser que o habita. Ao pensar, o homem pode estabelecer a relação do ser consigo mesmo. O pensar, assim, seria o engajamento numa ação que leva à verdade do ser. Para entender isso, seria preciso, segundo Heidegger, se afastar da concepção de pensamento prático e técnico oriunda de Platão e Aristóteles. Por conseguinte, a filosofia ocidental, pertencente a essa tradição, deveria abandonar a pretensão de conhecer os objetos e os entes de modo científico. O pensamento radical não se reduz às exigências de uma “exatidão artificial” dos sistemas teóricos, porém repousa sobre as expressões do ser exibidas em suas várias dimensões.


Contrário às demandas por um humanismo e às novas correntes de pensamento rotulados, Heidegger vai dizer que “em sua gloriosa era, os gregos pensaram sem tais títulos”. Para ele, só quando o pensamento sai de seu elemento próprio é que, por perder o poder de guardar sua essência, a técnica passa a ser valorizada como atividade cultural e a “Filosofia vai transformar-se em uma técnica de explicação pelas causas últimas”, numa crítica direta à metafísica feita por Aristóteles, que buscava as causas últimas das coisas. O humanismo, de fato, deveria consistir numa meditação que preservasse o homem em sua humanidade, em sua essência.


A essência do homem, contudo, não se resume em ser um organismo animal que pensa. Esse tipo de classificação científica, apesar de não poder ser negada e declarada como falsa, por Heidegger, revelaria “que as mais altas determinações humanísticas da essência do homem ainda não experimentam a dignidade propriamente dita do homem”. Ao homem cabe proteger a verdade do ser e, por conta disso, o ser não pode se identificar com o ente, tal como vem sendo feito pela filosofia ocidental.


Heidegger supõe que o homem possa pensar a verdade do ser a partir da existência, isto é, daquilo que se apresenta como “ser-aí”, a própria essência humana.


 Todavia, para experimentar sua essência e morada é preciso que se retome as questões originárias da história do ser: sua “pátria”, que na concepção adotada por Heidegger, aqui, não tem uma conotação nacionalista, mas apenas ontológica-historial de um momento no qual o homem esteve mais próximo do ser. O esquecimento do ser é o resultado desse distanciamento do homem de sua “pátria”. Concebida nesses termos a metafísica heideggeriana revela um forte apelo à tradição clássica que se concretizaria pela volta ao pensamento originário helênico.


O humanismo de Heidegger, nas suas próprias palavras, é aquele que “pensa a humanidade do homem desde a proximidade do ser”. O que está em jogo, portanto, não é o homem, mas sua história e origem, do ponto de vista da verdade do ser. O sucesso desse humanismo, para além do homem, depende da linguagem e do acesso do pensamento originário àquela verdade que pertence a linguagem. Em suma, “a essência do homem reside na ec-sistência”, isto é, o humanismo deve voltar-se não para o ente humano, mas sua existência autêntica na verdade do ser-no-mundo. O mundo, aqui, é concebido como o lugar no qual o ser aparece: uma clareira, no sentido heideggeriano.


A verdade do ser ao ser pensada originariamente encontra a humanidade do homem, além do humano. Nesse contexto, a humanidade está a serviço dessa verdade que abandona a perspectiva técnica do homem biológico das ciências naturais. Caso contrário, a exigência por uma ética da obrigação deverá ser o meio pelo qual se ordenará e estabelecerá a conduta do homem da técnica, dominado pelos meios de comunicação de massa. Sem o caminho da origem, só através de uma ética de deveres o homem poderia “planear e agir como um todo, correspondente à técnica”: uma vida inautêntica.


A ética, como os demais ramos da Filosofia, surge a partir de Platão, segundo Heidegger. Antes dele os antigos pensadores helênicos não a conheciam. O éthos – palavra grega da qual se derivou ética; é traduzida geralmente por morada ou costume – era a maneira originária pela qual os helenos, como Heráclito, pensavam essa questão. Isto significa que o homem é a morada (éthos) do ser. Ao pensamento cabe a tarefa de edificar a casa do ser, onde o homem habitaria na verdade. O pensar originário, concluindo, é um agir que supera a noção prática e o produzir, uma vez que ele consome o mínimo do ser, ao pronunciá-lo em seu meio: a linguagem. O destino do pensar, afinal, é o Ser.


 

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