Ilíada de Homero – Canto XX

Ilíada de Homero – Canto XX

Ílíada de Homero
Resumo e apresentação da Ilíada
Prefácio a Ilíada de Homero
Canto I
Canto II
Canto III
Canto IV
Canto V
Canto VI
Canto VII
Canto VIII
Canto IX
Canto X
Canto XI
Canto XII
Canto III
Canto XIV
Canto XV
Canto XVI
Canto XVII
Canto XVIII
Canto XIX
Canto XX
Canto XXI
Canto XXII
Canto XXIII
Canto XIV
Canto XV
Canto XVI
Canto XVII
Canto XVIII
Canto XIX
Canto XX
Canto XXI
Canto XXII
Canto XXIII
Canto XXIV

Ilíada de Homero – versão em português de Manoel Odorico Mendes

Argumento do Livro xx

Júpiter convoca os deuses. — Segundo as ordens de Júpiter, Juno, Mercúrio, Neptuno, Minerva e Vuleano colocam-se ao lado dos Gregos; Marte, Apoio, Diana, Latona, o Xanto, Vénus, do lado dos Troianos. — Apoio excita Eneias contra Aquiles. — Resposta de Eneias. — Eneias e Aquiles provocam-se e avançam um sobre o outro. — Eneias quase a morrer é salvo por Neptuno. — Novo ardor de Aquiles. — Heitor anima os Troianos. — No momento em que ele vai atacar a Aquiles, é chamado por Apoio. — Heitor vai misturar-se com a multidão. — Aquiles mata Polidoro, filho de Príamo. — Heitor quer vingar a morte de seu irmão. — Apoio oculta o herói Troiano. — Aquiles, irritado por não poder encontrar o seu inimigo, ataca o grosso dos Troianos e faz grande mortandade.

 

Ilíada de Homero – Canto XX

Enquanto com o herói sedentos Graios
Se armam na frota, e na colina os Teucros,
Do Olimpo sinuoso expede Jove
Têmis, que gira tudo e chama os deuses
À Dial corte: menos o Oceano,
Rio algum não faltou, nem faltou ninfa
Que bosque habite ou fonte ou prado ervoso.

Já do Nubícogo em polidas selas,
Que lhe engenhou Vulcano, estavam todos,
Quando cortês o rei dos mares chega,
Toma seu trono e diz: “Senhor do raio,
Por que de novo os imortais convocas?
Sobre os Aqueus e os Teucros deliberas,
Prestos a arder em sanguinosa lide?”

Responde o irmão: “Netuno, em mim penetras;
Eu de Ílio curo, bem que já no extremo.
Mas, do espetáculo a gozar tranqüilo,
No celso Olimpo ficarei; vós outros,
A bel-prazer, a Gregos ou Troianos
Auxiliai: se Aquiles só combate
Os que de o ver atônitos fugiram,
Nem por um pouco o susterão, mormente
Ora que pelo amigo enraiva e brame.
Temo que assole, contra o fado, o muro.”

Com isto inflama os deuses, que discordes
Vão-se: às naus, Juno e Palas, mais Netuno,
O útil sutil Mercúrio, e o coxo nume
Duro e atroz, bem que as tíbias lhe vacilem;
Mas aos Troas, Gradivo de éreo casco,
O intenso Apolo, a madre, a irmã frecheira,
Xanto e a ridente Vênus. Longe os deuses
Da luta, ovantes os Aqueus floreiam
Da aparição de Aquiles, e os Troianos
Tremem do velocípede, que em armas
Lampeja e emula ao cru Belipotente;
Mas, do Olimpo ao descerem, num ruído
Ferve tudo: Minerva ora do fosso,
Ora da praia ressonante grita;
Qual negro furacão rugindo Marte,
Anima os Teucros, ou do sumo alcáçar,
Ou do Símois correndo os verdes coles.
Mal os celestes o conflito abrasam,
Troveja horrendo Júpiter; Netuno
Abala a terra ingente e os celsos montes,
Do Ida manante os cimos e as raízes,
A Troiana cidade e as naus Aquivas;
Pálido o inferno rei do trono salta,
Com medo exclama de que, o chão fendendo,
O Enosigeu aos vivos descobrisse
A hedionda mansão, terror dos homens,
De que as mesmas deidades se horrorizam:
Com tal fragor os imortais contendem!

Febo a Netuno opunha-se de setas;
Palas a Marte; a Juno a de arco-de-ouro
Do Longe-vibrador irmã fragueira;
Ao lucroso Mercúrio a mãe de Apolo:
A Vulcano o Escamandro, que os Supremos
Xanto nomeiam, vorticoso rio.
Deus a deus se afrontava: mas Aquiles
Busca entre a chusma Heitor, que no seu sangue
Da guerra o nume ceve. Apolo entanto
Esperta e incita o coração de Eneias,
Simula a voz de Licaon Priâmeo:
“Onde, ilustre Anquisiada, a promessa,
Que entre os copos fizeste ameaçadora,
De arrostar o Peleio?” – Eneias logo:
“Por que assim, Priamides, me constranges
A pelejar contra o soberbo Aquiles?
Já nos medimos, do Ida já de lança
Me afugentou, caindo em nossos gados
E arrasando-nos Pédaso e Lirnesso:
Jove deu-me asas e vigor nas pernas;
Senão, domado eu fora; porque avante
Minerva a derribar o acorçoava
Com bronze agudo a Lélagas e Troas.
Varão não se lhe atreve: um deus ao lado
Preserva-o sempre, e o tiro seu voando
Sem falência transpassa humanas carnes.
Tivesse eu patrocínio igual ao dele,
Que o Pelides não fácil me vencera,
Ser de metal embora se glorie.”

Febo tornou: “Depreca os Sempiternos.
De inferior deusa vem, que o dizem filho
Da filha de Nereu; por mãe tens Vênus,
Prole de Jove. De éreo pique, a ele;
De seus feros, herói, não te acobardes.”
Assim o inspira, e o maioral de povos
Brioso à frente sai e armado brilha.

Juno em busca do Eácida o percebe
Turmas rompendo, e ao bando seu previne:
“Olhai como isto irá, Netuno e Palas;
Contra Aquiles Apolo o Anquíseo impele.
Repulsemos o deus, e um de nós perto
Corrobore o Pelides; o herói sinta
Que deuses potentíssimos o escudam,
E outros em pró de Tróia em vão se empenham.
Do Olimpo aqui baixamos, para que hoje
Não padeça: ao depois lhe estale o fio
Curto que desde o berço as Parcas dobam.
Se informado não for por nós Aquiles,
Temerá qualquer deus que infenso veja;
Que a presença de um deus sempre é terrível.”

O Enosigeu responde: “Não te assustes,
Fica-te mal, Satúrnia. Por mais fortes,
Nos abstenhamos, e os mortais que briguem:
De atalaia espreitemos. Entre em liça
Marte ou Febo, de Aquiles a ação tolham,
Que travaremos guerra; e estou que em breve
À divina assembléia e sacro Olimpo
Terão de reverter, por nós domados.”

Então sobe à muralha o azul monarca
Por Minerva e os Troianos construída,
Refúgio para Alcides, se a tremenda
Orca da praia o perseguisse ao plaino:
Sentam-se ali Netuno e os sócios deuses,
De insolúvel nublado circunfusos.
D’além, Arcitenente, nesses coles
Os teus com Marte urbífrago te cercam.
Uns e outros espaçosos deliberam,
Estrear duvidando o morticínio;
O Satúrnio de cima os esporeia.

Luzem no cheio campo homens e carros,
Treme e reboa do estrupido a terra;
Mas dois varões ao meio ardentes marcham,
O Anquíseo belicoso e o divo Aquiles.
De elmo a nutar pesado, avança Eneias,
Minaz agita o escudo e o peito cobre,
Brande êneo pique; vem de encontro o Grego.
Sevo leão, que um pago todo investe,
Primeiro desdenhoso encara a turba;
Se de azagaia o sangra ousado moço,
Torcido e hiante mostra espúmeos dentes,
Geme, de cauda açouta ilhais e coxas,
Raiva, olhos gázeos rola, aos dianteiros
Pular ensaia ou perecer com brio:
Tal fúria invade o coração de Aquiles
Contra o galhardo corajoso Eneias.

Já fronte a fronte, o pé-veloz começa:
“Por que, Eneias, tão fora estás da linha?
Vens combater comigo, e imperar contas
Nos cavaleiros Teucros? Se venceres,
Príamo em tuas mãos não larga o cetro,
Que há prole e mente sã. Talvez esperas,
Por matar-me, vinhedo e férteis veigas?
Árdua empresa, pois cuido que esta lança
Talvez te afugentou. Lembras-te quando,
Longe dos bois, do Ida rechacei-te?
Nem para trás olhavas na carreira,
Até Lirnesso. Com Minerva e o Padre,
A Lirnesso abati, privei do livre
Dia as mulheres e comigo as trouxe;
Mas Júpiter salvou-te: hoje em vão pensas
Que ele te salve. Às linhas te recolhas;
Evita o meu furor, foge, que é tempo.
Do erro tarde o insensato se arrepende.”

Retorque Eneias: “Eu não sou, Pelides,
Criancinha que assustes com palavras.
Posso também de injúrias carregar-te;
Que sabemos de ouvida a estirpe nossa,
Bem que avós teus não conheci de vista,
Nem conheceste os meus. Prole te aclamam
Peleia e da pulcrícoma Nereida;
Nasci de Vênus e do grande Anquises:
Parte hoje destes chorarão seu filho;
Pois não creio daqui nos separemos,
De pueris bravatas satisfeitos.
Mas ouve, se te apraz ouvir quem somos,
Que Júpiter gerou, como é constante,
A quem Dardânia ergueu; pois Ílion sacra
Em pé não era, e do Ida fontanoso
À raiz os falantes habitavam.
Dárdano houve o riquíssimo dos homens
Erictônio, que em brejos lhe pasciam
Éguas três mil, da nédia raça ufanas:
Prenhes do amante Bóreas, na aparência
De um corcel negro de azulada crina,
Pariram doze poldros, que saltando
Pela alma terra, a messe nem feriam,
E a brincar pela vasta equórea espalda,
Leves no salso argento escorregavam.
Erictônio houve a Troa, que o príncipe Ilo
Teve e Assáraco após, e o mais formoso
Dos mortais o deiforme Ganimedes,
Para escanção de Jove arrebatado,
Celícola gentil. Foi de Ilo fruto
O exímio Laomedonte; o qual por filhos
Contou Clício e Titon, Príamo e Lampo,
Hicetoon mavórcio. Cápis, que era
De Anquises pai, de Assáraco foi nado,
Gerou Príamo a Heitor, gerou-me Anquises,
Gabo-me sim de uma prosápia ilustre;
Bem que, absoluto e onisciente, Jove
Alça ou baixa o valor no peito humano.
Mas loquela infantil cesse entre as armas,
Podemos ambos despejar opróbrios
Que uma nau de cem remos abarrotem;
Que a língua é solta e infindos os dictérios,
E troco é de um convício outro convício.
Mas para que ralharmos, quais mulheres
Que, na rua assanhadas altercando,
Se insultam com verdades e mentiras?
Pronto a pugnar, teus feros não me aterram.
Eia, as lanças de perto experimentemos.”
E vibra a sua contra o escudo horrendo,
Onde fixa ressoa a cúspide ênea.

Turba-se Aquiles, e do peito o escudo
Com mão robusta afasta, receando
Que o magnânimo Eneias lho atravesse:
Deslembra estulto que divinas armas
Fácil ao braço de um mortal não cedem.
Lâminas cinco lhe dobrou Vulcano,
De cobre as duas, as de estanho em baixo,
Áurea a do meio: nesta embaça o tiro,
Que as de cima traspassa o herói Troiano.

Então sua hasta longa expede Aquiles,
E a rodela inimiga no alto fura,
Onde éreo fio em derredor corria
E tênue couro: o arnês rebrame ao choque
Do Pelíaco freixo; o corpo Eneias
De susto encolhe, e a tarja ao longe estende;
Ávido rasga o pique as orlas duas,
Por sobre o dorso vara e o solo espeta.

Livre do bote, os olhos se lhe ofuscam
De centúplice dor, sentindo a lança
Perto no chão pregada. Lesto Aquiles
De gládio o investe com terríveis urros.
Pega e meneia o Anquíseo pedra enorme,
A dois varões d’agora nímia carga:
Certo, por defender-se, o escudo ou casco
Eneias lhe fendera; mas à espada
O matara o Pelides, se Netuno
Aos deuses não bradasse: “Dói-me, ó numes,
Que às mãos de Aquiles o brioso Eneias
Louco desça a Plutão, por confiar-se
No Longe-vibrador, que o não socorre.
Por que inocente pagará por outros
Quem sempre aos imortais mil dons oferta?
Salvemo-lo, que Jove há-de agastar-se
De o ver extinto. É fado que a progênie
Permaneça de Dárdano, a mais cara
Prole que de mulher teve o Satúrnio;
A geração de Príamo ele odeia:
Quer pois que Eneias reine, mais seus filhos,
E os que dos filhos procedendo forem.”

A quem Juno olhitáurea: “Considera
Contigo, Enosigeu, se tu o resguardas,
Ou se acabe no instante o pio Eneias;
Que eu e Palas juramos ante os deuses
Nunca a um Teucro valer, nem que Ílio em cinzas
Caia abrasada pela Grega chama.

Isto ouvindo Netuno, entre o ruído
E furor do combate, a Eneias busca;
Derrama logo em torno do Pelides
Cego negrume; da rodela saca
Do bravo Teucro o freixo de érea ponta,
Põe-no aos pés do rival; com rude impulso
Faz o deus que de um salto Eneias vença
Muitas filas de heróis, de carros muitas,
E pare n’ala extrema, onde em batalha
Armavam-se os Caucomes. Face a face,
Presto Netuno exclama-lhe: “Insensato!
Que deus ora te excita contra Aquiles,
Mais do que tu valente aceito aos numes?
Ah! foge de encontrá-lo, a não quereres,
Apesar do destino, ir aos infernos:
Mas, quando a morte o ceife, audaz propugnes;
De outro Aquivo nenhum temer-te podes.”

Assim que instrui a Eneias, d’ante Aquiles
Desfaz a névoa grossa. Este vê claro,
Entre si diz gemente: “Hui! Que prodígio!
A hasta a meus pés, sumiu-se o herói que ardente
Com ela eu quis matar! Os deuses o amam,
Não é vanglória sua. E bem, comigo
Não mais se atreverá: salvou-se, basta.
Ora sus; aguçado o esforço Aquivo,
Os mais Teucros provemos. Logo às filas
Salta, exorta um por um: “Valentes Gregos,
Longe estais; barba a barba, arremessai-vos:
Por mais forte que seja, é-me impossível
A tantos perseguir, lutar com todos;
Nem Mavorte imortal, nem Palas mesma
Turmas tais acossando opugnaria.
Mas, quanto em mãos e em pés e em brio valho,
Tudo vos sagro, e sem respiro aos Teucros
Me enviarei; nem folgará, presumo,
Quem deste pique a tiro se aproxime.”

Também Heitor concita, aos seus promete
Ao Pelides marchar: “Bizarros Frígios,
Aquiles não temais. Eu de palavras
Posso aos deuses me opor, nunca de lança,
Que mais potentes são: nem tudo Aquiles
Tem de acabar; obtenha uma façanha,
Que outra será no meio mutilada.
Corro a encontrá-lo, embora ao ferro ou bronze
Imite seu valor, seu braço ao fogo.”

Animados os Teucros, de hasta em punho,
Em algazarra, em mó se precipitam
Mas a Heitor susta Febo: “Heitor, suspende,
Que se da linha sais, a estoque ou dardo
O Aqueu te prostrará.” Da voz divina
Heitor se abala, no tropel se esconde.

De coragem vestido, urrando fero,
Surge Aquiles. De lança em duas racha
A testa a Ifition, de imensos cabo,
Do turrífrago Otrinto insigne gérmen,
De uma Naida parido sob o Tmolo
Nervoso, de Hides no opulento burgo;
Ele baqueia, e orgulha-se o Pelides:
“Tremendíssimo Otrintes, aqui jazes,
Bem que a família e os agros tens paternos
Do lago Gíjes nas risonhas margens,
Ao pé do Hilo piscoso e túrbido Hermo.”
Entanto, Ifition se imerge em trevas,
E a rodar Graios coches o espedaçam.

A Demoleon, belígero Antenórida,
Pela viseira a têmpora atravessa;
Nem éreo o elmo ao campeão defende,
Que ávida a choupa os ossos e os miolos
Quebra ou derrama: o temerário tomba.
A Hipodamas, que apeia-se e escapole,
No dorso enterra a cúspide: ele expira
A alma feroz, mugindo como touro
Que ante o Helicônio Enosigeu mancebos
Arrastam, com prazer do azul tirano.
Atira-se ao deiforme Polidoro,
A quem Príamo pai vedava a pugna,
Porque era o seu menor e estremecido;
Porém, sobre os irmãos de pés ligeiro.
Vaidoso na vanguarda ia correndo,
Quando Aquiles veloz lhe enfia às costas,
Onde encruzam do bálteo áureas fivelas
Em reforço da coura: pelo umbigo
Lhe sai a ponta; ajoelha-se ululando,
E em letal noite os intestinos colhe.

Heitor, que vê rolar o irmão por terra
Os intestinos a reter, os olhos
Ofusca em treva, do Pelides longe
Não pode mais estar; brandindo a lança,
Como chama arremete. Exulta Aquiles
E diz jactancioso: “Eis quem no peito
Mais me pungiu, matando-me o dileto!
Cessemos de fugir-nos mutuamente
Por atalhos do exército.” E prossegue
A olhar medonho: “Heitor, chega-te perto,
Para mais breve a morte receberes.”

O divo Heitor impávido responde:
“Não sou menino que falando assustes;
Prescindamos, Aquiles, de impropérios.
Conheço que és valente e que me excedes;
Mas dos deuses no grêmio a sorte pousa,
E inferior eu talvez te arranque a vida,
Pois também do meu dardo a ponta fura.”

Vibra o arremesso então, que ao leve sopro
De Palas, desviando-se de Aquiles,
Torna aos pés do senhor. Feroz bramindo
Presto o Pelides rui sanguissedento;
Mas Febo, como deus, rápido leva
E encerra Heitor em tenebrosa nuvem.
Três vezes o fogoso esgrime a lança,
Três verbera a espessíssima caligem;
Da quarta enfim como um demônio troa:
“Inda escapaste, cão; salvou-te Apolo,
Que entre o márcio estampido invocas sempre.
Mas noutro encontro, se me assiste um nume,
Certo mo pagarás: dos teus agora,
Quantos possa alcançar, farei matança.”

Nisto, a cerviz a Dríope lanceia.
Deixa-o, fere na rótula o famoso
Demouco Filetório, que detido
A gládio acaba. A Dárdano e Laogono,
De Bias prole, do seu coche deita;
Este cai de um revés, de um bote aquele.
Troe Alastório prostra-se, rogando
Que o deixe vivo, e igual idade alega
Por comovê-lo: estulto! É sem brandura
O atroz Peleio, e no ato em que aos joelhos
Ia Troe abraçá-lo, a espada irosa
Desentranha-lhe o fígado, que o seio
De cruor enche; inânime o coitado
Escuros olhos fecha. Ao perto em Múlio
De orelha a orelha embebe a choupa aênea.
De estoque vara do Agenório Equéclos
A testa, e o sangue a empunhadura aquece;
Fatal purpúrea morte o cega e rende.
A Deucalion dardeja onde se ligam
Pulso e cúbito; o braço a atormentá-lo,
Aguarda a instante Parca: degolado,
A medula da vértebra desparge,
E ao longe elmo e cabeça, o tronco estira.
A Rigmo estrênuo, de Pireu nascido
Lá na glebosa Trácia, o ventre passa,
De cima o arroja: ao fâmulo Arcitoo,
O coche ao revirar, perfura o dorso;
Derrui da sela, espantam-se os cavalos.

Qual, de árida montanha em fundos vales,
Amplo devora a mata imano incêndio,
A contorcer-se do Ábrego às rajadas;
Assim furente, como um deus, Aquiles
Arde, e no morticínio a terra ensopa.
Qual a junta de bois de larga fronte,
Na eira a separar branca cevada,
Mugindo os feixes pisa e os grãos debulha;
Assim vão os ungüíssonos calcando
Corpos e escudos: sangue o eixo escorre,
Que das patas espirra; o assento em roda
Gotas aspergem que dos aros vertem.
As mãos o invicto herói, na glória aceso,
De suor sujas leva e pó cruento.

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