O pajem da Rainha
O PAJEM DA RAÍNHA
Teve a rainha Santa Isabel um pajem ou criado de câmara, que servia de seu esmoler, e outras obras pias e caritativas em que a santa rainha de contínuo se ocupava; era este moço de boas partes, que foi a herança que seu pai lhe deixou, segundo conta Henrique Gran, que estando para morrer lhe disse:
— Filho, a melhor herança que te posso deixar é dar-te este conselho; que sejas muito virtuoso e que ouças cada dia missa inteira e sejas muito devoto da Virgem Nossa Senhora.
Estas e outras cousas santas lhe encomendou. Neste tempo tinha el-rei Dom Diniz outro pajem muito seu privado e querido; este vendo a privança que o outro tinha com a rainha, por inveja e por mais cair em graça del-rei, determinou de lhe levantar um falso testemunho e pô-lo em mal com el-rei; e foi este que afirmou que a rainha tinha uma afeição má; como o rei vivia não mui honestamente, pouco bastou logo para lhe dar crédito, e assi dali por diante andava pensativo, triste, melancolizado, vivendo com muita desconfiança da rainha pelo que seu pajem lhe tinha dito, determinou de o matar secretamente, e saindo aquele dia a passear, passou por onde estavam ardendo uns fornos de cal, e chamando de parte os homens que neles trabalhavam, lhes mandou que a um criado da câmara que êle enviaria com um recado: se tinham feito o que el-rei lhe tinha mandado? — o arrebatassem logo e o lançassem dentro do forno para que assi se fi zesse em pó e em cinza, porque assi convinha ao seu serviço.
Ao outro dia pela manhã mandou o pajem da rainha que fosse logo com este recado, para que os homens pusessem em execução o que lhes tinha mandado; mas Nosso Senhor, que nunca falta aos seus e acode aos inocentes, ordenou que em passan do este moço tangessem no mosteiro de S. Francisco (que estava em caminho) à missa, e entrando esteve-a ouvindo até o cabo, e ainda outras duas, que se começavam.
Neste tempo desejando el-rei saber se já era morto, mandou ao pajem da câmara (que era aquêle que o havia acusado, levantando-lhe o falso teste munho) e lhe disse:
— Vai aos fornos a saber se têm já feito o que mandei!
Foi dando o recado, arrebataram-no os homens e vivo o meteram no forno.
Neste tempo acabando o moço inocente e sem culpa de ouvir as missas, foi dar o recado que el-rei lhe tinha dito, se haviam feito o que sua Alteza lhes havia mandado, e dizendo eles — que si, se volveu com a resposta a El-rei, o qual vendo e considerando que havia acontecido este negocio ao revés de como êle havia mandado, e tornando-se ao pajem o começou a repreender, perguntando-lhe donde havia estado tanto tempo? Respondeu êle:
Senhor, indo a cumprir o mandado de Vossa Alteza, tangendo a Missa entrei dentro, e ouvi aquela missa até o cabo, e antes que aquela se acabasse começaram duas, e assi ouvi todas três até o cabo, porque assi mo encomendou meu pai e deixou l>or bênção, que todas as missas que visse começar estivesse a elas até o fim.
Então viu el-rei por este juízo de Deus as falsidades, e veio a cair na conta da verdade e a conhecer a inocência da santa rainha, e a fidelidade e virtude do criado, e assi lançou a má imaginação que trazia contra a rainha.
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Padre Francisco Saraiva de Sousa, Báculo pastoral de flores de exemplos colhidos de varia e authentica historia espiritual sobre a Doutrina Christã, Officina de Antonio Pedroso Galrão, Lisboa, 1657, 1, 148. Há um resumo clareado por Teófilo Braga, Contos Tradicionais do Povo Portuguez, II, 174, edição de 1883.
Puymaigre, analisando o livro de Lecoy de la Marche, Anecdotes historiques, legendes et apologues tirés du recueil inédit d’Etienne de Bourbon, Paris, 1881, comentou o tema do exemplo acima transcrito. Etienne de Bourban era dominicano e contemporâneo de Luis IX, São Luis de França, 1215-1270. Já encontrou popular a lenda, registando-a, talqualmente a conhecemos. Schiller aproveitou-a numa balada famosa, Der Gang nach dem, Eisenhammer, onde um pajem do conde de Saverne, invejado por seu companheiro Roberto, é mandado perguntar a uns ferreiros se já cumpriram as ordens do senhor, senha para ser arrojado aos fornos. Fridolino, o pajem, fica ouvindo uma missa e Ro-
berto, impaciente, vai perguntar aos ferreiro o destino da ordem comital, sofrendo castigo me recido. Gastão Paris estudou o conto, desde sua origem oriental até a multiplicação temática euro peia, Romania, tomo V, 254. Em Portugal, in forma Puymaigre, o assunto é tratado por Fran cisco da Fonseca Benevides, Beynas de Portugal, 1, 178, e Gonçalo Fernandes Trancoso, no século XVI, incluiu-o no seu Os tres conselhos. O mot domo-mor, caluniado, leva a carta de Urias, como a chamamos, e será enforcado pelo destinatário. Cumprindo um conselho, dorme onde a noite o alcançou e um preto, que o hospedara, substi tuiu-o, entregando a missiva e sendo justiçado. Ocorre ainda na Historia de la vida, muerte. milagros, coronacion y trasladou de santa Isabel, sexta reina de Portugal, por dom Fer nando Correa de Lacerda, Lisboa, 1680. O avô materno del-rei dom Dinis, Afonso X de Castela e Leão, o Sabio, (cant. 78) já contara o facto no seu Cantigas o looreos y milagros de Nuestra Senora, relatando-o como de um conde de To losa. Timoneda, do tempo de Fernandes Trancoso, registou-a no Patranuelo, XVII. Uma das fontes incontestadas é o Katha-Sarit- Sa gara, Somadeva-Batta, Ocean of the streams of Story, reunião de lendas, mitos e tradições indianas. Emanuel Cosquin, Estudes Folklorique s(recherches sur la migrations des contes populaires et leur point de départ). Paris, 1922, 75>, igualmente regista, dando um elemento para 0 Motif-Index of Folk-Literature, do prof. Stith Thompson, J 21.17, Stay at church untill mass is finished, IV, 15. (CASCUDO)
Fonte: Os melhores contos Populares de Portugal. Org. de Câmara Cascudo. Dois Mundos Editora.
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