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O Buraco – Contos de Tchecov


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    Vim do hospital, informou Lipa, depois de um segundo de silêncio. — Olhe aqui meu filho morto; estou levando-o para casa.

O velho deve ter ouvido isto com desagrado, pois afastou-se e replicou com certa confusão:

    Está bem, minha cara. Seja feita a vontade de Deus! Rapaz, estás muito mole, acrescentou, virando-se para o companheiro de jornada. Trata de te apressares!

    Não consigo achar o arco dos varais, respon­deu o rapaz. Viste-o, por acaso?

    Vá vila, tu és uma vergonha!

O velho apanhou um tição no braseiro, soprou-o, iluminando assim o próprio rosto; então, já tendo sido encontrado o arco dos varais, voltou a chama para Lipa. Contemplou-a e seu olhar era cheio de compaixão e ternura.

—  És mãe, disse ele, e toda mãe padece pelo fi­lho…

Dito isto, suspirou e meneou a cabeça. Vávila ati­rou alguma coisa na fogueira, pisoteou as brasas e a obscuridade passou a reinar. Desapareceram as visões e como pouco tempo antes restaram apenas os campos e o céu repleto de estrelas, o canto das aves interrompendo o sono ora de uma ora de outra, e onde houvesse uma claridade havia o pio de um francolim.

Passado um minuto de escuridão, as carroças, o velho e o indolente Vávila tornaram-se novamente visíveis: pouco depois a telega pôs-se em movimen­to com um estalo.

—  Os senhores são santos? indagou Lipa ao an­cião.

— Não, somos de Firsanov.

     O modo com que me olhou ainda há pouco"co­moveu meu coração. O moço também é muito bom. Eu pensei "eles devem ser santos"…

    Vais para longe?

    Ukleyevo.

     Senta aqui. Vamos levar-te até Kuzmenok. Então, tomaras à direita, e nós iremos pela esquerda.

Vávila subiu para a carroça com o barril, o velho e Lipa para a outra. E lá se foram em marcha lenta, Vávila à frente.

—  Meu filhinho sofreu o dia todo, disse Lipa. Ele olhava para mim com seus lindos olhinhos e não dava um gemido sequer; queria falar e não podia. Que o Pai Celeste tenha pena de sua alminha! Caí no chão, em minha angústia, erguia-me, estirava-me na cama. Diga-me, senhor, por que uma criancinha sofre tanto antes de morrer f Quando um homem sofre, ou um mujique, ou uma mulher, é para expiar os seus pecados, mas uma criança, que não tem pecado algum ? Por que será ?…

—  Quem é que sabe? respondeu o ancião.
Continuaram a jornada em silêncio, durante meia hora.

    É impossível saber-se tudo, o quando e o por­quê das coisas… disse o velho. Aos pássaros foram dadas duas asas, e não quatro, porque é mais conve­niente para eles voar com duas; do mesmo jeito, é dado ao homem conhecer não a totalidade das coisas, mas apenas metade, e talvez mesmo.a quarta parte. Ele já conhecerá bastante, se conhecer o necessário para viver…

    Senhor, eu achava melhor ir andando a pé, pois meu coração parece que vai rebentar.

    Não, não, fica sentada.

O velho bocejou e fez o sinal-da-cruz na boca:

—  Nichevo, prosseguiu ele, tua dor é grande, mas a vida é longa, e ainda haverá dias bons e dias maus, dias de toda espécie. Grande é nossa Mãe Rússia! — e enquanto assim falava, olhava ambos os lados da estrada. — Estive em toda a Rússia e já vi de tudo dentro dela; portanto, crê em mim, minha cara: há coisas boas e coisas ruins. Palmilhei a Si­béria, fui às regiões do Amur e às terras do Altai, estabeleci-me na Sibéria, cultivei o campo lá, mas então deu-me a saudade da Mãe Rússia e voltei para minha aldeia natal. Voltei para a Rússia a pé, e bem me lembro, quando estávamos na barca, eu, um monte de ossos, em farrapos, pés descalços, morto de fome, roendo uma côdea dura, vi um passageiro ele­gante passar por mim — Deus dê descanso à sua alma, quando ele morrer — olhar-me cheio de com­ paixão, com lágrimas nos olhos: "Pobre homem, disse ele, comes pão negro e só vês dias negros…"
Eu voltei sem um prego de meu; tivera mulher, ela porém ficara na Sibéria, nós a enterramos lá. Portanto, tratei de viver o melhor que pude. Pois bem, sou eu quem te diz que há dias bons e dias maus. Não tenho vontade de morrer, posso viver mais vin­te anos — o que quer dizer: tem havido maior nú­mero de bons do que de maus. E grande é nossa Mãe Rússia! tornou a dizer, olhando de novo para ambos os lados da estrada,

    Senhor, perguntou Lipa, quando um homem morre, quantos dias fica sua alma na terra?

    Ah! quem pode dizer? Já sei, vamos pergun­tar a Vávila; ele andou na escola. Ensinaram-lhe tudo, lá.  Vávila! chamou o ancião.

    Hein?

    Vávila, quando um homem morre, quantos dias fica sua alma na terra?

Vávila parou o cavalo e respondeu sem rastejar:

    Nove dias. Meu avô Oirilo morreu, sua alma ficou em nossa isba treze dias.

    Como sabes?

    Houve um estalo no fogão durante treze dias.

    Está bem. Vamos para a frente! disse o an­cião ; evidentemente não acreditou numa só palavra.

Em Kuzmenok as carroças enveredaram pela es­trada calçada, e Lipa tomou seu rumo. Já amanhe­cia, contudo ao descer para o buraco as casas e a de Ukleyevo escondiam-se em espesso ne­voeiro. Fazia frio e parecia a ela que o mesmo cuco a estava chamando. Quando Lipa chegou em casa, todos ainda dormiam e o gado não tinha sido ainda levado para pastar. Ela sentou na soleira da porta e esperou. O velho foi o primeiro a sair; num re­lance, compreendeu o que sucedera e levou muito tempo sem poder pronunciar uma só palavra; ape­nas mexia os lábios.

—  Ai, Lipa, disse afinal, não soubeste defender o neto…

Acordaram Várvara, que torceu as mãos, chorou e imediatamente começou a preparar o cadaverzinho para o enterro.

— Era uma linda criancinha. Ai, ai! gemeu ela. E acrescentou: — Era filho único, e sua mãe não soube conservá-lo, ai, meu Deus, meu Deus!

Houve serviço religioso por ele pela manhã e à tarde; no dia seguinte enterraram-no. Depois do en­terro, o padre e os acompanhantes tiveram unia lauta refeição, e comeram como se não tivessem comido havia muito tempo. Lipa serviu os convidados e o padre, levantando o garfo em que havia espetado um pedaço de laranja salgada, lhe disse:

—  Não te entristeças pela criança. Delas é o reino dos Céus.

Só quando todos se foram embora foi que Lipa compreendeu o que lhe havia acontecido; que Nikifor não existia mais nem voltaria outra vez; com­preendeu e chorou. Como antes não sabia em que cômodo da casa iria esconder-se para chorar, assim agora, depois da morte do filho, não achava mais lugar para si naquela casa; sentia-se demais e os outros também assim o sentiam.

—  E esta, por que fazes tanto barulho? pergun­tou inesperadamente Axínia, surgindo à porta. Nos funerais pusera um novo vestido preto e passara pó de arroz. — Fica quieta!

  Lipa esforçou-se por parar, mas, incapaz de o fazer, só fez chorar mais alto.

    Não me ouviste ? gritou Axínia. batendo os pés com raiva. Com quem estou falando? Fora daqui, vai para o pátio, e não me pises mais nesta casa, mu­lher de falsário! Desaparece daqui!

    Ora, ora, gemeu, ansioso, o velho Tzibukin. Axiuta, mutachka, tem calma… Ela está chorando, é muito natural… seu filhinho morreu…

    Muito natural.,. retrucou, zombeteira, Axí­nia. Que passe aqui a noite e amanhã se ponha ao fresco com armas e bagagens. Não quero nem ver a sua sombra! Muito natural! repetiu, com o mesmo ar de mofa, e dirigiu-se a rir para o armazém.

No dia seguinte, de manhã bem cedo, Lipa fugiu para Torguievo, para junto da mãe.


 


IX

No correr do tempo, o telhado e a porta do arma­zém foram pintados outra vez e pareciam novos; os gerânios floresciam como dantes no parapeito das janelas; e tudo quanto havia acontecido três anos atrás em casa de Tzibukin já estava quase esque­cido.

De vez em quando se lembram de que Grigori Petrovich é o chefe, mas na verdade tudo está nas mãos de Axínia; é ela quem compra e vende, nada se faz sem seu consentimento. A olaria funciona bem, c desde a encomenda de tijolos pela estrada de ferro, o preço subiu a vinte e quatro rublos o milheiro. Mulheres e moças transportam tijolos à estação e ‘ carregam vagões, recebendo por este trabalho vinte e cinco copeks diários.

Axínia é sócia dos Khrimins no negócio, que gira sob a razão "Khrimins Júnior &• Cia.". Abriram uma estalagem ao lado da estação, e é aí que se toca atualmente o custoso harmônio. O agente do cor­reio e o chefe da estação freqüentam amiúde a esta­lagem; também eles estão fazendo os seus negociozinhos. Khrimin Júnior deu um relógio de ouro ao surdo Stepán, que vira e mexe o retira do bolso e se põe a escutá-lo, grudado ao ouvido.

Diz-se na aldeia que Axínia readquiriu frescura e vigor; e realmente se vocês vissem como dirige seu carro cada manhã em demanda da olaria, cora um deslumbrante sorriso na face, ostentando impor­tância e felicidade, e se vissem como se desdobra no afã da indústria, concluiriam que ela tem sem dú­vida uma grande vitalidade. Em casa, na aldeia, na fábrica de tijolos todos têm-lhe um medo louco. Quando chega ao correio, o agente ergue-se pressu-roso e lhe diz:

—  Por favor, por favor, sente-se, Axínia Abramovna.

Havia um certo proprietário de terras, de meia–idade, pançudo, vestindo uma jaqueta sem mangas de fino tecido e lustrosas botas altas, que lhe vendia cavalos e andava tão embevecido com a sua conversa, que lhe concedia o que ela bem entendesse, segurava-lhe a mão entre as suas por muito tempo, fitando-a em seus rútilos, penetrantes, ingênuos olhos, e lhe dizia:

    A uma mulher como tu, Axínia Abrámovna, estou pronto a fazer qualquer serviço. I)ize-me ape­nas quando nos podemos encontrar a sós, sem nenhu­ma interferência.

    Oh, quando quiseres!

E assim, agora o pançudo de meia-idade vai quase diariamente ao armazém beber cerveja. A cerveja é terrivelmente amarga, como fel, o latifundiário faz tremendas caretas, mas vai bebendo.

O velho Tzibukin não se mete mais nos negócios. Nem mesmo guarda o dinheiro. Ele não o diz, mas não sabe como distinguir as verdadeiras das falsas moedas, a ninguém confessa esta sua falha.   Tornou-se muito esquecido, e nem come se não lhe lem­bram; já se habituaram a jantar sem ele e Várvara diz muitas vezes:

— Nosso velho a noite passada tornou a deitar–se sem comer. E ela diz isto perfeitamente calma, pois já estão todos acostumados. Seja verão ou in­verno ele sai metido em espesso casacão forrado de pele. Mas nos dias extremamente quentes, ele fica em casa. De ordinário, enfia o casacão, levanta a gola, fecha-o bem em torno do corpo, e lá se vai num passeio pelo campo ou até à estação, ou. se senta num banco defronte à porta da igreja. E aí queda-se, imóvel; os que passam dirigem-lhe um cumprimento, mas ele não responde; como sempre, detesta os mu­jiques. Se alguém lhe dirige uma pergunta, responde com educação e bom senso, mas em curtas palavras.

As tagarelices de aldeia já espalharam que a nora o havia expulsado de sua própria casa e não lhe dava nem o que comer e que agora o sustentava a caridade alheia; alguns rejubilavam-se com isso, outros o de­ploravam.

Várvara engordava e se tornava mais pálida, e continuava nas suas acçoes caridosas, com as quais não se metia Àxínia. Havia tanta geleia agora, que não se conseguia comer toda antes de chegar a re­messa seguinte; açucarava, e Várvara, não sabendo o que fazer com ela, dava para chorar.

Já começavam a esquecer Anisim, quando um belo dia chegou uma carta sua, escrita em verso numa vasta folha de papel de requerimento e na mesma maravilhosa caligrafia de antigamente. Por aí se concluía que Samarodov pagava por seus crimes na mesma prisão. Em baixo dos versos, escrito com uma letra horrível, dificilmente decifrável, vi­nha este apelo: "Estou mal, sou um desgraçado; mandem-me ajuda, pelo amor de Deus!"

Um dia — era uma radiosa tarde de outono — estava o velho Tzibukin sentado diante da igreja com a gola do casacão levantada, de forma que só lhe eram visíveis a ponta do nariz e a aba do boné. No outro extremo do banco estava lelizarov e a seu lado mestre Yakov, um septuagenário desdentado. O "Muleta" e o mestre-escola, conversavam.

    Os moços devem suportar os velhos; honrar pai e mãe. — Yakov falava rancorosamente. — E aí tens uma nora que botou o sogro fora de sua própria casa. Há três dias que o j^obre velho não come nem bebe.  Que será dele?

    Há três dias? redarguiu o "Muleta" espantado.

    Ali está sentado, sem abrir a boca; fica cada vez mais fraco. Por que se mantém calado ? Devia queixar-se à justiça… ela seria chamada à ordem.

    Por que meter a justiça contra ela? perguntou o "Muleta", sem ouvir.

    Que dizes?

    A mulher é como convém, é enérgica; não se poderá levar avante o negócio deles sem… diga-se, sem fraude.

    De sua própria casa… continuou Yakov, ainda mais irado. — Construir uma casa e depois ser posto fora dela, pensa um pouco o que é isto! Raio que a parta!

Tzibukin escutava sem se mexer.

—  Sua própria casa ou outra qualquer, é a mesma coisa, desde que seja bem qucntinha e as mulheres não vivam de mau humor, — sentenciou o "Muleta" com um sorriso. — Quando eu era jovem muito cho­rei a minha Nastásia; ela era tão carinhosa e vivia a dizer: "Makaritch, compra uma casa; Makaritch, compra um cavalo". E, à porta da morte, ainda dizia: "Makaritch, compra uma pequena drochki, para teu uso; assim não precisaras andar". E a única coisa que comprei para ela foi pão com gen-gibre.

— O marido é surdo e cretino, prosseguiu Yakov, sem dar ouvidos ao "Muleta". — Tão estúpido que não é melhor do que um ganso. Lá pode ele enten­der alguma coisa? Dá uma bengalada na cabeça de um ganso, e ele continuará na mesma, sem compre­ender.

"Muleta" levantou-se para dirigir-se à oficina, Yakov pôs-se também de pé, e afastaram-se ainda a conversar. Quando tinham dado cerca de quinze passos, o velho Tzibukin ergueu-se igualmente e, vacilante, como se caminhasse sobre gelo escorrega­dio, seguiu-os. Descia o crepúsculo sobre a aldeia; os derradeiros raios do sol ainda brilhavam no alto da estrada; uma velhinha e algumas crianças volta­vam da floresta carregando cestos de cogumelos amarelos e pardos. Mulheres e moças em multidão transportavam tijolos para a estrada de ferro; todas tinham o nariz e as faces cobertas de pó vermelho dos tijolos e cantavam durante o caminho. À frente marchava Lipa, cantando com sua voz esganiçada, olhando o céu com uma expressão de entusiasmo e triunfo, porque o dia, graças a Deus, havia terminado e agora iam descansar. Sua mãe, Praskóvia, estava também na turba; carregava um pequeno vo­lume e estava quase sem respiração.

     Boa noite, Makaritch, disse Lipa, procurando fazer-se vista pelo "Muleta". Boa noite, meu pombo!

     Boa noite, Lipinka! respondeu "Muleta", con­tente por vê-la. — Mulheres, meninas, sejam amigas do rico carpinteiro! Ah, ah, ah! Minhas filhas, mi­nhas filhas — o "Muleta" deixou escapar um sus­piro — minhas queridinhas!

O "Muleta" e Yakov passaram adiante, sempre a conversar. Então o bando cruzou com o velho Tzi-bukin e houve um súbito silêncio. Lipa e Praskóvia atrasaram-se um pouco e quando o velhote passou por elas, Lipa inclinou-se profundamente e disse:

—  Boa noite, Petrovitch!

A mãe fez a mesma coisa. O velho parou e, sem responder, encarou a ambas; tremeram-lhe os lábios, os olhos encheram-se de lágrimas. Lipa retirou do embrulho que sua mãe levava um pouco de pirão e deu ao velho. Ele aceitou e pôs-se a comer.

O sol escondeu-se, seus últimos raios abandona­ram o topo da estrada; ficava escuro e frio; Lipa e Praskóvia seguiram estrada a fora, e muito tempo depois ainda se viam a fazer o "pelo sinal".

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