Ilíada de Homero – Canto XIX

Ilíada de Homero – Canto XIX

Ílíada de Homero
Resumo e apresentação da Ilíada
Prefácio a Ilíada de Homero
Canto I
Canto II
Canto III
Canto IV
Canto V
Canto VI
Canto VII
Canto VIII
Canto IX
Canto X
Canto XI
Canto XII
Canto III
Canto XIV
Canto XV
Canto XVI
Canto XVII
Canto XVIII
Canto XIX
Canto XX
Canto XXI
Canto XXII
Canto XXIII
Canto XIV
Canto XV
Canto XVI
Canto XVII
Canto XVIII
Canto XIX
Canto XX
Canto XXI
Canto XXII
Canto XXIII
Canto XXIV

Ilíada de Homero – Versão de Odorico Mendes

Argumento do Livro xix

Ao amanhecer Tétis traz a seu filho Aquiles as armas fabricadas por Vulcano e o induz a reconciliar-se com Agamémnon. — Aquiles reúne os Gregos e vai ao campo de batalha. — Agamémnon reconhece os seus direitos. — Impetuoso a princípio, cede afinal aos conselhos de Ulisses. — Briseida é restituída a Aquiles. — Agamémnon jura que jamais tocara na cativa. — Lamentações pela morte de Patroclo. — Aquiles mesmo entrega-se à dor e anseia pela hora do combate. — Os Tessálios se formam em falanges. — Aquiles sobe a seu carro e surdo a uma voz que pressagia-lhe morte próxima, lança-se furioso no meio dos inimigos.

Ilíada de Homero – Livro XIX

Do fluente Oceano a crócea Aurora
Surgindo, homens e deuses alumia;
E às naus Tétis baixando, o seu dileto
Em soluços encontra e os companheiros,
Que em torno de Patroclo o lamentavam;
Pega da mão do filho a clara déia:
“Do céu vontade foi; bem que saudosos,
Deixemo-lo em descanso, amado Aquiles.
Tu Vulcânias recebe ínclitas armas,
Quais não coube a varão jamais vesti-las.”

Deposto aos pés do herói, o arnês retine.
De susto os Mirmidões fitar nem ousam
Tal maravilha, apartam-se espantados:
Ele, ao vê-lo, de cólera trasborda,
Olhos em brasa, as pálpebras em chama;
Folga de o manejar. De examiná-lo
Já saciado: “Minha mãe, profere,
Certo a não fez mortal, obra é divina!
Armar-me irei; mas temo que entrem moscas
Nas chagas do guerreiro e criem vermes,
Que ah! sem vida, o cadáver deturpando,
Os dissolvidos membros lhe apodreçam.”

E a genetriz: “Não cures disso, filho;
Enxotarei eu mesma o agreste enxame
Que imolados belígeros devora.
Jazesse um ano, que seria inteiro,
E inda melhor. Convoca os chefes Gregos;
Apaziguado, ao rei dos reis perdoa;
Do teu valor te escuda, ao prélio corre.”
Disse, e brio audacíssimo lhe infunde;
Mas em Patroclo, a preservá-lo, instila
Pelas ventas ambrosia e rubro néctar.

Ao longo vai da praia o divo Aquiles,
E excitando os Grajúgenas vozeia:
Surdem mesmo os que a bordo permanecem,
Despenseiros, pilotos, contramestres,
A olhar o campeão que às armas torna;
Os fâmulos de Marte, Ulisses nobre
E Tidides belaz, das chagas inda
Vêm manquejando, n’hasta abordoados
E sentam-se diante; último assoma
O sumo cabo, na áspera contenda
Por Coon Antenórida ferido.

Começa Aquiles: “Poderoso Atrida,
Primeiro que a discórdia nos roesse,
Magoados corações por uma escrava,
Oh! Diana ante as naus a asseteasse,
No mesmo dia que abati Lirnesso!
Nem tanto Aqueu prostrado o pó mordera,
Nem do ódio meu tenaz Heitor folgara:
Há-de lembrar nossa disputa aos Gregos.
Mas enfim o passado é sem remédio;
Curva-nos o destino. Amaino a fúria,
Justo não é perpetuar as iras.
Eia, os comados sócios, Agamêmnon,
Ao prélio anima; ensaiarei se os Teucros
Pernoitar junto às naus inda pretendem:
Algum, penso, escapado à lança minha,
Dobrar não deve os joelhos em sossego.”

Conciliado o magnânimo Pelides,
Os Dânaos alegraram-se, e Agamêmnon
Do próprio assento orou sem levantar-se:
“Márcios Gregos amigos, escutai-me,
Não me atalheis: quem há, facundo embora,
Que no alvorote ouvir ou falar possa?
Desfalece o arengueiro mais sonoro.
Dirijo-me ao Pelides; mas vós outros
Sede-me atentos. Os Aqueus me imputam
Quanto o meu fado e Júpiter obraram
E a noctívaga Erínis, que Ate seva,
Naquele dia que roubei-te o prêmio,
Lançaram-me na mente. E que remédio?
Ate o fez crua e atroz, que, intacto o solo,
Sobre as cabeças dos varões passeia,
A ofender, a enredar. Nem mesmo a Jove
Seu genitor poupou, que é proclamado
Potentíssimo entre homens e entre numes,
Quando, apesar do sexo, o enganou Juno,
Indo a parir Alcmena a Hercúlea força
Na turrígera Tebas. A jactar-se
Disse ele então: – Celícolas, agora
Vos declaro um segredo. Hoje Ilitia
Homem, dos partos árbitra, à luz manda
Que os vizinhos impere, e do meu sangue. –
Matreira Juno: – É falso, tal não cumpres;
Ou jura-me solene que os vizinhos
Há-de imperar quem hoje nasça e caia
Aos pés de uma mulher, e de teu sangue. –
Ele jurou incauto, e arrependeu-se.
Voa do Olimpo Juno; busca em Argos
A alma esposa de Estênelo Perseides,
Prenhe de sete meses, e imatura
À luz fê-la brotar seu tenro filho;
De Alcmena tolhe o parto e as agras dores.
Veio contá-lo a Jove: – Altitonante,
Euristeu forte é nado, o Estenelides;
Merece, que é teu sangue, o império de Argos. –
Pungido n’alma, aos nítidos cabelos
O Satúrnio Ate agarra, jura à Estige
Não consentir no Olimpo e claro assento.
Ate nociva a todos, e a rodá-la
Do estelífero pólo a precipita:
Ela o afligiu de cá; gemia o Padre
Vendo sob Euristeu sofrer Alcides.
E eu, quando às popas destroçava os Gregos
O galeato herói, não me esquecia
De Ate que esta só vez tirou-me o siso.
Pois Jove o permitiu, quero aplacar-te:
Corre ao combate, o exército afervora;
Tudo que ontem na tenda o nobre Ulisses
Te enumerou, terás. O ardor guerreiro
Sopeia, espera, e da nau minha servos
Presentarão mil dons que te contentem.”

Responde o velocípede: “Os presentes
Em teu poder está, rei soberano,
Ou retê-los, ou dar-mos, como é justo:
Agora, ao marte, não convém tardanças;
Há muito que fazer. De novo Aquiles
Se veja a derrotar falanges Teucras;
Batei-vos corpo a corpo, a exemplo dele.”

E o cauteloso Ulisses: “Bem que exímio
Sejas, divino Eácida, à batalha
Sem comer nossos Gregos não constranjas;
Que, encetada uma vez, não será breve,
E um deus a instigará de parte a parte.
Vinho e pasto os restaure; o mais robusto
Em jejum té sol posto não resiste:
O brio o incita, mas de fome e sede
Pesado e mole, tremem-lhe os joelhos.
O repleto peleja o dia inteiro;
De ânimo audaz, não refocila os membros,
Antes que cesse totalmente a pugna.
Almoce a tropa, as dádivas o Atrida
Nos apresente em público, e tu folgues.
O rei nos jure, e em pé, que nunca a jovem
Teve em seu leito, ou se ajuntou com ela.
Mitiga-te com isto; e lauta mesa
Ele na tenda sua te aderece,
Para nada omitir-se. De ora avante
Sê mais reto, Agamêmnon; que um monarca
Em reparar a injúria não se avilta.”

E o rei dos reis: “Agrada-me, Laércio,
Quanto em ordem e a ponto nos lembraste.
Jurar é meu desejo, e às divindades
Perjuro não serei. Contenha o fogo,
Nesta assembléia os dons espere Aquiles;
Sinceros a aliança aqui firamos.
Concordo, Ulisses, toma a flor guerreira,
Que nos traga os presentes e as cativas;
E pelos vastos arraiais Taltíbio
A toda a pressa um javali conduza
Que a Júpiter e ao Sol vítima seja.”

Replicou-lhe o Pelides: “Agamêmnon,
Glorioso monarca, isso fizesses,
Quando, suspenso o ataque, menos ira
O fígado me inchasse. Tantos jazem,
De Heitor prostrados com celeste ajuda,
E instais pelo festim! Ao prélio, amigos;
Vingança, e a folgo à tarde cearemos.
Nem bebida ou comer pela garganta
A mim me há-de passar; que em minha tenda,
Para o pórtico os pés, de agudo bronze
Está meu bravo sócio traspassado,
Entre saudoso pranto: hei só na mente
Sangue e estrago, e soluços e agonias.”

Torna Ulisses: “Fortíssimo dos Gregos,
Exceles tu na lança, eu na prudência:
De um mais velho e instruído aceita o aviso.
Cansados os heróis que a muitos segam,
Messe maior derribam, das batalhas
Quando inclina a balança o árbitro sumo.
Com nosso ventre os mortos não choremos;
Diariamente os esquadrões sucumbem;
Como do luto respirar? Um dia
Sagre-se à dor, e enterrem-se os finados.
Quem se livrou, da sede e fome cure,
E em brônzeo arnês, indômito ao conflito
Retorne amaro. Incitamento novo
Nenhum de vós aguarde; ai do que inerte
Nas popas se ficar! Num corpo, todos
Marchemos, gente forte, aos inimigos.”

Presto escolhe os Nestóridas e Meges,
Melanipo e o Creôncio Licomedes,
Merion e Toas; vão-se à tenda régia.
Dito e feito: uma dúzia de cavalos,
Mais vinte caldeirões, trípodes sete,
Guapas jovens prendadas apresentam,
Sendo oitava Briseida airosa e linda:
Os que pesou talentos mostra Ulisses,
E os moços após ele o mais traziam;
Tudo à vista se expôs. – O Atrida ergueu-se;
Taltíbio, um deus na voz, sustendo arrasta
O javali para o pastor dos povos:
Este puxa o punhal que pende sempre
Da bainha da espada, e ao cerdo o pêlo
Em primícias raspado, alçando as palmas,
Se encomenda ao Supremo. Respeitosos
Os circunstantes em silêncio o escutam:
Ele o céu largo fita, e assim perora:
“O ótimo atesto onipotente Padre,
E a Terra e o Sol, e as Fúrias que no inferno
Punem falsários: nunca foi tocada
Por mim Briseida, ou compartiu meu leito,
Pura ficou. Se minto, os sacros deuses
O castigo me inflijam do perjúrio.”

Disse, e a punhal o javali degola;
Taltíbio a volteá-lo às brancas ondas
O atira aos peixes, e o Pelides clama:
“Júpiter, que de angústias nos reservas!
No imo nem me ofendera, nem Briseida
Me arrebatara o Atrida, se de morte
Não quisesse ferir a tantos Gregos.
Ide agora almoçar; depois, aos Teucros.”
E solve o ajuntamento, sem demora
O seu navio cada qual procura.

Aos de Aquiles as dádivas traspassam
Os Mirmidões, que em tendas as colocam;
Assentam-se as mulheres, e escudeiros
Metem na estrebaria os corredores.
Vê d’áurea Vênus êmula Briseida
O lacerado corpo, e em roda ulula,
Rasga os peitos e o colo e as pulcras faces,
Em pranto e a soluçar: “Patroclo amigo,
Vivo deixei-te e morto aqui te encontro,
Sublime herói! De mal em mal tropeço!
Vi num dia expirar quem me escolheram
Meus dignos pais, e os três irmãos dess’alma
Que gerou minha mãe; quando o marido
Matou-me a bronze Aquiles e ao divino
Mínete os muros destruiu, quiseste
As lágrimas reter-me, e asseveravas

Que, esposa eu transportada, em sua corte
Farias que ele celebrasse as bodas;
Choro-te, ó generoso, ó compassivo!”
E as mais, também o morto parecendo
Gemer e prantear, por si carpiram.
Que se alimente os príncipes lhe pedem,
Mas recusa o Pelides suspirando:
“Não me insteis, vos conjuro, ó camaradas:
A dor não me permite alimentar-me;
Espero pela tarde.” E os reis despede.
Ficam por consolá-lo os dois Atridas,
Nestor e Idomeneu, Fênix e Ulisses;
Mas seu único alívio é na carnagem.
De saudades anseia e em ais prorrompe:
“Íntimo do meu peito, aqui na tenda
Lauto almoço me punhas, quando os Gregos
Marte aguçavam lagrimoso aos Teucros:
Ora tens roto o seio, e o nojo impede
Que eu beba e coma. Nem pior seria
Se morresse meu pai, que terno em Ftia
Chora talvez por mim, flagelo de Ílio
Da odiosa Lacena em desafronta;
Nem que em Ciro perdesse a prenda amada,
Se é que vive o deiforme Neoptolemo,
Contava o coração que eu só da pátria
Longe acabasse, mas que tu meu filho
Em fresca nau de Ciro conduzisses,
Para o meter de posse dos meus servos,
Do meu celso palácio e mais riquezas.
Peleu cuido sem vida, ou velho e enfermo
Se inda respira, aguarda a cada passo
Do meu final desastre o anúncio triste.”

Assim lamenta, e os próceres com ele
Dos longínquos penhores se apiadam.
Condoído o Satúrnio, a Palas chama:
“Filha, o exímio varão desamparaste;
Já não te importa Aquiles? Ante as popas
Sentado assíduo geme, e enquanto almoçam
Os Dânaos todos, ele só jejua.
Para estancar a fome, eia, lhe instiles
Nos órgãos doce ambrosia e néctar puro.”

Pronta por si, corta Minerva os ares,
Qual arguto xofrango de asas pandas;
Baixa ao campo, onde os Gregos já se armavam,
No Pelides instila ambrosia e néctar,
Por que a fome os joelhos não lhe afraque,
E à casa etérea de seu pai remonta.
Das naus fervia a gente: como as neves
Que Jove expede gélidas, soprando
Serenador e desenvolto Bóreas,
Broquéis surdem copados, malhas, elmos,
Fraxíneas hastas, côncovas lorigas;
Sobe o fulgor aos céus, ao lume aêneo
Ri-se a terra, ao tropel freme a campanha.
No meio, olhos em fogo, estruge os dentes
Sanhudo o herói, de mágoas devorado;
Veste as obras do deus: com prata as grevas
Às pernas afivela; o peito arnesa;
Ao tiracolo claviargêntea espada.
Embraça o belo primoroso escudo,
Cujo imenso esplendor, ferindo as nuvens,
Era como o da Lua, ou como a chama
Que arde elevada em solitário monte
Para guia dos nautas que a procela
Dos amigos alonga em mar piscoso.
Como estrela, à cabeça o casco brilha
De eqüinas sedas e áureo undante crino
Que em torno da cimeira pôs Mulcíber.
Nas armas, prova o maioral de povos
Se lhe iam bem: como asas o exalçavam.
Tira do forro a pátria enorme lança,
Que ninguém mais, só ele, manejava,
Do Pélion freixo, a tanto herói funesto,
A Peleu dantes por Quiron talhado.

Alcimo e Automedon a biga jungem
Com circunfuso loro, ajeitam freios,
Para o assento incrustado as rédeas puxam;
Do hábil flagelo Automedon pegando,
Ao carro salta. Após, de ponto em branco,
Aquiles monta, e como o Sol fulgura;
Aos Peleios corcéis tremendo brada:
“De Podargo alta raça, ó Xanto e Bálio,
Fartos nós da peleja, de outro modo
Vosso auriga salvai no campo Graio:
Morto não me deixes, qual meu Patroclo.”

Xanto a cabeça inclina, e esparsa a coma
Cai entre o jugo em terra; assim responde,
Pois deu-lhe fala a bracinívea Juno:
“Salvo esta vez serás, fogoso Aquiles;
Mas perto a Parca tens, sem nossa culpa,
Sim de um nume e do fado. Se a Patroclo
Os Teucros despojaram, por inércia
Não foi dos teus corcéis; foi na vanguarda
Prostrado pelo filho de Latona,
Para Heitor gloriar-se. A ligeireza
De Zéfiro no curso igualaremos,
Que se diz mais veloz; contudo é força
Por um deus e um varão domado seres.”

A voz lhe embargam neste ponto as Fúrias.
Clama o herói indignado: “A morte, Xanto,
Me vaticinas? Isso não te quadra.
Força é morrer, eu sei, de Ftia longe
E de meus pais queridos; mas aos Troas
Hei-de saciar a sede de combates.”
Nisto, à frente gritando, impele o carro.

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