José de Alencar – resumo da vida e obra



Resumo da Biografia e Principais obras de José de Alencar

JOSÉ MARTINIANO DE ALENCAR (Ceará, 1829-1887), foi jurisconsulto, jornalista, orador, parlamentar, romancista e dramaturgo. Exerceu o magistério como lente de Direito Mercantil, no Instituto Comercial, saiu eleito deputado em várias legislaturas e fêz parte do Gabinete de 16 de Julho de 1868, aceitando a pasta da Justiça.

Suas obras principais são: no romance, O Guarani, As Minas de Prata e Iracema; e no drama, O Demônio Familiar, Verso e Reverso e Mãe.

Na opinião do Dr. Araripe Júnior, que conscienciosamente estudou a individualidade literária de José de Alencar, foi este um aristocrata das letras, em cujo estilo e maneiras — tudo respirava reserva e o não me toques no arminho. Desse estilo primoroso também com justiça se pôde afirmar que José de Alencar não precisaria assinar o que escrevesse para ser logo reconhecido.

Sabia a fundo a língua portuguesa; mas, atacado por Castilho (José Feliciano) e outros rigoristas, sustentou a diferenciação do idioma no meio americano, e assim lançou as bases de uma escola cujo fim seria a formação do dialeto brasileiro.

Iracema e o Guerreiro Branco de José de Alencar

Além, muito além daquela serra, que ainda azula no horizonte, nasceu Iracema.

Iracema (54), a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna e mais longos que seu talhe de palmeira.

O favo da jati não era doce como o seu sorriso, nem a baunilha recendia no bosque como seu hálito perfumado.

Mais rápida que a ema selvagem, a morena virgem (55) corria o sertão pelas matas do Ipu, onde campeava sua guerreira tribo, da grande nação tabajara. O pé grácil e nu, mal roçando, alisava apenas a verde pelúcia que vestia a terra com as primeiras águas.

Um dia, ao pino do sol, ela repousava em um claro (56) da floresta. Banhava-lhe o corpo a sombra da oiticica, mais fresca do que o orvalho da noite. Os ramos da acácia silvestre esparziam (57) flores sobre os úmidos cabelos. Escondidos na folhagem, os pássaros ameigavam o canto.

Iracema saiu do banho; o aljôfar da água ainda a rore-ja (58), como à doce mangaba que corou em manhã de chuva. Enquanto repousa, empluma das penas do gará as flechas do seu arco, e concerta com o sabiá da mata, pousado no galho próximo, o canto agreste.

A graciosa ará, sua companheira e amiga, brinca junto dela, às vezes sobe aos ramos da árvore e de lá chama a virgem pelo nome; outras remexe o uru de palha matizada, onde traz a selvagem seus perfumes, os alvos fios do crautá, as agulhas de juçara, com que tece a renda, e as tintas de que matiza o algodão. (59).

Rumor suspeito quebra a doce harmonia da sesta. Ergue a virgem os olhos, que o sol não deslumbra: sua vista perturba-se.

Diante dela e todo a contemplá-la, está um guerreiro estranho, se é guerreiro e não algum espírito da floresta. Tem nas faces o branco das areias que bordam o mar; nos olhos o azul triste tias águas profundas. Ignotas (60) armas e tecidos ignotos cobrem-lhe o corpo.

Foi rápido, como o olhar, o gesto de Iracema. A flecha imbebida no arco partiu. Gotas de sangue borbulham na face do desconhecido.

De primeiro ímpeto, a mão lesta caiu sobre a cruz da espada; mas logo sorriu. O moço guerreiro aprendeu na religião de sua mãe, onde a mulher é símbolo de ternura e amor. Sofreu mais da alma que da ferida.

O sentimento que êle pôs nos olhos e no rosto, não o sei eu. Porém a virgem lançou de si o arco e a uiraçaba, e correu para o guerreiro, sentida da mágoa que causara.

A mão que rápida ferira, estancou mais rápida e com-passiva o sangue que gotejava. Depois Iracema quebrou a flecha homicida; deu a haste ao desconhecido, guardando consigo a ponta farpada.

O guerreiro falou:

— Quebras comigo a flecha da paz?

— Quem te ensinou, guerreiro branco, a linguagem de meus irmãos? Donde vieste a estas matas, que nunca viram outro guerreiro como tu?

— Venho de bem longe, filha das florestas. Venho das terras que teus irmãos já possuíram e hoje têm os meus.

— Benvindo seja o estrangeiro aos campos dos Tabajaras, senhores das aldeias, e à cabana de Araquén, pai de Iracema.

(Iracema, pp. 17-20.)

A Prece, de José de Alencar

A tarde ia morrendo.

O sol declinava no horizonte e deitava-se sobre as grandes florestas, que iluminava com seus últimos raios.

A luz frouxa e suave do ocaso, deslizando pela verde alcatifa (61), enrolava-se como ondas de ouro e de púrpura sobre a folhagem das árvores. Os espinhos silvestres desatavam as flores alvas e delicadas; o ouricuri abria as suas palmas mais novas, para receber no seu cálice o orvalho da noite. Os animais retardados procuravam a pousada, enquanto a juriti, chamando a companheira, soltava os arrulhos doces e saudosos com que se despede do dia.

Um concerto de notas graves saudava o pôr do sol e confundia-se com o rumor da cascata, que parecia quebrar a aspereza de sua queda e ceder à doce influência da tarde.

Era ave-maria.

Essas grandes sombras das árvores que se estendem pela planície; essas gradações infinitas da luz pelas quebradas da montanha; esses raios perdidos que, esvazando-se pelo rendado da folhagem, vão brincar um momento sobre a areia; tudo respira uma poesia imensa que enche a alma.

O urutau no fundo da mata solta as suas notas graves e sonoras, que, reboando pelas longas crastas da verdura, vão ecoar ao longe como o toque lento e pausado do Angelus. A brisa, roçando as grimpas da floresta, traz um débil sussurro, que parece o último eco dos rumores do dia ou do derradeiro suspiro da tarde que morre.

Todas as pessoas reunidas na esplanada sentiam mais ou menos a impressão poderosa desta hora solene, e cediam involuntariamente a esse sentimento vago, que não é bem tristeza, mas respeito misturado de um certo temor. De repente os sons melancólicos de um clarim prolongaram-se pelo ar quebrando o concerto da tarde: era um dos aventureiros que tocava ave-maria.

Todos se descobriram.

D. Antônio de Mariz, adiantando-se até à beira da esplanada, para o lado do ocaso, tirou o chapéu e ajoelhou.

Ao redor dele vieram grupar-se sua mulher, as duas moças, Álvaro e D. Diogo; os aventureiros, formando um grande arco de círculo, ajoelharam-se a alguns passos de distância.

O céu com o seu último reflexo esclarecia a barba e os cabelos brancos do velho fidalgo, e realçava a beleza daquele busto de antigo cavaleiro.

Era uma cena ao mesmo tempo simples e majestosa a que apresentava essa prece cristã, meio selvagem; em todos aqueles rostos, iluminados pelos raios do sol do ocaso, respirava um certo respeito.

Loredano foi o único que conservou o seu sorriso desdenhoso, e seguia com o mesmo olhar torvo os movimentos de Álvaro, ajoelhado perto de Cecília e embevecido em contemplá-la, (62) como se ela fosse a divindade a quem dirigia a sua prece.

Durante o movimento em que o rei da luz, suspenso no horizonte, lançava ainda um olhar sobre a terra, todos se concentravam em um fundo recolhimento, e diziam uma oração muda, que apenas agitava imperceptivelmente os lábios.

Por fim o sol escondeu-se; Aires Gomes estendeu o mosquete sobre o precipício, e um tiro saudou o ocaso.

Era noite.

(O Guarani, pp. 67-71, vol. 1.°, edição Corazzi.)

Notas e comentários

(54) Iracema, voz tupi (irá, mel + acéma, fluxo, saída) significa mel que corre, melíflua; por mera coincidência é o anagrama de América. (55) Morena = trigueira; moreno, da raiz castelhana de moro (mouro, do lat. mauru): moreno = da côr do mouro; trigueiro = da côr do trigo maduro. (56) um claro = um lugar claro, descampado, uma clareira, uma aberta. o adjetivo substantivado traz um sainete especial à expressão fraseológica. (57) esparzir e espargir (lat. spargtre); franzir e frangir (lat.- frangere); serzir (lat. sarcire) e sergir (pop.); azambrado (de zambro) e ajambrado: troca comum entre os sons e fê. (58) Rorejar, do lat. rore (ros, rorls = orvalho) c o suí. verbo efar = borrifar, orvalhar, aljofrar, destilar. Júlio Coinu aenva orvalho da forma ‘roraliu, do mesmo ros, roris, com a seqüência evolutiva "rolaliu, ‘roalho, rovalho (com epêntese) e orvalho (com metâtese). (Nascentes. Dicion. Etimol.). (59) No trecho: gará ou guará, a garça vermema {tais rubra); ará ou arara; uru, o cesto feito com as palmas da carnaúba; crautá, espécie de bromélia de cujas folhas se tiram fibras para a leitura de cordas; juçara, palmeira cujos espinhos serviam de agulha. (T. Sampaio). (60) Ignoto, do lai. ignotu —, compõe-se de gnotus e o pref. in. Cnotus, p. pass. de gnoscère, forma are. de noscére, deu noto (lat. notus) pouco usado, que significa sabido, conhecido, e se lê em Camões (Os Lusíadas, II, 28 e VIII, 47). As formas arcaicas latinas gnarus, gnavus, gnatus, snobilis, que, por aférese, passaram a narus, navus, natus e nobilis, mantiveram, noa compostos, as vozes primtivas, que se patenteiam, no vernáculo, sob as seguintes formas (em que i, a, co iniciais são os prefixos latinos in, ad, cum): ignaro (o mesmo que ignorante), ignave (indolente), agnato (nascido do mesmo tronco ou na mesma época, e cognato, que se alterou em cunhado).
ignóbil (sem nobreza, desprezível, desonroso), e ainda ignomínia (ação que não merece nome, infâmia, opróbrio), agnome, cognome: formas em que se juntou analogicamente a nomen, nome, o — g — de ignobilis. (61) Alcatifa (do árabe al katifa, tapete grande, tapiz). São de procedência arábica muitos vocábulos nossos, iniciados por al, artigo incorporado à raiz: alarde, alarve, alaúde, alazão, alambique, albarda, alcaide, alcântara, alcateia, alcatra, álcool, alcova, aldeia, aldraba, alfaia, alfândega, alface, alferes, alfazema, alfinete, algar, algarismo, álgebra, algoz, alicate, alicerce, aljava, aljôfar, almanaque, almirante, almíscar, almofada, almoxarife, almôndega, almotoíia, alpercata, alqueire, alvíssaras, alvoroço etc.

 


 

Seleção e Notas de Fausto Barreto e Carlos de Laet. Fonte: Antologia nacional, Livraria Francisco Alves.

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