O mar – Alves Mendes

O M a r

Quantas emoções2), quantas idéias desperta em nós a contemplação do mar! Quando se avistam os seus horizontes diáfanos, quando se observam os seus movimentos constantes, quando se experimentam as suas tempestades desfeitas, quando se escutam os seus bramidos horíssonos, a alma oscila-nos, debate-se no calamo do sublime, fica absorta, extasiada; — porque o mar é o que existe de mais grandioso e formidando, de mais solene e soberbo em tôda a vastidão do planeta.

A transparência de sua superfície que parece um fragmento de céu e excede em brilho um cristal veneziano; o azul de suas aguas que assemelha uma liquefação de turquesas; a forforescên cia de suas ondas que recorda uma pulverização de diamantes; os raios intensos do sol, que lhe extrai faiscas de ouro e os refle: suaves da lua que lhe finge arabescos de prata; as suas fres brisas e as suas espumas referventes, as suas conchas nacarinas e as suas fulvas areias, as suas algas verdes e os seus róseos corais as suas cavernas esponjas e as suas plantas exquisitas, os se abismos insondáveis e os seus peixes variadíssimos; e depois as suas cerrações medonhas e as suas borrascas furibundas, as sua restingas traiçoeiras e os seus naufrágios tremendos, os urros do vagalhão que esbraveja e arrebenta em serras, e os gritos da ma ruja que se lhe afunda e sepulta nas voragens; e, por sôbre tudo isto, a imensidade, a uniformidade, o infinito, tocando-se, continuan do-se, confundindo-se, perdendo-o naquelas intermináveis amplidões oh! o mar é na, vida da natureza o que melhor define e mais se aproxima à vida do espírito: é por suas inspirações e grandezas e contrastes e tragédias, o que melhor caracteriza e mais se apropriai aos sonhos da fantasia, aos matizes do sentimento, às profundida­des da idéia, aos estos do desejo, aos apertos da dor, aos repelões da desgraça, à poesia e à ciência, à saúde e à esperança do homem.

Assim se explica e compreende porque o mar tem sido sempre o grande fator da história, o grande impulsor e condutor da civi­lização humana.

Nele se remiraram as cultíssimas cidades asiáticas, egípcias e gregas, que foram o lustre e o mimo dos povos antigos. Por êle peregrinou Homero repetindo os seus imortais hexâmetros, jun­to dêle discorreu Platão [1]) pronunciando os seus diálogos divinos. As suas vozes sonoras adestraram a língua de Demóstenes 3) e as suas tépidas virações afinaram a harpa de Davi. A crina das suas vagas serviu de fundo ao teatro de Esquilo [2]), de mortalha ao cor­po de Safo [3]) e de alfombra as procissões helénicas. Suas praias loirejantes cantou Virgílio (i) como um profeta, e nas suas

ribas contornadas pregou Jesus Cristo como um Deus. Por cima do mar esteiraram os apóstolos para evangelizar as gentes; á beira- mar foi escrito o Apocalipse, e nas celagens do mar viu o discípulo \ amado desenhar-se a imagem da Virgem pura. Em frente ao mar concebeu o Dante [4]) os mais excelsos tercetos da sua genial epo­péia católica, e tracejou Camões s) as mais harmoniosas estâncias do seu colossal poema, da navegação oceânica. Do anilado seio do mar surgiu aos olhos do Gama[5]) a misteriosa Ásia recingida de brocados e coalhada de pérolas, e aos olhos de Colombo a jovem América rescendente de perfumes e toucada de brilhantes. Das entranhas palpitantes do mar nasceu a romântica Veneza; e no Lido de Veneza, à hora melancólica do sol-pôsto, ao toque cadencioso do Angelus, até o vulcânico poeta, da dúvida, da desesperança e da orgia, até o próprio Byron [6]) — belo e pervertido como Satã — tomado de delíquios celestes, caiu arroubadamente em joelhos, chorou, orou, e, através das lágrimas e das preces, êle o incrédulo, êle o sensualista, contemplou a Mãe do Verbo, adorou a mulher san- ta, que se lhe estampava na retina extasiada, deslizando-se sôbre as águas do mar, aureolada pelas púrpuras do ocaso, envolta em cerúleo manto, seguida da cândida pomba, com as mãos postas no seio extremoso, como quem avocando a si todos os mortais, todos os filhos seus, que àquela hora bendita do amor, lhe estendiam os corações esbraseados e os braços suplicantes, desde os escolhos do Adriático aos areiais do Gôlfõ Pérsico, dos areiais do Gôlfo Pérsico às ilhas do Oceano Pacífico, das ilhas do Oceano Pacífico às florestas do Novo Mundo, das florestas do Novo Mundo aos desertos da Líbia, a partir das nações do ocidente e a seguir pela Itália, pela Grécia,, pelo Egito, pela Síria, pela índia, pela China, pela Oceânia[7]), pelas duas Américas e pelas colônias européias -formando de tribo a tribo, de região a região, um côro de eternas orações, circuitando gloriosamente o planeta num zodíaco de crenças rutilantes, de perenes e dulcíssimas harmonias.

Alves Mendes.

(Antonio Alves Mendes da Silva Ribeiro, 1838-1904)

Fonte: Seleta em Prosa e Verso dos melhores autores brasileiros e portugueses por Alfredo Clemente Pinto. (1883) 53ª edição. Livraria Selbach.


[1] Platão — grande filósofo grego (429-347 a. J. Cr.).

[2] Ésquilo — (556-425 a. J. Cr.) o criador da tragédia grega, um

dos maiores génios da humanidade.

[3] safo — (sec. T-6V a. de J. Cr.) poetisa grega.

[4] Dante Allighieri — o maior poeta da Itália (1265-1343).

[5] Gama — Vasco da Gama, o descobridor do caminho marítimo das índias (1469-1524).

[6] Byron — (pronuncia-se Bairon), grande poeta inglês (1788 -1824).

[7] Oceânia, pronuncia preferível a Oceania.

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